terça-feira, março 31, 2020

Contaminados pelo vírus do pânico

Hoje não quero sair de casa. Fico aqui, escondido, com as teclas do meu computador. Eu e elas. Para não sermos contaminados. Para ver se esse maldito vírus não entra nas nossas vidas. Só que o vírus já entrou. Tem entrado. Está a entrar nas nossas vidas pelo pânico. Mesmo fechados em  casa. Mesmo aqui fechado, o vírus não para de entrar em minha casa. Por isso rezo com as teclas, aceleradas. Escrevo tudo o que posso para afastar o vírus. Faço isto como se ele ainda não estivesse cá dentro. Sem dar conta que ele já entrou por todo o lado. Pela televisão, pelo computador, pela internet, pelas redes sociais, pelo telefone, por todo o lado. Se há uns milhares de infectados com o coronavírus, há muitos mais contaminados pelo medo e ansiedade. Nos teclados rugem. Nos teclados se escondem. Nas entrelinhas das palavras e afectos à distância. Hoje estamos quase todos contaminados pelo pânico do vírus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Se morresse" ou "A Rosário, apertada pela vida"

domingo, março 29, 2020

super-padre

Há uns quinze dias, quando nos começámos a isolar, quando as celebrações comunitárias foram suspensas e as igrejas fechadas, dei por mim, em casa, a perguntar-me que fazer para, com simplicidade e naturalidade, continuar a guiar estes meus rebanhos, estas minhas comunidades. Estava nisto quando uma catequista me contactou, porque precisava falar. Ter com quem trocar uns dedos de conversa. Ou melhor, ter quem a ouvisse. Falámos um pouco de muitas coisas relacionadas com este mal-estar. E, às tantas, manifestei-lhe a preocupação que carregava. 
Como resposta a esta inquietação, olhem só o que o Senhor Deus tinha preparado para mim da boca desta minha paroquiana. Senhor padre, não queira carregar a cruz sozinho. Neste momento, os seus paroquianos querem apenas que continue a ser o nosso padre. Para ser mais claro, refiro que disse o meu nome próprio. Nós queremos que continue a ser o nosso padre tal. E continuou. Às vezes queremos fazer coisas que não dependem da nossa vontade. E nós precisamos de saber que está bem. Foi mais ou menos isto que ela disse ou quis dizer, ou eu interpretei. E não sabe o bem que me fez! 
Ninguém tem de ser um super-herói diante destas contingências. Temos de ser quem somos. Não tenho de ser um super-padre. Eu tenho de ser o padre que tenho sido. Isso já é heroico.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"

sábado, março 28, 2020

revolução viral ou então não

Escrevem e dizem alguns que, depois deste furacão chamado coronavírus, a nossa vida não voltará a ser a mesma. E falam muito de solidariedades, atenções, gestos maravilhosos que vão ocorrendo por todo o lado. Que as pessoas estão mais atentas aos seus vizinhos. E até certo ponto, é verdade. Dizem também que há menos poluição. Menos Co2. As águas mais limpas. Que, no plano climático, está a valer a pena. Que a natureza nos está a obrigar a rever o nosso estilo de vida. Que o capitalismo vai sofrer um desfalque. E por aí fora e por aí adentro. Mas será assim? Será assim no final deste período de contingência? Ou não será apenas um conto de fadas porque agora ninguém quer ver filmes de terror? 
Li, no jornal espanhol “El Mundo”, que, em Espanha, na província espanhola de Cádis, onde um grupo de quase três dezenas de idosos tiveram de ser realojados pelo Governo depois de terem sido despejados de um lar por estarem infetados com a Covid-19, os veículos de transporte médico que transportavam os idosos foram apedrejados e um carro chegou mesmo a atravessar-se no caminho. Os populares receberam aqueles idosos com pedras e explosivos! Ora digam-me lá se isto não nos faz pensar! Por isso não sei se haverá alguma revolução viral. Até porque o vírus parece querer isolar-nos. E cada um parece preocupar-se mais com a sua sobrevivência que com a vida dos outros. 
Deixem passar a pandemia e os meses ou anos que se lhe hão-de seguir, e veremos se não voltamos ao capitalismo destroçador, à economia que mata, à tecnocracia burguesa, ao individualismo antropocêntrico, às relações virtuais… 
A revolução não está nas mãos do vírus, mas nas nossas mãos! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É dentro de nós que a vida se resolve."

quinta-feira, março 26, 2020

beijo [poema 246]

Beijo que procuro porque não era o último
Que não lembro porque foi levado no meio
De tantos beijos que te disse e que desenhei
No teu rosto

