sábado, dezembro 07, 2019

Uma Maria qualquer [poema 238]

Eu vi uma mulher com vestido sem cor
Percorria os corredores da procissão
De mil véus para tapar rostos desfeitos
Rasgados, esquecidos, amortalhados

Vi uma mulher que era como um conto de fadas
Uma história de encantar, porque me encantava
Por entre os corredores das procissões vazias

Vi uma mulher calçada com mãos agarradas,
a adormecer no caminho do céu

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Comungar por comungar

Rodeada dos seus netinhos, era uma velhinha muito sorridente. Contava muitas histórias dos tempos da sua meninice e era um gosto escutá-la. Contudo, há dias encontrei-a a chorar compulsivamente, embora as lágrimas fossem pequeninas e o rosto não desenhasse de forma clara o seu caminho. Um dos netinhos ia fazer a Primeira Comunhão, e convidara a avó. Ia fazer uma grande festa. A cerimónia era às onze horas, mas antes disso os convidados tinham um pequeno repasto em casa. Por isso a avó chorava. Chorava ao recordar a sua primeira comunhão. Nesse tempo era obrigatório estar vinte e quatro horas sem comer para poder comungar. Por vezes, algumas crianças não aguentavam e desmaiavam. Ela não aguentara, e umas horas antes da Primeira Comunhão, dera um salto á cozinha e, às escondidas, assaltara o cozido meio à portuguesa que a mãe dela fizera para depois da festa. Chorava com remorso. Nunca confessara esse pecado. Tinha vergonha de não ter sido tão forte como Deus merecia. Não O ter respeitado como devia. E agora, ao ouvir o convite do netinho, o passado voltara a ela. Na verdade, ao longo da sua longa vida, tinha entendido que, afinal, não se desrespeitava Deus matando a fome. No entanto, dava conta que agora já nada disso era importante e chorava. Ai, senhor padre, há tanta gente que não guarda nenhum jejum antes de comungar. Há tanta gente que vai comungar sem estar confessada. Há tanta gente que vai comungar em pecado. Há tanta gente que vai comungar sem saber o que vai comungar. Sem perceber que é Deus que entra em nós para entrar em comunhão connosco. A avozinha estava triste porque hoje a comunhão já não era bem comunhão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os meninos da Primeira Comunhão"

domingo, dezembro 01, 2019

O padre em quem Deus acreditava

É um padre dos antigos. Não é daqueles antigos que permanecem no tempo como peças de um museu de antiguidades. É um padre vivido. Com uma vida de sacerdócio de dezenas de anos a correr com gosto. Claro que não é um padre isento de problemas. Creio que também não é isento de dúvidas. Foi assim que se abeirou de mim. Desabafou com gosto e entusiasmo, ainda que cheirasse a receio. Isto é, sorria e, ao mesmo tempo, virava os olhos para o lado. A verdade é que também há uma distância no tempo que nos une. Ele tem mais uns vinte e cinco anos que eu. 
A conversa surgiu com uma certa naturalidade, é certo. Como dois colegas unidos pelas mesmas circunstâncias de vida. Por muitas correrias e muitas chatices. Sabes, rapaz. Foi assim que me chamou para dizer o que ia dizer. Talvez para dar maior autoridade ao que ia referir a seguir. Sabes, rapaz, Deus acredita em mim. Repetia num outro tom de voz mais próximo do sussurro e do meu ouvido. Deus acredita em mim. E isso é o que me importa e o que me vale. 
Olhei-o a tentar entrar mais para dentro das palavras que acabara de escutar. Olhei-o e fiquei com os olhos parados nele. Ou nas palavras. Queria escutá-las de novo. Bebe-las até à última gota de sentido. Até secarem e atravessarem o nosso olhar, passando dele para mim. Tal como a segurança de vida e vocação deste meu colega. Sentir que Deus acredita em nós.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Afinal isto é Dele e não meu"

Nasce neste Advento de 2019 esta pequena rúbrica a que chamarei "A propósito ou a despropósito" e que pretende recordar ou revisitar textos antigos, que irei buscar ao "baú", e que estejam mais ou menos a propósito do texto agora publicado, ou então que, pelo menos, façam sentido, na minha cabeça ou coração, revisitar.

sexta-feira, novembro 29, 2019

Meu tu [poema 237]

Devias morar onde mora
o meu eu

Nessa hora sem ponteiros
Nesse mar que não desaparece
Nesse espaço sem medida
Nessa montanha que cresce
Nesse mais íntimo da vida
Que não sou eu senão
Tu
ou Tu e eu

terça-feira, novembro 26, 2019

O padre que mora na catequese

A senhora professora de moral é amiga do senhor prior. São amigos de longa data. De andanças das catequeses e das pastorais juvenis. Até se tratam por tu. E a senhora professora, enquanto preparava o acolhimento na sala do primeiro ano, precisou de falar com o pároco onde está a dar aulas para combinar algo com ele, o tal amigo. Na dita sala já se encontrava um dos pequenitos alunos que, achando estranha a conversa, perguntou à professora. Estás a falar com quem? Ela respondeu com a mesma simplicidade. Com o senhor padre. Insistiu o pequeno. Aquele que dá a missa? Sim, aquele que celebra a missa. Mas, como o pequeno, de vez em quando vai a outras paróquias, continuo o interrogatório. O que mora na catequese? 
Olha o que nos rimos com o petiz. Porque as pessoas moram onde são vistas, certo? Apetece fazer ou desenhar um lol.

domingo, novembro 24, 2019

A sociedade irritada II

Na sociedade em que vivemos está na moda o insulto. Mesmo não sendo anónimo, quase sempre no anonimato. Quase sempre virtual. Quase sempre fora do real. Mas que dói como realidade. Nunca ou quase nunca cara a cara. Os insultos na cara são punhos erguidos. Mas também são saco de boxe. É a sociedade das redes sociais que são pouco sociais. Uma socialização de irritados com a vida. Que para ali vão debitar as amarguras de uma vida atrás da realidade, num écran que fabrica opinadores de serviço. Sociedade virtual. Quer-me parecer que vivemos numa sociedade mal resolvida e constantemente irritada.

quinta-feira, novembro 21, 2019

O morto que não queria nada com Deus

A história passou-se com um senhor que nunca quisera nada com Deus, que nunca fora visto na missa, que dificilmente se abeirava do padre ou da Igreja. Não se dizia ateu, porque não sabia bem o significado dessa palavra. Contudo, dizia, à boca cheia, que não acreditava em Deus nem nessas coisas dos padres.
Um dia, porém, o padre foi informado que o referido senhor se encontrava nas últimas. Foi informado só por acaso, isto é, caso o padre quisesse lá passar. Embora sabendo que não ia adiantar muito. E o meu amigo padre foi. Recorda-se bem que começava a fazer escuro e que, quando chegou a casa, já o corpo do senhor estava coberto por lençóis, e ainda que havia gente a andar de um lado para o outro a fazer preparativos não sei bem de quê. Estava dado como morto. Mas o padre não resistiu em se abeirar dele e levantar o lençol para lhe ver o rosto. E quando o fez, deu-lhe a impressão de que teria havido um ínfimo pestanejar. Por isso, e sabendo que o ouvido era das últimas coisas que se perdia, começou a falar-lhe do perdão de Deus, da absolvição, da Unção dos Enfermos. O corpo, de facto, ainda não estava frio quando este meu amigo o ungiu com o óleo dos enfermos. Nisto, contou, aconteceu o inusitado. O homem pegou-lhe na mão, e disse, em bom som, Obrigado. E depois suspirou e faleceu.
E contava-me o colega que, para ele, tinha sido uma evidência de que a salvação não exclui ninguém.

terça-feira, novembro 19, 2019

luzes sem luz [poema 236]

Sinto, cada dia mais, a necessidade de apagar as luzes
Ou fechar os olhos dentro delas, apoucar-me
Vestir os mais pequenos tamanhos de roupa
Apanhada no estendal que houver mais escondido
No meio da selva que os dias abrem à luz

No meio das milhares de luzes
Meio acesas, por fora,
Meio apagadas, por dentro.
Sinto, cada dia mais, a necessidade de não ser
Senão um pontinho de luz
a crescer

domingo, novembro 17, 2019

Vinha-se confessar ou parecido

Vinha, despachada, enquanto me preparava para confessar, a pedido de um colega, numa paróquia vizinha. Era uma jovem risonha, sem dúvida. Vinha-se confessar, mas não sabia o que estava a fazer e, segundo me disse, não se recordava de se ter confessado nunca. Mas ria-se. E ria-se. Não sei se de incómodo, se de azia, se de nervosismo, se de graça. A graça que tinha tudo aquilo. Porque, tenho a certeza, se lhe falasse da graça de Deus, ela ia continuar a rir. Não sabe esse termo. Usa-o só por piada. E conhece uma senhora velhota que tem esse nome ou parecido. Não sabia, como era de esperar, o que era um exame de consciência ou um acto de contrição. Não sabia o que era sequer o pecado. Ela não tinha. Foi o que disse. Nem sabia bem o que era isso. Foi o que disse. Mas nunca ouviste falar de pecados? Perguntei. Que eu me lembre, não. Respondeu. Não desisti dela. Não desisti da confissão. Fizémos o que foi possível. Embora desconfiado, creio que a graça sacramental ou a graça de Deus é maior que todas estas coisas. Mas quando lhe perguntei porque estava ali, respondeu que estava ali, sem saber muito bem porquê, mas tinham-lhe dito que, para se crismar, tinha de se confessar.

sexta-feira, novembro 15, 2019

meu peso de amor [poema 235]

O peso do teu amor é uma cruz
Toma-se-lhe o tamanho pela dor
Cresce como uma nascente que não seca
No coração

Não tem lábios o teu amor
Tem paladar, tem muita dor
No coração

O teu amor tem o peso que é uma cruz
inteira, um coração

quarta-feira, novembro 13, 2019

A sociedade irritada I

Na sociedade em que vivemos o que conta são as opiniões. Cada um se vale da sua opinião. Cada um tem a sua opinião. E é um dos direitos mais reclamados dos tempos pós-modernos, mesmo que signifique uma ruptura com a dignidade do outro. Mesmo que a nossa opinião implique maltratar o outro, mais que maltratar a opinião do outro. Mesmo que a nossa opinião não seja a verdade. Ela torna-se uma verdade. Não há uma verdade universal. Porque a verdade, hoje, é a nossa opinião. E há opiniões como botões de camisa. Mesmo que a camisa seja da mesma pessoa!

domingo, novembro 10, 2019

O padrinho do noivo

Era o padrinho do noivo. Era a pessoa que se encontrava mais perto do noivo na hora da comunhão que distribuí nas duas espécies, a espécie do pão e a espécie do vinho. Eh lá, não mames tudo, disse, que é como dizer ‘não bebas tudo’. Não me recordo se também disse para deixar para os outros. Talvez tivesse dito. É comum a observação. Mas distraí-me nas palavras. Era o padrinho do noivo. Típico padrinho que é apenas um amigo dos copos. Serve bem como testemunha, é certo. Os padrinhos de casamento são apenas testemunhas do casamento. Assinam como testemunhas. Não têm, portanto, senão que testemunhar que o acto aconteceu. Não precisam requisitos especiais. Mas dizer isso no meio da cerimónia de casamento, em voz audível o suficiente para que alguns se deixassem rir, e enquanto o noivo comunga o Sangue do Senhor, é o mesmo que banalizar toda a cerimónia ou transformá-la num acto de aparência e de adorno de festa. Por mais engraçado que tenha sido. Por mais cool que tenha sido. É transformar a comunhão do Senhor, na espécie do vinho, em mais um copo numa noite de copos. É transformar a Última Ceia numa Tainada à boa maneira do norte.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Um cisma de poder

Há dias ouvi dizer que Francisco, o nosso papa, não temia um cisma. Muitos, sobretudo uma determinada comunicação social, acharam que estava aí um cisma na calha e que o papa já andava preocupado com ele. 
De modo algum um cisma, como divisão que é, pode ser algo bom. Mas também das coisas más, às vezes, é possível retirar coisas boas. Como diz o ditado ‘há males que vêm por bem’. É que, por detrás das disputas teológicas dos cismas que a história conta, sempre se esconderam questões de poder. Creio plausível afirmar que a maior parte das divisões no seio da Igreja se deveram a questões de poder. As questões religiosas eram apenas pretextos. 
Quem sabe se aquele grupo que tem atacado o Papa Francisco e que, embora faça muito ruído e seja poderoso economicamente, é bem mais pequeno do que o que parece, depois destas disputas de poder, não faz com que a Igreja no geral, sobretudo a Igreja Povo de Deus como um todo, valorize ainda mais esta forma de ser Igreja menos autorreferencial e eclesiocêntrica, típicas da neo-cristandade!

quarta-feira, novembro 06, 2019

Amor [poema 234]

O amor não se diz.
Pode apenas dizer-se
Para se saber.
Mas ele não se diz
Não se sabe dizer.

