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segunda-feira, fevereiro 23, 2026

A Igreja fácil

Vivemos num tempo do fácil. Tudo tem de ser fácil, de fácil acesso, de fácil consumo, sem dificuldades, adversidades, contratempos, sacrifícios ou compromissos. Sem um não aos nossos desejos e vontades. Neste contexto, a Igreja tem-se tornado um espaço ou um lugar onde o fácil também acontece. Ou, para sermos mais honestos, um espaço onde os seus principais agentes facilitam para se tornarem populares de forma mais fácil. Infelizmente, quando um padre exige alguma coerência entre o sacramento que se exige como um direito e a vida que lhe deve corresponder, está a alterar as regras deste tempo. Li algures a um outro colega, referindo-se a este tipo de situações, que “o consumidor não quer ser discípulo; quer ser cliente”. Concordo. Por isso se não há nesta loja, vai-se à loja do vizinho. Procura-se o padre facilitador, aquele que, como referia esse colega, “por preguiça pastoral ou medo de ser impopular, ‘despacha’ sacramentos”. E depois este padre é que é bom e aquele é que é mau. Mede-se o padre pelo facilitismo com que ele se presta a ser um comerciante do sacramento. Este é que é o padre porreiro. O outro é o padre que afasta as pessoas da Igreja. Como se estas pessoas não estivessem já afastadas e não quisessem manter-se nesse afastamento. Vivemos num tempo do fácil e, muitas vezes, por causa do porreirismo, a Igreja vai-se transformando, muitas vezes, numa Igreja fácil.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma conversa de acolhimento e imposições"

quarta-feira, agosto 27, 2025

O baptismo do urso panda


A criança foi a baptizar e os pais não esqueceram nada do que seria necessário para a cerimónia. Por isso adquiriram uma caixa com uma vela, uma concha, uma toalha de linho e mais alguns adereços que nem sei bem para que servem. Na verdade, há lojas criativas que lucram com algum marqueting à mistura. Não perguntei quanto custara a caixa, que não me senti desavergonhado o suficiente. Mas quis saber porque é que a toalha tinha bordado um urso panda e a vela tinha um laço com um urso panda estampado. A mãe respondeu que a criança gostava muito do urso panda.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Deus de folga"

quinta-feira, julho 24, 2025

Os padres facilitistas

De vez em quando o assunto regressa ao meu coração e à minha irritação. Regressa sobretudo quando na comunidade temos baptizados e crismas, porque essas são as ocasiões em que os supostos crentes mais pedem facilitismos. Pedem que se aceite um padrinho sem os requisitos necessários. Pedem que se aceitem dezenas de padrinhos. Pedem que se aceite para crismar quem não fez catequese nenhuma, não tem preparação alguma, mas quer ser padrinho à pressão. Os pedidos de facilitismos são muitos e variados. Alguns, como se costuma dizer, “nem ao menino Jesus lembram”. Para obter os resultados pretendidos usam-se todo o tipo de estratégias, mas já se sabe que a mais comum é a chantagem. E há dois tipos de chantagem que sobressaem: a primeira é a que vem de argumentos comparativos, usando o exemplo de outros colegas padres que tudo facilitam; a segunda é a que atinge directamente o padre com o ataque pessoal porque não facilita a vida às pessoas e não é compreensivo. As pessoas esquecem que o padre não deve ser senão um facilitador da fé e do encontro com Deus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma palavra de acolhimento e imposições"

sábado, maio 31, 2025

A minha entrada na fé

Quando entrou na escola, apesar de ainda não estar baptizada, os pais decidiram inscrevê-la na catequese da paróquia. Quase todos os colegas estavam inscritos. Os pais haviam decidido proporcionar-lhe a mesma oportunidade. A mesma oportunidade dos colegas e a mesma oportunidade que eles haviam tido quando eram crianças. Como depressa começou a gostar de conhecer Jesus, pediu aos pais para se baptizar. Portanto, quando se baptizou já tinha vontade própria suficiente para querer dar esse passo. E baptizou-se. Tive a alegria de poder presidir a este sacramento e de falar com ela sobre ele. Terminada a cerimónia, convidei-a, caso quisesse, a partilhar umas palavras com os seus convidados e demais presentes. Entre a timidez e a coragem, subiu o degrau da coxia, voltou-se para a assembleia e, deixando-nos todos de boca aberta, disse: “Obrigado por terem vindo ver a minha entrada na fé”.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Cerimónias para ver"

sábado, fevereiro 01, 2025

não se perde aquilo que já está perdido nem se afasta aquilo que já está afastado