Beijo que esqueci porque to entreguei
E não mais voltou a mim, porque era amor
E o amor dá-se, mesmo quando se esqueceu
Como foi

e assim é...

quarta-feira, março 25, 2020

os funerais covid

Contaram-me que alguns colegas têm ouvido reclamações e desaforos de pessoas por causa das restrições dos funerais e por não haver missa de sétimo dia. É verdade que, a cada dia que passa e diante das evidências, têm diminuído este tipo de atitudes e reacções. Mas ainda há poucos dias, um agente funerário me contava que uma neta de uma senhora falecida discutira com ele, porque queria ver a avó a todo o custo. Queria velório como se nada fosse. Queria tudo e mais alguma coisa a que achava que tinha direito. Isto é duro. Muito duro. 
O primeiro funeral a que presidi, com uma pequena celebração no cemitério, na presença de pouquíssimos familiares, doeu muito. Doeu tanto que, ainda antes de começar, olhei para os rostos daquelas pessoas e as lágrimas caíram-me pelo rosto sem eu lhes dar licença. É bem provável que tenhamos de buscar uma nova forma de fazer o luto! Mas também é importante não deixarmos que a dor seja mais forte que a nossa racionalidade! Neste momento há um bem maior do que a nossa própria dor. O bem comum. E é bom recordar o que ocorreu, por exemplo, num funeral, em Espanha, onde se contaminaram dezenas de pessoas. Ou o que, no Irão, e diante da enorme dificuldade em tratar da sepultura de quem morre com o vírus, como dizem algumas informações, os corpos têm sido sepultados em valas abertas. Assim como é de supor o que poderá acontecer em paróquias onde o pároco contrair o vírus e tiver de ficar em casa. 
É doloroso ouvir estas coisas. Saber delas. Pensar nelas. Imaginá-las. Tudo é doloroso neste momento. Rezemos. Rezemos por quem tanto sofre num momento como este e partilhemos da sua dor na oração!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como serão os funerais quando não houver padres?"

segunda-feira, março 23, 2020

distância [poema 245]

Liga-me quando beijares alguém, quando lhe tocares a alma
Quando lhe disseres que a distância é tão só um momento
Fora de nós, um espaço ou um tempo que não possui a voz

A distância não é um castigo, é o desejo pressentido da comunhão
No coração

domingo, março 22, 2020

Eu sou padre

Só na última semana, numa diocese de Itália faleceram mais de dez padres. Em toda a Itália, segundo as informações que vão chegando, o número já vai, pelo menos, nos trinta. Tive oportunidade de ler os seus nomes num artigo. Um a um, ofereci-os a Deus. Em Espanha também li que faleceu, pelo menos, um. Mas são inúmeros os que estão em isolamento ou em cuidados intensivos. Ontem falou-se do primeiro padre contaminado em Portugal. E não é uma questão de números. Nem uma questão de os padres sermos diferentes dos outros. Porque não somos. Somos todos iguais no sofrimento e na morte. Nenhum de nós está livre ou isento de vírus e pandemias. Mas isto faz-me pensar. A mim. A minzinho. Faz-me pensar na minha vocação e missão. Tenho lido alguns testemunhos de colegas nestas circunstâncias, e fazem-me pensar no “até que ponto estou disponível para dar a minha vida pelos outros”, ou no “até que ponto eu entreguei totalmente a minha vida a Deus”. Sim, faz-me entrar na humildade e pequenez da minha vida e vocação. Sim, faz-me meditar no que sou e para que sou o que sou. Faz, faz.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É aqui que se tem de estar"

sexta-feira, março 20, 2020

a nossa parte

Dizem-me que algumas pessoas ficaram indignadas por não terem missa estes dias. Dizem-me que algumas já tinham ficado indignadas com a Igreja quando se lhes sugeriu que não comungassem, por uma questão higiénica, na boca, alegando que se a hóstia consagrada era o Senhor, nada deveríamos temer. Recebi um correio electrónico com uma carta de um suposto colega alertando para o perigo de não celebrarmos missas com as pessoas. Tive oportunidade de ver uns vídeos de umas missas onde, em Espanha, um determinado bispo dava comunhão na boca, exclusivamente, sem medidas de higiene. Algo similar de um padre que percorrera as ruas com o Santíssimo a bater à porta para que as pessoas fossem à missa. 
Respeito que pensem diferente de mim e que, supostamente, confiem em Deus ao ponto de depositar n’Ele toda a acção. No entanto, estas atitudes ou reacções fazem-me lembrar os estudantes que rezam insistentemente para obterem ajuda nos exames, até acendem uma velinha a Nossa Senhora, mas depois não estudam ou não estudam o suficiente! 
Deus faz muito. Deus até pode fazer tudo. Mas também quer que nós façamos a nossa parte!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha Igreja do futuro"