É algo que se vive
Sem se saber
Como dizer

segunda-feira, novembro 04, 2019

Ser santo é caminhar na santidade

A propósito do dia de todos os santos e do halloween, um jovem disse-me que gostava mais do halloween porque, ao menos, divertia-se. Com o dia de todos os santos, nem sabia o que fazia. Aliás, o que era ser santo? Como se torna uma pessoa santa? Dizia-me que as estátuas dos santos nas igrejas eram, para ele, apenas arte sacra. Na verdade, o João, chamemos-lhe assim, não fazia parte do grupo dos que, em vésperas do feriado de Todos os Santos, andara pelas ruas a fazer estragos, vestido de bruxa ou de monstro. Apenas se questionava sobre as coisas. Também tinha pouca fé. Sei lá. Tinha assim uma curiosidade por Deus e pelo sacro. Entendia que a vida deveria ter algo mais por detrás. Mas não sabia de que se tratava. Contudo, havia coisas na Igreja que o afastavam. E uma delas era esta coisa da santidade. Porque não lhe parecia coisa para ele. Era mais para anjos e certinhos. 
O João tem razão. Nós, os que temos alguma responsabilidade na Igreja, apresentamos quase tudo de uma forma muito dogmática. Uma forma que não é fácil de entender nem de levar à vida. Depois, fazemos da santidade algo de extraordinário, fruto de uma condição superior ou um heroísmo. Mesmo sem querer, damos exemplos de santos como se fossem eleitos, sem fragilidades e defeitos. Damos exemplos de vidas de santos como se fossem vidas perfeitas. Assim é impossível perceber que a santidade seja a forma de se ser verdadeiramente cristão. Confundimos e levamos outros a confundir a santidade com a perfeição. Um santo é apenas aquele que procura a felicidade em Deus, que busca o sentido da vida no Bem Maior, que procura configurar-se, tanto quanto possível, a Cristo e ao seu Evangelho. Um santo é um buscador constante de Deus. Um santo é apenas aquele que caminha na santidade.

quinta-feira, outubro 31, 2019

Perante a morte

Faz oitenta e oito anos no próximo mês, se assim Deus o permitir, como me disse. Está acabadota. Não pode comer como a maioria das pessoas. Tudo passado. Tudo papas. Tudo quase líquido Tem um pace-maker. E com ele tem mais umas dezenas de coisas que não sabe bem. Vai indo, cheia de energia, porque assim foi sempre. Vai resolvendo a saúde com essa genica. Mas sabe que não há-de faltar muito tempo para ir para o Pai. E diz-me que está contente. Quer viver, mas também deseja, no seu íntimo mais íntimo, chegar a esse momento. Tem muita curiosidade em saber como será tudo. Disse-mo entusiasmada. Estou a imaginar, padre, que deve ser lindíssimo. Deve ser tão bom!

segunda-feira, outubro 28, 2019

Os ultras

O substantivo ou adjectivo, como lhe quiserem chamar, não é da minha autoria. Chamam-se ultras àquelas pessoas que, por algum motivo e em determinado aspecto, são extremistas ou radicais. Ouso chamar ultras àqueles católicos de uma ala extremamente conservadora e que têm atacado veementemente o Papa Francisco e grande parte das suas opções, posturas, discursos e documentos, indiciando que estão contra a doutrina e contra a Igreja. 
Os ultras são, na sua maioria, gente que gosta de se pensar como uma elite. Cardeais, ou parecidos, que adoram longas caudas e longas vénias, vestes bordadas e de marca, autênticos príncipes e princesas da Igreja instituição. Padres e quase padres, ou leigos que parecem mais que padres, e citam de cor o catecismo, Tomás de Aquino, documentos e papas de séculos passados. Os argumentos são quase sempre citações ou passagens da história caducada. Também citam a Bíblia, como arma de arremesso, porque a Bíblia diz assim e assado. Porém, apenas utilizam passagens e versículos que justificam, literalmente, as suas investidas. Parece gente formada. Mas é mais enformada que formada. Mais manipulada que formada. Aliás, utiliza muito esse estratagema da manipulação. E segue líderes interesseiros que não estão dispostos a perder o seu status quo. Gente que se acha dona do Espírito Santo e sabe a vontade de Deus, em primeira mão. 
Arrogam-se o direito de atacar quem quer que tenha opinião diferente da sua ou que ponha em causa a pretensa doutrina ou as normas morais. Nem que seja o Sumo Pontífice. Ou seja, o responsável máximo da mesma Igreja que tanto defendem. São integristas, donos da verdade, e veem inimigos em tudo e em todos. Porque todos os outros são impuros. Não fazem parte do grupo dos puros. Vade retro. 
São católicos que estagnaram numa fase da história da Igreja que já lá vai, mas que querem ressuscitar. Na esperança de que haja uma nova ressurreição. Não a de Jesus. Mas a da Igreja que desfaleceu. Gente que não quer ver os sinais dos tempos e se sente ofendida que alguém o faça. Gente que se acha a mais católica do mundo e que faz juras de fidelidade à mãe Igreja. Na sua boca, fica-se, muitas vezes com a sensação de que é Deus que serve a Igreja e não a Igreja a Deus. 
Gente que me faz lembrar os fariseus hipócritas do tempo de Jesus que viviam para cumprir coisas, rituais, preceitos, sem que isso interferisse realmente no mais íntimo das suas vidas, o coração. Conjunto de gentes que gostam de se chamar comunidades, embora sejam mais guetos fechados sobre si mesmos, que vivem mais para manter as crenças dogmáticas do que a simplicidade da fé e do amor salvador e misericordioso de Deus. Gente que é capaz de adorar a Deus, mas não tenho a certeza de que O amem.

sexta-feira, outubro 25, 2019

Ar [poema 233]

Respiro duas vezes para te levar comigo
Inspiro e aguento quanto posso o ar,
Tenho-te dentro de mim a desabrochar

Respiro mais uma vez
Sei que és tu sem te ver
Sem te apalpar, mas a saber
Que és quem respiro

Pela melodia que se compõe
Pelo deleite que se aninha
Em mim ao respirar
Aquilo que é teu, és tu
O meu ar

quarta-feira, outubro 23, 2019

Baptizado diferente

Senhor padre tal, que era eu, olhe, nós queríamos baptizar a nossa filha, mas queríamos algo diferente! Sabe, assim, usarmos uma música que costumamos colocar à Matilde, à noite, para a embalar. Tínhamos pensado em balões. Azul-turquesa clarinho, porque ela gosta muito dessa cor e nós também. Pelo menos ao fundo da Igreja, para se notar que é uma festa. Que é a festa da nossa menina. Para não ser só água, tínhamos pensado em colocar umas flores por cima daquele recipiente, que não nos recordamos como se chama. Pia baptismal, interrompo. Claro que queremos fazer uma coisa mais nossa. Mais familiar. Pouca gente. Apenas familiares e amigos. Quando lhes perguntei quantos seriam esses poucos familiares e amigos, responderam que não chegariam aos cento e cinquenta. Portanto, pouca gente, como é óbvio. Até tínhamos equacionado a hipótese de ser na igreja tal, que é muito bonita. Não que esta não seja. Mas, está a ver, era mais familiar. Só que acho que não cabemos lá. Porque são poucos, obviamente, penso eu. Ahhh, já nos íamos esquecendo. Estávamos a pensar em fazer a leitura de uns poemas em vez dos textos habituais, misturada com música clássica. Conhecemos um grupo que não é muito caro e que era capaz de ficar bem. Que acha, padre? Claro que não achei nada. Achei muita coisa e nada ao mesmo tempo. No meio de tudo aquilo, não encontrei nada. Nem o baptismo encontrei.

domingo, outubro 20, 2019

Quando nos toca

Toca longe. Toca ao lado. Toca perto. Cada vez mais perto. Um nódulo na mama. Um cancro no intestino. Uma dor estranha. Uma nódoa que não cura. Chama-se melanoma. Ou linfoma. Ou carcinoma. Nomes que há uns anos ninguém conhecia. Nomes que agora se ouvem, mesmo desconhecendo o seu real significado. É apenas mais um caso nos muitos que, diariamente, tocam perto, cada vez mais ao lado. E fica-se assim. Impotente. Há uma coisa chamada fé, que também há dificuldade em definir, que ajuda a aceitar. Há um Deus por detrás disto tudo. Respiro e deixo-me embalar pela respiração. Estou vivo. E há algo com vida que nos vai tocando!

quinta-feira, outubro 17, 2019

O poema [poema 232]

O poema termina aqui, onde começou
Passo-o a limpo para que o possas reconhecer
Para que, lendo-o, possas entender
Que o poema é e já passou
Que tudo começa onde alguém terminou
E mesmo sem o ser
Acabou

segunda-feira, outubro 14, 2019

Missas dominicais ou mais ou menos isso

Regressei, há pouco, de duas missas dominicais, celebradas com o intervalo de cerca de vinte minutos e quarenta quilómetros. Participaram nelas um total de vinte e oito pessoas. Contei-as, porque é fácil contar estes números. Para ser mais concreto, treze numa e quinze noutra. Duas paróquias distantes uma da outra, mas unidas em similar realidade. Numa, o coro é uma senhora que repete sempre os mesmos cânticos e o leitor não varia de semana para semana. Na outra, variam os leitores, embora pouco, mas não varia a idade dos presentes, muito acima dos setenta anos. Por mais que insista, as pessoas ocupam harmonicamente a igreja, um aqui, outro ali e outro lá ao fundo. Dispersos, mas para que mais bancos da igreja sejam ocupados, digo eu. Sempre se pode dizer que havia gente em dez bancos. Terminei a manhã com a missa na minha paróquia maior. Valeu para sentir que valeu. Eu sei que aquela gente das paróquias mais pequenas não pode nem deve ser abandonada. Sei que cada eucaristia vale por si mesma e que possui a dignidade que Cristo lhe conferiu. Sei que as assembleias cristãs não deixam de ser assembleias por terem pouca gente. Aliás, gente que merece escutar a Palavra de Deus e alimentar a fé. Só não sei como manter isto, no meio de outras tantas paróquias!

