segunda-feira, maio 03, 2021

os padres santos V

Conheço padres que agora moram nos computadores, nos telemóveis e nas redes sociais. Trocam e replicam mensagens como quem pestaneja. Vivem atrás dos seguidores. Por isso caem imensas vezes no exagero do show e do of. Embora apontem um dedo para Cristo, pois que este é a razão do seu viver, têm apontados recatadamente para si mesmos os restantes dedos da mão. Geralmente não gostam dos outros que são parecidos com eles e que competem por lugares mediáticos. Mas são voluntariosos. E criativos. Vivem para anunciar. Para se fazerem presentes. Para serem uma presença. E quer-me parecer que, de certo modo, Deus também se torna presente. Mesmo que seja um pouco light. Neste sentido, estes padres são tão santos como todos os outros, porque também eles não fazem por mal aquilo que fazem com boa intenção. E as intenções também são caminho de santidade. 
 

sexta-feira, abril 30, 2021

fidem [poema 315]

Há um homem que me corre nas veias 
Traça palavras pelo que sou e abandona-me 
Numa corrida sem fim, sem sair de mim. 
Sei-o pela cor do sangue quando caio e é branco 
E pela força que esboça o levantar e é eterna. 
Sei-o porque não o sabendo, o sinto. 
É isso a fé que alguns proclamam como tua, 
Somente tua forma de seres em mim.

terça-feira, abril 27, 2021

os padres santos IV

Conheço padres que são muito discretos. Vivem como uma ilha no meio das suas comunidades. São vistos por detrás das cortinas das janelas, com medo de serem vistos. Ou então no altar. Evitam olhar as pessoas olhos nos olhos. Mas até são capazes de rezar por elas. Como não se sabe o que fazem para além dos sacramentos e de estarem em casa, imaginamos que rezam pelas pessoas e pelas necessidades. Necessidades que eles próprios têm pouco. Porque o pouco lhes basta. Quase nunca saem para fora do seu território. Quase nunca participam nas actividades da sua diocese. Nem nas actividades sociais das comunidades onde são párocos. Acham que não têm lugar em lado nenhum. Mas como vivem com pouco, creio que são santos. É que o pouco, aos olhos de Deus, pode ser sempre muito.
 

sexta-feira, abril 23, 2021

os padres santos III

Conheço padres que procuram estar com as comunidades, fazer parte delas. Tanto que, às vezes, se confundem com elas. Se confundem no meio delas. São padres que inventam pouco, mas incentivam muito. Vão rezando aqui a acoli, de uma maneira ou de outra. Mas não rezam muito. Têm a cabeça ocupada a pensar no outro. No irmão que sofre e que está doente. Sabem comunicar muito bem. Comunicam não apenas com a palavra, mas com a vida. Mas sentem sempre que lhes está a escapar alguma coisa. Que ainda lhes falta o não sei o quê. Que a Igreja deveria ultrapassar-se a si mesma. Que Deus é que salva. E com isso tentam sossegar a consciência do que não conseguem fazer. E são santos. Obviamente que são santos. Em que é que não o seriam? 
 

quarta-feira, abril 21, 2021

madalena [poema 314]

Deixo os cravos atrás de nós e deixo ir o meu perfume contigo 
a cruz lavou-me os olhos e o sudário limpou-os 
 
piso descalça o meu passado, entre as casas, para te ver 
e não te vejo senão dentro de mim 
vivo como eu vivo 
 
Mc 16, 1-8

domingo, abril 18, 2021

A fé provoca-nos muitas dúvidas.

No meio de uma conversa amena sobre a fé, o Sérgio disse que a fé nos provocava muitas dúvidas. Disse-o como se fosse melhor que não ouvissem o que acabara de dizer. Teve medo do que disse. Teve medo da nossa reação. Mas disse-o, e gosto dele por dizer o que pensa. Por perguntar e procurar. Tal como o Tomé. Este apóstolo é conhecido, desde sempre, como o símbolo de todos aqueles que têm dúvidas de fé, que têm dificuldade em acreditar. Não é completamente justo este atributo. De facto, Tomé era honesto na sua dúvida. Não escondia as suas fraquezas e incertezas. Não tinha medo de perguntar e de buscar a verdade. Aliás, não conseguia viver com uma pergunta sem resposta. E procurava por ela. Tomé, mais do que símbolo das dúvidas de fé em si, é o símbolo de quem não esconde as suas fraquezas, inseguranças ou dúvidas, e procura e espera em Deus as respostas. Nele percebemos que qualquer cristão pode passar por dificuldades, ter perguntas, levantar objecções. Afinal, a fé é um caminho imperfeito na busca do mais que perfeito. A fé é um caminho irregular em que cada barreira se transforma em escada e em que cada poça de lama se torna o momento ideal para dar um salto. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como podemos ter a certeza da nossa fé, senhor padre?"

sexta-feira, abril 16, 2021

sementeira II [poema 313]

o homem cai da cruz porque a subiu, de peito aberto 
pisou as vestes que trazia como sombra 
 
Morres de novo, morres todas as vezes 
Mas não cais, porque estás no soalho 
E as flores não caem, porque nascem do chão 
 
o homem brinca ao faz de conta e a tempestade cai 
porque o homem não é o céu 
e as pedras são pedra 
 
Morres as vezes que for preciso, mas não te conseguem matar 
apenas te conseguem semear. 
 
Marcos 15, 2425

quarta-feira, abril 14, 2021

os padres santos II

Conheço padres que não param, que se multiplicam. Que andam de um lado ao outro a fazer tudo. Tratam do administrativo e do pastoral. Criam e recriam actividades, eventos, momentos. Estão com toda a gente e, ao mesmo tempo, não estão. Porque não conseguem estar. O tempo que lhes sobra é para fugir para outra actividade. Para estes, os sacramentos são actividades. Vivem animando a comunidade e desanimando perante a sua inércia. Vivem de tudo, como actos isolados e não como processos. Mas são santos. Se calhar rezam pouco com as orações. Mas rezam muito com a vida e o cansaço. Rezam com a depressão e com a entrega constante ao Senhor no que vem a seguir. 

