segunda-feira, setembro 26, 2022

Os pecados simplesmente

A senhora Antónia, que o nome me parece bem para a circunstância, faz parte do grupo de pessoas que tem medo de Deus por causa de achar que Deus castiga quem peca. No mínimo com o inferno. Por isso anda de roda dos padres à procura de sítio para entrar no céu, presa a alguma batina. E não se cansa dessa missão. Volta e meia, volta à carga com a sua aflicção. 
O pecado, minha estimada senhora Antónia, não existe para termos medo de viver. Existe como forma de ser pedra no caminho, e tanto pode servir para asfaltar a estrada, como pode servir para tropeçar na estrada. Viver o pecado com medo é o mesmo que ter medo da criação de Deus e do projecto de Deus para a criação. Como se Deus inventasse a criação de forma errada, por engano ou lapso. Como se Deus quisesse humilhar a sua criação imperfeita e assim deixasse claro quem mandava e quem tinha de obedecer. Como se Deus tivesse criado a humanidade para ter pena de nós. Não. Os pecados não são uma muralha. São uma ponte. São a humanidade que caminha na direcção do Deus perfeito e feito de amor. Perfeito no amor. O Deus que nos criou imperfeitos para nos amar como somos, na necessidade de caminhar para ser melhor. Esse caminho a que chamamos caminho da santidade.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sinto-me uma pecadora"

quarta-feira, setembro 21, 2022

O nosso senhor padre antigo

Numa troca de palavras com uma dezena de paroquianos, uma senhora, ao falar de um colega padre que fora o pároco deles há umas dezenas de anos, usou o termo “o nosso senhor padre antigo”. Olhei para ela com admiração e manifestei-lhe a minha alegria por ouvir falar do meu colega com esta designação, como se algo dele ainda restasse e quedasse neles. Como se ainda lhes pertencesse pelo bem que lhes fez. 
As pessoas que passam nas nossas vidas e nos deixam marcas são sempre um pedaço de nós e em nós permanecem desse modo. Por isso aquele meu colega ainda era um senhor padre deles, ainda que mais antigo do que o que aquele que tinham agora à frente dos rumos da paróquia. Foi muito bom ouvir aquelas palavras.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O padre que decidira deixar a comunidade sem padre"

sábado, setembro 17, 2022

Agarrado pelas mãos

Nos últimos dias vive entre picos de febre e rastos de febre. Come menos, segundo as cuidadoras me contam. Mas o rosto não engana. Come muito menos. Já fez alguns exames, mas apontam a nada que signifique algo concreto. Eu sei que a idade tem estas coisas e que a doença dele as destapa. Pouco olhou para mim desta vez. Nem os olhos ficaram parados. Ou se estavam parados, eu não via porque estavam igualmente fechados. Desta vez só as mãos falaram. O meu coração sente que a hora se torna mais visível e mais dolorosa. A enfermeira não o esconde. Eu gostava que ela o escondesse para eu pensar que eram apenas ideias minhas vindas da saudade e de um coração que deve tanto a quem nos dá a oportunidade de viver. Ao percebê-la, a lágrima cai pela máscara. Ninguém dá conta. Ele está no mundo dele e a enfermeira virou costas. Dou-lhe muitos beijos através da máscara. Encosto a minha face aos seus lábios e peço um beijo. Ele deu. Um beijo muito apagado, mas que guardei como se fosse o beijo mais expressivo do mundo e arredores. Foi o sinal mais positivo do meu paizinho nesta tarde. Enorme sinal. A ajudá-lo, as mãos agarradas quase o tempo todo da visita. Muito agarradas. Só me lembrava que eram o pedido para as não largar. No final decidi que em breve irei de novo, mas com os óleos dos enfermos na minha mala.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O tempo do meu pai"

quarta-feira, setembro 14, 2022

os pecados e as pessoas

No mundo há, a meu ver, quatro tipos de pessoas que se relacionam com o pecado de modo diferente. Existem pessoas constantemente aflitas por causa dele. Fazem parte de um modo de ser Igreja que aprendeu a viver a fé presa ao antigo e com o pecado repetidamente a entrar pelos ouvidos e pela cabeça. Não conseguem deixar de ter medo de Deus que castiga os pecadores. Existe, no sentido oposto, um grupo de pessoas, substancialmente maior, que vive sem pecado, porque o que uns chamam de pecado outros lhe desconhecem o nome e o sentido. Ou não querem saber destes pormenores da vida da Igreja ou minimizam-nos. São o segundo e terceiro grupo de pessoas a que me refiro. Os que minimizam o papel e significado do pecado fazem parte dos que, de certo modo, podemos denominar de progressistas. Com base no amor infinito de Deus, desculpam com isso todas as suas falhas. Ultrapassam o pecado fazendo de conta que ele não tem peso ou pesa como um pequeno grão de pó numa balança. Também neste lado estão as pessoas para quem a vida não precisa destas coisas de Deus e se riem do que os católicos chamam de pecados. Vivem sem a consciência de pecar. O pecado é um termo que não faz parte das suas vidas e do seu mundo. E mesmo que a consciência os acuse de algo, nunca lhe dão o nome de pecado. Existem ainda aquelas pessoas que encaram com naturalidade o seu pecado e tentam incorporá-lo, para poderem lidar com ele e o superar. Não vivem com medo de Deus, e usam os pecados como ocasiões para fortalecer o caminho para Deus. É que essa fragilidade os faz reconhecer a necessidade do amor de Deus na forma de perdão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Senhor, toma o meu pecado"

sábado, setembro 10, 2022

Testemunho sem nome e sem medida

A filha mais nova morrera com meningite. Tinha pouco mais de três anos quando o fatídico sucedeu. Os pais ficaram destroçados, como é de imaginar, e esqueceram que tinham outro filho, um pouco mais velho, com a idade suficiente para pensar estes acontecimentos e achar que os pais estavam perdidos e focados na morte da filha, esquecendo que eles próprios tinham uma vida e outro filho a precisar deles. 
Um dia, já lá iam vários meses da morte da irmã, o filho decidiu confrontar os pais com estes pensamentos, pedindo-lhes que não se esquecessem que ele existia, estava vivo e precisava deles. No seguimento da conversa, rogou-lhes que fossem ao jogo de futebol que ele tinha no dia seguinte, para o aplaudir e para o acompanharem num momento que lhe era muito importante. Os pais, caindo em si, decidiram acompanhar o filho. E lá estavam, naquele dia, na bancada do campo de futebol para se fazerem presentes na vida do seu filho, quando uma trovoada irrompeu pelo meio do jogo e um raio atingiu o filho que lhes restava, acabando por lhe tirar a vida. Ficaram sem chão, sem tecto, sem paredes, sem nada. 
A mãe contava tudo com os olhos lacrimejantes. Mas vivos. Haviam passado muitos anos. E ela não tinha deixado morrer a sua vida. A conversa que estava a ter com outras mães versava sobre a fé, sobre a sua necessidade, sobre os seus frutos e sobre a importância de Deus nas nossas vidas mesmo, e sobretudo, no meio das adversidades e afrontas. Quem a escutava perguntava como é que ela e o marido haviam conseguido ultrapassar e lidar com isto. E aquela mãe explicava que só a fé a ajudara a viver com esta dor. Ela que, antes da morte dos filhos, não tinha fé, passara a tê-la. Mais, dizia que não tínhamos nada e sabia que os filhos que trouxera ao mundo eram mais de Deus que dela. No entanto, sempre que rezava, os filhos voltavam a ela. Voltavam com Deus. E assim, em Deus, continuava a ter muito dos filhos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A Olímpia e o milagre da vida"

