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sábado, abril 04, 2026

Jesus está em silêncio

Por favor, paremos. Jesus está em silêncio. Jesus não se calou, mas está em silêncio. O tempo parou. O véu do templo rasgou-se em dois. O seu corpo está frio. Está frio mas o coração não regelou. O mundo está em silêncio. As palavras vão e vêm no meio do silêncio. E eu digo: faça-se silêncio no nosso coração para que entre a palavra da Verdade. Já basta de palavras ao vento, de verdades que são mentiras ou meias-verdades, de verdades que são apenas opiniões e transformamos em Verdade. Queremos apenas a verdadeira Verdade! Por favor, paremos o ruído da rua e o ruído do nosso coração. Hoje somos convidados a olhar, a escutar, a meditar, a rezar a morte de Jesus em silêncio. Um silêncio de espera. Um silêncio de quem sabe que depois da morte vem a ressurreição. Por isso, hoje, Senhor, quero subir contigo ao calvário e, depois, baixar também contigo ao túmulo vazio para neles encontrar a Esperança! Nunca te cales, Senhor, neste silêncio que tanto me diz.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Ficamos 'bem mas bem'"

sexta-feira, abril 03, 2026

porque me abandonaste?

É verdade que até para ti não foi fácil. Também recordo que morreste a rezar aquela pergunta in-finita que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Procuro uma explicação para ela. Parece não fazer sentido vinda da boca de um Deus que não precisa de nada e tudo pode. É difícil entender que também tu tens dificuldade em abraçar a dor, em te sentir só e abandonado no sofrimento. Só lhe encontro uma explicação: uniste-te a nós não só na dor como na dificuldade em aceitar a dor. E isso só prova que tu não amas por metade. Não amas só por uma razão. Amas por todas. Amas por inteiro.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Entrego-te"

terça-feira, março 31, 2026

As mulheres

Contaram-me que, enquanto passavas com a cruz aos ombros, algumas mulheres gritavam para dentro o sufoco da dor. Ouviam-se os seus gemidos e lágrimas como uma música de embalar no meio de uma multidão que estava ali para ver o espetáculo! No meio da algazarra do tumulto em volta do espectáculo, os seus gritos mudos em nada sobressaíam, mas tu deste conta. Voltaste-te para elas com a mesma ternura com que as tinhas olhado sempre e disseste: “Não choreis por mim, chorai por vós mesmas e pelos vossos filhos”. Agora que penso nestas tuas palavras, bato no peito, choro por mim, choro pelos nossos filhos, choro em nome desta multidão que está agora à volta do teu corpo frio... e nú.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

quinta-feira, março 26, 2026

Sepultar à pressa

Há quem te queira depositar no túmulo à pressa. Tudo tem de ser à pressa porque toda a gente tem mais que fazer: Vamos, depressa, façamos tudo rápido, que temos de ir para casa fazer a festa comercial, cultural e mediática da Páscoa. Não ouves? Se és Deus, porque não vais por teu próprio pé para o túmulo?! Já vimos o que tínhamos a ver. Já batemos as palmas e já deixámos cair umas lágrimas no meio do furor da emoção. Temos muito que fazer. Temos sempre muito que fazer aquilo que não está feito e que sempre estará por fazer. Corremos loucamente atrás de uma vida, fugindo, sem querer, dela. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

segunda-feira, abril 21, 2025

Agradeçamos

"Abençoe-vos Deus Pai Todopoderoso: Pai, Filho e Espírito Santo". A conclusão ordinária de cada celebração ganhou ontem, na celebração de Domingo de Páscoa, em Roma, um alcance maior, porque foram as últimas palavras públicas que se escutaram da voz em dificuldade do Papa Francisco. Hoje o mundo, em geral, e a Igreja, em particular, acordaram com a notícia dolorosa da sua partida para a Casa do Pai. Curioso como Francisco parte na segunda-feira de Páscoa, depois de celebrarmos a Ressurreição do Senhor. A vida é um caminho peregrino para esta meta e, às vezes, o caminho culmina com um calvário. No caso do Papa, desde 14 de fevereiro que se foi avizinhando este momento que a grande maioria dos crentes não queria que chegasse por tanta coisa pendente que ele vinha fazendo desde 3013, desde o início do seu pontificado. Mas isso compete a Deus, porque a Igreja é sua e não dos Papas. Confiemos que os 135 cardeais eleitores façam a escolha do Espírito Santo para o Papa que a Igreja de hoje precisa. Entretanto, que a Igreja entre por inteiro em acção de graças pelo dom da vida e missão deste Francisco que nos trouxe de volta o Francisco que há 800 anos também operou uma revolução no íntimo da Igreja. 

Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que recusou a grandeza, escolheu a simplicidade, trocou o poder pela proximidade, preferiu não ser príncipe para ser servo e pastor, e por isso foi luz de um Deus que é sempre misericórdia. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa das periferias, dos pobres, dos recasados, dos abusados, dos esquecidos, dos últimos, de todos. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da evangelização sempre nova e dos discípulos missionários, da Igreja em saída missionária e em estado de missão, da Igreja sinodal como Povo de Deus peregrino e da Igreja como hospital de campanha, de portas abertas. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que resgatou o Concílio Vaticano II e que deu impulso a uma Igreja mais corresponsável, participativa, ministerial e sinodal. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da reforma da Cúria, assim como da colegialidade e da descentralização. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa dos pastores com cheiro a ovelha e que caminham à frente, ao lado e atrás. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que valorizou os leigos e as mulheres. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da Casa comum que é urgente cuidar e da Fraternidade universal que não se pode esquecer. 
Agradeçamos pelo Francisco que Deus nos deu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

domingo, abril 20, 2025

Vivo em mim

Toco uma última vez o teu corpo inerte e frio. De tanto te agarrar na mão, ela começa a aquecer. Ou é ela que me traz a percepção do calor. Começo, na verdade, a sentir uma leve brisa de calor e de vida a acontecer. Sei que ainda faltam três dias para chegar a Ressurreição, mas eu já sinto o teu sangue a correr-me nas veias e a acalentar-me o coração. É tão estranho este sentir diante do teu corpo morto. Sinto que estás vivo em mim.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não quero as tuas cruzes"

sábado, abril 19, 2025

Não menos que isso

O momento da tua crucifixão é inesquecível. Enquanto os soldados te iam cravando no madeiro, dizias: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. E não sabemos mesmo. Mas tu perdoas. Perdoas tantas vezes quantas as necessárias. Mesmo que te levemos ao matadouro. Mesmo que cuspamos no teu rosto ensanguentado. Mesmo que te batamos com um chicote para descarregar a raiva da nossa humanidade. Mesmo que te carreguemos com o peso do madeiro que é o peso das nossas vidas. Perdoas infinitamente porque só sabes amar infinitamente. Não menos que isso.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

sexta-feira, abril 18, 2025

O teu corpo não mexe

O teu corpo não mexe, Senhor. Estás morto? Precisamos de ti vivo! Toco-te e não tenho muitas palavras para descrever a sensação do teu corpo frio. Choro. São lágrimas de amor que fazem o caminho até chegarem ao peito, o lugar onde o amor acontece. Choro porque não entendo a morte, esse mistério que ultrapassa os mortais. Porque não te levantas? Porque não te ergues e ergues contigo o mundo sofrido, o mundo que precisa tanto da esperança? Eu sei que morreste com os braços abertos para amar. Sei que nesse abraço te uniste a todos os que sofrem e os abraçaste. Mas nós precisamos de ti vivo. Precisamos de ti vivo naqueles que amaste até ao fim. Porque te deixaste morrer como um criminoso? Como é que tu, sendo Deus, te humilhaste a esse ponto? Eu também fui daqueles que bateram as palmas quando te aclamaram como Rei. Também levei meu ramo para que o benzesses e, nele, me benzesses a mim. A tua coroa, porém, não era de ouro. Era de espinhos. O teu trono não era uma poltrona. Era uma cruz. As tuas vestes não eram de linho e seda. Eras somente tu num corpo desnudado. E assim se começou a construir um reinado sem fim.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amontoado de cruzes"


