sexta-feira, abril 16, 2021

sementeira II [poema 313]

o homem cai da cruz porque a subiu, de peito aberto 
pisou as vestes que trazia como sombra 
 
Morres de novo, morres todas as vezes 
Mas não cais, porque estás no soalho 
E as flores não caem, porque nascem do chão 
 
o homem brinca ao faz de conta e a tempestade cai 
porque o homem não é o céu 
e as pedras são pedra 
 
Morres as vezes que for preciso, mas não te conseguem matar 
apenas te conseguem semear. 
 
Marcos 15, 2425

quarta-feira, abril 14, 2021

os padres santos II

Conheço padres que não param, que se multiplicam. Que andam de um lado ao outro a fazer tudo. Tratam do administrativo e do pastoral. Criam e recriam actividades, eventos, momentos. Estão com toda a gente e, ao mesmo tempo, não estão. Porque não conseguem estar. O tempo que lhes sobra é para fugir para outra actividade. Para estes, os sacramentos são actividades. Vivem animando a comunidade e desanimando perante a sua inércia. Vivem de tudo, como actos isolados e não como processos. Mas são santos. Se calhar rezam pouco com as orações. Mas rezam muito com a vida e o cansaço. Rezam com a depressão e com a entrega constante ao Senhor no que vem a seguir. 

"os padres santos I"

segunda-feira, abril 12, 2021

os padres santos I

Conheço padres que parece que vivem recolhidos, mas vivem encolhidos. Padres que rezam escondidos, mas rezam todos os dias a Liturgia das Horas e o Terço. Passam pouco tempo com e na comunidade. Pastoralmente mantêm-se, em geral, no sacramental a que chamam espiritual. Alimentam-se nos sacramentos, e bem. Para eles vivem. Para eles canalizam as suas forças. ‘Pouco mais’ é exagerado, mas é mais ou menos ‘pouco mais’. Pouca preocupação com a catequese, com a pregação, com o social. Vivem no encontro com Deus e esquecem o encontro com os outros. São santos, são. Vivem para estar na intimidade de Deus Pai. Talvez sejam santos no sentido humilde e pequeno da realidade. 
 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Porque é que Deus precisa dos padres?"

sábado, abril 10, 2021

sementeiras [poema 312]

o homem cai da cruz quando te descem nos panos 
ou desces por tua própria vontade, porque te abaixaste 
 
o homem é depositado na escuridão quando te sepultam 
por pouco tempo, o tempo das sementeiras 
 
e o vento recolhe a tempestade e sopra, 
entra pela face, como um eco, e não mais pára, 
 
e a pedra fria que te encerrou é agora a escada 
que o homem despido folheia por dentro de si 
 
e o silêncio que selara o sepulcro, o esvazia 
desembaraça a esperança que a morte não matou 
 
no maior milagre do tempo sempre a vir 
de ficar para sempre, mesmo quando partir 
o tempo eterno das sementeiras...
 
Lucas 24, 1-12

domingo, abril 04, 2021

O Miguelito e a Ressurreição

Uma das professoras da escola do Miguelito faltou vários dias, porque o seu marido falecera. Ora, o Miguelito gostava muito daquela professora, sabia que ela estava muito triste e, por isso, perguntou à mãe se achava que, se pedissem muito, Jesus poderia ressuscitar o marido da professora. Admirada com a inquietação do filho, a mãe respondeu-lhe que o marido da professora já tinha ressuscitado para a vida do céu, e que estava ao pé de Jesus. E o Miguelito, como é seu hábito, arregalou os olhos e disse que isso era muito bom. Só não entendia porque é que as pessoas tinham medo de morrer e ficavam tristes. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Três perguntas e muitas mais"

sábado, abril 03, 2021

ioseph ab arimateia [poema 311]

Fui sepultado contigo na edícula do meu passado 
Ali fizemos morada, pequena casa encavada, os dois 
Sem nos falarmos com as palavras 
 
Fui atrás dos gritos da multidão com o teu nome 
Ao contrário. Do alto pendias meu coração 
Caído 
 
