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terça-feira, maio 06, 2025

Entramos em conclave

Entramos em conclave. Digo “entramos” porque estou convencido que entra a Igreja toda, que entramos cada um de nós que somos Igreja. Digo-o não porque pense que os cento e trinta e três cardeais nos representam ou que todos entramos porque o nosso pensamento foca-se, por estes dias, na capela Sistina. Digo-o porque acredito que a Igreja tem no conclave a voz do Espírito da Igreja, a voz do Espírito Santo. Digo-o porque acredito que a presença da oração é tão ou mais forte que a presença física. Digo-o porque defendo que a Igreja é de Deus e não dos papas, dos cardeais, dos bispos ou dos padres. A Igreja de Deus é de todos. Por isso vejo o acto de eleição de um Papa como um acto eclesial da Igreja como um todo.
Não contesto que a eleição do próximo pontífice ocorra através de cardeais. Se me perguntassem se concordo que a escuta e o discernimento deveria ser feito por mais pessoas, por fiéis católicos que também têm o sensus fidei, eu responderia afirmativamente, pois creio que o Espírito Santo não se representa apenas nos cardeais eleitores. Aliás, alguns deles geram em mim uma série de resistências, quer por posturas ou ideologias com as quais não me revejo ou que me parecem longe do Evangelho, quer por condicionantes humanas que me parecem questionáveis ou por coisas que se vão ouvindo e que geram em nós dúvidas. Mas a Igreja não é de perfeitos e os cardeais também não têm de o ser, assim como o Papa não tem de ser. A Igreja é de Deus e quero crer que o próximo Papa será o que Deus quiser. O próximo Papa será o que a Igreja de Deus precisa.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja que não é de um Papa"

sábado, dezembro 21, 2024

O chefe do Pai Natal

Na missa de Natal da catequese, durante a homilia, no meio do diálogo com as crianças, ao perguntar se já tinham o presépio montado em casa, uma das crianças lembrou que também já tinha colocado o Pai Natal na chaminé. A assembleia riu-se e eu também. Foi, aliás, uma boa ocasião para lhes lembrar como “nasceu” o Pai Natal. Estávamos no século III, por volta do ano 260, quando nasceu, na Turquia, Nicolau, um bom homem que se tornou bispo de Myra, hoje a cidade de Demre, também no mesmo país, onde acabou por morrer a 6 de dezembro de 343, dia em que o santo é assinalado no calendário cristão. Como passava grande parte da sua vida a ajudar os outros, em particular as crianças pobres, não passou despercebido, ao ponto da sua figura se ligar às tradições de Natal nos países nórdicos, sobretudo, na Holanda, onde se começou a festejar o Sinterklaas, mais tarde Santa Claus no Novo Continente, a América, para onde foi levado pelos holandeses. Embora mantivesse alguma ligação a S. Nicolau, o Sinterklaas apresentava-se com barbas brancas, mais de roupas verdes que encarnadas, com um livro na mão onde tinha registado o nome das crianças que receberiam um presente. Já nos Estados Unidos e no século XIX, as grandes lojas passaram a comercializar a figura de Santa Claus, até que nos anos 30 do século XX, surgiu o pai Natal da Coca-Cola. O publicitário Haddon Sundblom inspirou-se no poema “Uma visita de São Nicolau”, de Clement Moore, para criar a figura do homem de barbas brancas, vestido de encarnado, com a gargalhada singular ho-ho-ho, de saco às costas para distribuir presentes pelas crianças de todo o mundo, voando num trenó puxado a renas. Já faz parte do imaginário do Natal e, desde que não ofusque a verdade e essência do Natal, creio que não vem mal ao mundo. Comentava, mais ou menos, estas coisas, quando uma das crianças, convicta e corajosa, levanta o braço e diz: Senhor padre, Jesus é o chefe do Pai Natal. Seguiu-se uma risada geral e as restantes crianças concordaram com ela. Ao menos isso. Que se perceba que o Pai Natal só existe porque o Menino Deus encarnou e nasceu para morar em nós e fazer do mundo um lugar mais feliz.


Aproveito para vos desejar um Santo Natal e um Feliz Ano Novo: Que o nosso coração tenha a porta aberta para Ele fazer aí sua morada! 

terça-feira, agosto 20, 2024

Pessoas que são o céu na terra.