terça-feira, setembro 06, 2022

O direito ao aborto

Ao contrário de algumas que o pensam mas não o conseguem dizer na minha frente, uma jovem da comunidade dizia-me abertamente que era a favor do direito ao aborto. A conversa não estava inflamada nem tinha a ver com quem ganhava ou tinha os melhores argumentos. Era uma conversa franca e aberta, como deveriam ser todas as conversas onde a Igreja se faz presente. A Joana dizia que as mulheres precisavam ser defendidas e tinham o direito de optar. Portanto, o foco da Joana eram as mulheres. As mesmas mulheres que, por exemplo e como lhe lembrei, morrem em embarcações para fugir de guerra, com a designação de refugiadas, e não se defendem com tanta veemência. Essas morrem esquecidas. Também a Joana dizia que muitos dos que defendem o não ao aborto são os mesmos que defendem o porte de armas ou a construção de muros entre países. E tem razão a Joana. Nisto concordámos. E embora o seu foco continuasse preso na mesma linha, abrira a possibilidade de falarmos da diferença entre legislações, direitos e bem comum ou bem das pessoas. A missão do legislador não é impor a moral, mas buscar o bem comum. Na verdade, descriminalizar o aborto não significa que haja direito de abortar. Assim como, por exemplo, descriminalizar a prostituição não significa que haja direito de se prostituir ou de procurar prostitutas. O que nos deveria preocupar não eram os direitos ou as leis que favorecem ou desfavorecem opções, mas as opções que fazemos. O nosso foco não deveria estar no bem particular de cada um, mas no bem comum, no bem da humanidade, no bem da criação. Pode parecer um exemplo despropositado, mas eu li-o algures. Uma coisa é a obrigação de não maltratar os animais e outra a de conceder direitos aos animais. No final da conversa nenhum dos dois mudou de opinião. Eu sou contra o aborto e ela a favor do direito de abortar. Proporcionou-se, porém, um diálogo muito interessante, que talvez tenha mudado o foco da Joana e, ao menos, me fez pensar que uma coisa é o direito ao aborto, direito que ninguém deveria ter, e outra a sua descriminalização. Uma coisa é o que a lei descriminaliza e outra um direito ético. Uma coisa são os interesses de cada um ou cada uma e o projecto da humanidade e da criação.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Devo o meu filho à minha mãe"

quinta-feira, setembro 01, 2022

Um concílio desconhecido

Já não é a primeira vez que falo do Concílio Vaticano II nas homilias. Os meus paroquianos hão-de saber, ao menos, que existiu algo tão importante que mudou substancialmente o rumo da Igreja, que passou a ser um pouco mais comunhão que elite, um pouco mais aberta ao mundo que fechada em si, entre outras tantas ‘revoluções’ que pediram uma Igreja mais humanizadora, aberta, participativa, corresponsável e missionária. 
Contudo, as senhoras da paróquia não sabiam o que isso era. Não sabemos nada dessas coisas dos concílios, diziam. Claro que não sabem, porque ainda somos fruto de uma Igreja que não ensinava senão a moral e os costumes. Somos fruto de uma Igreja de promessas, devoções, procissões e sacramentos para assinalar estados de vida. As homilias são, muitas vezes, o único momento de formação dos nossos cristãos. E são também, outras tantas muitas vezes, um espaço de palavras piedosas sem mais. Embora elas devam ser uma actualização da Palavra de Deus nas nossas vidas, não chega fazer homilias piedosas. É preciso ajudar as pessoas a entender a essência do cristianismo, pois só assim se consegue entende o que é ser cristão. Por isso perguntei a uma destas senhoras boas da paróquia, uma daquelas que a idade já marcara, se tinha memória da missa passar a ser dita em português, na língua vernácula. Ah isso, sim. E de o padre deixar de celebrar de costas para o povo. Ah isso também. Ora, essas mudanças, e muitas outras similares, foram operadas a partir deste concílio. Ah, então esse concílio deve ter sido uma coisa muito boa, senhor padre. Pois foi, pois foi.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja formatada"

domingo, agosto 28, 2022

o tempo do meu pai

O tempo parou nos teus olhos parados. Parei-o sem querer, no esboço de um sofrimento que não sei medir, porque tu não o sabes dizer ou expressar nesta fase da doença e da vida. O teu olhar vazio. O meu olhar cheio. Cheio de tanta inquietação e pergunta. De tanta saudade. A saudade das conversas enormes sobre a vida e sobre a banalidade das coisas no sentido maior delas. A saudade de falar contigo abertamente sobre as nossas coisas, de pai e de filho. A saudade de te ver a viver, de um lado para o outro, a rezar com o terço na mão, a fazer o comer sobre a banca da cozinha, a sorrir. Sim, a sorrir por debaixo do bigode e por dentro dos óculos. O que mais dói é que quem olha para o teu olhar vazio não sabe nunca o que os teus olhos pensam, sentem ou estão a ver. É a incerteza do que sentes que mais dói. 
Hoje parei o tempo de mãos dadas com o meu pai na casa de cuidados onde é cuidado. Sem palavras. Mesmo sem palavras para os pensamentos. Sem reações. Dele ou minhas. Restou a forma de amar no silêncio das palavras e das manifestações. Restou estar ali a olhar para o pai que me ofereceu a possibilidade de viver. E a amá-lo, olhando-o e passando a minha mão na sua face enrugada e encovada. Cada vez mais encovada. Rezei. Claro que rezei. Rezei para dentro e para fora, de modo que ambos me ouvissem, o meu pai e o pai do céu. Que mais podia fazer senão oferecer tudo a Deus. Entregar-lhe quem tanto amo. Entregar quem tanto amo a quem tanto amo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

quinta-feira, agosto 25, 2022

pessoas que são pedras [poema 352]

na vida existem pedras que são pessoas no caminho

pedras que são pesadas ou atiradas,

pedaços de vida que crescem e são

escadas,

 

pedras que andam e nunca vão a sós,

embora partam de corações partidos

e nos muros cheguem a sangrar,

para construir as torres dos castelos

que um dia hão-de ser 

 

histórias de encantar

domingo, agosto 21, 2022

O padre de férias

O telefone tocou várias vezes. Chamadas de números diferentes, mas coincidentes no propósito. Senhor padre, eu sei que está de férias, mas precisava de um documento. Padre, eu sei que está de férias, mas precisava falar consigo. Padre, olhe, eu sei que está de férias, mas precisava marcar um baptizado. 
Claro que para Deus não há férias e o ministério do padre também não tem férias. Não há uma hora ou umas horas para ser padre. O padre é-o por inteiro, em todo o lado e em todo o momento. Igualmente nas férias. E também deve primar pela disponibilidade. Contudo, depois de saberem que o padre estava de férias, como afirmaram ao telefone, e depois deste ter informado a paróquia com antecedência que ia estar de férias entre os dias tal e tal, e que se tivessem assuntos para tratar o fizessem atempadamente, não seria oportuno também deixar o homem descansar?!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o 'tem de'"

sexta-feira, agosto 19, 2022

dentro [poema 351]

gosto de guardar as coisas para dentro

tenho esta mania de escondê-las para as não ver

com os olhos abertos

 

gosto de viver por dentro das coisas

no movimento que entra e sai sem o ranger das portas

e entro por fora e fujo por dentro

de olhos fechados,

a ver.

segunda-feira, agosto 15, 2022

Passar de uma pastoral dedutiva a uma pastoral indutiva

A nossa acção pastoral tem partido, erradamente, do pressuposto divino para chegar ao homem, quando devia partir do pressuposto humano para chegar a Deus. No meio da secularização em que vivemos e no meio de um enorme desinteresse das coisas de Deus, pelo menos as que estão personalizadas numa Igreja que se tem tornado irrelevante às novas gerações, deveríamos, na minha humilde opinião, deixar a pastoral dedutiva para passarmos a uma pastoral indutiva. Deveríamos partir da experiência humana para a iluminarmos com a experiência divina e não ao contrário. Não falar do ser humano a partir das realidades religiosas, mas falar de Deus a partir do ser humano. Não deveríamos gastar as nossas energias em apresentar Deus de uma forma dogmática, moralista e sacramental, mas sim um Deus que constantemente se aproxima do homem na sua humanidade, entendida esta humanidade como forma natural de se viver. Nos tempos que correm, já ninguém aceita passivamente uma doutrina que nos ensina a existência e soberania de Deus, por mais que se diga que Ele é amor. Porque só se chega à fé através de uma relação com Cristo experimentada na realidade quotidiana.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Pastoral de gestação"

quarta-feira, agosto 10, 2022

Assim é que querem que os jovens vão à igreja?!