quinta-feira, março 19, 2020

O beijo do meu pai

Tenho tentado encontrar o último beijo que dei ao meu pai e que agora está trancado, tanto ele como o beijo, naquela casa grande onde o deixei para ter os cuidados que necessita. Busco-o por todo o lado. Na cabeça. Na memória. No coração. Busco-o vorazmente porque era meu e quero-o a todo o custo. Porque quero tê-lo na mão para o ver e recordar a toda a hora. 
Desde sexta-feira passada que a Unidade de Cuidados Continuados onde está o meu pai ficou interdita a visitas. Fiquei feliz porque assim fica mais longe do maldito vírus. Mas também fica mais longe de mim. Mais longe dos seus. E hoje é um dia particularmente especial. É o dia de todos os pais. 
Há distâncias que se encurtam, em videoconferência, num diálogo quase surdo entre as minhas palavras e as que ele balbucia, entre o meu “Amo-te muito, pai” e o que me disse ontem e hoje com “eu também te amo muito, meu filho”. Vi-o a sorrir, como habitualmente, mesmo na inconsciência da sua doença. Fiquei feliz com vê-lo. Fiquei feliz com ouvi-lo. Mas não recordo como foi o último beijo. Sei-lhe o sabor, porque é igual aos outros, mas gostaria de tê-lo guardado e não guardei. Hoje, dia do pai, procurei-o ansiosamente! Tentei, ao menos, recordar a hora, o local e a alegria que sentira. 
Com tanta procura, aprendi, porém, que, por mais que o quisesse guardar dentro de mim, os beijos não são para se guardar, mas para se dar. Os beijos são o gesto de quem se dá para que o outro sinta que o amamos. O beijo que eu tanto procuro, afinal, está no meu pai que tanto amo!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

quarta-feira, março 18, 2020

padres covid

Padres que sobem aos telhados da Igreja e se filmam a celebrar a missa. Padres que gravam vídeos de lágrimas para os seus. Padres que replicam mensagens e mensagens. Padres que têm muitas ideias criativas e que pululam na internet, especialmente nas redes sociais, para chegar aos fiéis, para alimentar a fé dos fiéis. Que bom! Aprovo e apoio cem por cento. Fico orgulhoso desta nossa Igreja que encontra um outro modo, diante da adversidade, para evangelizar, para chegar às pessoas, para as não abandonar. Fico orgulhoso das centenas e milhares de missas que hoje estão disponíveis às pessoas nas suas famílias, Igrejas Domésticas, através das redes sociais. 
Porém, no meio de tanta coisa, não sei algumas coisas. Não sei, por exemplo, se alimentar as pessoas, replicando e tornando a replicar nas redes sociais, não será alimentar em demasia o mundo virtual em detrimento da realidade e da verdade das famílias reunidas por si mesmas e não por redes sociais! Assim como também não sei se nalguns casos não se trata de um aproveitamento, mesmo que inconsciente, para um certo egolatrismo! 
Não sei mesmo. Acho que cada vez sei menos!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Na lareira 1"

terça-feira, março 17, 2020

Os gestos covid

Ligou há pouco. Ainda não passaram dez minutos. Tem oitenta e sete anos. Mora sozinha. Nota-se que já tem alguma idade, como se costuma dizer, mas é uma mulher que se ocupa e que tem sempre algo para fazer. Ligou e fomos conversando, como quase toda a gente por estes dias, no maldito vírus. Eu disse-lhe que tinha de se proteger, cuidar, isolar e precaver porque, como ela já sabia, faz parte do grupo de risco. E ela respondeu-me que já falou disso com “o lá de cima”. Foram expressões suas. Disse-lhe que se já tivesse chegado a sua hora, que não havia problema pois já tinha muita idade e já tinha vivido o suficiente. Pedia-lhe apenas pelos filhos e pelos netos. Que os protegesse. Mas que se achasse que ainda não tinha chegado a sua hora, que agradecia que mantivesse o vírus longe. Ainda nos rimos um pouco os dois. 
Porque a conheço bem, sei que foram palavras sinceras. Uma oração sincera. Mas nisto diz-me. Ó senhor padre, como está aí sozinho, aí por volta das 13h eu levo-lhe aí o almoço. Tenho de andar um pouco, que me faz bem, e não posso abandonar o senhor padre, que está sozinho! 
Eu é que me devia preocupar com ela, que faz parte do grupo de risco e está sozinha, e, afinal, era ela que se preocupava comigo, o senhor padre que está sozinho. Sem palavras e comentários. Esse reservo-os no meu coração com pequenas gotas de lágrimas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

