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terça-feira, julho 03, 2018

Tenho devoção a Nossa Senhora, graças a Deus

O senhor Joaquim Neves é um típico indivíduo que é capaz de ir a Fátima quantas vezes lhe for possível, e ir à missa apenas nas festas e nos funerais. É meu amigo de longa data, daqueles amigos que quando nos avistam num café, se dirigem a nós para saber como está o senhor padre. Não é mau homem, nem se pode dizer que não tenha fé. É apenas alguém que precisava passar de uma fé um tanto infantilizada a uma fé amadurecida. 
Eu entrara, a meio da manhã, no café, para tomar um cafezinho rápido. Mas quando o senhor Joaquim me avistou, rapidamente se dirigiu ao meu encalço e iniciou uma conversação interessada. Que isto e que aquilo, que eu tenho muita fé, que eu mais isto e aquilo, e voltava ao Que eu tenho muita fé, ou aquela expressão ainda mais comum, Que eu cá tenho a minha fé. Tá a ver, padre, olhe que eu tenho muita devoção a Nossa Senhora, graças a Deus. 
E foi nesse preciso instante que meus olhos se arregalaram. O senhor Joaquim, que possui uma fé algo infantil, e que mais rapidamente diz que tem fé em Nossa Senhora do que em Deus, acabou construindo uma frase que não me deixou indiferente. Na verdade, acabou afirmando que a nossa devoção a Maria só existe por causa de Deus. Disse-o como aquela típica expressão que usamos a toda a hora: graças a Deus isto e graças a Deus aquilo. Mas eu entendi-o como se de uma verdade teológica se tratasse.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

A pequena Sónia e a sua mãe doente, em Fátima

A Sónia é uma pequenita da terceira classe. A mãe tem uma das doenças do século, o cancro. ESta tem sofrido imenso, embora sem perder o ânimo de Deus. A Sónia percebe que a mãe sofre. A Sónia gostava de tirar a dor à mãe. A Sónia disfarça, mas sofre com a mãe. Uma vez unidas pelo cordão umbilical, toda a vida unidas. 
Encontrei-as em Fátima numa noite destas. A mãe costuma procurar-me para desabafar e contar da forma como vai lidando com a doença. Por isso aproveitámos a ocasião para uma actualização rápida. Desta vez tinha algo especialmente bonito para contar. Veja, padre, eu que não sou muito destas coisas, hoje decidi dar duas voltas de joelhos à Capelinha. Sabia que era doloroso. Sabia que não é o que mais Deus quer. Ou Nossa Senhora. Mas nesta etapa da minha vida, tento tudo. Não se tratava de uma promessa. Era tão só uma vontade. E pensei fazê-lo sem a pretensão de que Deus me cure. Era mesmo só para que Deus me desse força. E nisto, repare… Fez uma pausa para deixar sua cara sorrir… Imagine que a Sónia não deixou e disse que o faria por mim. Disse-o convictamente e impondo a sua vontade. Fê-lo, padre, com um sorriso a olhar o meu sorriso e as minhas pequenas lágrimas. E depois de dar duas voltas, veio dizer-me. Olha, mãe, dei duas voltas por ti. Agora dou mais três por mim. 
E eu que pensava que sabia o que ia no coração das pessoas que fazem estas coisas! 

vem a propósito este texto que escrevi em tempos: A criança do Santuário

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Maria e o Faça-se em mim

Há ruídos lá fora. Ouça carros a passar e vozes misturadas. Mas não as consigo definir. Parecem apenas melodias da realidade. Eu estou aqui dentro com Maria. Sim, com Maria na passagem que diz “Faça-se em mim a Tua vontade”. Parei nela. Estacionei ali. Por isso estou em silêncio, mas não sem palavras. Não sei como Maria teve essa coragem! Não é apenas um desejo. O desejo de que Deus faça alguma coisa. É abertura. Abertura total para que Deus entre e me preencha todo. Não é vontade de que algo aconteça, com o risco do acontecer que é efémero. Agora acontece e depois deixou de ser no mesmo instante em que deixou de acontecer. É a disponibilidade para que seja, para que Deus seja em mim. Maria tinha essa disponibilidade, que não era apenas para ser instrumento. Era disponibilidade de vida. A minha vida é Tua, como eu quero que a Tua esteja em mim. Por isso este Sim é a fé. Por isso a fé nos faz felizes porque se trata de amor. Por isso quero ser padre. Por isso o silêncio em mim faz mais do que o ruído lá fora.

