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sábado, março 08, 2025

O retiro Effetá do jovem Joaquim

Os retiros “Effetá” estão de moda, ao menos na vizinha Espanha. Trata-se de um retiro católico para jovens, cujo objetivo é experimentar um encontro pessoal com Deus. Faz-se com algum secretismo, mas isso só lhe adensa o mistério e alimenta o encanto. Para outras faixas etárias, existem retiros semelhantes: “Emaús” para maiores de 30 anos, “Bartimeu” para jovens dos 16 aos 18 anos e “Samuel” para adolescentes. 
Como desconheço o modelo deste tipo de retiros, sinto-me à vontade para contar o que se passou com o Joaquim, nome fictício de um jovem que participou num destes retiros. Saíra de lá encantado, como é costume ocorrer à maioria dos participantes, mas agora chegara à conclusão de que estava a perder a fé porque estava a perder o entusiasmo. Foi esse o motivo que o levou a procurar o padre na paróquia. Mas quando este lhe perguntou o que lhe causara impacto por parte de Jesus nesse encontro que, supostamente, tivera com Ele, o Joaquim não soube responder. Na verdade, o Joaquim, mais do que encontrar-se com Jesus, encontrara-se com a sua emoção. Agora, como a emoção se estava a ir abaixo, ele também se estava a ir abaixo. O encontro com Cristo é muito mais do que uma emoção ou uma experiência. É muito mais do que um momento de encanto. O encontro com Cristo transforma as vidas e transforma o modo de viver.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A geração digital e a fé sem interesse"

sexta-feira, setembro 20, 2024

A catequese que nunca lhe valera de nada

Num diálogo com jovens sobre opções e sobre a fé, fazia-se um balanço da caminhada espiritual que cada um estava fazendo. Todos iam falando, uns mais à vontade, outros mais a medo. A Maria, que terminara a catequese de infância e adolescência há três anos, falava sem rodeios. Não era rapariga de faltar às sessões da catequese. E não fazia parte do grupo dos mal comportados. Mas o seu interesse era diminuto, contou. A catequese nunca lhe valera de nada. Ia por ir. Fazia a vontade aos pais e não se importava de acompanhar algumas amigas. Ninguém a interrompeu enquanto falava estas coisas. O resto dos jovens presentes não esboçava sinais de admiração ou de condena. Muito menos eu. Apenas me intrigava que, apesar desse entendimento da catequese, ela estivesse agora ali, presente, por vontade própria, no seio de um grupo de jovens para dialogar e pensar a fé. Até que a Maria concluiu a sua intervenção dizendo: só mais tarde as coisas começaram a fazer sentido. Só algum tempo depois de ter deixado a catequese fui começando a entender como a catequese me fora importante.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista e o menino"

segunda-feira, abril 15, 2024

a Clara e as experiências da fé

A Clara participou num encontro religioso que mudou a sua vida. Pelo menos mudou a sua relação com Deus. Fez-lhe muito bem. Saiu daquele encontro, tal como a maioria dos jovens que nele participara, cheia de Deus, como me dizia. E notava-se abundantemente no seu rosto, que era muito mais descoberto e aberto que outrora. Senhor padre, quando houver mais coisas assim, lembre-se de mim. Lembre-se de me informar. E lembro. E ela participa. Faz-lhe bem. Mas fica nesse consumo de experiências. E a fé não vive de um conjunto de experiências de fé. A fé não se consome. Vive-se. É um processo de vida. É um caminhar constante, mesmo por entre altos e baixos, entre momentos mágicos e momentos sem magia. É um caminho para fazer diariamente e para se alimentar da correnteza do dia, da normalidade das coisas, da quotidianidade da vida. Não lhe chega o acumular de experiências marcantes. Porque o dia a dia, mesmo por dentro do consciente, marca muito mais quem somos e quem nos fazemos, para onde vamos e como vamos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não há caminhos certos"

