terça-feira, maio 17, 2022

Boa tarde, meus andores e minhas andoras

igrejas cheias...
A igreja engalanara-se para a festa. Estava engalanada por todos os cantos e buracos. Mal se lá cabia. Passados dois anos sem festa por causa da pandemia, a vontade avolumara-se. Os cuidados sanitários e a segurança passaram para segundo ou terceiro plano. Ainda sugeri aos mordomos que colocassem os andores, com as respectivas imagens, na rua, junto à Igreja, de modo que a assembleia coubesse em segurança e distância. Mas qual quê! Os santinhos é que tinham de estar na Igreja, que é lá o lugar deles. No meio das flores e dos andores, para serem admirados. A festa é deles. Nem que se limitasse o número de pessoas na missa! Onde já se viu os andores na rua? Perguntou uma senhora mais atrevida, com ar de afirmação. E tinha razão. Os andores não é para andarem na rua, não senhora. Onde é que já se viu! Claro que eu também não fiz disto um cavalo de batalha. A maturidade vai-nos ensinando pelo que vale a pena lutar. E assim lá estávamos nós na Igreja engalanada por todo o lado. Pessoas de um lado e andores do outro. Metade metade. Muita gente na rua. A maioria com vontade de estar na rua. A missa começou com o habitual acolhimento. E o simpático do senhor padre começou por cumprimentar os presentes. Boa tarde, meus senhores e minhas senhoras. Boa tarde, meus andores e minhas andoras... 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "santinhos e missinhas"

domingo, maio 15, 2022

O que pensas da nova imagem do blogue?

primeiro cabeçalho do confessionário
O mundo dos blogues não tem a força de outrora, como quando o "Confessionário" nasceu. Já lá vão uns 22 anos. Sim. O Confessionário nasceu por volta do ano 2000, como conto AQUI. nasceu quando os blogues começaram a ser uma referência no panorama virtual. Na altura, não havia, que eu conhecesse, outros blogues de cariz religioso. Em 2003 entrou de férias e renasceu mais tarde, em 2005. Desde então, aqui tem permanecido, com as circunstâncias que os anos e as vidas trazem. Ahhh e os amigos. Sim. Alguns amigos nasceram como nasceu o blogue. Com a simplicidade das palavras e do que elas dizem. E assim se amadurece. E assim o "confessionário" existe. O seu autor está mais velho. Afinal são muitos anos e muitas vivências. Os entendimentos de fundo são praticamente os mesmos. Os anseios. As vontades. Os sonhos. Mas muito mais maduros. Sem dúvida. Porque entretanto, muita tinta correu. E corre. E queremos que continue a correr com a frescura de outrora. Por isso senti a necessidade de fazer um refresh, ou numa linguagem mais nossa, um refrescar. Só para sentir que continuo como no início. Que continuo sempre novo. Que continuo a querer ser o mesmo padre que afirmei querer ser no dia em que celebrei a minha primeira missa solene. E já passaram mais de 25 anos. E que vós continuais aí. 

AQUI tendes a explicação das mudanças. E convido-vos a dardes a vossas opiniões e sugestões para poder ainda servir-vos melhor. Entretanto, abro uma nova sondagem, para perguntar: "O que pensas da nova imagem do blogue?"

quinta-feira, maio 05, 2022

os sacramentos-eventos

São desgastantes os sacramentos pedidos como eventos. Quem os pede foca-se apenas no evento. Por isso o mais importante são as datas, os horários, as vestimentas, a animação, as fotos, a boda, os convites e as prendas. Nos sacramentos-eventos os padres somos quase sempre os últimos a ser contactados. Ao mesmo tempo, acabam dizendo mal do que chamam de burocracias da Igreja. Que exige muitos documentos e preparações. Sejam casamentos, baptizados, crismas, primeiras comunhões e similares, é quase sempre um desgaste para quem queria que os sacramentos fossem um modo de caminhar na fé, e para alguns, pouco mais são do que um evento familiar, social e cultural. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer ser padrinho"

terça-feira, abril 26, 2022

os ‘voltares’ à Igreja

O Manuel e a Maria casaram pela Igreja. Escolhi-lhes estes nomes para significarem os outros nomes daqueles que ainda se casam pela Igreja e nunca mais foram vistos na Igreja. Não são assim tantos. São cada vez menos. Mas são quase uma maioria dentro daqueles que ainda se casam pela Igreja. Casam e voltam novamente para baptizar o filho que agora trazem ao colo. Acham que tem de ser assim e são honestos no seu achar. Voltam porque ainda há uma ligação com a Igreja, mesmo que seja como um supermercado. Isso é o que fazem no resto das suas vidas numa sociedade que fomenta o consumo de bens, de coisas, de pessoas, de vidas, de espiritualidades. E os que estão à frente das nossas comunidades cristãs, os padres, vamos aceitando estas intermitências e tentamos - ao menos eu tento - fazer destes ‘voltares’ um momento de acolhimento e de gestação. Contudo, por dentro, o que mais me apetecia era dizer umas palavras indignas de serem palavras, vociferar e gritar que Deus nos ama e que isso é muito mais forte e intenso que um baptismo, um casamento ou qualquer outra expressão sacramental ou ritual que a Igreja tem à disposição. O Deus que nos ama é o que a Igreja deveria ter para oferecer e o que as pessoas deveriam buscar quando se abeiram da Igreja.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O caso descaso!"

