sábado, junho 20, 2020

A Igreja do relacional

O artigo era duro de ler. Tentei diminuir-lhe o tamanho no coração. Falava de alguns padres que, por desespero, tinham perdido a força de viver. Dava exemplos concretos, usava nomes concretos, tratava números e dados concretos. Dizia que a vida religiosa não dava superpoderes aos padres e que em muitos casos a fé não era forte o suficiente para superar momentos difíceis. Excesso de trabalho, falta de lazer, perda de motivação. O grau de exigência enorme. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade. Qualquer deslize, por menor, que seja, torna-se alvo da multidão que vive para apontar dez dedos aos outros. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes, pelos visto, têm de estar sempre prontos e com sorrisos rasgados. 
Os padres não deviam estar sozinhos. Pelo menos não deviam fazer a vida sozinhos. O comum das pessoas tem, habitualmente, o lado da vida mais profissional e o lado mais relacional. Quando um comum cristão chega a casa do seu emprego, desliga o interruptor do emprego e liga o interruptor do relacional mais próximo. Nós, padres, chegamos a casa, e mantemos o interruptor do profissional sem relacional. Somos profissionais do sagrado sem segundos para o não ser. Falta-nos sermos ou sentirmo-nos comuns cristãos. Não me parece que baste o alimento espiritual dos padres. Na minha modesta opinião, é necessário reorganizarmo-nos como Igreja. Enquanto a vida das comunidades se centrar nos padres, eles não serão apenas mais um membro da comunidade, ainda que com grandes responsabilidades. Serão sempre o foco da comunidade. O alvo. Por isso as pessoas quando falam da comunidade falam dele, pensam nele, apontam para ele. Por isso gosto pouco desta Igreja que deposita no clero a essência do caminho da fé, mesmo que seja feito em comunidade. E sonho com uma Igreja que abraça todos em caminho. Uma verdadeira comunidade onde o relacional esteja acima do doutrinal, do funcional, e até do sacramental. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o 'tem de'"

terça-feira, junho 16, 2020

a verdade anda cada vez mais longe da verdade

Uma das minhas paroquianas é uma assídua frequentadora da net, sobretudo redes sociais, na procura constante por respostas de fé e respostas espirituais. De vez em quando partilha comigo, num gesto muito amigo, interessado e verdadeiramente generoso. O problema é que 80% dessas partilhas, no que se refere a artigos de opinião, são partilhas sem triagens, seja no que se refere a fake-news, seja no que se refere à influência ou ideologia que está por detrás dos textos. E, infelizmente, a presença dos ultra-conservadores na internet, sobretudo nas redes sociais, é muito prolífera. Como diria o outro, são poucos mas gritam muito alto. Talvez porque necessitem de se fazer ouvir. Mas é só um talvez. 
O último texto que partilhou comigo, ainda há pouco, era de um site que tem por nome algo do género “Missa Tridentina”. Creio que ela não sabe a que se refere a missa tridentina ou o Concílio de Trento. Nem sabe como distinguir ideologias no seio da Igreja. Por isso não a recrimino. Procuro ajudá-la a fazer as interpretações, distâncias, entendimentos e pronunciamentos devidos. A saber ler para além das linhas ou das palavras. Nas entrelinhas. Com isenção suficiente para formar uma opinião ou opção sólida. Mas nisto, lembrei tantos cristãos que, diariamente, recebem conteúdos, mesmo religiosos, mesmo cristãos, mesmo católicos, sem saber ler ou sem ter o código de leitura adequado para os ler. E assim a verdade anda cada vez mais longe da verdade!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amizades especiais"

domingo, junho 14, 2020

o gesto [poema 265]

Ainda não sei abraçar o gesto
Fazer o sinal da cruz em cima dele
A lâmina passa e é cortante,
O sangue debruça-se sobre mim
Não sei mesmo como nasce o gesto
Como se tece ou como cresce.
Passo um lápis na tua memória
O gesto que se escreve em dois traços
O gesto que desenha um abraço
A nossa cruz

quinta-feira, junho 11, 2020

A importância da eucaristia

Não sei muito bem o que dizer de pessoas que consomem missas. Que vão a todas as que conseguem, mesmo que depois a sua vida ande longe delas. A uma distância de coração. Também não sei que dizer das pessoas que vão quando lhes ocorre, quase como quando lhes apetece sair para tomar um café, um chá ou um gelado. Nem sei que dizer daqueloutras que tanto dá irem como não irem, mas que vão porque se habituaram a fazer do domingo um dia em que vestem uma roupa melhorada e vão à missa. 
Não sei catalogar a fé, e não devo catalogá-la. Muito menos as pessoas. Mas estes tempos têm-me feito reflectir nestas coisas. Elas veem a mim, junto com as pessoas. Não há como fazer de conta que não penso nisto e não me inquieta. É que, ainda por cima, estes tempos de confinamento sem missas comunitárias presenciais, trouxeram à tona algumas debilidades. Sei que muita gente gastou muito mais tempo a rezar do que habitualmente fazia. Sei que muita gente buscou Deus até com mais intensidade e empenho. Sei que muita gente esteve diante de um ecran a ver missas. Mas agora que voltamos a ter a oportunidade de celebrar juntos, de celebrar em comunidade, verifica-se que uma grande percentagem dos nossos paroquianos ainda anda um pouco à deriva. Há quem faça tudo para ir à missa. Mas também há quem não faça nada. Há quem tenha receios reais de ir à missa, mas não se evite de ir ao café ou de estar em algum aglomerado de pessoas, mesmo sem máscaras. E as nossas igrejas cumprem mais regras de segurança que a maioria dos outros espaços sociais. Há quem faça uma vida diária quase normal, mas não tenha qualquer preocupação em ir à missa. Como se ela fosse apenas algo secundário ou um passatempo. 
Sabem o que me parece? Das duas uma. Ou se tornou mais fácil assistir à missa que celebrá-la, ou a eucaristia não tem importância suficiente na vida das pessoas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Queres ficar à missa?"

segunda-feira, junho 08, 2020

máscara [poema 264]

Tiraram-te o sorriso
Que eras tu por inteiro.

Até nos olhos se vê
O que se perdeu primeiro...

E o que passa
É a vida que anda
sem se mover

E o que doi
É a dor que mata
sem se morrer.

sábado, junho 06, 2020

corrida [poema 263]

Gosto de observar o tempo das coisas
Vê-lo a passar,
Vê-las a correr
Voraz e frenéticamente, em busca
Do tempo que passa
ao vê-las correr

quarta-feira, junho 03, 2020

Onde esteve a Igreja nestes tempos

A Clara é uma senhora de meia idade. Diz-me que a sua fé também anda na meia idade. Ela quer amadurecer a sua fé, mas acha que ainda tem mais de metade do caminho por andar. E nestes tempos, disse-me, perdeu-se um pouco, porque buscava e o que encontrava, sobretudo na net, era quase sempre de fraca profundidade. Ela não se contentava com mais do mesmo, ou com abordagens que não iam ao amago do essencial. Viu muita coisa que, na sua opinião, só infantilizava ainda mais os crentes. Por isso me fez a pergunta sobre onde estivera a verdadeira Igreja nestes tempos de confinamento. 
A minha resposta estava na ponta da língua, porque muito reflectida e meditada por estes dias. A Igreja destes tempos esteve e continua a estar no coração de cada crente. Assim como Deus. Ele está por todo o lado, é certo. Está nas nossas igrejas que estiveram fechadas. Está na rua e nos acontecimentos. Está nas casas das pessoas. Até está nas muitas manifestações que ela quase chamou de medíocres. Mas onde Ele quer estar deveras é no coração de cada um. E é aí que a Igreja começa por se construir, por ganhar raízes, por se nutrir. A comunidade cristã é imprescindível para o itinerário de fé. Mas a fé é uma razão do nosso interior. Por isso a verdadeira Igreja está onde sempre tem estado, no coração de cada crente. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja da senhora Alcinda"

segunda-feira, junho 01, 2020

O meu banco de jardim [poema 262]

Há um banco de jardim
Com uma porta, uma cama e uma mesa
De cetim

Nunca sai do lugar onde nasceu
Na sombra dos dias, coberto por um sombreiro
no patamar do céu

Tem as letras do meu nome
A marca do que é meu

Tem o lugar principal do jardim
É a princesa com quem vou casar
É a casa onde moro
Em mim

quinta-feira, maio 28, 2020

Agora só vão as beatas

Como referia Rino Fisichella há uns dias, a fé precisa dos sentidos. O homem é feito para o relacionamento e isto é ainda mais verdadeiro para a dimensão da fé cristã. Obviamente que vivemos uma época adversa a esta realidade e somos obrigados a viver confinados e a guardar distâncias. Contudo, a distância não pode ser o futuro da existência pessoal ou da fé. 
Falo destas coisas porque ouvi dois paroquianos que me fizeram pensar. Falaram comigo em horas e contextos diferentes e disseram-me quase o mesmo, também de maneira diferente, perante o retomar previsto das celebrações comunitárias. O primeiro, homem, com alguma formação, humana e cristã, depois de ter lido as muitas orientações e regras a cuidar, disse que era melhor ficar em casa e assistir à missa da televisão. O segundo paroquiano era uma mulher, talvez com menos formação, mas pessoa de missa dominical. Em amena cavaqueira foi dizendo que agora quem ia à missa eram só as beatas. E que ela não ia, pois preferia ver a missa em casa. 
Claro que entendo a reação própria do receio. Eu também tenho os meus receios. Mas ouvir estas coisas ditas com tanta naturalidade e facilidade, só veio reforçar a ideia que tenho vindo a ter de que tanta multiplicação de missas nos meios de comunicação social e virtual pode ter confundido as pessoas. Numa sociedade que já privilegiava, por si mesma, o individualismo, pode ter-se reforçado a ideia de que a nossa fé pode ser uma coisa privada, sem comunidade, uma vivência privada, sem relacção.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As missas ou missinhas"

