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quinta-feira, março 21, 2019

Rezar na verdade da dor

O dia começava a escurecer. Sentado no meu sofá de três pessoas, rezava a liturgia das horas. Rezava atentamente os salmos. Gostara imenso da leitura de São Tiago. Gastara uns minutos a gostar dela. Contudo, chegada a oração das preces, e ao ler “concedei-nos, Senhor, a graça de tomar parte na vossa paixão por meio dos sofrimentos da vida”, a minha oração terminou por ali. Ficou ali parada. Ou começou deveras e num estremecimento de verdade que doeu. Como ser verdadeiro numa oração com este teor, quando mal vem a aflição, o sofrimento, a doença, a morte de alguém querido, as preocupações, os azares da vida, os problemas por resolver, e a gente não só perde o chão, como perde tudo?! Não queria mentir a Deus, mas é muito mais fácil dizer estas preces com a facilidade da boca que com a verdade e dificuldade do coração.

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

A morte que não se espera

Numa semana uma média de um funeral por dia. Neste mês de Fevereiro, só no concelho onde estou já faleceram mais de trinta pessoas, e ainda não terminou o mês. Estes dias tem falecido muita gente por estas bandas. Agora que o digo é que o penso. Gosto mais do verbo falecer que do verbo morrer. Este último é mais cru. Mas talvez estas coisas sejam mesmo cruas. E nuas. Ou seja, despem-nos de todos os embrulhos que a nossa vida possa ter. 
Vivemos como se a vida aqui na terra não tivesse fim. Vivemos fazendo de conta que a morte não está ao virar da esquina. E quando ela passa da esquina para a rua onde moramos, deixamos que a morte tome conta de nós como se nunca mais houvesse amanhã. Dói. A morte dói. A morte entra-nos no coração para doer. E como dói, vivemos como se sobrevivêssemos. Esperando que cada doença e cada situação mais dramática não nos toque à porta, não entre na nossa casa, não nos faça sentir que a vida entre os mortais é só isto. 
Vou deitar-me com esta dor de vida, a pensar no funeral de amanhã. Mais um. Mais um não saber já que dizer na homilia. Mais uma dor de alma. Mais um pedir a Deus: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.

sábado, fevereiro 16, 2019

O último José

O último José a quem fui dar a Unção dos Doentes fez-me pensar para além de mim, para além da vida, para além da missão sacerdotal. Quando me deparei com ele, nos Cuidados Continuados, em primeiro lugar, recordo, esbocei um abraço. Só isso. Apertei-lhe, depois, a mão. Só isso. Falei com ele como se não estivesse onde estava. Aquela cama articulada onde o José permanecia com os olhos abertos, mas sem olhares, e com a boca entreaberta, mas sem palavras. Esbocei um abraço e apertei-lhe a mão como se fosse o outro dia em que nos saudámos com um aperto de mãos e trocámos duas ou três palavras sem jeito, com pouco nexo. O nexo das conversas triviais. O perguntar-se como se está e o dizer que se vai indo. Quando já era visível que o José não andava bem. Quando ao perto já se manifestava a sua doença e a debilidade. 
Creio que quem sofre sabe que está num estado diferente de quem o visita no sofrimento. Mesmo quando não expressam qualquer sinal de entendimento. E creio que só quando nos fazemos companheiros do caminho, sócios da jornada, quem sofre perceberá que não está só. Doeu-me aquele diálogo surdo de dois companheiros de uma viagem. Dois companheiros que não têm muito para dizer senão estarem juntos a fazer o caminho. Mas também não sei se ocorreu tal e qual. Talvez o tenha imaginado assim depois que presidi ao funeral deste amigo José.

