quarta-feira, junho 09, 2010

A menina que era para ficar à porta

À hora marcada lá estavam. Ela de vestido bege, com alguns folhos mas simples, com um ramo de rosas na mão e uma fita na cabeça. Ele de fato e gravata azuis. Tinham decidido casar e baptizar a sua filha que, apesar de ir ao colo, já mexia e esbracejava. Como a circunstância era peculiar, a criança estava no colo da avó, a mãe da mãe. Poucos convidados. Muita simplicidade no acontecimento. Uma beleza de simplicidade que me agradou, e por isso, já paramentado, fui à porta recebê-los, conversar, combinar. A avó não saia do guarda-vento, a antessala da igreja, aquela parte da entrada da igreja que ainda parece ser fora da igreja. Pensei que queria acompanhar a filha e o genro. Entretanto, distraída por alguém que a chamava de dentro da igreja, a avó ia avançar em direcção ao altar quando a filha, portanto a mãe da criança, gesticula uma expressão de susto, de receio, de aflição, e quase grita para que a mãe não avance. Mãe, não passes daqui com a menina. A mãe, portanto a avó, pede desculpa e regressa ao lugar do guarda-vento. Percebi a aflição, o receio, o susto. Como percebo as confusões que muitos dos nossos ditos cristãos ainda têm na cabeça. Como percebo a mistura confusa que fazem de superstições, bruxarias, comezinhas, benzelhices e a fé, os sacramentos, a vida. Ou melhor, não percebo.
Perguntei à mãe da menina se queria ausentar a filha da sua cerimónia de casamento. Se iam separar-se naquele momento, pais e filha. Se não tinha mais sentido participar em tudo, já que era um dom de Deus. Depois expliquei que não é o lugar que faz a vida, mas o amor de Deus. Expliquei em palavras mais simples. E disse que Deus ama também os que ainda não estão baptizados ou que nunca se vão baptizar. E que o mal acontece no mundo independentemente de estarmos baptizados ou não. O que interessa é a fé com que fazemos as coisas, o amor com que celebramos os sacramentos. Expliquei em palavras mais simples para que entendessem. E entenderam.
Convidei-os então a subirmos ao altar e lá fomos os cinco, padre, pai, mãe, filha, avó e a menina que era para ficar à porta.

36 comentários:

Anónimo disse...

Boa Tarde Confessionário!Isto só demonstra o grau de formação dos nossos catolicos, ainda impera a Tradição, faz-se porque Avó fazia o pai, etc..., vou aquela festa, participo na procissão e faço assim porque fui habituada, enfim, pobre ignorançia. Este facilitismo do Cristianismo balofo,já lá vai o tempo em que nada se sabia, mas actualmente perdoem-me mas os cristão têm que ter mais formação, e saberem entender todos os Sacramentos (Dons de Deus), e fazer uma caminhada com os filhos ensinando todos os valores e aquilo que temos que saber. Só um exemplo, no dia do Corpo de Deus, vai o Proprio Jesus, ou seja o Padre leva a Hostia consagrada,em Procissão, devemos ter uma maneira diferente de ver esta procissão, e quando passa devemos genuflectir com um acto de adoração, aquilo que eu vejo é uma indeferença, que quando o Padre leva só um cruxifixo, têm o mesmo proceder.Bom mas quem tem que ensinar é o proprio Padre antes dos acontecimentos.Não admira a senhora não querer que a filha fosse para cima, porque aquilo que as pessoas pensam é que a criança antes de ser recebida pelo Padre na entrada, não deve entrar na Igreja, vale-se lá saber.No catecumenado é que são apresentadas 3 domingos antes á comunidade e depois têm que vir para o fundo da igreja...Padre, sinta feliz, porque você explica bem, e as pessoas entendem, não se canse de continuar a Evangelizar, e explique bem todos os actos, porque ninguém quer falar de catequese de Adultos, poderá dizer formação religiosa.Enfim temos tanto a aprender... Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Canela disse...

Boa!!!!

Há alguns meses atrás, ouvi um colega seu falar no que era costume antigamente.

"Baptizar fora da Igreja. Só depois de batizados, podiam entrar nesta."

Enquanto ele contava a "historia", eu ia pensando que bom que já não é assim.... mas o remate que ele deu, surpreendeu-me... tem pena que já não seja assim.

Eu sou apenas eu... mas gostei de saber desta história!

Kitty Jane disse...