terça-feira, maio 26, 2020

Rezar com eles

Ontem à noite descansei do meu confinamento para ir a um bairro da paróquia rezar com alguns paroquianos. Soube, por uma das senhoras que ali habita, que todos os dias deste mês de maio, às vinte e uma horas, uma das vizinhas colocava uma imagem de Nossa Senhora de Fátima num pequeno patamar de um parque que o bairro tem, com vela acesa, uma jarra com flores e um terço ao pescoço. Os vizinhos vão chegando e, com as devidas distâncias, rezam o terço em conjunto. Sei que há mais bairros da paróquia a fazê-lo, de modo muito parecido mas em outros horários. Ontem estavam umas dez pessoas. Mais eu, que cheguei sem avisar. Foi uma alegria. Rezei com eles. Ainda me pediram para presidir. Não. Tinha ido rezar com eles. E assim foi. Muito bonita a noite com as luzes dos candeeiros e uma estrela no céu a cintilar. Foi retemperador. 
Afinal, também há e houve coisas lindas a nascer nestes tempos de pandemia, mesmo em termos de fé. Estes grupos que, por si mesmo, se reuniram a rezar, são dom de Deus que prova que a Igreja é muito mais do que aquilo a que estamos habituados.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é a minha arma"

domingo, maio 24, 2020

Subir ao céu em corpo e alma

A Joana, que é catequista, comentava que a Ascenção era Jesus a subir ao céu em corpo e alma. Acenei na sua direcção e fiz do meu dedo indicador um metrónomo, de um lado para o outro, a dizer que não. Ficou intrigada e curiosa ao mesmo tempo e, por isso, pediu-me que lhe explicasse o que queria dizer com o meu dedo a acenar. Aprendera assim e era assim que ensinava aos meninos. 
Comecei por lhe dizer que não fazia mal em explicar assim aos meninos, porque para podermos falar de Deus, que não vemos, temos de usar a nossa linguagem e aquilo que conhecemos. 
No entanto, há que dizer que esta festa tem sido mal entendida por muita gente e, nesse sentido, alguns teólogos nem lhe apreciam o nome. Dizem que o termo “ascensão” não é o mais correcto porque evoca a categoria de espaço físico. 
Jesus ressuscitado não subiu nem podia subir ao céu no sentido literal da palavra. Aliás, a sua corporeidade já não era como antes de ter morrido. Não era um fantasma, mas o seu corpo não tinha explicação. Por isso é que os seus não o reconheceram logo, como referem os evangelhos. Não poderia, portanto, ter subido em corpo para o céu. Além disso, Deus também não vive num “espaço” físico. O céu, mais que um “lugar”, é um “estado”, ou seja, uma forma de estar. Ora, para que a subida de Jesus ao céu não se confunda com a imagem de um astronauta ou um balão de hélio que sobe e desaparece no ar, estes teólogos preferem utilizar termos como “exaltação” ou “glorificação”. E têm razão! 
A Ascensão, na verdade, é a glorificação plena de Jesus Cristo. E se percebemos que o céu não é um espaço físico, mas é estar com Deus e em Deus, então percebemos melhor que, afinal, Jesus não nos abandonou. Continua connosco, ao nosso lado. Apenas nos precedeu para a glória de estar com o Pai e no Pai. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O céu e o inferno, parte I"

quinta-feira, maio 21, 2020

prantear [poema 261]

As carpideiras deixaram rastos
Nas grandes catedrais de betão
Entre os caminhos de terra gastos
Entre destroços do coração

Ó mulheres, que vida tão triste tendes
Chorar pelo que não é vosso, mas vos toca
Passa entre as mãos e os vossos terços
Que passais a correr,  de boca em boca

Levai vossos cântaros de água daqui
Para longe guiai essa dor que bramis
Lavai nos tanques a roupa que escureceis
Deixai que o luto mate quem vós matais

entre papeis

terça-feira, maio 19, 2020

asceta [poema 260]

Os homens que se olham parecem parados
Mas são estradas que entram neles
Vozes que crescem por dentro, no que são
Homens que crescem como sementes,
Plantadas no coração

domingo, maio 17, 2020

A caminhar se faz o caminho!

A primeira vez que a Valentina falou comigo estes dias foi para me segredar que estava sem rumo, perdida, cheia de medos, receios, dúvidas, angústias. Estava cheia de todas aquelas palavras que tentam definir o pânico. Não sabia que fazer. Não sabia nada de nada. Não estava bem. 
Fui-lhe respondendo que era normal termos receios, mas que não vermos para além deles, era o mesmo que tapar os olhos à luz que se procura no fundo do túnel. Até à presença de Deus que se pressente. Que o caminho a fazer era continuar a viver no meio das limitações... que, afinal, sempre existiram. Agora só nos parecem mais visíveis. E mais isto e mais aquilo, no sentido de apaziguar aquele coração e convidá-lo a fazer caminho. 
Não passaram vinte e quatro horas quando a Valentina me contactou para me dizer que se estava a fazer luz na sua vida e fé, embora com dificuldades. É isso, respondi. O caminho faz-se caminhando, sem certezas que não seja fazer o caminho, mesmo caindo, mesmo voltando um pouco atrás, mesmo com vontade em desistir, mesmo com obstáculos a ultrapassar. O importante na fé não são as certezas, mas o caminho! força... a todos os que se chamam, por estes dias, de Valentina. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padres que não sabem que caminham"

sexta-feira, maio 15, 2020

meu mar [poema 259]

Voltaste com a água do mar, numa onda
Salgada e fria
O teu beijo entrou pelos pés
E devagarinho foi preenchendo o vazio do meu corpo
Seco, fechado e frio
Ficámos entrelaçados ao entardecer, da vida
Olhando o que fora a nossa história, dentro
Um do outro
Voltaste na onda de espuma, mergulhei em ti
Foste e regressaste, depois de mergulhar em mim
Eras minha e eras de quem morasse à beira-mar
Eras todas as ondas, eras o mar
A entrar por mim adentro
Docemente

Um beijo quente

quarta-feira, maio 13, 2020

A Igreja que faz o mesmo de sempre

Temos continuado, nestes tempos de pandemia, a fabricar uma Igreja centrada no padre, ou seja, clerical, e nos sacramentos, nomeadamente a missa, ou seja, sacramentalizadora. Com tudo o que isso tem de bom e de preocupante. Chegamos a transformar o meio num fim. Abusamos um pouco multiplicando celebrações e sinais de que, com boas intenções, conseguimos transformar o invisível e escondido das nossas igrejas fechadas, vazias e silenciadas, num certo produto de consumo e num certo proselitismo, ainda que inconsciente. O objectivo parece passar por mantermos as gentes e os crentes connosco. Com a Igreja dos padres. E nós funcionamos, mesmo sem querer, como funcionários de uma Igreja aparentemente aberta, mas realmente fechada. Ou seja, uma Igreja com cheiro a mofo, porque fechada, e em ruínas, porque não tem crentes. 
É o problema de sempre na Igreja dos últimos tempos, aquele para o qual o Papa Francisco tanto tem alertado. É o problema de uma Igreja em constante manutenção. Conservando-se. Fazendo o mesmo de sempre, embora com novos meios.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O papa e os padres"

segunda-feira, maio 11, 2020

Na tua opinião, como é que Igreja Católica tem procedido, em termos sanitários, e como Igreja diante da pandemia do Covid-19?

Na última sondagem, colocada online a 22 de fevereiro, fazíamos a pergunta: "Acreditas na vida eterna?". Já nessa altura se começava a ouvir falar da pandemia causada pelo Covid-19. Por isso a sondagem ganhava maior sentido. Deixamos os resultados: 


Hoje, em tempos de confinamento e de contingências diversas, mesmo ao nível da Igreja, propomos duas novas sondagens, em simultaneo, uma que se refere ao modo como a Igreja Católica portuguesa tem lidado, em termos sanitários, com a pandemia, e outra que tem a ver com o modo como tem procurado ser Igreja:
1. "Na tua opinião, como tem a Igreja Católica portuguesa lidado com a pandemia do covid-19 em termos sanitários?"
2. "Na tua opinião, o modo como a Igreja tem procurado ser Igreja nestes tempos de contingência tem sido.."

Agradecemos a justificação das vossas opiniões, que poderão ser muito úteis. Aliás, era interessante perceber como tem sido nas vossas comunidades cristãs.