Há pessoas que são o céu na terra. Gente que passa despercebida, mas deixa marcas. Gente que não vive senão fazendo o bem, vendo o bem em todo o lado e encontrando Deus em cada bem. Gente que está connosco, não porque mereçamos, mas porque a sua vida é para fazer o bem. A senhora Maria é uma destas pessoas que está sempre disposta a dar de si. É para a limpeza da igreja, é para o coro da igreja, é para ir ao encontro espiritual. De manhã à noite, ajuda o marido na horta e no quintal, faz-lhe o comer, vai às compras para o comer. Leva produtos da horta a uma série de vizinhas e necessitados. Também ao senhor prior. Tudo faz por e para quem necessita. Gasta-se nisto. Não faz nada de especial, mas tudo o que faz acaba por ser especial. De manhã à noite é um pouco de céu na terra.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quinze maçãs especiais"

segunda-feira, julho 08, 2024

Os preços dos casamentos

Na Coreia do Sul o padre que preside a um casamento recebe, no mínimo, quinhentos euros. Mesmo assim, é o custo mais barato da cerimónia, porque os noivos gastam muito mais noutras coisas. Em Portugal, mesmo que a celebração ande em redor dos cem euros, os noivos queixam-se quase sempre, falam mal dos padres e dizem que a Igreja só quer dinheiro. No entanto, acham praticamente normal gastar cerca de dois mil euros no vestido da noiva, mais mil e quinhentos euros no produtor de imagem, mais aproximadamente uns mil euros para flores e outros adornos, mais seiscentos euros para os músicos, and so on and so on... É como querer gastar pouco dinheiro com uma prenda e não se importar de gastar muito com o embrulho da prenda.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma benção especial de alianças"

quinta-feira, maio 16, 2024

Os padres e as paróquias não vivem do ar

As pessoas pensam que os padres e as paróquias vivem do ar ou dos proveitos do Vaticano. A Igreja é sempre rica por natureza na mente das pessoas. E os padres uns oportunistas. Por isso dizem que os padres só querem dinheiro e não fazem nada de graça. As mesmas pessoas que raramente são generosas com a comunidade cristã e pouco se importam se ela tem gastos e necessidades. Pressupõem que, por se tratar da Igreja, tudo é gratuito. E a verdade é que tudo deveria ser gratuito na Igreja, porque todos os seus gastos deveriam ser supridos pela generosidade dos membros da comunidade. Nas comunidades cristãs primitivas, ao que se sabe, a partilha e a hospitalidade eram características do ambiente comunitário. Agora, perdeu-se o sentido da “comunidade” e ganhou o sentido do “supermercado” numa sociedade consumista até ao nível religioso. A missão dos padres é gratuita e deve ser desinteressada. As paróquias estão abertas de modo desinteressado e desprendido. Mas o ar não paga as contas e ninguém vive do ar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não há engano que pague a nossa generosidade"

quarta-feira, setembro 20, 2023

A generosidade dos pobres

Esteve em Roma o tempo suficiente para conhecer algumas ruas de cor e alguns dos seus habitantes. Naturalmente que ia algumas vezes à Praça de São Pedro. Ali perto, encontrava sempre um casal sem-abrigo, ele sentado numa cadeira de rodas, ela sentada a seu lado, muitas vezes a fazer tricô. Saudavam-no sempre que passava. Buongiorno, padre. Reconheciam-no no meio dos transeuntes, porque ele também os saudava. Uma manhã, ao passar junto deles, a senhora pediu-lhe uma ajuda diferente da moedinha habitual. Que ajudasse o marido a levantar-se do seu cobertor estendido no chão e o colocasse na sua cadeira de rodas. Nem o cheiro do descuido o impediu de se dispor prontamente a levantá-lo e a ajustá-lo na cadeira. No final, delicada e muito agradecida, a senhora perguntou-lhe se aceitava um café, que ela teria todo o gosto em oferecer-lho.
 