domingo, dezembro 09, 2018

Uma simples toalha que cai e que se levanta

Coloquei a toalha de rosto no local onde me pareceu que ficava mais segura. Era o local, para o efeito, mais óbvio que o quarto de banho possuía. Estava atrás da porta. Ali a pendurei porque também me pareceu óbvio. Entretanto, cada vez que entrava no quarto de banho, a toalha caía. Cada vez que havia um movimento da porta, ela caía. E eu fazia o óbvio. Baixava-me, para a apanhar e a devolver ao cabide. Caía e eu levantava-a. Numa dessas ocasiões, apeteceu-me desistir, como quem atira a toalha ao chão. Apeteceu-me deixá-la no soalho, mesmo que fosse pisada e não mais lhe fosse fácil cumprir a missão de limpar o meu rosto. Apanhei-a, apesar da pouca vontade. Pendurei-a de outro modo, mais segura. Mas a um novo movimento da porta, tornou a cair. 
É assim a nossa vida. Por mais que nos levantemos, tornamos a cair. Os movimentos da vida, oportunos e inoportunos, desejados e indesejados, naturais ou forçados, como uma necessidade, como uma urgência ou como a única saída, são movimentos que nos fazem cair. E que fazer perante tanta queda? Levantar. Erguer de novo a nossa vida. Pendurá-la de novo e procurar o local mais seguro. Talvez, mesmo assim, tornemos a cair. 
Talvez o melhor fosse pendura-la única e exclusivamente em Deus. Mas até nessa localização, o mais natural é cair de novo. Tal como a toalha possui um peso, por si só, que faz com que caia, mesmo sem querer, assim a nossa vida, por mais sustentada em Deus que esteja, tem um peso, por si só, que a poderá fazer cair. 
Não basta desculpar-nos que somos humanos. O melhor é assumir que somos vasos de barro, e que não há vaso de barro que não necessite de ser moldado, usado, gasto, remendado. Dizia Tolentino Mendonça, no “Elogio da sede”, que o caminho espiritual não nos impermeabiliza da vulnerabilidade. Transportamos o nosso tesouro em vasos de barro. As tentações sempre vão existir. O que a nossa intensidade espiritual pode fazer é ensinar-nos a olhá-las numa outra perspectiva. É a sabedoria de as interpretar. É a sabedoria de as incorporar. O melhor caminho da plenitude, em Deus, é o que fazemos com o que somos, melhor ou pior, mais querido ou mais preterido, mais amado ou mais odiado.

terça-feira, novembro 27, 2018

Acabar o dia entre quatro paredes

O que fazem os padres quando chegam ao final do dia, a casa, e ficam sozinhos? Foi esta a pergunta curiosa da Sofia que surgiu no imaginário do meu pensamento. Pelos vistos, a Sofia andava a questionar-se, tal como eu, sobre a vocação consagrada, em particular a dos sacerdotes, sobre o que era viverem sós, entre quatro paredes. Como seria? E eu gostava de pintar o filme de outra cor, menos sépia, menos branco e negro, menos cinzento. Gostava de dizer que, ao chegarmos a casa, o mais natural é ajoelhar aos pés do Senhor e agradecer-lhe o dom desse dia, pedir-lhe compreensão pelas nossas faltas, falhas e cansaços. Gostava de lhe dizer que era a oportunidade para nos sentarmos ao seu colo e esperarmos o calor do seu amor. Mas não sei se é essa a realidade. Algumas vezes será. Mas outras, acabamos o dia fechados em quatro paredes, geralmente sozinhos. Mas o pior é que nos fechamos, não apenas nas paredes da casa onde moramos, mas em nós próprios. Ficamos sozinhos, com oportunidade para nos abrirmos ao mestre da vida, para sentirmos que na nossa solidão há uma cadeira à nossa mesa, à beira da nossa cama, que é ocupada por Ele. Mas geralmente ficamos fechados na nossa solidão, voltados sobre nós mesmos. Não há pior solidão que aquela em que nos fechamos sobre nós mesmos. Como uma casa que se encerra convencida que assim evita os assaltos dos ladrões. Faz lembrar um filme que vi em tempos. Um casal fechara-se, barricara-se em casa com medo dos ladrões. O que aquele homem e aquela mulher não sabiam era que o ladrão já lá estava em casa e tinham acabado de se fechar com ele dentro.