sexta-feira, abril 15, 2022

Padres a carregar cruzes

Não gosto de pensar que nós, os padres, temos de carregar o peso do mundo ou o peso dos outros. Também não temos de carregar a cruz de Jesus. Ele só nos pede que carreguemos a nossa. Cada um tem de carregar a sua. Cada um tem um peso para levar no caminho. Nós, os padres, não temos de carregar o peso dos outros. Só temos de ir com eles no caminho. Irmos ao lado dos outros já é, de certo modo, carregar com a sua cruz. Ou seja, aliviar-lhe o peso por dentro.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

...desejando que a nossa cruz chegue ao destino, a Páscoa da Ressurreição!

quinta-feira, abril 07, 2022

padres que são um luxo ou uma graça!

Estava danado com o bispo e com os paroquianos, porque não lhe davam a atenção que ele desejava. O bispo não explicava às pessoas como é que elas tinham de tratar o padre, que era o seu novo pároco. E as pessoas da paróquia não se preocupavam com o novo pároco, ao ponto de ele nem receber monetariamente o que achava que merecia. É que, dizia, as pessoas esquecem-se que terem um padre é um luxo. 
Pois, na verdade será, pensei eu para os meus botões. Mas apenas se considerarmos o luxo como algo supérfluo. Talvez nesse sentido. Talvez nesse sentido um padre seja um luxo. Também reconheço – de consciência clara e amadurecida - que ter-se um padre ao alcance é uma graça. Pelo menos porque pode ser um apoio no caminho da fé. Mas a escolha da palavra “luxo” para afirmar que ter um padre é um luxo, fez-me recuar no tempo, ao tempo da Igreja medieval em que a Igreja se confundia com o poder. Um padre nunca será um luxo. Quando muito será uma graça. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O colarinho branco"

segunda-feira, março 28, 2022

A Igreja dos pobres

Gesticulava para que aqueles que o ouviam entendessem a intensidade das suas palavras e a força da sua intenção. A Igreja tem de fazer a opção preferencial pelos pobres. Isto é o que repete continuamente o papa Francisco. Isto é o que o concílio Vaticano II disse e ficou oculto entre palavras e documentos. E que agora a teologia, influenciada pelas tendências da América Latina, trazidas aos de cima com auxílio do mesmo papa, mais referem. O dedo no ar voava junto com as frases afirmativas. Ou imperativas. E depois para se justificar, deu um exemplo. Vem um pobre à igreja – referindo-se ao templo – e não lhe fazemos caso, deixando-o ao fundo da igreja. Vem um rico ou importante, e levamo-lo para a primeira fila. E neste momento, o dedo esgrimia-se como uma espada apontada aos ouvintes. Quase a gritos, disse Quem deveríamos levar para a primeira fila era o pobre. 
 Ou seja, este amigo entusiasta pelo lugar teológico dos pobres, como ele fazia questão de salientar, estava tão focado nos pobres que, afinal, a única coisa que mudava era o lugar do pobre. Ele passava o pobre para a frente da igreja, por causa da sua condição de pobreza. Quando, na minha humilde opinião, se devia olhar para a nossa Igreja – referindo-me ao conjunto de seguidores de Cristo – como o lugar teológico dos iguais entre iguais, sem qualquer tipo de discriminação, ainda que esta pareça ser positiva. Eu sei que não se deve tratar o pobre como se ele não fosse pobre. Assim como defendo que a paternidade ou maternidade da Igreja e de Deus se concretizam num amor segundo as necessidades do amado ou amados. Nesse sentido, a Igreja deve esforçar-se por prover ou diminuir as necessidades materiais – ou outras - dos pobres. O que eu não concordo é que se tratem os pobres como se a condição deles, embora mais assinalada e defendida por palavras, teologias e pastorais, seja uma condição inferior às outras. Creio que os verdadeiros pobres – e não me refiro propriamente aos indigentes ou pedintes de esmolas – gostam de se sentir iguais entre os iguais. Ou estarei errado?!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "a solidariedade que não se faz de cima para baixo"

quarta-feira, março 23, 2022

Barrabás

Queria saber mais de Barrabás. O agitador do povo, o homicida que Jesus substituiu. Sim, porque Jesus sbstituiu este homem que só aparece no evangelho para ser substituído por Jesus no seu crime. Pouco falamos dele e sabemos ainda menos dele. Gostamos mais de lembrar aquele que substituiu Jesus, o Cireneu. A antítese de Barrabás. O substituído e o que substitui. Ambos Cristo, porque Cristo quer e porque Cristo quer muito. Porque a configuração com Cristo tem nome e tem história. Tem passado e tem futuro. Tem tudo. Porque Ele é tudo. Queria saber mais de Barrabás, porque foi o sortudo da cruz. Todos os outros que acompanharam o mestre à morte ou eram algozes ou murmuradores ou acusadores ou juízes. Todos condenaram Jesus. Mesmo os que, diz o evangelho, eram seus amigos ou conhecidos e iam vendo a cena de longe. A distância de coração, que é muito maior que a distância dos metros. Mas Barrabás não aparece a condenar. Talvez até tenha dado graças a Deus pela sorte que teve em ser substituído pelo próprio Deus. Ou então não. Ou então foi apenas o acaso do amor de Deus, como a cruz é o amor de Deus em plenitude, independentemente de quem participa nesse caminho de amor. 
 