A nossa sociedade fomenta clientelismos e compadrios ao ponto de que qualquer cidadão se habituou a conseguir atingir os seus objectivos, contornando esquemas com base em cunhas, jeitos e compras. Quando não consegue por estes meios, usa-se o sistema pressing ou o sistema comparison. O primeiro usa-se sobretudo com ameaças de que se não for assim, acontece assado, se não for deste modo, eu vou dizer. O segundo usa-se para tentar rebaixar o alvo em comparação com aqueles que são permissivos e que, como tal, são os designadamente bondosos. O senhor não faz, mas eu sei quem faz. O senhor é que não quer, porque outros fazem. O problema é que aqueles que estão habituados a estes sistemas para satisfazerem os seus desejos e necessidades são os mesmo que vão à Igreja pedir coisas com o mesmo tipo de vontade e hábitos. Cansa. Cansa mesmo. Mas a gente vai amadurecendo. E quando me dizem que vão fazer, tal como querem, a outro lado, porque o padre tal é que é bom porque faz as vontades, eu sou o primeiro a dizer-lhes que vão e que aproveitem. Ou quando me dizem que assim é que a Igreja perde as pessoas ou que assim é que as pessoas se afastam, eu recordo-lhes que não se perde aquilo que já está perdido nem se afasta aquilo que já está afastado.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A propósito de cunhas, vou meter uma cunha a Deus"

segunda-feira, setembro 30, 2024

A senhora que não quis crismar-se, de modo algum

Foi convidada para ser madrinha de um baptismo, mas não está crismada. Foi-lhe proposto que pensasse no assunto e que fizesse o necessário para se crismar e poder ser uma madrinha no verdadeiro sentido da palavra. Não. A resposta foi um rotundo Não, de modo algum. Não está interessada. Isto é, não tem qualquer interesse neste sacramento. Não lhe diz nada e também não está interessada que lhe falem da fé ou de Deus. Não quer, com um rotundo Não. Mas gostava de ser madrinha de baptismo da sobrinha. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Tem de ser ele o padrinho"

sábado, agosto 17, 2024

As leis que não são minhas

Há muitos padres que vivem facilitando a vida àquelas pessoas que fazem pedidos fora das normas, fora do Direito Canónico, fora da doutrina e, muitas vezes, longe do Evangelho e longe da fé. São, de certo modo, padres merceeiros que fazem da Igreja um supermercado e fazem das paróquias uma agência de produtos sagrados “fast food” para atrair clientes. Evito julgá-los, porque quero crer que não o fazem com má intenção. Talvez o façam porque não têm a força e coragem necessária para responder com um Não. Talvez. Talvez. Há que dizer, no entanto, que são motivo de grandes sofrimentos a outros colegas que, tentando ser honestos com a sua missão, procuram ser correctos e coerentes o mais possível com as orientações, regras e leis que também eles devem cumprir. Quando me fazem alguns pedidos a que tenho de responder Não, é meu costume recordar, a quem me faz o pedido, que as leis não são minhas. Tanto as têm de cumprir eles como as tenho de cumprir eu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não deitar lixo no cemitério"