"os padres santos I"

segunda-feira, abril 12, 2021

os padres santos I

Conheço padres que parece que vivem recolhidos, mas vivem encolhidos. Padres que rezam escondidos, mas rezam todos os dias a Liturgia das Horas e o Terço. Passam pouco tempo com e na comunidade. Pastoralmente mantêm-se, em geral, no sacramental a que chamam espiritual. Alimentam-se nos sacramentos, e bem. Para eles vivem. Para eles canalizam as suas forças. ‘Pouco mais’ é exagerado, mas é mais ou menos ‘pouco mais’. Pouca preocupação com a catequese, com a pregação, com o social. Vivem no encontro com Deus e esquecem o encontro com os outros. São santos, são. Vivem para estar na intimidade de Deus Pai. Talvez sejam santos no sentido humilde e pequeno da realidade. 
 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Porque é que Deus precisa dos padres?"

sábado, abril 10, 2021

sementeiras [poema 312]

o homem cai da cruz quando te descem nos panos 
ou desces por tua própria vontade, porque te abaixaste 
 
o homem é depositado na escuridão quando te sepultam 
por pouco tempo, o tempo das sementeiras 
 
e o vento recolhe a tempestade e sopra, 
entra pela face, como um eco, e não mais pára, 
 
e a pedra fria que te encerrou é agora a escada 
que o homem despido folheia por dentro de si 
 
e o silêncio que selara o sepulcro, o esvazia 
desembaraça a esperança que a morte não matou 
 
no maior milagre do tempo sempre a vir 
de ficar para sempre, mesmo quando partir 
o tempo eterno das sementeiras...
 
Lucas 24, 1-12

domingo, abril 04, 2021

O Miguelito e a Ressurreição

Uma das professoras da escola do Miguelito faltou vários dias, porque o seu marido falecera. Ora, o Miguelito gostava muito daquela professora, sabia que ela estava muito triste e, por isso, perguntou à mãe se achava que, se pedissem muito, Jesus poderia ressuscitar o marido da professora. Admirada com a inquietação do filho, a mãe respondeu-lhe que o marido da professora já tinha ressuscitado para a vida do céu, e que estava ao pé de Jesus. E o Miguelito, como é seu hábito, arregalou os olhos e disse que isso era muito bom. Só não entendia porque é que as pessoas tinham medo de morrer e ficavam tristes. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Três perguntas e muitas mais"

sábado, abril 03, 2021

ioseph ab arimateia [poema 311]

Fui sepultado contigo na edícula do meu passado 
Ali fizemos morada, pequena casa encavada, os dois 
Sem nos falarmos com as palavras 
 
Fui atrás dos gritos da multidão com o teu nome 
Ao contrário. Do alto pendias meu coração 
Caído 
 
Fui dono do meu passado no estio dos romanos 
Entre as barcaças que me afastavam de ti 
Nas horas tardias em casa de Simão 
Ao anoitecer 
 
Da nossa vida 
 
(Jo 19, 38) 

sexta-feira, abril 02, 2021

madeiro [poema 310]

morres nos meus braços de madeira no cimo da escada 
 
o sangue escorre, cai e desce 
até ao nascente do rio e desaparece 
na minha água inquinada 
 
e encontro a dor no pulsar do teu costado em meu peito 
aceleramos os dois o respirar num abraço colado 
pelas lágrimas de sangue a arder com avidez

inclinas-te para te entregares por inteiro a mim, 
e expiro contigo para ganharmos vida 
sem fim… 
A tua e a minha missão é cumprida. 
 
oh morte que não deixas morrer o amor, mesmo depois 
de morrermos unidos os dois. 
 
(Jo 19)

quinta-feira, abril 01, 2021

lavadeiro [poema 309]

Não consinto que me laves seja que parte for do que é meu 
Nem por fora nem por dentro da pele, a ribeira 
vai vazia e os tanques estão cheios até cima, de terra 
Que é húmida, e deixa marcados os passos errados que dou. 
Vou descalço porque se perderam as sandálias quando te percorri 
Cansado de tanto andar 
Por aí. 
 
Não quero a tua água, somente o pão molhado da tua taça. 
por dentro me lava esse pão e me azeda 
E não consinto que me laves sem saberes: 
Nego-te e renego-te, porque me nego a mim. 
 
(Jo 13, 1-15)

segunda-feira, março 29, 2021

O drama de ser mortal

Era uma vez um rei que estava à beira da morte por causa de uma doença incurável. Já estava nas últimas. Porém, cada vez que a rainha lhe dizia que ia morrer, ele afirmava que não. Quando o príncipe insistia, ele insistia que não. Quando, por fim, o médico lhe explicava que ia morrer, ele persistia no seu rotundo Não. Que havia de durar mais quarenta anos, porque ele era o rei e era ele quem decidia. 
Olhamos para a personagem principal desta pequena história, o rei, e o mais provável é rirmo-nos da sua tolice. Mas esta atitude, com mais ou menos obviedade, é uma atitude recorrente nas nossas vidas. Também nós vivemos como se a nossa vida e a nossa morte fossem decisões exclusivamente pessoais. E alimentamos uma esperança vazia de que há-de ser como queremos que seja. Por isso, diante do sofrimento, entusiasmamo-nos uns aos outros com expressões do tipo “vai correr tudo bem”, “deus vai ajudar”, “a esperança é a última a morrer”. 
O drama humano começa quando tomamos consciência de que somos e não somos. A consciência de que não podemos decidir sobre nós. Sabemos que a morte nos vai encontrar, mas não sabemos como será nem como a conseguiremos afrontar. O que podemos fazer é ir configurando o nosso ser mortal, o nosso ser limitado. É preciso aprender a ser mortais. Que é quase o mesmo que aprender a amar e a ser amado. A dar consistência à vida que temos. 
Devemos aprender com Cristo a viver a mortalidade. E aprender a viver a mortalidade com Cristo é reconhecer a nossa vida, o que a sustém, o que ela vale. Deste-me esta vida. Não a vida, mas esta vida. E dizê-lo com gratidão, num exercício de amor. E isto é que é morrer com Cristo. Aprender a ser mortal, a ser limitado, é aprender a amar. Nunca somos da vida, mas participamos dela. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É a vida
 
desejo a todos uma Semana Santa a olhar para dentro e para fora de nós!

sábado, março 27, 2021

limiar [poema 308]

No limiar da hora, agora entendo 
O corpo desnudado de quem me vê 
Sem-abrigo ou sem nada, penso que sei 
quem é. 
 
