terça-feira, setembro 28, 2021

enxurrada de pessoas [poema 336]

e a enxurrada trouxe as pessoas arrastadas, 
e agarradas, umas nas outras, 
apenas as mãos seguradas 
 
e os outros somos nós, quando chegam 
as últimas chuvas, na vida que se apresenta 
como eterna primavera na tormenta 
 
a enxurrada 
lenta

sexta-feira, setembro 24, 2021

futuro sem pessoas

Numa sondagem realizada este ano a jovens entre os dezoito e os vinte anos, pelo instituto Noto Sondaggi e encomendada pela fundação Donat-Cattin, em itália, concluiu-se que 51% dos jovens entrevistados não se imaginam como pais. Não querem sê-lo. Uma pesquisa realizada em 2018 no Brasil, pelo Nube – Núcleo Brasileiro de Estágios - perguntou a 41.389 pessoas, na faixa etária de 15 a 26 anos, se pretendiam ter filhos, e 28,3% dessas pessoas revelaram não considerar a ideia de ter filhos. Outra pesquisa americana, do Instituto PEW, realizada nesse mesmo ano, constatou que cresce o número de americanos que declaram não querer ter filhos no futuro. E o Census 2021 em Portugal revelou uma perda total de 214 286 habitantes em 10 anos. 
Pelos vistos, as novas gerações não querem formar família ou ter filhos. Não querem ser fecundos. Não querem este tipo de compromissos. Como muitos outros tipos de compromisso que lhes criem exigências para além do suposto bem-estar. É muito estranho, uma vez que a felicidade acontece pelo amor e o verdadeiro amor é fecundo, isto é, saí de si para os outros e espelha-se ou espalha-se nos outros. Nós somos potencialmente felizes porque temos a oportunidade de amar. Por isso, os solitários têm dificuldade em serem felizes. 
A continuar assim, o mundo terá cada vez menos pessoas, tanto no sentido demográfico como no sentido antropológico. As pessoas não querem mais pessoas! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O senhor que agradece tudo"

terça-feira, setembro 21, 2021

uma instituição vazía, ainda que cheia de actividades

Pode-se afirmar que a Igreja sempre foi prolífera em iniciativas pastorais. Nos últimos anos,  desde o Concílio Vaticano II, esta forma de se viver em Igreja cresceu exponencialmente. A denominada Nova Evangelização, ideia bastante interessante na sua génese mas parca na sua prática, incrementou a criatividade pastoral. E estes tempos pós-modernos, voláteis, líquidos e plurais, são tempos que privilegiam, mesmo social e culturalmente, o excesso de actividade e de comunicação. A Igreja apenas vai na onda e por isso - desde as Igrejas particulares à Igreja universal representada pelo Vaticano - vive envolta de livros, notas pastorais, congressos, palestras, eventos religiosos e afins. 
No meio de tanta iniciativa pastoral, sobra pouco espaço para se viver aquilo que se prega. Sobra pouco espaço para o testemunho, essa acção discreta, diária e simples de mostrar que Cristo é a razão de viver por excelência. Dizia Paulo VI que “O ser humano moderno precisa de ver como se vive, mais que ouvir dizer como se deve viver”. 
A Igreja do futuro ou será uma “Igreja Testemunho” ou será cada vez mais uma instituição vazía, ainda que cheia de actividades. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Quer ser padrinho"

quinta-feira, setembro 16, 2021

in-definição [poema 335]

vejo-me em ti, na penumbra dos dias que são noites 
sinto os teus passos pelo toque silencioso do soalho 
perco-me como se fosses apenas minhas entranhas 
há um misto de terror, medo e entusiasmo pelas dúvidas 
serás tu ou serei eu a caminhar por mim adentro? 
serei eu a tua presença nas coisas que desconheço? 
serás tu a noite que parece não querer acordar? 
serei eu a réstia do que sobrou da criação? 
 
vejo-me em todo o lado, como tu és a habitação do mundo, 
nascem arrepios e não é frio. É mesmo não saber nada de ti 
e saber que este nada saber és tu, sempre, mas sempre 
em mim

domingo, setembro 12, 2021

Nunca pensei em ser padre para ser um padre

Nunca pensei em ser padre para ser um padre. É certo que a imagem do padre da minha terra, um homem carinhoso e com algum carisma, marcava os meus tempos de criança. Hoje, porém, não lhe sei mais as feições nem as marcas. Recordo que na catequese me distinguia por ser um petiz que sabia coisas e gostava de saber, que dizia coisas de coração sem as pesar. E dizia coisas bonitas de Deus que começava a amar. Aliás, que tinha começado a amar em casa. Recordo também que olhava para os padres como se todos fossem santos. Como se não existisse neles nenhuma marca de impureza. Ainda me lembro – e agora rio-me - de ter pensado que os padres não iam à casa de banho, porque esse era um lugar de imundície. Muito menos os bispos. E o papa seria imaculado. Contudo, nada disto me iludiu a ser padre. Nunca quis ser padre para ser assim. Foi apenas uma voz que ouvi por dentro e que não sei definir. Muito menos na altura. E essa voz era fantástica. Queria-me e pronto. Uns anos depois dei-lhe o nome de vocação. E aceitei que assim fosse nos tempos de Seminário, à procura da voz e da vontade que, tinha a certeza, vinha de cima. Ainda não sabia os meandros do clero, que fui descobrindo aos poucos. Sempre gostei mais da voz. Muito mais. Sempre a achei mais verdadeira que tudo o resto. E ainda acho. Ou tenho a certeza. Ao longo da minha história a caminho, o que sempre quis foi fazer a vontade dessa voz. Desse por onde desse. Como padre ou como ela quisesse. Hoje, olhando para trás, dou por mim a magicar a certeza de que decidi ser padre, não para ser padre somente, como algo que se faz, como uma função, como um emprego ou ganha-pão, mas como a forma de escutar constantemente a voz que me diz que me quer e pronto. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Ser padre como um cireneu"

quarta-feira, setembro 08, 2021

As paróquias deixarão de ser paróquias!

Mais de oitenta por cento das paróquias a meu encargo não chegam a duas centenas de habitantes. Duas delas têm no máximo três dezenas de habitantes. No censos de 2021 constatou-se um decréscimo assinalável. A mesma realidade encontramos em muitos outros locais, sobretudo no interior do país desertificado. As pequenas dimensões de algumas comunidades paroquiais e uma prática cristã reduzida em muitas outras, impedem-nas de ter os dinamismos necessários a uma comunidade activa ou confrontam-nas com a falta de meios e recursos humanos e materiais para sobreviverem com a qualidade necessária. Além disso, a sua ação tem sido quase exclusivamente sacramentalizadora, sem grandes conversões de coração, envolvimento na comunidade, encontro com Cristo, ou fé esclarecida e amadurecida. 
A paróquia, que tem vindo a deixar de ser o centro de vida das pessoas e a deixar de ter exclusividade para a caminhada de fé dos cristãos, não deveria pensar-se como um território ou um aglomerado social de indivíduos batizados, uma instituição puramente jurídico-administrativa, ou uma simples estação de serviços religiosos. Assim como, naturalmente, não há comunidades sem pessoas, também não têm futuro as comunidades cristãs com estruturas estáticas, centralizadas em párocos, pouco colegiais e fechadas a serviços mais partilhados. 
É capaz de ser necessário ultrapassar o modelo feudal das paróquias e de uma Igreja em que o único eixo ou o principal eixo sejam as paróquias. O modelo tridentino do sacerdócio e de organização da Igreja, para além de fazer cada vez menos sentido, na prática, não está a ser possível. A corda esticada está já muito esticada e quase a rebentar! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As paróquias que estão a morrer"

sábado, setembro 04, 2021

os padres santos XII

Conheço padres que são autênticos democráticos. Não fazem nada sem ouvir as opiniões todas. Parece que têm medo de assumir as consequências das suas opções. São muito bons a escutar os outros. A precisar dos outros. A viver não sendo o centro. Mas às vezes não conseguem ser coordenadores. Apenas fazem listas de opiniões e de escolhas. Ao menos são democráticos sem serem políticos no sentido que vivem para ter maiorias. Contudo, vivem a indecisão como uma sombra. E depressa são apagados pelas dezenas de leigos que são mais decididos e se impõem. Claro que isso não tem verdadeiro mal. O mal existe apenas quando se deixam ir na corrente. E são santos também na medida em que, tal como Deus, não se querem impor. Vivem para o que os outros quiserem. 
 