revisitar Lc 23, 13-25
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Entre mim e Deus não há nada"

segunda-feira, março 21, 2022

chão [poema 347]

a casa está amortalhada 
tem uns degraus que não sobem nem descem 
só Deus passa e leva a casa 
só Deus sobe e desce 
entre flores cor de paixão 
sangue adulterado, 
no chão. 
 
da casa

quinta-feira, março 17, 2022

O Não do Bispo

Numa diocese longe da minha, mas não tão distante que não me doa como se fosse minha. Porque as distâncias das dioceses são apenas geográficas. A Igreja é a mesma. Em cada uma está toda a Igreja. Numa diocese sem nome, distante geograficamente da minha, o bispo convocou uma reunião dos seus padres, isto é, o seu presbitério, com um parco grupo de leigos para que estes últimos relatassem a sua experiência num congresso de leigos em que tinham participado. Dizia-me um colega padre dessa diocese que, a determinada altura, e porque os leigos presentes faziam algumas reclamações relacionadas com a participação dos leigos na Igreja, o bispo se levantou, levantou igualmente a sua voz, e disse que não aceitava o que estavam a dizer. Aqui quem manda sou eu, referiu. E a reunião terminou naquele exacto momento. Nem uma voz mais se ouviu. Não sei o que aqueles leigos disseram nem se o que disseram era bom ou mau. Mas sei que a voz foi-lhes tão dada como calada. E é assim que vive uma Igreja que quer escutar todos, mas que não dá voz a todos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Nós e vós"

terça-feira, março 15, 2022

simeonus [poema 346]

havia uma parede e um eco do outro lado 
punha-me à escuta, encostado a ti 
em punho erguia o meu passado 
para sentir o teu palpitar 
 
ouvia ao longe como se fosse dentro de mim 
o cair da lágrima sobre o lago, e a chuva 
nascia como uma voz que vem do outro lado 
sem fim 
 
havia um muro que galguei como escada 
e um som de longe que estava bem perto 
em mim

quinta-feira, março 10, 2022

Se as mulheres parassem, a Igreja parava.

Não era uma campanha feminista ou coisa do género. Era um diálogo um pouco surdo, ou em surdina, entre duas gerações de mulheres que se dedicam com alma à Igreja, na comunidade onde vivem e celebram a fé. O diálogo ocorreu na minha presença. Uma presença discreta, a minha, que as deixou falar à vontade. 
Uma das mulheres, a mais velha, está habituada a servir o marido e todos os demais à sua volta. Fá-lo com uma generosidade ímpar. A outra, a mais nova, gasta-se a servir como se a sua missão lhe viesse de uma vontade de ser útil, estar presente, ser uma voz entre iguais, fazer o que tem de fazer porque entende que vive numa sociedade e numa Igreja que precisa dela e do seu carisma. A segunda exaltava o papel das mulheres. A primeira apagava o papel das mulheres. Uma esgrimia argumentos a dizer que elas eram imensamente importantes na Igreja. A outra esgrimia poucos argumentos. Ouvia mais que falava. Gostava do que ouvia, mas não precisava disso para fazer o que fazia na comunidade. Era uma mulher submissa. Talvez ainda haja mulheres que sentem ou vivem a palavra “submissão” como subjugação, dependência, servidão, subordinação, sujeição, vassalagem. Eu prefiro entender a palavra como entrega humilde, como disponibilidade. Mas entendo que seja uma palavra difícil, tanto de entender como de usar. Estava interessante a conversa daquelas duas mulheres. Eu gostava do significado das palavras, inclusive dos silêncios e das pausas. Daqueles dois exemplos de fé professada, celebrada e vivida. Na primeira pessoa, ou na segunda ou na terceira. Dava igual. 
Sem as interromper, anotei. Se as mulheres parassem ou fizessem greve nas comunidades cristãs, a Igreja parava. De facto. As mulheres são quem mais trabalha nas comunidades cristãs, quem mais ocupa ministérios litúrgicos e pastorais, quem está mais presente, quem mais se dedica à Igreja. Ei-las no coro, no ambão, no zelo dos altares, na catequese, nos grupos de oração, nos encontros espirituais, na acção socio-caritativa, e por aí fora… Apesar da  hierarquia da Igreja ser constituída só por homens, atrevo-me a dizer que cerca de 95% das comunidades cristãs, no seu todo e no seu particular, são asseguradas por mulheres.
Mais depressa a Igreja parava sem as mulheres que sem os homens. Se as mulheres parassem, a Igreja parava. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