sábado, setembro 07, 2024

O milagre da morte

Ela queria um milagre. Diante do caixão com o filho de vinte e oito anos, ela repetia que esperava um milagre. O filho mais velho morrera há uns doze anos com sorte parecida, em idade mais jovem ainda. Este segundo filho estivera em sofrimento uns três anos e agora partira para o Senhor. Os pais não têm mais filhos para cuidar. Não têm mais filhos para esperar o seu futuro e sonhar com ele. Dá para imaginar o sofrimento, mas não dá para o medir. Era mais que visível, tanto no rosto pálido da mãe como no do pai, assim como nos seus corpos sem expressão, sem alento, sem força senão para estar ali e se puderem despedir do menino. Olha o teu pai e a tua mãe, dizia o pai. E a mãe desfalecia em gemidos. A Missa foi toda ela um gemido contido. A multidão dentro da Igreja era prolongada pela multidão fora dela. Não se cabia naquele sofrimento. A homilia foi pesada. Foi pesada no sentido de ser pesarosa, e foi pesada porque se pesou cada palavra. A certa altura, a mãe interveio, dizendo ao senhor padre que nunca perdera a esperança, porque esperava um milagre. Ainda bem, respondeu o senhor padre. Como dizia a primeira leitura que escutámos, “A esperança não engana porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações”. O padre cruzava os olhos com ela no primeiro banco da igreja, sofria com ela à sua maneira, e aproveitava as suas palavras para falar do verdadeiro milagre que estava a acontecer. Este mistério da morte, que é tão difícil, é, afinal, o maior milagre da vida. Morremos para vivermos eternamente, porque Deus nos ama para além da vida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As não respostas que são resposta"

sexta-feira, maio 03, 2024

O dia de Páscoa

O dia de Páscoa já lá vai. Houve amêndoas. Houve pão de azeite. Houve almoço melhorado. Houve reunião de família. Na missa gritou-se que Jesus ressuscitara e os que nela participaram estavam contentes. O ambiente de festa o proporcionava. Uns dias antes a azáfama andava à volta da sua paixão e da sua morte, mas agora isso já não interessava, porque Ele ressuscitou. A boa notícia da ressurreição é a certeza principal da fé. Mas o dia de Páscoa já la vai. Logo na segunda-feira se regressou ao trabalho ou à escola. Tudo continua igual, no mesmo sítio. As ruas permanecem com as mesmas pedras. E o caminho continua o mesmo. Continua a parecer mais caminho a subir para o calvário do que a descer do sepulcro vazio. Por outro lado, não vimos a sua ressurreição. Nada. Ele não nos apareceu. Nem o sepulcro vimos vazio. O padre bem que se explicou na homilia da missa, mas que fazer com isso? Não sabemos que fazer com a boa notícia da ressurreição. Não sabemos que fazer com a Páscoa. Parece mais um rito que uma experiência. Parece mais um hábito que uma vivência. Andámos quarenta dias de quaresma a preparar-nos para algo grande, mas passou num instante. Num dia. Ainda que a Igreja nos proponha um período pascal de mais dias, parece que a Páscoa já lá vai. As rotinas tomaram-lhe o lugar. E não sabemos onde está o Senhor, onde o puseram. Não sabemos se ressuscitou para se guardar escondido num sacrário ou numa igreja, se para morar no nosso coração. O que sabemos é que o dia de Páscoa já lá vai e continua tudo igual. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A tradição da procissão de Páscoa"

sexta-feira, abril 07, 2023

aquela agonia

Veio-me ao pensamento aquele momento da tua agonia. Não o sei descrever nem sei imaginar. Sabias o que te ia suceder, mas não sabias das forças para tal. É tão estranho ver Deus sem saber das forças, tal como nós. E depois os teus amigos. Onde estavam? Porque dormiam? Porque nada faziam para te aliviar o peso do sofrimento? Os evangelhos dizem que eles te seguiam para todo o lado. Andáveis sempre juntos. Aprendiam a vida contigo. Pousavam e repousavam em ti, nos teus conselhos, nos teus milagres, na tua segurança. Mas não estavam acordados naquela hora. Soube-se depois que, mais tarde, se esconderam com vergonha e com medo, quando tudo aconteceu, ultrapassando o seu entendimento. Ficaste sozinho, como nós ficamos tantas vezes metidos para dentro dos nossos sofrimentos, sozinhos, mesmo no meio de multidões de pessoas que ainda há pouco nos aplaudiam de pé. Veio-me ao pensamento aquele momento em que pediste ao Pai que, se pudesse, afastasse de ti aquele cálice, aquela cruz, aquele sangue, aquele peso insuportável de não saber se terias forças. A tua encarnação foi autêntica. E perceber que não tinhas a certeza das forças, dá-me muita força.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Via Sacra de um simples discípulo"