Caro Sr. Padre,

não imagina como as suas palavras me animam! Não sou casada, infelizmente. Eu sempre quis casar, mas o meu namorado e também por razões económicas, nunca fez muita questão de casarmos. Às vezes tenho recaídas e choro por não ser casada. Sinto-me um pouco "à margem" daquilo que acredito, nos meus valores. Tenho medo que a Igreja "me vire as costas", a mim e aos meus filhos quando os tiver. O passo de ter filhos ainda não foi dado porque "não sou casada" e tenho a esperança de casar...não posso adiar esta decisão por muito mais tempo pois a idade vai avançando. Não sou perfeita mas tento viver de acordo com os bons valores transmitidos e adquiridos...não sou a Cristã perfeita mas sou uma boa Cristã! :) E é bom saber que as portas da Igreja não se fecham...

Kitty Jane

Zulinda Bela disse...

Confesso que às vezes também fico perplexa com a facilidade com que as pessoas misturam as coisas, sagrado e profano, superstições, mezinhas, crendices e benzelhices... Não sabia, mas chegam ao ponto de assaltar o sacrário para roubar o corpo de Cristo! Pobrezinho, não bastou termo-lo pregado na cruz!!!! Agora ainda se vê metido no meio destas andanças!
E o que impressiona mais é que por vezes, as pessoas que recorrem a estes "serviços" frequentam a igreja com a mesma convicção com que vão à "bruxa"...
Eu sei que a vida é complicada e por vezes o desespero leva a estes extremos, mas assaltar sacrários? Mas que raio de pessoas são estas que sugerem uma coisa destas? E em que confusões é que O metem?
Confesso que isto dá-me medo... Não será isto também uma forma de superstição?...
Brrrr!
Zu

Cátia disse...

Boa tarde,

Tenho vindo várias vezes a ler os seus posts... que se leem facilmente e que nos mostram uma nova forma de ver a religião.

Quanto à questão de "ficar lá fora", ja ouvi da boca de um padre dize-lo.

Obrigada por manter este blog e por ser uma mais valia para todos e para a propria igreja.

Number Ten disse...

Olá Qrdo Confessionário
Gostei muito do post.Tocou fundo por ter vivido uma situação destas.Não me passaria pela cabeça não ter a minha filha comigo mas as pessoas não sabem e têm que fazer o seu caminho e aprender.Que bom terem quem explique que o Amor de Deus está primeiro e é realmente o que interessa.
Ele é o Caminho , a Verdade e a Vida.E é por aí que todos pretendemos passar, é aí que todos pretendemos chegar, é com Ele e no Seu conforto, através de histórias verdadeiras e sentidas como a que contaste, que vamos fazendo o nosso caminho.
Obrigada amigo.
Mafalda

Anónimo disse...

Olá, não sei , mas aqui no BRasil, ao menos aqui no Rio não temos esse costume.. Nunca tinha ouvido falar sobre isso.. Meus filhos foram batizados com quase 1 ano cada e sempre foram à igreja antes disso. Na minha paroquia tambem sempre tem bebês pequenos, com meses, que frequentam as missas com os pais e ainda não foram batizados. E quanto aos catecumenos, eles frequentam a missa todos os domingos, e são batizados na Pascoa, mas sentam onde quiserem na igreja... Pode ser que em outros lugares daqui do Brasil haja esse costume mais para mim foi bastante surpresa
Teresa

Maria disse...

Olá senhor Padre,
Tenho seguido com interesse os seus últimos textos e as respostas dadas aos mesmos. Acho que lançou um bom debate e pôs a nu certas questões que para grande parte dos católicos ainda hoje sao tabu. Estamos no terceiro milénio e muita coisa mudou, ainda que nós não nos convenha ver. Como dizia o poeta "vimos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar". Não tive oportunidade de responder aos seus textos porque tenho estado adoentada e como o assunto é sério carece de concentração e paz de espírito para se responder em plena consciência, preferi não comentar. Posso-lhe dizer que votei, mas não vou comentar o meu voto pelos motivos atás descritos e teria que explicar muito bem porque é que votei assim.
Sem comentários eu votei opcioonal. E que com a crise de vocações que há sabe-se lá se não chegaremos a esse ponto. Acho que a religião não pode ser morna, mas viva, e por isso mesmo acho que os seus textos tiveram a aderência que tiveram, embora se repetissem um pouco os coments. Posto isto e porque ainda não estou a cem por cento de saúde, desejo-lhe de coração que continue firme e fiel na sua vocação, mesmo nas horas mais díficies de insónias ou solidão Ele esta lá, bem juntinho a si. Nunca se esqueça disso a Ordem é um sacramento tão abençoado quanto o casamento e por vezes mais dífícil, basta saber os sacerdotes que morrem em defesa da fé, ainda a semana passada tivemos o caso do Bispo na Turquia em vésperas da visita do Santo Padre a Chipre. Todavia aqueles que criticam os padres ou os julgam, sobretudo se são católicos esquecem-se com facilidade que esses mesmos padres precisam que rezemos por eles. Os padres, os Bispos,todos os consagrados, o Santo Padre, precisam das nossas orações e dos nossos sacífícios. Para terminar devo dizer-lhe que o seu blogue é um dos que mais gosto de ler, pela sua simplicidade, pela sua acuidade e inteligencia. Muita Paz e muita luz do Espírito Santo.
Abraço fraterno
Maria