terça-feira, agosto 22, 2023

todos, todos, todos

O Papa Francisco tem este dom dos chavões. Frases que ficam a tinir nos ouvidos e facilmente se repetem em qualquer circunstância. Até parece que aprendeu bem uma das regras modernas da comunicação. E assim fez nas diferentes comunicações durante a JMJ em Lisboa. Podia citar uns poucos desses chavões, mas um dos que fez mais eco na boca de muitos dos habituais críticos, contra-críticos, comentadores de bancada, escritores de verbo de encher, opinion maker’s e influencer’s foi o do “todos, todos, todos”. Não se conseguem contar pelos dedos todos os que se esforçaram a tentar clarificar, interpretar e até meditar o que significavam tamanhas palavras. Grande hermenêutica. Só faltou alguém se lembrar que o Papa queria dizer “todes” em vez de todos. Muitas vezes me veio à ideia este “todes”. Então é que era um Papa fixe. Mas vamos lá falar a sério, meus amigos. Eu não percebi como é que um chavão que apenas repete aquilo que já se sabe do tão grande amor de Deus, que não exclui ninguém, que ama a todos sem distinção e que, como se percebe na cruz, enviou o Seu filho ao mundo porque quer salvar todos sem excepção, é motivo para tanta tinta e tantas opiniões e contra-opiniões. E agora sou eu que faço hermenêutica de chico-esperto. O que o Papa quis foi deixar claro, mais uma vez, que Deus ama sem medida todos e todos têm lugar no Seu coração. Afinal é isso que qualquer missionário deve dizer e o Papa não é mais que uma missão aqui na terra. E já agora, convinha que TODOS percebêssemos que também nós somos ou devemos ser uma missão aqui na terra.

A PROPÓSITO OUN A DESPROPÓSITO: "Qual é o limite para amar a Deus?"

sexta-feira, agosto 18, 2023

Não sei que dizer da JMJ

Ainda hoje estremeço ao recordar a Carminho a cantar na vigília da JMJ e o silêncio de um milhão e meio de pessoas, sobretudo jovens, diante do Santíssimo. Muito deles de joelhos. Um silêncio que foi um grito. Tenho também no coração as ruas de Lisboa cheias de alegria, de cânticos, de vivas e de muita partilha. Um entusiasmo que foi certeza de uma paz possível. A via-sacra fez-me chorar quase do princípio ao fim. Não fui o único. Quando, no final da mesma, eu e os jovens do grupo nos olhámos de lágrimas nos rostos, demos um abraço colectivo com sabor a eternidade. Foi muito bom. Sinto-me orgulhoso do meu país e da minha Igreja. Pese embora alguns pequenos ou grandes senãos, Lisboa ficou no mapa do mundo e da fé. As palavras não chegam para descrever este tanto. Participei com um grupo de jovens da paróquia e seguramente que, no meio dos imensos cansaços e quilómetros a pé, retemperámos forças. Afinal a fé ainda entusiasma. Afinal a Igreja que tem sido tão criticada é uma Igreja viva. Não é uma Igreja cansada, como se tem ouvido dizer. É apenas uma Igreja a precisar de voltar continuamente à Primavera. Não sei muito mais que dizer da JMJ. Não sei mesmo. E sei que o que disser não será nada de especial, pois não sei dizer as palavras bonitas que muitos comentadores e críticos sabem dizer. O que posso dizer é que ainda estou em modo JMJ e não quero esquecer cada segundo vivido dentro desta peregrinação. E se a pandemia e muitas outras adversidades têm atingido fortemente a Igreja, a JMJ a mim mostrou-me que o mundo tem futuro e que, dentro dele, a fé sempre será um presente. Presente como "agora" e presente como "prenda". Mostrou-me igualmente que esta geração, que muitos temos como individualista e que vive nas redes sociais, também sabe estar aberta aos outros e à realidade transcendente. A ver vamos o que o futuro nos diz ainda desta JMJ, com os frutos que cada um levou para suas casas, seus ambientes, suas comunidades. A ver vamos como continua a JMJ.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa nas Jornadas Mundiais da Juventude"

sexta-feira, julho 07, 2023

O caminho da fé nunca está terminado!