terça-feira, agosto 31, 2021

homens inacabados [poema 334]

dizem-me que existem homens inacabados e que morreram assim 
como aves que não levantam voo ou peixes que não sabem nadar 
 
são homens de barrigas proeminentes, sentados sobre o que são 
montes de desperdícios ou descartes, são descartados como 
flores fora do jardim ou perfumes sem odor, são homens 
que nunca nascem de verdade, são só corpos a viver 
 
Ah, quem me dera voltar a ser homem inacabado 
para um dia poder ser

sábado, agosto 28, 2021

A missa do Centro de Preparação para o Matrimónio, vulgo CPM

Navegava, há dias, pela net, à procura de uns dados sobre o CPM, Centro de Preparação para o Matrimónio, quando, às tantas, numa página, dei por mim a ler comentários de noivos que já tinham participado ou iam participar no CPM. Um deles chamou-me particularmente a atenção, porque dizia: Nós já fizemos, até gostámos, mas depois tivemos de ir à missa. 
Notou-se bem o tom de fastio, mesmo sem ser assinalado. Porque o “tivemos de ir à missa” surge depois do “até gostámos, mas”. Ou seja, duas pessoas que decidem casar pela Igreja, provavelmente depois de exigirem ao padre missa no casamento - mas isso sou eu que posso estar a exagerar -, e depois ficam algo descontentes ou esmorecidos no seu contentamento, porque no final do encontro de preparação para o seu matrimónio católico tiveram de ir à missa. 
 

terça-feira, agosto 24, 2021

Uma Igreja sem fé

A generalidade dos baptizados que fazemos são pedidos por e para gente sem fé. Os casamentos igual. A catequese da infância e adolescência está estruturada como se os seus destinatários fossem pessoas com fé. Promovemos acções pastorais e eventos religiosos para pessoas que não têm fé e que apenas vão precisando da Igreja para necessidades pessoais ligadas a sacramentos, festas e funerais como eventos sócio-culturais arreigados. Gastamo-nos numa acção eclesial para gente sem fé, convencidos de que têm fé. Ou pelo menos estruturamos e executamos a nossa acção pastoral e cultual como se fosse para pessoas com fé. E as consequências estão à vista. Os agentes pastorais, a começar pelos sacerdotes, desgastam-se a fazer actividades inconsequentes e que, em muitas ocasiões, fomentam problemas e conflitos que doem a quem se dedica com zelo e que, às vezes, ainda afastam mais do encontro com Cristo. 
Uma Igreja constituída maioritariamente por gente sem fé que se agrega, mais ou menos, a ela como instituição sócio-cultural não tem futuro. E se a nossa Igreja, que queremos mais missionária, não se focar especialmente no primeiro anúncio, essa experiência de encontro com Cristo que leva à conversão, será, dentro em breve, uma Igreja mais vazia ainda. Vazia sobretudo da fé. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Gostava de esvaziar a minha igreja"

sábado, agosto 21, 2021

o inverno [poema 333]

e o inverno chegou no meio da primavera 
as flores pararam sem secar, os animais deixaram de se ouvir 
falavam para dentro, tudo falava para dentro, mesmo as casas 
de pedra encavalitada e encavalitadas umas nas outras 
não houve outono nesse ano de inverno 
 
o tempo que nasce dentro de cada um 
 
… gosto de começar os poemas como se viessem de trás e terminassem no início, em mim. Eles crescem onde começa o que não tem início, e terminam no que não tem fim.

quarta-feira, agosto 18, 2021

Deus ama-me como sou

Escreve esta frase até te cansares de escrever ou o papel acabar ou a tinta se gastar. Na verdade, ninguém quer saber da tua história senão Ele. Ou Ele acima de todos os outros. Porque só sabe de nós quem nos ama e nós existimos enquanto somos amados. Mesmo que a morte nos separe, ficamos no coração de quem nos ama. E Deus ama-nos muito para além da morte. O seu amor é mais que eterno, porque quanto mais vive na eternidade, mais intenso vive. Ninguém te conhece como Ele. Sem filtros. Na verdade toda. Inteira. Na manhã que cresce e no dia que anoitece. E mesmo assim, ama-te. Porque o amor nasce nele e o amor não ama porque se merece. 
Escreve a frase. Gasta-te nela. Escreve-a como se não precisasses de escrever mais nada. Dorme nela. E quando já não tiveres força no braço para a escrever, deixa que ela seja escrita pelo teu coração e ali gravada. É que esta é a verdade que mais sentido dá a tudo o que vives e quiseres viver. Deus ama-me como sou. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Como te amo, Senhor?" ou "A fissura do braço de Cristo"

sábado, agosto 14, 2021

os padres santos XI

Conheço muitos padres cansados. Parecem a maioria. Acordam cansados porque já estão cansados de se levantar. Porque acham sempre que a vida lhes deve alguma coisa. E toda a gente deve algo. E toda a Igreja deve algo. E esgotam-se nesse cansaço. No cansaço das correrias que ainda nem sequer fizeram. Nas muitas viagens que fazem com os pensamentos. São os padres para quem qualquer dedo apontado é em forma de cruz. Qualquer problema é insolúvel. Qualquer coisa que façam tem um peso que não sabem carregar. E vivem no limite da depressão ou do burnout. Vivem nessa tensão, como uma corda pronta a rebentar. Ou a enforcar. São santos nessa fragilidade de viverem esgotados por Deus ou por sua causa ou por causas que parecem relacionadas com Deus. 
 

quarta-feira, agosto 11, 2021

A geração digital e a fé sem interesse

Durante largos anos, a Igreja, como “sociedade perfeita”, colocava o acento na firmeza e rigor doutrinal para dar credibilidade a si mesma. Nos últimos anos, porém, surgiu uma visão no sentido oposto, uma visão mais atenta aos sinais dos tempos. Por isso tem havido um esforço, e bem, para melhorar e modernizar a comunicação. No entanto, estamos a dirigir-nos para uma comunicação sem real comunicação. 
As novas gerações vivem na internet. Vivem nas redes sociais, visualizam influencer’s e gastam o tempo a receber comunicação que seleccionam nos seus interesses. E se nunca houve uma comunicação tão global como agora, também nunca houve tanta dificuldade em nos fazermos escutar. Tudo parece ruido. E no meio do ruído, até o que não o é, parece somente um ruído. 
É certo que hoje não se conseguiria chegar às novas gerações se a nossa comunicação fosse apenas como era antigamente. O problema, porém, persiste, porque o digital não cria interesse se este não existe. E para existir interesse, este tem de se suscitar no meio de milhares de interesses que se confundem. É bastante difícil transmitir a fé em tempos de uma confusão global de comunicações maioritariamente virtuais. A fé é sobretudo relacional, e no mundo virtual o relacional é mais fictício que verdadeiro lugar de afectos. 
Parece-me que a Igreja, neste sentido e como um todo, tem-se vindo a deparar com grandes dificuldades em fazer passar uma mensagem que não seja light, porque quer agradar, ou enfadonha, porque demasiado agreste. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Amizades especiais"

segunda-feira, agosto 09, 2021

Sara [poema 332]

Envelheci a ver o tempo passar sem amanhã 
A loucura chegou arrastada pelo meu querer 
A luta contra os deuses em meu redor 
Sem mim 
 
Não sei que nome dar ao meu lamento 
O menino cresce nas veias e no tormento 
A espera não nasce, não é semeada 
 
Ai que dor me consome por fora e por dentro 
Pelo amor de deus que se esqueceu 
E o ai volta cada vez que resolve ir 
Debruçada, agarrada, colada em mim 
 
