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quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Deus baixíssimo

O Altíssimo abaixou-se para ser o Baixíssimo. Assumiu a carne frágil da humanidade. Depois subiu novamente. Mas subiu para o lugar da morte, a cruz. Subiu para baixar ainda mais. Para baixar aos mais periféricos dos periféricos, os criminosos. Devo dizer que me custa imenso pensar num Deus que se deixa associar aos criminosos! Não há baixeza maior! O Deus que tudo pode, baixa-se como nenhum de nós se baixa. Basta pensar nas vezes em que buscamos algum tipo de superioridade em relação ao nosso próximo, em relação ao nosso semelhante. Apesar de ser um gesto que se tem vindo a perder, mesmo nos momentos mais íntimos da liturgia, ainda há quem se ajoelhe diante de Deus. Pergunto-me, no entanto, se não será um rito sem verdade quando não aprendemos a baixar-nos de verdade. O Papa Francisco dizia que a única ocasião em que devíamos estar acima de alguém era quando estendíamos a mão para levantar essa pessoa. Infelizmente, mais rápido nos achamos mais superiores que os outros e os tentamos abaixar a nós. Deus baixíssimo nos ajude! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Indizível amor"

sábado, novembro 01, 2025

A formação nos Seminários

A tradição tridentina dos seminários modelou uma geração de sacerdotes separados do mundo e do Povo de Deus. Com razão, o concílio de Trento insistiu na necessidade de formar os padres porque estes tinham uma formação muito frágil. No entanto, o afastar os seminaristas da realidade em que vivem e hão-de um dia servir, gera uma tendência ao clericalismo, ao espírito de castas e eleitos, promovendo a sensação de superioridade em relação ao Povo de Deus. A figura do sacerdote reveste-se, deste modo, de uma sacralidade excessiva que, mesmo sem querer, o vai afastando da realidade que é o mundo. Os seminários não podem formar presbíteros distantes, autorreferenciais ou rígidos. Devem formar pastores verdadeiramente humanos e próximos das pessoas. Devem formar acompanhadores dos fiéis e não ministros do culto. 
Com frequência a formação nos seminários tem privilegiado a separação, a sacralização da figura clerical e o autoritarismo, em vez de formar para o serviço, a humildade e a proximidade com o Povo de Deus. Depois de um concílio Vaticano II pendente, parece que volta esse estilo de formação, ou melhor, de candidatos que buscam esse tipo de formação. Temos de rezar mais pelos seminários, pelos seminaristas e seus formadores, pelos candidatos ao ministério ordenado e pelos responsáveis da pastoral vocacional, para que se procurem e encontrem caminhos que formem ministros da humanidade e do amor de Deus, e não tanto ministros do culto, sem mais.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As perguntas que hoje faço"

domingo, setembro 28, 2025

Não tinha medo de morrer

Os últimos cinco anos foram passados com a quimioterapia ao peito. No verdadeiro sentido da palavra, era frequente trazer um fio ao pescoço com a quimioterapia pendurada. O que mais estranhava neste colega presbítero era a alegria que, mesmo assim, também transportava. Algumas vezes não resisti em dizer-lhe como isso me fazia bem. E ele apenas respondia que não era nada. E ria-se. Era como se se risse do cancro que se apoderara dele. Nos últimos tempos, o bispo quis dispensá-lo dos serviços paroquiais que se tornavam cada vez mais difíceis. Não desistiu até ter de ser levado novamente ao hospital onde lhe detetaram uma série de metástases em locais do corpo onde já não era possível atacar o maldito cancro. Restava esperar. E foi o que fez, consciente de que não se tratava de esperar o fim, mas esperar em Deus. Dizia o seu irmão, por sinal, igualmente presbítero, que ele repetia constantemente que não tinha medo de morrer porque sabia que ia ressuscitar. Em tom de brincadeira, também ia dizendo que os “bichos” não haveriam de o vencer e levar a melhor, pois quando morresse eles deixariam de ter que comer e morreriam, enquanto ele haveria de ressuscitar. E assim foi… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte XI, outro jovem"