Já não via há bastante tempo a cara daquela mãe. Não tem aparecido na missa nem outros actos comunitários. E também não nos temos cruzado na rua. Mas, porque se o filho tivesse concluído a catequese sem faltar poderia crismar-se no final do ano, veio ter comigo à sacristia para dialogar sobre a possibilidade deste fazer o crisma juntamente com os colegas que foram assíduos à catequese, nunca disseram, como ele, que preferiam não ir à catequese e nunca responderam mal à catequista quando esta perguntara porque faltara. Agora o discurso, pelos vistos, mudara. E a mãe que, segundo me disse, não sabia de nada e, tal como era previsível, a culpa era da catequista que nunca lhe dissera nada, agora estava preocupada. Há cerca de um ano que o filho não quer saber da catequese nem a mãe saber se o filho ia à catequese. Mas agora estava preocupada porque achava injusto o filho não fazer o crisma. Claro que lhe foram sugeridas várias soluções, mas ela só queria a que tinha na cabeça: fazer já... porque para o ano ele desiste. Como se ele não tivesse já desistido. Entretanto, para conseguir os seus intentos e porque tardava em consegui-los, achou que chantagear com a típica frase “Assim é que querem que os jovens vão à igreja?!” era o último recurso. Enganou-se, porque nem ela nem o filho vão à igreja. E por isso foi fácil perguntar-lhe qual seria a diferença entre estar crismado e não estar crismado para o filho e sua mãe irem à igreja.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

quinta-feira, agosto 04, 2022

Um Deus abaixado

Quando penso na encarnação de Deus, não me contento com a alegria do seu nascimento entre nós. Não me contento em apreciar como assumiu a nossa humanidade em todos os seus aspectos, inclusive o sofrimento, dor e morte. Estou convencido que o propósito de Deus na encarnação não era mostrar-nos o seu poder omnipotente e omnipresente. Um deus que tornara capaz assumir uma humanidade ou um deus capaz de se fazer presente até na humanidade. O seu propósito era pôr-se a caminho connosco. Quando imagino um Deus que morre de braços abertos numa cruz, ladeado por dois criminosos, só posso pensar que Deus se abaixou aos homens todos, a começar pelos mais indigentes, pelos menos apropriados, pelos menos contados, pelos que um poderoso deus não poderia igualar-se. O nosso deus é um Deus abaixado até aos abaixados dos abaixados. Nisso está o seu maior poder.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A justiça de Deus"

segunda-feira, agosto 01, 2022

na sombra [poema 350]

vivo à sombra das horas, que se prolongam ao entardecer

vivo numa imagem sem rosto e sem cor, colado, e digo 

a esquecer

 

que fazes aqui, meu amo, e te vejo dentro sem te ver?

 

vivo à sombra das coisas, 

sempre a aparecer.

quinta-feira, julho 28, 2022

O padrinho não baptizado

Ó senhor padre, estou a ligar-lhe porque tenho uma prima que quer batizar o filho, mas tem uma dúvida: o padrinho da criança não está baptizado. Há algum problema em relação a isso? 
O padre quase petrificou diante da pergunta que lhe fizeram ao telefone e tardou uns segundos, que pareceram anos, a recuperar da quase petrificação. Partiu do princípio de que o padrinho estava escolhido, estava convidado e só não estava baptizado. Porque a pergunta não era sobre se podiam escolher um padrinho não baptizado. Era se havia algum problema por o padrinho não estar baptizado. 
Talvez o pobre padre até tenha exagerado na reação escondida por detrás do telefone, pois há muitos padrinhos baptizados e crismados que não cumprem o papel que assumem no baptismo dos seus afilhados. Além disso, se o desconhecimento, para não dizer ignorância, das pessoas nas coisas da fé é enorme, muito se deve a uma Igreja que se preocupou mais em fazer sacramentos do que em formar para eles, em dar o que as pessoas pediam do que em provocar experiências de encontro com Cristo. Reconheçamos ainda que grande parte dos pais que pedem baptismos para os seus filhos o fazem por questões afectivas, sociais e culturais. Nesse sentido, o padrinho só precisa de ser afectivamente importante para os pais e eventualmente para a criança que vai a baptizar. Portanto, que problema tem escolher um padrinho que não está baptizado? Nenhum. É igual ao litro. Ou então não. E depois do padre ter respondido amavelmente à pergunta que lhe tinham feito, ouviu do outro lado o habitual “os padres só complicam”. E o telefone desligou-se.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Deus de folga"

domingo, julho 24, 2022

a missa dela

O pároco encontrou-se com ela na rua, um dia depois do baptizado do filho, que ocorrera na eucaristia dominical. Tinha sido uma festa bonita e, por isso, enquanto a saudava, o padre manifestou, com naturalidade, este sentimento. O que ele não esperava era a reação fria da senhora que, imediatamente, lhe disse que não gostara porque, num dia de festa de celebração da vida do seu filho, o padre tinha celebrado por mortos. O que é compreensível porque, nestas paróquias pequenas, as pessoas mandam celebrar pelas intenções dos seus mortos nas eucaristias dominicais e o pároco só tem obrigação de celebrar uma missa sem intenções, a chamada missa pro populo. A eucaristia é de todos e de toda a comunidade. A senhora, que até nem costuma ir à missa, estava indignada porque aquela era a sua missa. Só faltou dizer que a pagara e que o padre apenas tinha de fazer o serviço que lhe pedira. Lá voltamos ao de sempre. Por mais que um padre se empenhe e esforce em fazer destes sacramentos um momento excelente de evangelização, com a alegria que brota do Evangelho, nos tempos que correm, nesta Igreja prestadora de serviços sem fé ou com uma fé infantilizada, um encontro de rua que podia ser um momento de comunhão tornou-se um momento desagradável, para não dizer intragável.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma benção especial de alianças"

terça-feira, julho 19, 2022

A Igreja líquida

Leio muito sobre a Igreja. Gosto de pensar a Igreja na sua eclesialidade. Gosto de reparar atentamente no rumo dela e no que falam dela. Procuro entendê-la por dentro, se isso é possível. Não tenho certeza que seja, mas procuro olhá-la fundo, por detrás dos acontecimentos e dos milhares de palavras que vou lendo sobre ela. E nos últimos tempos, numa das minhas constatações, fiquei um pouco inquieto, isto é, com vontade de deixar um grito sufocado tornar-se um grito amplificado. 
Hoje a Igreja vai tomando decisões por pressão da sociedade e não por decisão própria. Se há umas centenas de anos ela influenciava ou fazia por influenciar a sociedade, agora é um pouco mais ao contrário. E se isso é interessante, porque significa que ela ouve a sociedade que deve ouvir, também temo que, numa sociedade de opiniões e aparências, ela se deixe moldar por opiniões ou por agrados. Numa sociedade líquida facilmente a Igreja se pode tornar uma Igreja líquida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amanhã vou comprar mais luz para esta igreja"

sábado, julho 16, 2022

os custos do gasóleo

Os custos com o gasóleo e a gasolina estão por demais. Cada cêntimo poupado parece um ordenado ou sabe a uma vitória. Anda tudo à procura das gasolineiras onde estão os maiores descontos. Encontrei uma e aproveitei para atestar. Não consegui calar a mangueira a tempo dos 74 euros e o custo foi parar aos 74 euros e três cêntimos. Quando fui pagar, entreguei à jovem empregada várias notas num total de 75 euros e, para lhe facilitar a vida, entreguei-lhe três moedas de um cêntimo. De troco, entregou-me 1 euro e trinta cêntimos, e o tempo de regresso ao carro foi gasto a pensar que a conta deveria estar mal feita. E estava. Assim que olhei bem o recibo, percebi que ela se enganara e me dera 30 cêntimos a mais. Com os 30 cêntimos na mão, voltei à loja, dizendo-lhe que se enganara. Muito aflita, respondeu que já me dava 1 euro, pois que se devia ter esquecido. Quando lhe expliquei que o engano era a seu favor e que aqueles 30 cêntimos eram seus, ficou a olhar para mim como se não fosse normal alguém dar-se ao trabalho de devolver aqueles poucos cêntimos que toda a gente anda a tentar poupar. Eu também.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A irmã Graça"