Na hora tardia, quando o rosto cai 
Sobre o corpo, e inspira a noite 
O vento do espírito levará à vida 
No chegar da hora 
Entendo que é para poder ser 
Mais do que tem sido 
Agora

quarta-feira, março 24, 2021

Estou com um coração nas mãos

Estava aflita. Era o adjectivo mais adequado ao seu estado de vida e de saúde. Ainda não sabia o que tinha. Andava a fazer exames. Já fizera vários. Mas a ansiedade e a dor não paravam. Deixava que uma e outra se transformassem em aflição. A doença da aflição. Senhor padre. Estou com o coração nas mãos. Aqui está o principal sintoma da aflição! Ter o coração nas mãos. 
E quantas vezes o coração nos vem parar às mãos, sem sabermos o que fazer com ele! Nestas circunstâncias, a melhor solução é, a meu ver, pedir o apoio de outras mãos. Na verdade, todas as coisas pesadas se tornam menos pesadas se forem seguras ou levantadas por várias mãos. Tudo o que nos pesa pode ter menos peso quando procuramos outras mãos. Dar as mãos é quase como dar o coração. E quando se partilha o coração, outros corações ganham vida! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sinto-me uma pecadora"

segunda-feira, março 22, 2021

há festa [poema 307]

Convoco as flores do quintal para um jantar, e num frenesim 
Seguem-nas as folhas, mesmo as caídas dentro de mim 
 
Fazemos figuras de mimos a correr, ou máscaras para nos cobrir 
Estalamos dedos para que dancem as meninas a florir 
 
Sinto os sinos a rebate, como se fosse sábado santo 
Porém, no quintal, todos parecem chorar em verde pranto 
 
Se escutasse o que a vida diz, convocava festas dia a dia 
Mesmo que não houvessem flores, era o que eu queria…

sexta-feira, março 19, 2021

Sou muito mais a Sofia

A Sofia está casada com o seu marido há cerca de vinte anos, os anos suficientes para saber o que é o matrimónio e a família, com os seus lados positivos e os seus lados mais frágeis. Os anos suficientes para falar deles com o peso da experiência vivida e sentida. Vem esta descrição a propósito da conversa que encetámos há dias, com uns amigos, sobre o modo de viver em casal. Alguém referia, sem mais, que nenhum dos cônjuges podia perder a sua personalidade. Outro interveniente opinava que nenhum dos dois deveria perder a sua personalidade, mas que deveriam necessariamente ajustar-se em casal, fazer conceções, readaptações de vida e de personalidade. Ao menos para evitar uma forma de amar egocêntrica e indiferente. E às tantas, a Sofia interrompeu-nos e disse que, no que toca a personalidade, ela era muito mais a Sofia com o Fernando, seu marido. Assim, sem mais. Que ela era muito mais a Sofia com o Fernando. E todos nos calámos a olhar a beleza do que ela havia dito. Pelo menos eu. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "José, de personagem secundária a modelo principal

... no início do Ano da Família Amoris Laetitia

terça-feira, março 16, 2021

Sociedade irritada VI

As redes sociais expõem, mesmo sem os seus utilizadores darem conta, as fragilidades, a ignorância, a inoperância das pessoas e, muitas vezes, ainda projecta o que de pior têm. O Papa diz mais ou menos isto na encíclica Fratelli Tutti, mas eu também penso deste modo quando penso nesta sociedade que tem criado redes de relações superficiais a quase todos os níveis. Os erros ortográficos dão conta da ignorância de muitos. As opiniões sem argumentos ou com argumentos falaciosos dão conta do desconhecimento e da incapacidade de reflectir de muitos. Os ataques verbais escritos dão conta do íntimo de muitos. As críticas constantes do que este e aquele deviam fazer dão conta da acção de bancada de muitos. Com pena, vivemos nesta virtualidade, sem dar conta que, na maioria das vezes e dos casos, o que mostramos de nós não é o melhor. 
 

sexta-feira, março 12, 2021

lar [poema 306]

Meu pai era emigrante ainda antes de eu nascer 
A vida negra das mãos era a mesma dos escravos, sem o ser 
Uma nesga do que havia no meu coração, ainda antes 
De querer 
 
Minha mãe trouxe-me ao mundo muito antes de me trazer 
E a ela devo quem o mundo me quis ensinar 
A ser 
 
Minha família conto-a pelos dedos, como contas do rosário 
Que passo, a rezar, para nelas 
Me rever 
 
Sou uma casa de pedras, um lar como gostava de dizer 
No meio das palavras que guardarei sempre aqui 
Enquanto viver

quarta-feira, março 10, 2021

A culpa do pecado é do perdão de Deus

A culpa do pecado é do perdão de Deus. Sei que a afirmação pode não fazer sentido. Aliás pensar que o perdão de Deus possa ser o culpado dos nossos pecados, parece descabido e despropositado. E informo que não li isto em nenhum lado. Li-o, no meu coração, numa daquelas meditações em que a gente se põe a deambular. Talvez até seja mesmo uma expressão excessiva se a fizer como se todos pecassem mais à vontade por se saberem continuamente perdoados por uma tão grande misericórdia como é a misericórdia de Deus. Se calhar é apenas a minha preciosa desculpa diante de Deus. 
Eu sei que Ele está sempre pronto a perdoar e a fazer-me sentir o Seu perdão. Por ter esta certeza tão certa, não será que fico à espera que Deus faça tudo por mim? Que faça aquilo que não me apetece fazer? Talvez seja essa a maior desculpa para não enfrentarmos os nossos pecados. Ou dito de outra forma, creio que diante do pecado, para além de valorizarmos o perdão de Deus, deveríamos rever também o nosso amor a Deus e a verdade da nossa fidelidade. Deus perdoa sem nós o merecermos. Mas também devemos viver no Seu Amor e procurar a sua Graça. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A rixa"

segunda-feira, março 08, 2021

sem nome [poema 305]

