Mostrar mensagens com a etiqueta testemunho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta testemunho. Mostrar todas as mensagens

domingo, setembro 28, 2025

Não tinha medo de morrer

Os últimos cinco anos foram passados com a quimioterapia ao peito. No verdadeiro sentido da palavra, era frequente trazer um fio ao pescoço com a quimioterapia pendurada. O que mais estranhava neste colega presbítero era a alegria que, mesmo assim, também transportava. Algumas vezes não resisti em dizer-lhe como isso me fazia bem. E ele apenas respondia que não era nada. E ria-se. Era como se se risse do cancro que se apoderara dele. Nos últimos tempos, o bispo quis dispensá-lo dos serviços paroquiais que se tornavam cada vez mais difíceis. Não desistiu até ter de ser levado novamente ao hospital onde lhe detetaram uma série de metástases em locais do corpo onde já não era possível atacar o maldito cancro. Restava esperar. E foi o que fez, consciente de que não se tratava de esperar o fim, mas esperar em Deus. Dizia o seu irmão, por sinal, igualmente presbítero, que ele repetia constantemente que não tinha medo de morrer porque sabia que ia ressuscitar. Em tom de brincadeira, também ia dizendo que os “bichos” não haveriam de o vencer e levar a melhor, pois quando morresse eles deixariam de ter que comer e morreriam, enquanto ele haveria de ressuscitar. E assim foi… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte XI, outro jovem"

sexta-feira, junho 09, 2023

jeito de amar sem jeito

Às vezes falta-me a coragem de te olhar olhos nos olhos, Senhor. Tu sabes tudo, tu sabes que te amo, embora o meu amor seja tão pequeno quanto o tamanho da minha pequenez diante de ti. Sabes que ele é pequeno, mas é sincero. Sai de mim como sou. E volta a mim para sair sempre em tua busca. Quando me deito nem sempre te entrego a minha noite. Quando me levanto nem sempre te entrego o meu dia. Praticamente só me lembro de ti quando me cruzo com as tuas coisas e nisso agradeço-te o meu sacerdócio, porque me faz pensar em ti nas muitas coisas que tenho de fazer em cada dia. Tu sabes tudo, tu sabes que te amo deste jeito sem jeito. Deste jeito mal organizado e pouco racional. Mas também creio que é por isso que ainda aqui estou, mesmo sem a coragem de te olhar olhos nos olhos, com receio de ficar preso ao teu olhar sem fim.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como te amo, Senhor?"

domingo, abril 02, 2023

A avó que era uma santa e morrera santamente

Era muito boa a minha avó, senhor padre. Guardo-a no coração. Guardo-a como um coração dentro do meu coração. E então contou-me da fama que havia na terra de estar tudo bem em seu redor, de ela ver tudo com um olhar positivo, de estar sempre disponível e disposta para o que quer que precisassem dela. Falou também vagamente da doença que a acompanhou nos últimos dias da sua vida. Nada que a impedisse, porém, de ir à missa. Porque ela tinha algo especial com o Senhor. Ó senhor padre, era mesmo uma santa. Tão santa era que morreu de joelhos depois de comungar o Senhor. E contou que já não estava muito bem da sua saúde, mas que fora à missa acompanhada pelo marido e um outro familiar, que ela se deslocara, por seu próprio pé, à comunhão, que regressara ao seu lugar e se ajoelhara entre o marido e o outro familiar. Não mais se levantou, senhor padre. Quando a tentaram levantar, já tinha falecido. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Olímpia e o menino Jesus da cabeleira"

quinta-feira, março 23, 2023

Visão de Fé

No domingo passado, a mãe não teve possibilidade de ir à missa, mas o filho de sete anos acompanhou o pai, e ficaram no terceiro ou quarto banco da igreja, como é costume. O Mateus tem um modo de se dar com Deus que encanta quem ouve as histórias que a mãe conta. A missa era uma missa normal e a homilia era uma homilia normal que actualizava o relato da cura do cego de nascença nas nossas vidas. Chegado a casa, a mãe, para ver se ele estivera atento, perguntou-lhe de que tratava o evangelho. O Mateus, com as mãos na cabeça, respondeu prontamente: "nem vais acreditar. Jesus deu visão a um senhor cego, mas não foi só visão de ver. Foi também visão de Fé". 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Chama-se Jesus"