domingo, março 06, 2022

menos catequese

Neste último período mais difícil da pandemia, a paróquia teve de suspender a catequese presencial, que está agora a retomar. Durante dois anos, ora há catequese ora não há. Os itinerários têm sido interrompidos ou intermitentes. Os catequistas bem tentam manter uma presença através de outros meios não presenciais. Contudo, na maioria das vezes, é apenas isso, uma presença. E embora eu sinta, tal como já o afirmei aos catequistas, que é ou pode ser uma oportunidade para tornarmos a nossa catequese mais kerigmática e menos doutrinal, a verdade é que a catequese intermitente é como uma fé intermitente. Não agarra. Não compromete. Não fomenta caminho. Ainda assim, agora que estamos a retomar as sessões presenciais, uma mãe veio ao meu encalço a pedir se a catequese poderia ser menos vezes. Ó senhor padre, assim só de quinze em quinze dias. É bem capaz de ter razão aquela mãe. Também a vida da fé deveria ser só de quinze em quinze dias. Ou até menos. Quanto menos, melhor, Senhor. Menos catequese, por favor! Menos… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nem Pai-Nosso nem Avé-Maria"

quinta-feira, março 03, 2022

os likes da paz

Por estes dias abundam e tornam a abundar nas redes sociais imagens, textos e propostas relacionadas com pedidos de paz. Parece-me bem. Imensamente melhor do que partilhas de fotos de comidas ou similares. Como o Papa Francisco convidou a Igreja a que, no primeiro dia da Quaresma, as pessoas fizessem jejum e oração pela paz na Ucrânia, multiplicaram-se, e bem, os convites e as propostas neste sentido.  Multiplicaram-se também os likes nestas propostas, como era de esperar. O que eu não sei é quantas pessoas que colocaram likes nestas publicações fizeram de verdade jejum ou rezaram pela paz na Ucrânia. Não sei e não queria ajuizar. Mas tenho um dedo mindinho que não para de tentar adivinhar, o malandro. Pois, como é normal no mundo dos likes, muito se resume a likes
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amizades especiais"

terça-feira, março 01, 2022

Os padres fixes

Veio ao meu encontro com uma das mãos no peito e um pouco acabrunhada. Senhor padre, olhe, às vezes ouço dizer mal do senhor padre, porque não faz as vontades às pessoas, como outros que aceitam qualquer um para padrinho e o número de padrinhos que as pessoas quiserem, aceitam qualquer um para se crismar, não exigem preparação aos noivos, entre outras coisas parecidas. Eu fico triste ao ouvir estas coisas e nem lho queria dizer. Mas ela disse. E eu sei-o. E já nem sei se fico triste, porque muitos desses que ela designou de ‘outros’, fazem, geralmente, parte do grupo de colegas que apenas celebra sacramentos, espera receber o contributo respectivo e vive para agradar. 
O que eu gostaria mesmo que dissessem de mim não é que lhes fazia as vontades e que era um fixe, mas que os ajudava a crescer na fé. Que lhes anunciava a Boa Nova de Salvação. Que, quando me escutavam, conseguiam estar mais próximos de Deus. Que confiavam nas palavras de alento que lhes dou no meio do desalento. Porque quem conta não sou eu, mas Deus. O importante não é o padre, mas Deus. Não é Deus que existe porque o padre existe, mas ao contrário.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A queixaria"

quinta-feira, fevereiro 24, 2022

A fé não é bem fazer o bem

Um dia destes, numa tarde ensolarada e à sombra de uma árvore a que não sei dar nome, cruzei-me com a senhora Encarnação, uma mulher acostumada a fazer o bem, mas que não põe os pés na missa, como ela diz. Aquilo está cheio de beatas falsas. Eu faço o bem, senhor padre, sem olhar a quem. Não preciso de ir à missa nem de rezar para fazer o bem. Eu tenho mais fé que todas elas, referindo-se às tais que chama de beatas. 
A conversa prolongou-se entre palavreados castiços de quem não tem tento na língua, mas gosta de a usar para uns dedos de conversa com o senhor prior. E ainda bem. E nunca se azedou a conversa, nem quando lhe expliquei que a fé era muito mais que fazer o bem. Qualquer pessoa pode fazer o bem. Um muçulmano ou um hindu, um agnóstico ou um ateu podem fazer o bem. Naturalmente que tive de explicar algumas destas palavras porque a senhora Encarnação andou na escola apenas até à quarta-classe. E clarifiquei que os cristãos fazem o bem, ou devem fazê-lo, por Cristo, em nome de Cristo. E desse modo é que manifestam a sua fé. A fé tem mais a ver com fazer o bem por Cristo, com Cristo e em Cristo, a típica expressão que usamos na eucaristia e que gosto sobremaneira. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A fé de Portugal"

