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sábado, agosto 29, 2020

Agulhas, camelos e ricos

O padre relia e actualizava, na homilia, aquela passagem que fala de agulhas, camelos e ricos. Com certeza se recordam de Jesus ter dito que era mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. O padre ufanava-se para esclarecer a passagem. Entusiasmado, esbracejava. Agarrava-se ao micro. A homilia estava ao rubro quando, por engano, acabou dizendo que era mais fácil entrar uma agulha pelo fundo do camelo, do que um rico. Toda a assembleia sorriu sem ruído. Ou seja, para dentro. Mas nisto, um senhor lá do meio da assembleia, um daqueles senhores bem-dispostos, interessados e castiços, exclamou. Com jeitinho, até é capaz! E aí toda a gente se escangalhou de vez. Até o padre.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "De rabo para o ar"

quinta-feira, julho 09, 2020

Deus no quintal

A catequista explicava que Deus estava em todo o lado. Que estava também no coração de cada um deles. Que estava por todo o lado. Nisto, o Francisco, que não era o papa mas tinha o nome dele, perguntou se também estava no quintal do avô. E a catequista, admirada pelo interesse do seu catequisando, respondeu que sim. Claro que estava. Também estava no quintal do avô do Francisco. Mas o petiz, vejam lá tamanha astúcia, não deixou alongar a conversa e arrematou. Mas o meu avô nem tem quintal, como pode Deus lá estar?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Falar de Deus"

quarta-feira, dezembro 11, 2019

O cão pregador

Já não é a primeira vez que, numa das minhas comunidades mais pequeninas, os animais vizinhos dão sinal de vida e presença. Aliás, costuma andar por ali um cãozito que vai guardando a porta de entrada da igreja. E há dias, enquanto eu, durante a homilia, fazia a minha brilhante pregação, deu-lhe para se por a ladrar. Ladrava sem parar, ao ponto de, na igreja, nos começarmos a incomodar e a olhar na direcção da porta. Eu não desistia de continuar a minha brilhante homilia. Contudo, e perante a insistência do nosso amigo, tive mesmo de intervir. Ó meus amigos, vejam lá se o indivíduo se cala. Ou prego eu, ou prega ele. E assim nos rimos despregadamente durante um bom bocado. Olhem que uma destas! A dona saiu à rua e lá lhe disse qualquer coisa que não se ouviu. Eu imagino que lhe deve ter dito que ou pregava o senhor padre ou pregava ele. E não é que o cãozito se calou?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quem canta, seu mal espanta"

terça-feira, novembro 26, 2019

O padre que mora na catequese

A senhora professora de moral é amiga do senhor prior. São amigos de longa data. De andanças das catequeses e das pastorais juvenis. Até se tratam por tu. E a senhora professora, enquanto preparava o acolhimento na sala do primeiro ano, precisou de falar com o pároco onde está a dar aulas para combinar algo com ele, o tal amigo. Na dita sala já se encontrava um dos pequenitos alunos que, achando estranha a conversa, perguntou à professora. Estás a falar com quem? Ela respondeu com a mesma simplicidade. Com o senhor padre. Insistiu o pequeno. Aquele que dá a missa? Sim, aquele que celebra a missa. Mas, como o pequeno, de vez em quando vai a outras paróquias, continuo o interrogatório. O que mora na catequese? 
Olha o que nos rimos com o petiz. Porque as pessoas moram onde são vistas, certo? Apetece fazer ou desenhar um lol.

quinta-feira, maio 02, 2019

Rezar antes das refeições

Antes de cada refeição é meu costume rezar a pedir a Deus pelos que a proporcionaram e a pedir para que ela retempere as nossas forças. É um hábito que recebi em casa, da mão dos meus pais. Hábito que repito onde quer que esteja, em minha casa, em casa de algum paroquiano, no restaurante. Convido todos, mesmo os que não conheço muito bem ou com quem estou menos à vontade, a acompanhar-me. 
E assim, há dias, na casa de um dos meus paroquianos, numa festa de aniversário de um dos seus filhos mais pequenos, onde estavam mais uns quantos dos seus amiguinhos da mesma idade, formulei o mesmo convite e, antes que me persignasse e desse início à pequena oração, o pequenote que fazia anos disse, um pouco envaidecido, que costumava rezar todos os dias em casa antes de comer. Depois perguntou aos amigos se também rezavam em suas casas antes da comida. Nisto, um dos seus amiguinhos, com a maior das ingenuidades, respondeu que não. Que a sua mãe sabia cozinhar.