Pedimos desculpa pelo facto de, inicialmente, termos proposto apenas uma sondagem que, de certo modo, induzia em erro.

domingo, maio 10, 2020

Amo-te sem saber [poema 258]

Amo-te, mesmo sem te ver
No sol que de dia me encandeia
E de noite me canso a buscar em ti

Amo-te, mesmo sem te tocar
No vento que sopra por mim adentro
Na água que em minha mão desaparece
Depois de me refrescar

Amo-te, sem entender porque te amo
Nos espinhos da minha casa a crescer
Naquele sangue que do teu peito
Cai no meu, fica a escorrer

Amo-te porque te procuro
E te encontro, sem o saber,
com o coração.

sexta-feira, maio 08, 2020

anónimos [poema 257]

Não te sei o nome, ou se o tens
Não te sei dizer
No rosto, mala onde guardas os pertences
Também não te sei o rosto, ou se o tens
No vidro que me parece um espelho
Onde guardamos as vidas dos dois
Não te sei perder
Também não te sei os pertences, ou se pertences
Ao sofrimento que se diz em milhões
A morrer

quarta-feira, maio 06, 2020

As igrejas vazias e fechadas

Sabemos que em todo o mundo, nestes tempos de crise, as igrejas estão vazias e fechadas. Podemos imaginá-las. Cheias de pó. Com cheiro a mofo das chuvas e do calor que se começa a sentir. A precisar de arejar. Sair das quatro paredes em que se seguram. Não é nada que não tivéssemos já imaginado. O vírus veio só apressar a imaginação. Aliás, em alguns países, isso já foi ocorrendo. Igrejas, seminários, mosteiros, casas paroquiais a esvaziarem-se. A perderem o nome. A silenciarem-se. 
Li há dias em Tomáš Halík que, quando a Igreja medieval fez um uso excessivo de proibições e sanções, levando a máquina eclesial a uma espécie de “greve geral”, sem celebrações e sacramentos, as pessoas começaram a procurar mais a relação pessoal com Deus, uma “fé nua”. Teve ali, de certo modo, o nascimento da mística espanhola, a quem muito devemos hoje na mística e na contemplação. 
Talvez tenhamos agora a oportunidade de encher as nossas igrejas vazias com as portas abertas a um modo de estar mais verdadeiro, mais interior. Mais silencioso e, ao mesmo tempo, mais vivo e verdadeiro. Talvez tenhamos agora a oportunidade de ir ao centro do Evangelho, fazer uma viagem ao interior da nossa fé despida, e revisitar a Igreja que está em todo o lado e é muito humana e doméstica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Deus não quer a nossa religiosidade"

segunda-feira, maio 04, 2020

Funerais a fugir

São os funerais de hoje. É o que tenho sentido em cada funeral que tenho presidido durante este período de contingência. No cemitério. Distantes uns dos outros. Com máscaras e outras protecções. Pouquíssimas pessoas. Familiares que nem podem ir. Amigos, só se a família for muito reduzida. Chora-se para dentro. Chora-se mais, mas para dentro. É o desespero de não ter espaço e tempo para chorar.
Ainda me recordo do primeiro funeral. Precisei de um minuto para me recompor e limpar as lágrimas. Recordo de modo especial o funeral de um jovem de dezoito anos. Chorei do início ao fim, em solavancos com as palavras. Não consegui aguentar a máscara. Não consegui limpar os olhos. Não consegui senão manifestar que estávamos unidos até neste não saber como fazer e sofrer.
Habitualmente tardo uns quinze minutos. Depende um pouco. Tento dar dignidade à celebração. Pelo menos tento. Ela é digna por si mesma. Vale pela presença de Deus e não pela presença das pessoas, em multidão. Não vale pelo que digo, mas pelo que Deus diz. Mas fico sempre com a sensação de que toda a gente quer sair dali o mais depressa possível. Toda a gente tem pressa. Dizem-me os cangalheiros. Demore pouco, padre. A família olha para mim a ver a hora em que termina o desconsolo. Os senhores da funerária querem ir desinfectar-se para casa. Para mim é tudo muito estranho. Depois da leitura do evangelho, partilho umas palavras. Mas soam-me a palavras que sobram. Nalgumas ocasiões pelo menos. Rezamos. Estamos. Unimo-nos. Mas tudo parece correr. Tudo parece ser a fugir. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os funerais Covid"

domingo, maio 03, 2020

brincar às casas [poema 256]

As casas viviam a empurrar as horas
Serviam-nas a desaparecer

Por cada hora empurrada
Uma hora a morrer

Os telhados eram toldos de feira
De circo a viver

Nas paredes cresciam silvas
Subiam e desciam para se esconder

As janelas eram olhos enormes
Sem ver

Não havia portas
Para escrever.

E as casas morriam nas horas
Em vez de ser.

sexta-feira, maio 01, 2020

A Igreja que está aí

A pandemia do coronavírus fez com que as celebrações religiosas passassem a ser recebidas através dos meios de comunicação social e virtual. A Igreja passou a viver e a expressar-se nestes meios. Mas esta não é a Igreja. Esta é a Igreja de uma situação difícil. A Igreja, por si mesma é uma comunidade real. É o Povo de Deus que caminha no acto da fé e do seu amadurecimento, no acto da caridade e do testemunho, no acto da Palavra e dos sacramentos. 
É verdade que a Igreja vive à volta dos sacramentos, e especialmente do sacramento da eucaristia, fonte e cume da vida cristã. Mas não depende exclusivamente deles. Ela depende do Senhor Deus. Por isso também pode viver sem eles. Não pode é banalizá-los ou dar a ideia - demasiado clerical, por sinal – que, sem eles, não há forma de se alimentar, celebrar e viver a fé. Se já antes muitos dos nossos sacramentos perdiam alguma autenticidade, porque ausentes de fé, agora esse risco aumentou. Tanto que o Papa Francisco, na homilia da Missa na Casa Santa Marta de 17 de abril, sublinhou este risco de viver a comunhão eclesial apenas de modo virtual. 
Os sacramentos valem por si, mesmo à distância. Há uma certa presença, embora virtual, através destes meios de comunicação social e virtual. Não são falsos, mas também não são a realidade, mesmo que a reproduzam muito bem. 
Talvez a pastoral das nossas comunidades, nestes tempos de contingência, se tenha vindo a centrar em demasia na celebração eucarística, absorvendo muitas das nossas energias, salientando o quantitativo, em detrimento do serviço da Palavra, da formação e, nalguns casos, da caridade. Talvez seja um hábito que vem de trás. E talvez seja este o salto que a Igreja que está para vir deveria fazer. O salto de uma Igreja sacramentalizadora para uma Igreja missionária, de uma Igreja eclesiocêntrica para uma Igreja cristocêntrica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Gostava de fechar a minha Igreja.

quarta-feira, abril 29, 2020

Crisálida [poema 255]

A Crisálida não tinha nome
Era uma boneca de sonho feita em papel
De cor muito amarelada, macilenta,
apagada
À procura de cor

Fora tecida em noites negras de breu,
Com pedaços de chuva
sem cor
a descer do céu

Parecia ferida, certamente magoada
Não tinha cor, não tinha cara,
Não tinha nada de nada

Era uma boneca sem vida, presa em papel
Sem cor e articulada.
Do sonho acordou, pelo céu fugiu,
por mim voou,
E em arco-íris

se transformou.

segunda-feira, abril 27, 2020

A Igreja que está para vir

Há um abalo em tudo à nossa volta. Mesmo na Igreja. Tanto no seu todo como na sua hierarquia. Faço figas, porém, para que seja um abalo positivo. Rezo todos os dias com essa intenção. E há, de facto, algo positivo que tenho vindo a descobrir. Cresce pouco a pouco, mas cresce. É a "Igreja doméstica"! A Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. Uma Igreja que se reunia em casa e onde as celebrações eram presididas pelo dono do lar. 
O problema é que, ao longo dos tempos, o clero foi-se apoderando ou apropriando da Igreja e dos sacramentos, mesmo que o tenha feito sem intenção, transformando a Igreja de Cristo numa Igreja piramidal, vertical, clerical. E habituou os crentes a esse modelo. Um modelo de Igreja dependente dos bispos e dos seus padres. Por isso, talvez muitos crentes tenham perdido o foco e se tenham sentido algo desamparados nestes tempos de difícil acesso aos seus padres. Pelo menos o acesso presencial. 
É claro que precisamos de uma “ordem”, como dizia Anselmo Borges numa entrevista que me fez pensar. Por isso precisamos de ministros ordenados. Precisamos de “organizar”. Mas não podemos fazer depender deles a Igreja que é de Cristo e de todos.
Será que a Igreja que está para vir vai ser mais laical e menos clerical?! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"

sábado, abril 25, 2020

"Dia da Revolução"

Escrevem e dizem alguns que, depois deste furacão chamado coronavírus, a nossa vida não voltará a ser a mesma. Que está a ocorrer uma revolução viral. E falam muito de solidariedades, atenções, correntes de vizinhanças, gestos maravilhosos que vão ocorrendo por todo o lado e em todo o mundo. Dizem também que há menos poluição. Menos Co2. As águas mais limpas. Que, no plano climático, está a valer a pena. Que a natureza nos está a obrigar a rever o nosso estilo de vida. Que o capitalismo vai sofrer um desfalque. Que agora sentimos que precisamos uns dos outros e que os valores que nos têm guiado não são os valores que nos devem guiar. Que agora descobrimos que precisamos da ajuda de Deus porque sozinhos não nos bastamos. 
Mas… 
Li, há dias, no jornal espanhol “El Mundo”, que, em Espanha, na província espanhola de Cádis, onde um grupo de quase três dezenas de idosos tiveram de ser realojados pelo Governo depois de terem sido despejados de um lar por estarem infetados com a Covid-19, os veículos de transporte médico que transportavam os idosos foram apedrejados e um carro chegou mesmo a atravessar-se no caminho. Os populares receberam aqueles idosos com pedras e explosivos! 
Li também algures que alguns médicos e enfermeiros, no mesmo país, têm recebido missivas de vizinhos a pedir que se mudem para outras habitações longe deles, pelo risco que correm. 
Li ainda que num estudo realizado, durante os 6 dias com o maior número de mortes por coronavírus, no mesmo país, pelo Laboratório de Economia Comportamental (LoyolaBehLAB) da Universidade de Loyola, depois de terem oferecido vales de 100€ aos participantes, se verificou que estes fariam menos doações à medida que a pandemia aumentasse e houvesse uma maior exposição à ameaça do COVID-19. 
Por estas e por outras é que não sei se haverá alguma revolução viral. Até porque o vírus parece querer isolar-nos. E cada um parece preocupar-se mais com a sua sobrevivência que com a vida dos outros. Talvez nestes tempos haja uma preocupação maior pelos outros. Talvez nos lembremos mais dos que amamos. Talvez estejamos mais atentos às necessidades que ao nosso redor se encontram. 
Mas… 
Dizemos que é preciso uma revolução no mundo, e que pode ter chegado a hora dessa revolução… Que o maldito vírus veio fazer uma revolução entre nós. 
Mas a denominada revolução não está nas mãos do vírus. Ela está nas nossas mãos! 
Vivemos num mundo, numa criação, numa sociedade que nos foram dados por Deus, como dons, para nós administrarmos. Mas enquanto pensarmos que é o mundo, a criação e a sociedade que nos têm de servir, será difícil fazer desta “Casa Comum” um lugar melhor para se viver e, mais importante ainda, um lugar para conviver, isto, viver com 
A revolução não está nas mãos do vírus. Ela está nas nossas mãos! 
Hoje, dia 25 de abril de 2020, faço votos de que estejamos unidos na liberdade de poder fazer uma revolução… no nosso interior 