quinta-feira, julho 28, 2022

O padrinho não baptizado

Ó senhor padre, estou a ligar-lhe porque tenho uma prima que quer batizar o filho, mas tem uma dúvida: o padrinho da criança não está baptizado. Há algum problema em relação a isso? 
O padre quase petrificou diante da pergunta que lhe fizeram ao telefone e tardou uns segundos, que pareceram anos, a recuperar da quase petrificação. Partiu do princípio de que o padrinho estava escolhido, estava convidado e só não estava baptizado. Porque a pergunta não era sobre se podiam escolher um padrinho não baptizado. Era se havia algum problema por o padrinho não estar baptizado. 
Talvez o pobre padre até tenha exagerado na reação escondida por detrás do telefone, pois há muitos padrinhos baptizados e crismados que não cumprem o papel que assumem no baptismo dos seus afilhados. Além disso, se o desconhecimento, para não dizer ignorância, das pessoas nas coisas da fé é enorme, muito se deve a uma Igreja que se preocupou mais em fazer sacramentos do que em formar para eles, em dar o que as pessoas pediam do que em provocar experiências de encontro com Cristo. Reconheçamos ainda que grande parte dos pais que pedem baptismos para os seus filhos o fazem por questões afectivas, sociais e culturais. Nesse sentido, o padrinho só precisa de ser afectivamente importante para os pais e eventualmente para a criança que vai a baptizar. Portanto, que problema tem escolher um padrinho que não está baptizado? Nenhum. É igual ao litro. Ou então não. E depois do padre ter respondido amavelmente à pergunta que lhe tinham feito, ouviu do outro lado o habitual “os padres só complicam”. E o telefone desligou-se.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Deus de folga"

domingo, julho 24, 2022

a missa dela

O pároco encontrou-se com ela na rua, um dia depois do baptizado do filho, que ocorrera na eucaristia dominical. Tinha sido uma festa bonita e, por isso, enquanto a saudava, o padre manifestou, com naturalidade, este sentimento. O que ele não esperava era a reação fria da senhora que, imediatamente, lhe disse que não gostara porque, num dia de festa de celebração da vida do seu filho, o padre tinha celebrado por mortos. O que é compreensível porque, nestas paróquias pequenas, as pessoas mandam celebrar pelas intenções dos seus mortos nas eucaristias dominicais e o pároco só tem obrigação de celebrar uma missa sem intenções, a chamada missa pro populo. A eucaristia é de todos e de toda a comunidade. A senhora, que até nem costuma ir à missa, estava indignada porque aquela era a sua missa. Só faltou dizer que a pagara e que o padre apenas tinha de fazer o serviço que lhe pedira. Lá voltamos ao de sempre. Por mais que um padre se empenhe e esforce em fazer destes sacramentos um momento excelente de evangelização, com a alegria que brota do Evangelho, nos tempos que correm, nesta Igreja prestadora de serviços sem fé ou com uma fé infantilizada, um encontro de rua que podia ser um momento de comunhão tornou-se um momento desagradável, para não dizer intragável.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma benção especial de alianças"

sábado, junho 04, 2022

A idoneidade do padrinho

interrogação?
Segundo o Código de Direito Canónico, no cânon 874, considera-se idónea para ser padrinho de um baptismo aquela pessoa que tenha sido escolhida pelo que vai ser baptizado, pelos pais ou, em último caso, pelo pároco ou o ministro, tenha 16 anos e maturidade suficiente, seja católico, tenha recebido o Sacramento da Eucaristia, esteja confirmada, leve uma vida coerente com a fé e com a missão que vai assumir, não seja o pai ou a mãe do que vai ser baptizado, além de que não pode estar afecta por qualquer impedimento legal da Igreja. Vale o que vale. Eu sei que são leis e normas, e o homem não vive para elas. São, no entanto, referenciais para que a missão do padrinho seja autenticamente a missão de padrinho. 
Por isso não faz sentido que alguém venha pedir uma declaração de idoneidade para que um adolescente de 12 anos, sem maturidade e sem ter o sacramento da confirmação, com uma vida de fé que podemos designar de afastada, ainda que frequente a catequese, possa exercer a missão de padrinho. Mas a mãe do adolescente pede, quase exige, porque o pároco do local onde vai ser baptizado aceita, desde que apresente uma declaração de idoneidade, sabendo este colega, à partida, que o adolescente não possui a tal idoneidade. Passa a bola para canto. Lava as mãos como Pilatos. Sossega-se e à sua consciência, na esperança de que outros decidam por ele, a favor ou a desfavor. E lá vamos nós ao mesmo de sempre, desbaratando sacramentos. Na verdade, eu não sou ninguém para garantir ou não garantir a idoneidade de alguém. Nem as leis o podem garantir. Porém, ao menos que este sacerdote assumisse a decisão, por uma questão de assumir uma coerência. Por isso é que sou de opinião que, se não se consegue proceder com autenticidade nesta matéria, que se reveja a necessidade da figura do “padrinho”. Ao menos, deixamos de fazer de conta…