quinta-feira, julho 14, 2022

sou uma floresta [poema 349]

não 
chove há muito tempo em mim 
sou a árvore seca da floresta a andar 

senão 
para voltar a vaguear no caminho escuro que eu sou, 
e onde desenho as flores que são também florestas 
em busca do alto mar 

sou 
uma floresta ao amanhecer 
embora as raízes da terra me anoiteçam 
a crescer para o céu 

sou quase 
uma floresta, por dentro, a arder

sexta-feira, julho 08, 2022

Uma comissão sinodal pouco sinodal

Estive presente num encontro onde foi possível escutar algumas partilhas sobre o sínodo que está a decorrer na Igreja. O Papa Francisco convidou a Igreja a fazer um sínodo para pensar a sinodalidade da Igreja, com a durabilidade de dois anos, começando pelo que alguns designam como “bases” e que eu prefiro designar como “a base” da Igreja. Tudo começou pelas comunidades de todo o mundo, constituindo-se e criando-se, para o efeito, grupos, sobretudo laicais, e estratégias de partilha, diálogo, participação e comunhão. Cada conferência episcopal tem agora de redigir, com base em relatórios das suas dioceses, um relatório nacional para fazer chegar as vozes de toda esta base ao Vaticano. 
Para já, estamos a ultimar esta primeira fase do sínodo que tem três fases. É uma grande graça e há já quem diga que, depois do concílio Vaticano II, este poderá ser o maior evento da Igreja católica. Concordo em absoluto, embora ainda tenha as minhas desconfianças dos seus frutos práticos. Até porque depende de uma conversão difícil, de uma mudança de mentalidade arreigada e de uma revolução de hábitos que a Igreja alimentou em muitos séculos. E a prova de que tenho alguma razão nestas minhas cautelas foi visível numa das partilhas do referido encontro em que se apresentavam propostas para uma Igreja mais sinodal. Numa das partilhas, os palestrantes apresentaram-se como representantes de uma comissão sinodal composta por “quatro padres e duas colaboradoras”.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Igreja menos clerical"

quinta-feira, junho 30, 2022

Soluções para a falta de padres


Não conhecia o bispo alemão Fritz Lobinger, um bispo missionário aposentado, que está na África do Sul, até ler o que ele escreveu sobre as soluções para lidar com a falta de padres. Até hoje existem, na sua opinião, três soluções: a tradicional, a pragmática e a reformista. No entanto, ele acrescenta-lhe uma quarta solução, que designa de “solução comunitária”. 
Na solução tradicional propõe-se o aumento de oração para que hajam mais candidatos, na esperança de que os seminários se encham ou para que, ao menos, venham padres de outros países ou continentes encher as vagas deixadas nas paróquias pelos sacerdotes que vão envelhecendo e morrendo. 
Na solução reformista insiste-se na abolição do celibato obrigatório, na expectativa de que isso origine um aumento significativo de candidatos. Por princípio, esta solução até admite a ordenação de mulheres. 
Na solução pragmática propõe-se a distribuição por diáconos ou leigos de tarefas que eram executadas por padres. 
Já a “solução comunitária”, tal como refere Lobinger, baseia-se numa visão mais profunda da Igreja, seguindo a linha do Concílio Vaticano II e procurando a vivência das primeiras comunidades cristãs. Ele propõe que as comunidades assumam novamente a responsabilidade que tem estado centralizada no padre. Inspirado por S. Paulo, sugere ainda que se introduza um novo tipo de presbítero para trabalhar ao lado do clero atual, complementando-o. Seriam líderes comunitários “aprovados” (“probati”), eventualmente casados e com as suas profissões. Embora tecnicamente ordenados, não teriam formação no Seminário e só poderiam servir a sua comunidade. 
Olhando para todas estas soluções, fico com a sensação de que nenhuma delas é a solução, e que talvez um misto delas o possa ser. Sou a favor de que se aumente a oração para que hajam mais candidatos ao sacerdócio ministerial e ao compromisso laical. Sou a favor de que se repense o celibato como condição sine qua non. Sou a favor de que a missão seja assumida corresponsavelmente por todas as vocações eclesiais. E sou a favor do caminho que nos leve a formar outros tipos de lideranças nas comunidades, mais participativas e menos clericalizadas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Chama-se Jesus"

quinta-feira, junho 23, 2022

As horas cansadas da missão

"apesar da hora e cansaço"
O telefone tocou numa hora tardia, no final de um domingo desgastante e desgastado. O que menos me apetecia era atender. Mas o volume do som não o permitiu. Estou sim. Do outro lado uma voz feminina perguntou se era da Igreja da terra tal. Não era da Igreja, mas era do seu pároco. A voz estava aflita e embargada. Esperava uma mensagem ou um telefonema da filha que fazia voluntariado naquela terra e naquele dia não dera sinais de vida. Por mais que a mãe tentasse ligar, ela não atendia. A mãe estava numa aflição sem nome. Ligou a pensar que era uma boa ideia contactar uma instituição humanizadora como a Igreja. Estávamos a tentar encontrar uma solução para chegar a alguma luz quando a filha entrou pela casa da mãe adentro. Decidira fazer-lhe uma surpresa. E ficámos ambos mais tranquilos. Muito mais tranquilos. No dia seguinte recebi uma mensagem do mesmo número a agradecer por ter sido tão atencioso e disponível, embora cansado e a desoras. Agradeci de igual modo, dizendo que esta era também a nossa missão, e que na missão não há horas nem cansaço… apesar da hora e cansaço adiantados!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Há dias assim"

sábado, junho 18, 2022

A espiritualidade em mim

Tão sem palavras...
No meu último retiro, esse espaço ou lugar que gosto especialmente porque me encontro com Deus de forma ímpar, o orientador, aquele que me ajudava a encontrar-me e a encontrá-lo, disse-me algo que ainda hoje me inquieta. Os seus olhos, de um azul e de uma expressividade que me faziam lembrar a imensidão e infinitude do mar, pousaram em mim para me dizer “És um homem com uma espiritualidade forte”. Eu pensava que não, e reagi. Acenei com a cabeça e com o corpo. Olhei para o lado. Acenei que não com tudo e fiz de conta que ele não falava comigo. Mas eu rezo tão pouco, disse. Rezo tão pouco, repeti. E ele voltou a mim. “És intenso na tua intimidade com Deus!” Não disse mais nada. Acho que também não quis ouvir. Passei umas horas a olhar para estas palavras, na tentativa de as deixar dizer o que significavam. É certo que me deixo arrebatar quando me sinto arrebatado na oração. É certo que sou honesto comigo – ao menos comigo – quando tento atravessar os meus sois e sombras. É certo que me gasto com um tu que sinto amar na pessoa de Cristo. Mas isso, para mim, sempre foi apenas um poucochinho de nada. Tão pouco e tão insignificante. Tão raro. Tão anónimo e escondido. Tão sem palavras...

