quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Deus baixíssimo

O Altíssimo abaixou-se para ser o Baixíssimo. Depois subiu novamente. Mas subiu para o lugar da morte, a cruz. Subiu para baixar ainda mais. Para baixar aos mais periféricos dos periféricos, os criminosos. Custa-me muito pensar num Deus que se deixa associar aos criminosos. Mas não consigo senão pensar na sua baixeza. E nas ocasiões em que procuro algum tipo de superioridade em relação ao meu semelhante. Parece-me que, muitas vezes, o gesto de nos ajoelharmos diante de Deus não é bem um ajoelhar-se. Torna-se um rito sem verdade quando não aprendemos a baixar-nos de verdade. O Papa Francisco dizia que a única ocasião em que devíamos estar acima de alguém era quando estendíamos a mão para levantar essa pessoa. Infelizmente, mais rápido nos achamos mais superiores que os outros e os tentamos abaixar a nós. Deus baixíssimo nos ajude! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Indizível amor"

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Epístola de S. Paulo aos coelhenses

A senhora Delina, para além do nome estranho, tem outras coisas estranhas. Mas é muito bem-intencionada e está sempre pronta, nos seus setenta e muitos anos, a ajudar na comunidade. Também faz parte do grupo de leitores. Troca muitas letras e, por isso, também troca muitas palavras. Bem lhe digo para treinar a leitura, mas não adianta nada. Eu estou convencido que ninguém, para além de mim, dá conta. As frases não fazem o mesmo sentido, mas acho que muitos dos nossos cristãos ouvem as frases sem ouvir o sentido delas. Claro que exagero. Mas como ninguém se queixa das frases que a Delina muda e transforma, estou convencido de que o que interessa é que se trata da Palavra de Deus e ponto final. Por isso é que quando a Delina trocou a epístola de S. Paulo aos Colossenses por epístola de S. Paulo aos coelhenses, só eu é que me ia escangalhando a rir. O resto da comunidade manteve-se impávido e sereno.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A leiteira de S. Paulo"

terça-feira, janeiro 27, 2026

nós não somos Igreja

Umas semanas após o início da catequese, reunimos aqueles que entraram pela primeira vez nesta caminhada de fé. Aquelas caritas entusiasmadas encheram a igreja. Era a primeira vez que eram o centro da comunidade. Havia uma festa para eles e o entusiasmo era tanto que nem sabiam como sossegar nos bancos. A homilia foi quase toda para eles. Falámos da Igreja, da importância da Igreja, do que era ser Igreja. Estiveram muito atentos a aprender tudo, até ao momento em que lhes disse que eles eram Igreja. A gargalhada foi geral. Pensavam que eu estava a brincar com eles. Por mais que insistisse que eles eram Igreja, não acreditavam. Ó senhor padre, como é que nós somos Igreja se não somos feitos de pedra, disse um garotito mais espevitado e atrevido. E todos riram à gargalhada.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

sexta-feira, janeiro 23, 2026

entre o dia e a noite [poema 401]

sento-me à mesa com o prato nas mãos 
equilibra-se nos dedos, como a vida 
não tenho fome mas como, assim me aguento 
entre o dia e noite 
 
ontem chorei antes de me sentar à mesa 
não havia mais pratos e isso assustou-me 
onde estão os outros pratos? assim não há vida 
entre o dia e a noite 
 
um vento passa e levanto-me da mesa 
o prato vem colado a mim, onde quero comer? 
e o vento volta a passar, como peregrino 
entre o dia e a noite 
 
leva-me 
entre o dia e a noite

terça-feira, janeiro 20, 2026

A Joaninha

A Joaninha portara-se um bocadinho mal. Digamos que um bocadinho era favor, mas ela era uma querida e custa dizer que se portou mal próximo do muito mal. A mãe teve de intervir com algumas palavras duras e uns olhares reprovadores, mas a pequerrucha resistia com as suas razões de oito anitos. Não tardou muito em magoar a mãe. Por isso, esta teve de lhe lembrar uma coisa que a filha não podia esquecer. Joana Maria, tu não te esqueças que fui eu que te dei a vida. A Joaninha não desarmou e, tal como aprendera com a catequista Amália, respondeu prontamente. Isso não é verdade, mamã. Quem me deu a vida foi Jesus. A mãe teve de esconder o rosto da admiração e da vontade de sorrir. Pois, pois, Joana. Mas ele deu-te a vida através da tua mãe, que sou. A Joaninha tinha a sua razão e a mãe também tinha, e muito bem, a sua razão. Ainda assim, é bom ouvir pequerruchos a falar de Jesus desta maneira. Foi Jesus que me deu a vida, mamã.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista e o menino"

segunda-feira, dezembro 15, 2025

saber [poema 401]

nunca saberei tanto como o que não sei 
sei-lhe o tamanho pelo facto de não o saber 