sábado, fevereiro 19, 2022

Jesus era um leigo

Numa Igreja que se clericalizou, é oportuno recordar alguns dados sobre a identidade humana e histórica de Jesus, assim como os inícios do cristianismo. 
Jesus não era cristão, mas judeu. Tinha uma índole secular, laical, isto é, era um homem imerso no seu mundo, entre os demais humanos, e não fazia parte de nenhuma casta sacerdotal do tempo. Por isso fora tão difícil acreditar que era o Filho de Deus, uma vez que era suposto um filho de Deus nascer e viver imerso na religiosidade, no templo. Como também seria expectável que manifestasse um poderio sem igual. Mas nada disso. Não nasceu nem na grande Judeia nem na cidade santa de Jerusalém, mas na simples Nazaré da Galileia dos gentios. Recorde-se ainda que dos supostos trinta e três anos em que viveu, só três deles foram passados a pregar. Cresceu e viveu como o comum das pessoas, num ocultamento e anonimato. Aliás, pode-se dizer que viveu, como a maioria das pessoas, ignorado e desconhecido. 
Não é adequado, igualmente, afirmar que foi ele que fundou a Igreja, senão que constituiu um grupo de discípulos a quem pediu que continuasse a sua obra. É mais correcto afirmar que apenas lhe colocou os alicerces. Por isso é que não vemos nos evangelhos um momento fundante da Igreja. A obra foi nascendo, cimentando-se, construindo-se, organizando-se, muito à imagem das estruturas de organização e de poder do tempo. É muito difícil fazer uma organização do nada e é natural que se sigam modelos já experimentados. Foi o que ocorreu. E, embora se possa olhar esta necessidade como algo menos positivo, há que dizer também que, ao contrário de outras expressões religiosas, a Igreja não nasceu à volta de doutrinas e de práticas. Ela construiu-se no seguimento de uma personagem histórica que serve de modelo e é precursor de um estilo de vida, no que há que inspirar-se. Seguir Jesus é aderir a Ele. Ser Igreja é estar configurado com Ele… na quotidianidade!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Pesquisar Jesus na Internet"

quarta-feira, fevereiro 16, 2022

A pandemia está a retirar-nos alguns bairrismos escusados

Uns dizem que a pandemia está a acabar e outros que está para durar. Uns dizem que a vida tem de continuar e outros ficam a vê-la passar. E algo similar se passa dentro da Igreja, onde se dá conta de uma série de mudanças que a pandemia tem desvelado e de uma série de mudanças que se têm tornado ainda mais urgentes. Diz-se que o mundo não mais será o mesmo depois desta pandemia. Eu digo que a Igreja ou a sua acção não voltará a ser igual. Tenho pensado muito nisto. Tenho reflectido e amadurecido algumas posturas e pastorais. E reconheço que, quase naturalmente, alguns pequenos processos vão-se tornando parte de uma grande conversão. Pelo menos nas comunidades que, pastoralmente falando, coordeno. Dou alguns exemplos. 
Nalgumas das minhas comunidades mais pequenas, a missa destes últimos tempos tem sido quando é possível, ou seja, quase sempre fora do fim-de-semana. Não têm reclamado não terem missa no Domingo e aceitam a possibilidade que lhes é oferecida. Talvez tenham aprendido que o Domingo é o dia do Senhor, mas que em qualquer dia podemos celebrar a Páscoa do Senhor. 
Nalgumas das comunidades maiores, as pessoas vão-se sentando, à medida que entram na igreja, nos lugares que lhes são indicados pelos ministros do acolhimento, e não no lugar a que se habituaram e que preferiram ou a que se acomodaram durante anos como um direito adquirido. 
Há paroquianos que, cada vez mais, começam a ir à Eucaristia da paróquia maior, porque sabem que ali há sempre eucaristia. A mobilidade que usam para o comércio, usam agora para a celebração da fé. 
A comunicação saiu da Igreja, para além do púlpito, e começou a ser mais usual e visível em outros âmbitos, sobretudo as plataformas virtuais e digitais. Dizem-me que a comunicação está muito melhor e menos fechada. 
Dá-me a sensação de que os ritmos e hábitos dos fiéis estão a ser reconfigurados com uma certa naturalidade. A pandemia está a retirar-nos alguns bairrismos escusados. E está a alargar os nossos horizontes.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A pandemia descristianizante"

domingo, fevereiro 13, 2022

“assassinado pela indiferença”

No centro de Paris, numa rua movimentada, no passado dia 18 de Janeiro, o fotógrafo René Robert, de 85 anos, depois de ter saído de casa, após o jantar, para um passeio, não se sabe ao certo como nem porquê, caiu inconsciente. Ali permaneceu caído cerca de nove horas, exposto ao frio numa noite em que as previsões meteorológicas apontavam para temperaturas de 3ºC. Levado para o hospital, depois que um sem-abrigo chamou os serviços de emergência, já pelas 6h30 da manhã, foi-lhe diagnosticado um traumatismo craniano e uma grave hipotermia como causa do óbito. Foi um desalojado da sociedade, um sem-nome, quem deu o alarme. Mais um dos que não conta. E um jornalista, amigo do fotógrafo, ao falar do assunto, intitulou-o de “assassinado pela indiferença”. Como de facto, assassinado por uma sociedade que tem opinião para tudo, mas que é indiferente a tudo. Uma sociedade que defende a diferença, mas não dá conta do outro. Uma sociedade formada por indivíduos que não se olham senão a si próprios. Paradoxalmente plural e individual como nunca na história do mundo. Uma sociedade em rede desligada. Uma sociedade feita de pessoas que vivem, sozinhas, ao lado uns dos outros!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O sacrário está vazio"

sexta-feira, fevereiro 11, 2022

pedras [poema 345]

as pedras doem nos sapatos e alargam-nos 
fazem ali a calçada para os passantes 

e os que passam não dão conta 
que as pedras doem por dentro 
sem o dizer, na calçada 
da vida, à noite são mais pedras 
a doer