Fui dono do meu passado no estio dos romanos 
Entre as barcaças que me afastavam de ti 
Nas horas tardias em casa de Simão 
Ao anoitecer 
 
Da nossa vida 
 
(Jo 19, 38)

sexta-feira, abril 02, 2021

madeiro [poema 310]

morres nos meus braços de madeira no cimo da escada 
 
o sangue escorre, cai e desce 
até ao nascente do rio e desaparece 
na minha água inquinada 
 
e encontro a dor no pulsar do teu costado em meu peito 
aceleramos os dois o respirar num abraço colado 
pelas lágrimas de sangue a arder com avidez

inclinas-te para te entregares por inteiro a mim, 
e expiro contigo para ganharmos vida 
sem fim… 
A tua e a minha missão é cumprida. 
 
oh morte que não deixas morrer o amor, mesmo depois 
de morrermos unidos os dois. 
 
(Jo 19)

quinta-feira, abril 01, 2021

lavadeiro [poema 309]

Não consinto que me laves seja que parte for do que é meu 
Nem por fora nem por dentro da pele, a ribeira 
vai vazia e os tanques estão cheios até cima, de terra 
Que é húmida, e deixa marcados os passos errados que dou. 
Vou descalço porque se perderam as sandálias quando te percorri 
Cansado de tanto andar 
Por aí. 
 
Não quero a tua água, somente o pão molhado da tua taça. 
por dentro me lava esse pão e me azeda 
E não consinto que me laves sem saberes: 
Nego-te e renego-te, porque me nego a mim. 
 
(Jo 13, 1-15)

segunda-feira, março 29, 2021

O drama de ser mortal

Era uma vez um rei que estava à beira da morte por causa de uma doença incurável. Já estava nas últimas. Porém, cada vez que a rainha lhe dizia que ia morrer, ele afirmava que não. Quando o príncipe insistia, ele insistia que não. Quando, por fim, o médico lhe explicava que ia morrer, ele persistia no seu rotundo Não. Que havia de durar mais quarenta anos, porque ele era o rei e era ele quem decidia. 
Olhamos para a personagem principal desta pequena história, o rei, e o mais provável é rirmo-nos da sua tolice. Mas esta atitude, com mais ou menos obviedade, é uma atitude recorrente nas nossas vidas. Também nós vivemos como se a nossa vida e a nossa morte fossem decisões exclusivamente pessoais. E alimentamos uma esperança vazia de que há-de ser como queremos que seja. Por isso, diante do sofrimento, entusiasmamo-nos uns aos outros com expressões do tipo “vai correr tudo bem”, “deus vai ajudar”, “a esperança é a última a morrer”. 
O drama humano começa quando tomamos consciência de que somos e não somos. A consciência de que não podemos decidir sobre nós. Sabemos que a morte nos vai encontrar, mas não sabemos como será nem como a conseguiremos afrontar. O que podemos fazer é ir configurando o nosso ser mortal, o nosso ser limitado. É preciso aprender a ser mortais. Que é quase o mesmo que aprender a amar e a ser amado. A dar consistência à vida que temos. 
Devemos aprender com Cristo a viver a mortalidade. E aprender a viver a mortalidade com Cristo é reconhecer a nossa vida, o que a sustém, o que ela vale. Deste-me esta vida. Não a vida, mas esta vida. E dizê-lo com gratidão, num exercício de amor. E isto é que é morrer com Cristo. Aprender a ser mortal, a ser limitado, é aprender a amar. Nunca somos da vida, mas participamos dela. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É a vida
 
desejo a todos uma Semana Santa a olhar para dentro e para fora de nós!

sábado, março 27, 2021

limiar [poema 308]

No limiar da hora, agora entendo 
O corpo desnudado de quem me vê 
Sem-abrigo ou sem nada, penso que sei 
quem é. 
 
Na hora tardia, quando o rosto cai 
Sobre o corpo, e inspira a noite 
O vento do espírito levará à vida 
No chegar da hora 
Entendo que é para poder ser 
Mais do que tem sido 
Agora