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terça-feira, março 17, 2020

Os gestos covid

Ligou há pouco. Ainda não passaram dez minutos. Tem oitenta e sete anos. Mora sozinha. Nota-se que já tem alguma idade, como se costuma dizer, mas é uma mulher que se ocupa e que tem sempre algo para fazer. Ligou e fomos conversando, como quase toda a gente por estes dias, no maldito vírus. Eu disse-lhe que tinha de se proteger, cuidar, isolar e precaver porque, como ela já sabia, faz parte do grupo de risco. E ela respondeu-me que já falou disso com “o lá de cima”. Foram expressões suas. Disse-lhe que se já tivesse chegado a sua hora, que não havia problema pois já tinha muita idade e já tinha vivido o suficiente. Pedia-lhe apenas pelos filhos e pelos netos. Que os protegesse. Mas que se achasse que ainda não tinha chegado a sua hora, que agradecia que mantivesse o vírus longe. Ainda nos rimos um pouco os dois. 
Porque a conheço bem, sei que foram palavras sinceras. Uma oração sincera. Mas nisto diz-me. Ó senhor padre, como está aí sozinho, aí por volta das 13h eu levo-lhe aí o almoço. Tenho de andar um pouco, que me faz bem, e não posso abandonar o senhor padre, que está sozinho! 
Eu é que me devia preocupar com ela, que faz parte do grupo de risco e está sozinha, e, afinal, era ela que se preocupava comigo, o senhor padre que está sozinho. Sem palavras e comentários. Esse reservo-os no meu coração com pequenas gotas de lágrimas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

segunda-feira, novembro 04, 2019

Ser santo é caminhar na santidade

A propósito do dia de todos os santos e do halloween, um jovem disse-me que gostava mais do halloween porque, ao menos, divertia-se. Com o dia de todos os santos, nem sabia o que fazia. Aliás, o que era ser santo? Como se torna uma pessoa santa? Dizia-me que as estátuas dos santos nas igrejas eram, para ele, apenas arte sacra. Na verdade, o João, chamemos-lhe assim, não fazia parte do grupo dos que, em vésperas do feriado de Todos os Santos, andara pelas ruas a fazer estragos, vestido de bruxa ou de monstro. Apenas se questionava sobre as coisas. Também tinha pouca fé. Sei lá. Tinha assim uma curiosidade por Deus e pelo sacro. Entendia que a vida deveria ter algo mais por detrás. Mas não sabia de que se tratava. Contudo, havia coisas na Igreja que o afastavam. E uma delas era esta coisa da santidade. Porque não lhe parecia coisa para ele. Era mais para anjos e certinhos. 
O João tem razão. Nós, os que temos alguma responsabilidade na Igreja, apresentamos quase tudo de uma forma muito dogmática. Uma forma que não é fácil de entender nem de levar à vida. Depois, fazemos da santidade algo de extraordinário, fruto de uma condição superior ou um heroísmo. Mesmo sem querer, damos exemplos de santos como se fossem eleitos, sem fragilidades e defeitos. Damos exemplos de vidas de santos como se fossem vidas perfeitas. Assim é impossível perceber que a santidade seja a forma de se ser verdadeiramente cristão. Confundimos e levamos outros a confundir a santidade com a perfeição. Um santo é apenas aquele que procura a felicidade em Deus, que busca o sentido da vida no Bem Maior, que procura configurar-se, tanto quanto possível, a Cristo e ao seu Evangelho. Um santo é um buscador constante de Deus. Um santo é apenas aquele que caminha na santidade.