Até que o sorriso de Deus veio e ficou 

Gen 18 e 20

sexta-feira, agosto 06, 2021

amizades e aniversários

Completei uma linda idade que não quero para aqui chamar. A idade vem por si mesma e por isso não é preciso chamá-la. Entretanto, o meu aniversário de há um dia ou dois ainda me leva a receber mensagens de pessoas que querem manifestar a sua amizade, porém envergonhadas por terem deixado passar a data. E eu sinto-me na vontade genuína de tranquilizar as pessoas, pois estou certo de que, na verdade, a amizade não acontece porque as pessoas se lembram do nosso aniversário, mas porque se lembram de nós. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha avozinha"

quarta-feira, agosto 04, 2021

Homens do caminho

Quem não caminha está parado. E quem está parado, fica-se. Não passa dali. Em contrapartida, quem não quer estagnar, não pode deixar de caminhar. Quem vive a caminhar, nunca tem o caminho feito. Tem sempre caminho para andar. E como todos somos seres inacabados, somos, por natureza, caminhantes. Ou deveríamos ser. 
Nós, os padres, somos caminhantes, tanto por natureza como por missão. Por natureza, porque somos iguais aos outros no caminhar. Na necessidade de fazer o caminho. Por missão, porque o Senhor nos convida a ajudar a caminhar, a auxiliar quem caminha. Não me refiro àquele tipo de caminhante que acha que deve ir à frente para ensinar o caminho. Pois ele também não sabe o caminho. Sabe que o caminho é Cristo. Mas não sabe como percorrê-lo sem o percorrer. Por isso ele tanto poderá ir à frente, como atrás, como simplesmente ao lado. O ir é já ajudar a caminhar. Se Jesus nos convidou a tomar o seu jugo, como quem carrega connosco a nossa vida, também quem continua a sua missão deve pegar na canga e carregar quem caminha ao seu lado. 
Nós, os padres, somos essencialmente, ou seja, por essência, homens do caminho. 
 
revisitar Lc 24 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O António caído" ou "Padres que não sabem que caminham"

domingo, agosto 01, 2021

pecadora [poema 321]

vai e não voltes como a onda 
vai, leva os cabelos e a escova 
os perfumes e o teu sabor 
 
irei com a tua mágoa, e a história de saberes 
que um dia vieste como onda 
e foste como mar 
 
Lc 7, 36-50

quinta-feira, julho 29, 2021

a Igreja que se quer reorganizar na mesma organização

Numa reunião de padres, o bispo daquela diocese decidiu entregar uma folha a cada um dos presentes com algumas propostas, desenhadas a regra e esquadro, de supostas e futuras unidades pastorais. No entanto, o que ele apresentou, pese embora a boa intenção, não era mais do que uma reajuste do que já existe, realinhando as paróquias de cada pároco. Por isso não foi de estranhar que a conversa girasse à volta do “esta é para ti e não para mim”, “ai eu não quero esta”, “eu não aceito mais paróquias”. E assim uma reflexão que deveria ser séria transformou-se num mais do mesmo, inconsequente e vazia. E assim vai a Igreja que se quer reorganizar na mesma organização. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Gostava de esvaziar a minha igreja"

domingo, julho 25, 2021

As 'avós da fé' ou 'catequistas dos tempos modernos'

Num dos grupos de catequese do primeiro ano, a catequista perguntou aos meninos se já tinham ido alguma vez à missa ou se já sabiam alguma oração. Com as respostas dos meninos, que nestas idades ainda não sabem mentir com facilidade, constatou que os poucos que sabiam alguma oração a tinham aprendido com a avó, e que muitos dos que já tinham ido à missa tinham ido com a avó. 
Lamentações e saudosismos à parte, pode-se dizer, portanto, que a transmissão da fé já não se faz de geração em geração entendida como uma transmissão de pais para filhos. Mas, por enquanto e enquanto tivermos avós destas, ainda não se poderá afirmar categoricamente que essa transmissão terminou. Podemos apenas dizer que se interrompeu. 
Assim tivéssemos os netos mais tempo com as suas avós, essas mulheres ‘avós da fé’ ou ‘catequistas dos tempos modernos’. Que linda missão eclesial a destas avós!
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Nem Pai-nosso nem Avé-maria"

quinta-feira, julho 22, 2021

hemorroisa [poema 320]

há tantos anos que a história é sempre a mesma 
contada pela mesma mulher, de saias ao vento 
 
impura, impura, três vezes impura
 
outras tantas à procura 
 
há muitos anos que a história é sempre a mesma 
muda o vento, muda a mulher 
 
não muda a ternura 
que a tocou e a fez ser 
quem era 
 
Mc 5, 21-43

terça-feira, julho 20, 2021

contributos a meio por inteiro

Nasci no local, nas circunstâncias e na família que Deus quis. Repito isto até à saciedade para, no meu inconformismo, aceitar que as muitas coisas para as que gostaria de ainda contribuir, podem não estar nos desígnios de Deus a meu respeito. Sinto que o meu contributo vai a meio. No entanto, o que para mim é o meu meio, talvez seja o inteiro para Deus. Não sei. O que sei é que as medidas de Deus nunca são as nossas. E o que Ele nos pede nem sempre coincide com aquilo que gostaríamos de dar. Pede-nos que nos demos por inteiro, mas o que é esse inteiro? Como se mede? Como se quantifica? Queixo-me para dentro e tento sossegar o meu querer. Nada depende de ti, digo. Deus é que sabe. Se assim é, é porque tem de ser. O que Deus espera de ti é a santidade e não a glória. É a felicidade e não o sucesso. Ele quer-te mais a ti que ao teu contributo. 
Sobra-me aquele afã de outros tempos, os tempos da juventude, em que uma barreira era um trampolim. Não é uma desculpa, mas a maturidade ensina-nos que a vida é efémera e que as marcas que permanecem são apenas as de Deus. Não são as nossas. Que as nossas serão sempre efémeras. É bonito ansiar por mais e aceitar o menos. É bom descobrir que os desígnios de Deus são insondáveis e que o que nos ultrapassa há-de ter sentido um dia! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o 'tem de'"

sábado, julho 17, 2021

"A pecadora da cidade"

Era conhecida na cidade como a pecadora. Era portanto o símbolo, a presença, a essência do mal na cidade. Ser conhecido como pecador sem nome é o mesmo que ser conhecido pelo pecado. A encarnação do pecado. Não interessa a intensidade ou a qualidade do pecado, porque na cidade o que importava era como a conheciam. A pecadora. A sociedade, aqui representada na “cidade”, é demasiadas vezes aquilo que nos fasta de Deus e de nós próprios. Porque passamos a ser o que parecemos e passamos a sentir-nos ausentes de quem somos de verdade. Mesmo diante de Deus, numa humanidade sofrida em que pesa a indignidade de amor por parte do senhor do amor. Vivemos apenas a nossa humanidade frágil. 
Não gosto das cidades que não se importam com quem nelas moram. As cidades indiferentes. Mas gosto ainda menos das cidades que vivem a apontar dedos. Já lá dizia Bernanos que a mediocridade era o pior mal da sociedade. Os medíocres, para não sentirem que o são, apequenam os que conseguem apequenar. Fazem da sociedade um lugar apequenado. Apequenado porque todos os seus habitantes são, por motivos diferentes e paradoxais, cada vez mais pequenos. 
Gosto, porém, do modo como Jesus deixa que esta mulher o toque na sua impureza e pecado. Que leve até ele a condição de pecadora. Mesmo os adereços. Tudo o que levou com ela era o que usava com outros homens. Menos os beijos de verdade. E o que fez Jesus? Mandou-a em paz. Na paz que brota de saber-se amado por Deus. E ela foi. Imaginamos que foi, porque o relato do evangelho não nos diz para onde foi nem como foi. Nem se voltou à vida pecadora de antes. Certo que deve ter continuado a ser conhecida como a pecadora. Mas o que interessa isso, quando nos sabemos amados por Deus? 
 
revisitar Lc 7, 36-50
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre tem de saber perdoar"

quinta-feira, julho 15, 2021

Bater no peito

Hoje a minha meditação embalou-se com a oração do publicano e do fariseu. Enquanto o segundo se achava dono da sua oração, o primeiro batia no peito e pedia compaixão. Numa primeira vista, quem lê este texto, facilmente olha de soslaio o fariseu, porque faz uma oração de autojustificação, centrada nele mesmo, nos seus méritos e merecimentos. Tomamos o partido da compaixão e por isso tomamos o lugar de Deus, mesmo sem dar conta que, nessa opção, tomamos um lugar que não é nosso. Julgamos como se fôssemos o Senhor Deus. Mas o que mais me intrigou foi o bater no peito do publicano. Bater no peito é o símbolo do reconhecimento da nossa fragilidade. Batemos no peito quando nos achamos culpados e, ao mesmo tempo, indignos da compaixão do Senhor. E imaginei aquele homem sincero a bater no peito insistente e repetidamente. Como se quanto mais batesse, mais precisasse do Senhor e da sua mão. O problema é que passar a vida a bater no peito é uma atitude muito semelhante à do fariseu que estava centrado em si mesmo. Quando passamos a vida a bater no peito, é como se estivéssemos voltados sobre nós próprios e sobre a nossa fragilidade, erro ou pecado, o que ainda é pior. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. Gostava muito que esta passagem terminasse com o publicano a sair do templo com um sorriso a transbordar da graça de Deus e de mãos dadas com Ele. Gostava muito. 
 