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Na lareira 2"

quinta-feira, junho 09, 2022

Tou. Tou. Tou.

tou. tou. tou
Era meio mouca e meio entrada em idade. Fez-se notar assim que entrou na igreja porque não conseguia falar de modo a não ser ouvida. E às tantas, o maldito telemóvel tocou uma música que lembrava os telemóveis de primeira geração. Todos parámos o que estávamos a fazer. Ela parou também, mas para atender a chamada. Tou. Tou. Tou. Olha. Mas nós é que olhámos. Olha, liga-me daqui a nada que agora estou na missa. E desligou. Nós também desligámos. Mas por pouco tempo. Porque ainda não tinham passado mais que uns dez minutinhos e de novo o telemóvel soou no meio da igreja. Tudo parou de imediato para a senhora voltar a dizer alto e em bom som. Tou. Tou. Tou. Ainda tou na missa. 
 

sábado, junho 04, 2022

A idoneidade do padrinho

interrogação?
Segundo o Código de Direito Canónico, no cânon 874, considera-se idónea para ser padrinho de um baptismo aquela pessoa que tenha sido escolhida pelo que vai ser baptizado, pelos pais ou, em último caso, pelo pároco ou o ministro, tenha 16 anos e maturidade suficiente, seja católico, tenha recebido o Sacramento da Eucaristia, esteja confirmada, leve uma vida coerente com a fé e com a missão que vai assumir, não seja o pai ou a mãe do que vai ser baptizado, além de que não pode estar afecta por qualquer impedimento legal da Igreja. Vale o que vale. Eu sei que são leis e normas, e o homem não vive para elas. São, no entanto, referenciais para que a missão do padrinho seja autenticamente a missão de padrinho. 
Por isso não faz sentido que alguém venha pedir uma declaração de idoneidade para que um adolescente de 12 anos, sem maturidade e sem ter o sacramento da confirmação, com uma vida de fé que podemos designar de afastada, ainda que frequente a catequese, possa exercer a missão de padrinho. Mas a mãe do adolescente pede, quase exige, porque o pároco do local onde vai ser baptizado aceita, desde que apresente uma declaração de idoneidade, sabendo este colega, à partida, que o adolescente não possui a tal idoneidade. Passa a bola para canto. Lava as mãos como Pilatos. Sossega-se e à sua consciência, na esperança de que outros decidam por ele, a favor ou a desfavor. E lá vamos nós ao mesmo de sempre, desbaratando sacramentos. Na verdade, eu não sou ninguém para garantir ou não garantir a idoneidade de alguém. Nem as leis o podem garantir. Porém, ao menos que este sacerdote assumisse a decisão, por uma questão de assumir uma coerência. Por isso é que sou de opinião que, se não se consegue proceder com autenticidade nesta matéria, que se reveja a necessidade da figura do “padrinho”. Ao menos, deixamos de fazer de conta…

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um dia os baptismos ainda hão-de ser baptismos"

terça-feira, maio 31, 2022

A máquina de fazer a fé

a fé difusa
Ela dizia que não tinha fé, porque não via nada. Era tudo muito difuso. Crescera no meio das freiras e a Igreja dizia-lhe alguma coisa. Coisa que não sabia nem quantificar nem dizer. Era assim a nova amiga que gostava de falar com o novo padre. Não conversavam banalidades, embora ela achasse que o assunto dela era banal. E não tinha fé sem saber porque não a tinha. Era tudo muito difuso. Era a palavra que mais repetia para dizer a fé. Depois lembrava o marido, que era um homem das ciências e do empírico. Mas olhe que ele tem uma devoção enorme por Nossa Senhora. Nem sei como explicar o que diz quando se refere a ela. E depois ainda se tornava tudo mais difuso. 
A Sandra não sabia ainda que a fé não é uma máquina de certezas. É um mistério de amor. Não se explica. Vive-se. O seu marido pode ser pragmático, mas deve ter uma relação especial com "essa" mulher. Algo captou o seu coração nessa direcção. O que também pode dizer de uma fé ainda um pouco infantil. Mas está lá. E significa que ele tem alguma abertura de coração para querer algo que não consegue provar. 
O que, às vezes, nos falta é isso, minha nova amiga. Essa abertura de coração. Queremos racionalizar muito as coisas, as vivências, as experiências. Mas, como saberá, as melhores coisas vêm do amor. É aqui que se centra e acontece a fé. Ter uma relação amorosa com Deus é a fé. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O Zé, o marido da Rosária"

terça-feira, maio 24, 2022

Nunca fui à missa

o que é isso da missa?
Ó catequista, o que é isso da missa? Eu nunca fui, dizia um dos miúdos que entrara na catequese. Dizia-o com os olhitos a brilhar de espanto e entusiasmo. Os colegas olharam para ele sem reprovação. Também olharam a catequista, desarmada. Sobretudo por dentro. Por fora, sorriu e disse o que lhe veio à cabeça. É que ela gosta tanto de estar com o Senhor na Eucaristia, que foram mais ou menos essas as palavras que usou para responder. Uns dias mais tarde, veio a saber que o miúdo também não sabia nenhuma oração. E como ele, mais uns dois ou três dos meninos daquele pequeno grupo de catequese. A tristeza não a preencheu, mas quase. E passou-a para mim, quando a partilhou comigo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista Lucinda"

sexta-feira, maio 20, 2022

casa [poema 348]

a casa abre-se, expande-se, cresce e as pedras vão
torna-se abrigo, e as aves fazem ali ninho, a voar 
depois de dias com as asas a bater 
para entrar. 

as portas estão abertas, e crescem, crescem para fora, 
com a casa, nas aves, nas muitas aves a nascer, e 
que voam a caminhar no chão, pelas pedras, 
para chegar ao lugar onde mora a casa 
que se abre e cresce 
a casa onde mora a liberdade para quem 
hospedar

terça-feira, maio 17, 2022

Boa tarde, meus andores e minhas andoras

igrejas cheias...
A igreja engalanara-se para a festa. Estava engalanada por todos os cantos e buracos. Mal se lá cabia. Passados dois anos sem festa por causa da pandemia, a vontade avolumara-se. Os cuidados sanitários e a segurança passaram para segundo ou terceiro plano. Ainda sugeri aos mordomos que colocassem os andores, com as respectivas imagens, na rua, junto à Igreja, de modo que a assembleia coubesse em segurança e distância. Mas qual quê! Os santinhos é que tinham de estar na Igreja, que é lá o lugar deles. No meio das flores e dos andores, para serem admirados. A festa é deles. Nem que se limitasse o número de pessoas na missa! Onde já se viu os andores na rua? Perguntou uma senhora mais atrevida, com ar de afirmação. E tinha razão. Os andores não é para andarem na rua, não senhora. Onde é que já se viu! Claro que eu também não fiz disto um cavalo de batalha. A maturidade vai-nos ensinando pelo que vale a pena lutar. E assim lá estávamos nós na Igreja engalanada por todo o lado. Pessoas de um lado e andores do outro. Metade metade. Muita gente na rua. A maioria com vontade de estar na rua. A missa começou com o habitual acolhimento. E o simpático do senhor padre começou por cumprimentar os presentes. Boa tarde, meus senhores e minhas senhoras. Boa tarde, meus andores e minhas andoras... 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "santinhos e missinhas"

domingo, maio 15, 2022

O que pensas da nova imagem do blogue?

primeiro cabeçalho do confessionário
O mundo dos blogues não tem a força de outrora, como quando o "Confessionário" nasceu. Já lá vão uns 22 anos. Sim. O Confessionário nasceu por volta do ano 2000, como conto AQUI. nasceu quando os blogues começaram a ser uma referência no panorama virtual. Na altura, não havia, que eu conhecesse, outros blogues de cariz religioso. Em 2003 entrou de férias e renasceu mais tarde, em 2005. Desde então, aqui tem permanecido, com as circunstâncias que os anos e as vidas trazem. Ahhh e os amigos. Sim. Alguns amigos nasceram como nasceu o blogue. Com a simplicidade das palavras e do que elas dizem. E assim se amadurece. E assim o "confessionário" existe. O seu autor está mais velho. Afinal são muitos anos e muitas vivências. Os entendimentos de fundo são praticamente os mesmos. Os anseios. As vontades. Os sonhos. Mas muito mais maduros. Sem dúvida. Porque entretanto, muita tinta correu. E corre. E queremos que continue a correr com a frescura de outrora. Por isso senti a necessidade de fazer um refresh, ou numa linguagem mais nossa, um refrescar. Só para sentir que continuo como no início. Que continuo sempre novo. Que continuo a querer ser o mesmo padre que afirmei querer ser no dia em que celebrei a minha primeira missa solene. E já passaram mais de 25 anos. E que vós continuais aí. 