quinta-feira, março 12, 2020

esta hora covid

Escrevo com a sensação de que anda por perto alguma lágrima e, quiçá, entrando naquilo que eu me atrevo a chamar de “pânico de responsabilidade”, com decisões nas mãos para as lançar fora delas. Respiro fundo e sereno. Respiro fundo e digo para mim mesmo que vou serenar. Quem acha que tomar decisões pelos outros é fácil, que se desengane. Pelo menos quando o fazemos com consciência, sentido de responsabilidade e a pensar deveras nos outros, sobretudo os mais frágeis. 
Aqui, no meu pequeno mundo paroquial, sinto o peso de saber que devo tomar decisões equilibradas entre evitar a todo o custo os contágios, na expectativa de aprazá-los ao máximo para que as respostas de saúde possam ir surtindo efeitos, e evitar o pânico generalizado que nos mata por dentro e também nos impede de “viver”. Faz lembrar a notícia que ouvi esta manhã de um senhor que, por estar convencido de ter o coronavírus e porque não queria contaminar ninguém, se suicidara. 
Como o sociólogo Lipovetsky dizia, este vírus é sintoma da hipermodernidade, associado ao individualismo, a indiferença e a ligeireza como diagnóstico crucial do presente. A sociedade globalizada e móvel, que busca aceitar a diferença, mas que é cada vez mais indiferente, nesta hora obriga-nos a questionar os nossos alicerces. Queremos viver sem sofrimento e sem medos, mas isso não é possível sem responsabilidade, sem esperança, sem sacrifício e esquecendo o bem comum. E como cristãos, devemos encarar a vida como peregrinos, sabendo que a qualquer momento chega a nossa hora de ir para o Pai, mas ao mesmo tempo como bons administradores do maior dom que Deus nos concedeu, a vida que cada um de nós tem. Estamos, portanto, diante de uma realidade que nos assusta, mas que também nos pode auxiliar a fazer um exame de consciência pessoal e colectivo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sabemos pouco da vida"

segunda-feira, março 09, 2020

A igualdade das mulheres na Igreja

Li que um grupo de mulheres em Espanha, católicas assumidas, como se designaram, iam sair às ruas a pedir a igualdade. Li o texto com atenção, mas não o entendi. A peça jornalística referia que iam fazer uma manifestação diante dalgumas igrejas. Continuei a não entender.
Querer mais espaços na Igreja, mais papéis de liderança, mais voz é bom. Querer uma Igreja menos patriarcal e mais matriarcal, dentro dos necessários equilíbrios, é muito bom. É algo que também desejo. Mas invocam o princípio da igualdade e isso da homogeneização é algo que me incomoda. 
É uma tolice quando achamos que somos menos que os outros só porque não fazemos o mesmo. Esta coisa da igualdade impede a nossa diferença. Somos diferentes e precisamos da diferença que cada um é para se fazer a pluralidade e comunhão. Há coisas que as mulheres fazem muito melhor que os homens! E já o fazem em Igreja. E são igualmente Igreja como os homens o são no que fazem. Eu reconheço a corresponsabilidade das mulheres na Igreja. Como reconheço a corresponsabilidade dos leigos no geral. Ou dos religiosos. Ou dos homens. 
Nunca fui adepto do dia das Mulheres, como se houvesse necessidade de um dia para falar da sua dignidade. Para mim todos os dias são das mulheres. Como dos homens. Como da humanidade. Como de Deus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja das mulheres

sábado, março 07, 2020

A ‘minha’ ou a ‘nossa’ missa

Fora das chamadas missas pro populo e de algumas datas ou ocasiões especiais, pode haver aquelas que designamos como intenções de missa. As pessoas mandam sobretudo celebrar pelas almas dos seus defuntos. Assim também as chamadas missas de sétimo dia ou de notícia, algo que, antigamente, era no sétimo dia ou num dia de aniversário, e que agora é quando se pode, porque somos menos padres e temos mais paróquias. Aqui vou ensinando as minhas comunidades cristãs que celebro, não por causa de intenções, mas pela eucaristia em si. Tem melhorado a compreensão e o ritmo. Mas, ainda assim, nem sempre. É o caso das missas de sétimo dia, nas quais, algumas vezes, as pessoas dizem, como desta vez, a ‘minha missa’ ou a ‘missa da minha mãe’. Incomodou-me interiormente. Não o demonstrei. Sorri e aproveitei para ensinar, mais uma vez, que as missas não são particulares. São sempre comunitárias. Não disse o que pensei para mim. Mas escrevo-o agora, para que conste, ao menos, no meu pensar. A eucaristia não é posse de ninguém. A Eucaristia é eucaristia.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As missas ou missinhas"

quarta-feira, março 04, 2020

Como se aprende a rezar?