quinta-feira, outubro 10, 2019

Falemos de missão ou outras coisas

Missão, Missão Ad Gentes, Evangelização, Nova Evangelização. Isto anda como andam as modas. Agora fala-se muito de Missão, porque é o termo que Francisco gosta de usar por excelência. Há uns quarenta anos, a expressão Evangelização também constituía alguma novidade. Não passou muito tempo para que se começasse a falar de Nova Evangelização, ainda que nunca se tenha percebido completamente de que se tratava. Hoje fala-se no conceito amplo da Missão, mas cada vez que se usa o termo, lá se vai o pensamento para as terras de missão, como eram conhecidas as missões ad gentes. Ainda hoje, quando nas nossas comunidades, falamos de missionários, o pensamento foge para aqueles homens que viajaram para esses países onde Cristo, supostamente, não era conhecido. Como se nós, pela nossa identidade, não tivéssemos o dever de ser missionário. Já para não falar no descuido fácil do proselitismo ou colonialismo de algumas dessas missões. Mas passemos à frente. Há quem, de modo mais pró, utilize o termo Missão Inter-gentes. Uma amálgama de tudo para todos e entre todos. Interessante. Assim como a identificação que se faz de Missão Ad Intra e Ad Extra, ou seja, a missão para dentro da Igreja e a missão para fora. Ambas necessárias. Gosto particularmente do termo Evangelizar como ‘dar a boa notícia’, a boa nova da salvação. Mas gosto de falar em Missão porque penso neste termo como vocação, como sentido da vida, como identidade. Porém, o que importa realmente não são os termos que usamos, mas que toda a nossa acção de Igreja, e como Igreja, seja permanentemente o anúncio e o testemunho da Boa Nova da Salvação. Todas as teologias, formações, catequeses, liturgias, para-liturgias, acções sócio-caritativas, planos e programas pastorais, encontros e reuniões pastorais, deveriam ser acções evangelizadoras.

domingo, outubro 06, 2019

brado [poema 231]

Esta noite preciso escrever no teu corpo,
Tatuá-lo, mais uma vez, com a palavra,
Esboçar em ti o que vejo nos espelhos,
Marcar-te com o sinal da minha ânsia,
Sussurrar-te ao coração com este peito
Rasgado por não mais saber onde é a dor,
Desfazer-me num grito a dizer quem sou:

Uma cruz que carrega o teu amor.

quinta-feira, outubro 03, 2019

esta coisa da ressurreição da carne está mal explicada, não tá?

Já estávamos levantados e a despedir-nos. Não tem propriamente fé. Tem qualquer coisa de inquietação que gostava de poder chamar fé. Mas não tem. E não é só por não ir à missa. É porque, mesmo não questionando a existência de Deus, que pouco lhe interessa, acha que estas coisas não são necessárias. Ele tenta que a sua vida tenha sentido. Lê muito. Lê muitas coisas de Deus e da filosofia destas coisas. Gosta de saber. Penso que gostaria de saber de Deus. Por isso procura-me para conversarmos. E faz perguntas. Não sei se para me experimentar, se para aprender, se para se encontrar. Tal como esta que fez da última vez que nos reunimos para uma refeição. Ó padre, esta coisa da ressurreição da carne está mal explicada, não tá? 
Lembrei imediatamente uns textos que li em tempos e que realçavam que a ressurreição de Jesus não tinha sido propriamente corpórea. Não, pelo menos, como o corpo que Jesus possuía enquanto Deus encarnado. Por isso é que os seus apóstolos não o reconheciam. Era uma outra forma de corpo. Difícil de explicar. Muito difícil. Mas também não era um fantasma. Não, não era. Era só uma forma visível de se ser que não se conseguia definir. Contei-lhe isto. E depois disse-lhe que a Igreja, na sua doutrina, nos quer ajudar a entender que havemos de ressuscitar como um todo. Como o ser que somos. Como a pessoa que somos. E que nós somos, segundo a Igreja, tal como aprendi na teologia, um conjunto de corpo e alma. Aquilo que nos faz ser não é só o corpo comandado pelo cérebro. Há algo, a que chamamos alma, que nos faz ir mais longe, para além das nossas capacidades. É a diferença com os animais irracionais. E o que ressuscita é esse todo. Não é só a alma. Na ressurreição existiremos de modo diferente daqui da terra. Ressuscitará o corpo? Ressuscita o que somos e nos constitui. Mas não será como aqui. Até porque aqui somos corruptíveis e na vida eterna seremos incorruptíveis. É por aí que deve procurar, senhor José. Sem todas as certezas. Porque certo, certo, só saberemos quando a nossa vida se atravessar para lá. Eu também não tenho certezas. Tenho entendimentos.

domingo, setembro 29, 2019

Societas perfecta [poema 230]

No teu quarto antigo vejo tudo
Vejo relíquias vestidas de mobílias restauradas
Os lampadários apagados pelo uso
As paredes de granito gasto e traça
Uma porta de madeira esquecida
Está escuro, demasiado escuro

Vejo as janelas
Mas não vejo por elas

quinta-feira, setembro 26, 2019

Cumprir a fé

Há gente que, na Igreja, vive uma relação com Deus como empregado. Vivem, como antigamente os escribas e fariseus, para cumprir coisas, numa relação interesseira do deve e haver. Nunca se assumem como filhos. Nunca agem por amor, mas só por obrigação. Nunca se sentem amados, mas premiados e ou castigados. É por isso que têm dificuldade em amar e perceber Deus nas suas vidas. Porque Deus é amor. E o amor não se pode merecer. Ou é gratuito ou não existe.

sábado, setembro 21, 2019

ave sem nome [poema 229]

As aves não têm albergue, têm ninhos
Que voam, por entre as asas,
No meio de ervas daninhas
Bebericam das águas salobres
E continuam a construir
Outros ninhos

quarta-feira, setembro 18, 2019

E se Deus fosse um de nós?

E se Deus fosse um de nós? Sim, um daqueles com quem nos cruzamos diária e distraidamente. Um daqueles mendigos, mal vestidos, a pedir a nossa atenção. Uma criança que chora porque precisa de um colo ou que passa a correr para a escola. Um jovem estudante que anseia ser alguém um dia. Um pai de família que sai de casa cedo e regressa tarde do emprego. Uma mãe que, além do emprego, cuida da casa, da roupa e da comida. Um amigo que convida para um copo e dois dedos de conversa. Uma vizinha que passa todos os dias na porta onde saio e entro, também todos os dias. Uma viúva que baixa a cabeça quando passa por mim, para esconder as lágrimas. Um senhor de idade que parece contorcer-se com as dores da vida. São tantas as oportunidades ou possibilidades de Deus ser um deles, na simplicidade e banalidade do dia-a-dia, que quase me envergonho do modo como esqueço de tratar todos os que comigo se cruzam.

sexta-feira, setembro 13, 2019

um de nós [poema 228]

Entendo-te
Como se estivesse a ver-te por fora e por dentro
Como se os sulcos da vida fossem antepassados,
Pelos meus pés vestidos de lama, endurecidos,
Trilhados pela idade, cansados

Conheço-te
Nas palavras que ficam por dizer
Nos pensamentos que são sentimentos
A querer

Sei-te
Porque me sei
E não sei viver

terça-feira, setembro 10, 2019

Igreja menos clerical

Há uns dias, depois de umas obras numa das minhas paróquias, foi necessário limpar a Igreja, e o povo juntou-se para o fazer. Depois convidaram-me para almoçarmos juntos. Foi bonito. Muito bonito. Mas às tantas, uma das senhoras, que é muito atrevida e tem sempre um olhar desconfiado para com todos, perguntou porque é que eu não participara da limpeza da igreja. Ela até tinha razão. Eu também poderia ter participado. Só me faria bem estar ao lado deste meu povo. Respondi, em tom de brincadeira, que os padres deviam, de facto, ser limpa-igrejas. Que, aliás, eles deviam fazer tudo na comunidade cristã. 
Disse-o em tom de brincadeira. Mas depois o pensamento levou-me a pensar em muitas outras coisas que, nas comunidades cristãs, esperamos que o padre faça. Como se fosse omnipresente. Como se a Igreja fosse o padre. Como se uma comunidade cristã tenha de ser obrigatoriamente clerical. Estava mesmo a recordar-me daqueles colegas que, quando chegam a uma paróquia para celebrar missa, têm de preparar os vasos sagrados para a mesma, acender as velas e tocar o sino para que as pessoas venham. Estava também a imaginar como seria se os padres tivessem de varrer a Igreja, assear e adornar os altares, tratar das flores, lavar as alfaias, ler todas as leituras na Liturgia da Palavra, começar o canto da animação musical das cerimónias, e por aí fora. É óbvio que raramente as coisas acontecem assim. Mas isso não me impede de pensar que ainda há muita acção apostólica, litúrgica e formativa demasiado centrada na figura do padre, como se uma comunidade cristã dependesse totalmente deste. Ainda há comunidades cristãs que não conseguem fazer nada sem o padre, sem a sua presença e consentimento. Ainda há muitas comunidades cristãs centradas no padre, quando o centro da comunidade deve ser o próprio Cristo. Ainda há muitas comunidades cristãs que não são verdadeiras comunidades ou verdadeira Igreja.

quinta-feira, setembro 05, 2019

Cidade [poema 227]

Há uma cidade no futuro, em frente
Que cresce de repente,
aberto o muro

Dentro de nós

Há uma cidade no futuro,
Adornada com milhares de flores
Pintada com imensas cores
Uma habitação desabitada
Em rumores
Calada

Ouço cá dentro a sua voz

Há sempre
Uma cidade em frente

segunda-feira, setembro 02, 2019

lugar [poema 226]

Conheço pessoas que vivem como um lugar,
Vivem no cimo da plateia, a bradar
este é o chão onde vivo para ser alguém
Ou um lugar

Tanta, mas tanta gente sem nome, a gritar

E depois chegas tu, vens sem se notar,
Ouve-se por todo o lado
Aqui não tens lugar

Mas tu vens como casa a habitar
no presépio e no calvário, sem lugar

E em ti encontrei a minha casa, o meu lar,
O verdadeiro lugar

sexta-feira, agosto 30, 2019

Na tua opinião, hoje a sociedade em geral é favorável à Igreja em particular?

Por alturas da Quaresma deste ano, já lá vão cinco meses, colocámos online uma sondagem que perguntava: "Preocupas-te em cumprir ou viver o que é aconselhado na Quaresma?" 
Os resultados das vossas respostas estão neste gráfico.


Hoje postamos nova sondagem, a mesma que em 31 de Julho de 2013 fizémos neste blogue, aqui. 
Os resultados, na época, também estão aqui.
Como a sociedade muda constante e rapidamente, e passados seis anos, achámos interessante efectuar de novo a pergunta: Na tua opinião, hoje a sociedade em geral é favorável à Igreja em particular?
Convido a explicarem as vossas opções aqui nos comentários.

quarta-feira, agosto 28, 2019

aparências [poema 225]

Ó coisa que não tens nome
E pareces a sombra das coisas
Talvez um dia sejas o que aparentas
Ou o que aparentes seja o que tu és
Esse nada que parece tanto,
Esse tanto que afinal é
O tanto que quiseres que aparente
Mais que aparentemente

sexta-feira, agosto 23, 2019

Catequese na piscina

Uma das minhas catequistas tirou uns dias de descanso e decidiu ir para a piscina, como me disse, a torrar ao sol. Curiosamente, encontrou lá todos os seus catequisandos, que ficaram imensamente contentes com a sua companhia e não a largavam. Ela também gosta muito deles. Diziam-lhe que até parecia que a catequese ainda não tinha terminado este ano. E repetiam. Ó catequista, podíamos ter catequese aqui na piscina. E então a catequista lembrou-se de comprar uma bola de praia às cores e, com ela, fazer um jogo de perguntas sobre a catequese. 
Na verdade, um catequista é sempre catequista. Todos os lugares e espaços são bons para promover o encontro com Cristo. Para isso não há férias. Para a verdadeira catequese, não há férias. Fiquei muito satisfeito com o que esta catequista partilhou comigo. Bem haja.