AQUI tendes a explicação das mudanças. E convido-vos a dardes a vossas opiniões e sugestões para poder ainda servir-vos melhor. Entretanto, abro uma nova sondagem, para perguntar: "O que pensas da nova imagem do blogue?"

quinta-feira, maio 05, 2022

os sacramentos-eventos

São desgastantes os sacramentos pedidos como eventos. Quem os pede foca-se apenas no evento. Por isso o mais importante são as datas, os horários, as vestimentas, a animação, as fotos, a boda, os convites e as prendas. Nos sacramentos-eventos os padres somos quase sempre os últimos a ser contactados. Ao mesmo tempo, acabam dizendo mal do que chamam de burocracias da Igreja. Que exige muitos documentos e preparações. Sejam casamentos, baptizados, crismas, primeiras comunhões e similares, é quase sempre um desgaste para quem queria que os sacramentos fossem um modo de caminhar na fé, e para alguns, pouco mais são do que um evento familiar, social e cultural. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer ser padrinho"

terça-feira, abril 26, 2022

os ‘voltares’ à Igreja

O Manuel e a Maria casaram pela Igreja. Escolhi-lhes estes nomes para significarem os outros nomes daqueles que ainda se casam pela Igreja e nunca mais foram vistos na Igreja. Não são assim tantos. São cada vez menos. Mas são quase uma maioria dentro daqueles que ainda se casam pela Igreja. Casam e voltam novamente para baptizar o filho que agora trazem ao colo. Acham que tem de ser assim e são honestos no seu achar. Voltam porque ainda há uma ligação com a Igreja, mesmo que seja como um supermercado. Isso é o que fazem no resto das suas vidas numa sociedade que fomenta o consumo de bens, de coisas, de pessoas, de vidas, de espiritualidades. E os que estão à frente das nossas comunidades cristãs, os padres, vamos aceitando estas intermitências e tentamos - ao menos eu tento - fazer destes ‘voltares’ um momento de acolhimento e de gestação. Contudo, por dentro, o que mais me apetecia era dizer umas palavras indignas de serem palavras, vociferar e gritar que Deus nos ama e que isso é muito mais forte e intenso que um baptismo, um casamento ou qualquer outra expressão sacramental ou ritual que a Igreja tem à disposição. O Deus que nos ama é o que a Igreja deveria ter para oferecer e o que as pessoas deveriam buscar quando se abeiram da Igreja.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O caso descaso!"

sexta-feira, abril 15, 2022

Padres a carregar cruzes

Não gosto de pensar que nós, os padres, temos de carregar o peso do mundo ou o peso dos outros. Também não temos de carregar a cruz de Jesus. Ele só nos pede que carreguemos a nossa. Cada um tem de carregar a sua. Cada um tem um peso para levar no caminho. Nós, os padres, não temos de carregar o peso dos outros. Só temos de ir com eles no caminho. Irmos ao lado dos outros já é, de certo modo, carregar com a sua cruz. Ou seja, aliviar-lhe o peso por dentro.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

...desejando que a nossa cruz chegue ao destino, a Páscoa da Ressurreição!

quinta-feira, abril 07, 2022

padres que são um luxo ou uma graça!

Estava danado com o bispo e com os paroquianos, porque não lhe davam a atenção que ele desejava. O bispo não explicava às pessoas como é que elas tinham de tratar o padre, que era o seu novo pároco. E as pessoas da paróquia não se preocupavam com o novo pároco, ao ponto de ele nem receber monetariamente o que achava que merecia. É que, dizia, as pessoas esquecem-se que terem um padre é um luxo. 
Pois, na verdade será, pensei eu para os meus botões. Mas apenas se considerarmos o luxo como algo supérfluo. Talvez nesse sentido. Talvez nesse sentido um padre seja um luxo. Também reconheço – de consciência clara e amadurecida - que ter-se um padre ao alcance é uma graça. Pelo menos porque pode ser um apoio no caminho da fé. Mas a escolha da palavra “luxo” para afirmar que ter um padre é um luxo, fez-me recuar no tempo, ao tempo da Igreja medieval em que a Igreja se confundia com o poder. Um padre nunca será um luxo. Quando muito será uma graça. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O colarinho branco"

segunda-feira, março 28, 2022

A Igreja dos pobres

Gesticulava para que aqueles que o ouviam entendessem a intensidade das suas palavras e a força da sua intenção. A Igreja tem de fazer a opção preferencial pelos pobres. Isto é o que repete continuamente o papa Francisco. Isto é o que o concílio Vaticano II disse e ficou oculto entre palavras e documentos. E que agora a teologia, influenciada pelas tendências da América Latina, trazidas aos de cima com auxílio do mesmo papa, mais referem. O dedo no ar voava junto com as frases afirmativas. Ou imperativas. E depois para se justificar, deu um exemplo. Vem um pobre à igreja – referindo-se ao templo – e não lhe fazemos caso, deixando-o ao fundo da igreja. Vem um rico ou importante, e levamo-lo para a primeira fila. E neste momento, o dedo esgrimia-se como uma espada apontada aos ouvintes. Quase a gritos, disse Quem deveríamos levar para a primeira fila era o pobre. 
 Ou seja, este amigo entusiasta pelo lugar teológico dos pobres, como ele fazia questão de salientar, estava tão focado nos pobres que, afinal, a única coisa que mudava era o lugar do pobre. Ele passava o pobre para a frente da igreja, por causa da sua condição de pobreza. Quando, na minha humilde opinião, se devia olhar para a nossa Igreja – referindo-me ao conjunto de seguidores de Cristo – como o lugar teológico dos iguais entre iguais, sem qualquer tipo de discriminação, ainda que esta pareça ser positiva. Eu sei que não se deve tratar o pobre como se ele não fosse pobre. Assim como defendo que a paternidade ou maternidade da Igreja e de Deus se concretizam num amor segundo as necessidades do amado ou amados. Nesse sentido, a Igreja deve esforçar-se por prover ou diminuir as necessidades materiais – ou outras - dos pobres. O que eu não concordo é que se tratem os pobres como se a condição deles, embora mais assinalada e defendida por palavras, teologias e pastorais, seja uma condição inferior às outras. Creio que os verdadeiros pobres – e não me refiro propriamente aos indigentes ou pedintes de esmolas – gostam de se sentir iguais entre os iguais. Ou estarei errado?!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "a solidariedade que não se faz de cima para baixo"

quarta-feira, março 23, 2022

Barrabás

Queria saber mais de Barrabás. O agitador do povo, o homicida que Jesus substituiu. Sim, porque Jesus sbstituiu este homem que só aparece no evangelho para ser substituído por Jesus no seu crime. Pouco falamos dele e sabemos ainda menos dele. Gostamos mais de lembrar aquele que substituiu Jesus, o Cireneu. A antítese de Barrabás. O substituído e o que substitui. Ambos Cristo, porque Cristo quer e porque Cristo quer muito. Porque a configuração com Cristo tem nome e tem história. Tem passado e tem futuro. Tem tudo. Porque Ele é tudo. Queria saber mais de Barrabás, porque foi o sortudo da cruz. Todos os outros que acompanharam o mestre à morte ou eram algozes ou murmuradores ou acusadores ou juízes. Todos condenaram Jesus. Mesmo os que, diz o evangelho, eram seus amigos ou conhecidos e iam vendo a cena de longe. A distância de coração, que é muito maior que a distância dos metros. Mas Barrabás não aparece a condenar. Talvez até tenha dado graças a Deus pela sorte que teve em ser substituído pelo próprio Deus. Ou então não. Ou então foi apenas o acaso do amor de Deus, como a cruz é o amor de Deus em plenitude, independentemente de quem participa nesse caminho de amor. 
 
revisitar Lc 23, 13-25
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Entre mim e Deus não há nada"

segunda-feira, março 21, 2022

chão [poema 347]

a casa está amortalhada 
tem uns degraus que não sobem nem descem 
só Deus passa e leva a casa 
só Deus sobe e desce 
entre flores cor de paixão 
sangue adulterado, 
no chão. 
 
da casa

quinta-feira, março 17, 2022

O Não do Bispo

Numa diocese longe da minha, mas não tão distante que não me doa como se fosse minha. Porque as distâncias das dioceses são apenas geográficas. A Igreja é a mesma. Em cada uma está toda a Igreja. Numa diocese sem nome, distante geograficamente da minha, o bispo convocou uma reunião dos seus padres, isto é, o seu presbitério, com um parco grupo de leigos para que estes últimos relatassem a sua experiência num congresso de leigos em que tinham participado. Dizia-me um colega padre dessa diocese que, a determinada altura, e porque os leigos presentes faziam algumas reclamações relacionadas com a participação dos leigos na Igreja, o bispo se levantou, levantou igualmente a sua voz, e disse que não aceitava o que estavam a dizer. Aqui quem manda sou eu, referiu. E a reunião terminou naquele exacto momento. Nem uma voz mais se ouviu. Não sei o que aqueles leigos disseram nem se o que disseram era bom ou mau. Mas sei que a voz foi-lhes tão dada como calada. E é assim que vive uma Igreja que quer escutar todos, mas que não dá voz a todos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Nós e vós"

terça-feira, março 15, 2022

simeonus [poema 346]

havia uma parede e um eco do outro lado 
punha-me à escuta, encostado a ti 
em punho erguia o meu passado 
para sentir o teu palpitar 
 
ouvia ao longe como se fosse dentro de mim 
o cair da lágrima sobre o lago, e a chuva 
nascia como uma voz que vem do outro lado 
sem fim 
 
havia um muro que galguei como escada 
e um som de longe que estava bem perto 
em mim

quinta-feira, março 10, 2022

Se as mulheres parassem, a Igreja parava.