Fiz o repouso da seara nos teus olhos 
Brilhantes 
Fiz a meia de lã dobada na casa 
Grande 
Carreguei-a na barca de água que chovera na 
Fonte 
No caminho calcei todas as pedras para chegar ao mais alto 
De ti

sábado, março 06, 2021

Os padres auto-dependentes

Nós, padres, somos, tal como qualquer indivíduo, fruto de uma sociedade que fabrica auto-dependentes. Por isso nos tornamos auto-dependentes, mesmo sem querer. Mesmo quando procuramos um ombro amigo, um auxílio, uma força nos outros, buscamo-lo para a nossa auto-dependencia. Mesmo quando nos esforçamos por aparentar aos outros, fazêmo-lo na busca da nossa segurança… quando tudo depende de Deus e é Ele a verdadeira segurança das nossas vidas. Por isso quando não alcançamos o sucesso pastoral almejado, ficamos frustrados, porque a nossa auto-dependencia nos mostra que a maioria das coisas nos escapam e não são como sonhámos. Às vezes esquecemos que devemos semear, outros regarão e que só Deus faz crescer a planta. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Há dias assim"

quarta-feira, março 03, 2021

as cinzas [poema 304]

A mulher desfez-se em cinzas, daquelas cinzas que voam 
Não disse adeus, mas agora despede-se nos meus olhos 
A voar com ela 
 
As palavras fecharam-se no meio da nuvem de pó 
E nesse silêncio falaram como se não fossem delas 
Os sons que vemos partir 
 
Estas mulheres que se tornam cinzas são as nossas mães 
As asas cinzentas que são todas as cores a esvoaçar
Dentro de nós

São as vidas que do nada vêm e no coração de nada ficam 
Como labareda sempre a arder 
 
à minha tia que faleceu com covid

sábado, fevereiro 27, 2021

ver a missa

Recebo diariamente notificações de alguns órgãos de comunicação social no computador, sobretudo de cariz religioso. Como um que, desde o início deste novo confinamento, envia diariamente uma notificação a dizer: “veja a missa diária em…”. Não sei se a escolha do verbo usado é de propósito ou não. Mas há dias estacionei os olhos nessa notificação e dei por mim a concordar com ela. Porque, nestes moldes, é mais verdade dizer que se vê a missa do que dizer que se participa nela, por mais boa vontade que as pessoas tenham, por mais que a eucaristia seja fulcral na vida dos cristãos e por mais que estas celebrações sejam as celebrações eucarísticas públicas possíveis nestes tempos confinados. 
Para valorizar de verdade as igrejas domésticas que são as famílias, tenho-me esforçado, em conjunto com alguns colegas, por providenciar aos meus paroquianos, semanalmente, uma celebração familiar dominical, em linguagem acessível e o menos clerical possível, com o essencial de uma celebração da Palavra, comunhão espiritual e um gesto para vivenciar um compromisso. 
Sou de opinião que, nestes momentos em que nos encontramos privados da eucaristia comunitária presencial, mais importante que assistir passivamente à missa, seja na rádio, na televisão ou nas plataformas digitais, muitas vezes em zapping, é participar presencialmente numa celebração da Palavra ou outra oração similar, sobretudo em família. Devíamos aproveitar esta oportunidade para transformar os nossos lares em igrejas, pois a comunidade paroquial é uma família feita de várias famílias, é uma Igreja feita de várias Igrejas domésticas. 
Se já antes era mais cómodo assistir à eucaristia presencial do que participar activamente nela, agora ainda se tornou mais cómodo fazê-lo do sofá, e não acho possível celebrar a fé como quem assiste. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "a senhora vai à missa"

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

on-das [poema 303]

Se eu falar contigo como falo com as ondas 
Podes dizer-me que és o mar, e eu acredito 
Que vais e vens escondido no meio da espuma.
 
Mas se eu não ouvir a tua resposta, deixa-me, ao menos, escutar 
O barulho das ondas por mim a entrar

terça-feira, fevereiro 23, 2021

em parte sim e em parte não

Um colega padre queixou-se publicamente da proliferação de transmissões digitais da Eucaristia Dominical, nomeadamente no Facebook e no Youtube. Dizia que bastavam as eucaristias transmitidas pela televisão, e que estas, sim, deveriam ser mais valorizadas. Que andar a celebrar missas em cada capelinha, quase como se fosse à la carte, para já não falar na busca de likes e seguidores, era um contrassenso com a “comunhão” que tanto se ouve nas bocas dos “pastores” e com o sentido da Igreja que dizemos ser “católica”. 
Mas, se por um lado, ele tinha razão, por outro, também era capaz de não a ter. Foi assim que um outro colega começou a falar perante o raciocínio que o primeiro expôs. Em parte tem razão e em parte não, comentou. Se assim fosse também não precisaríamos de ter 4.000 paróquias. Bastava Fátima. Ou 5.000 dioceses. Bastava Roma. Ou 400.000 padres. Bastava o papa. A igreja é, e sempre foi, uma comunidade de pequenas comunidades. E nem Jesus queria que as multidões andassem atrás dele: “Vai para casa, para junto dos teus, e conta-lhes o que Deus fez por ti!”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "As missas ou missinhas"

domingo, fevereiro 21, 2021

tanta falta nos faz a missa

Liguei, que ela não sabe ler mensagens. Por isso não tinha lido a mensagem que eu enviara. Como enviara para muitos outros paroquianos neste domingo, dia do Senhor, dia em que, se pudéssemos, nos reuníamos em comunidade a rezar e a celebrar a nossa fé. Ficou quase engasgada pela lembrança. Pelo telefonema. Agradecia e repetia insistentemente que a aldeia, sem o senhor padre, parece uma aldeia fantasma. Depois dizia que nos domingos era uma tristeza. A missa na televisão não é a mesma coisa. Faz-nos falta o nosso padre. Ai ora eu, ora eu. O que nos havia de calhar. E tanta falta nos faz a missa. Tanta falta, senhor padre.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