terça-feira, novembro 20, 2018

A oração é estar com Deus

A oração é simplesmente estar com Deus. Foi esse o convite que Jesus fez aos seus apóstolos. Vinde e vede. Mas nós teimamos em fazer da nossa oração um desabafo das nossas coisas, dos nossos problemas e insatisfações, quando Deus já conhece tudo isso. Teimamos em pedir coisas e em querer que Deus se manifeste de forma incontundente, quando Ele quer apenas estar connosco e que estejamos com Ele como dois amigos que se amam e se encontram. Teimamos em falar de nós, como se ele fosse um desconhecido e nós uma relíquia a conhecer. 
Às vezes penso que Deus se deve esgotar com as nossas orações tão cansativas, tão chatas, tão angustiadas, tão pedinchonas. O que vale é que nos tem um amor para além de qualquer oração. O que vale é que deve ter uma paciência infinita, e até nessas nossas formas de oração ele deve descobrir que é um modo de estarmos com ele. Que assim seja.

sexta-feira, novembro 09, 2018

Um coração igual ao de Deus

Creio que o mais bonito de Deus é o seu coração, e é esse coração que nós devemos dar a conhecer aos outros. Não há nada mais bonito que o Seu coração. Mas, como posso transmitir o que está no coração de Deus se eu não conhecer esse coração? E como posso conhecer um coração que ama se eu não amar?
Estas duas perguntas misturaram-se com mais uma série de perguntas que me fiz, ou me surgiram, no meu último retiro, esse espaço privilegiado de intimidade com Deus que ainda hoje recordo. Foi num daqueles momentos especiais em que estava embrenhado em mim mesmo e em Deus, a pensar estas coisas do amor de Deus, como era fantástico sentir esse amor, percebê-lo, viver na certeza de tão grande amor. Assim, vindo do nada, ou de algo que me pareceu nada, mas pode ter sido verdadeiramente um tudo, surgiu em mim uma vontade enorme de amar. Parecia uma tolice. Mais uma das minhas tolices. Não estava sequer ali ninguém a meu lado para amar! Estava sozinho, diante do sacrário. Mas foi isso mesmo que senti. Uma vontade enorme de amar os outros. 
Naquele preciso momento me foi dado perceber, por experiência própria, que quanto mais nos enchermos de amor, mais vontade temos para amar. Quanto mais nos sentirmos em comunhão com Deus, mais vontade sentimos para entrar em comunhão com os irmãos. Que o amor de Deus aumenta o amor dos irmãos. Que quando sentimos em nós o amor de Deus, sentimos também esse apetite maravilhoso de amar mais quem está ao nosso redor.

terça-feira, novembro 06, 2018

Pagar para ter a doutrina

Este ano o grupo de catequistas, juntamente comigo, decidiu convidar os pais daqueles que vão frequentar a catequese na paróquia, a darem um contributo para ajudar os custos com a Catequese. Nem sequer é obrigatório. Os pais foram convidados sem carácter de obrigatoriedade. Mas os zunzuns da paróquia, as vozes críticas da mesma, decidiram interpretar este convite como “agora é obrigatório pagar para ter a doutrina”. Foi assim que alguém se referiu ao assunto, em tom jocoso, quando estávamos à mesa de um restaurante, no meio de uma refeição. Reparem que até o termo “doutrina” fala do que as pessoas entendem que é a catequese, uma doutrina que se dá a conhecer. Respondi, saturado com os comentários que tenho ouvido a propósito, que nada era obrigatório na minha comunidade cristã. Nem contribuir economicamente, porque era uma questão de generosidade e partilha, nem a Catequese, nem o que quer que seja. O senhor indagou-me dos donativos, indicando que a paróquia devia viver dos donativos. Eu perguntei-lhe quais eram os donativos que ele tinha efectuado, e calou-se. Depois insistiu com o habitual tema de que a Igreja é rica e que o Vaticano devia auxiliar as paróquias, ou então que umas ajudassem as outras, referindo explicitamente o Santuário de Fátima. Tem alguma razão, neste ponto, este senhor. O que ele não sabia era que o Santuário de Fátima já tinha auxiliado a nossa paróquia e que o natural/ideal era que cada comunidade cristã tivesse a capacidade de  subsistir por si mesmo. Esclareci-o de que as contas da paróquia eram públicas e apresentadas anualmente com transparência, e que a gestão corrente dos últimos dois anos, devido aos custos normais e àquelas coisas que não se valorizam a não ser quando se precisa delas, tinha um saldo negativo. Acham que isso interessou ao senhor? Nada. A conversa continuou no mesmo tom, por um lado de quem acha que a paróquia não necessita de contributos de ninguém para nada, e por outro de quem está saturado desta forma de entendimento, que nada tem a ver com uma comunidade verdadeiramente cristã