Não era uma campanha feminista ou coisa do género. Era um diálogo um pouco surdo, ou em surdina, entre duas gerações de mulheres que se dedicam com alma à Igreja, na comunidade onde vivem e celebram a fé. O diálogo ocorreu na minha presença. Uma presença discreta, a minha, que as deixou falar à vontade. 
Uma das mulheres, a mais velha, está habituada a servir o marido e todos os demais à sua volta. Fá-lo com uma generosidade ímpar. A outra, a mais nova, gasta-se a servir como se a sua missão lhe viesse de uma vontade de ser útil, estar presente, ser uma voz entre iguais, fazer o que tem de fazer porque entende que vive numa sociedade e numa Igreja que precisa dela e do seu carisma. A segunda exaltava o papel das mulheres. A primeira apagava o papel das mulheres. Uma esgrimia argumentos a dizer que elas eram imensamente importantes na Igreja. A outra esgrimia poucos argumentos. Ouvia mais que falava. Gostava do que ouvia, mas não precisava disso para fazer o que fazia na comunidade. Era uma mulher submissa. Talvez ainda haja mulheres que sentem ou vivem a palavra “submissão” como subjugação, dependência, servidão, subordinação, sujeição, vassalagem. Eu prefiro entender a palavra como entrega humilde, como disponibilidade. Mas entendo que seja uma palavra difícil, tanto de entender como de usar. Estava interessante a conversa daquelas duas mulheres. Eu gostava do significado das palavras, inclusive dos silêncios e das pausas. Daqueles dois exemplos de fé professada, celebrada e vivida. Na primeira pessoa, ou na segunda ou na terceira. Dava igual. 
Sem as interromper, anotei. Se as mulheres parassem ou fizessem greve nas comunidades cristãs, a Igreja parava. De facto. As mulheres são quem mais trabalha nas comunidades cristãs, quem mais ocupa ministérios litúrgicos e pastorais, quem está mais presente, quem mais se dedica à Igreja. Ei-las no coro, no ambão, no zelo dos altares, na catequese, nos grupos de oração, nos encontros espirituais, na acção socio-caritativa, e por aí fora… Apesar da  hierarquia da Igreja ser constituída só por homens, atrevo-me a dizer que cerca de 95% das comunidades cristãs, no seu todo e no seu particular, são asseguradas por mulheres.
Mais depressa a Igreja parava sem as mulheres que sem os homens. Se as mulheres parassem, a Igreja parava. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

domingo, março 06, 2022

menos catequese

Neste último período mais difícil da pandemia, a paróquia teve de suspender a catequese presencial, que está agora a retomar. Durante dois anos, ora há catequese ora não há. Os itinerários têm sido interrompidos ou intermitentes. Os catequistas bem tentam manter uma presença através de outros meios não presenciais. Contudo, na maioria das vezes, é apenas isso, uma presença. E embora eu sinta, tal como já o afirmei aos catequistas, que é ou pode ser uma oportunidade para tornarmos a nossa catequese mais kerigmática e menos doutrinal, a verdade é que a catequese intermitente é como uma fé intermitente. Não agarra. Não compromete. Não fomenta caminho. Ainda assim, agora que estamos a retomar as sessões presenciais, uma mãe veio ao meu encalço a pedir se a catequese poderia ser menos vezes. Ó senhor padre, assim só de quinze em quinze dias. É bem capaz de ter razão aquela mãe. Também a vida da fé deveria ser só de quinze em quinze dias. Ou até menos. Quanto menos, melhor, Senhor. Menos catequese, por favor! Menos… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nem Pai-Nosso nem Avé-Maria"

quinta-feira, março 03, 2022

os likes da paz

Por estes dias abundam e tornam a abundar nas redes sociais imagens, textos e propostas relacionadas com pedidos de paz. Parece-me bem. Imensamente melhor do que partilhas de fotos de comidas ou similares. Como o Papa Francisco convidou a Igreja a que, no primeiro dia da Quaresma, as pessoas fizessem jejum e oração pela paz na Ucrânia, multiplicaram-se, e bem, os convites e as propostas neste sentido.  Multiplicaram-se também os likes nestas propostas, como era de esperar. O que eu não sei é quantas pessoas que colocaram likes nestas publicações fizeram de verdade jejum ou rezaram pela paz na Ucrânia. Não sei e não queria ajuizar. Mas tenho um dedo mindinho que não para de tentar adivinhar, o malandro. Pois, como é normal no mundo dos likes, muito se resume a likes
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amizades especiais"

terça-feira, março 01, 2022

Os padres fixes

Veio ao meu encontro com uma das mãos no peito e um pouco acabrunhada. Senhor padre, olhe, às vezes ouço dizer mal do senhor padre, porque não faz as vontades às pessoas, como outros que aceitam qualquer um para padrinho e o número de padrinhos que as pessoas quiserem, aceitam qualquer um para se crismar, não exigem preparação aos noivos, entre outras coisas parecidas. Eu fico triste ao ouvir estas coisas e nem lho queria dizer. Mas ela disse. E eu sei-o. E já nem sei se fico triste, porque muitos desses que ela designou de ‘outros’, fazem, geralmente, parte do grupo de colegas que apenas celebra sacramentos, espera receber o contributo respectivo e vive para agradar. 
O que eu gostaria mesmo que dissessem de mim não é que lhes fazia as vontades e que era um fixe, mas que os ajudava a crescer na fé. Que lhes anunciava a Boa Nova de Salvação. Que, quando me escutavam, conseguiam estar mais próximos de Deus. Que confiavam nas palavras de alento que lhes dou no meio do desalento. Porque quem conta não sou eu, mas Deus. O importante não é o padre, mas Deus. Não é Deus que existe porque o padre existe, mas ao contrário.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A queixaria"

quinta-feira, fevereiro 24, 2022

A fé não é bem fazer o bem

Um dia destes, numa tarde ensolarada e à sombra de uma árvore a que não sei dar nome, cruzei-me com a senhora Encarnação, uma mulher acostumada a fazer o bem, mas que não põe os pés na missa, como ela diz. Aquilo está cheio de beatas falsas. Eu faço o bem, senhor padre, sem olhar a quem. Não preciso de ir à missa nem de rezar para fazer o bem. Eu tenho mais fé que todas elas, referindo-se às tais que chama de beatas. 
A conversa prolongou-se entre palavreados castiços de quem não tem tento na língua, mas gosta de a usar para uns dedos de conversa com o senhor prior. E ainda bem. E nunca se azedou a conversa, nem quando lhe expliquei que a fé era muito mais que fazer o bem. Qualquer pessoa pode fazer o bem. Um muçulmano ou um hindu, um agnóstico ou um ateu podem fazer o bem. Naturalmente que tive de explicar algumas destas palavras porque a senhora Encarnação andou na escola apenas até à quarta-classe. E clarifiquei que os cristãos fazem o bem, ou devem fazê-lo, por Cristo, em nome de Cristo. E desse modo é que manifestam a sua fé. A fé tem mais a ver com fazer o bem por Cristo, com Cristo e em Cristo, a típica expressão que usamos na eucaristia e que gosto sobremaneira. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A fé de Portugal"