segunda-feira, fevereiro 07, 2022

Comunhão clericalizada

No século IV, com a passagem do cristianismo de religião perseguida a religião de estado protegida pelo Império Romano, agravou-se uma distinção e separação entre os cristãos que já se vinham designando por clérigos ou leigos. 
Não existia nenhuma separação no tempo de Jesus e o cristianismo surgia como uma comunidade fraterna. Mas estas mudanças fizeram dos clérigos uns funcionários com honras de estado, ao ponto de pouco a pouco passarem a vestir-se diferente, copiando os trajes da nobreza, sobretudo na liturgia. Pior ainda, passaram a sentir-se diferentes dos que não eram clérigos. Passaram a sentir-se superiores. 
Esta eclesiologia hierarcológica durou muitos anos e hoje há uma facção, dentro e fora da hierarquia da Igreja, que insiste em restaurar estes tempos, afirmando falaciosamente que é um voltar à doutrina, quando se trata do afastamento da Igreja das primeiras comunidades cristãs e um regresso ao clericalismo do qual ainda não se saiu. 
Neste espírito de neocristandade, é comum assistir à imposição ou obrigatoriedade da comunhão exclusivamente na boca e, de preferência de joelhos. Dizem que é deste modo que se dignifica a comunhão e que se manifesta a nossa humildade diante do Santíssimo Sacramento. Esquecem que, quando Jesus supostamente instituiu a eucaristia, o pão e o vinho passaram de mão em mão pelos seus apóstolos e nenhum deles se ajoelhou diante dessa partilha. O que os defensores deste modus operandi não referem ou não dão conta é que essa forma de entender a distribuição da comunhão não é própria de uma Igreja comunhão de irmãos, uma Igreja de povo peregrino. É antes de uma Igreja clericalizada, que não só distingue, como separa clérigos dos leigos, como se os primeiros fossem a casta de Deus, a elite de Deus que pode estar de pé e tocar com as mãos no Senhor. O que estes colegas não dizem é que as pessoas, afinal, e num simbolismo enganoso, estão a inclinar-se ao clérigo e não a Deus! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Aqui só comungam as mulheres"

sexta-feira, fevereiro 04, 2022

desassossego [poema 344]

a tempestade caiu nos degraus da casa 
enquanto a manhã os subia 
os pés ficavam marcados na escada, como o barro se marca com uma mão 
e o pincel
Era lama da tempestade. Era terra. Era lugar 
 
Não te importas que a tempestade seja o nosso morar? 
a manhã não queria acordar nos degraus. A tempestade avultava-se
 
Tens medo, perguntou a escada, que era o lar 
da tempestade e do barro. A terra 
onde nascem as manhãs 
a pincel 
 
Mc 4,35-41 

quinta-feira, fevereiro 03, 2022

resultado da sondagem "best post 2021"

Deixamos os resultados da última sondagem que perguntava sobre o texto mais interessante ou tocante de 2021:

Se quiser, pode ler de novo os textos mais votados, que já estão na secção "Best post":

3. A fé provoca-nos muitas dúvidas

segunda-feira, janeiro 31, 2022

A fé que não se sabe mas se vê

Eu cá tenho a minha fé. Justificava-se diante da vizinha que é uma senhora de hábitos de oração e que costuma ter muitas atenções para com as vizinhas e as pessoas que sabe que necessitam de alguma coisa. Sejam bens alimentares ou uma palavra, uma atenção ou um pouco do seu tempo. Estavam a conversar sobre a pandemia e Deus que não tem feito muito ultimamente, mas que as pessoas também o procuram pouco. Nem que seja para terem força. Até que a primeira disse de rompante Eu cá tenho a minha fé, para justificar a pouca oração e a pouca presença comunitária e comprometida. E a segunda, a propósito disso, veio perguntar-me como se poderia contabilizar a fé de uma pessoa. 
A fé e a intimidade das pessoas com Deus não se contabiliza. Como é algo muito pessoal, ninguém o pode perscrutar ou quantificar. Contudo, os indícios são também sinais, embora com uma enorme relatividade. Um indivíduo apaixonado sente essa paixão no mais fundo de si e só ele sabe o que sente. No entanto, as hormonas dão de si quando a sua amada está por perto. Os sinais de que a ama costumam ser bastante manifestos, por mais que se tentem esconder. 
A fé é do mais íntimo que possa existir. Perpassa o coração e o que somos no mais profundo de nós. Mas deixa rastos à sua volta. Por isso quando alguém diz que tem fé, mas arrasta poucos indícios dela consigo, o mais certo é não ser fé ou ser uma fé tão incipiente que ainda não se transformou na fé apaixonada e amadurecida.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Tenho fé, mas também tenho medo, senhor padre"

quinta-feira, janeiro 27, 2022

Deus emérito

Na pós-modernidade tudo é um pouco pós. Até Deus. Na pós-modernidade Deus perdeu-se. Perdeu-se, inclusive, como problema. E o assunto não se confina no ateísmo. Deus deixa de existir não porque não exista, mas porque é irrelevante. Tornou-se irrelevante e uma generalidade das pessoas vive como se ele não existisse. Ou como se não importasse se ele existe ou não. Deus é despedido porque já não tem função social. Quem é que faz o que quer que seja condicionado por uma ideia de Deus ou do que Deus quer ou projecta? Ninguém. Nem a maioria dos que se dizem cristãos. Deus no exílio. Aos poucos, Deus vai ficando confinado numa ideologia a que se convencionou chamar Igreja. Começo a perguntar-me se não vivemos num tempo de um pós-Deus ou de um Deus emérito! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um Deus que se ama ou que se acredita"

segunda-feira, janeiro 24, 2022

E se depois da morte não houvesse senão o nada?