revisitar Lc 18, 9-14
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Pássaro ferido, mas a voar"

terça-feira, julho 13, 2021

adentro neste retiro

Entro como quem adentra. Se mete por dentro. Não deixo nada para trás, porque trago tudo o que sou e me faz ser. O meu corpo, mas também a minha história e todos os pensamentos e sentimentos que tenho colectado e que vêm colados na pele, por dentro. Trago muitas pessoas, porque são parte desta história e desta vida. Não as trago como um peso. Nem quero pensar muito nelas. Quero apenas estar por inteiro. 
A entrada da casa de pedra antiga era exígua. Apertada. O carro a encolher. Mas passou. Entrámos os dois de modo igual. Também eu me encolhi para poder entrar e adentrar-me neste momento que quero viver como um retiro espiritual. Não quero nada para mim. Venho cheio de inquietações e interpelações que gostava de abrir e, ao mesmo tempo, fechar. Mas não venho por mim. Nem para encontrar respostas ou fazer descobertas. Venho, como sou, à espera do que Ele tem para mim. Não quero nada neste retiro senão o que Ele queira. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Na lareira 1"

domingo, julho 11, 2021

A igreja que não cativa

“Mas depois o padre é que não quis, e a igreja não cativa, e os padres queixam-se que as pessoas não vão à igreja mas não deixam as pessoas fazer as coisas à sua maneira... Haja paciência!” Merece um comentário a observação que li algures, também não interessa bem aonde, a propósito de alguém que queria um sacramento muito particular, com demasiados itens ao lado, bem ao lado, daquilo que era esse sacramento. 
Claro que os designados como leigos devem ter, a meu ver, uma voz ouvida, aceite e partilhada. Mas o que a pessoa pretendia era como querer dançar sem música. Ou brilhar sem luz. Fazer de algo aquilo que esse algo não é, embora pareça ser. Queria que o seu sacramento fosse tão apenas seu, que pudesse fazer com ele o que quisesse, mesmo que se tornasse um não-sacramento. 
E o problema são sempre os padres, que deviam dedicar o seu tempo a encher as igrejas com gente que vem a pedir estas coisas, que depois não volta lá, mas mesmo assim dá-se o ar de que até se era capaz de lá voltar. Não. Não estou preocupado com números, embora os números possam parecer preocupantes. Eu quero preocupar-me com as pessoas. Com a fé das pessoas. Faz recordar aquela passagem de Jesus a expulsar os vendilhões do templo, pouco preocupado se deixavam de lá ir ou não. Mas deveras interessado em devolver a sua casa de oração. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Quer ser padrinho"

quarta-feira, julho 07, 2021

tornas a morrer [poema 319]

é cansativo ver como morrem as pedras, porque doem 
a história que as esconde também as prolonga 
é engraçado como o passado é sempre a sombra dos dias 
e é eterno como o presente tenta ser. 
é até cansativo ver como as árvores morrem de pé 
ou as flores morrem depois de as olharmos 
só o cansaço não morre como tu, porque tornas a morrer 
nas pedras mortas, nas árvores de pé e nas flores 
e só morres porque estás sempre a viver

segunda-feira, julho 05, 2021

as opiniões que não podem sê-lo

Os bispos da União Europeia criticaram a aprovação, no Parlamento Europeu, do chamado ‘Relatório Matic’, que restringe a objeção de consciência e promove o direito ao aborto nos Estados-membros. Diz logo uma senhora entendida, daquelas que está convencida que nada a pode impedir de dar a sua opinião: vivemos no século XXI e em estados democráticos. E tinha razão. Por esse motivo é que os bispos têm direito a dar a sua opinião, acção que não lhe agrada e que critica vorazmente, segura de ter toda a razão. Ou seja, tanto ela como os que pensam como ela podem dar a sua opinião. Só quem pensa diferente dela é que não pode dar. E assim vai a sociedade que transforma opiniões em verdades e verdades em meras opiniões. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Vejo um padre como alguém que manda na paróquia"

sexta-feira, julho 02, 2021

preocupado com a eucaristia

Num diálogo sobre estes tempos de pandemia e pós-confinamentos, um colega mostrava a sua preocupação com a frequência ou participação nas eucaristias. Tinha-lhe sido pedido que falasse sobre as suas dificuldades paroquiais e falava com paixão e, ao mesmo tempo, com alguma tristeza, sobre os dados. Contudo, não falou senão sobre as eucaristias. Como se o anúncio da Boa Nova da Salvação se resumisse à Eucaristia e a fé se medisse por este sacramento. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Todas as semanas têm um domingo"

terça-feira, junho 29, 2021

flores [poema 318]

Podes colher as flores em mim, confesso que as reguei 
Com o teu olhar e me apaixonei 
Por elas, pois nelas se hospedou o teu olhar 
 
Deixo-te que as colhas até ao fim, fica sempre perfumado 
Tudo o que tocas e, mesmo sem flores, é um jardim 
 
Peço que não leves os espinhos ou os cardos 
São só meus e são memória
das flores que a ti te dei de mim 
 
grato por tudo o que fazes em mim, Senhor!

domingo, junho 27, 2021

A comunidade cristã eficaz

Senhor padre, o senhor é que havia de nos ensaiar os cânticos, disse a senhora Alcinda, uma das cantoras do grupo paroquial. Mas esse não é o meu ministério, respondi. Mas olhe que há padres que o fazem, assinalou. As comparações deste teor nunca são o mais produtivo de um diálogo. Eu até conheço colegas que saem do altar para tocar o harmónio ou para gesticular os compassos à frente do coro. Só que eu não gosto das comunidades clericalizadas ao ponto de o padre ter de estar em tudo e presidir a tudo. Disse-lhe que eu até poderia cantar toda a missa sozinho. Assim como dar toda a catequese. E adornar os altares. E ler as leituras, que é para referir o mais comum dos serviços de uma paróquia. A comunidade cristã eficaz não é aquela que faz tudo bem, mas aquela que é mesmo uma comunidade! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: " "Há paróquias e paróquias"

quinta-feira, junho 24, 2021

A bola de garrafa

Chegam à catequese desvairados, diz-me uma catequista. E a verdade é que estava uma garrafa de água em local estratégico, dentro do centro pastoral, para ser levada para outro lado, e este grupo de miúdos, como se fosse a coisa mais natural do mundo, serviram-se dela como se de uma bola se tratasse. Nem há pandemia nem há nada que resista. E tudo começa em casa. É o que temos. Por isso entendo como é que as catequistas têm tanta dificuldade em cumprir a sua missão. Porque não são apenas as garrafas de águas que são bolas nos pés de alguns miúdos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

domingo, junho 20, 2021

os padres santos X

Conheço padres que vivem na culpa, com medo da culpa. Vivem para a culpa. Batem no peito e obrigam a bater no peito. Nunca vêm o lado bom da vida nem das coisas. Nunca vêem o coração bom das pessoas, porque só enxergam a maldade que está em todo o lado. E é verdade que está. Mas também está a seu lado a bondade. Porque todos temos algo de bom e de menos bom. Viver na culpa atrofia o nosso viver. E há padres que vivem atrofiados e a atrofiar. Porque vivem mais a culpa que a vida. Vivem mais a vida como pecado original que como graça de Deus. Mas lutam. Lutam constantemente contra o fantasma da culpa. E sofrem nessa luta. São sofredores por natureza. E só por isso, são santos. São santos no sofrimento. 
 

