Mostrar mensagens com a etiqueta homilia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta homilia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, janeiro 24, 2025

E mesmo assim mataram-no

Não posso afirmar que a homilia havia sido brilhante, porque não sou juiz de causa própria. Mas que tinha agradado, tinha. Sobretudo aos homens. Bom, e a algumas mulheres que, se pudessem, se escondiam, ruborescidas, por detrás de um véu. Pena que já não é costume usar. O evangelho proclamado, no qual se focara a homilia, continha a famosa passagem das bodas de Caná, ocasião em que Jesus transforma a água em vinho. Foi este, segundo o evangelista João, o primeiro milagre de Jesus. Ou seja, o primeiro milagre de Jesus não foi uma cura ou uma ressurreição. O primeiro milagre que, em princípio, seria a chave de leitura para o que Jesus iria fazer e dizer depois, durante a sua missão, imaginem só, foi este milagre que parece algo banal mas que é sempre muito agradável de escutar. Afinal, Jesus transformara a água em vinho, e não fora um vinho qualquer, pois o texto refere que se tratava do melhor vinho. Já se está a ver porque é que a homilia chamou a atenção dos presentes, sobretudo daqueles que gostam de entornar uns bons copos. Por isso não foi de estranhar que, no final da missa, a homilia continuasse como assunto das conversas animadas. E nisto, diz um dos homens lá da terra, daqueles dos mais castiços: O homem transforma a água em vinho e, mesmo assim, mataram-no. É que foram uns burros! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A comunhão do casamento"

sábado, setembro 07, 2024

O milagre da morte

Ela queria um milagre. Diante do caixão com o filho de vinte e oito anos, ela repetia que esperava um milagre. O filho mais velho morrera há uns doze anos com sorte parecida, em idade mais jovem ainda. Este segundo filho estivera em sofrimento uns três anos e agora partira para o Senhor. Os pais não têm mais filhos para cuidar. Não têm mais filhos para esperar o seu futuro e sonhar com ele. Dá para imaginar o sofrimento, mas não dá para o medir. Era mais que visível, tanto no rosto pálido da mãe como no do pai, assim como nos seus corpos sem expressão, sem alento, sem força senão para estar ali e se puderem despedir do menino. Olha o teu pai e a tua mãe, dizia o pai. E a mãe desfalecia em gemidos. A Missa foi toda ela um gemido contido. A multidão dentro da Igreja era prolongada pela multidão fora dela. Não se cabia naquele sofrimento. A homilia foi pesada. Foi pesada no sentido de ser pesarosa, e foi pesada porque se pesou cada palavra. A certa altura, a mãe interveio, dizendo ao senhor padre que nunca perdera a esperança, porque esperava um milagre. Ainda bem, respondeu o senhor padre. Como dizia a primeira leitura que escutámos, “A esperança não engana porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações”. O padre cruzava os olhos com ela no primeiro banco da igreja, sofria com ela à sua maneira, e aproveitava as suas palavras para falar do verdadeiro milagre que estava a acontecer. Este mistério da morte, que é tão difícil, é, afinal, o maior milagre da vida. Morremos para vivermos eternamente, porque Deus nos ama para além da vida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As não respostas que são resposta"

sábado, fevereiro 17, 2024

A meia homilia

Estava a meio da homilia do funeral quando a senhora entra na igreja, sobe a coxia até ao cimo, perto do altar, como se nada estivesse a ocorrer ao seu redor. Todas as atenções se voltaram para ela. Também a minha. E depois as atenções passaram para os beijos e abraços sentidos aos familiares. Gestos que nunca mais paravam. Parei eu de falar. Porque paralisei, sem querer, o raciocínio da homilia. Perdi-o. Mesmo assim, ela não parou porque eu parara. Provavelmente nem deu conta de que tudo parara em seu redor. A homilia terminou pouco depois porque eu perdera o fio à meada e não consegui mais saber que dizer. Ela não teve propriamente culpa. As minhas capacidades é que não chegam para tanto.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um senhor Joaquim"