sexta-feira, novembro 02, 2018

Ir ao cemitério

Passara por mim, apressada, com um ramo de flores nas mãos. Ía para o cemitério. Ainda não tinha tido tempo de limpar a campa do seu pai. Mas hoje tem de ser. Hoje é dia de ir ao cemitério. Hoje é dia de romagem para visitar as campas dos nossos. A conversa durou muito pouco. Trocados os bons dias, pouco mais trocámos que palavras relacionadas com o frenesim do dia de hoje, a ida ao cemitério da parte da tarde, depois da missa, e os adornos das campas. Costas já voltadas, ainda se virou para me dizer. Que necessidade temos de ir hoje ao cemitério?! Não sei se era uma pergunta se era uma afirmação. Se era uma pergunta, também não deu tempo para responder. De igual modo não sei se ela ia ao cemitério por hábito, por tradição, pelo facto de todos ou quase todos lá irem, se por não parecer mal, se por devoção, se por fé, ou sei lá. Não conheço suficientemente o seu coração. 
Antes da minha mãe falecer, eu estava convencido que havia um excessivo culto aos mortos e tornava-se mais visível nesta ocasião. Por estas datas dos santos, dos finados ou fiéis defuntos. Continuo a achar que há um excessivo culto aos mortos, inclusive dentro do grupo dos cristãos mais formados. Mas também recordo que, a partir daquela data fatídica de 7 de Outubro de 2001, o meu olhar para estas coisas alterou ligeiramente. A campa da minha mãe passou a ser o seu santuário, aquelo espaço físico que me religa a ela ou ao que ela é para mim, mesmo depois de ter falecido. Por isso de vez em quando dou lá um salto, dou um beijo na foto que se vai gastando com o tempo, e ofereço-lhe a minha oração. Creio que é isso que fazemos quando vamos visitar uma campa no cemitério. Não vamos visitar propriamente os “nossos” porque os nossos já não estão ali. Ali foram depositados apenas seus corpos. O dia de hoje é, na minha opinião, um dia de homenagearmos quem tanto continuamos a amar e que nos precedem no céu. É um dia de acção de graças pelos dons das suas vidas. É um dia para lhes ofertarmos a nossa oração, que é a melhor prenda que se pode dar a alguém que se ama assim. É um dia para pensarmos na vida como esse tão grande dom que Deus nos dá e que não tem fim, mesmo diante da morte.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Um chamamento que não sei

Já lá vão muitos anos. Andava na escola primária quando escutei, pela primeira vez, que o Senhor chamava alguns a ser sacerdote. Na altura a palavra soava-me a algo estranho. Como poderia saber o que era o sacerdócio! Era mais fácil traduzi-la por “padre”. Recordo que ouvi, pela primeira vez, numa aula, um jovem seminarista que, por sinal, hoje é bispo, dizer que o Senhor podia chamar alguns de nós para padre. Continuo a lembrar que a palavra padre só me fazia lembrar o padre da minha paróquia. Aquele senhor de uma certa idade que celebrava as missas. Achei engraçada a ideia de poder ser chamado. E um dia achei que o Senhor me chamava mesmo. Era uma criança. O significado desse chamamento só uns anos mais tarde, depois de fazer muitas perguntas, me foi possível ir entendendo. Mas ainda hoje não sei porque o Senhor me chamou. O que viu em mim. O que vê em mim. Lembro alguns acontecimentos marcantes dessa época da minha meninice. Lembro quando o tal padre da minha paróquia me disse que eu bem podia ser padre. Lembro quando, um dia, corajosamente, me abeirei do altar e me deixei ficar ali, como se fosse esse o meu lugar. O lugar que o Senhor queria que eu ocupasse. Mas ainda hoje não sei porquê. Ainda hoje pergunto ao Senhor porquê. Porquê eu, de tantos outros meninos, a maioria muito melhores que eu. Se me perguntassem se eu gosto de ser padre, não sei bem se a resposta seria positiva. Há um misto e muitos paradoxos nas respostas que poderia dar. Só há uma coisa certa. Estou aqui. Como sou. E Ele está por aqui, por não sei bem donde. Vamos tratando-nos, cada vez, mais por tu. De vez em quando sinto que nos abraçamos. Outras vezes berramos um com o outro. Não me sinto digno do seu amor. Mas Ele teima em querer amar-me assim. Por isso, vou-me sentindo esse indigno amigo que é amado por Alguém que teima em me amar… assim.