segunda-feira, março 13, 2023

A senhora de papelão

Caminhavam numa rua de uma cidade grande, mãe e filha de cinco anos, quando tiveram de passar junto a uma senhora deitada no passeio, embrulhada por uns papelões de um bege sujo pelo uso, mal-vestida, mal-arranjada, a chorar. Estava frio. A mãe e a menina iam com pressa, porque tinham uma consulta marcada no médico e não podiam atrasar-se, mas a filha não retirava os olhos da senhora dos papelões. Uns bons metros depois, largou a mão da mãe, pôs-se em frente dela, obrigando-a a parar, e perguntou porque é que a senhora estava a chorar. A mãe tentou explicar-lhe que ela deveria estar a chorar por causa da dificuldade da vida, porque não deveria ter casa para se abrigar do frio, cama onde dormir e prato onde comer. Como as crianças destas idades nunca se contentam com uma pergunta, a pequena disparou de imediato: Então porque é que tu não a ajudaste? A mãe ficou desarmada por fora e sobretudo por dentro, deixando que as lágrimas da senhora de papelão chegassem ao seu rosto. Com a maior honestidade possível, baixou-se e explicou à filha que tinha errado muito ao não ajudá-la. A pequena limpou-lhe algumas lágrimas e abraçou-a. Abraçaram-se. E aquela mãe, ainda hoje, quando conta esta pequena história, chora como a senhora de papelão. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O Carlos que é meu sacristão"

terça-feira, março 07, 2023

A nota sem dono

Era seu costume levar sempre qualquer coisa ao mendigo que estava sentado no seu posto de abrigo, ao sair da faculdade. Uma peça de fruto, um chocolate, uma moeda, uma notita. Chegou a levar-lhe um maço de cigarros, porque ele fumava. Ao princípio achou estranho que um mendigo fumasse quando tinha necessidade de tantas outras coisas. Mas depois foi percebendo que era assim que ele gastava a vida, porque não tinha outro modo de a gastar. E aceitou-o como ele era. Foi a descoberta mais bonita que fez da mendicidade. Não julgar quem é mendigo. Tornaram-se amigos, ao ponto do mendigo dizer bom dia e boa tarde sempre que se viam, e ao ponto deste meu colega padre o chamar do meu amigo mendigo. Estas coisas não se contam e ele só mas contou porque, há dias, quando se aproximava do transporte para casa, encontrou uma nota de dez euros no chão. Pegou nela, percebeu que não era possível encontrar-lhe o dono. E no outro dia, de manhã cedo, antes de entrar na faculdade, depois do bom dia habitual e de um trocar de pequenas palavras, arranjou um novo dono para a nota, o seu amigo mendigo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quem olha para dentro, desespera"

sexta-feira, março 03, 2023

o obrigado

Passara um ano desde que, como me recordou, estivera a desabafar comigo por causa de um grande problema que, na altura, estava a viver. Na ocasião, entrara na sacristia, acompanhada das lágrimas, para uma palavra que se transformou em muitas palavras. Entrara com o peso da dor e precisava dividi-lo com alguém. Hoje regressara, porque viera a uma missa pela intenção especial de uma amiga que falecera, entretanto. Vinha de braço dado com a filha, a dor que ela precisara desabafar há um ano. Cruzámo-nos no final da missa e, já na rua, veio ao meu encalço para perguntar se me recordava de há um ano a ter acolhido na dor. Naturalmente que eu já não lembrava pormenores, mas ela lembrava cada atenção, cada olhar, cada palavra, cada segundo que eu investira nela. E por isso, dizia, venho agradecer-lhe. Ainda não tinha tido oportunidade de o fazer. E insistia. Padre, tenho tanto que lhe agradecer. A filha interrompeu-a, para concordar com ela. Respondi que eu era somente um instrumento de Deus. Que lhe agradecesse a Ele. Porque era Ele que fazia tudo. É Ele que faz tudo. Nós somos apenas seus instrumentos. Apesar de até concordarem comigo, ambas referiram que então eu era um bom instrumento de Deus. E repetiram. Obrigada. Foi bom ouvi-lo nestes tempos constrangedores e confrangedores. Obrigado. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padre com fé"