terça-feira, janeiro 09, 2024

As homilias

Estava a fazer a homilia numa eucaristia de dia de semana e eu, que concelebrava, escutava. Falou ligeiramente da primeira leitura, depois do evangelho e ainda falou da solenidade do dia. Coisas vagas. Coisas. Faltou-lhe alguma lógica, mas não falou mal. Durante cerca de quinze minutos, no meio do voo das suas palavras, voaram também os meus pensamentos. 
É muito comum que nós, padres, falemos coisas nas homilias. Coisas. Não actualizamos a Palavra de Deus, que é o objectivo da homilia. Não falamos para as pessoas que nos escutam, isto é, não comunicamos. E costumamos complicar as palavras. Poucos as entendem. Menor número ainda são os que as levam para a vida. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Falar de Deus e com Deus"

quinta-feira, março 23, 2023

Visão de Fé

No domingo passado, a mãe não teve possibilidade de ir à missa, mas o filho de sete anos acompanhou o pai, e ficaram no terceiro ou quarto banco da igreja, como é costume. O Mateus tem um modo de se dar com Deus que encanta quem ouve as histórias que a mãe conta. A missa era uma missa normal e a homilia era uma homilia normal que actualizava o relato da cura do cego de nascença nas nossas vidas. Chegado a casa, a mãe, para ver se ele estivera atento, perguntou-lhe de que tratava o evangelho. O Mateus, com as mãos na cabeça, respondeu prontamente: "nem vais acreditar. Jesus deu visão a um senhor cego, mas não foi só visão de ver. Foi também visão de Fé". 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Chama-se Jesus"

terça-feira, fevereiro 07, 2023

os casamentos sem divórcio

A noiva sentara-se à minha frente para dialogarmos sobre o seu casamento. Pormenores. Alguma logística. Acerca das leituras não quis saber. Deixou ao meu critério de escolha. Mas sobre a homilia, largou um pedido. Senhor padre, gostava que não falasse de divórcio no meu casamento. Pois muito bem. Falar só coisas bonitas e positivas, que a moça não quer que na festa dela se falem de coisas menos boas. E tem razão, a moça. Tem toda a razão. Os casamentos não servem para falar de coisas tristes. São celebrações do amor e o amor é o caminho da felicidade. Não é o caminho da tristeza. É o caminho da união e não da separação. Por isso, não falarei de divórcio no casamento desta noiva. E evitarei nos casamentos de outras noivas que hão-de vir. Aprendi que nos casamentos só se deve falar de coisas boas, não vá ser mau agouro da coisa. É que uma vez, num casamento, contou-me ela, eu apresentara alguns dados de divórcios em Portugal e acontece que, passado pouco tempo, aqueles nubentes se divorciaram. Foi mau agouro. A tal homilia começara por constatar que o amor era o que mais nos fazia felizes, depois perguntava então porque motivo é que havia tantas divórcios, e no final apresentava pistas do que seria ou deveria ser o verdadeiro amor, aquele amor que não redunda em divórcio. No entanto, a noiva só escutara os dados. E o mais certo é que toda a assembleia só tenha ouvido os dados. E o agoiro agoirou. Pronto, prometo que não vou agoirar mais. Mas olhem que isto me fez lembrar aqueles pais que evitam que os filhos encarem a morte dos entes queridos e fazem de conta para que estes não se aflijam. Não vá ser mau agoiro também e as crianças fiquem tristes.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O caso descaso!"

segunda-feira, janeiro 16, 2023

O que importa não é o padre que anuncia, mas o que anuncia o padre.

