sexta-feira, julho 03, 2020

ela [poema 268]

O meu prato não tem fundo
Não tem o terminar

O copo deitado, a água na fonte
A esperar

O meu sonho é um dia poder ser gente
Como as outras
E amar

terça-feira, junho 30, 2020

A desculpa do vírus

A celebração do último domingo foi ao ar livre, porque se tratava de uma data importante para a comunidade. Quando, a meio da tarde, fui verificar se estava tudo pronto, passei por uma esplanada de café com mesas repletas. Cheias. Pessoas quase ao molho de volta de uma mesa. Mesmo de famílias diferentes. Amigos de esplanada. Meti conversa com algumas dessas pessoas que não tinham máscara colocada. Foi o assunto da conversa. Eu com máscara e eles sem máscara, mas descansados porque estavam na rua, apesar de todos já terem passado os sessenta e muitos ou mais. E ali ficaram, pelo menos que eu desse conta, umas duas horas. Não vem mal ao mundo, como se costuma dizer. 
Porém, ao entardecer, um dos senhores que ficou a ajudar a arrumar as coisas no final da missa, contou-me, com um certo desconforto, que fora tomar café no local onde está a referida esplanada, e que ouvira umas pessoas dizerem que não iam à missa, pois era arriscado ir. Ficara perplexo porque, dizia, as pessoas que falaram estavam numa esplanada sem cumprir cuidados de distância, uso de máscara e desinfecção das mãos, mas achavam arriscado ir à missa, que também era ao ar livre, mas onde ninguém podia estar sem máscara colocada, estavam todos a distâncias adequadas, não conversavam uns com os outros e até tinham desinfectado as mãos. 
E depois a culpa é do vírus. Ou a desculpa. Algumas vezes consciente e coerente, é verdade. Mas muitas outras vezes inconsistente, incoerente e, pior ainda, inconsciente.

domingo, junho 28, 2020

vivo a voar [poema 267]

Vivo até onde me leva o coração
Nessa extensão que desconheço
Entre mim e onde hei-de chegar
Um caminho que não tem preço
Entre a terra e o céu,
Entre a lágrima e o mar

Vivo, porque me leva na ponta dos dedos,
A voar

quinta-feira, junho 25, 2020

A Luiza está no céu a enfeitar igrejas

A Luiza já está no céu. Partiu esta manhã. Tinha um tumor que se alastrou, em pouco tempo, pela vida inteira. Ou por inteiro. Teve início num pequenino local do corpo e depressa arrastou a vida da Luiza. 
Há três semanas foi informada que iria para paliativos. Falámos, nessa ocasião, por videoconferência. Estava serena. Muito consciente, mas segura da vontade de Deus. Pedira no IPO para falar comigo. As lágrimas caíram sem força. Sorrimos e falámos abertamente e com naturalidade sobre a realidade. Fiquei rendido perante tudo o que falámos e perante a postura de fé, de temor a Deus e de realismo da Luiza, uma das minhas paroquianas que assumia com facilidade serviços paroquiais. 
A única coisa que pedira aos médicos fora uma visita rápida a casa e aos seus. Acederam-lhe ao pedido e, passada uma semana, mais coisa menos coisa, estive com ela, em sua casa, com o Senhor que lhe dei a comungar. Estavam os filhos. E o marido. Quando lhe manifestei a minha alegria por ver ali os filhos, respondeu que se tinham ido despedir dela. Assim, friamente. O marido começou a chorar e dizia que preferia partir em vez dela, ao que ela reclamou, dizendo. Tu vais na tua vez que eu vou na minha. Inclinei-me. De verdade que me inclinei sobre tamanha fé. Só faltou ajoelhar-me diante dela. Pensei-o, mas achei despropositado com a família ali ao pé. Mas disse-lhe que admirava a sua tão grande fé. Que Deus já lhe tinha reservado um lugar no céu. E que eu me sentia um privilegiado por ter tido a oportunidade de privar com ela. 
Quando saí de casa, saí com a certeza de que seria a última vez. Falámos mais algumas vezes ao telefone. Ontem mesmo enviara-lhe ao final da tarde, depois da missa que celebrara, uma pequena sms a dizer que rezara por ela e que tinha pedido a Deus que lhe segurasse nas mãos quando estivesse a ser mais difícil. As pessoas da paróquia vão contando coisas bonitas. Que preparou tudo para que tratassem do irmão que vive sozinho e precisa de cuidados. Que estava nas mãos de Deus. Que a esperava muita coisa bonita no céu. A uma comadre que insistia com ela que ainda haviam de ir as duas enfeitar e cuidar a Igreja matriz, ela respondeu que gostava muito, mas que, de certeza que no céu também ia ter muitas igrejas e que Deus lhe daria alguma para cuidar e enfeitar. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte I"

terça-feira, junho 23, 2020

entrada e saída [poema 266]

Quando entras, sinto o calor das tuas chagas
ainda a sangrar

O meu peito descansa no teu
Depois de sentir
o teu palpitar

Mas o sangue não para
de caminhar.