segunda-feira, novembro 15, 2021

O Antoninho das flores e das almas

No domingo passado, o petiz foi com a mãe a uma paróquia vizinha limpar e cuidar das campas dos avós paternos da mãe. Foi no fim-de-semana dos finados e das romagens. De manhã cedo, o Antoninho, que tem a idade de quem entrou este ano na escola, acompanhou a mãe com entusiasmo. Ele gosta de ajudá-la. Ao chegarem junto da igreja, quis ir ao cemitério antigo, que quase pega com as paredes da igreja. Ao entrar, reparou que eram muito poucas as campas arranjadas com flores. Achou estranho porque no outro cemitério havia muitas flores por todo o lado. Por isso perguntou à mãe. Mamã, estas alminhas não foram muito amadas pois não? A mãe explicou que já não deviam ter quem cuidasse das suas campas. Ele fez um silêncio do tamanho dele, isto é, pequenino, e disse. E nós, porque não as amamos? Podíamos trazer algumas flores para estas também. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A chaveira"

terça-feira, novembro 02, 2021

O lindo Jesus do pequeno Mateus

Tenho visto o pequeno Mateus crescer para o Senhor de um modo encantador. A mãe vai-me contando as peripécias deste petiz que tem uma relação muito bonita com as coisas de Deus e que gosta muito de Jesus. Entrou este ano na escola e na catequese. Quando chegou a casa da primeira sessão de catequese, à pergunta da mãe sobre como havia sido, respondeu que fora fantástico. Quando chegou a casa da segunda sessão, imediatamente perguntou à mãe se poderia fazer um desenho de Jesus. E depois de o fazer, perguntou-lhe se o podia enviar ao Pai Natal e ao senhor padre, com este pedido: diz-lhes que fiz um Jesus com os braços abertos bem compridos para dar abraços muito bons. E fez mesmo. O desenho estava lindíssimo. Por fora e por dentro. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista e o menino"

terça-feira, setembro 21, 2021

uma instituição vazía, ainda que cheia de actividades

Pode-se afirmar que a Igreja sempre foi prolífera em iniciativas pastorais. Nos últimos anos,  desde o Concílio Vaticano II, esta forma de se viver em Igreja cresceu exponencialmente. A denominada Nova Evangelização, ideia bastante interessante na sua génese mas parca na sua prática, incrementou a criatividade pastoral. E estes tempos pós-modernos, voláteis, líquidos e plurais, são tempos que privilegiam, mesmo social e culturalmente, o excesso de actividade e de comunicação. A Igreja apenas vai na onda e por isso - desde as Igrejas particulares à Igreja universal representada pelo Vaticano - vive envolta de livros, notas pastorais, congressos, palestras, eventos religiosos e afins. 
No meio de tanta iniciativa pastoral, sobra pouco espaço para se viver aquilo que se prega. Sobra pouco espaço para o testemunho, essa acção discreta, diária e simples de mostrar que Cristo é a razão de viver por excelência. Dizia Paulo VI que “O ser humano moderno precisa de ver como se vive, mais que ouvir dizer como se deve viver”. 
A Igreja do futuro ou será uma “Igreja Testemunho” ou será cada vez mais uma instituição vazía, ainda que cheia de actividades. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Quer ser padrinho"

terça-feira, agosto 24, 2021

Uma Igreja sem fé

A generalidade dos baptizados que fazemos são pedidos por e para gente sem fé. Os casamentos igual. A catequese da infância e adolescência está estruturada como se os seus destinatários fossem pessoas com fé. Promovemos acções pastorais e eventos religiosos para pessoas que não têm fé e que apenas vão precisando da Igreja para necessidades pessoais ligadas a sacramentos, festas e funerais como eventos sócio-culturais arreigados. Gastamo-nos numa acção eclesial para gente sem fé, convencidos de que têm fé. Ou pelo menos estruturamos e executamos a nossa acção pastoral e cultual como se fosse para pessoas com fé. E as consequências estão à vista. Os agentes pastorais, a começar pelos sacerdotes, desgastam-se a fazer actividades inconsequentes e que, em muitas ocasiões, fomentam problemas e conflitos que doem a quem se dedica com zelo e que, às vezes, ainda afastam mais do encontro com Cristo. 
Uma Igreja constituída maioritariamente por gente sem fé que se agrega, mais ou menos, a ela como instituição sócio-cultural não tem futuro. E se a nossa Igreja, que queremos mais missionária, não se focar especialmente no primeiro anúncio, essa experiência de encontro com Cristo que leva à conversão, será, dentro em breve, uma Igreja mais vazia ainda. Vazia sobretudo da fé. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Gostava de esvaziar a minha igreja"