Uma sondagem secular na vizinha Espanha, que veio parar às minhas mãos um dia destes, dava conta que uma grande parte das pessoas, dos inquiridos, confiava na Igreja, como tal, mas não confiava nos padres em medida igual. Não me parece que seja de estranhar este resultado porque, nos últimos tempos, a sociedade, com a ajuda da comunicação social e das redes sociais, tem investido contra os padres e contra a sua credibilidade, independentemente das suas razões, válidas ou não. 
Estes dados, porém, fizeram-me lembrar a homilia de um grande padre que, a determinada altura, dizia, mais ou menos, isto: “se alguém te diz, ‘Padre, eu não acredito na Igreja, mas o senhor parece-me um padre espectacular!’, então eu deverei concluir que fracassei como sacerdote, porque eu não sou o objectivo da minha missão”. Na verdade, o facto de se confiar na Igreja pode ser sinal de que os sacerdotes estão a trabalhar bem e não são tão maus como se pinta. E se a mentalidade dos sacerdotes for idêntica à do padre que fez aquela homilia, isso significa que estão a triunfar e a Igreja tem sacerdotes extraordinários, porque o que importa verdadeiramente não é que cada sacerdote se encha de glória, mas que a Igreja que ele serve se encha dela. O que importa não é o padre que anuncia, mas o que anuncia o padre. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A proposta que não fizeram ao padre Manuel"

segunda-feira, novembro 23, 2020

As missas e a azeitona

Este domingo duas das minhas igrejas estavam a meia ocupação, mesmo descontando a meia ocupação da pandemia. Tal como eu já adivinhava, porque esta região vive rodeada de olivais. As pessoas têm de apanhar a azeitona, dê por onde der, seja em que dia for. Não é só a missa que faz parte das suas vidas. Também a azeitona faz. E por isso há épocas do ano, tal como a época das vindimas, em que as igrejas desta região se despovoam um pouco. Assim, no final das missas que ali celebrei, rezando também por aqueles que estavam na “apanha”, desejei boa azeitona, expressão típica de quem sabe o que é “andar à azeitona”. 
Já no regresso a casa, veio-me à memória um colega que, há uns anos, embora poucos, numa dessas celebrações um pouco mais vazias, por causa da azeitona, passara grande parte da homilia, zangado e a esbracejar, criticando quem tinha ido à azeitona. A parte da homilia que ainda hoje me custa mais a engolir, foi aquela parte em que ele deixou no ar o desejo de que alguns caíssem de alguma oliveira e partissem uma perna, para aprenderem que não deveriam ter faltado à missa. Ainda hoje não entendo como é possível fazer afirmações deste tipo, mesmo que nos custe presidir a uma celebração para meia dúzia de pessoas. Como se a bondade de Deus só devesse existir para com os que vão à missa. No que a mim diz respeito, eu rezo para que não caiam das oliveiras e possam voltar rapidamente à missa.

sábado, agosto 29, 2020

Agulhas, camelos e ricos

O padre relia e actualizava, na homilia, aquela passagem que fala de agulhas, camelos e ricos. Com certeza se recordam de Jesus ter dito que era mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. O padre ufanava-se para esclarecer a passagem. Entusiasmado, esbracejava. Agarrava-se ao micro. A homilia estava ao rubro quando, por engano, acabou dizendo que era mais fácil entrar uma agulha pelo fundo do camelo, do que um rico. Toda a assembleia sorriu sem ruído. Ou seja, para dentro. Mas nisto, um senhor lá do meio da assembleia, um daqueles senhores bem-dispostos, interessados e castiços, exclamou. Com jeitinho, até é capaz! E aí toda a gente se escangalhou de vez. Até o padre.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "De rabo para o ar"

sexta-feira, janeiro 10, 2020

Vivemos para morrer.