quinta-feira, maio 01, 2014

A Maria do Céu

A Maria do Céu tem um nome bonito. É Maria e é do Céu. Tem um problema na coluna ou nas costas, que lhe tem afectado o cérebro e a cabeça, como explicou com duas lágrimas. É uma mulher sofrida. Esta doença está na moda, senhor padre. Como se as doenças também fizessem moda. Como se as doenças se vestissem de acordo com gostos ou estilistas. Elas vêm sem avisar e sem épocas, sem pedidos e sem gostos. Olhe que a gente não consegue estar sentada, deitada ou de pé. A única posição possível é a do sofrimento. A filha vai pelo mesmo caminho. Valha-me ao menos o meu nome, disse, e que este sofrimento nos traga a alegria do e no Céu. Seja o que Deus quiser, mas que me queira como o meu nome diz, Maria do Céu. Tenho um nome bonito, não tenho, senhor padre? Tem, de facto, um nome bonito e eu não disse mais nada porque ela já tinha dito o que eu teria para dizer.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

A criança do Santuário

Gosto das luzes acesas no Santuário de Fátima, que acabam o frenesim das devoções e descobrem o véu da fé. É a melhor altura para se ir dizer umas coisas a Nossa Senhora. Falar com ela da nossa vida que está para resolver. Do filho que se tem esquecido de passar pelas bandas por onde passo. Ou passa discreto e eu, de tão ocupado, não pressinto a Sua presença. A mãe não tira o lugar do filho, mas chega-lhe com mais frequência. Por isso é bom falar com ela. É a melhor altura para não me mostrar rabugento a murmurar daqueles que vão a Fátima mas não vão à missa, que depositam flores em vasos já carregados, que acendem velas como quem faz outra coisa qualquer, que percorrem o tapete de joelhos almofadados.
Estava na minha conversa amena, simples, directa, sentida, quando à minha frente uma criança dos seus sete, oito ou nove anos, sozinha, se pôs de joelhos a percorrer o centro da capelinha, olhando para os lados, orgulhosa do seu feito, como que a dizer Eu também sei fazer. Perdi-me à procura da sua família e à procura da minha conversa com Nossa Senhora. Perdi-me e só me ocorreu que nós somos homens de hábitos e as crianças cópias dos seus ídolos, familiares ou não. Para uma criança não há feito maior que conseguir fazer o mesmo que os que lhe são modelos. Ali estava ela feliz pelo feito. E nisto comecei a entabular uma rabugice com Nossa senhora, porque me questionei que fés imitam ou aprendem as nossas crianças com os cristãos que somos. Podia estar errado. Podia não ter percebido o gesto daquela criança. Podia muitas coisas, mas não consegui deixar a rabugice com Nossa Senhora.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

Apartes de Maria

Chamou-me à parte, bem à parte. São assuntos à parte, e não queria pensar que estava a pecar por pensar neles. Tire-me uma dúvida, senhor padre. Então Maria nasceu Imaculada? Sentei-me a seu lado, para sentar igualmente os pensamentos. É um assunto mesmo à parte. Que eu pouco considero. Gosto de dar a Maria o atributo de Imaculada, como o dogma o assinala. Mas não me assusta que ela não fosse assim tão imaculada, pois que Deus não escolhe os perfeitos, os sem pecado. No entanto aceito o dogma. Afinal ela foi a mãe do salvador. Mas quando a interessada da senhora Carla me fez a pergunta, e ainda por cima, uma pergunta que claramente a afrontava, fiquei dominado nos meus apartes. E continuou. Para que precisávamos que ela fosse imaculada? Quanto à sua virgindade, até consigo compreender. Mas para que é que ela havia de ter sido concebida sem a mancha do pecado original. É só uma questão teológica, não é? Admirei-me da cultura religiosa da senhora Carla. E porque concordava com ela, pese embora o risco de contrariar a noção do dogma, eu disse-lhe. Não se preocupe com isso, senhora Carla. A mim também não me preocupa. Que ela foi escolhida, foi. Que ela é a mãe do Salvador, é. Que ela é especial, é. Que ela é dos primeiros modelos de fé, é. Que ela toca profundamente cada crente, toca. Mas não me preocupa se é imaculada ou não. Ficámos ambos sossegados. Mas agora, ao escrever, sinto que algo me perturba diante do magistério e tradição da Igreja.