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um dia os baptismos ainda hão-de ser baptismos"

quinta-feira, setembro 30, 2021

Os tempos das coisas

No encontro de preparação do baptismo do seu filho pequeno, à pergunta sobre o motivo pelo que tinha decidido baptizar o filho, o pai do Manelito, respondeu com honestidade que o fazia por tradição e porque a mãe, ou seja, a avó do Manelito, lhe chateava a cabeça para o fazer. Ipsis verbis. Ia baptizar o filho por ser uma tradição e porque, de certo modo, seguia o hereditário desejo dos seus antepassados. 
Esteve atento e foi dialogando quanto baste. Não estava muito interessado no encontro, mas também não estava lá como se não estivesse. E no final, fez a pergunta natural de quem está mais preocupado com outras coisas: quanto tempo vai demorar a coisa? Porque as coisas demoram tempo, porque o tempo de Deus é sempre diferente do nosso e porque ele precisava ouvir a minha resposta tal como lha dei, disse O tempo que for necessário. Os tempos das coisas são sempre os tempos necessários. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Deus de folga"

quarta-feira, outubro 23, 2019

Baptizado diferente

Senhor padre tal, que era eu, olhe, nós queríamos baptizar a nossa filha, mas queríamos algo diferente! Sabe, assim, usarmos uma música que costumamos colocar à Matilde, à noite, para a embalar. Tínhamos pensado em balões. Azul-turquesa clarinho, porque ela gosta muito dessa cor e nós também. Pelo menos ao fundo da Igreja, para se notar que é uma festa. Que é a festa da nossa menina. Para não ser só água, tínhamos pensado em colocar umas flores por cima daquele recipiente, que não nos recordamos como se chama. Pia baptismal, interrompo. Claro que queremos fazer uma coisa mais nossa. Mais familiar. Pouca gente. Apenas familiares e amigos. Quando lhes perguntei quantos seriam esses poucos familiares e amigos, responderam que não chegariam aos cento e cinquenta. Portanto, pouca gente, como é óbvio. Até tínhamos equacionado a hipótese de ser na igreja tal, que é muito bonita. Não que esta não seja. Mas, está a ver, era mais familiar. Só que acho que não cabemos lá. Porque são poucos, obviamente, penso eu. Ahhh, já nos íamos esquecendo. Estávamos a pensar em fazer a leitura de uns poemas em vez dos textos habituais, misturada com música clássica. Conhecemos um grupo que não é muito caro e que era capaz de ficar bem. Que acha, padre? Claro que não achei nada. Achei muita coisa e nada ao mesmo tempo. No meio de tudo aquilo, não encontrei nada. Nem o baptismo encontrei.

quarta-feira, agosto 14, 2019

O padre retrógrado

Um colega padre que não conheço e que mora distante, porque eu pedira aos pais que desejavam baptizar seu filho que pedissem uns documentos e que fizessem uma preparação específica para esse efeito, mesmo que fosse na paróquia onde residem, afirmou que eu deveria ser um padre retrógrado. Disse-o com displicência, segundo me pareceu, quando os pais fizeram essa alusão. Dissera-o, pelos vistos, para manifestar que hoje já não é preciso nada para baptizar. Soube mais tarde que, para este padre, bastava os pais marcarem a data e a hora. Nada mais era necessário. E na hora preenchiam os registos do baptismo no livro de registos paroquial. 
Ora se, por não ser facilitista, sou retrógado, então prefiro ser retrógrado. 
Assim vamos nesta instituição demasiado ou excessivamente sacramentalizadora, sem mais. Desculpem a quase redundância, que é de propósito. Vou agora pedir perdão a Deus pelos pensamentos impróprios que alimentei na ocasião.