sexta-feira, junho 18, 2021

Também te amo muito

Depois de meia hora sem sinal, numa manifesta apatia, e depois de rezar várias vezes a oração do Pai-nosso a olhar para ele (o pai que me trouxe à vida e que está agora numa Unidade de Cuidados Continuados), disse-lhe que o amava muito. E pela primeira vez nessa visita, deixou de olhar o vazio, sorriu a olhar para mim, e disse 'Também me amo muito, meu filho'. Depois voltou à apatia. E não mais segurei as lágrimas. Nem as seguro agora. Porque não quero, como não queria que fosse assim. Sei que há palavras que dizem tudo e não precisam de outras palavras. Mas também há coisas que ultrapassam as nossas forças e só as lágrimas conseguem ter força suficiente para fazer alguma coisa. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO (desta vez imensamente a propósito): "Feliz dia do pai"

quarta-feira, junho 16, 2021

Desidentificado

O desabafo iniciou com os olhos lacrimejantes. Depois com o rosto macerado e inclinado para baixo. A olhar para dentro. Não me identifico com esta Igreja. Com esta forma de ser Igreja acorrentada ao sacramental e ao sempre se fez assim. Olho a construção do reino e o anúncio da Boa Nova como os pilares da missão da Igreja, como um todo, e da minha própria missão como sacerdote. Não sei tudo. Mas sei que estamos a ir pelos caminhos errados. E esta pandemia veio desvelar o equívoco. Olho para o meu bispo e para os meus colegas padres e sinto-me estranho. Por mais diálogos que faça, soam-me a monólogos. As discussões pastorais destes tempos de pandemia circulam à volta do mesmo de sempre, na busca de um novo modo de fazer o mesmo de sempre. A manutenção. A conservação. Estou cansado. Saturado. Desidentificado. O colega para quem estava a desabafar ouviu sem interromper. No final do desabafo, este lembrou-o de que ele não tinha que se identificar com o bispo, os colegas ou a Igreja, mas sim com Cristo. Com Cristo é que tens de te identificar, disse. Os olhos levantaram-se para o escutar com o olhar, e a pedir que repetisse. Com Cristo é que tens de te identificar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Rezar na verdade da dor"

quinta-feira, junho 10, 2021

os padres santos IX

Conheço padres que permitem tudo. Só não permitem que os impeçam de permitir. Ou que ponham em causa o facto de serem permissivos. Acham sempre que a Igreja só cresce porque se faz a vontade às pessoas. Ou porque se tornaram populares no meio das pessoas por acederem aos seus pedidos, sejam para a direita ou para a esquerda. Vivem entre um certo proselitismo barato e a imagem de uma Igreja ainda mais barata. Entre o agradar e o ser agradável. Não passam dali. Por isso tudo neles é um pouco leve. Tudo muito líquido, como água que vai como vai no recipiente em que estiver. São bastante voláteis. São do ‘sim’ constante ou dos ‘não’ que acabam sendo sins. Não sei se são sérios ou não. Mas sei que não sabem que fazem mal à própria Igreja, na medida em que a enformam às necessidades. Deles e sobejamente suas. Talvez sejam o rosto do sim constante de Deus. E nisso devem ser santos. 
 

sábado, junho 05, 2021

Porque foste comungar?

Estavam os dois lado a lado, em pé, ao fundo da igreja, por ocasião de uma festa de catequese dos filhos, quando o ministro extraordinário se acercou para distribuir a Sagrada Comunhão. Um destes dois amigos, aquele que só costuma ir à missa em festas deste género e pouco mais, colocou-se na fila para a comunhão. Como os outros. E comungou o Senhor. Como os outros que estavam na fila. Regressou com um grande sorriso nos lábios. Como a maioria dos outros da fila. No entanto, embora a comunhão seja um enorme motivo de alegria para os cristãos, quem o observasse com atenção diria que era um sorriso excessivo. Assim que se colocou no lugar onde estava antes, ao lado do outro amigo, este último, sabendo que ele não estava propriamente em condições de comungar, isto é, em graça, até porque quase nunca vai à missa, voltou-se para ele e perguntou-lhe porque fora comungar. E o outro respondeu com um sorriso ainda maior, que tinha ido comungar porque tinha fome. Assim, em tom de troça. 
Assim ele tivesse verdadeira fome de Deus! 
 

terça-feira, junho 01, 2021

A esperança é a última a morrer

A expressão “a esperança é a última a morrer” incomoda-me, porque a verdadeira esperança está muito para além de nós. E é essa que pode dar sentido à nossa vida e à nossa mortalidade. Temos de viver em confiança. Mas em confiança da realidade. Temos de viver em esperança. Mas em esperança do que há-de vir e que Deus nos tem preparado. O João, em poucos dias, em poucas semanas, regrediu na doença que pensara ter superado há uma década. Agora anda de médico em médico e de exame em exame, assustado. E dizia-me que a esperança era a última a morrer. Como se a esperança fosse a última coisa a morrer nele ou morresse ele primeiro que ela. 
Apesar de não gostar muito da expressão também eu a usei e continuo a usar muitas vezes. Mas agora, e no meio desta pandemia que nunca mais parece querer deixar-nos, começo a não gostar muito de frases feitas que me parecem um kitsch. E esta tem esse sabor agridoce de quem quer dizer a alguém que a coisa está mal, mas que não se deixe levar pela coisa. E cada vez mais penso que a verdadeira esperança só pode brotar da realidade, isto é, a esperança surge em nós, no meio das dores da vida, tanto quanto consigamos encarar com naturalidade a vida tal como ela nos é dado viver em cada momento e tal como quem a criou a projectou. Não será uma esperança balofa. Será uma esperança ancorada na certeza de que Deus tem, não só um projecto de vida magnífico para nós vivermos, como uma vida eterna de amor à nossa espera. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É que me lembrei da esperança"

sexta-feira, maio 28, 2021

os padres santos VIII

Conheço padres que acham que mandam no mundo. Pelo menos o mundo à sua volta. O mundo que conhecem. E também acham que têm um contacto privilegiado com Deus. O Deus que conhecem como ninguém. São aquele tipo de padres que vivem ainda no tempo de Trento e no clericalismo a que se habituaram sem maldade. Acham que a paróquia anda à sua roda. Aliás, ali nem o bispo manda mais que eles. Ninguém pode discordar. Ninguém pode falar mais alto. E o púlpito serve, muitas vezes, para desmascarar aqueles que não vão à Igreja e para cansar os que lá vão. Mas são genuínos. E muitas vezes não sabem que poderiam ser de outro modo. Ou que conseguiriam. Eu imagino-os a caminho da santidade como santos que suportam muito peso. Até porque recai sobre eles a crise da Igreja clericalizada. 
 

terça-feira, maio 25, 2021

os padres santos VII

Conheço padres que são muito frágeis. Frágeis no sentido de não serem tão fortes como gostariam. Ou de se deixarem enredar no meio das fragilidades humanas. Que os padres também são naturalmente humanos. E tanto querem ir mais além, como não sabem se devem ir. Ou têm dificuldade em ir. Tanto querem ser fiéis, como querem viver sem o ser. E vivem no paradoxo dos dias e das vidas. Às vezes conseguem viver com essas mágoas. Outras vezes, desenganam-se no engano das mágoas. Mas quem vive na humildade da fragilidade, ao menos é santo porque não se arroga o poder de não ser frágil. Não há padres impecáveis, isto é, sem pecado. O próprio Jesus disse um dia que tinha vindo para os pecadores. E o céu deve estar cheio deles. 
 