Iniciei assim a homilia. Vivemos para morrer. Disse-o, convencido de ser uma enorme verdade de vida. Nascemos para viver e vivemos para morrer. Para chegar a esse momento, do qual ninguém escapa. Ricos ou pobres. Mais capacitados ou mais desajeitados. Todos. Todos vivemos para morrer. Na verdade, o sentido da vida começa quando encontramos o sentido da morte. Se não o encontramos, vivemos a morrer por dentro até que ocorra a morte. A nossa vida deixa de ser vida para estar morta. Porque temos medo e ansiedade, o que nos mata interiormente e não nos deixa viver em pleno este dom maravilhoso que nos foi dado, a vida. Não há pior morte que a de estar vivo, mas morto por dentro. Vivendo sem sentido de viver. Não obstante, vivemos para morrer. Para passar pela morte. Que é apenas mais um momento, embora nos pareça o fim dos momentos. 
Eu acho que não tenho medo de morrer. Digo Acho para não parecer exagerado. Ou muito seguro de mim. Que não sou assim tanto. Imagino-me a conversar comigo dizendo estas coisas e a ver como reage o meu rosto. Para ver se é verdadeiro ao falar de uma coisa que custa tanto falar. Claro que tenho o instinto natural da sobrevivência. Sofro quando algo me afecta na saúde. Quando vejo dor e sofrimento. Quando me deparo com a morte, sobretudo dos que mais amo. Quando vejo o tempo passar e não voltar. Quando vejo as capacidades a desparecer-me por entre os dedos, mesmo quando os fecho na mão, tentando agarrá-las. Mas acho que não tenho medo da morte. Porque estou convencido que a morte é apenas a plenitude da vida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É a vida"

quarta-feira, dezembro 11, 2019

O cão pregador

Já não é a primeira vez que, numa das minhas comunidades mais pequeninas, os animais vizinhos dão sinal de vida e presença. Aliás, costuma andar por ali um cãozito que vai guardando a porta de entrada da igreja. E há dias, enquanto eu, durante a homilia, fazia a minha brilhante pregação, deu-lhe para se por a ladrar. Ladrava sem parar, ao ponto de, na igreja, nos começarmos a incomodar e a olhar na direcção da porta. Eu não desistia de continuar a minha brilhante homilia. Contudo, e perante a insistência do nosso amigo, tive mesmo de intervir. Ó meus amigos, vejam lá se o indivíduo se cala. Ou prego eu, ou prega ele. E assim nos rimos despregadamente durante um bom bocado. Olhem que uma destas! A dona saiu à rua e lá lhe disse qualquer coisa que não se ouviu. Eu imagino que lhe deve ter dito que ou pregava o senhor padre ou pregava ele. E não é que o cãozito se calou?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quem canta, seu mal espanta"

quarta-feira, abril 10, 2019

A Rosário, apertada pela vida

Só se lhe adivinhavam os olhos, porque brilhavam. De resto, estava tão agasalhada, tão coberta, que nada mais se via. Reparei que trazia um cachecol, um xaile, uma echarpe, umas coisas por cima das outras, a apertar, que o frio aperta. Vinha confessar-se, que o medo também aperta. Senhor prior, queria confessar-me. Não quero morrer em pecado. Quase todas as semanas, ou semana sim semana não, tenho de confessar a Rosário que tem medo de morrer em pecado. Desta vez, e antes de aceder ao seu pedido, quis saber porque fazia aquilo daquela maneira, aflita, apertada pelos andrajos e pela vida. Respondeu de chofre que tinha medo do castigo de Deus. A Rosário deve ser daquelas pessoas que passa o tempo da homilia a rezar e não ouve as minhas pregações que falam do Amor de Deus que não castiga. Ou então é daquelas que o tempo marcou por uma enformação exagerada do pecado, e por mais que ouça falar do Amor de Deus, apenas o sente quando se confessa e se livra de castigos. 
E mesmo antes de o fazer já estava a dizer. Não quero morrer em pecado, senhor prior. E era assim que vinha confessar-se porque a saúde já não é a mesma. Porque não sabe o dia e a hora e tem de estar confessada. Mesmo que o pecado sejam apenas umas pequenas falhas de atenção ou lucidez. A Rosário tem sempre de se confessar. Vive apertada pelos andrajos e pela vida. Vive apertada pelo medo de que Deus não se lembre dela quando, afinal, Deus tem o amor todo para dar a cada um de nós, como se nós fossemos tudo para ele.

