terça-feira, maio 17, 2022

Boa tarde, meus andores e minhas andoras

igrejas cheias...
A igreja engalanara-se para a festa. Estava engalanada por todos os cantos e buracos. Mal se lá cabia. Passados dois anos sem festa por causa da pandemia, a vontade avolumara-se. Os cuidados sanitários e a segurança passaram para segundo ou terceiro plano. Ainda sugeri aos mordomos que colocassem os andores, com as respectivas imagens, na rua, junto à Igreja, de modo que a assembleia coubesse em segurança e distância. Mas qual quê! Os santinhos é que tinham de estar na Igreja, que é lá o lugar deles. No meio das flores e dos andores, para serem admirados. A festa é deles. Nem que se limitasse o número de pessoas na missa! Onde já se viu os andores na rua? Perguntou uma senhora mais atrevida, com ar de afirmação. E tinha razão. Os andores não é para andarem na rua, não senhora. Onde é que já se viu! Claro que eu também não fiz disto um cavalo de batalha. A maturidade vai-nos ensinando pelo que vale a pena lutar. E assim lá estávamos nós na Igreja engalanada por todo o lado. Pessoas de um lado e andores do outro. Metade metade. Muita gente na rua. A maioria com vontade de estar na rua. A missa começou com o habitual acolhimento. E o simpático do senhor padre começou por cumprimentar os presentes. Boa tarde, meus senhores e minhas senhoras. Boa tarde, meus andores e minhas andoras... 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "santinhos e missinhas"

domingo, maio 15, 2022

O que pensas da nova imagem do blogue?

primeiro cabeçalho do confessionário
O mundo dos blogues não tem a força de outrora, como quando o "Confessionário" nasceu. Já lá vão uns 22 anos. Sim. O Confessionário nasceu por volta do ano 2000, como conto AQUI. nasceu quando os blogues começaram a ser uma referência no panorama virtual. Na altura, não havia, que eu conhecesse, outros blogues de cariz religioso. Em 2003 entrou de férias e renasceu mais tarde, em 2005. Desde então, aqui tem permanecido, com as circunstâncias que os anos e as vidas trazem. Ahhh e os amigos. Sim. Alguns amigos nasceram como nasceu o blogue. Com a simplicidade das palavras e do que elas dizem. E assim se amadurece. E assim o "confessionário" existe. O seu autor está mais velho. Afinal são muitos anos e muitas vivências. Os entendimentos de fundo são praticamente os mesmos. Os anseios. As vontades. Os sonhos. Mas muito mais maduros. Sem dúvida. Porque entretanto, muita tinta correu. E corre. E queremos que continue a correr com a frescura de outrora. Por isso senti a necessidade de fazer um refresh, ou numa linguagem mais nossa, um refrescar. Só para sentir que continuo como no início. Que continuo sempre novo. Que continuo a querer ser o mesmo padre que afirmei querer ser no dia em que celebrei a minha primeira missa solene. E já passaram mais de 25 anos. E que vós continuais aí. 

AQUI tendes a explicação das mudanças. E convido-vos a dardes a vossas opiniões e sugestões para poder ainda servir-vos melhor. Entretanto, abro uma nova sondagem, para perguntar: "O que pensas da nova imagem do blogue?"

quinta-feira, maio 05, 2022

os sacramentos-eventos

São desgastantes os sacramentos pedidos como eventos. Quem os pede foca-se apenas no evento. Por isso o mais importante são as datas, os horários, as vestimentas, a animação, as fotos, a boda, os convites e as prendas. Nos sacramentos-eventos os padres somos quase sempre os últimos a ser contactados. Ao mesmo tempo, acabam dizendo mal do que chamam de burocracias da Igreja. Que exige muitos documentos e preparações. Sejam casamentos, baptizados, crismas, primeiras comunhões e similares, é quase sempre um desgaste para quem queria que os sacramentos fossem um modo de caminhar na fé, e para alguns, pouco mais são do que um evento familiar, social e cultural. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer ser padrinho"