sábado, maio 22, 2021

Ó senhor padre, tem de ser que eu não tenho outra data

Ó senhor padre, tem de ser que eu não tenho outra data. Já está tudo marcado com o restaurante, os músicos e o fotógrafo. Depois da necessária suspensão por causa da pandemia, reagendaram a data do seu casamento para um domingo, e até querem manter a hora porque os convidados já estão informados. Ou seja, o último a saber da decisão e da remarcação é aquele que supostamente vai presidir à celebração. E tem de ser, porque já está tudo marcado, senhor padre. Olhe que eu até pensei que era mais fácil por ser ao domingo. Pois, os padres ao domingo estão, ironicamente, muito mais disponíveis, de facto. Não há outro padre? Sim, há padres aos magotes, que, ironicamente, nem têm de celebrar eucaristias dominicais nas suas paróquias. E é isto que andamos a alimentar nesta Igreja-supermercado de sacramentos de ‘vista’. Eu bem sei que estes noivos, como tantos outros, sofreram imenso com a suspensão do seu casamento. Mas é preciso haver, na mesma, uma santa paciência e um jogo grande de cintura para encontrar uma solução para o ‘tem de ser’ e manter um sorriso nos dentes quando nos apetece usá-los de outro modo. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Mais um Manuel e uma Maria vão casar pela Igreja"

quarta-feira, maio 19, 2021

a catequese das festas

Depois de dois anos de uma catequese incipiente e quase inexistente, o que preocupa os pais dos meninos que frequentam o terceiro ano da catequese é ‘quando fazem a festa da primeira comunhão’. Os mesmos pais que têm consciência que a catequese foi e está a ser insuficiente. Os mesmos pais que pouco ou nunca vão à eucaristia e que agora até têm a desculpa da pandemia. Não são, contudo, os únicos a fazer perguntas do género. Também os pais dos que estão para crismar ou para fazer a Profissão de Fé, entre outras festas da catequese. A catequese pouco importa. Ter feito ou não ter feito um itinerário de fé pouco importa. O que importa são as festas. 
Este tipo de catequese para festas tem de acabar, com o risco de andarmos a gastar as poucas energias de uma Igreja que se desgasta com a manutenção do que é impossível manter. A pandemia só veio deixar isso ainda mais claro. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nem Pai-nosso nem Avé-maria"

segunda-feira, maio 17, 2021

três é a conta que Deus fez [poema 317]

era há bocado e o tempo urge 
três vezes não ouço os galos, não posso ouvir 
de olhos fechados ninguém consegue escutar 
a multidão dos olhares que me olharam 
 
era há bocado e vou sair de lá 
tacteio nas paredes para entrar nelas 
e me esconder de ti 
 
e quando entro, dou conta que és tu 
outra vez dentro de tudo o que é fuga 
carne ou sangue, morte ou vida 
em mim

sexta-feira, maio 14, 2021

as minhas paróquias vacinadas

No final da missa, e porque do Centro de Saúde me tinham pedido para dar algumas informações úteis sobre a vacinação contra o novo coronavírus, achei que fazia sentido, e não fazia mal, perguntar quem é que já tinha levado a vacina, fosse uma ou duas doses. E quase toda a gente levantou o braço, sobretudo nas comunidades mais pequenas. Fiquei muito contente. Significa que nestas comunidades estamos a progredir a bom ritmo no caminho da imunidade. E congratulei-me com eles e por eles. Bastante. Pese embora o facto de muitos deles já terem levado a vacina ter outra interpretação óbvia: são comunidades envelhecidas. Bastante. 
 

terça-feira, maio 11, 2021

os padres santos VI

Conheço padres que se acham indignos de tudo. E até certo ponto são, porque todos somos indignos de tudo. Mas somos igualmente dignos de tudo, porque a dignidade nos é dada pelo próprio Deus. Vivem, porém, enclausurados nos preconceitos e na meticulosidade das acções. Na precisão dos pecados e nos erros que possam cometer. Em tudo olham para Deus com um certo medo. Que até podia ser temor. Mas é receio de não estarem a cumprir a vontade de Deus no caminho da santidade e de não estarem a ajudar os outros a ser santos com o seu exemplo. A meu ver, deveriam escutar mais a misericórdia divina que o juízo divino. Mas costumam ser tão bons estes padres! De certo modo, buscam a perfeição e por isso são santos. 
 

domingo, maio 09, 2021

versos tentados [poema 316]

Tenho vergonha destas palavras 
Que são pequenas e o tamanho diminui de hora em hora 
Pergunto se é um velho a nascer 
Ou uma árvore a minguar 
Se é uma casa a ruir 
Ou a minha vida a crescer. 
 
Vou tímido pelo passeio das palavras que me ensinaram 
A dizer, e que escrevo como se as soubesse dizer por dentro. 
 
E a vergonha entra desavergonhadamente em casa 
E não sei onde dorme, para me deitar com ela.

quinta-feira, maio 06, 2021

Armou-se um trinta e um por um terço

A porta da igreja aberta para a oração do terço, com o ministro do acolhimento, à entrada, dando orientações a quem quer entrar. Chegam duas senhoras que não querem desinfectar as mãos nem orientação alguma porque, dizem, já não são crianças. O ministro do acolhimento explica e esclarece. Mas de pouco adianta. As duas senhoras desconhecem as orientações e não as querem conhecer. Vêm para o terço com flores na mão para a ‘Senhora’ e só isso interessa. Já lá vai um ano, mas desconhecem as orientações que até já entraram naturalmente nos hábitos das pessoas. E porque é que as desconhecem? Porque nunca vão à missa, contava-me o ministro. Mas agora vão ao terço, acrescentava. São os cristãos para quem a devoção conta mais que a fé e o “eu” se sobrepõe à comunidade. E assim se gerou alguma confusão à porta da igreja para o terço, e faltou pouco para se armar um 31.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Alcindo que não pode entrar no cemitério"

segunda-feira, maio 03, 2021

os padres santos V

Conheço padres que agora moram nos computadores, nos telemóveis e nas redes sociais. Trocam e replicam mensagens como quem pestaneja. Vivem atrás dos seguidores. Por isso caem imensas vezes no exagero do show e do of. Embora apontem um dedo para Cristo, pois que este é a razão do seu viver, têm apontados recatadamente para si mesmos os restantes dedos da mão. Geralmente não gostam dos outros que são parecidos com eles e que competem por lugares mediáticos. Mas são voluntariosos. E criativos. Vivem para anunciar. Para se fazerem presentes. Para serem uma presença. E quer-me parecer que, de certo modo, Deus também se torna presente. Mesmo que seja um pouco light. Neste sentido, estes padres são tão santos como todos os outros, porque também eles não fazem por mal aquilo que fazem com boa intenção. E as intenções também são caminho de santidade. 
 

sexta-feira, abril 30, 2021

fidem [poema 315]

Há um homem que me corre nas veias 
Traça palavras pelo que sou e abandona-me 
Numa corrida sem fim, sem sair de mim. 
Sei-o pela cor do sangue quando caio e é branco 
E pela força que esboça o levantar e é eterna. 
Sei-o porque não o sabendo, o sinto. 
É isso a fé que alguns proclamam como tua, 
Somente tua forma de seres em mim.

terça-feira, abril 27, 2021

os padres santos IV

Conheço padres que são muito discretos. Vivem como uma ilha no meio das suas comunidades. São vistos por detrás das cortinas das janelas, com medo de serem vistos. Ou então no altar. Evitam olhar as pessoas olhos nos olhos. Mas até são capazes de rezar por elas. Como não se sabe o que fazem para além dos sacramentos e de estarem em casa, imaginamos que rezam pelas pessoas e pelas necessidades. Necessidades que eles próprios têm pouco. Porque o pouco lhes basta. Quase nunca saem para fora do seu território. Quase nunca participam nas actividades da sua diocese. Nem nas actividades sociais das comunidades onde são párocos. Acham que não têm lugar em lado nenhum. Mas como vivem com pouco, creio que são santos. É que o pouco, aos olhos de Deus, pode ser sempre muito.
 

sexta-feira, abril 23, 2021

os padres santos III

Conheço padres que procuram estar com as comunidades, fazer parte delas. Tanto que, às vezes, se confundem com elas. Se confundem no meio delas. São padres que inventam pouco, mas incentivam muito. Vão rezando aqui a acoli, de uma maneira ou de outra. Mas não rezam muito. Têm a cabeça ocupada a pensar no outro. No irmão que sofre e que está doente. Sabem comunicar muito bem. Comunicam não apenas com a palavra, mas com a vida. Mas sentem sempre que lhes está a escapar alguma coisa. Que ainda lhes falta o não sei o quê. Que a Igreja deveria ultrapassar-se a si mesma. Que Deus é que salva. E com isso tentam sossegar a consciência do que não conseguem fazer. E são santos. Obviamente que são santos. Em que é que não o seriam? 
 

quarta-feira, abril 21, 2021

madalena [poema 314]

Deixo os cravos atrás de nós e deixo ir o meu perfume contigo 
a cruz lavou-me os olhos e o sudário limpou-os 
 
piso descalça o meu passado, entre as casas, para te ver 
e não te vejo senão dentro de mim 
vivo como eu vivo 
 
Mc 16, 1-8

domingo, abril 18, 2021

A fé provoca-nos muitas dúvidas.