sábado, julho 22, 2017

Um senhor Joaquim

O senhor Joaquim, de idade acima da média, veio à sacristia falar-me da pessoa que íamos sepultar. Dizia que era um “pobre diabo”. Que se metia nos copos. Que na sua casa as condições estavam muito abaixo das normais. Por isso a Câmara se dera ao esforço de compor a casa. E a sua dignidade. Depois levantava ou encolhia os ombros e repetia Enfim. No fundo o que ele queria dizer era que apesar de tudo, era um homem bom. Como sempre quando se morre, acrescentei em pensamentos. Somos sempre bons quando morremos. E continuou. Agora imagine a família. Tem vários irmãos, por sinal. Nunca se incomodaram com ele e com a vida que levava. Mas agora já estão a falar em ficar com a casa que a Câmara lhe arranjara. Nunca trataram dele e agora querem tratar do que era dele. Olhe, senhor padre, faça-me um favor. Fale destas coisas na homilia. E insistiu. Que eu falasse, como se as palavras fossem iguais aos gostos. Senhor padre, fale disto ou daquilo porque é o que eu quero ouvir. Como se a homilia não tivesse de ser Deus a falar na Palavra. E como se os gestos não falassem muito mais que as palavras. E como se dizer o que está mal fosse igual a fazer algo para tentar modificar o que está mal. Percebem a que me refiro, de certeza. As palavras costumam ficar a alguns metros dos gestos. É que o senhor Joaquim, pelos vistos, tampouco tinha feito muito pelo senhor que levávamos a sepultar! Ou se calhar até tinha. Mas do modo como falava, dava a sensação de que não tinha.

terça-feira, novembro 08, 2016

pessoas especiais

Veio uma filha falar comigo passadas umas horas da suposta missa de sétimo dia para me dizer que estava magoada porque não fizera nenhum tipo de homenagem ou referência à sua mãe. A intenção de missa da sua mãe era uma entre outras, e pedira para que fosse a primeira a ser referida na eucaristia. Mesmo assim, estava magoada, e nisso temos de ser compreensivos. São momentos de especial dor. E a sua mãe era especial. Para ela. Provavelmente não para as outras dezenas ou centenas de pessoas que estavam na eucaristia. Mas era ela que desejava que eu fizesse da sua mãe o ser mais especial do mundo. Que era. Mas para ela. Que era, tal como as mães das outras dezenas ou centenas de pessoas que estavam na eucaristia. Pedi perdão por tê-la magoado sem intenção. E que não era meu costume fazer homenagens senão a Deus na Palavra que é lida em cada liturgia.

sábado, novembro 05, 2016

Homilias do padre

Gosto de fazer das homilias um espaço em que pensamos em conjunto, como comunidade. Por isso é meu costume fazer algumas perguntas, simples, sobretudo relacionadas com o que se acabou de ler nas leituras. Penso que deste modo os meus queridos paroquianos vão sentindo a necessidade de, cada vez mais, estarem atentos à Palavra de Deus proferida. 
Depois de cinco anos à frente destas paróquias, o hábito foi entrando. Mas há locais onde as pessoas ficam em silêncio. Não respondem. Ou esperam que outros respondam. Sim, falta de coragem. Sim, medo de errar. Sim, são muitos os motivos possíveis para que teimem em ficar calados. Mas sinto que é sobretudo o peso da história que lhes dificulta o passo. Esse peso de uma história de passividade, em que os leigos eram a plateia do padre. Não tinham que pensar em nada, senão estar ali aqueles minutos e depois regressar a sua casa de consciência descansada pelo dever cumprido.