lugar do essencial

Iniciámos há poucos dias o caminho de quarenta dias para o coração da fé que é a Páscoa. Todo o cristão sabe que, neste período litúrgico, deve intensificar a oração, a esmola e o jejum. E alguns tentam fazer ou viver alguma diferença. Talvez rezem um pouco mais, façam alguma renúncia, sobretudo de carne à sexta-feira, e deitem um pouco mais no peditório para o que designamos como “renúncia quaresmal”. O que eu me pergunto é se esses hábitos não são apenas pequenas exterioridades, quando a oportunidade da Quaresma é o trabalho interior do nosso coração no deserto das nossas vidas. 
Nós sabemos que o deserto é um espaço geográfico árido, coberto de areia, quase sem vegetação e com pouca vida. Mas na Sagrada Escritura, ele designa também um tempo de provação, de silêncio e de auto-conhecimento. É considerado um tempo de tentação, no qual as pessoas põem à prova as suas certezas e seguranças. Pode parecer um paradoxo, mas é nesse mesmo sentido que o deserto é um lugar privilegiado de encontro com Deus. É que no deserto, desprovidos de tudo ou quase tudo, longe da balbúrdia que nos rodeia, sem as nossas seguranças e rotinas, apenas com o essencial que somos nós, mais facilmente nos encontramos connosco mesmos e com a intimidade de Deus. 
No meio de tantas palavras vazias, é-nos cada vez mais difícil distinguir a voz do Senhor que nos fala. O deserto é o tempo para renunciar a palavras inúteis. É ausência de muitas palavras para dar espaço a uma outra Palavra, a Palavra com maiúscula, a Palavra de Deus. É o tempo do silêncio para falarmos a sós com o Senhor Deus que está dentro de nós e nos ama como somos. 
O deserto é, como disse um dia o Papa Francisco, “o lugar do essencial”. Rodeados de tantas coisas inúteis que nos prendem a atenção, tantas correrias, tantas pressas, tantas preocupações, tanto stress, iria fazer-nos bem libertarmo-nos de tantas realidades supérfluas, para redescobrir aquilo que conta. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ai, senhor padre, comi carne na sexta-feira"

domingo, fevereiro 14, 2021

sempre manhã [poema 302]

No teu colo 
Pouso a cabeça cansada 
Adormeço 
É noite e pode ser noite a vida inteira 
Pode não haver amanhecer ou dia aberto 
No teu colo é manhã e adormeço 
 
Há quem conheça a noite depois do dia, e eu vejo-a 
Antes de o dia amanhecer 
 
A morte está sempre a nascer.

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

as vacinas do poder

Segundo informações de um jornal da praça pública, mais de 800 padres em Portugal foram vacinados na primeira vaga de vacinas anti-covid que eram destinadas para os prioritários dos prioritários. Os dados fizeram-me pensar, embora o jornal em causa seja um órgão de comunicação social pouco credível e eu deseje crer que, se calhar, muitos desses padres apenas se deixaram levar na onda da vacinação que estava ao virar da esquina e à mão de semear, na IPSS que dirigem ou que algum amigo dirige ou que frequentam sistematicamente. Quero crer que não foram vacinados por chico-espertismo. E por isso evito julgar cada caso, porque cada caso será um caso. Mas quero pensar na generalidade. E a situação, a meu ver, tem no plano eclesiológico, ao nível hierárquico, ao menos, duas frentes de observação. 
Em primeiro lugar, a facilidade com que uma situação destas ocorre, realça que, para além de vivermos num tipo de sociedade que se alimenta de aproveitamentos e cunhas, é uma sociedade em que isso se tornou tão banal e natural que, pelos vistos, nem o clero lhe parece imune, mesmo que ética e moralmente tivesse um certo dever de lhe ser imune.
Por outro lado, esta vacinação menos devida ou claramente indevida, parece também demonstrar como ainda existe dentro do clero quem use o lugar que ocupa, não como um serviço, mas como um poder. Não digo que seja radicalmente aquele tipo de poder que gosta de mandar em tudo. Mas aquele tipo de poder que se acha no direito de poder. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O padre é o 'tem de'"

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Os papas infalíveis

Quando Pio IX declarou a infabilidade papal não adivinhava que, passados cerca de cento e cinquenta anos, os últimos papas, de certo modo, deixassem no ar a dúvida dessa infalibilidade. É certo que ela se refere às ocasiões em que o papa fala “ex cathedra”, ou seja, quando exerce o cargo de “supremo” Pastor e Doutor de todos os cristãos e, em virtude do seu “supremo poder” Apostólico, define uma doutrina sobre a fé e os costumes, como li algures, mas sem quaisquer aspas. Por palavras menos piedosas, mas ainda assim, clericais, são as ocasiões em que, através do seu magistério, explica a fé da Igreja, na fidelidade ao depósito da Revelação (Escritura e tradição da Igreja). 
Quando, no Concílio Vaticano I, em 1870, a infalibilidade papal foi solenemente proclamada como dogma, é bom recordar que se estava num contexto polémico, pois as forças políticas europeias procuravam limitar o poder do Papa e a instituição eclesiástica era posta em causa. Pode-se dizer que pareceu importante aos bispos reafirmar, desta forma, o papel singular do Papa. 
O problema é que muitos cristãos idealizam a infalibilidade como a inexistência de fragilidade. Imaginam-na como a qualidade de quem nunca erra. Como se o Papa não fosse humano. Como se a sua humanidade estivesse de tal modo impregnada de divindade, que ele tivesse uma ligação tão profunda com Deus, que até soubesse os seus desígnios mais íntimos e fosse impedido pelo próprio Deus de ser um humano como os outros. Mas não é assim, e os últimos papas foram sinal de que são seres humanos e não possuem nenhum super poder. 
João Paulo II, por exemplo, pediu uma série de desculpas. Como a Galileu Galilei, aos condenados pela Inquisição, a muçulmanos mortos nas Cruzadas e a africanos escravizados com a ajuda da Igreja. Bento XVI continuou na mesma linha, emitindo, entre outros, aquele que na época foi definido como um pedido de desculpas histórico às vítimas de abuso sexual cometido por padres católicos na Irlanda. Mas o pontífice alemão não se desculpou apenas pelos fracassos institucionais da Igreja. Pediu desculpas pelos seus próprios. E deixou o pontificado. O Papa Francisco já pediu inúmeras desculpas e sugeriu a necessidade de cada um fazê-lo mais vezes. Diante daquela senhora a quem deu uma palmada na mão porque o agarrou exageradamente, pediu desculpa dizendo que até ele, às vezes, perdia a paciência. 
Eu acredito que os papas são um dom de Deus para a Igreja. São a pedra sobre a qual se edifica a Igreja. Mas, como Simão Pedro e como todos os apóstolos e discípulos de todo o tempo, não são deuses. São cristãos a caminho. São íntimos de Deus, mas não são Deus. São inspirados por obra e graça do Espírito Santo, mas não deixam de ser humanos. Eu gosto de fazer parte de uma Igreja que é frágil, para que seja Deus a força dela. Eu gosto de pensar que aquele que guia a Igreja é tão santo na sua infalibilidade como na sua humildade! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja que não é de um Papa"