Era uma senhora discreta. Mas interessada. Dirigiu-se a mim com discrição e interesse. Senhor padre, como é que se aprende a rezar? Perguntou. Respondi-lhe com outra pergunta. Como se aprende a amar? Se era com teorias, com aulas, com leituras, em laboratório, em sonhos, em fantasias. Eu mesmo respondi e prossegui. Olhe que se aprende a amar, amando. E a oração é como o amor. É uma forma de namoro com Deus. Por isso também se aprende a rezar, rezando. Tal como se aprende a amar, amando, se aprende a rezar, rezando.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Rezar é falar com Deus"

sábado, fevereiro 29, 2020

sou uma casa [poema 244]

Em mim há uma casa habitada
Um lar que é uma casa onde moras

Gosto da palavra Lugar
E gosto de a gastar
Como me gasto a te habitar

quarta-feira, fevereiro 26, 2020

amazónias [poema 243]

As florestas sobre a terra
Quando se eliminam não voltam,
por dentro da terra onde não existiram, morreram

As aves não nascem nos céus, mas lhe pertencem
Quando partem, porque não querem
Perdem dos vôos o bilhete
De ida e volta

Os rios são as faces dos caminhos que percorrem
Levam água, trazem vida
Quando param, não são mais rios
São a morte parada, sem volta
Ao interior da terra

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

A sociedade irritada IV

A nossa sociedade gasta-se em opiniões. Aliás, não é ela que se gasta. Somos nós. Gastamo-nos em opiniões e contra-opiniões, mesmo não abalizadas. Só porque sim. Porque eu tenho direito e liberdade. As redes sociais e a globalização da diferença e da indiferença potenciaram o excesso de opiniões e a liberdade de se dizer o que se quer, sobretudo por detrás de um ecrã, porque não nos custa ter de enfrentar os olhos da outra pessoa que magoamos ou que contrariamos. O ecrã é o mundo das opiniões, por excelência. E hoje toda a gente tem uma opinião e se vale dela para existir, para se definir, para manifestar a sua personalidade, para se impor. Porque dificilmente o consegue de outro modo. É uma sociedade sem identidade, sustentada em opiniões mais do que na verdade! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A sociedade irritada I", "A sociedade irritada II" e "A sociedade irritada III"

sábado, fevereiro 22, 2020

Acreditas na Vida Eterna?

Na última sondagem, que indagava sobre os post preferidos de 2019, constatou-se que, supostamente, os melhores textos foram:
1. Rezar na verdade da dor

Pode rever os resultados no seguinte quadro, e pode rever os melhores textos dos anos anteriores, aqui.


Hoje, e quase a entrar na Quaresma, o período litúrgico em que nos preparamos para a grande festa da Páscoa, propomos uma nova pergunta que vem a propósito, não só deste período em si, mas por toda a envolvência em que nos encontramos na nossa sociedade portuguesa: "Acreditas na Vida Eterna?"