é um tamanho sem medida 

para ser

quinta-feira, novembro 20, 2025

a porta [poema 400]

a porta era muito antiga 
não tinha fechadura, tinha uma ranhura 
ali, do lado mais parecido com o peito, 
por onde saíam cartas de amor 
 
a porta era de verdade uma porta, 
mas não abria.
era como uma porta parada, 
mas que te acompanhava
 
e sabias que por ali se passava 
no tempo 
 
ai porta de amor que não fechava 
mas guardava a sete chaves o amor 
ai porta que não sei dizer, mas que por tudo 
me abraçava 
 
ali está a porta que um dia conheci

segunda-feira, novembro 10, 2025

a casa [poema 399]

tocou-me a pedra fria no rosto 
entrou pelo corpo adentro, pouco a pouco 
gelando cada intimidade com a sua passagem 
 
tocou-me a pedra no rosto quente 
entrou por ela adentro, num repente 
aquecendo a casa com o meu sangue 

tocou-me a pedra fria no rosto quente 
para fazer uma casa no lugar da casa

sábado, novembro 01, 2025

A formação nos Seminários

A tradição tridentina dos seminários modelou uma geração de sacerdotes separados do mundo e do Povo de Deus. Com razão, o concílio de Trento insistiu na necessidade de formar os padres porque estes tinham uma formação muito frágil. No entanto, o afastar os seminaristas da realidade em que vivem e hão-de um dia servir, gera uma tendência ao clericalismo, ao espírito de castas e eleitos, promovendo a sensação de superioridade em relação ao Povo de Deus. A figura do sacerdote reveste-se, deste modo, de uma sacralidade excessiva que, mesmo sem querer, o vai afastando da realidade que é o mundo. Os seminários não podem formar presbíteros distantes, autorreferenciais ou rígidos. Devem formar pastores verdadeiramente humanos e próximos das pessoas. Devem formar acompanhadores dos fiéis e não ministros do culto. 
Com frequência a formação nos seminários tem privilegiado a separação, a sacralização da figura clerical e o autoritarismo, em vez de formar para o serviço, a humildade e a proximidade com o Povo de Deus. Depois de um concílio Vaticano II pendente, parece que volta esse estilo de formação, ou melhor, de candidatos que buscam esse tipo de formação. Temos de rezar mais pelos seminários, pelos seminaristas e seus formadores, pelos candidatos ao ministério ordenado e pelos responsáveis da pastoral vocacional, para que se procurem e encontrem caminhos que formem ministros da humanidade e do amor de Deus, e não tanto ministros do culto, sem mais.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As perguntas que hoje faço"

quinta-feira, outubro 02, 2025

e cansado

Estava cansado e farto de tudo. Farto das incompreensões e decisões do bispo. Farto dos colegas que só pensam neles. Farto dos paroquianos que vivem a exigir coisas que ele não consegue dar. Farto e cansado de tudo e de todos. Quando amanhecia, tinha vontade que a noite regressasse depressa para tomar o comprimido de dormir. Fazia o que tinha para fazer como qualquer máquina onde se coloca uma moedinha. Andava pela paróquia e pela vida de cabeça erguida e ombros levantados. Fazia lembrar o cavalo elegante com os antolhos para não ver senão o que está a sua frente para ser feito. Chegado a casa, o seu corpo transformava-se, tolhia-se, encurvava-se, amarelecia. Pegava no livro da liturgia das horas e rezava palavras sem dialogar com Deus. Sentia que a sua espiritualidade se esvaía por entre os dedos. Tentava segurá-la como se segura a água numa mão. Ficava apenas um resto de humidade que rapidamente secava. Era como se a fonte tivesse secado. Como se Deus o tivesse abandonado à sua sorte. Entrara no seminário de armas e bagagens, como se costuma dizer, entusiasmado porque ia mudar o mundo, ia ajudar as pessoas a encontrar-se com Cristo. Mas a realidade impôs-se. Era mais forte do que ele e do que todo o entusiasmo que alimentara em tempos de seminário. Sentia-se sozinho. Não tinha com quem partilhar os sucessos e as derrotas. Só as paredes da casa paroquial sabiam a verdade do seu coração, e a almofada que recolhia as lágrimas antes do comprimido fazer efeito. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"