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sábado, abril 04, 2026

Jesus está em silêncio

Por favor, paremos. Jesus está em silêncio. Jesus não se calou, mas está em silêncio. O tempo parou. O véu do templo rasgou-se em dois. O seu corpo está frio. Está frio mas o coração não regelou. O mundo está em silêncio. As palavras vão e vêm no meio do silêncio. E eu digo: faça-se silêncio no nosso coração para que entre a palavra da Verdade. Já basta de palavras ao vento, de verdades que são mentiras ou meias-verdades, de verdades que são apenas opiniões e transformamos em Verdade. Queremos apenas a verdadeira Verdade! Por favor, paremos o ruído da rua e o ruído do nosso coração. Hoje somos convidados a olhar, a escutar, a meditar, a rezar a morte de Jesus em silêncio. Um silêncio de espera. Um silêncio de quem sabe que depois da morte vem a ressurreição. Por isso, hoje, Senhor, quero subir contigo ao calvário e, depois, baixar também contigo ao túmulo vazio para neles encontrar a Esperança! Nunca te cales, Senhor, neste silêncio que tanto me diz.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Ficamos 'bem mas bem'"

sexta-feira, abril 03, 2026

porque me abandonaste?

É verdade que até para ti não foi fácil. Também recordo que morreste a rezar aquela pergunta in-finita que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Procuro uma explicação para ela. Parece não fazer sentido vinda da boca de um Deus que não precisa de nada e tudo pode. É difícil entender que também tu tens dificuldade em abraçar a dor, em te sentir só e abandonado no sofrimento. Só lhe encontro uma explicação: uniste-te a nós não só na dor como na dificuldade em aceitar a dor. E isso só prova que tu não amas por metade. Não amas só por uma razão. Amas por todas. Amas por inteiro.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Entrego-te"

terça-feira, março 31, 2026

As mulheres

Contaram-me que, enquanto passavas com a cruz aos ombros, algumas mulheres gritavam para dentro o sufoco da dor. Ouviam-se os seus gemidos e lágrimas como uma música de embalar no meio de uma multidão que estava ali para ver o espetáculo! No meio da algazarra do tumulto em volta do espectáculo, os seus gritos mudos em nada sobressaíam, mas tu deste conta. Voltaste-te para elas com a mesma ternura com que as tinhas olhado sempre e disseste: “Não choreis por mim, chorai por vós mesmas e pelos vossos filhos”. Agora que penso nestas tuas palavras, bato no peito, choro por mim, choro pelos nossos filhos, choro em nome desta multidão que está agora à volta do teu corpo frio... e nú.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

quinta-feira, março 26, 2026

Sepultar à pressa

Há quem te queira depositar no túmulo à pressa. Tudo tem de ser à pressa porque toda a gente tem mais que fazer: Vamos, depressa, façamos tudo rápido, que temos de ir para casa fazer a festa comercial, cultural e mediática da Páscoa. Não ouves? Se és Deus, porque não vais por teu próprio pé para o túmulo?! Já vimos o que tínhamos a ver. Já batemos as palmas e já deixámos cair umas lágrimas no meio do furor da emoção. Temos muito que fazer. Temos sempre muito que fazer aquilo que não está feito e que sempre estará por fazer. Corremos loucamente atrás de uma vida, fugindo, sem querer, dela. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

terça-feira, janeiro 20, 2026

A Joaninha

A Joaninha portara-se um bocadinho mal. Digamos que um bocadinho era favor, mas ela era uma querida e custa dizer que se portou mal próximo do muito mal. A mãe teve de intervir com algumas palavras duras e uns olhares reprovadores, mas a pequerrucha resistia com as suas razões de oito anitos. Não tardou muito em magoar a mãe. Por isso, esta teve de lhe lembrar uma coisa que a filha não podia esquecer. Joana Maria, tu não te esqueças que fui eu que te dei a vida. A Joaninha não desarmou e, tal como aprendera com a catequista Amália, respondeu prontamente. Isso não é verdade, mamã. Quem me deu a vida foi Jesus. A mãe teve de esconder o rosto da admiração e da vontade de sorrir. Pois, pois, Joana. Mas ele deu-te a vida através da tua mãe, que sou. A Joaninha tinha a sua razão e a mãe também tinha, e muito bem, a sua razão. Ainda assim, é bom ouvir pequerruchos a falar de Jesus desta maneira. Foi Jesus que me deu a vida, mamã.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista e o menino"