sexta-feira, agosto 15, 2025

Quem te desceu da cruz

Não fui eu quem te desceu da cruz. Não fui eu quem deixou o teu corpo cair e repousar sobre o meu, buscando amparo. O teu corpo estava, de facto, desamparado e, por pouco, quase não tinhas onde ser sepultado. Fizeste-me lembrar tanta gente que morre sem um funeral, sem uma sepultura e sem nome. Surgiu então, do meio da multidão, um homem de Arimateia, um homem rico, um ilustre do sinédrio, que tinha por ali perto, situado num horto, um túmulo que ainda não havia sido usado, e pediu para abrigar teu corpo frio e inerte naquele lugar. Ainda hoje penso nas pessoas que se cruzaram contigo no caminho e aprenderam a fazer o bem, sem esperar nada em troca. Muitos deles eram e são, como este homem, gente ilustre e rica, mas gente com um pedaço do coração de Deus. Na verdade, não importa o que se tem, mas o que se faz com o que se tem. São homens e mulheres onde entraste um dia e nunca mais morreste neles.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

quarta-feira, março 19, 2025

Bom dia, pai. Conta-me o céu.

Bom dia, pai. Hoje acordei com vontade de saber como é o céu. Não o céu das nuvens, mas o céu de Deus. Não o céu de onde vem a chuva e o sol, mas o céu onde o mundo não acaba, onde o amor é o ar que se respira e a felicidade a única forma de viver. Diz-me, meu querido pai. Tu que já moras nesse coração de Deus, conta-me como é o céu. Diz-me de que é feito o céu. Diz-me se é feito de corações. Diz-me se tem areia que se pega nos calcanhares quando se caminha sem tocar o chão, ou se tem rios de águas cheios de flores. Diz-me se as palavras que se ouvem são músicas ou sorrisos com som. Diz-me, pai, como é o Pai. Se o vês de todo o lado ou por dentro. Diz-me se também Ele é feito de corações. Diz-me se têm portas as casas a céu aberto e se moras com a mãe bem juntinha a ti à espera dos filhos. À espera de mim. Tenho muitas saudades vossas. Estás a ver-me da janela do teu quarto do céu? Conta-me, pai. Conta-me o céu. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

quinta-feira, janeiro 16, 2025

O último beijo

Lembro-me bem do teu último beijo. Foi o último dos teus murmúrios de beijo. Tirei-te a máscara de oxigénio, encostei a minha cara nos teus lábios e tu moveste-os na direcção dela. Só isso. Mas tanto e sem medida. Mentiria se não dissesse que guardava cada beijo com receio que fosse o último. Fazia por guardar cada milésimo de segundo do movimento de cada beijo em ralentando. Era a minha forma de lidar com o adeus a qualquer hora. É difícil desmistificar as partidas, desconstruir a vida humana num segundo de morte que se arrasta. É difícil viver a pensar nisso. E não obstante, é a sequência natural da vida. E depois lembro esse beijo. Lembro-o bem. Lembro que fechei os olhos ao aproximar-me dos teus lábios. Foi o gesto natural de quem queria encerrar o beijo por dentro para o poder ir buscar sempre que precisasse. Como agora. Na altura fui o filho mais feliz do mundo. Desde que ficaras a oxigénio que apertavam as saudades dos teus murmúrios de beijo. Por isso fui o mais feliz dos filhos. A felicidade não cabia em mim. Foi o último beijo. Tinha quase a certeza que o seria. E hoje fui buscá-lo. E de olhos abertos, cai uma lágrima, sem que a consiga guardar dentro de mim… como guardei esse beijo. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai" e "O beijo do meu pai"