Este texto também foge um pouco ao estilo literário que gosto de usar neste espaço. 
Aliás, é um texto ampliado do que escrevera aqui
Mas achei que era uma partilha oportuna para fazer neste dia da "Revolução".

sexta-feira, abril 24, 2020

"oração cansada"

Estou tão cansado, Senhor.
E não é cansado de não fazer nada.
Não é cansado de estar em casa, em quarentena, mesmo sem poder estar com os meus amigos, com os meus colegas, com outros familiares.
Não é cansado de estar recolhido, entre quatro paredes, sozinho com os meus botões, com a televisão, ou com as redes sociais.
Estou aqui em casa, Senhor, a ver o mundo à minha volta a passar.
E estou cansado de esperar.
Estou cansado da ansiedade e da incerteza.
Estou cansado de ter medo e de estar em pânico.
Estou cansado deste estado de estar cansado.
Meu Senhor e Meu Deus, onde estás?! Porque não fazes nada?!

Meu filho, eu também estou cansado…
Naqueles que estão cansados de tantas decisões que têm de tomar e responsabilidades que têm de assumir;
Naqueles que estão cansados porque saem todos os dias de casa, arriscando a sua vida e a dos seus, para que não te falte o pão em casa;
Naqueles que estão cansados pelo desespero de ter perdido o emprego ou estarem em risco de o perder;
Naqueles que estão cansados de esperar uma mão que os ajude, que lhes dê alimento e pousada onde dormir;
Naqueles que estão cansados de sair de casa, ainda que voluntariamente, para cuidar de quem não tem quem cuide deles;
Naqueles que estão cansados de esperar em casa, porque infectados pelo maldito vírus, sem saber como será o dia de amanhã;
Naqueles que estão cansados de cuidar dos doentes, horas seguidas a fio, sem parar e a ver muitas vidas a falecer;
Naqueles que estão cansados de sofrer, nas camas dos hospitais, agarrados à vida pelo fio de máquinas.
Meu filho, estou tão cansado!
Mas, não me canso de estar cansado!
E sabes porquê? Porque te amo, muito.
Porque te amo muito, assim… e quem ama não deixa de cuidar!
Amo-te muito, meu filho.

Esta oração foi feita há uns dias atrás. Foge um pouco do estilo literário que gosto de usar neste espaço. Mas achei que era uma partilha oportuna para fazer. 
Boa oração, na certeza de que Deus nos ama!

quarta-feira, abril 22, 2020

dos dias das folhas [poema 254]

As folhas das árvores tremiam 

Algumas tombavam, fatigadas 
Pelo frio carregado, sem piedade.
Sem cumplicidade.

Outras estendiam os seus pequenos braços, 
Abraçadas, 
Nos veios esculpidos das árvores, 
Cravadas 
Entre abraços, na resina dos dias 
Que uma árvore tem

segunda-feira, abril 20, 2020

uma Igreja virtual

Este vírus está, com a nossa cumplicidade, a transformar-nos em seres virtuais. Pouco a pouco, vamos passando da vida ao vivo, em tempo real, para uma forma de vida indirecta, mediada pela internet, sobretudo as redes sociais. Trabalhamos, conversamos, beijamo-nos e abraçamo-nos virtualmente. 
E começamos a viver a fé de igual modo. Estamos também a transformar-nos numa Igreja virtual. Uma Igreja que propõe e consome virtualmente, com voracidade, centenas de propostas, numa degustação espiritual, em menu a la carte. Uma Igreja que consome likes, emojis e améns. Uma Igreja de entra e sai. Portanto, efémera e provisória. Uma Igreja que não agarra e não compromete. Uma Igreja mais passiva que activa, mais espectadora que participante, mais admiradora que vivente. 
Esta transformação, como é óbvio, tem coisas boas. Mas inquieta. Ou devia inquietar. É verdade que tudo é graça e dom de Deus. É verdade que esta é também uma parte da igreja possível destes tempos. E é só uma parte. Contudo, não sei como será quando regressarmos à vida real. É que o virtual tem esta coisa de nos aproximar e nos afastar ao mesmo tempo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É possível fazer igreja sem sacramentos?"

domingo, abril 19, 2020

nós [poema 253]

No outro dia senti a tua mão adentro
O gesto de quem colhe flores em mim.
Chorei amargamente a tua presença,
Não ter mais que uma porta para dar

sexta-feira, abril 17, 2020

Padres covid II

Alguns colegas padres desdobram-se, na comunicação social e nas redes sociais, em dezenas de propostas e aparições, replicando-as e multiplicando-as, com o que isso tem de positivo e negativo. Não julgo. Evito ajuizar. Mas não evito pensar. Tenho andado a reflectir sobre este novo modo de ser e viver em Igreja, e ainda não tenho nada claro. 
No entanto, ouvi há dias um colega dizer uma coisa que me chamou a atenção e me fez pensar. Dizia que, no meio de tanta “informação”, ainda não tinha ouvido dizer que há padres que, nestas horas, rezam a Deus em silêncio pelas suas comunidades. Um padre rezar, no silêncio, sem alardes, sem mediatismos, pelos seus, neste momento, deveria ser uma coisa estranha! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padres covid"

quinta-feira, abril 16, 2020

Kyrenaíos [poema 252]

Trouxe à memória o meu vizinho
Entre alfaias do campo e descampado
Cara sem boca, voz sem cara
Nos afazeres, carregos e labutas
Nas juntas, nas várzeas, nos caminhos
Empedrados do calvário, onde moro

Trouxe-o como uma custódia, muito pesada
Não tem nome nem morada nem passado
Na moradia de outrora, veio à lembrança
Este vizinho que mora na minha memória
e me tem carregado

terça-feira, abril 14, 2020

Linhas da frente

A minha sobrinha enfermeira foi para a linha da frente no combate à pandemia que alastra vírus e pânicos. Como muitos outros. Como tantos. Como tantos a quem temos de agradecer muito! 
Na ocasião que informou a família, não tive tempo para medir as palavras ou os pensamentos. Disse-lhe o que pensava, embora o fizesse com o coração nas mãos. Com o coração apertado nas mãos. Na minha humilde opinião, é mais maravilhoso que melindroso ir para a linha da frente! Ter nas mãos a possibilidade de ajudar, é uma das coisas mais bonitas que o ser humano tem ao seu alcance numa ocasião como esta! Deveríamos viver para ajudar a viver. Por isso fiquei orgulhoso por ela e com ela. Apreensivo, mas orgulhoso. Pedi-lhe que não desvalorizasse nunca o cuidado e a precaução. Sem medo, mas com consciência de que devia também cuidar dela para poder continuar a cuidar dos outros! 
Cuida-te. Eu rezarei por ti, e através de ti, por todos os que como tu, estarão nessa linha. E assim, a rezar, espero estar na linha da frente!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Silvina tem agora mais uma razão para viver"

domingo, abril 12, 2020

O dia da Ressurreição [poema 251]

A noite vai amanhecendo em silêncio
Nem o galo canta, nem as aves voam

Não há sol, não há chuva, não há vento
Não há vivalma para acordar o tempo

Mas, de repente, no bendito momento
Os sinos gritam, a repique e a rebate

São asas de anjo a voar sozinhas
São vozes de anjo a cantar em coro

São as arpas dos anjos que tocam, e nos tocam
Como flechas, nos campanários do coração
São aos milhares, sem voz, a gritar
O dia da Ressurreição


Feliz Páscoa, na certeza da Ressurreição!

sexta-feira, abril 10, 2020

altar [poema 250]

Desnudo meu altar perante a morte
Sem toalha, sem lustre, sem retrato
Sinto o teu sangue a escorrer,
Pousado na cruz, e a padecer.

Trago-te, como um fio, ao peito
E no peito me morres e eu morro
Nós morremos, ambos, abraçados
Num só morrer.

quinta-feira, abril 09, 2020

Encontrei o beijo do meu pai

Foi numa destas tardes solarengas. Mas escuras por dentro. A meio da tarde. Depois de ter falado com o meu pai em videoconferência. Cada um de nós no ecran. Unidos e separados pelo ecran. Depois a videoconferência alongou-se a mais três pessoas. As minhas irmãs e suas filhas. E ele desatou a chorar compulsivamente. Tivemos de desligar. Desalentados pela dor, pela distância, pela impotência, pela saudade. Marcados por lágrimas. Maldito vírus! 
Voltei sozinho mais tarde. Depois que me disseram da Unidade de Cuidados Continuados que ele não parava de chorar dizendo que eram saudades. Voltei. Falámos entre palavras e uns arranques de lágrimas da sua parte. Entendia o que eu dizia. Os meus apelos à força. As minhas explicações. As insinuações da fé. Que o amávamos muito. Que agora andava uma coisa no ar, uma espécie de bicho que não nos deixava estar juntos. Mas que nunca o abandonávamos. Que eu nunca o abandonaria. Ele ia respondendo à letra, dizendo que nos amava, que me amava. Já passou, pai. Pois já, respondia. Mas voltava. 
Nisto, o tablet do outro lado começou a mexer-se. Contou depois a fundionária que ele lhe retirou o tablet das mãos. Ele que tem cada vez maior dificuldade motora. Ele que tem cada vez menos capacidade cerebral. Fazia-me festas pelo ecran. Disseram-me depois. E às tantas, isso eu dei conta, aproximou o ecran e deu-me um beijo. Um beijo que, mesmo à distância foi dos mais inesquecíveis e robustos que me deu até hoje. 
O vírus não vence tanto amor! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O beijo do meu pai"

quarta-feira, abril 08, 2020

Deus a chorar [poema 249]