sábado, março 08, 2025

O retiro Effetá do jovem Joaquim

Os retiros “Effetá” estão de moda, ao menos na vizinha Espanha. Trata-se de um retiro católico para jovens, cujo objetivo é experimentar um encontro pessoal com Deus. Faz-se com algum secretismo, mas isso só lhe adensa o mistério e alimenta o encanto. Para outras faixas etárias, existem retiros semelhantes: “Emaús” para maiores de 30 anos, “Bartimeu” para jovens dos 16 aos 18 anos e “Samuel” para adolescentes. 
Como desconheço o modelo deste tipo de retiros, sinto-me à vontade para contar o que se passou com o Joaquim, nome fictício de um jovem que participou num destes retiros. Saíra de lá encantado, como é costume ocorrer à maioria dos participantes, mas agora chegara à conclusão de que estava a perder a fé porque estava a perder o entusiasmo. Foi esse o motivo que o levou a procurar o padre na paróquia. Mas quando este lhe perguntou o que lhe causara impacto por parte de Jesus nesse encontro que, supostamente, tivera com Ele, o Joaquim não soube responder. Na verdade, o Joaquim, mais do que encontrar-se com Jesus, encontrara-se com a sua emoção. Agora, como a emoção se estava a ir abaixo, ele também se estava a ir abaixo. O encontro com Cristo é muito mais do que uma emoção ou uma experiência. É muito mais do que um momento de encanto. O encontro com Cristo transforma as vidas e transforma o modo de viver.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A geração digital e a fé sem interesse"

terça-feira, junho 04, 2024

Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor

Arrepiei-me ao ver, num pequeno vídeo, o modo como o padre Pio olhava fixamente a hóstia consagrada em suas mãos. Quase me vieram umas lágrimas ao rosto. Assim também no vídeo, após um longo momento detido com o olhar em Jesus sacramentado, o padre Pio teve de usar um pano para limpar as lágrimas, tão emocionado estava. Já sabia que ele tinha um profundo amor à Eucaristia, mas agora via-o com os meus próprios olhos. Fiquei embaraçado. Envergonhei-me das muitas vezes em que me distraio a celebrar a Eucaristia. Na verdade, muitas vezes o meu pensamento voa para as preocupações da vida, para as inquietações do ministério sacerdotal, para as decisões pastorais, para os problemas das pessoas que também me apoquentam. Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor. Que vergonha! Dás-me a graça de te poder olhar a um palmo de distância, de poder usar as tuas palavras da Última Ceia, de poder estar contigo suspenso nas minhas indignas mãos, e perco-me na minha limitada condição existencial e sacerdotal. Li, em tempos, que o padre Pio afirmara: “Que a sua primeira eucaristia e a última tenham o mesmo amor e o mesmo ardor”. Peço-te perdão, Senhor, pelas vezes em que não tenho presidido à Eucaristia como devia. Sei que te tornas presente em cada Eucaristia, independentemente de quem a preside e do modo como é presidida. Mas, por favor, faz-te presente também em mim sempre que eu celebre a Eucaristia. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não falo não falo e não falo"

sexta-feira, dezembro 29, 2023

Ser padre é ser boa pessoa

Ria-se muito durante a homilia e, para mim, isso é bom sinal. Um sorriso nos lábios amplifica as palavras, ou fá-las chegar mais perto do coração, o melhor lugar para as guardar. A homilia não ia longa. Contudo, terminou algo abruptamente, quando este meu colega, com quem concelebrava, afirmou que, na sua opinião, ser padre era ser boa pessoa. Que bastava isso. 
Reconheço que, em tempos, também tive a ideia de que ser bom era o fundamental da fé. Mas aprendi, entretanto, que qualquer pessoa pode ser boa, independentemente da sua fé ou da sua condição eclesial. A diferença está no ser bom por Cristo, com Cristo e em Cristo. Além disso, que mal estaríamos se os padres fossem somente boas pessoas. Os padres temos de ser, além de boas pessoas, bons pastores!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como penso que deveria ser um bom guia espiritual"