quinta-feira, outubro 18, 2018

Tenho-te dito

Estava aqui a remexer papeis onde, por ocasião dos meus retiros, anoto alguns pensamentos, ou momentos que, de me tocarem, me levam a escrever. Num desses papéis encontrei um desabafo que escrevi num desses momentos. Já lá vão uns cinco anos. Escrevia assim. 
Estou de retiro. Ou devia estar. Venho, por meus pés, olhar-te na hóstia que depuseram na custódia. Faz sentido que cumpra os horários do retiro. Por isso estou aqui por meus pés, que é como quem diz, por minha própria vontade, embora esta vontade tenha surgido do horário. Há um silêncio à minha volta. Não o há dentro de mim. Queria ter alguma coisa para te falar. Uma conversa. Mas estou vazío. Alguém um dia disse que era preciso uma pessoa esvaziar-se para falar contigo. Contudo, para ser sincero, o meu vazío não me deixa espaço para conversas. Insisto que quero falar contigo, mas não consigo. Será isto um falar-te? Ocorre-me rezar o Pai Nosso, para facilitar as coisas. Mas fico nas duas primeiras palavras. As outras não me saem. Levanto os olhos do papel para te olhar de longe. Estás mesmo aí? O meu ar desconfiado, que não quer sê-lo, está aqui. Penso nos meus paroquianos, porque acho que tenho de pensar em alguma coisa. Quer-me parecer que, por mais que insista, hoje não consigo dizer-te senão que não consigo. 
Tenho-te dito.

sábado, outubro 13, 2018

O frade dorminhoco

São seis horas da madrugada. Depois da liturgia das horas, das laudes, entregamo-nos, numa hora, à meditação. Tem sido assim todos os dias, tanto de manhã como ao findar da tarde. E um dos frades mais velhos que está na comunidade do mosteiro, mal se apagam a maioria das luzes, senta-se num pequeno banco, de joelhos, e o sono cai sobre ele. É engraçado que pende sempre para o seu lado direito. Sempre para o mesmo lado. Como se esse lado o segurasse no tempo. 
A princípio, chamou-me a atenção pelo caricato da situação. Sorria com alguma pena, evitando que, ao meu redor, se apercebessem. Depois fui intuindo que, se calhar, seria uma doença. Deixei de sorrir, mas não deixei de alimentar a pena. Só aos poucos, com o tempo, fui descobrindo que aquele estar poderia muito bem falar da sua intimidade com Deus. Fui descobrindo que aquele frade dorminhoco aproveitava, em cada meditação, para dormir no colo de Deus. Deixava-se embalar nos braços de Deus, como a criança se entrega ao colo da mãe. É no colo da mãe que uma criança mais se sente confortável, segura, confiante, feliz. Não existe maior amor de filho do que aquele que se entrega ao amor de alguém que nos dá a vida, faz viver, ajuda a caminhar, e nos enche de amor. E assim percebi que o frade dorminhoco se entregava a Deus, na sua meditação, muito mais que eu. Eu ainda não aprendera a adormecer no colo de Deus.