segunda-feira, novembro 02, 2015

Homilia para funerais ou fieis defuntos

Estou a preparar a homilia para hoje, dia dos fieis defuntos. É das poucas ocasiões que podemos falar da morte sem os constrangimentos próprios da dor de um funeral. Podemos pensar a morte e dizê-la para que todos nos ouçam sem sofrer. Mas estou aqui às voltas e parece-me que não encontro as palavras certas. Vou pegar numa carta de S. Paulo onde fala que as coisas invisíveis são eternas e onde nos mostra a ressurreição de Jesus como sinal da nossa. Parece-me bem. Ando à volta de termos teológicos que nos dizem que a Encarnação de Jesus faz sentido pela Sua Ressurreição. Que nelas Deus assume a nossa condição humana para nos elevar à Sua condição divina. Mas temo que sejam apenas palavras.
Há uns anos uma jovem amiga contava-me que, ao escutar um colega meu, na sua paróquia, por ocasião dos funerais, este falava tão profundo e tão bem da morte, da ressurreição e da vida eterna, que quase lhe suscitava uma vontade estranha de morrer. Explicava depois que não era por desânimo com a vida, mas por entusiasmo. E olhem que este é o mistério central do nosso anúncio e da nossa missão!
Vou rezar ao Senhor para que na homilia que farei daqui a pouco seja Ele a falar, e para que quem nos escute aos dois sinta esse entusiasmo estranho por um dia poder viver na intimidade de Deus após a morte.

sexta-feira, maio 15, 2015

Falar de Deus e com Deus

Parece-me que as nossas liturgias, as nossas pregações, as nossas orações estão cheias de palavras tão feitas, tão clericais, tão eruditas, tão bem compostas, mas tão pouco nossas. Falamos de Deus e com Deus como se não estivesse ao nosso lado como estamos ao lado uns dos outros. Usamos as palavras sem as tornar nossas. Falamos com a boca, às vezes com a inteligência, mas pouco deixamos que fale o coração, que é quem melhor sabe usar as palavras.

terça-feira, abril 08, 2014

As marotas da homilia

Estava a minha pessoa no meio de uma homilia. Foi num dia daqueles em que me apeteceu ir por ali fora pela coxia dentro. A Palavra de Deus desse dia dava ganas de não ficar parado. E para explicar como ser discípulos de Cristo, de acordo com o Evangelho do dia, a minha pessoa pegava nas imagens do Sal e da Luz, tal como Jesus pegara há muitos anos. Às páginas tantas, entre muitas outras alusões, referi que a luz servia para nós fazermos tudo, pois que sem luz, a apalpar, era mais difícil, e às vezes impossível. Olha o verbo que eu fui utilizar. Apalpar. Umas devotas, que estavam para os lados do coro, deixaram escapar uns sorrisinhos sonoros. Na verdade, até já estamos habituados ou andamos a habituar-nos a um ambiente descontraído ou bem disposto na nossa comunidade. Mas aquela tinha sido demais. Eu tivera um pensamento semelhante na hora em que elaborara a homilia. Talvez o mesmo que estais agora a ter. Deixara-o para trás, porque me parecera inoportuno ou desajustado. Porém, depois das minhas amigas terem deixado escapar os sorrisos, não resisti, fiz uma pausa profunda, respirei com a mesma profundidade, e chamei-as de marotas. Ora o que eu fui fazer. Logo os sorrisos se alastraram pela Igreja toda, e eu próprio caí no mesmo riso desgarrado. Ainda hoje sorrio quando me lembro, e fico a pensar como a marotice entra em todo o lado. Não que isso seja mau ou grave. Eu diria que era desajustado. Mas pelo menos serviu para nos rirmos a bom rir. Espero que o Senhor Deus se tenha rido também. E se não se riu connosco, que se tenha rido de nós