segunda-feira, fevereiro 13, 2023

as lágrimas do Isidoro e as lágrimas do padre

O Isidoro é um homem de fé, que não falta nunca à missa e ajuda no que pode. A idade começa a notar-se, mas não desiste de dar o seu contributo na comunidade cristã. Digamos que é tímido e discreto, mas conversamos o suficiente. Para além disso, vai conhecendo o seu pároco e sabe que ele procura estar atento aos seus, sobretudo os doentes. As suas homilias falam muitas vezes do sentido da vida e do sofrimento, da morte como caminho da ressurreição e das forças que brotam da fé. E o senhor Isidoro adoeceu. De um momento para o outro, aquilo que parecia uma dor de estômago, passou a ser um caso complicado de cirurgia urgente. Ele já tinha tido a sua dose de sacrifício e dor em outras operações. A operação não correu mal, mas o recobro foi muito difícil. Segundo me contou, viu a morte várias vezes. Até porque estava quase pele e osso. Mas, sabe, padre, houve uma noite que sonhei consigo. E as lágrimas caíram-me. Não era por medo. Era por me lembrar de tantas coisas que o senhor fala e que eu precisava ouvir novamente. Naquela noite, desejei muito ouvir novamente o senhor e reconhecer em si, como instrumento de Deus, a força que eu precisava. O Isidoro contava isto, entre soluços. E a mim vieram a correr duas pequeninas lágrimas de comoção. É que Deus faz coisas através de nós que nem nós sabemos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

sábado, julho 16, 2022

os custos do gasóleo

Os custos com o gasóleo e a gasolina estão por demais. Cada cêntimo poupado parece um ordenado ou sabe a uma vitória. Anda tudo à procura das gasolineiras onde estão os maiores descontos. Encontrei uma e aproveitei para atestar. Não consegui calar a mangueira a tempo dos 74 euros e o custo foi parar aos 74 euros e três cêntimos. Quando fui pagar, entreguei à jovem empregada várias notas num total de 75 euros e, para lhe facilitar a vida, entreguei-lhe três moedas de um cêntimo. De troco, entregou-me 1 euro e trinta cêntimos, e o tempo de regresso ao carro foi gasto a pensar que a conta deveria estar mal feita. E estava. Assim que olhei bem o recibo, percebi que ela se enganara e me dera 30 cêntimos a mais. Com os 30 cêntimos na mão, voltei à loja, dizendo-lhe que se enganara. Muito aflita, respondeu que já me dava 1 euro, pois que se devia ter esquecido. Quando lhe expliquei que o engano era a seu favor e que aqueles 30 cêntimos eram seus, ficou a olhar para mim como se não fosse normal alguém dar-se ao trabalho de devolver aqueles poucos cêntimos que toda a gente anda a tentar poupar. Eu também.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A irmã Graça"

quinta-feira, junho 23, 2022

As horas cansadas da missão

"apesar da hora e cansaço"
O telefone tocou numa hora tardia, no final de um domingo desgastante e desgastado. O que menos me apetecia era atender. Mas o volume do som não o permitiu. Estou sim. Do outro lado uma voz feminina perguntou se era da Igreja da terra tal. Não era da Igreja, mas era do seu pároco. A voz estava aflita e embargada. Esperava uma mensagem ou um telefonema da filha que fazia voluntariado naquela terra e naquele dia não dera sinais de vida. Por mais que a mãe tentasse ligar, ela não atendia. A mãe estava numa aflição sem nome. Ligou a pensar que era uma boa ideia contactar uma instituição humanizadora como a Igreja. Estávamos a tentar encontrar uma solução para chegar a alguma luz quando a filha entrou pela casa da mãe adentro. Decidira fazer-lhe uma surpresa. E ficámos ambos mais tranquilos. Muito mais tranquilos. No dia seguinte recebi uma mensagem do mesmo número a agradecer por ter sido tão atencioso e disponível, embora cansado e a desoras. Agradeci de igual modo, dizendo que esta era também a nossa missão, e que na missão não há horas nem cansaço… apesar da hora e cansaço adiantados!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Há dias assim"