terça-feira, abril 04, 2023

O Joaquim que gritava ao crucifixo que tinha desaparecido

O Joaquim tem um pequeno atraso. O seu grande corpo físico não corresponde ao tamanho das suas capacidades intelectuais. E estas ainda são diminuídas a cada dia pelo vício do álcool. É raro não andar bêbado. Não porque tenha muito dinheiro para alimentar o vício, mas porque muita gente lhe paga copos só para o ver tonto e a tombar! Os amigos do Joaquim são aquele tipo de amigos que merecem a verdadeira designação de ‘amigos dos copos’, sem mais amizade para além disso. No entanto, o Joaquim tem um amigo Grande, tão grande que não há dia nenhum que ele não o visite na igreja. É seu hábito ir lá fazer umas orações. Mas ontem estava muito zangado e gritava para o crucifixo que tinha desaparecido. O pároco tinha mandado tapar todas as imagens da igreja na semana santa. Todas, sem excepção. Foram todas escondidas com panos e colchas velhas. E o Joaquim não conseguia ver o seu Grande amigo do crucifixo: onde estás, Quem Te levou, Quem fez isso, Vou prendê-lo, Sai daí que eu estou aqui à Tua espera, Eles são doidos, São malandros, Deita isso fora, Vão pagar tudo, Vais ver! E não parava de gesticular, de esbracejar e de gritar a plenos pulmões. Na verdade, Deus ainda hoje gosta de falar pela boca dos que a sociedade chama tontos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma certa liberdade"

domingo, abril 04, 2021

O Miguelito e a Ressurreição

Uma das professoras da escola do Miguelito faltou vários dias, porque o seu marido falecera. Ora, o Miguelito gostava muito daquela professora, sabia que ela estava muito triste e, por isso, perguntou à mãe se achava que, se pedissem muito, Jesus poderia ressuscitar o marido da professora. Admirada com a inquietação do filho, a mãe respondeu-lhe que o marido da professora já tinha ressuscitado para a vida do céu, e que estava ao pé de Jesus. E o Miguelito, como é seu hábito, arregalou os olhos e disse que isso era muito bom. Só não entendia porque é que as pessoas tinham medo de morrer e ficavam tristes. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Três perguntas e muitas mais"

segunda-feira, março 29, 2021

O drama de ser mortal

Era uma vez um rei que estava à beira da morte por causa de uma doença incurável. Já estava nas últimas. Porém, cada vez que a rainha lhe dizia que ia morrer, ele afirmava que não. Quando o príncipe insistia, ele insistia que não. Quando, por fim, o médico lhe explicava que ia morrer, ele persistia no seu rotundo Não. Que havia de durar mais quarenta anos, porque ele era o rei e era ele quem decidia. 
Olhamos para a personagem principal desta pequena história, o rei, e o mais provável é rirmo-nos da sua tolice. Mas esta atitude, com mais ou menos obviedade, é uma atitude recorrente nas nossas vidas. Também nós vivemos como se a nossa vida e a nossa morte fossem decisões exclusivamente pessoais. E alimentamos uma esperança vazia de que há-de ser como queremos que seja. Por isso, diante do sofrimento, entusiasmamo-nos uns aos outros com expressões do tipo “vai correr tudo bem”, “deus vai ajudar”, “a esperança é a última a morrer”. 
O drama humano começa quando tomamos consciência de que somos e não somos. A consciência de que não podemos decidir sobre nós. Sabemos que a morte nos vai encontrar, mas não sabemos como será nem como a conseguiremos afrontar. O que podemos fazer é ir configurando o nosso ser mortal, o nosso ser limitado. É preciso aprender a ser mortais. Que é quase o mesmo que aprender a amar e a ser amado. A dar consistência à vida que temos. 
Devemos aprender com Cristo a viver a mortalidade. E aprender a viver a mortalidade com Cristo é reconhecer a nossa vida, o que a sustém, o que ela vale. Deste-me esta vida. Não a vida, mas esta vida. E dizê-lo com gratidão, num exercício de amor. E isto é que é morrer com Cristo. Aprender a ser mortal, a ser limitado, é aprender a amar. Nunca somos da vida, mas participamos dela. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É a vida" 
 
desejo a todos uma Semana Santa a olhar para dentro e para fora de nós!