quarta-feira, novembro 28, 2012

O Henrique e os tamanhos a mais de algumas pregações

O Henrique mora nas minhas paróquias, perto da casa da mãe onde costumo ir comer de vez em quando. São gente que se nota ao longe a sua beleza. Gente que não olha a muitos meios para amar à maneira de Deus. E por isso ali vou quase todas as semanas partilhar do seu comer. O Henrique é filho desta gente e irmão da Luísa. O Henrique, que andou num colégio de padres, deixou de ir à missa. Deixou-se destas coisas, embora ache que gosta muito de Deus. A Luísa vai à missa, e deixou-se deslumbrar por este padre que lhe está a mostrar um rosto diferente de Deus, diz ela. Que a está a encantar com as suas palavras na homilia, com os seus gestos fora da missa, com as coisas que vai criando ou incentivando, com a forma como acaba por ser, de certo modo, exigente à maneira de Cristo. Enfim, pela boca dela, poderia enumerar uma série de coisas do padre novo que está nesta paróquia que é minha. Tem contado ao irmão este seu sentir. O Henrique, apesar de ser gentil, faz cara de desconfiado. Mas há dias teve, por força da proximidade, de ir à missa onde se baptizava um sobrinho. Até aqui tudo normal. Quando o vi, e por saber da sua mais ou menos renitência em ir à missa, achei que estava na hora de lhe pregar um “susto”, entre aspas. E pelos vistos, consegui. Umas horas depois da missa tivemos oportunidade de conversar, eu o Henrique, ao que ele me disse que estava assim como que de boca aberta. Já tinha visto e conhecido muitos padres, mas a irmã afinal tinha razão. Era um comunicador excelente. Não só falava claro, como quase obrigava a que se estivesse muito atento. Criava um suspense no que dizia. Tinha um raciocínio lógico. Numa palavra, ficara deslumbrado. Eu ouvi com uma certa alegria. Vá, na verdade foi mais um certo gozo. E como se não bastasse, mostrei-me muito de acordo com ele. E no meio de um discretíssimo Mas o mais importante não é o como disse, mas o que disse, ainda me dei ao desplante de acrescentar mais uns atributos à minha homilia. Não a mim, não. Repito que foi à minha homilia! Que ela tinha um princípio, meio e fim, que me saía com naturalidade, que gostava de estar a falar com as pessoas e não para as pessoas, e até certo ponto eu poderia ter razão. Só que a perdi completamente, quando, de um momento para o outro, se deu o inesperado. De cerca de um metro e setenta, passei a ter seis metros e setenta. Fiquei a um palmo do teto da casa. O meu tamanho deveras não cabia em mim. Não lhe disse, mas informei-me, para o caso de eu não ter reparado, que assim é que valia a pena ser padre. Mas quando cheguei a casa, com tanto inchar, com tanto metro a mais, ia-me espalhando ao comprido na entrada da minha humilde casa porque tive de me debruçar para entrar. E de repente, aquele que tinha seis metros e setenta, ficou com pouco mais que seis centímetros. Que vergonha ter caído na tentação de me colocar à frente de Deus, de ter ousado querer um prémio em troca da pregação da Palavra e do Reino de Deus. Como se o importante não fosse aquilo que pregava, mas aquele que estava a pregar, o pregador. Deixai-me ao menos terminar com o meu tamanho normal. Cerca de um metro e setenta.

quarta-feira, agosto 01, 2012

Podemos escolher a homilia?

Sentámo-nos à mesa para desfeitear conversa com café. A Sofia e eu. A Sofia que era tipo notária do padre Fonseca. E eu que era tipo amigo do padre Fonseca. Altercámos ideias, normas, hábitos, pequenas histórias das grandes histórias das nossas paróquias. Contámos sobretudo anedotas da vida real dos sacramentos da Igreja. Imagine, padre, dizia ela, que um dia me apareceram uns marmanjos de uns noivos para preparar o casamento. Queriam Muse para a entrada do noivo e Adele para a entrada da noiva. Queriam um padre divertido que fizesse divertir a cerimónia e as pessoas. Digamos tipo um padre que fizesse divertir Deus. Mas o mais anedótico aconteceu quando perguntaram se podiam escolher a homilia. A Sofia emendou para Talvez queiram dizer Evangelho. E a noiva insistiu. Não. A homilia. Podemos escolher? Como se a homilia se comprasse na loja dos vestidos de noiva juntamente com o buquet. Quem precisava de uma longa homilia que durasse anos sei eu bem quem era, disse a Sofia para rematar a história, que as boas histórias merecem sempre um remate, de preferência moral.