quarta-feira, outubro 10, 2018

Noite escura

Desengane-se quem pensa que o recolhimento de um retiro serve a necessidade de paz e tranquilidade. É isso que muitos de nós buscamos num retiro espiritual, num encontro de oração, numa celebração comunitária da fé. Desengane-se quem pensa que uma experiência de encontro com Deus nos traz a paz que ansiamos diariamente e que parece longe de alcançar nas correrias diárias da vida. Um verdadeiro encontro com Deus faz-nos encontrar connosco próprios, com a nossa essência e, portanto, com as nossas misérias, ansiedades, erros e pecados, o que S. João da Cruz chama de “noite escura”. 
O que pode fazer esse encontro com Deus é garantir que Deus nos ama. A experiência de encontro com Deus o que pode operar em nós é o sentirmo-nos amados por Deus. Quando alguém ama e se encontra com a pessoa amada, não deixa de ser quem é, não deixa as suas fragilidades de lado. Ama com tudo o que é. Mas é nesse amor que ganha as forças para viver.

domingo, outubro 07, 2018

Meu pai e minha mãe

Quando somos crianças, dependemos completamente do amor dos nossos pais. É esse amor que nos cria para a vida, para a educação, para a fé, ou seja, para ser quem somos. É a lei natural da vida e da fé. Com o tempo vamo-nos tornando autónomos e vamos construindo a nossa independência. Vamos conseguindo ser para além do cordão umbilical que temos com os nossos pais. Gosto de pensar que a ligação que temos aos nossos pais nunca corta de modo completo o nosso cordão umbilical. Mas a lei da vida é esta. E com o tempo, os cortes que este cordão vai sofrendo, traz-nos novos modos de sobreviver, de viver e de sentir. 
Hoje faz dezassete anos que a minha mãe faleceu. Não podia esquecer esta data. Muito menos quando a situação de saúde do meu pai está desajustada ao meu desejo. Por mais que eu quisesse que a minha mãe aqui estivesse e o meu pai estivesse completamente bem, isso não é possível. É a lei da vida. Mas a impotência e a dor são tão grandes que, por mais que façamos, continuamos impotentes e a sofrer. É a lei da vida. Repito insistentemente que é a lei da vida para me confortar. É a vida que Deus criou para vivermos. Não há volta a dar. Por isso é que me parece que devíamos gastar a nossa vida com o que ela tem de melhor e mais bonito, com o que ela tem de mais essencial e importante, o amor. 
Hoje vou visitar meu pai e vou amá-lo freneticamente. Hoje vou abraçar minha mãe nos meus pensamentos e vou amá-la freneticamente. Não sei amar meu pai e minha mãe senão deste modo, estejam eles fisicamente aqui ou não, estejam eles fisicamente bem ou não. Que interessa se eles não podem estar! O que interessa é que eu estou… aqui, para os continuar a amar e a religar nosso cordão umbilical.

sábado, outubro 06, 2018

Esse amor maior que não se consegue dizer

Habita-me, Senhor. Habita-me, Senhor. Foi a repetir esta frase que passei grande parte da minha hora de contemplação esta tarde. Havia um ponto de luz na capela, voltado para um ícone da Santíssima Trindade. Não havia mais luz. Estávamos naquele silêncio umas doze pessoas, entre frades, sacerdotes e leigos. 
Sentara-me numa cadeira pouco confortável, com os pés descalços, e as mãos abertas, repousadas sobre as pernas e voltadas para cima, na esperança de acolher o que viesse do céu. De vez em quando fazia como vira os judeus fazer diante do muro das lamentações, numa peregrinação à Terra Santa. Com eles aprendi que, para não me distrair, podia balancear meu corpo. Nunca experimentara este modo de orar, mas esta tarde fi-lo, na esperança que afastasse de mim as distrações. Todo eu esperava que o Senhor se manifestasse durante aquela hora de íntima oração. Não senti nada de especial. Não houve nenhum êxtase. Não houve nenhuma levitação. Não houve estrelinhas a sobressair por entre as minhas pálpebras. Eu pedia insistentemente a Deus que me habitasse, que eu fosse seu habitáculo, que se fizesse sentir como o sangue a correr-me nas veias. Não sei bem o que senti. Muito menos explicar. O que sei é que aquela hora me pareceu muito pequenina. Prolongava-a com vontade por mais uns largos minutos. Não consigo, de todo, definir o que sentia. Creio que as palavras humanas, para se dizerem, se socorrem de símbolos, de coisas que conseguimos descrever. Mas há momentos que não se conseguem dizer, e este foi um deles. O que posso afirmar é que me apetecia ficar por ali, a descobrir esse amor maior em mim.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Antes de me recolher neste retiro