sábado, fevereiro 06, 2021

A Betinha e a Senhora

A avó ofereceu à Betinha uma Nossa Senhora de Fátima. É uma imagem muito branquinha. Fica bem com o rosto níveo e pequenino da Betinha que fez há pouco tempo cinco aninhos. 
A ‘Senhora’, como a trata habitualmente, está na sua mesinha predilecta. Elogia-lhe a coroa e ai de quem lha tirar. Ninguém lhe pode mexer. Mesmo quando a mãe vai limpar o pó, não se livra de ouvir os cuidados que deve ter com a ‘Senhora’. Passa horas a conversar com ela. Neste tempo da pandemia conversa seriamente com ela sobre o que vai ouvindo a propósito do coronavírus que tem levado os velhinhos todos para o céu. Ela sabe que Jesus está lá no céu, mas era melhor a ‘Senhora’ ajudar as pessoas. 
Embora menos, às vezes também a trata por ‘Maria’. Sabes, Maria, eu vejo pessoas sem máscara, velhinhos e novos também. Eles são teimosos. Diz ao Jesus para lhes dizer que não estão a fazer bem. Eu sou pequenina e ponho. O bicho não se vê. Sopra-lhes ao ouvido. E, depois deste diálogo, reza sempre uma Ave-maria.
Nos dias mais frios coloca a ‘Senhora’ por detrás da foto dela, que também está na mesinha, e diz que assim a ‘Senhora’ não se constipa. Mais curioso é que, quando estão a rezar lá por casa e a irmã de três anitos diz que não quer ouvir, a Betinha diz “ai se a ‘Senhora’ sabe fica triste... Tu só fazes isso porque ainda não foste batizada e não descobriste que tens uma pessoa, que não vês, que te adora”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Chama-se Jesus"

sábado, dezembro 05, 2020

Mãos ao alto

Uma paroquiana que é funcionária na escola e que tem a responsabilidade de fazer com que os meninos, à entrada, desinfectem as mãos, contou-me que aproveitava a ocasião para lhes ensinar a por as mãos ao Senhor. Mão direita sobre a esquerda. Alcool Gel e esfrega. Agora volta as mãos para o alto e agradece a Jesus o dom da vida. E não é que os pequenitos fazem os gestos, olham para o alto, e esboçam uma oração!? 
Lá está, não precisamos de grandes planos e programas de pastoral e de evangelização. O que precisamos é de cristãos que diariamente, mesmo em pequenos gestos, falem de Jesus e, mais ainda, testemunhem Jesus. Mãos ao alto, por favor! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Obrigado pela fé que me deste"

quarta-feira, dezembro 02, 2020

O Miguelito e o Papa

O Natal vem aí. E como está a chegar o tempo de escrever cartas ao “pai natal”, a mãe do Miguelito, que tem quatro anos, achou oportuno oferecer-lhe o livro que tem por título “Querido Papa” e contém respostas do Papa Francisco a cartas escritas por crianças de todo o mundo. Também achou que seria uma boa ideia propor-lhe redigirem uma carta ao Papa. O Miguelito, depois de ver o livro e porque não sabe ler, procurou-lhe Mamã, quem é o Papa? E ela respondeu dizendo que o Papa era o representante de Jesus na terra. Seguiram-se uns momentos de silêncio. Ele olhava o livro e depois olhava a mãe. Olhava de novo o livro e voltava a olhar de novo a mãe. À terceira não hesitou perguntar. Olha, mamã, o Papa Francisco também vai morrer na Cruz? A mãe, admirada pela associação que o filho fizera em tão tenra idade, respondeu-lhe imediatamente dizendo que Não, meu Filho. E a seguir ouviu o coração bom do Miguelito nas palavras: Se não, podíamos trazê-lo cá para casa para o proteger.