Anónimo disse...

os cristãos estão ser perseguidos pela relgião da paz no afeganistão (e não só):

“We want those who have converted from Islam to be punished. We also want the Islamic Republic of Afghanistan to ban all the churches that have been established and any organisation spreading Christianity here,” said one protester, Zabiullah Khan.

Teodora disse...

Confesso que algumas vezes me questiono quanto à fronteira entre o religioso e a supertição. Tenho mesmo muita dificuldade na realização de rituais. Não entendo porque nos levantamos, ajoelhamos, beijamos objectos, etc. Não vejo que isso melhor algo em nós.

Penso que dentro da própria Igreja existem grupos que tendem a colocar a fronteira um pouco mais além. Digo além como poderia dizer aquém.

Ora se os de dentro, eles mesmos agem assim, alimentam este tipo de estados de espírito, muito mais o comum do cidadão que, não estando em permanente convívio com a coisa, tenderá a dar continuidade a ideias transmitidas.

Como dizia a minha mãe: "ele há muitas maneiras de rezar."

É um mundo povoado de fantasmas... muitos medos, mas depois de supetão libertam-se desses medos para concretizar os seus desejos...e depois voltam à igreja para refletir acerca do que andam a fazer.

Gosto de observar pessoas... e é curioso vê-los a ir e a voltar... e eu permaneço no mesmo lugar.

Anónimo disse...

Olá Padre!
É muito triste ver tantas superstições, crenças contrárias à nossa doutrina dominar as mentes católicas! Isso ocorre por falta de formação! A igreja católica é riquíssima em sua espiritualidade, é bela, é mãe, temos que ama-la de todo o nosso coração... mas, como amar o que não se conhece? Em minha paróquia, e em muitas outras também, aqui no Brasil, nós acompanhamos as leituras da missa pela bíblia. Está na hora de acabar com os gastos desnescessários dos folhetos, que deixam os católicos muito acomodados com tudo ali já pronto...
Católicos precisam aprender a manusear a bíblia, fazer dela livro de cabeceira e não um talismã, achando que se deixa-la aberta no salmo 90 vai alcançar proteção.É claro que se eu não tivesse encontrado no meu caminho pessoas cheias de Deus e uma comunidade como a minha, com muita formação, estaria hoje ainda no erro, nas superstições.
Padre, precisamos de vocês, mesmo com suas fragilidades, não sei como é na sua paróquia, mas que tal começar a utilizar a palavra de Deus no lugar do folheto?
Obrigado por esse blog, conheci à poucos dias e já não consigo ficar sem passar por aqui!
Deus te abençoe!
Ilma pj

Teodora disse...

sr pe.

ontem fui à missa. disse o senhor padre daqui do sítio que a missa era também pelo anjo de portugal! levantei as orelhes ainda mais do que o costume - adoro quando os padres falam de coisas que não se vêem.

dizia o senhor que tal como nós os países também têm um anjo da guarda e que devemos pedir-lhe que nos guie.

subitamente, ocorreu-me que também todos nós temos astros que determinam a nossa sina. será que os anjos consultam os astros ou os astros auscultam os anjos? questionei-me. talvez seja mais parceria público-privada!

e como se não bastasse, disse o sr. pe. que os anjos não determinam o nosso caminho, pois, deixam sempre que sejamos nós a escolher o nosso caminho, o do bem ou o do mal. a minha astrólga diz-me o mesmo, aquilo são só linhas orientadoras.

eu, pessoalmente, estou preocupada com o nosso anjo. não sei se nosso papa bentinho também mando-os tirar férias e eles, obreiros cumpridores, aproveitaram a ideia e por lá ficaram; não parece terem vontade de voltar.

certinho certinho, de vez em quando acendo uma velinha ao meu anjo da guarda, não vá o rapaz/rapariga estar a ver-me mal!