sexta-feira, janeiro 03, 2025

A filha que berra

Tem cinco filhos e já não sai da cadeira de rodas sem ajuda. Embora esteja muito consciente de tudo, ali fica à mercê de quem a ajude. Não é muito velha. Apenas tem uma doença que a impede de fazer as coisas mais básicas sem ajuda. Tem cinco filhos, todos eles muito bons, senhor padre. É o que me diz. Só se queixa de uma filha. Diz que ela é uma força da natureza e é quem cuida de mim, senhor padre. Mas também diz que ela tem um feitio muito difícil. Os outros quatro não. No entanto, quando lhe pergunto se os outros eram capazes de estar ali com ela diariamente a cuidar das suas necessidades, a tratá-la, olha para mim com olhos de quem está a pensar no assunto pela primeira vez e diz que, na realidade, é capaz de ser muito difícil. Ora, portanto, a filha que vive sempre preocupada com ela e que a cuida, é a mesma que, às vezes, lhe berra porque não tem paciência quando a mãe não faz o que lhe pede. É certo que, às vezes, a ameaça de a colocar num lar. Mas também é aquela que está sempre ali e que a mãe tem de ouvir. Porque está ali. Porque se esforça. Porque se preocupa. Porque, com certeza, a ama. Olhe, sugeri, diga-lhe muitas vezes que a ama.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A pequena Sónia e a sua mãe doente, em Fátima"

domingo, dezembro 15, 2024

Chegou a Hora do meu pai...

Chegou a hora do meu pai. Chegou a hora de passar da condição mortal à condição de imortalidade na vida eterna. Quero dizê-lo com H grande e digo, aproveitando para colocar outra maiúscula no meu pai. Chegou a Hora do meu Pai. Não quero esconder os dias difíceis que atrasaram os meus afazeres, mas não atrasaram o meu coração. Muito pelo contrário. Acompanhei os últimos tempos do seu sofrimento, para que lhe pesasse um pouco menos. Ele ficava mais tranquilo quando eu estava, e estive tanto quanto me deixaram estar. E eu também tranquilizava. Esgotei-me por dentro e por fora. Porém, em tudo consegui ir vendo o dedo de Deus. A festa da partida foi muito bonita. Foi uma grande festa de acção de graças. Não tinha ainda contado aqui, mas meu pai era diácono permanente. Por isso, o meu bispo acabou por presidir à Eucaristia. A homilia foi minha. As leituras da minha família. O canto dos meus amigos. Igreja cheia. Cheia com antigos e novos paroquianos. Cheia de testemunhos de gente que, como diziam, fora meu pai que os levara à fé. Chorei tanto quanto consegui. E sorri ainda mais. Quem nos conhece e conhece a relação de pai e filho que tínhamos, sabe que éramos muito cúmplices. Sempre o fomos. Entretanto, a partida da minha mãe fez-nos viver estes vinte e três anos muito mais um para o outro. Até porque a fé e o modo de entender Deus nos unia imenso. Assim como o ministério ordenado. Diziam as minhas manas que quando lhe faziam uma proposta, obtinham sempre a mesma resposta. Tenho que falar com o vosso mano. Por isso não admira que tivéssemos passado juntos grande parte dos últimos dias antes da partida. Muito rezámos juntos também. Ou eu rezava e ele acompanhava-me. Eu rezava e ele tentava respirar a custo a minha oração. Devo-lhe a ele e à minha saudosa mãe, não só a vida, como grande parte da fé e da vocação. Só posso estar grato a Deus pelos pais que tive. Por isso foram muitas horas de acção de graças, que ainda se prolongam hoje. Para que meus paroquianos compreendam porque ando alegre, explico que não sou super-homem e que sofro como qualquer ser humano sofre na partida de quem ama. Mas a fé é muito mais forte que a dor. O meu pai partiu, mas vem constantemente ao pensamento. E eu sou feliz. Sou feliz pelo pai que tive na terra e que ainda tenho no coração.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Feliz dia do pai" e "Obrigado pela fé que me destes"

quinta-feira, novembro 21, 2024

Não tive tempo de me despedir

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O pai estivera com ele na mesa de jantar na noite anterior. De manhã ligaram-lhe para dizer que o pai partira. Não teve tempo para esperar a partida. Não teve tempo para o ver partir. O pai sempre lhe dissera que gostaria de morrer de repente e sem dor, e Deus ouvira o seu pedido. Mas o filho não tivera tempo para dizer adeus ao pai. E isto desesperava-o. Não tive tempo de me despedir, padre. Não tive. E repetia. Não tive. Mas teve. E tive de o recordar que teve. O senhor teve cinquenta e dois anos, tantos quanto a idade que tem, para se despedir dele. Os dias começam e acabam todos os dias. Cada dia é mais um dia para mostrarmos uns aos outros como nos amamos. Cada dia é um dia de amor e despedida. 
Já lá vão uns três anos desde que tivemos este diálogo. Eu nem me recordava. Mas há dias fez questão de mo recordar, porque, dizia ele, não sabe as vezes que eu tenho dito as mesmas palavras a outras pessoas tal como o senhor padre mas disse a mim! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Estava capaz de gritar"
 

sábado, novembro 16, 2024

ficamos “bem mas bem”