A sala estava ocupada pelos jovens da paróquia que se tinham inscrito para as jornadas mundiais da juventude. Tratava-se do primeiro encontro para prepararmos a nossa participação. A conversa foi muito informal e aberta. Sem estereótipos. Falámos da expectativa para as jornadas e do estado da nossa fé. Todos usaram da palavra. Uns mais à-vontade, outros mais a medo. Creio, no entanto, que todos foram sinceros. E ao fazermos um ponto da situação da nossa fé, numa escala de 0 a 10, eu, pessoalmente, não consegui ir além de um 8. E todos ficaram admirados com o padre, pois achavam que ele só podia autoavaliar-se com um 10. Respondi-lhes, com sinceridade, que uma fé de 10 é uma fé que para por ali, e que eu não queria parar a minha fé. Que estava convencido de ter uma fé forte, intensa. Mas que não era uma fé que não precisasse de andar mais. Tal como o amor, a fé precisa de constantemente se alimentar, aprofundar e amadurecer. O caminho da fé nunca está terminado!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Ano da Fé que bem precisamos"

quarta-feira, agosto 10, 2022

Assim é que querem que os jovens vão à igreja?!

Já não via há bastante tempo a cara daquela mãe. Não tem aparecido na missa nem outros actos comunitários. E também não nos temos cruzado na rua. Mas, porque se o filho tivesse concluído a catequese sem faltar poderia crismar-se no final do ano, veio ter comigo à sacristia para dialogar sobre a possibilidade deste fazer o crisma juntamente com os colegas que foram assíduos à catequese, nunca disseram, como ele, que preferiam não ir à catequese e nunca responderam mal à catequista quando esta perguntara porque faltara. Agora o discurso, pelos vistos, mudara. E a mãe que, segundo me disse, não sabia de nada e, tal como era previsível, a culpa era da catequista que nunca lhe dissera nada, agora estava preocupada. Há cerca de um ano que o filho não quer saber da catequese nem a mãe saber se o filho ia à catequese. Mas agora estava preocupada porque achava injusto o filho não fazer o crisma. Claro que lhe foram sugeridas várias soluções, mas ela só queria a que tinha na cabeça: fazer já... porque para o ano ele desiste. Como se ele não tivesse já desistido. Entretanto, para conseguir os seus intentos e porque tardava em consegui-los, achou que chantagear com a típica frase “Assim é que querem que os jovens vão à igreja?!” era o último recurso. Enganou-se, porque nem ela nem o filho vão à igreja. E por isso foi fácil perguntar-lhe qual seria a diferença entre estar crismado e não estar crismado para o filho e sua mãe irem à igreja.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

quarta-feira, agosto 11, 2021

A geração digital e a fé sem interesse

Durante largos anos, a Igreja, como “sociedade perfeita”, colocava o acento na firmeza e rigor doutrinal para dar credibilidade a si mesma. Nos últimos anos, porém, surgiu uma visão no sentido oposto, uma visão mais atenta aos sinais dos tempos. Por isso tem havido um esforço, e bem, para melhorar e modernizar a comunicação. No entanto, estamos a dirigir-nos para uma comunicação sem real comunicação. 
As novas gerações vivem na internet. Vivem nas redes sociais, visualizam influencer’s e gastam o tempo a receber comunicação que seleccionam nos seus interesses. E se nunca houve uma comunicação tão global como agora, também nunca houve tanta dificuldade em nos fazermos escutar. Tudo parece ruido. E no meio do ruído, até o que não o é, parece somente um ruído. 
É certo que hoje não se conseguiria chegar às novas gerações se a nossa comunicação fosse apenas como era antigamente. O problema, porém, persiste, porque o digital não cria interesse se este não existe. E para existir interesse, este tem de se suscitar no meio de milhares de interesses que se confundem. É bastante difícil transmitir a fé em tempos de uma confusão global de comunicações maioritariamente virtuais. A fé é sobretudo relacional, e no mundo virtual o relacional é mais fictício que verdadeiro lugar de afectos. 
Parece-me que a Igreja, neste sentido e como um todo, tem-se vindo a deparar com grandes dificuldades em fazer passar uma mensagem que não seja light, porque quer agradar, ou enfadonha, porque demasiado agreste. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Amizades especiais"