Anónimo disse...

Por isso visitar esse blog tornou-se para mim uma necessidade, simplesmente amo. Abraços em Cristo.

Teodora disse...

ora bem, padre

há pouco estava sem tempo. escutou o senhor atentamente o papa bentinho no que se refere ao celibato?

pois eu ouvi. eu gosto sempre das subtiliezas dos homens da Igreja - os duplos sentidos e os afastamentos discretos, muito subtis, pois está claro!

e do que ouvi, percebi, também, que o problema dos que defendem o celibato como opcional é sono. sono, percebeu padre?!

naninha, ooooh xanax! como dizia um amigo do meu cunhado: eu tomava e depois ia para a cama e dormia como um menino, está a ver?! e a mulher a olhar para mim. por isso suspendi!

no entanto, terminado o sermão do papa bentinho, ocorreu-me que talvez ele quisesse dizer, meus caros colegas padres, metam férias, vão para zonas balneares quentes, dêem umas cambalhotas valentes, cansem-se e, depois, bora, trabalho, que eu vos absolverei!

Anónimo disse...

no entanto, terminado o sermão do papa bentinho, ocorreu-me que talvez ele quisesse dizer, meus caros colegas padres, metam férias, vão para zonas balneares quentes, dêem umas cambalhotas valentes, cansem-se e, depois, bora, trabalho, que eu vos absolverei!

não se esqueçam é de usar preservativo... ops!

:D

Teodora disse...

pe.

nesta tarde dedicada à literatura de viagens e como o papa bentinho defende que os senhores devem ter a humildade de descansar, ir de férias, eu lhe proponho uma estada no Convento de Amalfi, na Costa Amalfitana, a cerca de 5km de Nápoples.

Fá disse...

Compreendo muito bem a posição da noiva sem necessitar de recorrer a crendices, superstições ou afins. Aconteceu comigo uma situação que tem contornos semelhantes. Durante muito tempo tive uma afilhada que o foi apenas de coração. Muitas foram as diligências feitas para baptizar a I. mas os srs padres não acediam por não ter frequentado a catequese durante o tempo previsto. Reconheciam que era genuinamente boa, com grande maturidade, irrepreensível (tenho pena dela, que Deus me perdoe…) mas, pronto, não podia receber o sacramento. Durante os anos em que o caso se arrastou tive o cuidado de não a levar à Igreja. Penso que só transgredi uma vez, por altura de uma romaria, e devo dizer que me senti desconfortável. Não era birra, era princípio. Entro, se me sentir pertença ou convidada por quem tem legitimidade de o fazer. Só.

Abraço amigo

Confessionário disse...

amiga Fá, não é disso que se trata... a tua situação é mt diferente!

Anónimo disse...

Teodora:
Não consegui me aquietar, depois de ler seus comentários, ainda mais se tratando desse tema...
Quanta confusão..."astros", ´"astróloga", "anjos", "missa"...
Com todo respeito e amor que tenho pelas pessoas que como eu estão sempre buscando, questionando, enfim, , digo à você que os "anjos do senhor" só consultam e se prostam diante do Único que Foi,É, e sempre Será! No livro de Deuteronômio da sua bíblia cap. 18 a partir do vers. 9, você vai encontrar:"...não se ache no meio de ti...nem quem se dê adivinhação, à astrologia, magia, espiritismo...porque o senhor seu Deus abomina aqueles que se dão a essas práticas...Serás inteiramente do Senhor seu Deus."
Se não é pão e vinho que comungamos, mas, corpo sangue, alma e divindade de Nosso Senhor, mesmo quem comunga espiritualmente, então temos "tudo" Quem participa da missa não precisa consultar astros, nem astróloga. Não foi pretenção alguma de minha parte, pois qto mais busco, descubro que menos sei...
Ilma pj

JS disse...

Olé Confessionario! E Companhia...

Quanto à cerimónia em si, uma informação (para os leitores do blog): é desaconselhado que se celebre em conjunto os dois sacramentos, pois que tal acaba por levar à desvalorização de um deles. Cada um tem os seus significado e realização próprios, exigindo distintas liturgias.