quinta-feira, fevereiro 20, 2020

eu thanatos e eu, padre

Como acompanhar pastoralmente uma pessoa que peça a eutanásia? Como conciliar o princípio da misericórdia com a necessidade de afirmação da doutrina? Fez as perguntas porque, como disse, conhecia casos de pessoas no estrangeiro que pediram a eutanásia e quiseram receber a Santa Unção. E rematou assim: Como procederias numa situação destas? E a esta questão ou conjunto de perguntas que me foram feitas há dias, poderia acrescentar outras tantas, da minha lavra. O que fazer se te pedissem um funeral religioso, com missa incluída, depois do defunto ter sido eutanasiado? Que dizer a um crente que é favorável à eutanásia e que participa activamente na comunidade cristã e/ou tem responsabilidades na mesma? 
Quando as primeiras perguntas me foram dirigidas, não imaginei o que teria de remoer, desculpem o termo, sobre o assunto. Na altura esbocei uma resposta breve e pouco reflectida. Não era uma resposta sem sentido, mas precisava, pelos vistos, ser mais sentida. Tenho-a carregado nos ombros, junto com as outras perguntas que, entretanto, diante da hipotética legalização da eutanásia, me foram inquietando na minha missão e vocação sacerdotal. Perguntas que me obrigaram, pelo menos, a não fazer de conta que não é necessário pensar em possibilidades que não pensava. 
A moral e ética cristã leva a opor-nos a qualquer afronta à vida humana, como dom de Deus, onde se inclui a eutanásia, a distanásia ou o suicídio assistido, porque o afã de dispor das nossas vidas, de certo modo, nos afasta de Deus, o único dono da vida. Mas isso não significa que este mesmo Deus não nos tenha dado a liberdade de sermos donos das nossas opções e de usarmos o livre arbítrio. O mesmo Deus infinitamente misericordioso. 
Tenho pensado muito nisto. Não concordo, de todo, com a eutanásia, distanásia e suicídio assistido. Sou de opinião que o sofrimento faz parte da nossa condição humana e tem muito sentido nas nossas vidas. Não quero assumir responsabilidades diante da morte assistida. Não sou favorável a criteriologias que separam as pessoas em categorias. Não quero fazer parte de uma sociedade da cultura de morte e do descartável, uma sociedade irresponsável e que vive de modas ou de opiniões. Mas também lembrei a minha reação natural perante casos de suicídio, onde sempre evitei julgamentos e acreditei na misericórdia de Deus. Lembrei as dores de quem sofre e precisa de mim, como padre, como amigo e como pessoa. O assunto é deveras difícil, inquietante e fracturante. Quem tenta ser sério a pensar nele, fica incomodado. 
Partilhei com um colega sacerdote as dúvidas e dificuldades nestes meus raciocínios e reflexões, e ele reagiu dizendo-me que continuaria a agir como se não estivesse no direito de julgar ninguém. Depois de o escutar e barafustar um pouco com ele, porque a sua resposta fora demasiado rápida e me parecera irrefectida, ele insistiu repetindo, quase sílaba a sílaba o que acabara de dizer. E, embora me custasse inicialmente, ajudou-me a amadurecer a reflexão. Pois do mesmo modo que nunca julguei nem quis julgar alguém que se suicida, também não devo julgar quem quer que seja pelas suas opções erradas. A mim cabe-me, pertence-me, é minha missão, ajudar as pessoas a fazer as melhores opções. Ajudá-las a pensar para além delas e do seu sofrimento. Fazer os possíveis para dar mais formação aos nossos cristãos, em particular os meus paroquianos. Mas depois, se calhar, devo deixar que Deus faça o seu trabalho. Porque não me pertence julgar. Pertence-me amar! Mesmo que, amando dessa maneira, o meu coração sofra por dentro. Amar é mais importante do que o meu sofrer!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte VIII, preparada"

segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Eu thanatos II

Uma amiga, para validar a sua opinião acerca do assunto, mostrou-me uma espécie de carta de um doente com Arthogripose Congénita Dupla, em que este alegava ter direito de pedir a eutanásia e direito a escolher o que fazer com a sua vida. 
Ora, como disse à minha amiga, também eu me comovo com o sofrimento e desespero das pessoas. Mas não me demito de as ajudar a vencer esse sofrimento e desespero. Não obstante isso, ao seu alcance permanece sempre o direito de escolher entre viver ou acabar com a sua vida, através do suicídio, embora, como é natural, eu não concorde com ele. O que a mim sinceramente me custa é que uma responsabilidade pessoal que constitui a tal possibilidade de escolha, se torne uma responsabilidade colectiva, ainda por cima de todo um colectivo que devia fazer tudo para auxiliar as pessoas a viver e não se demitir desse papel com tanta leveza, sem ao menos proporcionar cuidados paliativos, afectivos e solidários! 
Eu também não quero decidir sobre a vida dos outros. Não julgo quem se suicida. Evito julgar o desespero das pessoas. Mas, tanto a eutanásia como o suicídio assistido não podem ser um tratamento médico. Por isso afirmo que a liberdade de escolha dos outros não pode tolher a nossa confiança em médicos que deveriam sempre fazer tudo e o máximo pela defesa da nossa vida. Para isso é que estudaram e para isso fizeram o Juramento de Hipócrates. 
De facto, não é a legalização de uma lei que me vai obrigar a mim ou a quem quer que seja a fazer a opção pela eutanásia. Mas responsabiliza-me, como cidadão, por ela, e eu também tenho a liberdade de não querer essa responsabilidade e que seja respeitado nessa opção!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Especial Diana"