Vai desaguando, vai-me levando
a alastrar
O amor que entrou,
sem portas,
Para te amar

sábado, junho 20, 2020

A Igreja do relacional

O artigo era duro de ler. Tentei diminuir-lhe o tamanho no coração. Falava de alguns padres que, por desespero, tinham perdido a força de viver. Dava exemplos concretos, usava nomes concretos, tratava números e dados concretos. Dizia que a vida religiosa não dava superpoderes aos padres e que em muitos casos a fé não era forte o suficiente para superar momentos difíceis. Excesso de trabalho, falta de lazer, perda de motivação. O grau de exigência enorme. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade. Qualquer deslize, por menor, que seja, torna-se alvo da multidão que vive para apontar dez dedos aos outros. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes, pelos visto, têm de estar sempre prontos e com sorrisos rasgados. 
Os padres não deviam estar sozinhos. Pelo menos não deviam fazer a vida sozinhos. O comum das pessoas tem, habitualmente, o lado da vida mais profissional e o lado mais relacional. Quando um comum cristão chega a casa do seu emprego, desliga o interruptor do emprego e liga o interruptor do relacional mais próximo. Nós, padres, chegamos a casa, e mantemos o interruptor do profissional sem relacional. Somos profissionais do sagrado sem segundos para o não ser. Falta-nos sermos ou sentirmo-nos comuns cristãos. Não me parece que baste o alimento espiritual dos padres. Na minha modesta opinião, é necessário reorganizarmo-nos como Igreja. Enquanto a vida das comunidades se centrar nos padres, eles não serão apenas mais um membro da comunidade, ainda que com grandes responsabilidades. Serão sempre o foco da comunidade. O alvo. Por isso as pessoas quando falam da comunidade falam dele, pensam nele, apontam para ele. Por isso gosto pouco desta Igreja que deposita no clero a essência do caminho da fé, mesmo que seja feito em comunidade. E sonho com uma Igreja que abraça todos em caminho. Uma verdadeira comunidade onde o relacional esteja acima do doutrinal, do funcional, e até do sacramental. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o 'tem de'"

terça-feira, junho 16, 2020

a verdade anda cada vez mais longe da verdade

Uma das minhas paroquianas é uma assídua frequentadora da net, sobretudo redes sociais, na procura constante por respostas de fé e respostas espirituais. De vez em quando partilha comigo, num gesto muito amigo, interessado e verdadeiramente generoso. O problema é que 80% dessas partilhas, no que se refere a artigos de opinião, são partilhas sem triagens, seja no que se refere a fake-news, seja no que se refere à influência ou ideologia que está por detrás dos textos. E, infelizmente, a presença dos ultra-conservadores na internet, sobretudo nas redes sociais, é muito prolífera. Como diria o outro, são poucos mas gritam muito alto. Talvez porque necessitem de se fazer ouvir. Mas é só um talvez. 
O último texto que partilhou comigo, ainda há pouco, era de um site que tem por nome algo do género “Missa Tridentina”. Creio que ela não sabe a que se refere a missa tridentina ou o Concílio de Trento. Nem sabe como distinguir ideologias no seio da Igreja. Por isso não a recrimino. Procuro ajudá-la a fazer as interpretações, distâncias, entendimentos e pronunciamentos devidos. A saber ler para além das linhas ou das palavras. Nas entrelinhas. Com isenção suficiente para formar uma opinião ou opção sólida. Mas nisto, lembrei tantos cristãos que, diariamente, recebem conteúdos, mesmo religiosos, mesmo cristãos, mesmo católicos, sem saber ler ou sem ter o código de leitura adequado para os ler. E assim a verdade anda cada vez mais longe da verdade!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amizades especiais"

domingo, junho 14, 2020

o gesto [poema 265]

Ainda não sei abraçar o gesto
Fazer o sinal da cruz em cima dele
A lâmina passa e é cortante,
O sangue debruça-se sobre mim
Não sei mesmo como nasce o gesto
Como se tece ou como cresce.
Passo um lápis na tua memória
O gesto que se escreve em dois traços
O gesto que desenha um abraço
A nossa cruz

quinta-feira, junho 11, 2020

A importância da eucaristia

Não sei muito bem o que dizer de pessoas que consomem missas. Que vão a todas as que conseguem, mesmo que depois a sua vida ande longe delas. A uma distância de coração. Também não sei que dizer das pessoas que vão quando lhes ocorre, quase como quando lhes apetece sair para tomar um café, um chá ou um gelado. Nem sei que dizer daqueloutras que tanto dá irem como não irem, mas que vão porque se habituaram a fazer do domingo um dia em que vestem uma roupa melhorada e vão à missa. 
Não sei catalogar a fé, e não devo catalogá-la. Muito menos as pessoas. Mas estes tempos têm-me feito reflectir nestas coisas. Elas veem a mim, junto com as pessoas. Não há como fazer de conta que não penso nisto e não me inquieta. É que, ainda por cima, estes tempos de confinamento sem missas comunitárias presenciais, trouxeram à tona algumas debilidades. Sei que muita gente gastou muito mais tempo a rezar do que habitualmente fazia. Sei que muita gente buscou Deus até com mais intensidade e empenho. Sei que muita gente esteve diante de um ecran a ver missas. Mas agora que voltamos a ter a oportunidade de celebrar juntos, de celebrar em comunidade, verifica-se que uma grande percentagem dos nossos paroquianos ainda anda um pouco à deriva. Há quem faça tudo para ir à missa. Mas também há quem não faça nada. Há quem tenha receios reais de ir à missa, mas não se evite de ir ao café ou de estar em algum aglomerado de pessoas, mesmo sem máscaras. E as nossas igrejas cumprem mais regras de segurança que a maioria dos outros espaços sociais. Há quem faça uma vida diária quase normal, mas não tenha qualquer preocupação em ir à missa. Como se ela fosse apenas algo secundário ou um passatempo. 
Sabem o que me parece? Das duas uma. Ou se tornou mais fácil assistir à missa que celebrá-la, ou a eucaristia não tem importância suficiente na vida das pessoas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Queres ficar à missa?"

segunda-feira, junho 08, 2020

máscara [poema 264]

Tiraram-te o sorriso
Que eras tu por inteiro.

Até nos olhos se vê
O que se perdeu primeiro...

E o que passa
É a vida que anda
sem se mover

E o que doi
É a dor que mata
sem se morrer.