sexta-feira, abril 07, 2023

aquela agonia

Veio-me ao pensamento aquele momento da tua agonia. Não o sei descrever nem sei imaginar. Sabias o que te ia suceder, mas não sabias das forças para tal. É tão estranho ver Deus sem saber das forças, tal como nós. E depois os teus amigos. Onde estavam? Porque dormiam? Porque nada faziam para te aliviar o peso do sofrimento? Os evangelhos dizem que eles te seguiam para todo o lado. Andáveis sempre juntos. Aprendiam a vida contigo. Pousavam e repousavam em ti, nos teus conselhos, nos teus milagres, na tua segurança. Mas não estavam acordados naquela hora. Soube-se depois que, mais tarde, se esconderam com vergonha e com medo, quando tudo aconteceu, ultrapassando o seu entendimento. Ficaste sozinho, como nós ficamos tantas vezes metidos para dentro dos nossos sofrimentos, sozinhos, mesmo no meio de multidões de pessoas que ainda há pouco nos aplaudiam de pé. Veio-me ao pensamento aquele momento em que pediste ao Pai que, se pudesse, afastasse de ti aquele cálice, aquela cruz, aquele sangue, aquele peso insuportável de não saber se terias forças. A tua encarnação foi autêntica. E perceber que não tinhas a certeza das forças, dá-me muita força.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Via Sacra de um simples discípulo"

domingo, fevereiro 19, 2023

Jesus no escuro

A capela fica no andar de baixo e é convidativa. Passam-se lá uns bons bocados. De vez em quando, chama-me e eu entro. Geralmente durante o dia, sem horas pré-programadas. É o que mais gosto dela. Está ali sempre, à mão, e pronta a receber-me sem horários e que fazeres. Mesmo durante a noite. E foi numa noite destas que entrei e me sentei ao fundo, numa das últimas cadeiras almofadadas. Não acendi a luz porque as duas lâmpadas acesas, embora discretas, chamavam a atenção para o essencial, o sacrário e a cruz. A luz desta última era tão ténue, mas tão ténue, que mal se percebia a silhueta de Jesus. Era o meu Jesus escondido, pensei. Para que eu soubesse que estava lá, mesmo quando só desse para perceber uma linha ou duas da sua presença. Porém, o mais curioso ocorreu passados uns largos minutos no escuro. Quanto mais tempo permanecia na escuridão, mais o seu rosto se desenhava e se tornava visível. A luz ia crescendo e tomando-lhe forma por inteiro. Quanto mais tempo estava na escuridão, mais se notava a sua presença. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A fissura do braço de Cristo"

quinta-feira, novembro 10, 2022

A encarnação de Jesus hoje

Estávamos numa amena discussão sobre a realidade das paróquias e dos padres que as presidem. As vozes que mais se faziam ouvir eram as vozes dos inconformados, como eu, que pensam as paróquias e a evangelização e ansiosamente querem dar passos na direcção missionária da Igreja. O ambiente da sala era composto por pessoas habituadas a reflectir, maioritariamente sacerdotes. Por isso se notava algum desalento no tom das vozes. E às tantas, empolgado e a esbracejar, um dos presentes clamou por uma nova Igreja, dizendo que era necessário que Cristo voltasse à terra, que encarnasse de novo para renovar tudo. Em resposta, um dos padres mais velhos, num tom de voz próximo do murmurado, por dentro da máscara que ainda se usava na altura, interveio para dizer que não era preciso, pois Ele estava dentro de nós. Não precisávamos que Ele encarnasse de novo no mundo, mas que nós o deixássemos encarnar em nós. E calou-me. Calou-nos. Com tudo o que esse silêncio significa. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Que pode Deus fazer através de mim?"