quarta-feira, agosto 14, 2019

O padre retrógrado

Um colega padre que não conheço e que mora distante, porque eu pedira aos pais que desejavam baptizar seu filho que pedissem uns documentos e que fizessem uma preparação específica para esse efeito, mesmo que fosse na paróquia onde residem, afirmou que eu deveria ser um padre retrógrado. Disse-o com displicência, segundo me pareceu, quando os pais fizeram essa alusão. Dissera-o, pelos vistos, para manifestar que hoje já não é preciso nada para baptizar. Soube mais tarde que, para este padre, bastava os pais marcarem a data e a hora. Nada mais era necessário. E na hora preenchiam os registos do baptismo no livro de registos paroquial. 
Ora se, por não ser facilitista, sou retrógado, então prefiro ser retrógrado. 
Assim vamos nesta instituição demasiado ou excessivamente sacramentalizadora, sem mais. Desculpem a quase redundância, que é de propósito. Vou agora pedir perdão a Deus pelos pensamentos impróprios que alimentei na ocasião.

quinta-feira, agosto 08, 2019

A falta que fazem os padres

Ó senhor padre, fazem-nos tanta falta os padres, dizia. Tenho andado a rezar para que haja muitos. E então para a experimentar, perguntei porque motivos é que os padres fazem tanta falta. Para nos celebrarem as missinhas. Não dá mesmo jeito quando temos celebração. E depois vinha fazer as festas todas e as procissões. Era tão bom tê-lo aqui à mão! É esta a falta que fazem os padres! 
E depois dizia há dias um colega mais velho que não se lembra de, nos últimos anos, algum dos seus paroquianos se ter abeirado dele para um conselho espiritual, para um desabafo, para uma dúvida ou questão de fé. Só se abeiravam dele por causa de marcações de coisas.

quinta-feira, agosto 01, 2019

Os padres santos e pecadores

Há padres santos, há. Se calhar são poucos. Há padres que se entregam diariamente à missão, há. Mas talvez não sejam muitos. Há padres que fraquejam, há. Pelos vistos são muitos. Ou todos. Todos fracassam, mesmo os mais entregues ou os mais santos. Porém, o que conta é Cristo. Não são os padres. Ele não escolhe os perfeitos. Escolhe quem quer. E é com esses que conta construir a Igreja santa e pecadora. A Igreja que caminha para a santidade e a Igreja que aceita a sua humanidade frágil. Isto não justifica as falhas dos padres, mas justifica que falhem. Isto não justifica os pecados dos padres, mas justifica que também pequem. Isto não justifica que tudo é possível ou passível, mas que é bem possível que tudo passe. Só Cristo não passa.

sexta-feira, julho 26, 2019

Não ter a certeza como será o caminho

Não sei viver esta vida sem sobressaltos. Não foram estas as palavras exactas que a Sofia utilizou para falar. Foi assim, porém, que as entendi e que as transportei comigo para casa. Também eu desejava viver uma vida sem sobressaltos, e não sei como fazê-lo. Penso que essa é a nossa condição humana. Uma vida que não tivesse sobressaltos seria uma vida conformada. 
Na altura não soube muito bem que dizer à Sofia. Devo ter, pelo menos, assumido que não tinha resposta para dar além daquilo que sentia. Também eu desejava o mesmo que ela. No entanto, imaginava que essas incertezas fazem parte da beleza de caminho. O bilhete foi-nos oferecido. Temos de subir no autocarro. Sabemos que o autocarro nos levará aonde havemos de chegar. E nunca teremos a certeza de como será o caminho.

segunda-feira, julho 22, 2019

amigos [poema 224]

Fui ontem visitar um amigo a casa
Com tudo o que possuía, tudo o que havia,
Notas verdadeiras, desconhecidas e falsas
Muitos talentos, muitas forças,
Muitos trajes, muitos disfarces,
Algum poder, alguma lisura,
Mas tanto tanto, que é muita coisa
que nem lembro
Outro tanto

O amigo estava em casa, que linda casa
Abriu a casa, fechou a casa, não deixou a casa
e lá ficou

Não quis morar entre tanto tanto
que é muita coisa
que nem lembro
Outro tanto

casa em ruínas
ali ficou

quarta-feira, julho 17, 2019

As três vezes de Pedro

Era amiga da falecida. Já haviam passado umas semanas. A amiga falecera com um cancro fulminante. O sofrimento durara apenas um mês. Desde que as dores apareceram até que no hospital a morfina a sossegou de vez, tardou um mês. Toda a gente na terra falava do assunto e da pena. Eu também. E a sua amiga precisava dizer o que sentia. Porque é que a sua amiga, que era, por sinal, muito boa, tivera uma morte tão arrepiante, tão injusta, tão não sei o quê? Então Deus não premeia os bons e castiga os maus? 
Há dias, o evangelho de João recordava-nos as respostas de Pedro a Jesus quando este lhe perguntou se o amava. Três vezes lhe deu uma resposta afirmativa. Tal, como uns dias antes, três vezes o negara. Mas o curioso é que, depois de Jesus lhe fazer a pergunta, vai também dar-lhe sinais do tipo de morte que lhe calharia em sorte. E como nós sabemos, foi a crucificação ao contrário, ou seja, de cabeça para baixo, porque Pedro não se achou digno de morrer tal e qual como o mestre. Recordo esta passagem, porque a sorte final de Pedro não lhe foi dada porque traíra Jesus, porque agira mal, porque o negara, mas porque o amava. Foi na sequência da certeza do seu amor, que Jesus lhe manifestou como ia padecer. Nós é que estamos habituados a catalogar as coisas e, de igual modo, catalogamos as coisas de Deus. Nunca teremos certezas absolutas da acção de Deus. A única coisa que saberemos é que, nas coisas de Deus, o que mais importa é o amor!

segunda-feira, julho 15, 2019

Zakchaios [poema 223]

No meu coração há uma árvore erguida
Cheia de frutas variadas todo o ano
Nela se abrigam as mais diferentes aves
As mais diversas penas

quarta-feira, julho 10, 2019

Quanto mais acredito, menos faço

Um padre amigo e sábio disse-me um dia que quanto mais acreditava, menos fazia. Eu estava ciente e seguro de que devia ser ao contrário. Que quanto mais motivados pela fé, mais entusiastas da acção deveríamos ser. Que tolice a minha. E não era exagero da juventude que possuía nesse tempo. Era a tolice de quem se convence que a sua acção vai salvar tudo o que encontrar pela frente. Como se essa salvação dependesse de nós. Tão tolo. Hoje percebo um pouco melhor a frase daquele meu amigo. Não a levo à letra. Nem conseguiria. Mas tento. Talvez no meu pouco que faço surja o muito de Deus. Talvez menos activo, eu não me confunda com a sociedade, relações e religiosidade consumistas. Sim, porque nós vivemos numa sociedade que consome bens, numa afectividade que consome pessoas e numa igreja que consuma ritos e gestos religiosos. Talvez a nossa melhor acção seja Ser. Ser para amar e ser amado por Deus.

sábado, julho 06, 2019

A resposta

Estava num retiro para sacerdotes, num momento especial, diante do Santíssimo Sacramento exposto. Com base numa passagem do evangelho de João, lá para o final do mesmo, quando Jesus pergunta insistentemente a Pedro se O amava, eu fazia ao Senhor a pergunta com que comecei este retiro. Que queres de mim, Senhor, quando eu próprio não sei bem, muitas vezes, o que quero? Confidencio, com pudor, que esta pergunta tem sido recorrente nos meus últimos tempos, cansados, inquietos, expectantes. Perguntava e tornava a perguntar ao Senhor, sem obter um sinal que me satisfizesse. As luzes não aumentavam nem diminuíam. Não havia sinais na rua. Nem coisas extraordinárias a acontecer. Só havia silêncio, sobretudo no meu coração. 
Nisto, um sacerdote, de idade avançada, dirigiu-se a mim, de entre os vários sacerdotes presentes, perguntando e pedindo se o podia confessar. Levantei-me prontamente e afastámo-nos os dois para um local mais recôndito. Não tem propriamente interesse o conteúdo desta confissão. Mas eu fui, durante a mesma e aos poucos, edificando-me com a virtude daquele homem que entregara a sua vida ao Senhor e que agora, com falta de saúde, em sofrimento, quando as capacidades já não lhe permitem muito, continuava a entregar-se de uma forma que eu não consigo explicar ou definir. Acabada a confissão, levantámo-nos e foi cada um para seu lado. Ele foi para diante do Santíssimo exposto e eu vim a correr para o quarto de modo a esconder as lágrimas no rosto. 
Não sei se foi a resposta do Senhor e ou se foi a resposta que eu esperava. A verdade é que me senti instrumento da misericórdia de Deus. No meio de muitos outros sacerdotes, com certeza mais dignos que eu, este padre escolhera-me a mim e eu fora um pequenino instrumento de Deus. Como disse, não tenho a certeza de que tenha sido a resposta à pergunta que, insistentemente, fazia ao Senhor. Ou até sei. Talvez não saiba como a dizer. Mas sempre posso dizer Obrigado, meu Senhor. Ofereço-te esta lágrima feita de amor.

quarta-feira, julho 03, 2019

Os padres das amazónias

Contaram-me que há uns anos, numa determinada região do nosso país e da nossa Igreja, um determinado bispo foi encontrar na diocese, em que tomou posse, uma série de padres que, segundo o mesmo, prevaricavam. Numa linguagem mais inteligível, eram padres que tinham uma senhora e seus filhos com eles. Pelo que me contaram, havia, inclusive, alguns testemunhos bonitos de padres que moravam com esta sua família, em condições muito humildes, tais como a sacristia. Então o determinado bispo achou por bem acabar com esta forma de vida sacerdotal, embora a maioria destes padres fossem estimados pelas suas gentes. Se assim o desejou, assim o fez. Restaram dezoito padres. E não se sabe ao certo se eram impecáveis ou mais empenhados que os outros. O que se sabe é que hoje é uma diocese abandonada pela fé. 
Não posso garantir que tenha ocorrido tal e qual como me contaram. O que se conta nem sempre é verdade. Ou tal e qual. Mas o sínodo da Amazónia, que vai ocorrer em Outubro próximo e que tem sido badalado na comunicação social, sobretudo religiosa, por causa da abertura que o documento preparatório deste sínodo tem feito em relação à hipotética ordenação de homens casados, nomeadamente indígenas, fez-me pensar que há muitos caminhos no caminho da fé ou do sacerdócio. Aliás, todos somos sacerdotes pelo nosso baptismo. Ou não?

segunda-feira, julho 01, 2019

Talvez [poema 222]

Talvez um dia desapareçam as horas e os ponteiros
Como ceifeiros que abandonaram o céu

Talvez um dia não haja mais noites
E os relentos sejam as paredes dos palácios

Talvez um dia as pessoas voem sem penas
E as criaturas não se distingam entre voos

Talvez um dia as palavras não precisem de voz
E as histórias reais sejam contos de fada
Mas reais

Talvez um dia não haja talvez

quinta-feira, junho 27, 2019

murmúrios [poema 221]