Antes de me ausentar, disse aos meus paroquianos, no final da missa, que ia recolher-me num mosteiro, para me encontrar com Deus. Eu bem sei que Deus está em todo o lado, ao nosso alcance, mas precisava de um espaço para me encontrar com Ele. O mosteiro recebeu-me de braços abertos. Era escuro quando cheguei e tudo me pareceu enorme. Enorme demais para mim. As pedras contavam histórias de quem já por aqui passara com os mesmos desejos e vontades que eu. São pedras gastas de histórias. O meu quarto tem apenas o essencial para que eu possa estar nele. Não há rede fixa ou móvel. Não há senão a sensação de que não há nada para além de mim. Mesmo quando ouço um ruído na floresta em redor. Ou no quarto alguma mola da cama se remexe. Ou num quarto ao lado se ouvem passos que desconheço. 
Eu dissera aos meus paroquianos que precisava encontrar-me com Deus. E agora, no meio de uma gargalhada, apercebi-me do erro das minhas palavras. Deus já lá está. Ele já está comigo há muito tempo. Desde que me desejou, ainda antes do seio de minha mãe. Ele está comigo. Ele vai comigo para todo o lado. Nós é que nem sempre damos conta disso, porque demasiado ocupados em nós mesmos. O que nos falta é a consciência desse seu estar. E só tomamos consciência disso quando entramos em nós, no mais profundo de nós. Naquilo que muitos chamam alma e eu prefiro chamar de mim mesmo. Aquele íntimo que diz mais do que parecemos, que diz o perfume do que somos feitos, a beleza que se esconde por detrás da aparência, a certeza de que se existe por algo maior. Afinal, encontrar-me com Deus é entrar na minha intimidade. É lá que a consciência da sua presença se define.

terça-feira, outubro 02, 2018

escrever sobre o início do meu retiro

Sinto o vento a bater forte contra as árvores, empurrando-as para eu ouvir os seus gemidos. Sinto a água a correr na fonte, aqui ao lado da janela onde me encontro, num quarto do meu tamanho, pequeno, como se fosse um regato do rio a calcorrear caminhos, batendo nas rochas ou pequenas pedras de uma matéria que não sei. É um som métrico, ritmado, Vai entrando no meu coração sem eu me aperceber. Ouve-se um que outro pássaro por entre o som da água e do vento. Espreito lá para fora. Está tudo igual ao dia. Ao dia do vai e vem da vida. Mas é tudo diferente. Tudo fala de forma diferente. Tudo é sol, mesmo que tenha descido a temperatura. Tudo parece entrar por mim a dentro de uma forma medida, serena, consciente. Nada parece correr por mim a dentro. Nada parece correr como quando, à minha secretária, repito pensamentos sobre os meus afazeres, sobre as minhas preocupações, sobre as minhas dores, sobre os pesos que a vida vai trazendo, pequenos ou grandes, e a correr me sufocam. Hoje essas coisas acalmaram. Estão lá. Não desapareceram. Continuam a ocupar os mesmos espaços da minha vida e do meu ser. Mas hoje o vento é mais forte, a água é mais intensa, o silêncio, que me começa a habitar, fala mais para mim. Hoje é tempo de me deixar encontrar por Deus.