sábado, fevereiro 19, 2022

Jesus era um leigo

Numa Igreja que se clericalizou, é oportuno recordar alguns dados sobre a identidade humana e histórica de Jesus, assim como os inícios do cristianismo. 
Jesus não era cristão, mas judeu. Tinha uma índole secular, laical, isto é, era um homem imerso no seu mundo, entre os demais humanos, e não fazia parte de nenhuma casta sacerdotal do tempo. Por isso fora tão difícil acreditar que era o Filho de Deus, uma vez que era suposto um filho de Deus nascer e viver imerso na religiosidade, no templo. Como também seria expectável que manifestasse um poderio sem igual. Mas nada disso. Não nasceu nem na grande Judeia nem na cidade santa de Jerusalém, mas na simples Nazaré da Galileia dos gentios. Recorde-se ainda que dos supostos trinta e três anos em que viveu, só três deles foram passados a pregar. Cresceu e viveu como o comum das pessoas, num ocultamento e anonimato. Aliás, pode-se dizer que viveu, como a maioria das pessoas, ignorado e desconhecido. 
Não é adequado, igualmente, afirmar que foi ele que fundou a Igreja, senão que constituiu um grupo de discípulos a quem pediu que continuasse a sua obra. É mais correcto afirmar que apenas lhe colocou os alicerces. Por isso é que não vemos nos evangelhos um momento fundante da Igreja. A obra foi nascendo, cimentando-se, construindo-se, organizando-se, muito à imagem das estruturas de organização e de poder do tempo. É muito difícil fazer uma organização do nada e é natural que se sigam modelos já experimentados. Foi o que ocorreu. E, embora se possa olhar esta necessidade como algo menos positivo, há que dizer também que, ao contrário de outras expressões religiosas, a Igreja não nasceu à volta de doutrinas e de práticas. Ela construiu-se no seguimento de uma personagem histórica que serve de modelo e é precursor de um estilo de vida, no que há que inspirar-se. Seguir Jesus é aderir a Ele. Ser Igreja é estar configurado com Ele… na quotidianidade!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Pesquisar Jesus na Internet"

terça-feira, janeiro 11, 2022

Deus não podia ter criado o covid-19

Uma senhora devota, em resposta ao padre que dissera na televisão que Deus, às vezes, manda uma doença como a covid-19 para que as pessoas se convertam e mudem de vida, estava muito zangada numa rede social a queixar-se do padre. Como poderia ele pensar que Deus cria um mal – pois que o vírus é um mal – para o homem?! 
Embora a senhora tenha boa intenção e tenha uma imagem de Deus muito boa, como um Pai que ama sem medida e tudo faz de bem pelos seus filhos, a verdade é que ela também se aproxima de uma heresia, pois parece dar a entender a existência de uma outra entidade criadora para além de Deus. Os vírus, tal como as bactérias fazem parte da natureza. Assim como as minhocas, os mosquitos, os elefantes, e demais seres vivos. Assim como os vulcões, os terramotos e as inundações, e demais fenómenos naturais que causam aflição, destruição e mortes. Contudo, o facto de o mundo criado por Deus ser assim, não quer dizer que Deus seja mau ou que crie e proceda com maldade. Apenas diz de um mundo transitório como este, no qual nos é dada a oportunidade de nos superarmos, por dentro e por fora, num caminho que não é feito só de rosas. O que nos acontece de mal, embora doloroso, às vezes até é uma oportunidade. Uma oportunidade de fazer escolhas, de estar atento ao mais necessitado, de sermos maís fraternos uns com os outros, e com todos os seres criados, de tomarmos consciência da nossa finitude e humanidade frágil. 
 