As vozes hoje são só ecos

Ouvem-se os gritos delas sem nexo
Vêem-se dentro delas o que elas não vêm
Não têm nome, vivem sós,
São só elas, microfones sem som
São muitos gritos sem voz
Amplificados em ecos de amanhã
Que vai ser outra vez
hoje

terça-feira, junho 25, 2019

A oração do meu pai

Quando atravesso a porta de entrada do lar onde está meu pai, um frio percorre-me a espinha como se tivesse de atravessar o inverno para o ver. A saudade mistura-se com a ansiedade e o receio de constatar o seu estado de saúde progressivamente mais débil. Quando estou mais que uma semana sem o ver, aperta-se-me a saudade. Quando o tenho de deixar, aperta-se-me o coração. 
Ontem repetiu-se este tipo de episódio. E depois da troca de mimos, como é costume, dirigimo-nos, a passo de caracol, para a capela do lar, onde rezámos, juntos, o que nos apeteceu. Pai-nosso, avé-maria, salvé-rainha, consagração-a-nossa-senhora e por aí fora. 
Numa das pausas desse momento lindo, disse-lhe com simplicidade, Paizinho, tenho sentido tanto a falta da tua oração por mim, que nem imaginas! Ele concordou comigo. Que antigamente rezava muito por mim e agora não. Entre conversas com pouco sentido e conversas com mais sentido, aquela resposta pareceu a mais lúcida do mundo. A sua capacidade mental tem-se alterado. É normal que não se lembre de rezar, coisa que fazia persistentemente. Talvez a sua oração neste momento particular da sua vida seja outra. Mas eu é que sinto falta da certeza e força da sua oração por mim e pela minha vocação. 
Nisto parou um pouco. Não sei se pensativo. Olhou-me e disse. O melhor era rezares tu por mim agora. A frase marcou-me profundamente. Ainda agora lhe sinto a profundidade da marca. Tive de, discretamente, voltar o meu rosto na direcção do sacrário, escondendo a lágrima que percorreu a minha face. Pequenina, mas do tamanho do mar.

quarta-feira, junho 19, 2019

O que se sabe de Deus aos quatro anos

A mãe é uma senhora já entradota, reformada do emprego mas não da vida, com dois filhos já crescidos, um rapaz que se separou da nora há uns tempos, e sofre, o coitado, e uma mãe de um neto maravilhoso, do mais bonito e inteligente que pode haver para uma avó. 
Chamei-a de mãe, sobretudo por causa da filha que ela diz ser especial. Tal como o neto. Mas especial por dentro, sabe padre. E sempre assim foi. Não posso esquecer quando ela tinha quatro anos, repare. Fazia uma pausa, pedia para eu reparar. Ou seja para a olhar em cada palavra que ia dizer e cada sílaba que ia soletrar. Repare, padre, que a minha filha tinha quatro anos. Estávamos na Lagoa de Albufeira, de férias. Chamara-a várias vezes para almoçar e não respondia. Nem se mexia. Fui ter com ela. Olhe, só me parecia que estava fora do tempo. Abstracta. A olhar o mar. Abanei-a com a mão direita por cima do ombro esquerdo. Não me ouviste, rapariga? Já te chamei três ou quatro vezes. 
Ó padre, ela olhou para mim com aqueles olhos lindos, que ainda hoje tem, e respondeu-me. Estava a ver Deus na sua grandeza… Ai padre, ainda hoje conservo nos ouvidos aquelas palavras do tamanho do mar…

domingo, junho 16, 2019

amo-te sem saber como te amo [poema 220]

Amo-te, por entre os dias, na sombra das coisas
No lugar que te vai no encalço, por entre
Os pirilampos verdes à beira da estrada

Desejo-te como te espero
Mesmo quando na escuridão te toco
sem te saber

Entre nós há um atilho de sangue
E um corredor escuro, sem confim
Percorro-te, às cegas e corro por ti

Pronuncio o teu nome no frenesim das palavras
Como um só som que não vive sozinho
Como um eco, muito eco
em mim

Amo-te sem saber como te amo

quarta-feira, junho 12, 2019

Ser leigo na Igreja

Ante a minha admiração já desconfiada, num encontro de gente com responsabilidades na comunidade cristã, os chamados habitualmente de “leigos comprometidos”, à pergunta sobre se sabiam o que era um leigo, as respostas não foram muito consistentes. Sabiam que eram leigos na Igreja e que isso os designava, pois já o tinham ouvido imensas vezes, mas não sabiam o que isso significava na essência. Houve mesmo quem respondesse com aquilo que refere, mais ou menos, o dicionário de língua portuguesa: o leigo é alguém que sabe pouco de um assunto. Não sabiam sequer, e por exemplo, que, na linguagem eclesiástica, o leigo é um não clérigo. Ou seja, faz parte daquela imensa maioria de cristãos que, muitas vezes, ainda permanece passiva na missão que Jesus deixou à sua Igreja como sacramento da salvação. Recordou-me, infelizmente, a postura piramidal da Igreja desde tempos da Idade Média ou desde, particularmente, o concílio Vaticano I. Que pena! 
Pode parecer que estou a entrar em águas pantanosas e que a teologia não é para aqui chamada. De modo algum. Escrevo como penso. E tenho muita pena que a maioria dos cristãos não saiba sequer o que significa a designação que lhe é atribuída por nós, os clérigos. Assim como me repugna, em certa medida, que ainda se pense o leigo no significado negativo, como um não clérigo. Como se o clérigo fosse o lado positivo, e o leigo o lado negativo da Igreja. Não gosto, e ponto final. Mas se podia queixar-me da hierarquia da Igreja, que mantém estas designações, mais me queixo desse número grande de cristãos, inclusive com vivência e prática cristãs - com se costuma dizer – que não tem a mínima noção do que é ser discípulo e missionário de Cristo, dentro de uma Igreja que é, acima de muitas coisas, Povo de Deus. Eu não quero leigos que substituam os padres e se tornem, eles próprios, uns padres em miniatura. Quero leigos com a grandeza e dignidade que lhes é conferida no baptismo e que se assumam plenamente como Igreja corresponsável.

segunda-feira, junho 10, 2019

Pássaro dourado [poema 219]

Morreu em minhas mãos o pássaro dourado
De olhos abertos, regalados, entre meus dedos
Fechados

Morreu como se fugisse
Da pequena gaiola de marfim
Que o apertava contra a parede
Onde voava, de olhos fechados, entre penas,
Dourados

quinta-feira, junho 06, 2019

A vida vestida de branco

Tem seguramente mais de nove décadas de vida. Estava paramentado, com o terço na mão, enquanto esperava o início da Eucaristia. De tudo o que ele era e eu via, o que mais se salientava era o branco. O branco da alva com a estola em cima. O branco dos cabelos. O branco do rosto. Talvez fosse mais pálido que branco. Mas o meu olhar achou que era branco. Branco como o tempo quando está vivo. As suas palavras arrastavam-se. Arrastavam-se como os pés e o tempo. Quando rezávamos em conjunto, ele fazia o eco. A sua voz acabava ecoando no meio das outras. Até o terço que passava era branco. A cabeça pendia para si mesmo. Ou para a oração do terço. Permaneci uns pequenos cinco minutos a olhá-lo. A olhar este padre já reformado e doente. Não foram cinco minutos largos como quando a gente tem pressa de sair, de deixar de estar, de deixar de ouvir. Foram cinco minutos que passaram muito rápidos. Olhei-o com compaixão. Não foi com pena, não senhor. Foi mesmo com a ternura de quem ama. E talvez com o sonho de quem acha que a vida deveria ser sempre branca, mesmo quando tudo se vai tornando escuro. Levantei-me, dirigi-me na sua direcção, abracei-o sem vergonha dos olhares reprovadores ou das murmurações dos colegas que estavam no mesmo local. O abraço demorou mais cinco minutos longos. Quando levantei o olhar, eu ainda estava sentado na mesma cadeira, resignado. Afinal o abraço ficara só na vontade. Não foi a vergonha que me impediu de me levantar e, com verdade, o abraçar. Foi mesmo olhar nele o que me fez olhar a mim. O abraço que lhe queria dar, dei-o a quem estava mais perto. A mim mesmo. Um dia vou vestir a minha vida de branco.

segunda-feira, junho 03, 2019

esta janela [poema 218]

Da minha janela vejo o cemitério da cidade
Os telhados das casas com chaminés
Cruzes e campanários de pedra nas capelas
Ouço cães ao longe e a água da fonte que corre
Também os vejo sem os ver

A minha janela mora longe
Do chão se me debruço nela
De tudo o que vejo por ela

Nela sou os vidros que se revelam
Para além do que ela parece que é,
Casa onde moro quase todos os dias

quarta-feira, maio 29, 2019

Burnout significa literalmente queimar-se

Li há dias que a análise de uma pesquisa realizada em Pádua a 450 padres, dos quais responderam 319, deu conta de várias tipologias relacionadas com a síndrome de burnout. Havia alguns que respondiam indicando que estava tudo bem. Outros para quem tudo estava mal e precisavam de apoio explícito. Havia ainda os insatisfeitos, os cansados, os que conseguem manter a eficiência, mas com sofrimento à mistura, pois vivem o desconforto da situação, os que se defendem por detrás do cumprimento de uma função, como gestores de serviços religiosos. E dizia que os padres em maior risco de burnout eram os que se situavam entre os 25 e os 29 anos, e depois os que estavam acima dos 70. Entre os padres com vinte anos de ministério crescia o número dos que se dedicavam à burocracia, ao burocrático, cada vez mais gestores do religioso. E as causas para a proximidade com o burnout eram o excessivo peso das expectativas, pessoais e dos outros, a desqualificação ou ausência de uma vida espiritual, os encargos demasiado pesados, o medo dos juízos dos outros, o viverem emocionalmente expostos a situações humanas sempre muito duras, quando não extremas, a pouca solidariedade dos padres entre si, a incapacidade de comunicar com os seus pares, e os superiores muito distantes que não sabiam escutar verdadeiramente. Mais não digo, pois não sei o que dizer.

domingo, maio 26, 2019

Morrer no céu [poema 217]

No céu também se morre
A água deixa de ser água para ser fonte
A terra deixa de ser terra para ser húmus
O fogo deixa de ser fogo para ser paixão
O ar deixa de ser ar para ser eternidade
Tudo deixa de ser para se tornar a ser

Não sabemos, aqui nesta casa de pedra,
Amuralhada com flores sem raízes,
O que o céu esconde, por detrás
das nuvens imaginárias nos nossos sonhos.
Mas sabemos que deixamos de ser cada um
para sermos um ou mais que um num só

Afinal,
e sem final,
No céu também se morre.

quinta-feira, maio 23, 2019

Bem-me-quer-mal-me-quer [poema 216]

Enquanto contava as pétalas e as deitava fora
O tempo passava, o sol amainava, tudo desaparecia
Malmequer bemmequer, um dois e três, outra vez
Ali, no meio do tanque do jardim, estátua de pedra
A sonhar com o amor que perdera no meio da guerra.
Contava pétalas como quem desvela padres-nossos
Com os dedos fechados sobre as contas do rosário
avé-maria, avé-maria, rezava, rezava, um dois três,
outra vez

Talvez o bem me queira mais que o mal me quer

sábado, maio 18, 2019

O Miguel e a guerra

O Miguel anda no primeiro ano da catequese. Segundo informações da catequista, tem uma enorme capacidade de fantasiar, contar e recontar o que vê e ouve. É um miúdo muito atento. Tem um coração sensível, capaz de se emocionar com os problemas dos colegas. E um dia, na catequese, veio à baila um apelo relacionado com as crianças pobres de um país em guerra. A catequista ia descrevendo as situações em que estavam essas crianças, e os miúdos, que a escutavam, começaram também a contar coisas que tinham visto na televisão ou ouvido na rádio. Houve até uma miudita que recordou os colegas como, às vezes, se queixavam porque queriam um telemóvel novo e os pais não davam, e estas crianças não tinham nada senão a guerra. A catequista ficou sem palavras. Mas o Miguel é que lhas tirou todas. As palavras e as letras que compõem as palavras. Nem sabia se rir se chorar, se pensar bem se pensar mal. Na verdade, não soube como o interpretar. Depois de todos saírem da sala da catequese, cabisbaixos e pensativos, o Miguel veio ter com a catequista, pôs-se em bicos de pés, levantou os bracitos, colocou-os em cima dos ombros da catequista e, olhando-a nos olhos, disse. Catequista, não tenhas medo, eu quando for grande mato a guerra.