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

os dois [poema 301]

Quando chegou a casa olharam-se 
de alto a baixo, 
Trazia, dos campos, um molho de espigas 
nas mãos, 
Que ganhavam vida 
na mesa. Da casa onde moravam 
de alto a baixo, 
entre as mãos e os olhares, 
Tudo se marcava com estes gestos de nada. 
E a casa ficava habitada 
de alto a baixo, 
com as espigas por dentro 
dos olhos

sábado, fevereiro 06, 2021

A Betinha e a Senhora

A avó ofereceu à Betinha uma Nossa Senhora de Fátima. É uma imagem muito branquinha. Fica bem com o rosto níveo e pequenino da Betinha que fez há pouco tempo cinco aninhos. 
A ‘Senhora’, como a trata habitualmente, está na sua mesinha predilecta. Elogia-lhe a coroa e ai de quem lha tirar. Ninguém lhe pode mexer. Mesmo quando a mãe vai limpar o pó, não se livra de ouvir os cuidados que deve ter com a ‘Senhora’. Passa horas a conversar com ela. Neste tempo da pandemia conversa seriamente com ela sobre o que vai ouvindo a propósito do coronavírus que tem levado os velhinhos todos para o céu. Ela sabe que Jesus está lá no céu, mas era melhor a ‘Senhora’ ajudar as pessoas. 
Embora menos, às vezes também a trata por ‘Maria’. Sabes, Maria, eu vejo pessoas sem máscara, velhinhos e novos também. Eles são teimosos. Diz ao Jesus para lhes dizer que não estão a fazer bem. Eu sou pequenina e ponho. O bicho não se vê. Sopra-lhes ao ouvido. E, depois deste diálogo, reza sempre uma Ave-maria.
Nos dias mais frios coloca a ‘Senhora’ por detrás da foto dela, que também está na mesinha, e diz que assim a ‘Senhora’ não se constipa. Mais curioso é que, quando estão a rezar lá por casa e a irmã de três anitos diz que não quer ouvir, a Betinha diz “ai se a ‘Senhora’ sabe fica triste... Tu só fazes isso porque ainda não foste batizada e não descobriste que tens uma pessoa, que não vês, que te adora”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Chama-se Jesus"

quinta-feira, fevereiro 04, 2021

Durante a pandemia, quanto tempo tens dedicado à oração diária?

Na última sondagem, que indagava sobre o post preferido de 2020, constatou-se que, supostamente, os melhores textos foram:


Pode rever os resultados no seguinte quadro, e pode rever os melhores textos dos anos anteriores, aqui.
 
Hoje lançamos nova sondagem, perguntando: "durante a pandemia, quanto tempo tens dedicado à oração diária?"

terça-feira, fevereiro 02, 2021

paróquias com seguidores

Esta pandemia causada pelo novo coronavírus tem feito aumentar a presença das comunidades cristãs nas redes sociais. Com tudo o que isso possa trazer de bom e de questionável. Eu sou de opinião que é uma presença credível e oportuna. Em muitos casos poderá ser o modo mais viável de os agentes pastorais dessas comunidades prosseguirem a sua acção junto dos restantes elementos da comunidade. Poderá ser um modo excelente de alimento da fé. E embora a celebração da eucaristia na web seja mais uma transmissão que uma celebração, não discordo completamente de que possa ser momento de oração e de uma certa celebração. Portanto, a presença das paróquias ou unidades pastorais nas redes sociais torna-se cada vez mais uma oportunidade. Eu mesmo faço uso desta ferramenta. 
Contudo, algo no meio desta situação me tem intrigado. Sobretudo porque tenho recebido vários convites para seguir páginas de facebook de paróquias e comunidades cristãs que desconheço. Que não têm nenhum tipo de proximidade comigo para além da fé que nos une. Não sei porque os recebo. Mesmo tendo em conta que as partilhas possam ser úteis, que conhecer e acolher outras realidades é sempre positivo, e que a comunhão da Igreja está muito para além das minhas comunidades ou das comunidades que me são próximas. Fiquei a pensar se não seria, mais uma vez, aquela obsessão típica destes tempos em que vivemos, aquele modo de viver que se gasta a procurar seguidores, visualizações e likes. 
 

