quinta-feira, julho 29, 2021

a Igreja que se quer reorganizar na mesma organização

Numa reunião de padres, o bispo daquela diocese decidiu entregar uma folha a cada um dos presentes com algumas propostas, desenhadas a regra e esquadro, de supostas e futuras unidades pastorais. No entanto, o que ele apresentou, pese embora a boa intenção, não era mais do que uma reajuste do que já existe, realinhando as paróquias de cada pároco. Por isso não foi de estranhar que a conversa girasse à volta do “esta é para ti e não para mim”, “ai eu não quero esta”, “eu não aceito mais paróquias”. E assim uma reflexão que deveria ser séria transformou-se num mais do mesmo, inconsequente e vazia. E assim vai a Igreja que se quer reorganizar na mesma organização. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Gostava de esvaziar a minha igreja"

domingo, julho 25, 2021

As 'avós da fé' ou 'catequistas dos tempos modernos'

Num dos grupos de catequese do primeiro ano, a catequista perguntou aos meninos se já tinham ido alguma vez à missa ou se já sabiam alguma oração. Com as respostas dos meninos, que nestas idades ainda não sabem mentir com facilidade, constatou que os poucos que sabiam alguma oração a tinham aprendido com a avó, e que muitos dos que já tinham ido à missa tinham ido com a avó. 
Lamentações e saudosismos à parte, pode-se dizer, portanto, que a transmissão da fé já não se faz de geração em geração entendida como uma transmissão de pais para filhos. Mas, por enquanto e enquanto tivermos avós destas, ainda não se poderá afirmar categoricamente que essa transmissão terminou. Podemos apenas dizer que se interrompeu. 
Assim tivéssemos os netos mais tempo com as suas avós, essas mulheres ‘avós da fé’ ou ‘catequistas dos tempos modernos’. Que linda missão eclesial a destas avós!
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Nem Pai-nosso nem Avé-maria"

quinta-feira, julho 22, 2021

hemorroisa [poema 320]

há tantos anos que a história é sempre a mesma 
contada pela mesma mulher, de saias ao vento 
 
impura, impura, três vezes impura
 
outras tantas à procura 
 
há muitos anos que a história é sempre a mesma 
muda o vento, muda a mulher 
 
não muda a ternura 
que a tocou e a fez ser 
quem era 
 
Mc 5, 21-43

terça-feira, julho 20, 2021

contributos a meio por inteiro

Nasci no local, nas circunstâncias e na família que Deus quis. Repito isto até à saciedade para, no meu inconformismo, aceitar que as muitas coisas para as que gostaria de ainda contribuir, podem não estar nos desígnios de Deus a meu respeito. Sinto que o meu contributo vai a meio. No entanto, o que para mim é o meu meio, talvez seja o inteiro para Deus. Não sei. O que sei é que as medidas de Deus nunca são as nossas. E o que Ele nos pede nem sempre coincide com aquilo que gostaríamos de dar. Pede-nos que nos demos por inteiro, mas o que é esse inteiro? Como se mede? Como se quantifica? Queixo-me para dentro e tento sossegar o meu querer. Nada depende de ti, digo. Deus é que sabe. Se assim é, é porque tem de ser. O que Deus espera de ti é a santidade e não a glória. É a felicidade e não o sucesso. Ele quer-te mais a ti que ao teu contributo. 
Sobra-me aquele afã de outros tempos, os tempos da juventude, em que uma barreira era um trampolim. Não é uma desculpa, mas a maturidade ensina-nos que a vida é efémera e que as marcas que permanecem são apenas as de Deus. Não são as nossas. Que as nossas serão sempre efémeras. É bonito ansiar por mais e aceitar o menos. É bom descobrir que os desígnios de Deus são insondáveis e que o que nos ultrapassa há-de ter sentido um dia! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o 'tem de'"

sábado, julho 17, 2021

"A pecadora da cidade"

Era conhecida na cidade como a pecadora. Era portanto o símbolo, a presença, a essência do mal na cidade. Ser conhecido como pecador sem nome é o mesmo que ser conhecido pelo pecado. A encarnação do pecado. Não interessa a intensidade ou a qualidade do pecado, porque na cidade o que importava era como a conheciam. A pecadora. A sociedade, aqui representada na “cidade”, é demasiadas vezes aquilo que nos fasta de Deus e de nós próprios. Porque passamos a ser o que parecemos e passamos a sentir-nos ausentes de quem somos de verdade. Mesmo diante de Deus, numa humanidade sofrida em que pesa a indignidade de amor por parte do senhor do amor. Vivemos apenas a nossa humanidade frágil. 
Não gosto das cidades que não se importam com quem nelas moram. As cidades indiferentes. Mas gosto ainda menos das cidades que vivem a apontar dedos. Já lá dizia Bernanos que a mediocridade era o pior mal da sociedade. Os medíocres, para não sentirem que o são, apequenam os que conseguem apequenar. Fazem da sociedade um lugar apequenado. Apequenado porque todos os seus habitantes são, por motivos diferentes e paradoxais, cada vez mais pequenos. 
Gosto, porém, do modo como Jesus deixa que esta mulher o toque na sua impureza e pecado. Que leve até ele a condição de pecadora. Mesmo os adereços. Tudo o que levou com ela era o que usava com outros homens. Menos os beijos de verdade. E o que fez Jesus? Mandou-a em paz. Na paz que brota de saber-se amado por Deus. E ela foi. Imaginamos que foi, porque o relato do evangelho não nos diz para onde foi nem como foi. Nem se voltou à vida pecadora de antes. Certo que deve ter continuado a ser conhecida como a pecadora. Mas o que interessa isso, quando nos sabemos amados por Deus? 
 