O tempo pára quando me ligam do lar. A única coisa que acelera é o coração. Quando na outra segunda-feira me ligaram para me dizer que algo de errado se passava com ele, que não conseguia deglutir, a esperança era de que a chamada fosse apenas para dizer que iam resolver tudo rapidamente e que era só para ter conhecimento da situação. Mas não foi. Teve de ser levado ao hospital, onde lhe detectaram uma infecção respiratória. Pelos vistos, uns dias antes, tivera uma queda sem explicação. Pelos menos ninguém ma deu. Confio em Deus, consciente – porque a gente vai sabendo destas coisas – que uma queda nestas idades é uma queda sem fim e que uma infecção respiratória é igualmente uma queda sem fim. Foi também isso que o médico, por outras palavras, informou. O meu pai é forte. Desde que, com os seus sete anos, ia ajudar o meu avô na pedreira, se fez um homem forte e resistente. É o que está a fazer valer neste momento. Respira com dificuldade. A saturação do oxigénio está sempre a querer baixar. Nem os litros do oxigénio chegam para tudo. As secreções acumuladas não deixam. A febre vai e vem. A morfina ajuda a dor. Mas ele é forte e resistente. Foi assim que Deus e a vida o fizeram. Logo no dia em que o médico falou o que é difícil ouvir, que os quatro filhos nos deslocámos para dizer tudo o que tínhamos para dizer. E dissemos a despedida, com as palavras emocionadas, mas verdadeiras, de quem tem tanto a agradecer a um pai como o nosso. Pai, amamos-te muito e gostaríamos de te ter eternamente connosco. Mas a eternidade não é aqui, e quando quiseres partir, que saibas que nós ficamos “bem mas bem”, expressão tão tua essa do “bem mas bem”. Dizem que os trânsitos destas horas são difíceis. Mas como pai e filhos acreditamos na ressurreição e no Amor infinito de Deus, as palavras saíram com mais facilidade. Eu estou tranquilo. Tenho imensa fé na ressurreição e por isso não estou assustado. Já o entreguei a Deus e faça-se segundo a sua vontade. Estou mesmo tranquilo. A verdadeira Esperança não engana. Isso não significa que não tenha o coração bastante apertado e que a espera não me canse. Aproveito para estar com uma mão agarrada à dele e com a outra a passar-lhe no rosto. Amo-o muito, e não me canso de lho repetir. Um dia de cada vez. Uma hora de cada vez. E a vida continua. Porque a vida vive-se tal como é.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O tempo do meu pai"