JS disse...

Quanto à reacção da mãe da criança: sem descartar a possibilidade de algum arremedo de superstição, parece-me, todavia, que terá havido um mal-entendido.

A verdade é que a atitude daquela mãe corresponde aquilo que foi o ensinamento da Igreja durante séculos: criança que (ainda) não foi baptizada, não entra na igreja.

Porque o poder dar entrada na igreja, o franquear a porta, é (também) um acto simbólico: é o poder reunir-se à (sua) comunidade, o poder participar nos mistérios e da vida divinos.

Ora, tal poder só é formalmente reconhecido a quem recebeu o Baptismo, que é justamente considerado "porta da vida e do reino".

JS disse...

Não é, pois, por acaso que na maioria das nossas igrejas a pia baptismal se encontre junto da porta da igreja. Essa era a norma antes o Vaticano II, e todo o cerimonial aí se realizava, após o qual se podia então dar entrada na igreja (tal como a Canela referia, citando um sacerdote).

Isto nada tem que ver com o amor que Deus tem ou deixa de ter relativamente aos que são, ou não, baptizados.
A verdade é que ninguém nasce cristão. Ser cristão, pertencer a uma comunidade cristã, é uma eleição, uma escolha. Pelo que há um antes e um depois, um fora e um dentro.

Pode-se, assim, dizer que o tal interdito (não entrar na igreja) tem a sua razão de ser. Claro que fazia mais sentido em época de cristandade, onde eram poucos os que se subtraíam à influência da Igreja, as crianças eram por norma baptizadas logo após o nascimento, e se tolerava uma certa coacção...

Confessionário disse...

Pois é, amigo JS, mas a verdadeira Igreja é o conjunto das pessoas, a comunidade. Apesar dela estar retratada na construção de 4 paredes que são as nossas igrejas, entrar na Igreja é muito mais do que entrar por uma porta e em quatro paredes. Por isso é que tb nos dias de hoje as pias são construídas geralmente ao cimo da igreja.

Confessionário disse...

ahh, e outra coisa, JS, é desaconselhado liturgicamente fazer os dois sacramentos juntos. Mas pastoralmente era mais do que adequado.
A Igreja costuma dar mais atenção à liturgia que à pastoral....a meu ver erradadamente (todos merecem e necessitam muita atenção!) dado que a nossa essência é evangelizar, anunciar o Evangelho, levá-lo à vida das pessoas.

O caso narrado tem a ver com pais que pedem o baptismo para o filho e depois de acolhidos, depois de dialogos, acabam por decidir igualmente casar!

Seria melhor baptizar apenas? Ou obrigá-los a casar e dias depois a baptizar a criança?

Eu concordo que cada sacramento vale por si e tem valor imenso.
Mas é mesmo uma questão pastoral.

João disse...

A verdade é só uma: não há acolhimento nas nossas igrejas. Sou melhor atendido no supermercado do que na igreja. As pessoas que lá estão armam-se em donos e senhores de deus e do mundo e é uma tristeza. Não me sinto lá bem e por isso prefiro encontrar-me com Deus na minha casa!

Confessionário não deixe de acolher porque assim mostra o caminho para Deus. Esse casal está agora a viver uma união abençoada e a filha tb. Ainda bem. E continue a explicar o Evangelho para que possa ser fonte de vida.

João Amaral

Anónimo disse...

Não percebi o post. Não perecbi a reacção da noiva. Se Deus está em todo lado o que são as quatro paredes? São a casa do Senhor? Talvez. Mas a casa de cada cristão não será também casa do Senhor? Eu acredito que a minha casa também é a casa Dele. A Igreja enquanto edifíco serve para juntar vários cristãos na participação e recepção de um sacramento. É ou não verdade?

Pedrinho disse...

Adoro este blogue. Sempre que me sinto em baixo, triste ou preciso de agua para beber, venho ca. Ha sempre uma fonte de energia neste blogue. Parabens

Anónimo disse...