A pergunta inquieta. A pergunta mais inquieta que podemos fazer quando sentimos de perto o rosto da velhice, da doença ou da morte. O senhor João, a quem inventei agora o nome à pressa, lê muitas coisas e já tem tempo para as ler de dia e de noite. No meio das muitas coisas que são livros ou artigos de profundo interesse, diz-me que não quer acreditar em Deus, mas que tem sempre pontas soltas quando o pensa. Por isso gosta de falar com o padre da terra, que é como quem diz, a sumidade das exegeses da fé ou da doutrina ou da Bíblia, que ele toca de vez em quando. Sobretudo quando se intriga nalguma linguagem de algum pensamento. Parece um filósofo dos antigos. Mas sem textos redigidos ou pensamentos elaborados. Parece apenas um homem que pensa porque quer viver com sentido. E é mesmo por isso, diz-me, que não se afasta totalmente de Deus, e o admira por fora. Assim como admira os crentes por dentro. Bem, isto já sou eu a filosofar. A debitar palavras e pensamentos sem nome atribuídos ao senhor João quando são mais meus que dele. Mas a pergunta que formulou como eu a disse, inquietou-me. Porque tenho uma certeza racional de Deus que me brota do amor que sinto por dentro, mas não tenho certezas para além dessa. Eu nunca imaginei um para além da morte sem Deus, senhor João. Nunca o pensei porque não faz sentido. Mas isso não será um subterfúgio de uma humanidade que quer sossegar-se?, perguntou o senhor João. E eu respondi que eu não me quero sossegar, porque nunca me sossego. Por mim falo. Mas as explicações que me saem da relação que tenho com Deus e que são inexplicáveis, são a fonte dessa evidência pessoal. E continuámos a nossa conversa com palavreado que, agora que o leio ao escrevê-lo, me pareceu mesmo um conjunto de palavras como se fossem um pequeno ensaio sobre o viver. Creio que ficámos os dois com a pergunta no bolso. Eu convencido, pelo coração, que o criador da vida humana só poderia criar uma vida com sentido para além dela. E o senhor João convencido que ainda não estava convencido, mas que o não estar convencido era um sinal de que se queria convencer. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Olímpia e o milagre da vida"

sexta-feira, janeiro 21, 2022

os padres santos XIII

Conheço padres que nasceram para serem super-protectores. Não deixam que as outras pessoas façam as suas opções erróneas. Ou errem. Não deixam crescer na fé, porque fazem da fé dos outros uma fé sempre infantil. Uma fé encostada ao padre. Tal como a criança se encosta ao pai ou à mãe. Hoje já não há muitos padres destes, mas é porque as pessoas não deixam. Porque há muitos padres com o íntimo de protectores. Como se a missão sacerdotal fosse proteger. Proteger do mal. Eu diria que tem mais a ver com o saber viver com o mal. Atravessá-lo. Conseguir encontrar o caminho por ele. Mas são santos, porque vivem preocupados com o mal e com os outros, embora eu achasse que era melhor pensarem no bem. Ou seja, no bem dos outros. 
 

terça-feira, janeiro 18, 2022

Qual foi para ti o melhor post de 2021?

Deixamos os resultados da última sondagem que perguntava "Na tua opinião, qual foi a acção mais marcante de Francisco em 2021" e que destacou o "início do sínodo sobre a sinodalidade". 

Iniciamos, igualmente, uma nova sondagem, no lado direito do sidebar, para perguntar qual foi, na nossa opinião, o melhor, mais tocante ou mais interessante texto não poético de 2021 (excluido o marcador "especial 'padres'"). Os 10 textos a votação foram seleccionados de acordo com as indicações dos "penitentes" deste espaço e de acordo com a minha apreciação. Quem os quiser "revisitar", tem os links respectivos abaixo da sondagem. Bem haja pelo vosso interesse e colaboração!

sexta-feira, janeiro 14, 2022

"best post" 2021

Nos últimos anos, por esta altura, costumo colocar os textos de todo o ano a uma votação. Peço, mais uma vez, a vossa ajuda para seleccionar aqueles textos/prosa que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes em 2021. Note-se que decidi excluir os textos do “especial’padre’”. 
 
Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Deixo algumas sugestões, de acordo com a minha apreciação particular e tendo em conta alguns dos que foram mais visualizados, mas podem indicar outros que aqui não se encontrem linkados. Depois colocarei os 10 mais apontados a uma votação. 
 
Agradeço desde já a vossa participação e colaboração. A mim fez-me bem relê-los. Pode ser que faça bem a mais alguém.