terça-feira, junho 12, 2018

Preparar o baptismo

Convidaram-me para, numa outra comunidade paroquial, presidir a um baptizado. São gente amiga a quem já presidi ao casamento e baptizados dos outros filhos. Como sabem que não gosto de fazer por fazer ou, dito de outro modo, que gosto que o sacramento não se faça por fazer, vieram contar-me que o pároco da comunidade onde vai ser o baptizado não exigia qualquer tipo de preparação e que tudo dependeria de mim e da minha vontade. Na minha opinião deve fazer-se sempre, nem que seja apenas de modo espiritual, para interiormente preparar a celebração. E como sabem o que penso e como penso, decidiram procurar outras paróquias próximas, pois não conseguiam conjugar esforços para virem ter comigo pessoalmente. 
E agora chega o real motivo destas minhas palavras. Por não saber detalhadamente os contextos, contornos ou os diálogos ocorridos, evito fazer o mínimo juízo deles. Contudo, não consigo ficar indiferente. Contou-me o casal que o pároco onde residem lhes respondeu que não fazia a preparação e que se quisessem tinham muitos conteúdos na internet para se prepararem. Que fossem lá. Um outro, a quem recorreram, respondeu que tinha prevista uma dessas preparações em tal data que, aliás, era posterior à data do baptismo, mas que também não costumava fazer a reunião para aqueles que iam baptizar seus filhos ou afilhados fora da sua paróquia. E assim vão as preparações de baptismos!

sexta-feira, julho 29, 2016

Baptismos ajeitados

Falemos de baptizados. Estamos na época deles. Ou falemos de outras coisas que parecem baptizados. Ou falemos de uma Igreja ou de padres que se transformam em funcionais para agradar ou atrair sobre si uma popularidade barata. É aquele tipo de padre ou de igreja que diz a tudo que sim, não porque seja para bem do reino, da fé, do anúncio do Evangelho ou do amor de Deus, mas porque é mais fácil, mais prazenteiro, e sempre sacam da boca das pessoas palavras como Este padre é que é um gajo porreiro. 
Eu também tenho como opinião que a lei se faz para o homem e o homem não deve ser escravo da lei. O que não entendo é que em favor dessa opinião, se permita tudo sem que a fé, a conversão, o catecumenado, a formação, contem para uma decisão tão importante como é assumir a fé, tornar-se discípulo de Cristo, ingressar na comunidade dos discípulos de Cristo, isto é, receber o baptismo. 
Não estou zangado, nem indignado. Estou triste. E isto é um desabafo. Pois quando as pessoas vão à paróquia vizinha porque lá o padre aceita quatro ou cinco padrinhos, padrinhos sem crisma ou sem qualquer idoneidade, padrinhos com pouca mais idade que o afilhado, sem uma mínima preparação para o sacramento, ou sem as licenças que nos são pedidas, e às vezes até com exclusão de parte da cerimónia e do ritual do baptismo, eu fico triste. 
Não fico triste pelo facto de não alcançar, porventura, a mesma popularidade. Não fico triste por causa das dores de cabeça que é ter de atender pessoas que ameaçam com ir a outra paróquia se não se aceitam suas condições. Nem sequer fico triste com esses colegas, pois, como eu, eles terão de um dia prestar contas a Deus das suas opções. E talvez Deus os ouça com maior amor do que a mim. 
Fico triste é quando me apercebo que na Igreja, ou em alguns locais dessa Igreja, o que conta não é o anúncio do Evangelho, o encontro com Cristo e o sentido cristão da vida, mas o sacramento como acção cultural ou como o jeito que se faz para se ficar bem ou não se ter problemas. Triste porque fazemos sacramentos por fazer. Triste porque a Igreja dos homens, contrariamente à de Cristo, é muitas vezes uma igreja light.

terça-feira, setembro 22, 2015

É possível fazer Igreja sem sacramentos?

Estávamos à mesa de um café vários padres, pouco conhecidos na verdade, mas unidos pelo mesmo ideal, o sacerdócio. As diferentes idades e experiências eram patentes na conversa. Uma deles era missionário. Estivera vários anos na Amazónia, no Brasil, no meio de uma população indígena. Totalmente indígena, referia, no sentido de que estavam afastados do mundo civilizado, nómadas, índios que viviam da terra, da pesca e da caça como já só se vê em filmes. Um outro colega de uma geração mais velha que a minha perguntou-lhe como faziam, que faziam, como evangelizavam. E o padre missionário respondeu que apenas estavam com eles, que os ajudavam a procurar, por exemplo, deixar de se guerrear. O padre mais velho voltou com nova pergunta sobre como eram os baptismos, e o padre missionário informou que não tinham feito nenhum. Que a vida e cultura deles era muito diferente da nossa. E que Deus estava e manifestava-se por lá de outra forma. Que alguns dos índios se questionavam do que faziam lá três homens que se chamavam padres, e chamava-lhes a atenção do que faziam de diferente. Mas em termos daquilo que é a fé que nós conhecemos aqui na Europa, talvez tivessem dado poucos passos.
O padre mais velho, evitando demonstrar o seu escândalo, repetiu a pergunta. Ou melhor, fez a mesma pergunta de outro modo. Mas a resposta foi a mesma.
Eu, pessoalmente, fiquei encantado por perceber como a nossa missão sacerdotal não passa pelo proselitismo, mas pelo mostrar ou manifestar Deus através da nossa vida e acções. Fiquei encantado por perceber que Deus está muito para além do baptismo e qualquer outro sacramento. Muito para além da Igreja e da minha fé. Afinal Deus não pode nunca formatar-se, enformar-se. Ele entra em tudo e em todos de formas tão variadas, tão impensáveis. Mas entra.