No meio de uma conversa amena sobre a fé, o Sérgio disse que a fé nos provocava muitas dúvidas. Disse-o como se fosse melhor que não ouvissem o que acabara de dizer. Teve medo do que disse. Teve medo da nossa reação. Mas disse-o, e gosto dele por dizer o que pensa. Por perguntar e procurar. Tal como o Tomé. Este apóstolo é conhecido, desde sempre, como o símbolo de todos aqueles que têm dúvidas de fé, que têm dificuldade em acreditar. Não é completamente justo este atributo. De facto, Tomé era honesto na sua dúvida. Não escondia as suas fraquezas e incertezas. Não tinha medo de perguntar e de buscar a verdade. Aliás, não conseguia viver com uma pergunta sem resposta. E procurava por ela. Tomé, mais do que símbolo das dúvidas de fé em si, é o símbolo de quem não esconde as suas fraquezas, inseguranças ou dúvidas, e procura e espera em Deus as respostas. Nele percebemos que qualquer cristão pode passar por dificuldades, ter perguntas, levantar objecções. Afinal, a fé é um caminho imperfeito na busca do mais que perfeito. A fé é um caminho irregular em que cada barreira se transforma em escada e em que cada poça de lama se torna o momento ideal para dar um salto. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como podemos ter a certeza da nossa fé, senhor padre?"

sexta-feira, abril 16, 2021

sementeira II [poema 313]

o homem cai da cruz porque a subiu, de peito aberto 
pisou as vestes que trazia como sombra 
 
Morres de novo, morres todas as vezes 
Mas não cais, porque estás no soalho 
E as flores não caem, porque nascem do chão 
 
o homem brinca ao faz de conta e a tempestade cai 
porque o homem não é o céu 
e as pedras são pedra 
 
Morres as vezes que for preciso, mas não te conseguem matar 
apenas te conseguem semear. 
 
Marcos 15, 2425

quarta-feira, abril 14, 2021

os padres santos II

Conheço padres que não param, que se multiplicam. Que andam de um lado ao outro a fazer tudo. Tratam do administrativo e do pastoral. Criam e recriam actividades, eventos, momentos. Estão com toda a gente e, ao mesmo tempo, não estão. Porque não conseguem estar. O tempo que lhes sobra é para fugir para outra actividade. Para estes, os sacramentos são actividades. Vivem animando a comunidade e desanimando perante a sua inércia. Vivem de tudo, como actos isolados e não como processos. Mas são santos. Se calhar rezam pouco com as orações. Mas rezam muito com a vida e o cansaço. Rezam com a depressão e com a entrega constante ao Senhor no que vem a seguir. 

"os padres santos I"

segunda-feira, abril 12, 2021

os padres santos I

Conheço padres que parece que vivem recolhidos, mas vivem encolhidos. Padres que rezam escondidos, mas rezam todos os dias a Liturgia das Horas e o Terço. Passam pouco tempo com e na comunidade. Pastoralmente mantêm-se, em geral, no sacramental a que chamam espiritual. Alimentam-se nos sacramentos, e bem. Para eles vivem. Para eles canalizam as suas forças. ‘Pouco mais’ é exagerado, mas é mais ou menos ‘pouco mais’. Pouca preocupação com a catequese, com a pregação, com o social. Vivem no encontro com Deus e esquecem o encontro com os outros. São santos, são. Vivem para estar na intimidade de Deus Pai. Talvez sejam santos no sentido humilde e pequeno da realidade. 
 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Porque é que Deus precisa dos padres?"

sábado, abril 10, 2021

sementeiras [poema 312]

o homem cai da cruz quando te descem nos panos 
ou desces por tua própria vontade, porque te abaixaste 
 
o homem é depositado na escuridão quando te sepultam 
por pouco tempo, o tempo das sementeiras 
 
e o vento recolhe a tempestade e sopra, 
entra pela face, como um eco, e não mais pára, 
 
e a pedra fria que te encerrou é agora a escada 
que o homem despido folheia por dentro de si 
 
e o silêncio que selara o sepulcro, o esvazia 
desembaraça a esperança que a morte não matou 
 
no maior milagre do tempo sempre a vir 
de ficar para sempre, mesmo quando partir 
o tempo eterno das sementeiras...
 
Lucas 24, 1-12

domingo, abril 04, 2021

O Miguelito e a Ressurreição

Uma das professoras da escola do Miguelito faltou vários dias, porque o seu marido falecera. Ora, o Miguelito gostava muito daquela professora, sabia que ela estava muito triste e, por isso, perguntou à mãe se achava que, se pedissem muito, Jesus poderia ressuscitar o marido da professora. Admirada com a inquietação do filho, a mãe respondeu-lhe que o marido da professora já tinha ressuscitado para a vida do céu, e que estava ao pé de Jesus. E o Miguelito, como é seu hábito, arregalou os olhos e disse que isso era muito bom. Só não entendia porque é que as pessoas tinham medo de morrer e ficavam tristes. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Três perguntas e muitas mais"

sábado, abril 03, 2021

ioseph ab arimateia [poema 311]

Fui sepultado contigo na edícula do meu passado 
Ali fizemos morada, pequena casa encavada, os dois 
Sem nos falarmos com as palavras 
 
Fui atrás dos gritos da multidão com o teu nome 
Ao contrário. Do alto pendias meu coração 
Caído 
 
Fui dono do meu passado no estio dos romanos 
Entre as barcaças que me afastavam de ti 
Nas horas tardias em casa de Simão 
Ao anoitecer 
 
Da nossa vida 
 
(Jo 19, 38) 

sexta-feira, abril 02, 2021

madeiro [poema 310]

morres nos meus braços de madeira no cimo da escada 
 
o sangue escorre, cai e desce 
até ao nascente do rio e desaparece 
na minha água inquinada 
 
e encontro a dor no pulsar do teu costado em meu peito 
aceleramos os dois o respirar num abraço colado 
pelas lágrimas de sangue a arder com avidez

inclinas-te para te entregares por inteiro a mim, 
e expiro contigo para ganharmos vida 
sem fim… 
A tua e a minha missão é cumprida. 
 
oh morte que não deixas morrer o amor, mesmo depois 
de morrermos unidos os dois. 
 
(Jo 19)

quinta-feira, abril 01, 2021

lavadeiro [poema 309]

Não consinto que me laves seja que parte for do que é meu 
Nem por fora nem por dentro da pele, a ribeira 
vai vazia e os tanques estão cheios até cima, de terra 
Que é húmida, e deixa marcados os passos errados que dou. 
Vou descalço porque se perderam as sandálias quando te percorri 
Cansado de tanto andar 
Por aí. 
 
Não quero a tua água, somente o pão molhado da tua taça. 
por dentro me lava esse pão e me azeda 
E não consinto que me laves sem saberes: 
Nego-te e renego-te, porque me nego a mim. 
 
(Jo 13, 1-15)

segunda-feira, março 29, 2021

O drama de ser mortal

Era uma vez um rei que estava à beira da morte por causa de uma doença incurável. Já estava nas últimas. Porém, cada vez que a rainha lhe dizia que ia morrer, ele afirmava que não. Quando o príncipe insistia, ele insistia que não. Quando, por fim, o médico lhe explicava que ia morrer, ele persistia no seu rotundo Não. Que havia de durar mais quarenta anos, porque ele era o rei e era ele quem decidia. 
Olhamos para a personagem principal desta pequena história, o rei, e o mais provável é rirmo-nos da sua tolice. Mas esta atitude, com mais ou menos obviedade, é uma atitude recorrente nas nossas vidas. Também nós vivemos como se a nossa vida e a nossa morte fossem decisões exclusivamente pessoais. E alimentamos uma esperança vazia de que há-de ser como queremos que seja. Por isso, diante do sofrimento, entusiasmamo-nos uns aos outros com expressões do tipo “vai correr tudo bem”, “deus vai ajudar”, “a esperança é a última a morrer”. 
O drama humano começa quando tomamos consciência de que somos e não somos. A consciência de que não podemos decidir sobre nós. Sabemos que a morte nos vai encontrar, mas não sabemos como será nem como a conseguiremos afrontar. O que podemos fazer é ir configurando o nosso ser mortal, o nosso ser limitado. É preciso aprender a ser mortais. Que é quase o mesmo que aprender a amar e a ser amado. A dar consistência à vida que temos. 
Devemos aprender com Cristo a viver a mortalidade. E aprender a viver a mortalidade com Cristo é reconhecer a nossa vida, o que a sustém, o que ela vale. Deste-me esta vida. Não a vida, mas esta vida. E dizê-lo com gratidão, num exercício de amor. E isto é que é morrer com Cristo. Aprender a ser mortal, a ser limitado, é aprender a amar. Nunca somos da vida, mas participamos dela. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É a vida
 
desejo a todos uma Semana Santa a olhar para dentro e para fora de nós!

sábado, março 27, 2021

limiar [poema 308]

No limiar da hora, agora entendo 
O corpo desnudado de quem me vê 
Sem-abrigo ou sem nada, penso que sei 
quem é. 
 
