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sexta-feira, agosto 15, 2025

Quem te desceu da cruz

Não fui eu quem te desceu da cruz. Não fui eu quem deixou o teu corpo cair e repousar sobre o meu, buscando amparo. O teu corpo estava, de facto, desamparado e, por pouco, quase não tinhas onde ser sepultado. Fizeste-me lembrar tanta gente que morre sem um funeral, sem uma sepultura e sem nome. Surgiu então, do meio da multidão, um homem de Arimateia, um homem rico, um ilustre do sinédrio, que tinha por ali perto, situado num horto, um túmulo que ainda não havia sido usado, e pediu para abrigar teu corpo frio e inerte naquele lugar. Ainda hoje penso nas pessoas que se cruzaram contigo no caminho e aprenderam a fazer o bem, sem esperar nada em troca. Muitos deles eram e são, como este homem, gente ilustre e rica, mas gente com um pedaço do coração de Deus. Na verdade, não importa o que se tem, mas o que se faz com o que se tem. São homens e mulheres onde entraste um dia e nunca mais morreste neles.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

sábado, dezembro 21, 2024

O chefe do Pai Natal

Na missa de Natal da catequese, durante a homilia, no meio do diálogo com as crianças, ao perguntar se já tinham o presépio montado em casa, uma das crianças lembrou que também já tinha colocado o Pai Natal na chaminé. A assembleia riu-se e eu também. Foi, aliás, uma boa ocasião para lhes lembrar como “nasceu” o Pai Natal. Estávamos no século III, por volta do ano 260, quando nasceu, na Turquia, Nicolau, um bom homem que se tornou bispo de Myra, hoje a cidade de Demre, também no mesmo país, onde acabou por morrer a 6 de dezembro de 343, dia em que o santo é assinalado no calendário cristão. Como passava grande parte da sua vida a ajudar os outros, em particular as crianças pobres, não passou despercebido, ao ponto da sua figura se ligar às tradições de Natal nos países nórdicos, sobretudo, na Holanda, onde se começou a festejar o Sinterklaas, mais tarde Santa Claus no Novo Continente, a América, para onde foi levado pelos holandeses. Embora mantivesse alguma ligação a S. Nicolau, o Sinterklaas apresentava-se com barbas brancas, mais de roupas verdes que encarnadas, com um livro na mão onde tinha registado o nome das crianças que receberiam um presente. Já nos Estados Unidos e no século XIX, as grandes lojas passaram a comercializar a figura de Santa Claus, até que nos anos 30 do século XX, surgiu o pai Natal da Coca-Cola. O publicitário Haddon Sundblom inspirou-se no poema “Uma visita de São Nicolau”, de Clement Moore, para criar a figura do homem de barbas brancas, vestido de encarnado, com a gargalhada singular ho-ho-ho, de saco às costas para distribuir presentes pelas crianças de todo o mundo, voando num trenó puxado a renas. Já faz parte do imaginário do Natal e, desde que não ofusque a verdade e essência do Natal, creio que não vem mal ao mundo. Comentava, mais ou menos, estas coisas, quando uma das crianças, convicta e corajosa, levanta o braço e diz: Senhor padre, Jesus é o chefe do Pai Natal. Seguiu-se uma risada geral e as restantes crianças concordaram com ela. Ao menos isso. Que se perceba que o Pai Natal só existe porque o Menino Deus encarnou e nasceu para morar em nós e fazer do mundo um lugar mais feliz.


Aproveito para vos desejar um Santo Natal e um Feliz Ano Novo: Que o nosso coração tenha a porta aberta para Ele fazer aí sua morada! 

sexta-feira, abril 07, 2023

aquela agonia

Veio-me ao pensamento aquele momento da tua agonia. Não o sei descrever nem sei imaginar. Sabias o que te ia suceder, mas não sabias das forças para tal. É tão estranho ver Deus sem saber das forças, tal como nós. E depois os teus amigos. Onde estavam? Porque dormiam? Porque nada faziam para te aliviar o peso do sofrimento? Os evangelhos dizem que eles te seguiam para todo o lado. Andáveis sempre juntos. Aprendiam a vida contigo. Pousavam e repousavam em ti, nos teus conselhos, nos teus milagres, na tua segurança. Mas não estavam acordados naquela hora. Soube-se depois que, mais tarde, se esconderam com vergonha e com medo, quando tudo aconteceu, ultrapassando o seu entendimento. Ficaste sozinho, como nós ficamos tantas vezes metidos para dentro dos nossos sofrimentos, sozinhos, mesmo no meio de multidões de pessoas que ainda há pouco nos aplaudiam de pé. Veio-me ao pensamento aquele momento em que pediste ao Pai que, se pudesse, afastasse de ti aquele cálice, aquela cruz, aquele sangue, aquele peso insuportável de não saber se terias forças. A tua encarnação foi autêntica. E perceber que não tinhas a certeza das forças, dá-me muita força.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Via Sacra de um simples discípulo"