segunda-feira, março 28, 2022

A Igreja dos pobres

Gesticulava para que aqueles que o ouviam entendessem a intensidade das suas palavras e a força da sua intenção. A Igreja tem de fazer a opção preferencial pelos pobres. Isto é o que repete continuamente o papa Francisco. Isto é o que o concílio Vaticano II disse e ficou oculto entre palavras e documentos. E que agora a teologia, influenciada pelas tendências da América Latina, trazidas aos de cima com auxílio do mesmo papa, mais referem. O dedo no ar voava junto com as frases afirmativas. Ou imperativas. E depois para se justificar, deu um exemplo. Vem um pobre à igreja – referindo-se ao templo – e não lhe fazemos caso, deixando-o ao fundo da igreja. Vem um rico ou importante, e levamo-lo para a primeira fila. E neste momento, o dedo esgrimia-se como uma espada apontada aos ouvintes. Quase a gritos, disse Quem deveríamos levar para a primeira fila era o pobre. 
 Ou seja, este amigo entusiasta pelo lugar teológico dos pobres, como ele fazia questão de salientar, estava tão focado nos pobres que, afinal, a única coisa que mudava era o lugar do pobre. Ele passava o pobre para a frente da igreja, por causa da sua condição de pobreza. Quando, na minha humilde opinião, se devia olhar para a nossa Igreja – referindo-me ao conjunto de seguidores de Cristo – como o lugar teológico dos iguais entre iguais, sem qualquer tipo de discriminação, ainda que esta pareça ser positiva. Eu sei que não se deve tratar o pobre como se ele não fosse pobre. Assim como defendo que a paternidade ou maternidade da Igreja e de Deus se concretizam num amor segundo as necessidades do amado ou amados. Nesse sentido, a Igreja deve esforçar-se por prover ou diminuir as necessidades materiais – ou outras - dos pobres. O que eu não concordo é que se tratem os pobres como se a condição deles, embora mais assinalada e defendida por palavras, teologias e pastorais, seja uma condição inferior às outras. Creio que os verdadeiros pobres – e não me refiro propriamente aos indigentes ou pedintes de esmolas – gostam de se sentir iguais entre os iguais. Ou estarei errado?!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "a solidariedade que não se faz de cima para baixo"

quinta-feira, março 10, 2022

Se as mulheres parassem, a Igreja parava.

Não era uma campanha feminista ou coisa do género. Era um diálogo um pouco surdo, ou em surdina, entre duas gerações de mulheres que se dedicam com alma à Igreja, na comunidade onde vivem e celebram a fé. O diálogo ocorreu na minha presença. Uma presença discreta, a minha, que as deixou falar à vontade. 
Uma das mulheres, a mais velha, está habituada a servir o marido e todos os demais à sua volta. Fá-lo com uma generosidade ímpar. A outra, a mais nova, gasta-se a servir como se a sua missão lhe viesse de uma vontade de ser útil, estar presente, ser uma voz entre iguais, fazer o que tem de fazer porque entende que vive numa sociedade e numa Igreja que precisa dela e do seu carisma. A segunda exaltava o papel das mulheres. A primeira apagava o papel das mulheres. Uma esgrimia argumentos a dizer que elas eram imensamente importantes na Igreja. A outra esgrimia poucos argumentos. Ouvia mais que falava. Gostava do que ouvia, mas não precisava disso para fazer o que fazia na comunidade. Era uma mulher submissa. Talvez ainda haja mulheres que sentem ou vivem a palavra “submissão” como subjugação, dependência, servidão, subordinação, sujeição, vassalagem. Eu prefiro entender a palavra como entrega humilde, como disponibilidade. Mas entendo que seja uma palavra difícil, tanto de entender como de usar. Estava interessante a conversa daquelas duas mulheres. Eu gostava do significado das palavras, inclusive dos silêncios e das pausas. Daqueles dois exemplos de fé professada, celebrada e vivida. Na primeira pessoa, ou na segunda ou na terceira. Dava igual. 
Sem as interromper, anotei. Se as mulheres parassem ou fizessem greve nas comunidades cristãs, a Igreja parava. De facto. As mulheres são quem mais trabalha nas comunidades cristãs, quem mais ocupa ministérios litúrgicos e pastorais, quem está mais presente, quem mais se dedica à Igreja. Ei-las no coro, no ambão, no zelo dos altares, na catequese, nos grupos de oração, nos encontros espirituais, na acção socio-caritativa, e por aí fora… Apesar da  hierarquia da Igreja ser constituída só por homens, atrevo-me a dizer que cerca de 95% das comunidades cristãs, no seu todo e no seu particular, são asseguradas por mulheres.
Mais depressa a Igreja parava sem as mulheres que sem os homens. Se as mulheres parassem, a Igreja parava. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

domingo, fevereiro 13, 2022

“assassinado pela indiferença”