quinta-feira, outubro 17, 2024

o pai do padre

Quando aos dezassete anos informou os pais que ia entrar no Seminário, ao pai só lhe apetecia bater-lhe, e a mãe continuou a esfregar a roupa no tanque, sem retirar os olhos dela. Rapidamente as lágrimas começaram a cair-lhe do rosto, mas quase não se notava porque as lágrimas se juntavam na água do tanque. Ele também não deu conta. Fechou os olhos para não ver. Foi desta maneira que o António disse aos pais, que eram mais ateus que outra coisa, que decidira ser padre. Não era gente má. Mas isso não fazia deles cristãos. Não iam à missa. Não queriam saber dos padres. O irmão mais velho é que se metera na Acção Católica e o mais novo, pelos vistos, sem que se adivinhasse, fora-lhe no encalço. Tão grande era o desplante, que no dia em que o filho fechou as malas e se despediu, o pai lhe disse, em tom de pai, que se cruzasse aquela porta, deixaria de ser seu filho. E o tempo passou. Pouco se falavam e, nas férias, as palavras pouco mais serviam do que para mostrar o desagrado. O filho ainda não era padre e ainda havia tempo de o demover de ideias tão ridículas. Onde já se viu um filho de gente que não é de Igreja se tornar um padre. Antes se tornasse um malandro das ruas. Não o pensava assim, mas verbalizava-o para que o filho pensasse bem no que fazia. E o tempo continuou a passar, como tudo na vida passa. Os anos foram calejando aquela família. Mas nem a ideia do filho nem a do pai desapareciam. Casmurros ambos. Ambos do mesmo sangue. Um mês antes da ordenação sacerdotal, o pai, sem que nem sequer a sua estimada esposa, que o acompanhava nas ideias e nas desideias, soubesse, foi visitar o padre da freguesia. Aquele a quem, pouco depois da primeira conversa do filho sobre a estranha decisão, acabaria por culpar e visitar com um pau na mão, pronto a ser usado se a ocasião fizesse o ladrão. Graças a Deus que o padre não estava só e a companhia o demovera. Agora a visita era por outro motivo. Talvez por ser um coração duro, tardou em abrir-se e a conversa demorou umas boas duas horas. Terminou com a absolvição. Nunca ninguém soube o teor da confissão nem o motivo da conversão. O pai mudou. O pai voltou a ser pai. O pai abraçou o filho na sua ordenação como se fosse a maior alegria que um pai pudesse ter. Perceber que a felicidade é um dom de Deus não é para todos. E o tempo passou. Mas, desta vez, foi apenas um mês. E o pai partiu para o outro pai. Foi de repente e os médicos não puderam fazer nada. O filho ainda hoje gostava de perceber, mas não percebe. Só sabe que os desígnios de Deus não se sabem de verdade. Só se acreditam… e se confiam. 
 
 A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A chorar durante a missa"

sábado, setembro 07, 2024

O milagre da morte

Ela queria um milagre. Diante do caixão com o filho de vinte e oito anos, ela repetia que esperava um milagre. O filho mais velho morrera há uns doze anos com sorte parecida, em idade mais jovem ainda. Este segundo filho estivera em sofrimento uns três anos e agora partira para o Senhor. Os pais não têm mais filhos para cuidar. Não têm mais filhos para esperar o seu futuro e sonhar com ele. Dá para imaginar o sofrimento, mas não dá para o medir. Era mais que visível, tanto no rosto pálido da mãe como no do pai, assim como nos seus corpos sem expressão, sem alento, sem força senão para estar ali e se puderem despedir do menino. Olha o teu pai e a tua mãe, dizia o pai. E a mãe desfalecia em gemidos. A Missa foi toda ela um gemido contido. A multidão dentro da Igreja era prolongada pela multidão fora dela. Não se cabia naquele sofrimento. A homilia foi pesada. Foi pesada no sentido de ser pesarosa, e foi pesada porque se pesou cada palavra. A certa altura, a mãe interveio, dizendo ao senhor padre que nunca perdera a esperança, porque esperava um milagre. Ainda bem, respondeu o senhor padre. Como dizia a primeira leitura que escutámos, “A esperança não engana porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações”. O padre cruzava os olhos com ela no primeiro banco da igreja, sofria com ela à sua maneira, e aproveitava as suas palavras para falar do verdadeiro milagre que estava a acontecer. Este mistério da morte, que é tão difícil, é, afinal, o maior milagre da vida. Morremos para vivermos eternamente, porque Deus nos ama para além da vida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As não respostas que são resposta"

terça-feira, agosto 20, 2024

Pessoas que são o céu na terra.

Há pessoas que são o céu na terra. Gente que passa despercebida, mas deixa marcas. Gente que não vive senão fazendo o bem, vendo o bem em todo o lado e encontrando Deus em cada bem. Gente que está connosco, não porque mereçamos, mas porque a sua vida é para fazer o bem. A senhora Maria é uma destas pessoas que está sempre disposta a dar de si. É para a limpeza da igreja, é para o coro da igreja, é para ir ao encontro espiritual. De manhã à noite, ajuda o marido na horta e no quintal, faz-lhe o comer, vai às compras para o comer. Leva produtos da horta a uma série de vizinhas e necessitados. Também ao senhor prior. Tudo faz por e para quem necessita. Gasta-se nisto. Não faz nada de especial, mas tudo o que faz acaba por ser especial. De manhã à noite é um pouco de céu na terra.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quinze maçãs especiais"