quinta-feira, novembro 10, 2022

A encarnação de Jesus hoje

Estávamos numa amena discussão sobre a realidade das paróquias e dos padres que as presidem. As vozes que mais se faziam ouvir eram as vozes dos inconformados, como eu, que pensam as paróquias e a evangelização e ansiosamente querem dar passos na direcção missionária da Igreja. O ambiente da sala era composto por pessoas habituadas a reflectir, maioritariamente sacerdotes. Por isso se notava algum desalento no tom das vozes. E às tantas, empolgado e a esbracejar, um dos presentes clamou por uma nova Igreja, dizendo que era necessário que Cristo voltasse à terra, que encarnasse de novo para renovar tudo. Em resposta, um dos padres mais velhos, num tom de voz próximo do murmurado, por dentro da máscara que ainda se usava na altura, interveio para dizer que não era preciso, pois Ele estava dentro de nós. Não precisávamos que Ele encarnasse de novo no mundo, mas que nós o deixássemos encarnar em nós. E calou-me. Calou-nos. Com tudo o que esse silêncio significa. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Que pode Deus fazer através de mim?"

quinta-feira, agosto 04, 2022

Um Deus abaixado

Quando penso na encarnação de Deus, não me contento com a alegria do seu nascimento entre nós. Não me contento em apreciar como assumiu a nossa humanidade em todos os seus aspectos, inclusive o sofrimento, dor e morte. Estou convencido que o propósito de Deus na encarnação não era mostrar-nos o seu poder omnipotente e omnipresente. Um deus que tornara capaz assumir uma humanidade ou um deus capaz de se fazer presente até na humanidade. O seu propósito era pôr-se a caminho connosco. Quando imagino um Deus que morre de braços abertos numa cruz, ladeado por dois criminosos, só posso pensar que Deus se abaixou aos homens todos, a começar pelos mais indigentes, pelos menos apropriados, pelos menos contados, pelos que um poderoso deus não poderia igualar-se. O nosso deus é um Deus abaixado até aos abaixados dos abaixados. Nisso está o seu maior poder.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A justiça de Deus"

sexta-feira, dezembro 24, 2021

Natal da Esperança

O nascimento de Jesus, já lá vão mais de dois mil anos, não ocorreu em circunstâncias muito cómodas e favoráveis. Dizem as Sagradas Escrituras que nasceu num estábulo porque não havia lugar para ele nas hospedarias. O cheiro nauseabundo do estrume e as palhas da manjedoura serviram o nascimento de Deus entre os homens. As poucas visitas que teve imediatamente a seguir ao nascimento, são de pastores que por ali andavam a trabalhar. Não teve festa nem holofotes. Aliás, não demorou muito para que os seus pais, procurados pelas autoridades policiais do tempo, tivessem de fugir com ele, clandestinos, cruzando fronteiras, para se colocarem a salvo. Se fosse filho do imperador e nascesse nos palácios do reino, no meio das centenas de criados e escravos, não seria uma boa notícia num mundo em que os fracos são vítimas de todos os tipos de abuso! 
Embora na sociedade e época em que vivemos, o Natal possa parecer um conto de fadas alimentado com muitas luzes, canções festivas, manjares suculentos e prendas à mistura, a verdade é que Deus encarnou num ambiente paupérrimo, sem parteiros, desalojado pela sociedade, acompanhado apenas por alguns dos seres mais periféricos, os pastores e os animais. Mas é o Salvador de que precisamos. Nele se instaura a esperança de uma vida com sentido, apesar da debilidade e das adversidades. 
Hoje, mais do que nunca, no meio de tantas crises sociais e de uma crise sanitária sem precedentes, vale a pena recordar como Deus veio ao Mundo para que a nossa esperança fosse a verdadeira Esperança! Voltemos às raízes da nossa fé. Busquemos a Deus onde ele encarnou. Num mundo em desesperança, aí encontraremos a Esperança! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nasceu numa humilde casa"