A chuva voltou aos meus olhos
Inundou-lhe as cercas em redor,
vales, montanhas, rios, todos os mares, a transbordar,
E as paredes no seu interior
Tela esborratada sem cor, a sangrar

Só pode ser Deus a chorar

terça-feira, abril 07, 2020

Olha, faz o bem

Sabes aquela sensação de não saber? Aquela sensação de que determinada situação ou gesto ou palavra são um sinal, mas não sabes dar-lhe forma? Não sabes que cor, que sabor, que odor tem? Foi assim, hoje, no diálogo breve com meu pai, por vídeo-conferência. 
A conversa com ele foi muito boa, ou seja, foi mais fluida do que o habitual. O que comeste ao almoço, pai? Eu comi um bife, pai, e tu? Eu comi dois. Tu estás lindo, paizinho. Tu é que és lindo, meu filho. Amo-te muito, pai. Meu mais que tudo. Eu ainda te amo mais, meu filho. Toma lá milhares de beijinhos, pai. E faço gesto com boca e com a mão a ir da boca ao écran. Sem que eu lhe peça nada, leva a mão à boca, com dificuldade, e manda beijos pequeninos, quase inaudíveis. Mas do tamanho do mundo. Ó pai, até já. É assim que me despeço dele, porque o meu adeus é sempre um até já. E ele responde de um modo que não vou esquecer nunca mais. Olha, meu filho, faz o bem. Faz o bem. 

A POPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Meu pai e minha mãe"

segunda-feira, abril 06, 2020

Casa [poema 248]

Deus passa e ninguém sabe
Que uma casa
São muitas casas numa casa

Deus passa e ninguém sabe
Que uma pedra
Faz parte de uma casa
De pedras

Deus passa e ninguém sabe
Que uma casa
Um dia vai ruir, mas continuará
a ser
Nas outras casas, de pedras,
Casa

sábado, abril 04, 2020

O vidro que não nos separa

Uma paroquiana avó mandou-me um vídeo do filho, do lado de lá da porta de vidro, a falar com o neto, uma criança de poucos meses, do lado de cá do vidro. É ao que obriga o período de quarentena. Mas foi tão bonito ver. Foi tão maravilhoso. A avó dizia que eram tempos muito duros e difíceis, mas que acreditava que tudo ia correr bem. Eu manifestei-lhe que era muito bonito o que me enviara. Mesmo, mesmo. Pode parecer, à partida, duro e triste. Mas eu achava-o bonito. Claro que achava. Era muito bonito ver que um vidro não separa duas pessoas que se amam. Porque nada nos pode separar, se o nosso coração não deixar. O coração é que nos liga e aproxima!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É um pai que ama como o Pai ama"

quinta-feira, abril 02, 2020

cabeça e coração [poema 247]

A cabeça não para, não permanece
Pelas pessoas vai, percorre-as, adoece
Olha-se sem se olhar, sem espelho para se ver,
Tudo em casa está a arder.

A cabeça quer parar, mas anoitece
Nos braços de um coração, e adormece
Num coração que, pouco a pouco,
cresce.

terça-feira, março 31, 2020

Contaminados pelo vírus do pânico

Hoje não quero sair de casa. Fico aqui, escondido, com as teclas do meu computador. Eu e elas. Para não sermos contaminados. Para ver se esse maldito vírus não entra nas nossas vidas. Só que o vírus já entrou. Tem entrado. Está a entrar nas nossas vidas pelo pânico. Mesmo fechados em  casa. Mesmo aqui fechado, o vírus não para de entrar em minha casa. Por isso rezo com as teclas, aceleradas. Escrevo tudo o que posso para afastar o vírus. Faço isto como se ele ainda não estivesse cá dentro. Sem dar conta que ele já entrou por todo o lado. Pela televisão, pelo computador, pela internet, pelas redes sociais, pelo telefone, por todo o lado. Se há uns milhares de infectados com o coronavírus, há muitos mais contaminados pelo medo e ansiedade. Nos teclados rugem. Nos teclados se escondem. Nas entrelinhas das palavras e afectos à distância. Hoje estamos quase todos contaminados pelo pânico do vírus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Se morresse" ou "A Rosário, apertada pela vida"

domingo, março 29, 2020

super-padre

Há uns quinze dias, quando nos começámos a isolar, quando as celebrações comunitárias foram suspensas e as igrejas fechadas, dei por mim, em casa, a perguntar-me que fazer para, com simplicidade e naturalidade, continuar a guiar estes meus rebanhos, estas minhas comunidades. Estava nisto quando uma catequista me contactou, porque precisava falar. Ter com quem trocar uns dedos de conversa. Ou melhor, ter quem a ouvisse. Falámos um pouco de muitas coisas relacionadas com este mal-estar. E, às tantas, manifestei-lhe a preocupação que carregava. 
Como resposta a esta inquietação, olhem só o que o Senhor Deus tinha preparado para mim da boca desta minha paroquiana. Senhor padre, não queira carregar a cruz sozinho. Neste momento, os seus paroquianos querem apenas que continue a ser o nosso padre. Para ser mais claro, refiro que disse o meu nome próprio. Nós queremos que continue a ser o nosso padre tal. E continuou. Às vezes queremos fazer coisas que não dependem da nossa vontade. E nós precisamos de saber que está bem. Foi mais ou menos isto que ela disse ou quis dizer, ou eu interpretei. E não sabe o bem que me fez! 
Ninguém tem de ser um super-herói diante destas contingências. Temos de ser quem somos. Não tenho de ser um super-padre. Eu tenho de ser o padre que tenho sido. Isso já é heroico.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"

sábado, março 28, 2020

revolução viral ou então não

Escrevem e dizem alguns que, depois deste furacão chamado coronavírus, a nossa vida não voltará a ser a mesma. E falam muito de solidariedades, atenções, gestos maravilhosos que vão ocorrendo por todo o lado. Que as pessoas estão mais atentas aos seus vizinhos. E até certo ponto, é verdade. Dizem também que há menos poluição. Menos Co2. As águas mais limpas. Que, no plano climático, está a valer a pena. Que a natureza nos está a obrigar a rever o nosso estilo de vida. Que o capitalismo vai sofrer um desfalque. E por aí fora e por aí adentro. Mas será assim? Será assim no final deste período de contingência? Ou não será apenas um conto de fadas porque agora ninguém quer ver filmes de terror? 
Li, no jornal espanhol “El Mundo”, que, em Espanha, na província espanhola de Cádis, onde um grupo de quase três dezenas de idosos tiveram de ser realojados pelo Governo depois de terem sido despejados de um lar por estarem infetados com a Covid-19, os veículos de transporte médico que transportavam os idosos foram apedrejados e um carro chegou mesmo a atravessar-se no caminho. Os populares receberam aqueles idosos com pedras e explosivos! Ora digam-me lá se isto não nos faz pensar! Por isso não sei se haverá alguma revolução viral. Até porque o vírus parece querer isolar-nos. E cada um parece preocupar-se mais com a sua sobrevivência que com a vida dos outros. 
Deixem passar a pandemia e os meses ou anos que se lhe hão-de seguir, e veremos se não voltamos ao capitalismo destroçador, à economia que mata, à tecnocracia burguesa, ao individualismo antropocêntrico, às relações virtuais… 
A revolução não está nas mãos do vírus, mas nas nossas mãos! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É dentro de nós que a vida se resolve."

quinta-feira, março 26, 2020

beijo [poema 246]

Beijo que procuro porque não era o último
Que não lembro porque foi levado no meio
De tantos beijos que te disse e que desenhei
No teu rosto

Beijo que esqueci porque to entreguei
E não mais voltou a mim, porque era amor
E o amor dá-se, mesmo quando se esqueceu
Como foi

e assim é...

quarta-feira, março 25, 2020

os funerais covid

Contaram-me que alguns colegas têm ouvido reclamações e desaforos de pessoas por causa das restrições dos funerais e por não haver missa de sétimo dia. É verdade que, a cada dia que passa e diante das evidências, têm diminuído este tipo de atitudes e reacções. Mas ainda há poucos dias, um agente funerário me contava que uma neta de uma senhora falecida discutira com ele, porque queria ver a avó a todo o custo. Queria velório como se nada fosse. Queria tudo e mais alguma coisa a que achava que tinha direito. Isto é duro. Muito duro. 
O primeiro funeral a que presidi, com uma pequena celebração no cemitério, na presença de pouquíssimos familiares, doeu muito. Doeu tanto que, ainda antes de começar, olhei para os rostos daquelas pessoas e as lágrimas caíram-me pelo rosto sem eu lhes dar licença. É bem provável que tenhamos de buscar uma nova forma de fazer o luto! Mas também é importante não deixarmos que a dor seja mais forte que a nossa racionalidade! Neste momento há um bem maior do que a nossa própria dor. O bem comum. E é bom recordar o que ocorreu, por exemplo, num funeral, em Espanha, onde se contaminaram dezenas de pessoas. Ou o que, no Irão, e diante da enorme dificuldade em tratar da sepultura de quem morre com o vírus, como dizem algumas informações, os corpos têm sido sepultados em valas abertas. Assim como é de supor o que poderá acontecer em paróquias onde o pároco contrair o vírus e tiver de ficar em casa. 
É doloroso ouvir estas coisas. Saber delas. Pensar nelas. Imaginá-las. Tudo é doloroso neste momento. Rezemos. Rezemos por quem tanto sofre num momento como este e partilhemos da sua dor na oração!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como serão os funerais quando não houver padres?"