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

Eu thanatos

Ontem foi a sepultar uma senhora que viveu os últimos dias a sofrer. Acabara de dar entrada numa unidade de Cuidados Paliativos, a uns bons quilómetros da sua casa, quando faleceu. E antes de fazer a viagem para fazer o funeral, fui visitar o meu pai nos Cuidados Continuados, onde se encontra com leuco-encefalopatia bilateral isquémica, ou seja, irrigando cada vez menos o cérebro. Por sinal, na altura com bastante consciência, ao ponto de chorar compulsivamente quando me viu, coisa que me assustou, por dentro e por fora. Coisa que me levou ao mais fundo de mim em busca dos porquês do sofrimento. E falo destas coisas porque me incomoda a leveza com que se trata de despenalizar a eutanásia ou promover que se possa acabar com o sofrimento acabando com uma vida. Mesmo sabendo que a minha missão de Igreja, como padre ou como leigo, mais do que evitar o decreto dessa lei, é ajudar a entender como incorporar, viver, lidar, aceitar e dar sentido ao sofrimento. 
E a minha homilia, reforçada pela forma como a senhora vivera os últimos dias, pelo que havia sentido na visita ao meu pai e pela viagem que fizera com lágrimas nos olhos, foi sobre o modo como, nós cristãos, encaramos ou devemos encarar o sofrimento. Refiro-me não àqueles cristãos que alguns pseudo-intelectuais gostam de designar como coitados, ignorantes, retrógrados ou submissos religiosos. Mas como aqueles cristãos que, na sua debilidade, sabem ser fortes. 
O sofrimento, afinal, reconhece a nossa condição humana e a nossa necessidade de transcendência. Afasta-nos da autorreferencialidade e autossuficiência. Não, nós não somos autossuficientes. O sofrimento faz-nos pensar para além das nossas capacidades, interesses e bens. É na debilidade que melhor pode sobressair a entre-ajuda, a solidariedade, a caridade. E é o que, provavelmente, melhor nos religa a Deus que também sofreu e morreu na cruz por nosso amor. Nós, os cristãos, sabemos ou devemos saber que o sofrimento tem sentido e aproxima-nos de Deus. Pode parecer que não faz sentido sofrer, mas faz sentido sofrer ou saber sofrer com sentido. 
O sofrimento não é um fatalismo sem saída. Todos nós já passámos por sofrimentos dos quais pensávamos não conseguir sair e nos fizeram pensar que já não valia a pena viver, sem que isso beliscasse a dignidade da nossa vida. O sofrimento, o debilitamento, a perda das capacidades, fazem parte da nossa vida. Como podemos chegar ao ponto de pensar que uma pessoa que perca capacidades, sejam elas físicas, biológicas, psíquicas ou emocionais, já não conta na sociedade e seja tratada como de segunda categoria? Recuso-me a aceitar que haja vidas de primeira e vidas de segunda categoria. Recuso-me a aceitar que se diga que a eutanásia é morrer com dignidade, como alguns argumentam. Não me parece que um soldado enviado para uma batalha e que foge dessa batalha seja mais digno do que aquele que decide enfrentar a batalha. Os grandes heróis não são os que, perante o sofrimento decidem acabar com tudo, mas os que, diante do sofrimento, decidem ser fortes.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Dona da minha vida"

terça-feira, fevereiro 11, 2020

Então já não há extrema-unção?

Esta tarde ligaram-me de um número que não conhecia, com este pedido urgente. Senhor padre, o meu pai quer receber a extrema-unção. Está com alzheimer associado a demência natural. Insiste em falarmos consigo, porque está a morrer e quer receber a extrema-unção. Cada vez que o filho utilizava esta palavra para designar o sacramento da Unção dos Doentes, eu interrompia e dizia: Unção dos doentes. Unção dos doentes ou Santa Unção. Mas podemos ir ter consigo, senhor padre? O meu pai não se cala. Como se fosse apenas para o calar. 
Tinham de fazer uma pequena viagem de carro. Por isso tardaram um pouco. O tempo suficiente para, ao cruzar-me com uma amiga destes amigos, parar para cumprimentar e ouvir. Olhe, senhor padre, já deu a extrema-unção ao senhor tal? O filho anda aflito! Não sabe o que fazer! Unção dos doentes. Insisti. Olhou para mim com olhos de quem pergunta Mas já não há extrema-unção? 
Na verdade, por mais que falemos destas coisas na comunidade cristã, nem sempre estão atentos, ou nem sempre estão. Digamos, portanto, que foi uma oportunidade para explicar o que é este sacramento. O seu porquê. O seu sentido. Que não se pode pensar como um sacramento de mortos. Todos os sacramentos são dos vivos e para os vivos e este é, especificamente, um sacramento para dar força, ânimo e vida. Por isso não se deve esperar, in extremis, pela hora, como se fosse um sacramento dos mortos ou dos que estão quase a morrer, e apenas para que se possam salvar.
Ainda o meu latinório ia a meio, quando ela, com pressa, perguntou: Então já não há extrema-unção?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Vivemos para morrer."