terça-feira, dezembro 21, 2021

Cancelar o Natal

Este ano não se ouviu falar muito das habituais polémicas pré-natalícias sobre a abolição das palavras, dos cantos e dos símbolos cristãos nas escolas ou em outros lugares públicos. No entanto, pelos vistos, a ideologia que quer abolir com as nossas origens cristãs europeias, anda por aí e não dorme. A União Europeia apresentou em 26 de outubro, através da sua comissão para uma Comunicação Inclusiva, um documento interno de trinta e duas páginas intitulado #UnionOfEquality, no qual recomendava, entre outras diretrizes, alegadamente com o objectivo de promover a “igualdade”, que os funcionários da Comissão Europeia evitassem usar a palavra “Natal” e a substituíssem por “festividades”. 
Depois de ter sido bastante criticada como uma "tentativa de cancelar o Natal", a proposta foi, entretanto, retirada. Mas o ataque à verdade da fé, disfarçado de opção pela inclusão, anda aí. Como se a história de cada um não tivesse um passado e não fosse o resultado de um sem número de dons recebidos, existe hoje um entendimento que é contrário a tudo o que não for imediato e satisfatório. Em nome de minorias que devem, supostamente, ser aceites, existe um grupo de pseudo-intelectuais que defende um entendimento que de inclusivo só tem o nome. Pregam a tolerância, mas apenas para as suas opções e opiniões que acabam sendo, geralmente, intolerantes. 
O Natal e toda a sua envolvência, se não quisermos ser hipócritas, tem um nome e uma história: Jesus Cristo! Não se acredita nisso? Evidentemente que ninguém é obrigado a acreditar. Mas pelo menos que não se cancele a verdade do Natal! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Há gente para quem o Natal é só uma data"

sábado, dezembro 22, 2018

Onde há-de nascer Jesus este ano?

Quando Jesus estava para nascer, Maria e José, como todos sabemos, encontravam-se em Belém, para se recensear. E quando chegou o momento de Maria dar à luz, pelos vistos, não havia lugar para eles nas hospedarias. Deus decidira habitar no meio da humanidade e esta não arranja um lugarzinho para Ele nascer! Não era preciso um hospital xpto ou um hotel de luxo. Tão só precisava de um lugar acolhedor com as mínimas condições para que Maria pudesse dar à luz e oferecer a Luz à humanidade. Mas não. Não havia. Os homens não tinham lugar para Ele. Ora se não havia lugar entre os homens para Deus encarnar e assumir a nossa humanidade, então que sejam os animais, num estábulo, a acolhê-l’O. Se não havia uma lareira para O aquecer, então que se encarreguem os rebanhos e as palhas de O aquecer. 
Foi assim há mais de dois mil anos. Mas hoje as diferenças não são muitas. Também hoje Deus terá dificuldade em nascer de novo. No meio de tanta azáfama, correrias, ruídos, comidas, talheres, prendas e stresses, terá Ele lugar para nascer? Quando andamos tão ocupados com tantas coisas que nos distraem do essencial, não estaremos de novo a fazer com que Ele procure outro lugar para nascer? 
Ele quer nascer em cada um de nós e hospedar-se no nosso lar. Ele quer habitar no lugar mais especial que temos, o nosso coração. O que nos vale é que Ele não desiste de nós, não desiste de ser a nossa Luz, nem desiste de nos habitar. Assim encontre um lugar, mesmo que seja mais pobre e humilde, para continuar a nascer!

Que Jesus nasça em nossos corações neste Natal

terça-feira, outubro 30, 2018

Desenhar a humanidade de Jesus

A catequista estava num encontro de catequese quando, no momento de realizar as actividades manuais, a pequenita Carolina a abordou explicando o que ia desenhar. Olha, catequista, eu vou desenhar a humanidade de Jesus. A catequista ficou admirada, pois não era comum uma criança ter um desejo deste género, mas aprovou o seu desejo e ficou expectante com os resultados do ansiado desenho. Não tardou muito para que a Carolina lhe mostrasse uma folha, ainda que pouco colorida, com um Jesus ligeiramente diferente. Olha, catequista, levei Jesus ao cabeleireiro, para aparar a barba e cortar um bocadinho o cabelo. Gostas? Achas que ficou bem? A catequista escondeu o sorriso e, mais uma vez, aprovou a ideia. Sim, Carolina, ficou muito bem. Foi uma boa ideia levares Jesus ao cabeleireiro. Ele ficou muito bonito, contente e agradece-te de coração. No teu próprio coração. Só falta dares uma pinturinha, uma cor aqui e outra acolá, para Jesus ficar ainda mais bonito. Ela assim fez e ficou a espirrar felicidade! Para quem não sabe, é assim que se pinta a humanidade de Jesus.