terça-feira, maio 14, 2019

Aos olhos de Deus somos todos iguais

O senhor não diga que é indigno do amor de Deus. Ele até pode ficar triste. Foi assim que a Maria se dirigiu a mim a propósito de umas coisas que dissera sobre o não ser digno de tanto amor de Deus. Deixem-me referir que gosto muito deste nome, Maria, e tenho vontade de o usar muitas vezes, embora não seja o verdadeiro nome desta minha paroquiana amiga. Eu chamo-a de Maria porque nela se realça o lado materno, protector, interessado, atento, próprio das mães. Pelos vistos, tinha ficado um pouco triste por eu dizer essas coisas. Ela mesmo mo referia. Não diga essas coisas, senhor padre. O senhor tem muita sabedoria. Deus tem de gostar muito de si. Eu sou leiga e o senhor é padre. O senhor está acima de mim. Deus ama-o, de certeza, muito mais que a mim. 
E foram as suas últimas frases que me estremeceram por dentro. Não, Maria, eu não estou acima de ninguém. Posso ter mais formação teológica, mas isso não me habilita senão para aprofundar ainda mais Deus. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Deus não me ama mais por eu ser padre. Se Deus me amasse mais por eu ser padre, Ele não amava gratuita, desinteressada e livremente. Seria um elitista. E os elitistas não amam assim. No coração de Deus cada um ocupa, independentemente de quem é ou como é, o lugar mais especial.

sábado, maio 11, 2019

tempus [poema 215]

Ele sentia

Que a vida não voltava
Só ia

Que o presente passava
Era e já não era

Que o futuro esperava
Sentado à espera

De tornar-se passado

terça-feira, maio 07, 2019

cristão, católico, religioso, clérigo, consagrado, leigo, fiel…

Termos como “cristão”, “católico”, “religioso”, “clérigo”, “consagrado”, “leigo”, “fiel” questionam-me. São eles que vêm até mim perguntar da sua existência, e eu careço de resposta para lhes dar. Não os entendo. Ou não entendo completamente o seu porquê e o seu para quê. Designam pessoas no âmbito da fé. Distinguem estados de vida, classes de fé, ou coisa do género. Como distinguem, também distanciam. O termo que entendo melhor na sua definição é “clérigo”. Porque faço parte do grupo. É mais ou menos o sujeito que faz parte da classe eclesiástica. Aquele que alcançou as ordens sacras. O cristão que exerce o sacerdócio. Foi assim que li algures. Mas também o entendo melhor na sua definição que na sua essência. 
Mas não gosto muito destes termos. Ou melhor, da sua utilização, sem mais. Todos eles me parecem palavras que servem a catalogação e gosto pouco da estratificação da fé. Mesmo sabendo que não há nenhum crente igual. Mesmo sabendo que existem funções, dons e carismas diferentes. Faz-me impressão cá dentro e pronto. Católico significa universal ou pessoa que professa o catolicismo. Religioso ou é alguém que tem ou vive intensamente a religião, ou é alguém que se consagrou de forma mais intensa a Deus. Mas acho que os outros também são ou deveriam ser, no mínimo, seres algo religiosos. O consagrado é quele que se consagrou a Deus. Mas não deveríamos todos os que temos fé de nos consagrar a Deus? O fiel é aquele que tem fé e a ela cuida a fidelidade. Digo eu. O leigo é aquele que não tem as ordens sacras, não é padre ou religioso. Mas também designa, ao menos na nossa língua portuguesa, aquele que não tem conhecimento sobre determinado assunto. Que expressa certa ignorância acerca de alguma coisa. Que é desconhecedor. É o termo mais complicado de entender. 
De todos estes termos, o que menor inquietação me causa é o termo “cristão”, porque designa quem segue a Cristo ou ao Cristianismo. Mas os outros parecem-me, de certo modo, o resultado de uma terminologia burocrática e institucional. Tão assim, que a maioria dos cristãos não os entende nem os usa e, quando questionados sobre eles, pouco sabem. 
O que vale é que, diante de Deus, somos quem somos e nada mais. Somos um tu para Deus. Bem personalizado. Pouco categorizado. Amado por quem somos e não pelo que nos designa, mesmo que seja na fé.

domingo, maio 05, 2019

O avental [poema 214]

O avental da minha mãe nasceu noutra geração
Passou da idade, do tempo, de mão em mão
Vezes sem conta foi retalhado e arranjado
Por sua mãe e nossa mãe, a aquela que aí vem

O avental foi alfaiate, foi parteiro, foi faxineiro,
Foi enfermeiro, hospedou-me a mim, fui o romeiro
Trouxe-o, regalo do tempo da minha mãe

quinta-feira, maio 02, 2019

Rezar antes das refeições

Antes de cada refeição é meu costume rezar a pedir a Deus pelos que a proporcionaram e a pedir para que ela retempere as nossas forças. É um hábito que recebi em casa, da mão dos meus pais. Hábito que repito onde quer que esteja, em minha casa, em casa de algum paroquiano, no restaurante. Convido todos, mesmo os que não conheço muito bem ou com quem estou menos à vontade, a acompanhar-me. 
E assim, há dias, na casa de um dos meus paroquianos, numa festa de aniversário de um dos seus filhos mais pequenos, onde estavam mais uns quantos dos seus amiguinhos da mesma idade, formulei o mesmo convite e, antes que me persignasse e desse início à pequena oração, o pequenote que fazia anos disse, um pouco envaidecido, que costumava rezar todos os dias em casa antes de comer. Depois perguntou aos amigos se também rezavam em suas casas antes da comida. Nisto, um dos seus amiguinhos, com a maior das ingenuidades, respondeu que não. Que a sua mãe sabia cozinhar.

terça-feira, abril 30, 2019

Relojoeiro do tempo [poema 213]

Gostava de brincar aos relógios. Coleccionava
horas a rodar sempre para o mesmo lado
O lado que ele não sabia onde começava e terminava
Onde o fim se iniciava, rodava e rodava

Os ponteiros das horas nunca estavam sós. Estavam com o lugar
Onde se perdiam se os buscassse mais cedo ou mais tarde
À noite era mais fácil, porque o medo vem mas adormece
E a rodar continua, como relógio, no sentido dos ponteiros

sábado, abril 27, 2019

Jesus trabalha na farmácia

Depois das férias da Páscoa, uma das nossas catequistas, por sinal religiosa consagrada, regressou aos encontros que, de vez em quando, fazia na creche, com os petizes que tinham entre 4 e 5 anos de idade. Costumava contar-lhe muitas histórias à volta da grande história de Jesus. Como vinha mais que a propósito, começou a falar-lhes sobre os acontecimentos vividos na Páscoa. Sobre a Morte e Ressurreição de Jesus. Alguns deles tinham participado na encenação da via-sacra e, pelo que a catequista percebera, haviam interiorizado grande parte dos momentos encenados. Aproveitou a ocasião para afirmar que Jesus dera a vida, de verdade, porque era muito nosso amigo e que ressuscitara, voltara a viver para nós sermos muito felizes um dia, com Ele, no céu. 
Mas nisto, um dos pequenitos levantou a mão e disse. Olha, Jesus não morreu de verdade. Foi só faz-de-conta, a fingir. A catequista ficou estarrecida. E a criança continuou. Não sei se sabes, mas Jesus é o senhor Fernando e ele está vivo a trabalhar na farmácia. Pois é, reponderam os outros em coro. Sabes, catequista, os maus puseram-lhe uma coisa na cabeça, com picos, bateram-lhe com umas coisas mas não fazia doer, porque outros batiam numa tábua para fazer barulho. Tinha muito sangue, faz de conta, porque era tinta. Ele caiu na rua, mas levantou-se. E quando o pregaram numa cruz, o senhor Fernando disse umas palavras e fez assim. Ao dizer isto, inclinou a cabecita. 
A catequista já não sabia bem o que dizer. Tinha sido, de certo modo, desarmada. Entretanto, pegou nas palavras que acabara de escutar e começou a fazer a destrinça entre Jesus verdadeiro e o senhor Fernando, seu fiel seguidor, que tinha, de facto, encarnado de forma excelente, a figura de Jesus. Dizia-me a catequista que achava que eles haviam percebido a diferença entre Jesus, que deu a vida de verdade, e que ressuscitou, voltou a viver, e o senhor Fernando, que foi só faz de conta, por isso não morreu e continua a trabalhar, na farmácia. Pelo menos ficaram a conhecer melhor como foi que Jesus deu a vida por nós.

quinta-feira, abril 25, 2019

Madalena [poema 212]

Entrou pela porta fechada, em pranto
Ajoelhou diante de mim como um sacrário
Banhou-me os pés, lembrou-me alguém
Ouviam-se vozes por dentro das vozes
O grito vinha de um local que não sei
Abraçava o que sobrava das minhas pernas
Mendigava que não lhe desse nada, de nada
Entrou e saiu, surgiu e partiu, como um fantasma
Nem odor, nem rumor, dela não ficou nada
nada de nada

domingo, abril 21, 2019

Jesus morreu e ressuscitou aqui na minha terra

Foi isto que uma criança disse um dia depois de termos encenado a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Como ela era uma criança pequenina, a mãe deve ter-lhe explicado algumas coisas. E foi assim que ela se acercou de mim e me informou, para o caso de eu não saber, que Jesus tinha morrido e ressuscitado na nossa terra.
Era bom, era. Era bom que Ele morresse e ressuscitasse em cada um de nós, nas nossas terras, nas nossas vidas… 

Aproveito para desejar a todos os meus visitantes e amigos uma Santa Páscoa.
Que Jesus ressuscite nas nossas terras, nas nossas comunidades e nas nossas vidas!

sexta-feira, abril 19, 2019

Iouda Iskariôth [poema 211]

Há um precipício enorme no meu nome
Um fingimento entre o beijo e a emboscada
Um nome que é e não é, nunca sei quem sou
Farsa, perfídia, logro, trapaça ou cilada
De tanto, mas tanto, me transformei em nada.

Vendi meu corpo às pessoas e às árvores
No balanço da vida pendurei quem fui
Poderia ter renascido, todavia me perdi
Entre os pedaços de nomes que possuo
Com um precipício de um tamanho enorme
Sem Ti

terça-feira, abril 16, 2019

Luto [poema 210]

Eu vi o luto por entre a terra
Os juncos ao seu redor a correr como ponteiros
Não era negro. Não era senão dor. Rebento

As carpideiras saltavam de junco em junco
A gosto do tempo. Seduzido como amigo
desconhecido

E apareceste tu, carregado de muita gente
Mundos que o mundo levou com o vento.
As carpideiras passaram, os juncos pararam,
Tudo se silenciou
Num momento

E o luto voou como se tivesse nascido
Para morrer no tempo

sábado, abril 13, 2019

A tradição da procissão de Páscoa

O padre tinha a sua saúde bastante debilitada, A idade avançada também não o auxiliava. Arrastava-se mais que andava. Mas era dia de Páscoa e, como a tradição manda, depois da missa tem de haver procissão. Dizem assim as vozes religiosas que estão habituadas desta maneira. Com as tradições. O padre, no final da missa, que presidiu a um custo notório, fez uma pergunta. Tendo em conta o estado débil em que se encontrava, perguntou a quem o ouvia na assembleia se achavam que devia fazer a procissão ou não. Contou-me quem ficou chocado nesse momento, já lá vão uma série de anos, porque ninguém abriu a boca. Ninguém fora capaz de dizer que, para cuidar da sua saúde, melhor seria não se fazer a procissão. Como ninguém abrira a boca, o padre resignou-se e respondeu por eles. Assim sendo, faz-se a procissão, mesmo que não resista a meio dela. Continuou sem resposta. Fez-se a procissão. O padre, graças a Deus, não caiu. Poucos meses depois o padre faleceu. Não há causa efeito, como é óbvio. Mas há uma Páscoa que não se percebe muito bem se foi Páscoa se foi apenas mais uma tradição.