Amigos! Confessionário!
Quando dois sacramentos são celebrados juntos valoriza-se mais um que outro? Esta é interessante, e não vejo qual é o mal litúrgico nisso. Têm de me explicar melhor. E depois acho que estamos a ver apenas do ponto de vista em que quem valoriza somos nós. Isso é importante pastoral, litúrgica, sacramental e espiritualmente. Mas, nestas componentes todas do mesmo "bolo" teológico, o essencial é que quem valoriza é o próprio Pai, Filho e Espírito Santo que se torna presente. Se nós estamos ou não atentos, isso é outra história... (em quantas eucaristias não estivemos “longe”, apesar de estarmos tão perto? Em quantos crismas os jovens estão “noutra”? E casamentos?) A valorização é sobretudo interior – é Ele quem valoriza (quem actua) – independentemente se nós nos apercebemos. Mas claro, quanto mais estivermos dispostos a acolher, melhor. E dois sacramentos só deviam proporcionar maior disposição (nesta história, foi uma Festa! pois até devem ter sido três! Baptismo, Matrimónio e Eucaristia). Se na celebração desvalorizamos mais um, parece-me que algo não está bem perceptível... E isto claro que leva à formação.
Há falta dela, e quem não a tem é quem perde com isso (apesar de eu não saber bem o quê). Mas porque não tem, também não “peca” por isso, pois desconhece. E como desconhece, não pode sequer imaginar (entenda-se: pensar e viver a sua fé) mais do que consegue. E portanto, faz isso com o que tem mais acessível (seja este acessível os santinhos, os anjos da guarda, a astrologia, o buda, etc.) Está errado? Bem, não é bestial nem óptimo, mas também não é motivo de condenação! A falta de formação é antes um motivo para nós – que pelos vistos sabemos alguma coisa – procurarmos saber ainda mais e vivermos como irmãos na fé. O que é que isto significa? S. Paulo disse mais ou menos isto: “como poderão acreditar se não têm quem lhes anuncie?” (Rom 10,14) E quem deve anunciar? O papa? O bispo? O padre? Sim, todos eles. Mas sobretudo nós, porque isso é viver a fé e em Igreja! Nós (todos!) somos os primeiros responsáveis pela (falta de) formação. Por isso se diz muito por aí (e na Bíblia): “Faz-te ao largo” – “Vem e vê” – “Ai de mim se não evangelizo” E na minha perspectiva Evangelizar é dar a conhecer, é fazer ver. Não é ir de porta em porta e não é só aos que não acreditam (parece-me até que destes, cada vez são mais os que não querem nem conhecer nem ver.) Hoje, evangelizar é aos que estão ao nosso lado numa celebração. Ou numa festa paroquial. Ou no meu grupo. Ou num encontro. Ou num jantar. Ou aos que esperam pelo filho que vem da catequese. Ou aos que surgem nas margens das nossas igrejas (ou dos blogs! não é confessionário?:)) e como ovelhas sem pastor esperam que alguém os acolha... Mas esse que acolhe é só o padre!? Não há “irmãos” nesta “família” que é a Igreja? Na parábola do samaritano, o próximo não é o que está estendido no chão, mas o samaritano! Porque acolheu, porque se fez próximo do outro. Concluindo (ficou grande demais... desculpem), o meu contributo é este: primeiro, não ficarmos presos no nosso saber (assim muitas vezes vamos perceber que afinal não percebemos nada). Depois, em comunidade, caminharmos com os outros nessa formação, formando e formando-nos. Diz-se que educar em latim é ex+ducere, quer dizer "conduzir" ou "levar" "para fora". Ora, se conduzimos ou levamos, nós também vamos (também aprendemos). E em conjunto!

Parabéns ao blog!
A. P. N.

Teodora disse...

pe.

foi de férias? para paragens quentinhas?

Confessionário disse...

Não, Teodora.
Mas estou com alguma falta de tempo.

JS disse...

Confessionário:

Como tu dizias, entrar na Igreja é muito mais do que entrar na igreja. Mas, como eu dizia, entrar na igreja fala simbolicamente do que significa entrar na Igreja.

Tal simbólica terá sido algo secundarizada face a outros valores (que mais alto se alevantam) na actual teologia do Baptismo (como o revela a mudança de localização do baptistério). Mas continua presente: a celebração ordinária do baptizado de crianças preconiza o acolhimento(e seus ritos) junto da porta de entrada.

Melhor se vê isso na iniciação dos adultos: no rito de admissão, os candidatos a catecúmenos reúnem-se fora da porta da igreja, e só depois de terminados os ritos previstos é que se dá a introdução dos catecúmenos na igreja, a convite expresso do celebrante (em nome da comunidade). E serão afavelmente despedidos antes de se começar a liturgia eucarística, pois que têm de aguardar pelo Baptismo para poder tomar parte plena na assembleia e culto cristãos.