revisitar Lc 7, 36-50
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre tem de saber perdoar"

quinta-feira, julho 15, 2021

Bater no peito

Hoje a minha meditação embalou-se com a oração do publicano e do fariseu. Enquanto o segundo se achava dono da sua oração, o primeiro batia no peito e pedia compaixão. Numa primeira vista, quem lê este texto, facilmente olha de soslaio o fariseu, porque faz uma oração de autojustificação, centrada nele mesmo, nos seus méritos e merecimentos. Tomamos o partido da compaixão e por isso tomamos o lugar de Deus, mesmo sem dar conta que, nessa opção, tomamos um lugar que não é nosso. Julgamos como se fôssemos o Senhor Deus. Mas o que mais me intrigou foi o bater no peito do publicano. Bater no peito é o símbolo do reconhecimento da nossa fragilidade. Batemos no peito quando nos achamos culpados e, ao mesmo tempo, indignos da compaixão do Senhor. E imaginei aquele homem sincero a bater no peito insistente e repetidamente. Como se quanto mais batesse, mais precisasse do Senhor e da sua mão. O problema é que passar a vida a bater no peito é uma atitude muito semelhante à do fariseu que estava centrado em si mesmo. Quando passamos a vida a bater no peito, é como se estivéssemos voltados sobre nós próprios e sobre a nossa fragilidade, erro ou pecado, o que ainda é pior. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. Gostava muito que esta passagem terminasse com o publicano a sair do templo com um sorriso a transbordar da graça de Deus e de mãos dadas com Ele. Gostava muito. 
 
revisitar Lc 18, 9-14
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Pássaro ferido, mas a voar"

terça-feira, julho 13, 2021

adentro neste retiro

Entro como quem adentra. Se mete por dentro. Não deixo nada para trás, porque trago tudo o que sou e me faz ser. O meu corpo, mas também a minha história e todos os pensamentos e sentimentos que tenho colectado e que vêm colados na pele, por dentro. Trago muitas pessoas, porque são parte desta história e desta vida. Não as trago como um peso. Nem quero pensar muito nelas. Quero apenas estar por inteiro. 
A entrada da casa de pedra antiga era exígua. Apertada. O carro a encolher. Mas passou. Entrámos os dois de modo igual. Também eu me encolhi para poder entrar e adentrar-me neste momento que quero viver como um retiro espiritual. Não quero nada para mim. Venho cheio de inquietações e interpelações que gostava de abrir e, ao mesmo tempo, fechar. Mas não venho por mim. Nem para encontrar respostas ou fazer descobertas. Venho, como sou, à espera do que Ele tem para mim. Não quero nada neste retiro senão o que Ele queira. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Na lareira 1"

domingo, julho 11, 2021

A igreja que não cativa

“Mas depois o padre é que não quis, e a igreja não cativa, e os padres queixam-se que as pessoas não vão à igreja mas não deixam as pessoas fazer as coisas à sua maneira... Haja paciência!” Merece um comentário a observação que li algures, também não interessa bem aonde, a propósito de alguém que queria um sacramento muito particular, com demasiados itens ao lado, bem ao lado, daquilo que era esse sacramento. 
Claro que os designados como leigos devem ter, a meu ver, uma voz ouvida, aceite e partilhada. Mas o que a pessoa pretendia era como querer dançar sem música. Ou brilhar sem luz. Fazer de algo aquilo que esse algo não é, embora pareça ser. Queria que o seu sacramento fosse tão apenas seu, que pudesse fazer com ele o que quisesse, mesmo que se tornasse um não-sacramento. 
E o problema são sempre os padres, que deviam dedicar o seu tempo a encher as igrejas com gente que vem a pedir estas coisas, que depois não volta lá, mas mesmo assim dá-se o ar de que até se era capaz de lá voltar. Não. Não estou preocupado com números, embora os números possam parecer preocupantes. Eu quero preocupar-me com as pessoas. Com a fé das pessoas. Faz recordar aquela passagem de Jesus a expulsar os vendilhões do templo, pouco preocupado se deixavam de lá ir ou não. Mas deveras interessado em devolver a sua casa de oração. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Quer ser padrinho"

quarta-feira, julho 07, 2021

tornas a morrer [poema 319]

é cansativo ver como morrem as pedras, porque doem 
a história que as esconde também as prolonga 
é engraçado como o passado é sempre a sombra dos dias 
e é eterno como o presente tenta ser. 
é até cansativo ver como as árvores morrem de pé 
ou as flores morrem depois de as olharmos 
só o cansaço não morre como tu, porque tornas a morrer 
nas pedras mortas, nas árvores de pé e nas flores 
e só morres porque estás sempre a viver

segunda-feira, julho 05, 2021

as opiniões que não podem sê-lo

Os bispos da União Europeia criticaram a aprovação, no Parlamento Europeu, do chamado ‘Relatório Matic’, que restringe a objeção de consciência e promove o direito ao aborto nos Estados-membros. Diz logo uma senhora entendida, daquelas que está convencida que nada a pode impedir de dar a sua opinião: vivemos no século XXI e em estados democráticos. E tinha razão. Por esse motivo é que os bispos têm direito a dar a sua opinião, acção que não lhe agrada e que critica vorazmente, segura de ter toda a razão. Ou seja, tanto ela como os que pensam como ela podem dar a sua opinião. Só quem pensa diferente dela é que não pode dar. E assim vai a sociedade que transforma opiniões em verdades e verdades em meras opiniões. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Vejo um padre como alguém que manda na paróquia"