quarta-feira, abril 10, 2019

A Rosário, apertada pela vida

Só se lhe adivinhavam os olhos, porque brilhavam. De resto, estava tão agasalhada, tão coberta, que nada mais se via. Reparei que trazia um cachecol, um xaile, uma echarpe, umas coisas por cima das outras, a apertar, que o frio aperta. Vinha confessar-se, que o medo também aperta. Senhor prior, queria confessar-me. Não quero morrer em pecado. Quase todas as semanas, ou semana sim semana não, tenho de confessar a Rosário que tem medo de morrer em pecado. Desta vez, e antes de aceder ao seu pedido, quis saber porque fazia aquilo daquela maneira, aflita, apertada pelos andrajos e pela vida. Respondeu de chofre que tinha medo do castigo de Deus. A Rosário deve ser daquelas pessoas que passa o tempo da homilia a rezar e não ouve as minhas pregações que falam do Amor de Deus que não castiga. Ou então é daquelas que o tempo marcou por uma enformação exagerada do pecado, e por mais que ouça falar do Amor de Deus, apenas o sente quando se confessa e se livra de castigos. 
E mesmo antes de o fazer já estava a dizer. Não quero morrer em pecado, senhor prior. E era assim que vinha confessar-se porque a saúde já não é a mesma. Porque não sabe o dia e a hora e tem de estar confessada. Mesmo que o pecado sejam apenas umas pequenas falhas de atenção ou lucidez. A Rosário tem sempre de se confessar. Vive apertada pelos andrajos e pela vida. Vive apertada pelo medo de que Deus não se lembre dela quando, afinal, Deus tem o amor todo para dar a cada um de nós, como se nós fossemos tudo para ele.

sexta-feira, abril 05, 2019

Anjos caídos [poema 209]

Vieram do céu, em magotes, anjos sem véu
gotas de chuva dourada, estrelas candentes
cheias de céu

Vieram renascer, aqui pernoitar, no mundo
Nos seus mil braços, em mil e um pedaços

Chegaram, viveram, moraram
Sofreram, no mundo acordaram
pernoitaram
Na morte adormeceram

Subiram, voaram e para o céu voltaram
Como anjos caídos
do Céu

terça-feira, abril 02, 2019

A Adelaide prefere abraçar Deus

Não há muitas palavras que consigam traduzir como fiquei depois de escutar a Adelaide, que é uma senhora com alguma idade, reformada do ensino, viúva, mãe e avó. É uma cristã autêntica. Pelo menos no sentido em que procura a autenticidade da fé. 
No meio de um diálogo interessante e discreto, contou-me que, às vezes, perguntando-se a si mesma se tivesse que escolher entre abraçar Deus ou os filhos, ela escolhia abraçar Deus. Parece uma afirmação crua. Meio fanática. Meio despropositada. Mas eu sei que a sua afirmação é verdadeira. Tal como sei que, na terra, o seu amor maior são os filhos. Nunca se cansa de falar deles e com eles, apesar das distâncias. 
Por isso fiquei sem palavras. Fiquei sem chão. Não sei se algum dia eu conseguiria fazer tamanha afirmação de amor!

sexta-feira, março 29, 2019

as horas do relógio [poema 208]

A esta hora o relógio não costuma parar
Não pára senão quando anoitece,
No abraço de algum corpo entrelaçado
Deixa de ser presente e é passado
Morre. Quando tudo acontece.

A esta hora o relógio não quer parar
Roda sobre si mesmo, espelhando-se para fora,
Como se ele e o mundo fossem o mesmo
A realidade que se foi embora.

terça-feira, março 26, 2019

Gestos que parecem insignificantes e não são

Estão no 9º ano de escolaridade e vinham directamente de uma festa na escola para o encontro da Catequese. A catequista recebeu-os como habitualmente e eles entraram na sala da catequese como habitualmente, isto é, com o alarido habitual. Eles próprios dizem que estão numa idade parva. Mas a catequista gosta deles. O alarido nem sempre acalma. Às vezes dura o encontro quase todo. Mas a catequista não desiste de gostar deles. 
Naquele dia, o João, nome fictício, porque o nome acaba por ser o menos importante, abeirou-se dela com uma caixa de chocolates, abriu-a. A caixa era grande e só lhe restava um chocolate. Tome, catequista, disse o João, estivemos numa festa, na escola, e eu guardei este chocolate para a catequista. Era apenas um. Mas a catequista ficou muito emocionada, muito sensibilizada com a ternura do gesto. Dizia-me ela que a atitude adoçara mais o seu coração do que o próprio chocolate.

quinta-feira, março 21, 2019

poema de amor maior [poema 207]

Quero-te como cigarro que não se apaga. Respira-se
Para dentro. Como a via lactea em teu redor. Sem fim.
Em mim. Como fonte imaginária que me consome.
Para fora. Nunca te poderei dizer o tamanho do que sinto.
Inteiro, interior e eternamente. Eterno principalmente.
És um tudo que estás em nada. O que sou. Em mim
Existes como forma de amar. Sou em ti a palavra
Que não tem ponto final. Um poema teu de Amor
incondicional

Hoje, dia Mundial da poesia, achei que fazia sentido concluir o dia com um poema de amor ao Amor Maior, tantas vezes esquecido!

Rezar na verdade da dor

O dia começava a escurecer. Sentado no meu sofá de três pessoas, rezava a liturgia das horas. Rezava atentamente os salmos. Gostara imenso da leitura de São Tiago. Gastara uns minutos a gostar dela. Contudo, chegada a oração das preces, e ao ler “concedei-nos, Senhor, a graça de tomar parte na vossa paixão por meio dos sofrimentos da vida”, a minha oração terminou por ali. Ficou ali parada. Ou começou deveras e num estremecimento de verdade que doeu. Como ser verdadeiro numa oração com este teor, quando mal vem a aflição, o sofrimento, a doença, a morte de alguém querido, as preocupações, os azares da vida, os problemas por resolver, e a gente não só perde o chão, como perde tudo?! Não queria mentir a Deus, mas é muito mais fácil dizer estas preces com a facilidade da boca que com a verdade e dificuldade do coração.

segunda-feira, março 18, 2019

A Senhora Accabadora [poema 206]

Tocava piano como quem sobe e desce escadas
Sabia sempre quando terminava o teclado e não havia mais nada,
Tocava como a onda vai e vem e não volta, mas virá outra na volta
Outra melodia outra cantata

Tocava o piano de um antepassado sem passado, como nada
Antes dele, mar feito em ondas como história
Fora-lhe dado como prenda não merecida mas amada

Era a senhora que tocava como ondas numa escada

sábado, março 16, 2019

Preocupas-te em cumprir ou viver o que é aconselhado na Quaresma?

Na última sondagem, que indagava sobre os post preferidos de 2018, constatou-se que, supostamente, os melhores textos foram:
1. Os coitados
2. O Cristo escondido
3. Os óculos da paróquia 

Pode rever os resultados no seguinte quadro, e pode rever os melhores textos dos anos anteriores, aqui.
Hoje, e quase a aproximar-nos da Páscoa, propomos uma nova pergunta e uma nova sondagem, relacionada com este período litúrgico da Quaresma: “Preocupas-te em cumprir ou viver o que é aconselhado na Quaresma?”

quinta-feira, março 14, 2019

velho poema [poema 205]

Sou pássaro velho, com asas sem penas,
Perderam-se no último voo, a caminho de ti
Ou regressando de ti, já não sei dizer como foi.
Se foram oferecidas, se foram roubadas,
Se voaram sozinhas, se te ficaram agarradas.

Sou pássaro perdido, sem as penas que perdi,
Me perdi com elas no tempo do voo perdido
Sou pássaro ferido, e por não mais voar,
Troquei minhas penas por penas que são minhas

Ainda me lembro de tempos vividos a voar
O mundo era meu, entre tudo o que era nosso
Essa distância que nos ligava, em cada voo
Em cada lançada de abraços para enamorar

Hoje sou pássaro sem ninho,
Pássaro de asas sem penas,
Pássaro com muitas penas
por não poder voar, mas vou.
Vou por elas, continuar
o caminho até ao ninho
a andar

segunda-feira, março 11, 2019

A Camila e o que Deus lhe está sempre a dar

A Camila é uma boa rapariga. É uma boa mãe. É uma boa catequista. Eu atrever-me-ia a dizer que é uma boa cristã. Mas a vontade de nada é a vontade que tem mais vezes. Passa o tempo a queixar-se do que não tem, do que queria ter, do que anseia viver. Desta vez queixava-se de este ano só ter cinco crianças na catequese. Por isso perdera a vontade de dar catequese. No entanto, em cada encontro da catequese fica feliz por poder partilhar Deus com aquelas cinco crianças. Como é bonito vê-las a crescer. Cada uma delas. Dizia-me. Cada uma delas. 
As suas palavras foram a melhor ocasião para lhe recordar como Deus lhe dava tanto e ela achava sempre tão pouco. Deus dera-lhe cinco crianças para guiar, e ela achava pouco. Deus dera-lhe a oportunidade de servir e ser missionária junto destas crianças, mas ela insistia no desejo de ir para África como missionária. Deus dera-lhe uma comunidade cristã onde crescer e por a render os talentos que lhe dera, e ela continuava a desaproveitar esses dons, porque nem sempre a comunidade é como ela gostaria que fosse. Tentou interromper-me para murmurar baixinho que nunca lhe ocorrera este pensar. Porém, eu continuei o meu raciocínio, como se não a estivesse a escutar, lembrando-lhe que Deus estava sempre a dar-lhe coisas, oportunidades, soluções, e que ela insistia em desaproveitar grande parte delas, porque achava que era pouco ou que não era bem o que queria.

sexta-feira, março 08, 2019

O teu eu [poema 204]

Vou a marte, não sei se fica longe
E volto aqui, ao teu colo
Para te dizer que te amo com o tamanho da distância
Que nos separa

Vou e volto, depois volto de novo
para lá
Aguardarei que chegues
Num coche, a galope de quatro
cavalos com asas.

Saberei que és tu pelo perfume
E pela melodia dos cascos
No teclado, e ao final uma rúbrica

Serei eu o teu eu

domingo, março 03, 2019

A roupa suja

As casas pegam uma com a outra e são separadas apenas por um quintal. Simples, com umas couves misturadas com flores meio selvagens. O quintal é da vizinha Beatriz. Tem virado para lá uma das janelas da vizinha Eduarda. São muito amigas. Amigas sobretudo da conversa alheia. Encontram-se no muro do quintal, e dão um pé-de-meia de conversa fiada. O tempo, o sol, o frio, as batatas, e as outras vizinhas, como é óbvio. Não é por mal. É por hábito. Não é por mal. É para ter que dizer. 
O que a vizinha Beatriz não sabe é que a vizinha Eduarda a costuma vigiar da janela que dá para o quintal. Raramente a abre. Contudo, por entre o cortinado, lá vai dando uma espreitadela. Por isso, e já o comentou com uma das vizinhas do fundo da rua, descobriu que a vizinha Beatriz não é lá muito asseada. Atão não é que lava mal a roupa. Ou o detergente que usa presta pouco. Pois que, quando ela, por acaso, sempre por acaso, olha para a roupa da vizinha Beatriz estendida no quintal, as roupas estão, assim, a modos que, pouco limpas, para não dizer cheias de nódoas. Mas fica só entre nós. Repetia. Fica só entre nós. 
Há dias, porém, o marido da vizinha Eduarda, que gosta de tudo muito asseado e arrumadinho, chegou a casa mais cedo e foi fumar um cigarrito à janela que dá para o quintal. Mas quando ia para abrir a janela, reparou que esta já há uma boa temporada que não devia ver uma pano e um detergente, de tão suja que estava. Ó Eduarda, a ver se dás um jeito nesta janela, pois quase não dá para se ver através dela.
Afinal, não eram as roupas lavadas da vizinha que permaneciam sujas. A sua janela é que estava mal lavada. E assim se descobriu quem era, na verdade, a vizinha pouco asseada!
Lá dizia o outro: “Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?”