Nota que os poemas não entram nesta sondagem.
Quem quiser dar uma espreitadela aos "best post" de 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019 e 2020 clique AQUI.

janeiro

legalizar a eutanásia

fevereiro

ver a missa

em parte sim e em parte não

Os papas infalíveis

paróquias com seguidores

 

março

Sou muito mais a Sofia

A culpa do pecado é do perdão de Deus

 

maio

A fé provoca-nos muitas dúvidas.

O Miguelito e a Ressurreição

 

maio

a catequese das festas

 

junho

A comunidade cristã eficaz

Também te amo muito

Desidentificado

A esperança é a última a morrer

 

julho

a Igreja que se quer reorganizar na mesma organização

"A pecadora da cidade"

Bater no peito

adentro neste retiro

A igreja que não cativa

 

agosto

Uma Igreja sem fé

Deus ama-me como sou

Homens do caminho

 

setembro

Os tempos das coisas

uma instituição vazía, ainda que cheia de actividades

Nunca pensei em ser padre para ser um padre

As paróquias deixarão de ser paróquias!

 

Outubro

uma Igreja mais corresponsável

As dúvidas e a fé

A minha multidão

 

Novembro

igrejas em saída

 

dezembro

Natal da Esperança

o padre e o casado

missa sem missa

terça-feira, janeiro 11, 2022

Deus não podia ter criado o covid-19

Uma senhora devota, em resposta ao padre que dissera na televisão que Deus, às vezes, manda uma doença como a covid-19 para que as pessoas se convertam e mudem de vida, estava muito zangada numa rede social a queixar-se do padre. Como poderia ele pensar que Deus cria um mal – pois que o vírus é um mal – para o homem?! 
Embora a senhora tenha boa intenção e tenha uma imagem de Deus muito boa, como um Pai que ama sem medida e tudo faz de bem pelos seus filhos, a verdade é que ela também se aproxima de uma heresia, pois parece dar a entender a existência de uma outra entidade criadora para além de Deus. Os vírus, tal como as bactérias fazem parte da natureza. Assim como as minhocas, os mosquitos, os elefantes, e demais seres vivos. Assim como os vulcões, os terramotos e as inundações, e demais fenómenos naturais que causam aflição, destruição e mortes. Contudo, o facto de o mundo criado por Deus ser assim, não quer dizer que Deus seja mau ou que crie e proceda com maldade. Apenas diz de um mundo transitório como este, no qual nos é dada a oportunidade de nos superarmos, por dentro e por fora, num caminho que não é feito só de rosas. O que nos acontece de mal, embora doloroso, às vezes até é uma oportunidade. Uma oportunidade de fazer escolhas, de estar atento ao mais necessitado, de sermos maís fraternos uns com os outros, e com todos os seres criados, de tomarmos consciência da nossa finitude e humanidade frágil. 
 

sexta-feira, janeiro 07, 2022

Deus mandou o covid-19 para que as pessoas se convertam

Deus, às vezes, manda uma doença como a covid-19 para que as pessoas se convertam e mudem de vida. Foi mais ou menos isto que um jovem padre disse numa televisão. Não sei qual é a formação teológica ou a ideologia que está por detrás desta afirmação, mas é do mais contrário que pode haver ao Evangelho. Afinal, Jesus veio para curar ou para adoecer? Jesus veio para curar doenças e não para provocar doenças de modo a alcançar a conversão das pessoas. Isso seria uma chantagem e Deus não faz chantagem. Deus ama e quem ama não chantageia. Tampouco se impõe. Antes se propõe. O Deus a quem Jesus chamou Pai e que nos ensinou igualmente a chamar Pai, não faz uma coisa destas. O jovem padre tem uma imagem de Deus errada. Como se fosse um castigador, sem olhar a meios e sem escrúpulos. O jovem padre da televisão pode até ter uma relação com Deus, mas é uma relação através do medo e não através do amor. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Os filhos do pecado"

terça-feira, janeiro 04, 2022

Igreja clericalizada

No ocidente está a diminuir o número de padres, mas não está a diminuir o clericalismo. O fenómeno torna-se ainda mais paradoxal, porque se vai acentuando a idade avançada de maioria dos padres e uma parte considerável das novas gerações de padres agarram-se ao ministério de modo fortemente clericalizado. Já há quem estude o fenómeno dos chamados ‘padres novos’ como um grupo nascente de padres que se agarram ao culto como essência do ministério sacerdotal. 
Também a vida eclesial está fortemente clericalizada. Nas paróquias ainda gira tudo, ou quase tudo, em redor do padre, como ‘senhor’ do administrativo, do pastoral, do formativo e do cultual. Ele é o faz tudo. Ou de quem se espera tudo. De tal modo que quando as pessoas falam da Igreja – geralmente mal - estão a referir-se ao padre. O Papa Francisco, com o motu próprio Spiritus Domini, admitiu a possibilidade de as mulheres acederem ao acolitado e leitorado, e com o Antiquum ministerium, introduziu o ministério do catequista. Estamos em cima de um sínodo sobre a sinodalidade. Mas o caminho é longo até deixarmos de ser uma Igreja clericalizada! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A instituição do padre Zé"