domingo, agosto 17, 2014

Uma mãe que quer baptizar seu filho

Ligou para o telemóvel. Já fui à sua procura, senhor padre, três vezes e não o encontrei. Escusado será dizer que não me procurou nas horas em que devia e que a maioria dos paroquianos sabe que estou à disposição. Algumas dessas horas até se confundiram com as horas das eucaristias da paróquia. Sorri na mesma sem maldade. Depois disse que queria baptizar a filha. Certo, e perguntei-lhe em que dia estava a pensar. Queria no dia tal que é um Sábado. Informei que os baptizados eram durante a Eucaristia, de preferência a dominical, porque no baptismo se entrava na Comunidade Cristã e eu fazia questão de levar isto a sério. É também assim que aconselham as normas. Ela disse que não havia mal e que podia ser na missa de Sábado. E aquela mãe não sabia, apesar de eu estar aqui há mais de dois anos, que, para poder dar alguma assistência nas muitas outras paróquias que tenho, aqui não há missa ao Sábado. Claro que esta forma de não saber as coisas pode dizer muito do tipo de católica que ela é. Tudo ficou esclarecido. Tanto quanto possível. Mas passada que foi uma hora voltou a ligar. Pelo menos foi correcta. Há quem não chegue a tanto. Olhe, senhor padre, é só para dizer que, como não dá para ser no Sábado, nós vamos fazer o baptizado na paróquia tal, que é a dos meus pais. Pediu-me desculpa e desligou. Aceitei, como é óbvio. Não é meu feitio complicar estas coisas. Mas agora que passou outra hora, de repente parei para pensar e senti assim como que uma nostalgia. Aquela mãe tem todo o direito de fazer as suas escolhas e destas serem respeitadas. Esforço-me até ao tutano para não julgar. E continuo a esforçar-me. Se calhar ainda não é suficiente. Não tem mal a decisão daquela mãe. Está no seu direito. Mas sendo uma cristã que não sabe das coisas básicas da comunidade em que está inserida, saberá das mais profundas?