sábado, abril 27, 2019

Jesus trabalha na farmácia

Depois das férias da Páscoa, uma das nossas catequistas, por sinal religiosa consagrada, regressou aos encontros que, de vez em quando, fazia na creche, com os petizes que tinham entre 4 e 5 anos de idade. Costumava contar-lhe muitas histórias à volta da grande história de Jesus. Como vinha mais que a propósito, começou a falar-lhes sobre os acontecimentos vividos na Páscoa. Sobre a Morte e Ressurreição de Jesus. Alguns deles tinham participado na encenação da via-sacra e, pelo que a catequista percebera, haviam interiorizado grande parte dos momentos encenados. Aproveitou a ocasião para afirmar que Jesus dera a vida, de verdade, porque era muito nosso amigo e que ressuscitara, voltara a viver para nós sermos muito felizes um dia, com Ele, no céu. 
Mas nisto, um dos pequenitos levantou a mão e disse. Olha, Jesus não morreu de verdade. Foi só faz-de-conta, a fingir. A catequista ficou estarrecida. E a criança continuou. Não sei se sabes, mas Jesus é o senhor Fernando e ele está vivo a trabalhar na farmácia. Pois é, reponderam os outros em coro. Sabes, catequista, os maus puseram-lhe uma coisa na cabeça, com picos, bateram-lhe com umas coisas mas não fazia doer, porque outros batiam numa tábua para fazer barulho. Tinha muito sangue, faz de conta, porque era tinta. Ele caiu na rua, mas levantou-se. E quando o pregaram numa cruz, o senhor Fernando disse umas palavras e fez assim. Ao dizer isto, inclinou a cabecita. 
A catequista já não sabia bem o que dizer. Tinha sido, de certo modo, desarmada. Entretanto, pegou nas palavras que acabara de escutar e começou a fazer a destrinça entre Jesus verdadeiro e o senhor Fernando, seu fiel seguidor, que tinha, de facto, encarnado de forma excelente, a figura de Jesus. Dizia-me a catequista que achava que eles haviam percebido a diferença entre Jesus, que deu a vida de verdade, e que ressuscitou, voltou a viver, e o senhor Fernando, que foi só faz de conta, por isso não morreu e continua a trabalhar, na farmácia. Pelo menos ficaram a conhecer melhor como foi que Jesus deu a vida por nós.

domingo, abril 21, 2019

Jesus morreu e ressuscitou aqui na minha terra

Foi isto que uma criança disse um dia depois de termos encenado a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Como ela era uma criança pequenina, a mãe deve ter-lhe explicado algumas coisas. E foi assim que ela se acercou de mim e me informou, para o caso de eu não saber, que Jesus tinha morrido e ressuscitado na nossa terra.
Era bom, era. Era bom que Ele morresse e ressuscitasse em cada um de nós, nas nossas terras, nas nossas vidas… 

Aproveito para desejar a todos os meus visitantes e amigos uma Santa Páscoa.
Que Jesus ressuscite nas nossas terras, nas nossas comunidades e nas nossas vidas!

sábado, abril 13, 2019

A tradição da procissão de Páscoa

O padre tinha a sua saúde bastante debilitada, A idade avançada também não o auxiliava. Arrastava-se mais que andava. Mas era dia de Páscoa e, como a tradição manda, depois da missa tem de haver procissão. Dizem assim as vozes religiosas que estão habituadas desta maneira. Com as tradições. O padre, no final da missa, que presidiu a um custo notório, fez uma pergunta. Tendo em conta o estado débil em que se encontrava, perguntou a quem o ouvia na assembleia se achavam que devia fazer a procissão ou não. Contou-me quem ficou chocado nesse momento, já lá vão uma série de anos, porque ninguém abriu a boca. Ninguém fora capaz de dizer que, para cuidar da sua saúde, melhor seria não se fazer a procissão. Como ninguém abrira a boca, o padre resignou-se e respondeu por eles. Assim sendo, faz-se a procissão, mesmo que não resista a meio dela. Continuou sem resposta. Fez-se a procissão. O padre, graças a Deus, não caiu. Poucos meses depois o padre faleceu. Não há causa efeito, como é óbvio. Mas há uma Páscoa que não se percebe muito bem se foi Páscoa se foi apenas mais uma tradição.

