Morre-se mal nestes tempos. Muito mal. Nos funerais em tempo de pandemia morre-se por fora e por dentro. Um pedaço enorme de nós seca. Seca curiosamente diante das despedidas reduzidas a lágrimas. Sim, na maior parte dos funerais, a despedida é feita quase exclusivamente de lágrimas. Que nos secam por dentro.
E hoje sei na primeira pessoa que assim é. Quando não foi possível despedir-me como queria do meu cunhado mais velho. Ou seja, do meu irmão mais velho. Sem o ver. Quase sem tempo de velório. Na ansiedade de autopsias e testes covid, porque assim tem de ser para quem morre na via pública. Cinco dias disto. Cinco dias a segurar lágrimas às escondidas da minha irmã. Pois que as suas eram mais abundantes e mais constantes. Na verdade, serviu para amadurecer a dor. Para escolher bem as leituras e a homilia. Graças a Deus que foi possível celebrar a missa com a família, porque em muitos casos e zonas nem é possível. Nem a missa nem o velório. Tudo se reduz a uns quinze minutos no cemitério com poucas presenças. Vem-me constantemente à ideia as centenas de amigos que ficaram sem se despedir, porque não cabiam na despedida.
A nossa despedida foi muito digna. Foi uma festa linda. Entregámos tudo a Deus e respondemos à dor com a fé. É o que resta. É o que vale. Senti, porém, que estes funerais são como uma ferida que tem de sarar por si mesma, numa imunidade forçada sem remédios. Uma dor sem tratamento. As perdas deixam cicatrizes. Sem tempo para a despedida, para o luto da despedida, a ferida fica escondida. E dói mais. É quase como doer sem tempo para doer.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Levar com alegria o sofrimento?"