sábado, janeiro 30, 2021

legalizar a eutanásia

No meu país está de moda o progressismo ideológico. Está de moda o que parece bem a uma civilização dita moderna. Mas confundem-se os conceitos. A maioria dos cidadãos nem sabe bem o que significa ser uma sociedade moderna. E tanto o sistema como o anti-sistema, aliados ao mundo prolífero dos milhares de opinadores sem argumentos que temos em cada computador ou telemóvel e que o mundo virtual potenciou, fazem deste meu país um país do um certo faz de conta. É um país que não se capacita o suficiente para melhorar as condições sociais, sanitárias e humanas dos cidadãos, mas está disposto a favorecer-lhes a morte. 
Estamos, ao momento, a lidar com uma situação sem precedentes numa luta contra uma pandemia que nos colocou na cauda do mundo, e no parlamento português a preocupação dos deputados é a legalização da eutanásia, que aprovou ontem, para se tornar o quarto país na Europa e o sétimo no Mundo a fazê-lo. 
E se alguém manifesta a sua discordância, porque tem tanto direito como aqueloutro que defende o contrário, é logo apelidado, por uma certa opinião pública, de conservador e de juiz da vontade dos outros. Como se o contrário não fosse exactamente um juízo sobre a vontade dos outros e como se defender a vida fosse ser antiquado.
Todos somos frágeis e cometemos erros. Cada um de nós comete erros e vive no meio de fragilidades. Portanto, todos devemos usar e usufruir da misericórdia e do perdão quando fazemos opções erradas com a nossa vida. Mas um estado, uma sociedade, este modo organizado de vida uns com os outros, deve procurar a defesa da vida e não a defesa da morte, sempre e a todo o custo. É a principal garantia que se deve dar a cada indivíduo. 
Além disso, na constituição do meu país, no número 1 do artigo 24, pode ler-se que “a vida humana é inviolável”. Ou os deputados deste meu país também vão rever este artigo para justificar a sua decisão? O referido artigo não diz que o direito à vida é inviolável, mas que a vida é inviolável. Neste momento, o Estado não está a ter a capacidade de garantir a vida a quem quer viver, mas quer ter o poder de conceder a morte a quem quer morrer. 
Estou triste e estou a fazer um esforço para não gritar contra quem não quer que eu dê minha opinião, mas quer que eu aceite a sua. E ainda aproveitam a ocasião para denegrir a Igreja. Sim, porque sempre que um padre fala sobre este assunto, atacam-no como Igreja e não como a pessoa que tem uma opinião diferente e que tem tanto direito como o oponente a dar a sua opinião. Ou como se a Igreja, mesmo que frágil, não pudesse emitir a sua opinião ou defender uma causa.
Estou consciente do quão difícil é sofrer e ver sofrer alguém que amamos. Não me podem contradizer como se não o soubesse na primeira pessoa. Estou convencido, porém, que o sofrimento não se combate com a morte, mas com soluções que minimizem o mesmo sofrimento. Legalizar a eutanásia é a oportunidade para um Estado se demitir de encontrar ou reforçar soluções como os cuidados paliativos e os cuidados continuados, entre outras similares. 
Estou convencido que, mesmo no maior sofrimento, ninguém quer morrer. O que essa pessoa pretende é não sofrer. E era aqui que o meu país devia gastar as suas energias num tempo em que todos, de um modo ou de outro, estamos a sofrer.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Dona da minha vida"

sexta-feira, janeiro 29, 2021

as chagas [poema 300]

Também não sei porque pensei nas chagas 
E as trouxe a mim, na pele coladas. 
 
Olha que as vasilhas estão ao fogão 
E a água cresce nelas para queimar 
E secar no chão 
 
Não sei onde deixei as chagas, no meio das margaridas, 
Entre as folhas mal cortadas meio-feridas 
 
Rebentaram nas panelas, 
Secaram perdidas

quarta-feira, janeiro 27, 2021

O amor que salva

O marido não ia à missa. Era bom homem. Como ela me confidenciava, nunca se queixava nem nunca dizia mal de quem quer que fosse. Estava sempre tudo bem. E dizem-me as outras pessoas que privavam com ele que tinha sempre uma palavra de alento. Uma palavra e uma atenção. Não era mau homem, senhor padre. Não era. Mesmo sem ir à missa, senhor padre. Não era mau homem. 
A viúva do senhor António é uma mulher de grande fé. Nunca falta à missa dominical. Mas não é por isso que acho que tem uma grande fé. Nas acções do dia a dia, na forma como vive as adversidades, que são muitas, no modo como encara a vida e o próximo. Em quase tudo da vida da viúva do senhor António vejo o esforço por se configurar com Cristo. Ama-o muito, como me diz. E é n’Ele que descansa as dificuldades. Mas agora perdeu quem mais amava, o seu mais que tudo, a outra face da sua vida. Era um casal com pouco mais de quarenta anos de matrimónio. Ainda tem uns bons anos pela frente até se reformar. E agora sente-se perdida. Sabe que Deus amava muito o seu marido, mas queria sossegar-se e por isso me perguntava se eu achava que o seu marido já estava no céu. Porque ele não ia à missa, mas era bom homem. Ela também sabia que não bastava ser bom para ter fé. Há muita gente sem fé que é imensamente bondosa. Mas ela queria que ele se salvasse e queria saber da minha boca que ele se salvava. 
Fui para casa pensar nestas coisas. O que lhe respondi na hora foi que o amor salvava. Disse-o de uma forma muito consciente, porque estou convicto de que é o Amor de Deus que nos salva. Que nós não compramos a salvação. Tal como o amor de Deus não tem medida, também estou convencido de que uma fé cheia de amor salva. Estou profundamente convencido que o amor e fé daquela mulher valem pelos dois, por ela e pelo marido. E fiquei a pensar nisto… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padre, será que o meu marido está no céu?

segunda-feira, janeiro 25, 2021

sangue cruzado [poema 299]

Ainda te imagino a descer da cruz que trago ao peito. 
Estavas cansado nessa noite pela entrega do teu corpo 
E desceste como se viesses só, na mão dos malfeitores 
O sangue não era mais teu, tinha-se posto em fuga 
No meu 
 
Ainda te imagino no meio de muitos lençóis de verdade 
Onde me perco de lamparina acesa, a procurar por nós. 
 
Quem há-de subir pelo mesmo pranto até chegar ao íntimo 
Dos dois? 
 