sexta-feira, novembro 25, 2011

Um dia os baptismos ainda hão-de ser baptismos

Era-me desconhecida e cuido agora, a uma distancia de dez quilómetros, que me pôs a suar pelo calor que ainda sinto atravessar-me o peito e a nuca. Queria baptizar o filho por tudo o que é mais sagrado, dizia. Já baptizara, faz dez anos, uma filha, e agora era a vez do petiz que tem, senhor padre, dois meses. Eu sei que já o devia ter baptizado, senhor padre, mas não tive tempo. É que o tempo, penso, só existe em nós para aquilo que é a nossa vida. A filha baptizada era do marido, de quem estava divorciada. O filho era do companheiro, que é uma palavra que entrou no vocabulário do amor dos dias de hoje. Expliquei, incomodado, que não era a melhor posição para pedir o baptizado e provei-o com números de leis da Igreja. Mas acrescentei que a criança não tinha culpa, desculpando-me, e que podíamos procurar requisitos para ela se baptizar. Concordou, claro. Depois falei de uma reunião de preparação e começou o habitual negócio de quem não tem as ideias claras da fé. Eu não tenho tempo para isso, senhor padre. E apesar de só ainda estarmos no início da conversa e do negócio, foi perguntando para que era tanta coisa, e afirmando que eram muitas burocracias. Insisti na verdade das coisas, e concordou, claro, porque ela queria um baptizado com verdade. Era difícil por causa do horário de trabalho do pai que este pudesse estar presente. Perguntei-lhe se também não ia arranjar tempo para ir ao baptizado. Compreendeu e falou que ia resolver. Falámos dos padrinhos e do que se lhes exigia. E continuou o linguajar das burocracias. Informei que podia procurar outra paróquia e disse que não queria. Falámos das datas, dos horários e de ser realizado perante a comunidade, na missa, motivos para disparar que ninguém tinha nada a ver com a vida dela. Escolheu um sábado e eu falei da missa vespertina. Concordou até perceber que missa vespertina era à tarde e não de manhã. Falei que eram as normas da Igreja, que não eram minhas e que já toda a comunidade as conhecia. Há três anos que estou aqui. Não sabe. Não conhece, como eu não a conheço. Não vai à missa, sorriu para disfarçar. Perguntei-lhe, com um sorriso marcado por dentes, mais cerrados que abertos, se ela pretendia que a criança fizesse uma caminhada de fé quando ela não a estava a fazer. Calou-se ou achei que a tinha calado. Dei-lhe uns formulários a preencher de um lado e para entender as razões do baptismo do outro. Descaradamente voltou ao dicionário das burocracias. Se as paredes da sacristia estivessem preparadas e não tivessem o branco de uma pintura recente, garanto que as tinha trepado. Por dentro já eu estava a trepar. Voltei-me de novo para ela, cara a cara, olhos nos olhos, e perguntei: Mas afinal eu pedi-lhe para baptizar o seu filho?

sexta-feira, junho 03, 2011

Cerimónias para ver

Hoje em dia tornou-se costume, ou normal, ou banal, serem as avós a tratar das coisas do baptismo. Os pais estão longe da terra e, às vezes, da Igreja. E foi assim que a Anunciação marcou o baptizado para o netinho Dinis. Tratados os papéis, os padrinhos e os pais, lá chegou o dia marcado pela avó e a hora marcada pela eucaristia da comunidade.
Cheguei uns vinte minutos antes, o que é raro. Havia tempo para tudo e mais alguma coisa. Em vinte minutos muita coisa acontece nas nossas vidas. Esperavam-me à entrada da igreja, mas dentro, no guarda-vento. Falámos um pouco. Estavam entusiasmados. Mantivemo-nos uns cinco minutos nisto, quando a avó, que lá estava, como manda a lei das avós que tratam de tudo, a dar conta da conversa, se lembrou de repente. Ó senhor padre, é verdade, lembrei-me agora, confesse-os lá. E apontava para os pais. Embora tardito, fazia sentido o seu pedido. Porém, como sou de opinião que estes pedidos devem vir de dentro, e ali vinham de fora, da avó que ainda queria continuar a tratar de tudo, olhei para eles e perguntei com o olhar se tinham vontade de confessar-se. Eles responderam, com o mesmo olhar, que não tinham bem a certeza. A avó deu conta e insistiu. Andai lá que a cerimónia fica melhor, mais bonita. E assim acabaram por confessar-se, que eu não me achei digno de o impedir. Disse o que tinha a dizer, e não sei se a cerimónia ficou melhor ou mais bonita. Nem se ficou mais sincera.

sábado, julho 10, 2010

Cumpri tudo

O Afonso veio de fora. Veio para marcar o casamento com a Susana. Apresentaram-se-me os dois à porta de casa para por os pontos nos is, que é como quem diz, para acertar o que houver de acertar. Queriam casar e precisavam saber o que era preciso. Cumpri tudo, diz o noivo. Referia-se ao baptismo, à primeira comunhão, à profissão de fé, ao crisma. Escrevo com letra pequena porque me pareceu que ele falou com letra pequena. Fiz a catequese até ao décimo ano. Faz parte deste grupo que, cada vez, se torna mais minoritário. Por isso, sorria. Cumpri tudo, padre. Ao que eu perguntei se não faltava alguma coisa. E ao que ele respondeu que tinha razão. Faltava o casamento.
E com a resposta, com tudo o que cumpriu, e com o significado da palavra cumprir, fiquei sem saber se tinha aquilo que deve ter um cristão que decide realizar este sacramento do matrimónio, ou outro, com verdade.