quinta-feira, abril 26, 2018

Os coelhinhos da catequese

Num dia destes, qual não é o meu espanto quando, à saída do centro pastoral, umas crianças dos primeiros anos de catequese traziam em suas mãos uns desenhos, bonitos por sinal, com uns coelhinhos de Páscoa. Em tons de brincadeira, perguntei se os tinham feito na escola e responderam prontamente que os haviam elaborado na catequese com a catequista. 
É verdade que, segundo dizem, o coelho sempre foi visto como símbolo da fertilidade, os judeus assumiram-no como um símbolo e a cultura popular foi-o adoptando como um símbolo da ressurreição. Li em tempos que eles deveriam ter sido, de tão madrugadores, as primeiras testemunhas do maior milagre da história. De modo similar, fala-se dos ovos da Páscoa como símbolo de algo que parece não ter vida, mas que origina vida, e assim se pode considerar símbolo de Cristo que rompe a pedra do sepulcro. Contudo, nenhum destes argumentos me convencem. Não será antes a expressão de um comércio que usa e abusa do tempo pascal, tal como o Pai Natal é apanágio do mesmo interesse por alturas do Natal? 
Ainda não conversei como deve ser com a catequista. Já lhe disse da minha admiração. Não creio sequer que ela tenha mandado fazer o desenho sem boa intenção. Talvez ela tenho uma muito boa justificação para a sua opção. Também não a julgo, porque a continuo a considerar muito boa catequista. Mas estas coisas metem-se comigo, porque me parece que a Ressurreição de Cristo está muito para além de qualquer um destes potenciais símbolos.

sábado, março 31, 2018

Amontoado de cruzes

Ontem, quando vinha da cerimónia da tarde, a tarde de sexta-feira santa, tropecei num pequeno pedaço de madeira em forma de cruz. Deve ter sido alguma criança da catequese ou algum dos que fazem parte da encenação da via-sacra que o deixaram cair. Na verdade, apesar de quase ter caído, não foi bem um tropeção. Foi mais um pontapé. Sim, sem querer dei-lhe um pontapé que atirou aquele pedaço de madeira para longe. Olhei-o como se fosse uma pedra preciosa e recolhi-o no bolso. Depois levei-o comigo, para casa, afim de poder perguntar a quem pertencia. Mas ao subir as dezenas de escadas para o local onde moro, o bolso pesava-me. Pensei que eram as chaves, mas depois de as meter na ranhura da fechadura, o peso continuava o mesmo. Só podia ser a cruz que encontrara na rua, que atirara para longe e que recolhera de novo. Chegado ao meu quarto, pousei-a em cima da cama. Vou dormir sobre ela. É que nesta Quaresma e nesta Semana Santa tenho encontrado cruzes por todo o lado, de vários feitios, pesos, medidas, e materiais. Tenho-as amontado na cama. Vou adormecer para acordar com elas, e amanhã vou celebrar o Senhor que está vivo para me carregar estas cruzes. 

Uma Santa Páscoa, com os olhos na Ressurreição, para todos

sexta-feira, abril 14, 2017

Quando um coelhinho substitui Jesus

Que o coelhinho nos traga muito mais que simples ovos de chocolate. Que ele nos traga muita saúde, amor, felicidade, compreensão, carinho. Escrevo assim porque li mais ou menos assim. Não o escrevo para desdenhar da boa intenção da pessoa que escreveu cada uma das palavras. Creio que as escreveu sem a perspectiva com que eu as li. E agora reescrevo-as porque ficaram a tinir nos meus pensamentos. 
Se, no Natal, falar do Pai Natal é algo que me custa aceitar, falar ou desejar que um coelho nos traga aquilo que só Deus nos pode eventualmente dar, ainda me custa mais escutar. Se há cidades, como na vizinha Espanha, que tentam transformar a semana santa numa semana cultural, e isso me custa aceitar, mais me custa que Jesus seja substituído por um coelho, por mais bonito, enfeitado ou engraçado que possa parecer para as crianças. 
E é neste mundo e nesta história que Cristo mais uma vez se entrega por nós e manifesta o Seu tão grande Amor ao ponto de nos querer, tal como somos, mesmo quando o substituímos por um coelhinho.