Quem de nós há-de traçar o madeiro onde havemos de morrer 
Depois?

sexta-feira, janeiro 22, 2021

ser bom ou fazer o que tem de ser

Veio ter comigo porque estava muito incomodada desde há uns três ou quatro dias a esta parte. Tinha dito a uma pessoa amiga um Não que lhe custara dizer. Que lhe custara dar. Estava habituada a dar-lhe sempre um Sim, mesmo quando ela não o merecia muito. Abria as suas portas e as portas da sua casa sempre que a outra amiga precisava. Fazia-o com amor, por amor, e mesmo que ela não o merecesse. Dizia-me isso porque esta vinha muitas vezes para sua casa, com familiares incluídos, onde dormia e comia sem problemas, e há umas duas dezenas de anos que não a retribuía com um convite a visitá-la em sua casa. Morava longe. Mas tão longe como ela da sua casa. A mesma distância. 
E agora, dizia-me, teve necessidade de pernoitar na terra onde ela morava. Precisara mesmo, senão não lhe tinha endereçado nenhum pedido. E sabe qual foi a resposta, senhor padre? Sabe? Não tenho cama para ti. Fosse como fosse, até porque lhe bastava um chão com uns cobertores. Não precisava senão ter onde ficar, para não ficar ao relento ou não ter de pagar um hotel ou pensão. E a amiga fechara-lhe a porta que já há anos não lhe abria. Custou-lhe. Não porque se sentisse traída na sua bondade. Ficara apenas sentida com o modo como a amiga tinha sido ingrata, sem grandes explicações. 
Mas passaram poucos dias, mesmo muito poucos, senhor padre, e a amiga pedira-lhe, novamente, asilo. O marido até se tinha zangado. E ela disse que não. Que desta vez não podia. Mas isso incomodava-a, até porque tinha para si, na sua forma de ser cristã, a meta da bondade sem interesse. 
Não lhe respondi para a sossegar. O que lhe disse, disse-o porque o penso assim. Uma coisa é ser bom. Outra coisa é fazer o que tem de ser, o mais correcto. Devemos sempre fazer o bem. Mesmo quando nos fazem mal ou não nos fazem bem. Devemos fazer o bem, como diz o ditado, sem saber a quem. Mas, às vezes, há coisas que temos de fazer porque têm de ser feitas, por bem. A amiga dela precisava de uma lição. Não podemos confundir ser bom com ser condescendente. Aquela sua amiga precisava de aprender a ser boa também. Ensinar alguém a fazer o bem é um grande gesto de bondade. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Carlos que é meu sacristão"

quarta-feira, janeiro 20, 2021

sondagem "best post" 2020

Deixamos os resultados da última sondagem que perguntava: Na tua opinião, qual o "acontecimento" mais marcante do pontificado de Francisco em 2020? 

O amplo destaque da oração de sexta-feira santa denota o que significou aquele gesto do Papa para todo o mundo. Mas a segunda e terceira escolhas têm a sua importância. A encíclica Fratelli Tutti e o ano Laudato Si apontam para um novo rumo no mundo. A ver vamos!

Iniciamos, igualmente, uma nova sondagem, no lado direito do sidebar, para perguntar qual foi, na nossa opinião, o melhor, mais tocante ou mais interessante texto não poético de 2020. Os 10 textos a votação foram seleccionados de acordo com as indicações dos "penitentes" deste espaço e de acordo com a minha apreciação. Quem os quiser "revisitar", tem os links respectivos abaixo da sondagem. Bem haja pelo vosso interesse e colaboração!

segunda-feira, janeiro 18, 2021

iacobus [poema 298]

Enquanto os pés me deixam, eu faço as circunferências 
Em teu redor, são ponteiros de relógio marcados no chão 
Quente, da terra batida, lume aceso quando passas. 
 
E acende-se o sol na poeira dos meus dias, descalços 
Os pés que te percorrem na ânsia de serem mãos a correr,
Braços a crescer das mãos, e a morrer 
Para te abraçar.

quinta-feira, janeiro 14, 2021

"best post" 2020

Embora sabendo que não é o mais importante, é uma boa desculpa para revermos e relermos textos deste ano atípico. Assim, peço a vossa ajuda para seleccionar aqueles textos/prosa que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes em 2020. 

Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. 

Deixo algumas sugestões, de acordo com a minha apreciação particular e tendo em conta alguns dos que foram mais visualizados, mas podem indicar outros que aqui não se encontrem linkados. Agradeço desde já a vossa participação e colaboração. 

Como nas outras ocasiões, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. Podem sugerir outros que não estejam nesta selecção. A mim fez-me bem relê-los. Pode ser que faça bem a mais alguém.

Quem quiser dar uma espreitadela aos "best post" de 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018 e 2019 clique AQUI.
 

janeiro

conversas de outros mundos

O menino Jesus sem casa

 

fevereiro

Eu thanatos

 

março

Contaminados pelo vírus do pânico

a nossa parte

O beijo do meu pai

A igualdade das mulheres na Igreja

A ‘minha’ ou a ‘nossa’ missa

 

abril

A Igreja que está para vir

uma Igreja virtual

Encontrei o beijo do meu pai

Olha, faz o bem

 

maio

Subir ao céu em corpo e alma

A Igreja que faz o mesmo de sempre

As igrejas vazias e fechadas

A Igreja que está aí

 

junho

A desculpa do vírus

A Luiza está no céu a enfeitar igrejas

A Igreja do relacional

a verdade anda cada vez mais longe da verdade

A importância da eucaristia

Onde esteve a Igreja nestes tempos

 

julho

O ministério sacerdotal não é um privilégio

Deus no quintal

 

agosto

Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

 

setembro

A oração como saída de nós mesmos

 

Outubro

Gostar das pessoas

Uma fé que quer Deus sem esforço

O retiro e a percepção de Deus

Às vezes infantilizamos o sacramento da penitência

 

Novembro

As missas e a azeitona

Tratar dos pobres

Doer sem tempo para doer

A santidade dos que não são santos

A morte como um fim

 

dezembro

o inimaginável Deus vulnerável

Não é uma porta fechada que fecha uma igreja.

O Miguelito e o Papa

Mãos ao alto