segunda-feira, março 23, 2020

distância [poema 245]

Liga-me quando beijares alguém, quando lhe tocares a alma
Quando lhe disseres que a distância é tão só um momento
Fora de nós, um espaço ou um tempo que não possui a voz

A distância não é um castigo, é o desejo pressentido da comunhão
No coração

domingo, março 22, 2020

Eu sou padre

Só na última semana, numa diocese de Itália faleceram mais de dez padres. Em toda a Itália, segundo as informações que vão chegando, o número já vai, pelo menos, nos trinta. Tive oportunidade de ler os seus nomes num artigo. Um a um, ofereci-os a Deus. Em Espanha também li que faleceu, pelo menos, um. Mas são inúmeros os que estão em isolamento ou em cuidados intensivos. Ontem falou-se do primeiro padre contaminado em Portugal. E não é uma questão de números. Nem uma questão de os padres sermos diferentes dos outros. Porque não somos. Somos todos iguais no sofrimento e na morte. Nenhum de nós está livre ou isento de vírus e pandemias. Mas isto faz-me pensar. A mim. A minzinho. Faz-me pensar na minha vocação e missão. Tenho lido alguns testemunhos de colegas nestas circunstâncias, e fazem-me pensar no “até que ponto estou disponível para dar a minha vida pelos outros”, ou no “até que ponto eu entreguei totalmente a minha vida a Deus”. Sim, faz-me entrar na humildade e pequenez da minha vida e vocação. Sim, faz-me meditar no que sou e para que sou o que sou. Faz, faz.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É aqui que se tem de estar"

sexta-feira, março 20, 2020

a nossa parte

Dizem-me que algumas pessoas ficaram indignadas por não terem missa estes dias. Dizem-me que algumas já tinham ficado indignadas com a Igreja quando se lhes sugeriu que não comungassem, por uma questão higiénica, na boca, alegando que se a hóstia consagrada era o Senhor, nada deveríamos temer. Recebi um correio electrónico com uma carta de um suposto colega alertando para o perigo de não celebrarmos missas com as pessoas. Tive oportunidade de ver uns vídeos de umas missas onde, em Espanha, um determinado bispo dava comunhão na boca, exclusivamente, sem medidas de higiene. Algo similar de um padre que percorrera as ruas com o Santíssimo a bater à porta para que as pessoas fossem à missa. 
Respeito que pensem diferente de mim e que, supostamente, confiem em Deus ao ponto de depositar n’Ele toda a acção. No entanto, estas atitudes ou reacções fazem-me lembrar os estudantes que rezam insistentemente para obterem ajuda nos exames, até acendem uma velinha a Nossa Senhora, mas depois não estudam ou não estudam o suficiente! 
Deus faz muito. Deus até pode fazer tudo. Mas também quer que nós façamos a nossa parte!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha Igreja do futuro"

quinta-feira, março 19, 2020

O beijo do meu pai

Tenho tentado encontrar o último beijo que dei ao meu pai e que agora está trancado, tanto ele como o beijo, naquela casa grande onde o deixei para ter os cuidados que necessita. Busco-o por todo o lado. Na cabeça. Na memória. No coração. Busco-o vorazmente porque era meu e quero-o a todo o custo. Porque quero tê-lo na mão para o ver e recordar a toda a hora. 
Desde sexta-feira passada que a Unidade de Cuidados Continuados onde está o meu pai ficou interdita a visitas. Fiquei feliz porque assim fica mais longe do maldito vírus. Mas também fica mais longe de mim. Mais longe dos seus. E hoje é um dia particularmente especial. É o dia de todos os pais. 
Há distâncias que se encurtam, em videoconferência, num diálogo quase surdo entre as minhas palavras e as que ele balbucia, entre o meu “Amo-te muito, pai” e o que me disse ontem e hoje com “eu também te amo muito, meu filho”. Vi-o a sorrir, como habitualmente, mesmo na inconsciência da sua doença. Fiquei feliz com vê-lo. Fiquei feliz com ouvi-lo. Mas não recordo como foi o último beijo. Sei-lhe o sabor, porque é igual aos outros, mas gostaria de tê-lo guardado e não guardei. Hoje, dia do pai, procurei-o ansiosamente! Tentei, ao menos, recordar a hora, o local e a alegria que sentira. 
Com tanta procura, aprendi, porém, que, por mais que o quisesse guardar dentro de mim, os beijos não são para se guardar, mas para se dar. Os beijos são o gesto de quem se dá para que o outro sinta que o amamos. O beijo que eu tanto procuro, afinal, está no meu pai que tanto amo!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

quarta-feira, março 18, 2020

padres covid

Padres que sobem aos telhados da Igreja e se filmam a celebrar a missa. Padres que gravam vídeos de lágrimas para os seus. Padres que replicam mensagens e mensagens. Padres que têm muitas ideias criativas e que pululam na internet, especialmente nas redes sociais, para chegar aos fiéis, para alimentar a fé dos fiéis. Que bom! Aprovo e apoio cem por cento. Fico orgulhoso desta nossa Igreja que encontra um outro modo, diante da adversidade, para evangelizar, para chegar às pessoas, para as não abandonar. Fico orgulhoso das centenas e milhares de missas que hoje estão disponíveis às pessoas nas suas famílias, Igrejas Domésticas, através das redes sociais. 
Porém, no meio de tanta coisa, não sei algumas coisas. Não sei, por exemplo, se alimentar as pessoas, replicando e tornando a replicar nas redes sociais, não será alimentar em demasia o mundo virtual em detrimento da realidade e da verdade das famílias reunidas por si mesmas e não por redes sociais! Assim como também não sei se nalguns casos não se trata de um aproveitamento, mesmo que inconsciente, para um certo egolatrismo! 
Não sei mesmo. Acho que cada vez sei menos!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Na lareira 1"

terça-feira, março 17, 2020

Os gestos covid

Ligou há pouco. Ainda não passaram dez minutos. Tem oitenta e sete anos. Mora sozinha. Nota-se que já tem alguma idade, como se costuma dizer, mas é uma mulher que se ocupa e que tem sempre algo para fazer. Ligou e fomos conversando, como quase toda a gente por estes dias, no maldito vírus. Eu disse-lhe que tinha de se proteger, cuidar, isolar e precaver porque, como ela já sabia, faz parte do grupo de risco. E ela respondeu-me que já falou disso com “o lá de cima”. Foram expressões suas. Disse-lhe que se já tivesse chegado a sua hora, que não havia problema pois já tinha muita idade e já tinha vivido o suficiente. Pedia-lhe apenas pelos filhos e pelos netos. Que os protegesse. Mas que se achasse que ainda não tinha chegado a sua hora, que agradecia que mantivesse o vírus longe. Ainda nos rimos um pouco os dois. 
Porque a conheço bem, sei que foram palavras sinceras. Uma oração sincera. Mas nisto diz-me. Ó senhor padre, como está aí sozinho, aí por volta das 13h eu levo-lhe aí o almoço. Tenho de andar um pouco, que me faz bem, e não posso abandonar o senhor padre, que está sozinho! 
Eu é que me devia preocupar com ela, que faz parte do grupo de risco e está sozinha, e, afinal, era ela que se preocupava comigo, o senhor padre que está sozinho. Sem palavras e comentários. Esse reservo-os no meu coração com pequenas gotas de lágrimas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

quinta-feira, março 12, 2020

esta hora covid

Escrevo com a sensação de que anda por perto alguma lágrima e, quiçá, entrando naquilo que eu me atrevo a chamar de “pânico de responsabilidade”, com decisões nas mãos para as lançar fora delas. Respiro fundo e sereno. Respiro fundo e digo para mim mesmo que vou serenar. Quem acha que tomar decisões pelos outros é fácil, que se desengane. Pelo menos quando o fazemos com consciência, sentido de responsabilidade e a pensar deveras nos outros, sobretudo os mais frágeis. 
Aqui, no meu pequeno mundo paroquial, sinto o peso de saber que devo tomar decisões equilibradas entre evitar a todo o custo os contágios, na expectativa de aprazá-los ao máximo para que as respostas de saúde possam ir surtindo efeitos, e evitar o pânico generalizado que nos mata por dentro e também nos impede de “viver”. Faz lembrar a notícia que ouvi esta manhã de um senhor que, por estar convencido de ter o coronavírus e porque não queria contaminar ninguém, se suicidara. 
Como o sociólogo Lipovetsky dizia, este vírus é sintoma da hipermodernidade, associado ao individualismo, a indiferença e a ligeireza como diagnóstico crucial do presente. A sociedade globalizada e móvel, que busca aceitar a diferença, mas que é cada vez mais indiferente, nesta hora obriga-nos a questionar os nossos alicerces. Queremos viver sem sofrimento e sem medos, mas isso não é possível sem responsabilidade, sem esperança, sem sacrifício e esquecendo o bem comum. E como cristãos, devemos encarar a vida como peregrinos, sabendo que a qualquer momento chega a nossa hora de ir para o Pai, mas ao mesmo tempo como bons administradores do maior dom que Deus nos concedeu, a vida que cada um de nós tem. Estamos, portanto, diante de uma realidade que nos assusta, mas que também nos pode auxiliar a fazer um exame de consciência pessoal e colectivo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sabemos pouco da vida"