No centro de Paris, numa rua movimentada, no passado dia 18 de Janeiro, o fotógrafo René Robert, de 85 anos, depois de ter saído de casa, após o jantar, para um passeio, não se sabe ao certo como nem porquê, caiu inconsciente. Ali permaneceu caído cerca de nove horas, exposto ao frio numa noite em que as previsões meteorológicas apontavam para temperaturas de 3ºC. Levado para o hospital, depois que um sem-abrigo chamou os serviços de emergência, já pelas 6h30 da manhã, foi-lhe diagnosticado um traumatismo craniano e uma grave hipotermia como causa do óbito. Foi um desalojado da sociedade, um sem-nome, quem deu o alarme. Mais um dos que não conta. E um jornalista, amigo do fotógrafo, ao falar do assunto, intitulou-o de “assassinado pela indiferença”. Como de facto, assassinado por uma sociedade que tem opinião para tudo, mas que é indiferente a tudo. Uma sociedade que defende a diferença, mas não dá conta do outro. Uma sociedade formada por indivíduos que não se olham senão a si próprios. Paradoxalmente plural e individual como nunca na história do mundo. Uma sociedade em rede desligada. Uma sociedade feita de pessoas que vivem, sozinhas, ao lado uns dos outros!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O sacrário está vazio"

segunda-feira, novembro 15, 2021

O Antoninho das flores e das almas

No domingo passado, o petiz foi com a mãe a uma paróquia vizinha limpar e cuidar das campas dos avós paternos da mãe. Foi no fim-de-semana dos finados e das romagens. De manhã cedo, o Antoninho, que tem a idade de quem entrou este ano na escola, acompanhou a mãe com entusiasmo. Ele gosta de ajudá-la. Ao chegarem junto da igreja, quis ir ao cemitério antigo, que quase pega com as paredes da igreja. Ao entrar, reparou que eram muito poucas as campas arranjadas com flores. Achou estranho porque no outro cemitério havia muitas flores por todo o lado. Por isso perguntou à mãe. Mamã, estas alminhas não foram muito amadas pois não? A mãe explicou que já não deviam ter quem cuidasse das suas campas. Ele fez um silêncio do tamanho dele, isto é, pequenino, e disse. E nós, porque não as amamos? Podíamos trazer algumas flores para estas também. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A chaveira"

quarta-feira, março 24, 2021

Estou com um coração nas mãos

Estava aflita. Era o adjectivo mais adequado ao seu estado de vida e de saúde. Ainda não sabia o que tinha. Andava a fazer exames. Já fizera vários. Mas a ansiedade e a dor não paravam. Deixava que uma e outra se transformassem em aflição. A doença da aflição. Senhor padre. Estou com o coração nas mãos. Aqui está o principal sintoma da aflição! Ter o coração nas mãos. 
E quantas vezes o coração nos vem parar às mãos, sem sabermos o que fazer com ele! Nestas circunstâncias, a melhor solução é, a meu ver, pedir o apoio de outras mãos. Na verdade, todas as coisas pesadas se tornam menos pesadas se forem seguras ou levantadas por várias mãos. Tudo o que nos pesa pode ter menos peso quando procuramos outras mãos. Dar as mãos é quase como dar o coração. E quando se partilha o coração, outros corações ganham vida! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sinto-me uma pecadora"