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

A importância do karaté na catequese

Num diálogo amistoso com a mãe de uma criança que frequenta a catequese, falávamos sobre o que era necessário ou não, o que era importante ou não na catequese. Eu dizia que era a "fé". Que se devia educar para a fé. A mãe dizia que era o "caracter". Que era formar o carácter. Que este era ainda mais importante que ir à missa, pois o que as crianças precisavam era de caracter.
Nisto, o filho, um petiz que frequenta o segundo ano da catequese, estando ao nosso lado e escutando-nos com entusiasmo, interrompeu-nos e disse. Eu tenho. Eu tenho isso, mãe. Todas as semanas. Eu tenho karaté todas as semanas.

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

A morte que não se espera

Numa semana uma média de um funeral por dia. Neste mês de Fevereiro, só no concelho onde estou já faleceram mais de trinta pessoas, e ainda não terminou o mês. Estes dias tem falecido muita gente por estas bandas. Agora que o digo é que o penso. Gosto mais do verbo falecer que do verbo morrer. Este último é mais cru. Mas talvez estas coisas sejam mesmo cruas. E nuas. Ou seja, despem-nos de todos os embrulhos que a nossa vida possa ter. 
Vivemos como se a vida aqui na terra não tivesse fim. Vivemos fazendo de conta que a morte não está ao virar da esquina. E quando ela passa da esquina para a rua onde moramos, deixamos que a morte tome conta de nós como se nunca mais houvesse amanhã. Dói. A morte dói. A morte entra-nos no coração para doer. E como dói, vivemos como se sobrevivêssemos. Esperando que cada doença e cada situação mais dramática não nos toque à porta, não entre na nossa casa, não nos faça sentir que a vida entre os mortais é só isto. 
Vou deitar-me com esta dor de vida, a pensar no funeral de amanhã. Mais um. Mais um não saber já que dizer na homilia. Mais uma dor de alma. Mais um pedir a Deus: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.

sábado, fevereiro 23, 2019

os sapatos de pedra [poema 203]

Despediu-se, descalçou-se e colocou pedras nos sapatos
Encheu-os, não as contou para não parecerem muitas
Para não parecerem pedra

Melhor era descalçar-se de tudo e desnudar-se
Deixar a roupa que usara a vida inteira e deixar-se
Na praia, à beira-água, para a maré levar, ao passar

Viverá como pedra a esperar, como sapato a vaguear
Solitário, pesado, robusto, apressado e lento, mas a
andar

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

coração [poema 202]

O meu coração bate, bate mesmo,
Bate-me por dentro
E irrompe pela pele
Ora sim ora não, como se numa hora fosse
e na outra não
Como se morresse
num segundo
Dentro do meu mundo
E voltasse depois à vida, a bater

Que regressasse para me abater

sábado, fevereiro 16, 2019

O último José

O último José a quem fui dar a Unção dos Doentes fez-me pensar para além de mim, para além da vida, para além da missão sacerdotal. Quando me deparei com ele, nos Cuidados Continuados, em primeiro lugar, recordo, esbocei um abraço. Só isso. Apertei-lhe, depois, a mão. Só isso. Falei com ele como se não estivesse onde estava. Aquela cama articulada onde o José permanecia com os olhos abertos, mas sem olhares, e com a boca entreaberta, mas sem palavras. Esbocei um abraço e apertei-lhe a mão como se fosse o outro dia em que nos saudámos com um aperto de mãos e trocámos duas ou três palavras sem jeito, com pouco nexo. O nexo das conversas triviais. O perguntar-se como se está e o dizer que se vai indo. Quando já era visível que o José não andava bem. Quando ao perto já se manifestava a sua doença e a debilidade. 
Creio que quem sofre sabe que está num estado diferente de quem o visita no sofrimento. Mesmo quando não expressam qualquer sinal de entendimento. E creio que só quando nos fazemos companheiros do caminho, sócios da jornada, quem sofre perceberá que não está só. Doeu-me aquele diálogo surdo de dois companheiros de uma viagem. Dois companheiros que não têm muito para dizer senão estarem juntos a fazer o caminho. Mas também não sei se ocorreu tal e qual. Talvez o tenha imaginado assim depois que presidi ao funeral deste amigo José.

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

A carta de um filho ao seu pai que partiu.

Chorei. Chorei porque as palavras me tocaram naquela parte de nós mesmos que chora, aquela parte íntima que não tem como se dizer. E depois chorei, ao pensar que na minha partida, os meus filhos não se vão despedir de mim, não me farão cartas bonitas destas. 
Era uma carta de despedida de um filho ao pai que partira por causa daquela maldita doença do cancro. A mesma que seis meses antes lhe levara a mãe. Gente com idade pouco acima dos cinquenta. Tudo ocorreu demasiado rápido, para que pudesse assimilar tanto sofrimento. Por isso descarregava na sua carta de despedida o que sentia. Passados três meses da mãe partir com muito sofrimento, os médicos haviam dito que o pai não tinha escapatória. Mas o filho tivera a oportunidade de dizer adeus ao pai naquela hora em que lhe apertou a mão e partiu. Fui tudo, apesar de doloroso, muito bonito. A beleza das coisas que nos ultrapassam no mistério. Vinham do médico e faziam uma série de quilómetros para chegar a casa. O pai estava, obviamente, esgotado e à base de morfina. Como dormia, não pararam na estação de serviço, como tinham previsto. O pai dera conta e pediu que parassem na seguinte. Esperou uns bons cinquenta quilómetros, e quando pararam, enfim, para descansar, o pai chamou os dois filhos que iam no carro, e disse o adeus mais bonito, ao agradecer o que eles tinham sido para ele. E partiu. No final da carta, o filho dizia, como testemunho de quem sofreu tanto em tão pouco tempo: “Não se zanguem. Não odeiem. Perdoem. Sorriam. Dêem. Partilhem. Digam que gostam. Abracem mais. Amem mais”. 
Grande filho que presta uma homenagem tão bela aos pais. Chorei. Por eles. Por tantos como eles. E por mim, porque gostaria de que um dia, alguém como um filho, me homenageasse de igual modo.

quarta-feira, fevereiro 06, 2019

Deus grande e insignificante, ao mesmo tempo

O filho da Alexandra teve um acidente. Não foi tão grave como podia ter sido. Foi assim que a Alexandra falou para as amigas. Já não sei se ouvi a conversa, se me foi contada. A Alexandra estava a falar com as amigas dizendo que podia ter sido muito pior, mas que o filho estava bem. Tem algumas escoriações no corpo, mas podia ser pior. Por isso agradecia a Deus, dizendo que Deus era grande e nunca lhe falhava. Misturava Deus e Nossa Senhora. Obrigado Meu Deus e obrigada minha Nossa Senhora de Fátima por protegerem o meu menino. 
Dei por mim a dar graças a Deus pelas palavras da Alexandra. De facto, como é bom quando reconhecemos a grandeza de Deus e da sua mãe. Como é bom reconhecermos a sua protecção. Como é bom reconhecermos que Deus nunca falta. Estava nestes pensamentos quando me lembrei que a Alexandra aparece pouco na comunidade. É daquelas mães que, se puder, leva o filho a outra paróquia para se crismar, porque não se importa que ele não tenha catequese. É daquelas pessoas que quase só aparece nos dias de funerais, festas, casamentos e baptizados. Não é má mãe. Nem posso ajuizar que seja má cristã ou que tenha uma fé muito insipiente. Contudo, ao pensar nas suas palavras e ao recordar a sua pouca vivência celebrativa da fé, não pude deixar de pensar, com pena, que, às vezes, só nos recordamos da grandeza, força e presença de Deus quando surgem aquelas ocasiões fatídicas na nossa vida. Como se Deus só existisse para nós quando precisamos d’Ele. Como se fizesse parte daquele grupo de amigos que apenas buscamos quando nos apercebemos que não nos bastamos. Não é mal dar conta de que acima de nós, só Deus nos pode sustentar. Mas é uma pena que, fora desses momentos frágeis, a nossa vida se centre em nós próprios, como se Deus não existisse. É uma pena só darmos conta que Deus existe nessas horas quando ele está em todas as nossas horas. 
É caso para dizer: será que Deus é tão grande que não cabe nas nossas vidas diárias?!

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

sondagem "best post" 2018

Depois de ler as vossas opiniões e adicionar-lhe a minha opinião, vamos colocar à votação os textos/prosa que parecem os melhores 10. Foi muito difícil fazer essa escolha. Agora, através da sondagem afixada, conto convosco para apurarmos, como em anos anteriores, os melhores três. Se quiserem lê-los de novo, têm o link respectivo abaixo da sondagem. Também podem justificar as vossas opções.
Apresentamos ainda as conclusões da anterior sondagem que perguntava: "Em termos cristãos qual destes foi, para ti, o maior acontecimento no ano 2018?" e onde se destacou a "Abertura da Igreja aos recasados", seguido do "Chumbo da legalização da Eutanásia" e o "Sínodo dos bispos sobre os jovens".

quinta-feira, janeiro 31, 2019

Não percebo porque é que são sempre os mesmos

Amanhã há uma formação com o tema tal, e aparecem aquelas pessoas que já sabemos que irão. Um dia destes temos retiro, e aparecem as mesmas pessoas. É preciso que se trate deste assunto ou daquele, quem limpe a igreja ou que trate do almoço tal, e são praticamente os mesmos. Vamos realizar um encontro da paróquia, uma viagem ou uma actividade cultural, e aparecem os mesmos. São os mesmos que nos dão alegria por serem eles que participam, por serem com quem contamos, quem nos segura a comunidade, quem garante a mesma comunidade, quem faz a paróquia ser uma paróquia. Mas não sei que dizer ou pensar dos outros oitenta ou noventa por cento de paroquianos, que até vão à Eucaristia, mas que não aparecem nunca mais!

sábado, janeiro 26, 2019

A leiteira de S. Paulo

Quando a jovem, entusiasmada, se dirigiu ao ambão para ler a segunda leitura, que era de S. Paulo aos Romanos e que estivera a preparar afincadamente, fez-se o natural silêncio na assembleia. A sua voz foi, como é hábito, amplificada pelo microfone. Graças a Deus que o silêncio não foi interrompido quando ela leu “leiteira da epístola de São Paulo aos Romanos”. O silêncio manteve-se, mas eu não aguentei. Já não me ria tanto para dentro como nesta ocasião. Deixei de ouvir o teor do texto. Imaginei o afamado apóstolo pela manhã, com os olhos enremelados, recebendo à porta de sua casa uma senhora com um pote de leite para vender. Era a sua leiteira. A senhora que lhe levava o leitinho fresco todos os dias, ainda ele mal acordara. Ó que maldoso fui! Reconheço. Menos mal que não me veio à lembrança nenhum animal que dá leite. Ri-me, ri-me e voltei a rir até conseguir compor-me na cadeira presidencial onde estava sentado. Não sei se fui o único a rir para dentro. Para fora, ninguém se manifestou. Pelos vistos, toda a gente decidira respeitar a leiteira de S. Paulo.

terça-feira, janeiro 22, 2019

"best post" 2018

Embora sabendo que não é o mais importante, parece-me que esta é uma forma de revermos textos, pensarmos de novo, e ajudarmos o autor deste blogue a verificar caminhos. Assim, peço a vossa ajuda para seleccionar aqueles textos/prosa que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes em 2018. Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Agradeço desde já a vossa participação e colaboração. Como nas outras ocasiões, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. Podem sugerir outros que não estejam nesta selecção. A mim fez-me bem relê-los. Pode ser que faça bem a mais alguém.

Nota que os poemas não entram nesta sondagem.
Quem quiser dar uma espreitadela aos "best post" de 2012, 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017 clique AQUI.