Curiosamente, também no sacramento do Matrimónio está prevista, como primeira opção, que o sacerdote faça a recepção dos noivos à porta da igreja, tal como tu, Confessionario, tiveste a oportunidade de fazer no caso que relatavas no post.

Resumindo: há que entender o símbolo, mesmo que actualmente algo secundarizado. E mesmo que se rejeite o excesso da colagem de uma leitura jurídico-canónica.

JS disse...

Quanto ao assunto do "desaconselho":

Percebo o sucesso pastoral alcançado, valioso pela delicadeza e investimento envolvidos. Outros teus colegas, infelizmente, resolveriam o caso com menor esforço: se não são casados, não vale a pena baptizarem o filho.

Percebo também que terá funcionado como argumento o oferecer ao casal a possibilidade de "matar dois coelhos de uma cajadada". Mas o facto de a celebração conjunta de dois sacramentos ser mais prática e cómoda não significa que seja pastoralmente mais adequada.

Bem sei que "o óptimo é inimigo do bom". Mas o ideal seria que os dois sacramentos fossem celebrados de forma espaçada no tempo. Porque, como já disse, a táctica "dois em um", mesmo que apelativa, encerra o perigo de desvalorizar um dos sacramentos.

É algo que porventura, se pode captar na linguagem, v.g.: "queriam baptizar o filho e aproveitaram para se casar", ou "casaram para poder baptizar o menino". São frases hipotéticas, mas possíveis (até prováveis) de ser escutadas a propósito da celebração em causa. Há, de facto, o risco de um sacramento ser visto como apêndice, ou como condição, do outro.

Anónimo disse...

Curiosamente, o mesmo princípio presidiu ao espaçamento no tempo das celebrações da primeira confissão e primeira comunhão. Precisamente para que a Festa do Perdão pudesse brilhar em toda a sua dignidade, deixando de ser vista como apenas um preparativo para se poder comungar.

Se bem percebi, o (a) A. P. N., no seu comentário, afirma que as confusões se ultrapassam com formação. Mas eu diria que também se evitam se não criarmos situações confusas.

Mesmo a questão de não terem sido dois mas três sacramentos (casamento, baptizado e missa) tem que se lhe diga. É certo que a eucaristia tem uma relação única com todos os outros sacramentos. Mas continua aceso o debate sobre se alguns dos sacramentos, mais do que poderem, deverão ser celebrados sem eucaristia.

disse...

Resumindo: liturgicamente talvez tivesse sido mais correcto baptizar primeiro a filha e casar depois os pais… É este o nosso tempo, o tempo do homem. O antes e o depois medidos por dias, horas, minutos. Pequenino. O tempo de Deus é outro porque é Sempre, é Eternidade… Ou não será?

Quanto teve a Direito Canónico, Padre??? Um dezito seguro pelas pontas:)

Ai se o meu Prior por aqui anda... Credo!

Abraço

Anónimo disse...

Uma igreja será apenas quatro paredes?

Quando os cristãos festejam o aniversário da "inauguração" da igreja da sua comunidade, rezam assim:

"Nesta casa visível, que nos destes a graça de construir, incessantemente concedeis os vossos favores à vossa família, que, neste lugar, peregrina para Vós. Aqui nos dais o sinal admirável da vossa comunhão connosco e nos fazeis participar no mistério da vossa aliança; aqui edificais o vosso templo, que somos nós, e fazeis crescer a Igreja, presente em toda a terra, na unidade do Corpo do Senhor, que, um dia, tornareis perfeita na visão de paz da celeste cidade de Jerusalém."

Anónimo disse...

E todavia, nunca nos podemos esquecer da mensagem profética de Jesus: somos adoradores em espírito e verdade.

E também é bom recordar as críticas dos cristãos dos primeiros séculos aos cultos pagãos: nós não adoramos estátuas porque só o ser humano é a imagem verdadeira de Deus; nós não precisamos de templos, porque nem o próprio mundo pode conter o nosso Deus; nós não oferecemos sacrifícios de animais, porque o sacrifício agradável a Deus é uma alma boa e um espírito puro.

E tendo em conta, como alguém dizia, a falta de acolhimento em algumas das nossos templos, e o ambiente frio que se respira em algumas assembleias, fica a dúvida se Deus chega mesmo a entrar em certas igrejas...