sábado, setembro 01, 2018

A Adrenalina do senhor prior

Estava sentado ao seu lado. A distância não alimentava muito desconforto. Mas ela não parava de fazer piropos ao senhor prior. Estávamos no meio de uma festa de aniversário, uma daquelas festas para as quais o pároco ainda vai sendo convidado. Assim como ela. Não era mulher que fizesse incómodo libidinal ao senhor prior. Era apenas uma senhora castiça que usava todas as conversas para meter picante. Por isso o padre, que era eu, ria-se e divertia-se. E às tantas entrou na brincadeira. 
Na noite anterior estivera até tarde a assistir a um concerto, que achara maravilhoso. Cantara imenso, batera palmas, saltara, dançara. Por isso, ao deitar-se, teve dificuldade em adormecer. Estava, como se costuma dizer, com adrenalina. Por isso, em tom de brincadeira, disparou para a vizinha do lado. Esta noite deitei-me cá com uma adrenalina! E fez com a mão um sinal de exclamação e excitação. Mas a exclamação e excitação da senhora ainda foram maiores. Dormiu com quem, senhor prior? Com a Adre…quê? Com uma Adelina, ou Adrelina? Eu bem digo, os padres são cá uma peça! Mas faz bem, senhor prior, os padres são homens como os outros.

segunda-feira, agosto 27, 2018

Quilómetros e quilómetros percorridos

Percorria centenas, senão milhares de quilómetros, sentado ou deitado no sofá azul da sala. Não era verde porque o azul condizia melhor com a cor que mais gostava. Contudo, neste momento, ele preferia que fosse verde. Preferia que tudo fosse verde e iluminasse de esperança a sua vida. Ou melhor, a vida de quem amava. A cabeça não parava. Mesmo com os olhos fechados. Percorria centenas, senão milhares de quilómetros, a pensar como era, como fora, e como seria. Nunca pensava no como é agora, neste instante. Isso é apenas para sentir-se. Não é para pensar-se. Nós usamos geralmente o pensamento fora do controlo emocional. Por isso anda, corre, voa por todo o lado em busca de um algo que não se encontra. Faz quilómetros sem conta, para trás, para a frente. Faz quilómetros de estradas, de cidade em cidade, de terra em terra, e faz quilómetros de tempo, para o passado e para o futuro. 
Apesar da quietude do espaço, da ausência de ruídos ao redor do meu sofá, eu não páro. Não páro, porque hoje estou muito longe de mim. Estou onde está alguém que amo, alguém a quem tenho uma ligação especial. É uma ligação de sangue e de fé. Meu pai. Meu pai que hoje dá entrada numa nova vida e não consigo deixar de percorrer quilómetros em busca do seu bem-estar. Em busca de uma imagem que me faça pensar que ele está “bem, mas bem”, expressão que costuma usar, e que todo o seu estado actual de saúde não é mais do que uma ficção de Deus.

terça-feira, agosto 07, 2018

Chorar à beira-mar

Experimentem chorar à beira-mar. 
Em primeiro lugar, façam um passeio pela areia, deixando que os pés se molhem com a espuma que as ondas formam. Olhem mais para o mar que para a areia. Olhem para o longe que se esconde atrás do mar. Porém, de vez em quando, olhem para trás, e reparem como o rasto dos vossos pés desaparece depressa. O caminho andado não mais volta atrás. 
Depois disso, sentem-se na areia húmida. E chorem à vontade. Vão ver que as lágrimas se juntarão ao mar sem ninguém se aperceber. Por algum motivo dizem que as lágrimas são salgadas. Talvez seja porque todas vão dar ao mar. Talvez até sejam elas o que salga o mar. 
Podem ainda escrever as vossas mágoas na areia fina. Verão que as ondas levam cada uma delas para o alto mar. É só esperar uma onda ou duas, e lá vão. Afinal as ondas vêm e vão, trazem e levam. Levam tudo o que escrevermos à beira-mar. 
Convido-vos a fazer esta experiência ou exercício de chorar à beira-mar. Talvez assim percebam como as vossas lágrimas nunca estão sozinhas. Nunca serão lágrimas sozinhas. Serão um pequenino impulso do mar. Uma pequenina gota de um infinito mar. 
Foi o que fiz hoje para falar com Deus da dor que carrego por ser filho e amar.