domingo, maio 05, 2024

Também te amo

Basta-me o teu olhar. Basta-me o teu olhar para ter a certeza de que estás fixo em mim, e que essa fixação é estar comigo. Gostava muito de ter palavras tuas e de ouvir sons que construíssem palavras, mesmo que não fizessem sentido. A verdade é que cada vez tenho menos palavras tuas. Mas não tenho menos certezas. O teu olhar fixo em mim diz mais do que qualquer palavra pudesse dizer. E os teus beijos miudinhos parecem enormes. Têm um tamanho sem tamanho. Sempre que encosto a face nos teus lábios, esboças o beijo mais puro e o beijo que mais me importa. Além do teu olhar fixo, basta-me também um beijo, um pequeno murmúrio de beijo, para ter a certeza que o amor por inteiro está nele... e vem a mim. A tua vida prolongou-se na minha através do amor íntimo com a mãe. A tua vida vem a mim desde que me chamaste a ser. O amor gera sempre amor. E mesmo que estejas no lar, sem as capacidades que todos lá em casa gostaríamos que tivesses, não deixas de ter um amor por inteiro. E eu não deixo de o sentir em cada olhar fixo no meu olhar, em cada murmúrio de beijo na minha face. Também te amo, meu pai.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha mãe está viva"

Bom "dia da Mãe" a todos os pais também!

quarta-feira, fevereiro 28, 2024

Tê-lo cá para o ver e amar assim

O meu pai teve de ser levado, de ambulância, ao hospital e levar quatro pontos na nuca. A funcionária do lar não conseguiu segurá-lo para não cair. Com estas notícias fica-se com o coração a palpitar, embora se confie nas pessoas que cuidam dele. Como a sua saúde está frágil e o problema maior está situado no cérebro, com sucessivos ait’s, fica-se com o coração a palpitar nas mãos. Para tranquilizar as minhas irmãs, mas ao mesmo tempo porque é assim que penso estas coisas, ao informá-las da situação, disse-lhes e cito-me: O problema, penso eu, que não sei nada destas coisas, é que para a situação clínica do pai, estas coisas só pioram. Mas também sabemos que nada está nas nossas mãos. Nem podemos ser egoístas ao ponto de querer tê-lo eternamente connosco. É o que é ou o que tem de ser. Eu prefiro vê-lo e amá-lo assim do que não o ter cá para o ver e amar assim, mas a vida é isto. Somos frágeis e peregrinamos para um dia chegarmos plenamente a Deus!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

terça-feira, janeiro 30, 2024

O padre e o outro lado da dor

Pouca gente se lembra dos que têm de trabalhar no meio da dor. Dos que estão do outro lado da dor. A Isabel não é assim. Não faz parte desse grupo. Ligou-me depois de ter ido dar um abraço apertado à ‘senhora Maria”, a senhora da funerária. E agora ligava-me para me dar um abraço pelo telefone. Com poucas palavras. Mas a chegarem ao coração como força. A Isabel tem o dom especial de estar atenta aos outros. Atenta ao ponto de ver o que poucos conseguem enxergar. Por sinal, hoje, aqui na paróquia, um acidente de automóvel e as mortes que ocorreram nele deixaram meio mundo num caos de emoções, eu incluído. E poucas pessoas conseguem entender a dureza do que é estar do lado da dor que não tem refúgio possível. O lado da dor que tem de dar a cara para que a dor pareça mais leve, como uma luz ténue ao fundo de um túnel. Esse lado que se aguenta somente por amor a Deus e às pessoas! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os funerais fazem-me dor de estômago"

terça-feira, novembro 21, 2023

procuro a fé…

imagem de benzoix no Freepik
Penso muitas vezes a fé. A fé vive-se, mas também se pensa. Pensa-se para se descobrir e para se encontrar as razões dela. E procuro-a entre a razão e a vida. Procuro-a e gosto de não a encontrar. Para andar sempre à sua procura. Vivemos num tempo em que a fé é chamada, como dizia Hallík, a sair da casa das certezas em que sempre viveu. Eu sei que a fé é um dom de Deus, pois começa n’Ele. Gosto, porém, da inquietação que ela gera em nós. E as dúvidas, as incertezas. A vontade de ir sempre mais longe e mais profundo, até ao lugar maior do coração de Deus. Também as crises de fé são ou podem ser um estímulo da fé. Sei que tenho fé ou essa qualquer coisa que mexe comigo e sei que tem a ver com um coração a querer juntar-se ao coração de Deus. Chamemos-lhe fé. E eu chamar-lhe-ei Amor. Chamemos-lhe ‘mistério’ e eu chamar-lhe-ei ‘procura’. Quanto mais desvelo a fé, mais me apetece procurá-la. Só se procura aquilo que já se encontrou, mas se quer encontrar mais e melhor. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Obrigado pela fé que me deste"