sexta-feira, janeiro 07, 2022

Deus mandou o covid-19 para que as pessoas se convertam

Deus, às vezes, manda uma doença como a covid-19 para que as pessoas se convertam e mudem de vida. Foi mais ou menos isto que um jovem padre disse numa televisão. Não sei qual é a formação teológica ou a ideologia que está por detrás desta afirmação, mas é do mais contrário que pode haver ao Evangelho. Afinal, Jesus veio para curar ou para adoecer? Jesus veio para curar doenças e não para provocar doenças de modo a alcançar a conversão das pessoas. Isso seria uma chantagem e Deus não faz chantagem. Deus ama e quem ama não chantageia. Tampouco se impõe. Antes se propõe. O Deus a quem Jesus chamou Pai e que nos ensinou igualmente a chamar Pai, não faz uma coisa destas. O jovem padre tem uma imagem de Deus errada. Como se fosse um castigador, sem olhar a meios e sem escrúpulos. O jovem padre da televisão pode até ter uma relação com Deus, mas é uma relação através do medo e não através do amor. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Os filhos do pecado"

terça-feira, novembro 02, 2021

O lindo Jesus do pequeno Mateus

Tenho visto o pequeno Mateus crescer para o Senhor de um modo encantador. A mãe vai-me contando as peripécias deste petiz que tem uma relação muito bonita com as coisas de Deus e que gosta muito de Jesus. Entrou este ano na escola e na catequese. Quando chegou a casa da primeira sessão de catequese, à pergunta da mãe sobre como havia sido, respondeu que fora fantástico. Quando chegou a casa da segunda sessão, imediatamente perguntou à mãe se poderia fazer um desenho de Jesus. E depois de o fazer, perguntou-lhe se o podia enviar ao Pai Natal e ao senhor padre, com este pedido: diz-lhes que fiz um Jesus com os braços abertos bem compridos para dar abraços muito bons. E fez mesmo. O desenho estava lindíssimo. Por fora e por dentro. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista e o menino"

sexta-feira, outubro 08, 2021

o pequeno Francisco

Vai entrar este ano para a escola e chama-se Francisco como o Papa. O pai até tem receio que o pequeno queira ser padre porque, de vez em quando, diz ou faz coisas que o fazem pensar nessa eventualidade. Tanto que já manifestou o receio à mãe do Francisco, sua esposa, embora esta responda que o mais importante é ele ser feliz. 
Há umas semanas atrás este pai receoso teve um acidente de mota algo grave, apesar de não ter sido necessário internamento hospitalar. Ao final do dia, quando chegou a casa, foi recebido pelo Francisco banhado em lágrimas. Agarrado ao pai como quem se agarra ao mais sagrado do mundo, o Francisco pedia-lhe mil desculpas porque a culpa tinha sido dele, uma vez que naquele dia se esquecera de rezar a Jesus a pedir que protegesse o seu pai querido. Nunca se esquecia, mas naquele dia esquecera. 
Claro que ele não teve qualquer tipo de culpa e foi necessário explicar-lho. Contudo, o que nos chamou particularmente a atenção a mim e à avó que mo contou, foi a confiança de amor que este pequeno Francisco deposita diariamente em Jesus e como diariamente fala com Ele. Assim se entende melhor o que Jesus dizia das crianças e do reino dos Céus. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A catequista Lucinda"

quarta-feira, junho 16, 2021

Desidentificado

O desabafo iniciou com os olhos lacrimejantes. Depois com o rosto macerado e inclinado para baixo. A olhar para dentro. Não me identifico com esta Igreja. Com esta forma de ser Igreja acorrentada ao sacramental e ao sempre se fez assim. Olho a construção do reino e o anúncio da Boa Nova como os pilares da missão da Igreja, como um todo, e da minha própria missão como sacerdote. Não sei tudo. Mas sei que estamos a ir pelos caminhos errados. E esta pandemia veio desvelar o equívoco. Olho para o meu bispo e para os meus colegas padres e sinto-me estranho. Por mais diálogos que faça, soam-me a monólogos. As discussões pastorais destes tempos de pandemia circulam à volta do mesmo de sempre, na busca de um novo modo de fazer o mesmo de sempre. A manutenção. A conservação. Estou cansado. Saturado. Desidentificado. O colega para quem estava a desabafar ouviu sem interromper. No final do desabafo, este lembrou-o de que ele não tinha que se identificar com o bispo, os colegas ou a Igreja, mas sim com Cristo. Com Cristo é que tens de te identificar, disse. Os olhos levantaram-se para o escutar com o olhar, e a pedir que repetisse. Com Cristo é que tens de te identificar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Rezar na verdade da dor"