sexta-feira, janeiro 22, 2021

ser bom ou fazer o que tem de ser

Veio ter comigo porque estava muito incomodada desde há uns três ou quatro dias a esta parte. Tinha dito a uma pessoa amiga um Não que lhe custara dizer. Que lhe custara dar. Estava habituada a dar-lhe sempre um Sim, mesmo quando ela não o merecia muito. Abria as suas portas e as portas da sua casa sempre que a outra amiga precisava. Fazia-o com amor, por amor, e mesmo que ela não o merecesse. Dizia-me isso porque esta vinha muitas vezes para sua casa, com familiares incluídos, onde dormia e comia sem problemas, e há umas duas dezenas de anos que não a retribuía com um convite a visitá-la em sua casa. Morava longe. Mas tão longe como ela da sua casa. A mesma distância. 
E agora, dizia-me, teve necessidade de pernoitar na terra onde ela morava. Precisara mesmo, senão não lhe tinha endereçado nenhum pedido. E sabe qual foi a resposta, senhor padre? Sabe? Não tenho cama para ti. Fosse como fosse, até porque lhe bastava um chão com uns cobertores. Não precisava senão ter onde ficar, para não ficar ao relento ou não ter de pagar um hotel ou pensão. E a amiga fechara-lhe a porta que já há anos não lhe abria. Custou-lhe. Não porque se sentisse traída na sua bondade. Ficara apenas sentida com o modo como a amiga tinha sido ingrata, sem grandes explicações. 
Mas passaram poucos dias, mesmo muito poucos, senhor padre, e a amiga pedira-lhe, novamente, asilo. O marido até se tinha zangado. E ela disse que não. Que desta vez não podia. Mas isso incomodava-a, até porque tinha para si, na sua forma de ser cristã, a meta da bondade sem interesse. 
Não lhe respondi para a sossegar. O que lhe disse, disse-o porque o penso assim. Uma coisa é ser bom. Outra coisa é fazer o que tem de ser, o mais correcto. Devemos sempre fazer o bem. Mesmo quando nos fazem mal ou não nos fazem bem. Devemos fazer o bem, como diz o ditado, sem saber a quem. Mas, às vezes, há coisas que temos de fazer porque têm de ser feitas, por bem. A amiga dela precisava de uma lição. Não podemos confundir ser bom com ser condescendente. Aquela sua amiga precisava de aprender a ser boa também. Ensinar alguém a fazer o bem é um grande gesto de bondade. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Carlos que é meu sacristão"

quinta-feira, novembro 19, 2020

Tratar dos pobres

Curvado pela idade, com a ajuda de uma bengala, o senhor José bateu à porta do senhor prior. Estava na hora do almoço, mas era dia mundial dos pobres e o senhor José tinha pressas de fazer o bem. Trazia um envelope no bolso para o senhor prior dar aos pobres. Quando o pároco lhe abriu a porta, achou estranha a hora deste amigo que admira muito. A missa tinha acabado há poucos minutos. Ó senhor José, tinha tempo. Não era preciso ter vindo agora. Mas o senhor José tinha a tensão muito alta e não baixava. Já tomara duas vezes a medicação e a tensão não baixava. Tinha de ir ao centro de saúde. Mas não queria ir sem antes deixar o envelope. Ó senhor José, tinha tempo. Teria sido mais prudente em ir primeiro ao centro de saúde. Ai, senhor José, reclamava o padre, um pouco preocupado. 
Mas o senhor José, antes de tratar de si, tinha de tratar dos pobres da paróquia. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A Rosária"

sexta-feira, setembro 04, 2020

Os abusos da caridade

Ligavam e pediam. E a Manuela, minha paroquiana, dava. Ligavam e pediam. E a Manuela dava. Continuavam a ligar e a pedir, e a Manuela dava, mesmo sem o marido saber. Mesmo sem conhecer muito bem a instituição do outro lado da linha do telefone. Mas podia dar. E dava. Aprendera que a caridade é dar sem saber a quem. Mas, como nem tudo parece o que é, ou é o que parece, no último ano, tornaram a ligar, e a Manuela, porque o seu marido acabara de falecer, porque achava que não era oportuno, porque estava sem vontade anímica para nada, explicou humildemente que o momento não era muito bom, que compreendesse, pois o marido falecera há pouco, que talvez noutra ocasião. E então ouviu do outro lado da linha algo que lhe perfurou o coração através dos ouvidos. Porque é que me está a mentir? A senhora está a mentir, só para não dar. Padre, foi como se tivesse bebido água ardente a pensar que era água natural. Nem consegui desligar o telefone. Foi a menina do outro lado que o desligou. A menina também não precisava dizer mais nada. Agora a Manuela percebera tudo. Finalmente. Há pedidos de caridade estranhos. Esquisitos. Ou melhor, fora da caridade. Verdadeiros abusos para quem vive a caridade e da verdadeira caridade. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Pobres de rua"