quarta-feira, setembro 20, 2023

A generosidade dos pobres

Esteve em Roma o tempo suficiente para conhecer algumas ruas de cor e alguns dos seus habitantes. Naturalmente que ia algumas vezes à Praça de São Pedro. Ali perto, encontrava sempre um casal sem-abrigo, ele sentado numa cadeira de rodas, ela sentada a seu lado, muitas vezes a fazer tricô. Saudavam-no sempre que passava. Buongiorno, padre. Reconheciam-no no meio dos transeuntes, porque ele também os saudava. Uma manhã, ao passar junto deles, a senhora pediu-lhe uma ajuda diferente da moedinha habitual. Que ajudasse o marido a levantar-se do seu cobertor estendido no chão e o colocasse na sua cadeira de rodas. Nem o cheiro do descuido o impediu de se dispor prontamente a levantá-lo e a ajustá-lo na cadeira. No final, delicada e muito agradecida, a senhora perguntou-lhe se aceitava um café, que ela teria todo o gosto em oferecer-lho.
 

segunda-feira, setembro 04, 2023

Vinha apenas para se casar.

Muito querida e simpática. Ele também, mas mais discreto. Ou mais calado. Encontraram-se com o padre para combinar os últimos retoques da cerimónia do seu casamento. Ela olhando de frente e ele de soslaio. Ela atrevida e corajosa e ele meio envergonhado. Senhor padre, queremos pedir-lhe um favor. Durante a cerimónia não pergunte quantos filhos queremos ter. É que, embora em tom mais ou menos de brincadeira, já o ouvimos perguntar a uns noivos quantos pretendiam ter, e como nós não pretendemos ter nenhum, gostaríamos de não ter de responder a isso publicamente. O noivo pareceu-me ter vontade de a interromper para dizer que ela é que não queria ter filhos. No entanto, mudou somente o olhar de soslaio para ela. Ela é que vestia calças, como se costuma dizer. O padre prometeu que não perguntava. Também lhes fez considerações sobre o significado de um amor fecundo. Mas ela não quis ouvir. Vinha apenas para se casar.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Mais um Manuel e uma Maria vão casar pela Igreja"

quinta-feira, agosto 10, 2023

casamentos quase civis

Saí agora da igreja, depois de concluído um casamento que me pareceu muito mais um casamento de conservatória de registo civil do que um casamento católico, embora saiba que as raízes da fé estavam, porventura, nalguns dos presentes. Saxofone à entrada com músicas que não tinham nada a ver. Nenhum grupo de animação musical, a não ser este senhor que tocou à entrada do noivo um tema, outro à entrada das damas de honor, outro à entrada dos meninos das alianças e outro à entrada da noiva. Nada de litúrgico ou de mensagem religiosa. Leituras a correr, cerimónia a correr, tudo a correr que à saída se esperava outro grande arraial com música de circunstância, foguetes e o habitual arroz em quantidade. Drone à mistura. Flores pela passadeira, gritos e palmas a horas e a desoras. Quase toda a assembleia comungou, o que me levou a desconfiar pois não respondiam aos diálogos da celebração. O ritual fez-se. Cumpriu-se. Concluiu-se. No final assinámos os registos e pronto. Por mais correcto que eu tentasse ser ou por mais simpáticos e merecedores que fossem os noivos, quase tudo me lembrou o casamento pelo civil a que assisti já lá vão uns tempos. Se não fizermos algo para contrariar esta tendência, qualquer dia estas cerimónias não são mais do que uma cerimónia social na qual tanto dá estar um padre ou um conservador.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um casamento que se chama civil"