domingo, janeiro 10, 2021

Um senhor que morreu e nasceu de novo

Na catequese do primeiro ano, a catequista, para ambientar o que era a catequese, perguntou ao seu pequeno grupo o que é que eles sabiam de Jesus, se já tinham ouvido falar dele e, nesse caso, o que tinham ouvido. Alguns ficaram calados. Era a primeira vez que estavam com a catequista e provavelmente não se sentiram à vontade para falar. O Afonsito, porém, que é uma criança com uma doença rara, mas com o entusiasmo de leão, como ele diz, quando chegou a sua vez, disse que sabia que ele era um senhor que tinha morrido e que tinha nascido de novo. 
Assim, tal e qual. Em três ou quatro palavras simples, resumiu o que a teologia demora muito em dizer e sintetizou o anúncio da Boa Nova. Claro que estou a brincar com o assunto, pois não há verdadeira comparação. Mas gostei imenso de ouvir esta resposta que diz tanto e diz na maneira pura e simples das crianças. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Chama-se Jesus"

quarta-feira, dezembro 02, 2020

O Miguelito e o Papa

O Natal vem aí. E como está a chegar o tempo de escrever cartas ao “pai natal”, a mãe do Miguelito, que tem quatro anos, achou oportuno oferecer-lhe o livro que tem por título “Querido Papa” e contém respostas do Papa Francisco a cartas escritas por crianças de todo o mundo. Também achou que seria uma boa ideia propor-lhe redigirem uma carta ao Papa. O Miguelito, depois de ver o livro e porque não sabe ler, procurou-lhe Mamã, quem é o Papa? E ela respondeu dizendo que o Papa era o representante de Jesus na terra. Seguiram-se uns momentos de silêncio. Ele olhava o livro e depois olhava a mãe. Olhava de novo o livro e voltava a olhar de novo a mãe. À terceira não hesitou perguntar. Olha, mamã, o Papa Francisco também vai morrer na Cruz? A mãe, admirada pela associação que o filho fizera em tão tenra idade, respondeu-lhe imediatamente dizendo que Não, meu Filho. E a seguir ouviu o coração bom do Miguelito nas palavras: Se não, podíamos trazê-lo cá para casa para o proteger.

segunda-feira, agosto 10, 2020

Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

O que me impede de ter um olhar misericordioso por mim próprio, quando o próprio Deus me ama como eu sou? Não que isso justifique as minhas opções erradas. Os pecados. Os erros. As costas voltadas. As queixas desmedidas. Mas é verdade que Deus me ama muito mais do que eu me amo. Deus ama-me, não por eu ser bom, que não sou, mas porque Ele é bom. Deus ama cada um de nós, não por sermos bons, mas porque Ele é bom. Ele ama-me como eu sou e não como eu gostaria de ser. Isto parece redutor, e parece que põe tudo em Deus. O Centro. E, ao mesmo tempo, retira toda a nossa responsabilidade. Não é verdade. Nós somos responsáveis. Mas o centro é mesmo Ele. Por isso Jesus falava em perdoar setenta vezes sete vezes, que é o mesmo que pronunciar o número infinitamente. Porque quem ama, não ama com medidas. Ama com esse número que é muito mais que setenta vezes sete vezes. O número que não cabe na numeração, tal como a conhecemos. Por isso ama e perdoa. Porque só sabe amar quem souber perdoar. Só ama de verdade quem consegue aceitar a diferença que o outro é. A diferença que, no outro, pode até ser, dor. Por isso deu a vida por todos. Não deu a vida só por alguns. Deus a vida por bons e maus, por justos e injustos, por judeus e gregos, por escravos e homens livres. Por mim. Por ti. Por todos nós. E nunca é demais repetir isto. Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

A PROPÓSITO OU A DESPOPÓSITO: "A estatura do verdadeiro amor"