terça-feira, abril 26, 2022

os ‘voltares’ à Igreja

O Manuel e a Maria casaram pela Igreja. Escolhi-lhes estes nomes para significarem os outros nomes daqueles que ainda se casam pela Igreja e nunca mais foram vistos na Igreja. Não são assim tantos. São cada vez menos. Mas são quase uma maioria dentro daqueles que ainda se casam pela Igreja. Casam e voltam novamente para baptizar o filho que agora trazem ao colo. Acham que tem de ser assim e são honestos no seu achar. Voltam porque ainda há uma ligação com a Igreja, mesmo que seja como um supermercado. Isso é o que fazem no resto das suas vidas numa sociedade que fomenta o consumo de bens, de coisas, de pessoas, de vidas, de espiritualidades. E os que estão à frente das nossas comunidades cristãs, os padres, vamos aceitando estas intermitências e tentamos - ao menos eu tento - fazer destes ‘voltares’ um momento de acolhimento e de gestação. Contudo, por dentro, o que mais me apetecia era dizer umas palavras indignas de serem palavras, vociferar e gritar que Deus nos ama e que isso é muito mais forte e intenso que um baptismo, um casamento ou qualquer outra expressão sacramental ou ritual que a Igreja tem à disposição. O Deus que nos ama é o que a Igreja deveria ter para oferecer e o que as pessoas deveriam buscar quando se abeiram da Igreja.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O caso descaso!"

sexta-feira, abril 15, 2022

Padres a carregar cruzes

Não gosto de pensar que nós, os padres, temos de carregar o peso do mundo ou o peso dos outros. Também não temos de carregar a cruz de Jesus. Ele só nos pede que carreguemos a nossa. Cada um tem de carregar a sua. Cada um tem um peso para levar no caminho. Nós, os padres, não temos de carregar o peso dos outros. Só temos de ir com eles no caminho. Irmos ao lado dos outros já é, de certo modo, carregar com a sua cruz. Ou seja, aliviar-lhe o peso por dentro.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

...desejando que a nossa cruz chegue ao destino, a Páscoa da Ressurreição!

quinta-feira, abril 07, 2022

padres que são um luxo ou uma graça!

Estava danado com o bispo e com os paroquianos, porque não lhe davam a atenção que ele desejava. O bispo não explicava às pessoas como é que elas tinham de tratar o padre, que era o seu novo pároco. E as pessoas da paróquia não se preocupavam com o novo pároco, ao ponto de ele nem receber monetariamente o que achava que merecia. É que, dizia, as pessoas esquecem-se que terem um padre é um luxo. 
Pois, na verdade será, pensei eu para os meus botões. Mas apenas se considerarmos o luxo como algo supérfluo. Talvez nesse sentido. Talvez nesse sentido um padre seja um luxo. Também reconheço – de consciência clara e amadurecida - que ter-se um padre ao alcance é uma graça. Pelo menos porque pode ser um apoio no caminho da fé. Mas a escolha da palavra “luxo” para afirmar que ter um padre é um luxo, fez-me recuar no tempo, ao tempo da Igreja medieval em que a Igreja se confundia com o poder. Um padre nunca será um luxo. Quando muito será uma graça. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O colarinho branco"