sábado, fevereiro 08, 2020

Coração calado [poema 242]

Cala-se o coração, porque envelhece,
E perde as suas palavras em muitas dores
Que vão com lágrimas pelo caminho eterno
Pelas várzeas, como procissão de andores

Cala-se porque perde a voz que não tinha
Os poemas que declamava no abraçar de olhos
Porque os donos da maldade, em falsa mansidão,
Compram e vendem corações entre os escolhos.

E cala-se o coração, porque é coração.
Porque a sua história é viver a sentir
nas entranhas, como oração

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

A fuga do silêncio

Temos medo do silêncio. Na nossa sociedade ruidosa temos medo de fazer silêncio. Por isso, mesmo quando não se fala ou não se tem com quem falar, como é o caso de andar de metro, comboio, autocarro, ou simplesmente a pé, ali vai toda a gente com auscultadores nos ouvidos a passar música. Temos medo do silêncio exterior e interior, que nos faça dar conta de nós próprios e daquilo que somos na verdade: um pequenino corpo da criação de Deus. Temos medo do silêncio e por isso não conseguimos escutar o outro. Se não conseguimos escutar o outro, como conseguiremos escutar Deus? Temos medo do silêncio e não fazemos silêncio para ouvir Deus. Por isso a oração que fazemos é mais a falar que a escutar. Falamos mais que ouvimos. Por isso não damos conta de que Ele fala. Por isso nos queixamos que Ele não nos fala. Por isso fugimos do silêncio e achamos que Deus está em silêncio.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A vida"

sexta-feira, janeiro 31, 2020

sondagem "best post" 2019

Deixamos os resultados da última sondagem que perguntava sobre o que nos lembrávamos, em primeiro lugar, quando pensávamos no Natal.

Iniciamos, igualmente, uma nova sondagem, no lado direito do sidebar, para perguntar qual foi, na nossa opinião, o melhor, mais tocante ou mais interesante texto não poético de 2019. Os 10 textos a votação foram seleccionados de acordo com as indicações dos "penitentes" deste espaço e de acordo com a minha apreciação. Quem os quiser "revisitar", tem os links respectivos abaixo da sondagem.
Bem haja pelo vosso interesse e colaboração!

segunda-feira, janeiro 27, 2020

"best post" 2019

Embora sabendo que não é o mais importante, é uma boa desculpa para revermos e relermos textos. Assim, peço a vossa ajuda para seleccionar aqueles textos/prosa que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes em 2019. Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Deixo algumas sugestões, de acordo com a minha apreciação particular, mas podem indicar outros que aqui não se encontrem linkados. Agradeço desde já a vossa participação e colaboração. 

Como nas outras ocasiões, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. Podem sugerir outros que não estejam nesta selecção. A mim fez-me bem relê-los. Pode ser que faça bem a mais alguém. Nota que os poemas não entram nesta sondagem. 

Quem quiser dar uma espreitadela aos "best post" de 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018 clique AQUI

Janeiro

Pesquisar Jesus na Internet


As freiras missionárias


Deus não nos resolve a vida


Deus resolve-nos a vida

A leiteira de S. Paulo



Fevereiro

A carta de um filho ao seu pai que partiu.

O último José




Março

Rezar na verdade da dor




Abril

A Rosário, apertada pela vida

A tradição da procissão de Páscoa



Maio

Rezar antes das refeições

cristão, católico, religioso,clérigo, consagrado, leigo, fiel…

Aos olhos de Deus somos todos iguais



Junho

A vida vestida de branco

Ser leigo na Igreja

A oração do meu pai



Julho

A resposta

Quanto mais acredito, menos faço



Agosto

Os padres santos e pecadores



Setembro

E se Deus fosse um de nós?

Cumprir a fé



Outubro

esta coisa da ressurreição da carne está mal explicada, não tá?

Falemos de missão ou outras coisas

Missas dominicais ou mais ou menos isso

Os ultras



Novembro

Ser santo é caminhar na santidade

O morto que não queria nada com Deus



Dezembro

O cão pregador

O telemóvel e a missa

O menino que nasce no meio da porcaria