sábado, fevereiro 19, 2022

Jesus era um leigo

Numa Igreja que se clericalizou, é oportuno recordar alguns dados sobre a identidade humana e histórica de Jesus, assim como os inícios do cristianismo. 
Jesus não era cristão, mas judeu. Tinha uma índole secular, laical, isto é, era um homem imerso no seu mundo, entre os demais humanos, e não fazia parte de nenhuma casta sacerdotal do tempo. Por isso fora tão difícil acreditar que era o Filho de Deus, uma vez que era suposto um filho de Deus nascer e viver imerso na religiosidade, no templo. Como também seria expectável que manifestasse um poderio sem igual. Mas nada disso. Não nasceu nem na grande Judeia nem na cidade santa de Jerusalém, mas na simples Nazaré da Galileia dos gentios. Recorde-se ainda que dos supostos trinta e três anos em que viveu, só três deles foram passados a pregar. Cresceu e viveu como o comum das pessoas, num ocultamento e anonimato. Aliás, pode-se dizer que viveu, como a maioria das pessoas, ignorado e desconhecido. 
Não é adequado, igualmente, afirmar que foi ele que fundou a Igreja, senão que constituiu um grupo de discípulos a quem pediu que continuasse a sua obra. É mais correcto afirmar que apenas lhe colocou os alicerces. Por isso é que não vemos nos evangelhos um momento fundante da Igreja. A obra foi nascendo, cimentando-se, construindo-se, organizando-se, muito à imagem das estruturas de organização e de poder do tempo. É muito difícil fazer uma organização do nada e é natural que se sigam modelos já experimentados. Foi o que ocorreu. E, embora se possa olhar esta necessidade como algo menos positivo, há que dizer também que, ao contrário de outras expressões religiosas, a Igreja não nasceu à volta de doutrinas e de práticas. Ela construiu-se no seguimento de uma personagem histórica que serve de modelo e é precursor de um estilo de vida, no que há que inspirar-se. Seguir Jesus é aderir a Ele. Ser Igreja é estar configurado com Ele… na quotidianidade!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Pesquisar Jesus na Internet"

quarta-feira, fevereiro 16, 2022

A pandemia está a retirar-nos alguns bairrismos escusados

Uns dizem que a pandemia está a acabar e outros que está para durar. Uns dizem que a vida tem de continuar e outros ficam a vê-la passar. E algo similar se passa dentro da Igreja, onde se dá conta de uma série de mudanças que a pandemia tem desvelado e de uma série de mudanças que se têm tornado ainda mais urgentes. Diz-se que o mundo não mais será o mesmo depois desta pandemia. Eu digo que a Igreja ou a sua acção não voltará a ser igual. Tenho pensado muito nisto. Tenho reflectido e amadurecido algumas posturas e pastorais. E reconheço que, quase naturalmente, alguns pequenos processos vão-se tornando parte de uma grande conversão. Pelo menos nas comunidades que, pastoralmente falando, coordeno. Dou alguns exemplos. 
Nalgumas das minhas comunidades mais pequenas, a missa destes últimos tempos tem sido quando é possível, ou seja, quase sempre fora do fim-de-semana. Não têm reclamado não terem missa no Domingo e aceitam a possibilidade que lhes é oferecida. Talvez tenham aprendido que o Domingo é o dia do Senhor, mas que em qualquer dia podemos celebrar a Páscoa do Senhor. 
Nalgumas das comunidades maiores, as pessoas vão-se sentando, à medida que entram na igreja, nos lugares que lhes são indicados pelos ministros do acolhimento, e não no lugar a que se habituaram e que preferiram ou a que se acomodaram durante anos como um direito adquirido. 
Há paroquianos que, cada vez mais, começam a ir à Eucaristia da paróquia maior, porque sabem que ali há sempre eucaristia. A mobilidade que usam para o comércio, usam agora para a celebração da fé. 
A comunicação saiu da Igreja, para além do púlpito, e começou a ser mais usual e visível em outros âmbitos, sobretudo as plataformas virtuais e digitais. Dizem-me que a comunicação está muito melhor e menos fechada. 
Dá-me a sensação de que os ritmos e hábitos dos fiéis estão a ser reconfigurados com uma certa naturalidade. A pandemia está a retirar-nos alguns bairrismos escusados. E está a alargar os nossos horizontes.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A pandemia descristianizante"

domingo, fevereiro 13, 2022

“assassinado pela indiferença”

No centro de Paris, numa rua movimentada, no passado dia 18 de Janeiro, o fotógrafo René Robert, de 85 anos, depois de ter saído de casa, após o jantar, para um passeio, não se sabe ao certo como nem porquê, caiu inconsciente. Ali permaneceu caído cerca de nove horas, exposto ao frio numa noite em que as previsões meteorológicas apontavam para temperaturas de 3ºC. Levado para o hospital, depois que um sem-abrigo chamou os serviços de emergência, já pelas 6h30 da manhã, foi-lhe diagnosticado um traumatismo craniano e uma grave hipotermia como causa do óbito. Foi um desalojado da sociedade, um sem-nome, quem deu o alarme. Mais um dos que não conta. E um jornalista, amigo do fotógrafo, ao falar do assunto, intitulou-o de “assassinado pela indiferença”. Como de facto, assassinado por uma sociedade que tem opinião para tudo, mas que é indiferente a tudo. Uma sociedade que defende a diferença, mas não dá conta do outro. Uma sociedade formada por indivíduos que não se olham senão a si próprios. Paradoxalmente plural e individual como nunca na história do mundo. Uma sociedade em rede desligada. Uma sociedade feita de pessoas que vivem, sozinhas, ao lado uns dos outros!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O sacrário está vazio"

sexta-feira, fevereiro 11, 2022

pedras [poema 345]

as pedras doem nos sapatos e alargam-nos 
fazem ali a calçada para os passantes 

e os que passam não dão conta 
que as pedras doem por dentro 
sem o dizer, na calçada 
da vida, à noite são mais pedras 
a doer

segunda-feira, fevereiro 07, 2022

Comunhão clericalizada

No século IV, com a passagem do cristianismo de religião perseguida a religião de estado protegida pelo Império Romano, agravou-se uma distinção e separação entre os cristãos que já se vinham designando por clérigos ou leigos. 
Não existia nenhuma separação no tempo de Jesus e o cristianismo surgia como uma comunidade fraterna. Mas estas mudanças fizeram dos clérigos uns funcionários com honras de estado, ao ponto de pouco a pouco passarem a vestir-se diferente, copiando os trajes da nobreza, sobretudo na liturgia. Pior ainda, passaram a sentir-se diferentes dos que não eram clérigos. Passaram a sentir-se superiores. 
Esta eclesiologia hierarcológica durou muitos anos e hoje há uma facção, dentro e fora da hierarquia da Igreja, que insiste em restaurar estes tempos, afirmando falaciosamente que é um voltar à doutrina, quando se trata do afastamento da Igreja das primeiras comunidades cristãs e um regresso ao clericalismo do qual ainda não se saiu. 
Neste espírito de neocristandade, é comum assistir à imposição ou obrigatoriedade da comunhão exclusivamente na boca e, de preferência de joelhos. Dizem que é deste modo que se dignifica a comunhão e que se manifesta a nossa humildade diante do Santíssimo Sacramento. Esquecem que, quando Jesus supostamente instituiu a eucaristia, o pão e o vinho passaram de mão em mão pelos seus apóstolos e nenhum deles se ajoelhou diante dessa partilha. O que os defensores deste modus operandi não referem ou não dão conta é que essa forma de entender a distribuição da comunhão não é própria de uma Igreja comunhão de irmãos, uma Igreja de povo peregrino. É antes de uma Igreja clericalizada, que não só distingue, como separa clérigos dos leigos, como se os primeiros fossem a casta de Deus, a elite de Deus que pode estar de pé e tocar com as mãos no Senhor. O que estes colegas não dizem é que as pessoas, afinal, e num simbolismo enganoso, estão a inclinar-se ao clérigo e não a Deus! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Aqui só comungam as mulheres"