segunda-feira, março 09, 2020

A igualdade das mulheres na Igreja

Li que um grupo de mulheres em Espanha, católicas assumidas, como se designaram, iam sair às ruas a pedir a igualdade. Li o texto com atenção, mas não o entendi. A peça jornalística referia que iam fazer uma manifestação diante dalgumas igrejas. Continuei a não entender.
Querer mais espaços na Igreja, mais papéis de liderança, mais voz é bom. Querer uma Igreja menos patriarcal e mais matriarcal, dentro dos necessários equilíbrios, é muito bom. É algo que também desejo. Mas invocam o princípio da igualdade e isso da homogeneização é algo que me incomoda. 
É uma tolice quando achamos que somos menos que os outros só porque não fazemos o mesmo. Esta coisa da igualdade impede a nossa diferença. Somos diferentes e precisamos da diferença que cada um é para se fazer a pluralidade e comunhão. Há coisas que as mulheres fazem muito melhor que os homens! E já o fazem em Igreja. E são igualmente Igreja como os homens o são no que fazem. Eu reconheço a corresponsabilidade das mulheres na Igreja. Como reconheço a corresponsabilidade dos leigos no geral. Ou dos religiosos. Ou dos homens. 
Nunca fui adepto do dia das Mulheres, como se houvesse necessidade de um dia para falar da sua dignidade. Para mim todos os dias são das mulheres. Como dos homens. Como da humanidade. Como de Deus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja das mulheres

sábado, março 07, 2020

A ‘minha’ ou a ‘nossa’ missa

Fora das chamadas missas pro populo e de algumas datas ou ocasiões especiais, pode haver aquelas que designamos como intenções de missa. As pessoas mandam sobretudo celebrar pelas almas dos seus defuntos. Assim também as chamadas missas de sétimo dia ou de notícia, algo que, antigamente, era no sétimo dia ou num dia de aniversário, e que agora é quando se pode, porque somos menos padres e temos mais paróquias. Aqui vou ensinando as minhas comunidades cristãs que celebro, não por causa de intenções, mas pela eucaristia em si. Tem melhorado a compreensão e o ritmo. Mas, ainda assim, nem sempre. É o caso das missas de sétimo dia, nas quais, algumas vezes, as pessoas dizem, como desta vez, a ‘minha missa’ ou a ‘missa da minha mãe’. Incomodou-me interiormente. Não o demonstrei. Sorri e aproveitei para ensinar, mais uma vez, que as missas não são particulares. São sempre comunitárias. Não disse o que pensei para mim. Mas escrevo-o agora, para que conste, ao menos, no meu pensar. A eucaristia não é posse de ninguém. A Eucaristia é eucaristia.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As missas ou missinhas"

quarta-feira, março 04, 2020

Como se aprende a rezar?

Era uma senhora discreta. Mas interessada. Dirigiu-se a mim com discrição e interesse. Senhor padre, como é que se aprende a rezar? Perguntou. Respondi-lhe com outra pergunta. Como se aprende a amar? Se era com teorias, com aulas, com leituras, em laboratório, em sonhos, em fantasias. Eu mesmo respondi e prossegui. Olhe que se aprende a amar, amando. E a oração é como o amor. É uma forma de namoro com Deus. Por isso também se aprende a rezar, rezando. Tal como se aprende a amar, amando, se aprende a rezar, rezando.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Rezar é falar com Deus"

sábado, fevereiro 29, 2020

sou uma casa [poema 244]

Em mim há uma casa habitada
Um lar que é uma casa onde moras

Gosto da palavra Lugar
E gosto de a gastar
Como me gasto a te habitar

quarta-feira, fevereiro 26, 2020

amazónias [poema 243]

As florestas sobre a terra
Quando se eliminam não voltam,
por dentro da terra onde não existiram, morreram

As aves não nascem nos céus, mas lhe pertencem
Quando partem, porque não querem
Perdem dos vôos o bilhete
De ida e volta

Os rios são as faces dos caminhos que percorrem
Levam água, trazem vida
Quando param, não são mais rios
São a morte parada, sem volta
Ao interior da terra

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

A sociedade irritada IV

A nossa sociedade gasta-se em opiniões. Aliás, não é ela que se gasta. Somos nós. Gastamo-nos em opiniões e contra-opiniões, mesmo não abalizadas. Só porque sim. Porque eu tenho direito e liberdade. As redes sociais e a globalização da diferença e da indiferença potenciaram o excesso de opiniões e a liberdade de se dizer o que se quer, sobretudo por detrás de um ecrã, porque não nos custa ter de enfrentar os olhos da outra pessoa que magoamos ou que contrariamos. O ecrã é o mundo das opiniões, por excelência. E hoje toda a gente tem uma opinião e se vale dela para existir, para se definir, para manifestar a sua personalidade, para se impor. Porque dificilmente o consegue de outro modo. É uma sociedade sem identidade, sustentada em opiniões mais do que na verdade! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A sociedade irritada I", "A sociedade irritada II" e "A sociedade irritada III"

sábado, fevereiro 22, 2020

Acreditas na Vida Eterna?

Na última sondagem, que indagava sobre os post preferidos de 2019, constatou-se que, supostamente, os melhores textos foram:
1. Rezar na verdade da dor

Pode rever os resultados no seguinte quadro, e pode rever os melhores textos dos anos anteriores, aqui.


Hoje, e quase a entrar na Quaresma, o período litúrgico em que nos preparamos para a grande festa da Páscoa, propomos uma nova pergunta que vem a propósito, não só deste período em si, mas por toda a envolvência em que nos encontramos na nossa sociedade portuguesa: "Acreditas na Vida Eterna?"

quinta-feira, fevereiro 20, 2020

eu thanatos e eu, padre

Como acompanhar pastoralmente uma pessoa que peça a eutanásia? Como conciliar o princípio da misericórdia com a necessidade de afirmação da doutrina? Fez as perguntas porque, como disse, conhecia casos de pessoas no estrangeiro que pediram a eutanásia e quiseram receber a Santa Unção. E rematou assim: Como procederias numa situação destas? E a esta questão ou conjunto de perguntas que me foram feitas há dias, poderia acrescentar outras tantas, da minha lavra. O que fazer se te pedissem um funeral religioso, com missa incluída, depois do defunto ter sido eutanasiado? Que dizer a um crente que é favorável à eutanásia e que participa activamente na comunidade cristã e/ou tem responsabilidades na mesma? 
Quando as primeiras perguntas me foram dirigidas, não imaginei o que teria de remoer, desculpem o termo, sobre o assunto. Na altura esbocei uma resposta breve e pouco reflectida. Não era uma resposta sem sentido, mas precisava, pelos vistos, ser mais sentida. Tenho-a carregado nos ombros, junto com as outras perguntas que, entretanto, diante da hipotética legalização da eutanásia, me foram inquietando na minha missão e vocação sacerdotal. Perguntas que me obrigaram, pelo menos, a não fazer de conta que não é necessário pensar em possibilidades que não pensava. 
A moral e ética cristã leva a opor-nos a qualquer afronta à vida humana, como dom de Deus, onde se inclui a eutanásia, a distanásia ou o suicídio assistido, porque o afã de dispor das nossas vidas, de certo modo, nos afasta de Deus, o único dono da vida. Mas isso não significa que este mesmo Deus não nos tenha dado a liberdade de sermos donos das nossas opções e de usarmos o livre arbítrio. O mesmo Deus infinitamente misericordioso. 
Tenho pensado muito nisto. Não concordo, de todo, com a eutanásia, distanásia e suicídio assistido. Sou de opinião que o sofrimento faz parte da nossa condição humana e tem muito sentido nas nossas vidas. Não quero assumir responsabilidades diante da morte assistida. Não sou favorável a criteriologias que separam as pessoas em categorias. Não quero fazer parte de uma sociedade da cultura de morte e do descartável, uma sociedade irresponsável e que vive de modas ou de opiniões. Mas também lembrei a minha reação natural perante casos de suicídio, onde sempre evitei julgamentos e acreditei na misericórdia de Deus. Lembrei as dores de quem sofre e precisa de mim, como padre, como amigo e como pessoa. O assunto é deveras difícil, inquietante e fracturante. Quem tenta ser sério a pensar nele, fica incomodado. 
Partilhei com um colega sacerdote as dúvidas e dificuldades nestes meus raciocínios e reflexões, e ele reagiu dizendo-me que continuaria a agir como se não estivesse no direito de julgar ninguém. Depois de o escutar e barafustar um pouco com ele, porque a sua resposta fora demasiado rápida e me parecera irrefectida, ele insistiu repetindo, quase sílaba a sílaba o que acabara de dizer. E, embora me custasse inicialmente, ajudou-me a amadurecer a reflexão. Pois do mesmo modo que nunca julguei nem quis julgar alguém que se suicida, também não devo julgar quem quer que seja pelas suas opções erradas. A mim cabe-me, pertence-me, é minha missão, ajudar as pessoas a fazer as melhores opções. Ajudá-las a pensar para além delas e do seu sofrimento. Fazer os possíveis para dar mais formação aos nossos cristãos, em particular os meus paroquianos. Mas depois, se calhar, devo deixar que Deus faça o seu trabalho. Porque não me pertence julgar. Pertence-me amar! Mesmo que, amando dessa maneira, o meu coração sofra por dentro. Amar é mais importante do que o meu sofrer!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte VIII, preparada"

segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Eu thanatos II

Uma amiga, para validar a sua opinião acerca do assunto, mostrou-me uma espécie de carta de um doente com Arthogripose Congénita Dupla, em que este alegava ter direito de pedir a eutanásia e direito a escolher o que fazer com a sua vida. 
Ora, como disse à minha amiga, também eu me comovo com o sofrimento e desespero das pessoas. Mas não me demito de as ajudar a vencer esse sofrimento e desespero. Não obstante isso, ao seu alcance permanece sempre o direito de escolher entre viver ou acabar com a sua vida, através do suicídio, embora, como é natural, eu não concorde com ele. O que a mim sinceramente me custa é que uma responsabilidade pessoal que constitui a tal possibilidade de escolha, se torne uma responsabilidade colectiva, ainda por cima de todo um colectivo que devia fazer tudo para auxiliar as pessoas a viver e não se demitir desse papel com tanta leveza, sem ao menos proporcionar cuidados paliativos, afectivos e solidários! 
Eu também não quero decidir sobre a vida dos outros. Não julgo quem se suicida. Evito julgar o desespero das pessoas. Mas, tanto a eutanásia como o suicídio assistido não podem ser um tratamento médico. Por isso afirmo que a liberdade de escolha dos outros não pode tolher a nossa confiança em médicos que deveriam sempre fazer tudo e o máximo pela defesa da nossa vida. Para isso é que estudaram e para isso fizeram o Juramento de Hipócrates. 
De facto, não é a legalização de uma lei que me vai obrigar a mim ou a quem quer que seja a fazer a opção pela eutanásia. Mas responsabiliza-me, como cidadão, por ela, e eu também tenho a liberdade de não querer essa responsabilidade e que seja respeitado nessa opção!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Especial Diana"