quinta-feira, outubro 10, 2019

Falemos de missão ou outras coisas

Missão, Missão Ad Gentes, Evangelização, Nova Evangelização. Isto anda como andam as modas. Agora fala-se muito de Missão, porque é o termo que Francisco gosta de usar por excelência. Há uns quarenta anos, a expressão Evangelização também constituía alguma novidade. Não passou muito tempo para que se começasse a falar de Nova Evangelização, ainda que nunca se tenha percebido completamente de que se tratava. Hoje fala-se no conceito amplo da Missão, mas cada vez que se usa o termo, lá se vai o pensamento para as terras de missão, como eram conhecidas as missões ad gentes. Ainda hoje, quando nas nossas comunidades, falamos de missionários, o pensamento foge para aqueles homens que viajaram para esses países onde Cristo, supostamente, não era conhecido. Como se nós, pela nossa identidade, não tivéssemos o dever de ser missionário. Já para não falar no descuido fácil do proselitismo ou colonialismo de algumas dessas missões. Mas passemos à frente. Há quem, de modo mais pró, utilize o termo Missão Inter-gentes. Uma amálgama de tudo para todos e entre todos. Interessante. Assim como a identificação que se faz de Missão Ad Intra e Ad Extra, ou seja, a missão para dentro da Igreja e a missão para fora. Ambas necessárias. Gosto particularmente do termo Evangelizar como ‘dar a boa notícia’, a boa nova da salvação. Mas gosto de falar em Missão porque penso neste termo como vocação, como sentido da vida, como identidade. Porém, o que importa realmente não são os termos que usamos, mas que toda a nossa acção de Igreja, e como Igreja, seja permanentemente o anúncio e o testemunho da Boa Nova da Salvação. Todas as teologias, formações, catequeses, liturgias, para-liturgias, acções sócio-caritativas, planos e programas pastorais, encontros e reuniões pastorais, deveriam ser acções evangelizadoras.

terça-feira, abril 02, 2019

A Adelaide prefere abraçar Deus

Não há muitas palavras que consigam traduzir como fiquei depois de escutar a Adelaide, que é uma senhora com alguma idade, reformada do ensino, viúva, mãe e avó. É uma cristã autêntica. Pelo menos no sentido em que procura a autenticidade da fé. 
No meio de um diálogo interessante e discreto, contou-me que, às vezes, perguntando-se a si mesma se tivesse que escolher entre abraçar Deus ou os filhos, ela escolhia abraçar Deus. Parece uma afirmação crua. Meio fanática. Meio despropositada. Mas eu sei que a sua afirmação é verdadeira. Tal como sei que, na terra, o seu amor maior são os filhos. Nunca se cansa de falar deles e com eles, apesar das distâncias. 
Por isso fiquei sem palavras. Fiquei sem chão. Não sei se algum dia eu conseguiria fazer tamanha afirmação de amor!

quarta-feira, janeiro 09, 2019

As freiras missionárias

Numa comunidade missionária ad gentes, havia umas irmãs, freiras, que cuidavam daqueles que eram abandonados pela dor e pela doença. O padre ia à comunidade mais ou menos uma vez por mês. Nessa circunstância celebrava a missa e baptizava quem lho pedisse. Quem me contou a história, referiu que o padre tinha sempre baptismos para realizar. E um desses dias, o padre perguntou a uma senhora que se queria baptizar qual era o motivo para esse pedido. Perguntou mesmo se ela queria abraçar a fé. E a senhora, que estava acamada, com uma doença quase terminal, respondeu que não sabia propriamente o que era essa coisa da fé. O que ela queria era ter a mesma religião daquelas freiras. A senhora acamada não sabia muito bem o que era a fé, mas queria o que aquelas mulheres consagradas tinham de especial. Fora o testemunho daquelas mulheres, a sua entrega, a sua vida que chamara a atenção, cativara e, de certo modo, convertera aquela senhora. Não há melhor evangelização que o testemunho.