Na hora tardia, quando o rosto cai 
Sobre o corpo, e inspira a noite 
O vento do espírito levará à vida 
No chegar da hora 
Entendo que é para poder ser 
Mais do que tem sido 
Agora

quarta-feira, março 24, 2021

Estou com um coração nas mãos

Estava aflita. Era o adjectivo mais adequado ao seu estado de vida e de saúde. Ainda não sabia o que tinha. Andava a fazer exames. Já fizera vários. Mas a ansiedade e a dor não paravam. Deixava que uma e outra se transformassem em aflição. A doença da aflição. Senhor padre. Estou com o coração nas mãos. Aqui está o principal sintoma da aflição! Ter o coração nas mãos. 
E quantas vezes o coração nos vem parar às mãos, sem sabermos o que fazer com ele! Nestas circunstâncias, a melhor solução é, a meu ver, pedir o apoio de outras mãos. Na verdade, todas as coisas pesadas se tornam menos pesadas se forem seguras ou levantadas por várias mãos. Tudo o que nos pesa pode ter menos peso quando procuramos outras mãos. Dar as mãos é quase como dar o coração. E quando se partilha o coração, outros corações ganham vida! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sinto-me uma pecadora"

segunda-feira, março 22, 2021

há festa [poema 307]

Convoco as flores do quintal para um jantar, e num frenesim 
Seguem-nas as folhas, mesmo as caídas dentro de mim 
 
Fazemos figuras de mimos a correr, ou máscaras para nos cobrir 
Estalamos dedos para que dancem as meninas a florir 
 
Sinto os sinos a rebate, como se fosse sábado santo 
Porém, no quintal, todos parecem chorar em verde pranto 
 
Se escutasse o que a vida diz, convocava festas dia a dia 
Mesmo que não houvessem flores, era o que eu queria…

sexta-feira, março 19, 2021

Sou muito mais a Sofia

A Sofia está casada com o seu marido há cerca de vinte anos, os anos suficientes para saber o que é o matrimónio e a família, com os seus lados positivos e os seus lados mais frágeis. Os anos suficientes para falar deles com o peso da experiência vivida e sentida. Vem esta descrição a propósito da conversa que encetámos há dias, com uns amigos, sobre o modo de viver em casal. Alguém referia, sem mais, que nenhum dos cônjuges podia perder a sua personalidade. Outro interveniente opinava que nenhum dos dois deveria perder a sua personalidade, mas que deveriam necessariamente ajustar-se em casal, fazer conceções, readaptações de vida e de personalidade. Ao menos para evitar uma forma de amar egocêntrica e indiferente. E às tantas, a Sofia interrompeu-nos e disse que, no que toca a personalidade, ela era muito mais a Sofia com o Fernando, seu marido. Assim, sem mais. Que ela era muito mais a Sofia com o Fernando. E todos nos calámos a olhar a beleza do que ela havia dito. Pelo menos eu. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "José, de personagem secundária a modelo principal

... no início do Ano da Família Amoris Laetitia

terça-feira, março 16, 2021

Sociedade irritada VI

As redes sociais expõem, mesmo sem os seus utilizadores darem conta, as fragilidades, a ignorância, a inoperância das pessoas e, muitas vezes, ainda projecta o que de pior têm. O Papa diz mais ou menos isto na encíclica Fratelli Tutti, mas eu também penso deste modo quando penso nesta sociedade que tem criado redes de relações superficiais a quase todos os níveis. Os erros ortográficos dão conta da ignorância de muitos. As opiniões sem argumentos ou com argumentos falaciosos dão conta do desconhecimento e da incapacidade de reflectir de muitos. Os ataques verbais escritos dão conta do íntimo de muitos. As críticas constantes do que este e aquele deviam fazer dão conta da acção de bancada de muitos. Com pena, vivemos nesta virtualidade, sem dar conta que, na maioria das vezes e dos casos, o que mostramos de nós não é o melhor. 
 

sexta-feira, março 12, 2021

lar [poema 306]

Meu pai era emigrante ainda antes de eu nascer 
A vida negra das mãos era a mesma dos escravos, sem o ser 
Uma nesga do que havia no meu coração, ainda antes 
De querer 
 
Minha mãe trouxe-me ao mundo muito antes de me trazer 
E a ela devo quem o mundo me quis ensinar 
A ser 
 
Minha família conto-a pelos dedos, como contas do rosário 
Que passo, a rezar, para nelas 
Me rever 
 
Sou uma casa de pedras, um lar como gostava de dizer 
No meio das palavras que guardarei sempre aqui 
Enquanto viver

quarta-feira, março 10, 2021

A culpa do pecado é do perdão de Deus

A culpa do pecado é do perdão de Deus. Sei que a afirmação pode não fazer sentido. Aliás pensar que o perdão de Deus possa ser o culpado dos nossos pecados, parece descabido e despropositado. E informo que não li isto em nenhum lado. Li-o, no meu coração, numa daquelas meditações em que a gente se põe a deambular. Talvez até seja mesmo uma expressão excessiva se a fizer como se todos pecassem mais à vontade por se saberem continuamente perdoados por uma tão grande misericórdia como é a misericórdia de Deus. Se calhar é apenas a minha preciosa desculpa diante de Deus. 
Eu sei que Ele está sempre pronto a perdoar e a fazer-me sentir o Seu perdão. Por ter esta certeza tão certa, não será que fico à espera que Deus faça tudo por mim? Que faça aquilo que não me apetece fazer? Talvez seja essa a maior desculpa para não enfrentarmos os nossos pecados. Ou dito de outra forma, creio que diante do pecado, para além de valorizarmos o perdão de Deus, deveríamos rever também o nosso amor a Deus e a verdade da nossa fidelidade. Deus perdoa sem nós o merecermos. Mas também devemos viver no Seu Amor e procurar a sua Graça. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A rixa"

segunda-feira, março 08, 2021

sem nome [poema 305]

Fiz o repouso da seara nos teus olhos 
Brilhantes 
Fiz a meia de lã dobada na casa 
Grande 
Carreguei-a na barca de água que chovera na 
Fonte 
No caminho calcei todas as pedras para chegar ao mais alto 
De ti

sábado, março 06, 2021

Os padres auto-dependentes

Nós, padres, somos, tal como qualquer indivíduo, fruto de uma sociedade que fabrica auto-dependentes. Por isso nos tornamos auto-dependentes, mesmo sem querer. Mesmo quando procuramos um ombro amigo, um auxílio, uma força nos outros, buscamo-lo para a nossa auto-dependencia. Mesmo quando nos esforçamos por aparentar aos outros, fazêmo-lo na busca da nossa segurança… quando tudo depende de Deus e é Ele a verdadeira segurança das nossas vidas. Por isso quando não alcançamos o sucesso pastoral almejado, ficamos frustrados, porque a nossa auto-dependencia nos mostra que a maioria das coisas nos escapam e não são como sonhámos. Às vezes esquecemos que devemos semear, outros regarão e que só Deus faz crescer a planta. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Há dias assim"

quarta-feira, março 03, 2021

as cinzas [poema 304]

A mulher desfez-se em cinzas, daquelas cinzas que voam 
Não disse adeus, mas agora despede-se nos meus olhos 
A voar com ela 
 
As palavras fecharam-se no meio da nuvem de pó 
E nesse silêncio falaram como se não fossem delas 
Os sons que vemos partir 
 
Estas mulheres que se tornam cinzas são as nossas mães 
As asas cinzentas que são todas as cores a esvoaçar
Dentro de nós

São as vidas que do nada vêm e no coração de nada ficam 
Como labareda sempre a arder 
 
à minha tia que faleceu com covid