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

Eu thanatos

Ontem foi a sepultar uma senhora que viveu os últimos dias a sofrer. Acabara de dar entrada numa unidade de Cuidados Paliativos, a uns bons quilómetros da sua casa, quando faleceu. E antes de fazer a viagem para fazer o funeral, fui visitar o meu pai nos Cuidados Continuados, onde se encontra com leuco-encefalopatia bilateral isquémica, ou seja, irrigando cada vez menos o cérebro. Por sinal, na altura com bastante consciência, ao ponto de chorar compulsivamente quando me viu, coisa que me assustou, por dentro e por fora. Coisa que me levou ao mais fundo de mim em busca dos porquês do sofrimento. E falo destas coisas porque me incomoda a leveza com que se trata de despenalizar a eutanásia ou promover que se possa acabar com o sofrimento acabando com uma vida. Mesmo sabendo que a minha missão de Igreja, como padre ou como leigo, mais do que evitar o decreto dessa lei, é ajudar a entender como incorporar, viver, lidar, aceitar e dar sentido ao sofrimento. 
E a minha homilia, reforçada pela forma como a senhora vivera os últimos dias, pelo que havia sentido na visita ao meu pai e pela viagem que fizera com lágrimas nos olhos, foi sobre o modo como, nós cristãos, encaramos ou devemos encarar o sofrimento. Refiro-me não àqueles cristãos que alguns pseudo-intelectuais gostam de designar como coitados, ignorantes, retrógrados ou submissos religiosos. Mas como aqueles cristãos que, na sua debilidade, sabem ser fortes. 
O sofrimento, afinal, reconhece a nossa condição humana e a nossa necessidade de transcendência. Afasta-nos da autorreferencialidade e autossuficiência. Não, nós não somos autossuficientes. O sofrimento faz-nos pensar para além das nossas capacidades, interesses e bens. É na debilidade que melhor pode sobressair a entre-ajuda, a solidariedade, a caridade. E é o que, provavelmente, melhor nos religa a Deus que também sofreu e morreu na cruz por nosso amor. Nós, os cristãos, sabemos ou devemos saber que o sofrimento tem sentido e aproxima-nos de Deus. Pode parecer que não faz sentido sofrer, mas faz sentido sofrer ou saber sofrer com sentido. 
O sofrimento não é um fatalismo sem saída. Todos nós já passámos por sofrimentos dos quais pensávamos não conseguir sair e nos fizeram pensar que já não valia a pena viver, sem que isso beliscasse a dignidade da nossa vida. O sofrimento, o debilitamento, a perda das capacidades, fazem parte da nossa vida. Como podemos chegar ao ponto de pensar que uma pessoa que perca capacidades, sejam elas físicas, biológicas, psíquicas ou emocionais, já não conta na sociedade e seja tratada como de segunda categoria? Recuso-me a aceitar que haja vidas de primeira e vidas de segunda categoria. Recuso-me a aceitar que se diga que a eutanásia é morrer com dignidade, como alguns argumentam. Não me parece que um soldado enviado para uma batalha e que foge dessa batalha seja mais digno do que aquele que decide enfrentar a batalha. Os grandes heróis não são os que, perante o sofrimento decidem acabar com tudo, mas os que, diante do sofrimento, decidem ser fortes.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Dona da minha vida"

terça-feira, fevereiro 11, 2020

Então já não há extrema-unção?

Esta tarde ligaram-me de um número que não conhecia, com este pedido urgente. Senhor padre, o meu pai quer receber a extrema-unção. Está com alzheimer associado a demência natural. Insiste em falarmos consigo, porque está a morrer e quer receber a extrema-unção. Cada vez que o filho utilizava esta palavra para designar o sacramento da Unção dos Doentes, eu interrompia e dizia: Unção dos doentes. Unção dos doentes ou Santa Unção. Mas podemos ir ter consigo, senhor padre? O meu pai não se cala. Como se fosse apenas para o calar. 
Tinham de fazer uma pequena viagem de carro. Por isso tardaram um pouco. O tempo suficiente para, ao cruzar-me com uma amiga destes amigos, parar para cumprimentar e ouvir. Olhe, senhor padre, já deu a extrema-unção ao senhor tal? O filho anda aflito! Não sabe o que fazer! Unção dos doentes. Insisti. Olhou para mim com olhos de quem pergunta Mas já não há extrema-unção? 
Na verdade, por mais que falemos destas coisas na comunidade cristã, nem sempre estão atentos, ou nem sempre estão. Digamos, portanto, que foi uma oportunidade para explicar o que é este sacramento. O seu porquê. O seu sentido. Que não se pode pensar como um sacramento de mortos. Todos os sacramentos são dos vivos e para os vivos e este é, especificamente, um sacramento para dar força, ânimo e vida. Por isso não se deve esperar, in extremis, pela hora, como se fosse um sacramento dos mortos ou dos que estão quase a morrer, e apenas para que se possam salvar.
Ainda o meu latinório ia a meio, quando ela, com pressa, perguntou: Então já não há extrema-unção?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Vivemos para morrer."

sábado, fevereiro 08, 2020

Coração calado [poema 242]

Cala-se o coração, porque envelhece,
E perde as suas palavras em muitas dores
Que vão com lágrimas pelo caminho eterno
Pelas várzeas, como procissão de andores

Cala-se porque perde a voz que não tinha
Os poemas que declamava no abraçar de olhos
Porque os donos da maldade, em falsa mansidão,
Compram e vendem corações entre os escolhos.

E cala-se o coração, porque é coração.
Porque a sua história é viver a sentir
nas entranhas, como oração

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

A fuga do silêncio

Temos medo do silêncio. Na nossa sociedade ruidosa temos medo de fazer silêncio. Por isso, mesmo quando não se fala ou não se tem com quem falar, como é o caso de andar de metro, comboio, autocarro, ou simplesmente a pé, ali vai toda a gente com auscultadores nos ouvidos a passar música. Temos medo do silêncio exterior e interior, que nos faça dar conta de nós próprios e daquilo que somos na verdade: um pequenino corpo da criação de Deus. Temos medo do silêncio e por isso não conseguimos escutar o outro. Se não conseguimos escutar o outro, como conseguiremos escutar Deus? Temos medo do silêncio e não fazemos silêncio para ouvir Deus. Por isso a oração que fazemos é mais a falar que a escutar. Falamos mais que ouvimos. Por isso não damos conta de que Ele fala. Por isso nos queixamos que Ele não nos fala. Por isso fugimos do silêncio e achamos que Deus está em silêncio.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A vida"

sexta-feira, janeiro 31, 2020

sondagem "best post" 2019

Deixamos os resultados da última sondagem que perguntava sobre o que nos lembrávamos, em primeiro lugar, quando pensávamos no Natal.

Iniciamos, igualmente, uma nova sondagem, no lado direito do sidebar, para perguntar qual foi, na nossa opinião, o melhor, mais tocante ou mais interesante texto não poético de 2019. Os 10 textos a votação foram seleccionados de acordo com as indicações dos "penitentes" deste espaço e de acordo com a minha apreciação. Quem os quiser "revisitar", tem os links respectivos abaixo da sondagem.
Bem haja pelo vosso interesse e colaboração!

segunda-feira, janeiro 27, 2020

"best post" 2019

Embora sabendo que não é o mais importante, é uma boa desculpa para revermos e relermos textos. Assim, peço a vossa ajuda para seleccionar aqueles textos/prosa que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes em 2019. Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Deixo algumas sugestões, de acordo com a minha apreciação particular, mas podem indicar outros que aqui não se encontrem linkados. Agradeço desde já a vossa participação e colaboração. 

Como nas outras ocasiões, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. Podem sugerir outros que não estejam nesta selecção. A mim fez-me bem relê-los. Pode ser que faça bem a mais alguém. Nota que os poemas não entram nesta sondagem. 

Quem quiser dar uma espreitadela aos "best post" de 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018 clique AQUI

Janeiro

Pesquisar Jesus na Internet


As freiras missionárias


Deus não nos resolve a vida


Deus resolve-nos a vida

A leiteira de S. Paulo



Fevereiro

A carta de um filho ao seu pai que partiu.

O último José




Março

Rezar na verdade da dor




Abril

A Rosário, apertada pela vida

A tradição da procissão de Páscoa



Maio

Rezar antes das refeições

cristão, católico, religioso,clérigo, consagrado, leigo, fiel…

Aos olhos de Deus somos todos iguais



Junho

A vida vestida de branco

Ser leigo na Igreja

A oração do meu pai



Julho

A resposta

Quanto mais acredito, menos faço



Agosto

Os padres santos e pecadores



Setembro

E se Deus fosse um de nós?

Cumprir a fé



Outubro

esta coisa da ressurreição da carne está mal explicada, não tá?

Falemos de missão ou outras coisas

Missas dominicais ou mais ou menos isso

Os ultras



Novembro

Ser santo é caminhar na santidade

O morto que não queria nada com Deus



Dezembro

O cão pregador

O telemóvel e a missa

O menino que nasce no meio da porcaria