segunda-feira, março 28, 2022

A Igreja dos pobres

Gesticulava para que aqueles que o ouviam entendessem a intensidade das suas palavras e a força da sua intenção. A Igreja tem de fazer a opção preferencial pelos pobres. Isto é o que repete continuamente o papa Francisco. Isto é o que o concílio Vaticano II disse e ficou oculto entre palavras e documentos. E que agora a teologia, influenciada pelas tendências da América Latina, trazidas aos de cima com auxílio do mesmo papa, mais referem. O dedo no ar voava junto com as frases afirmativas. Ou imperativas. E depois para se justificar, deu um exemplo. Vem um pobre à igreja – referindo-se ao templo – e não lhe fazemos caso, deixando-o ao fundo da igreja. Vem um rico ou importante, e levamo-lo para a primeira fila. E neste momento, o dedo esgrimia-se como uma espada apontada aos ouvintes. Quase a gritos, disse Quem deveríamos levar para a primeira fila era o pobre. 
 Ou seja, este amigo entusiasta pelo lugar teológico dos pobres, como ele fazia questão de salientar, estava tão focado nos pobres que, afinal, a única coisa que mudava era o lugar do pobre. Ele passava o pobre para a frente da igreja, por causa da sua condição de pobreza. Quando, na minha humilde opinião, se devia olhar para a nossa Igreja – referindo-me ao conjunto de seguidores de Cristo – como o lugar teológico dos iguais entre iguais, sem qualquer tipo de discriminação, ainda que esta pareça ser positiva. Eu sei que não se deve tratar o pobre como se ele não fosse pobre. Assim como defendo que a paternidade ou maternidade da Igreja e de Deus se concretizam num amor segundo as necessidades do amado ou amados. Nesse sentido, a Igreja deve esforçar-se por prover ou diminuir as necessidades materiais – ou outras - dos pobres. O que eu não concordo é que se tratem os pobres como se a condição deles, embora mais assinalada e defendida por palavras, teologias e pastorais, seja uma condição inferior às outras. Creio que os verdadeiros pobres – e não me refiro propriamente aos indigentes ou pedintes de esmolas – gostam de se sentir iguais entre os iguais. Ou estarei errado?!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "a solidariedade que não se faz de cima para baixo"

quarta-feira, março 23, 2022

Barrabás

Queria saber mais de Barrabás. O agitador do povo, o homicida que Jesus substituiu. Sim, porque Jesus sbstituiu este homem que só aparece no evangelho para ser substituído por Jesus no seu crime. Pouco falamos dele e sabemos ainda menos dele. Gostamos mais de lembrar aquele que substituiu Jesus, o Cireneu. A antítese de Barrabás. O substituído e o que substitui. Ambos Cristo, porque Cristo quer e porque Cristo quer muito. Porque a configuração com Cristo tem nome e tem história. Tem passado e tem futuro. Tem tudo. Porque Ele é tudo. Queria saber mais de Barrabás, porque foi o sortudo da cruz. Todos os outros que acompanharam o mestre à morte ou eram algozes ou murmuradores ou acusadores ou juízes. Todos condenaram Jesus. Mesmo os que, diz o evangelho, eram seus amigos ou conhecidos e iam vendo a cena de longe. A distância de coração, que é muito maior que a distância dos metros. Mas Barrabás não aparece a condenar. Talvez até tenha dado graças a Deus pela sorte que teve em ser substituído pelo próprio Deus. Ou então não. Ou então foi apenas o acaso do amor de Deus, como a cruz é o amor de Deus em plenitude, independentemente de quem participa nesse caminho de amor. 
 
revisitar Lc 23, 13-25
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Entre mim e Deus não há nada"

segunda-feira, março 21, 2022

chão [poema 347]

a casa está amortalhada 
tem uns degraus que não sobem nem descem 
só Deus passa e leva a casa 
só Deus sobe e desce 
entre flores cor de paixão 
sangue adulterado, 
no chão. 
 
da casa

quinta-feira, março 17, 2022

O Não do Bispo

Numa diocese longe da minha, mas não tão distante que não me doa como se fosse minha. Porque as distâncias das dioceses são apenas geográficas. A Igreja é a mesma. Em cada uma está toda a Igreja. Numa diocese sem nome, distante geograficamente da minha, o bispo convocou uma reunião dos seus padres, isto é, o seu presbitério, com um parco grupo de leigos para que estes últimos relatassem a sua experiência num congresso de leigos em que tinham participado. Dizia-me um colega padre dessa diocese que, a determinada altura, e porque os leigos presentes faziam algumas reclamações relacionadas com a participação dos leigos na Igreja, o bispo se levantou, levantou igualmente a sua voz, e disse que não aceitava o que estavam a dizer. Aqui quem manda sou eu, referiu. E a reunião terminou naquele exacto momento. Nem uma voz mais se ouviu. Não sei o que aqueles leigos disseram nem se o que disseram era bom ou mau. Mas sei que a voz foi-lhes tão dada como calada. E é assim que vive uma Igreja que quer escutar todos, mas que não dá voz a todos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Nós e vós"