domingo, março 03, 2019

A roupa suja

As casas pegam uma com a outra e são separadas apenas por um quintal. Simples, com umas couves misturadas com flores meio selvagens. O quintal é da vizinha Beatriz. Tem virado para lá uma das janelas da vizinha Eduarda. São muito amigas. Amigas sobretudo da conversa alheia. Encontram-se no muro do quintal, e dão um pé-de-meia de conversa fiada. O tempo, o sol, o frio, as batatas, e as outras vizinhas, como é óbvio. Não é por mal. É por hábito. Não é por mal. É para ter que dizer. 
O que a vizinha Beatriz não sabe é que a vizinha Eduarda a costuma vigiar da janela que dá para o quintal. Raramente a abre. Contudo, por entre o cortinado, lá vai dando uma espreitadela. Por isso, e já o comentou com uma das vizinhas do fundo da rua, descobriu que a vizinha Beatriz não é lá muito asseada. Atão não é que lava mal a roupa. Ou o detergente que usa presta pouco. Pois que, quando ela, por acaso, sempre por acaso, olha para a roupa da vizinha Beatriz estendida no quintal, as roupas estão, assim, a modos que, pouco limpas, para não dizer cheias de nódoas. Mas fica só entre nós. Repetia. Fica só entre nós. 
Há dias, porém, o marido da vizinha Eduarda, que gosta de tudo muito asseado e arrumadinho, chegou a casa mais cedo e foi fumar um cigarrito à janela que dá para o quintal. Mas quando ia para abrir a janela, reparou que esta já há uma boa temporada que não devia ver uma pano e um detergente, de tão suja que estava. Ó Eduarda, a ver se dás um jeito nesta janela, pois quase não dá para se ver através dela.
Afinal, não eram as roupas lavadas da vizinha que permaneciam sujas. A sua janela é que estava mal lavada. E assim se descobriu quem era, na verdade, a vizinha pouco asseada!
Lá dizia o outro: “Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?”

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

A importância do karaté na catequese

Num diálogo amistoso com a mãe de uma criança que frequenta a catequese, falávamos sobre o que era necessário ou não, o que era importante ou não na catequese. Eu dizia que era a "fé". Que se devia educar para a fé. A mãe dizia que era o "caracter". Que era formar o carácter. Que este era ainda mais importante que ir à missa, pois o que as crianças precisavam era de caracter.
Nisto, o filho, um petiz que frequenta o segundo ano da catequese, estando ao nosso lado e escutando-nos com entusiasmo, interrompeu-nos e disse. Eu tenho. Eu tenho isso, mãe. Todas as semanas. Eu tenho karaté todas as semanas.

sábado, janeiro 26, 2019

A leiteira de S. Paulo

Quando a jovem, entusiasmada, se dirigiu ao ambão para ler a segunda leitura, que era de S. Paulo aos Romanos e que estivera a preparar afincadamente, fez-se o natural silêncio na assembleia. A sua voz foi, como é hábito, amplificada pelo microfone. Graças a Deus que o silêncio não foi interrompido quando ela leu “leiteira da epístola de São Paulo aos Romanos”. O silêncio manteve-se, mas eu não aguentei. Já não me ria tanto para dentro como nesta ocasião. Deixei de ouvir o teor do texto. Imaginei o afamado apóstolo pela manhã, com os olhos enremelados, recebendo à porta de sua casa uma senhora com um pote de leite para vender. Era a sua leiteira. A senhora que lhe levava o leitinho fresco todos os dias, ainda ele mal acordara. Ó que maldoso fui! Reconheço. Menos mal que não me veio à lembrança nenhum animal que dá leite. Ri-me, ri-me e voltei a rir até conseguir compor-me na cadeira presidencial onde estava sentado. Não sei se fui o único a rir para dentro. Para fora, ninguém se manifestou. Pelos vistos, toda a gente decidira respeitar a leiteira de S. Paulo.

domingo, dezembro 02, 2018

O cristianismo virá de Cristiano Ronaldo?

A filha da senhora Alcina creio que não tem mais que uns quatro aninhos. É franzina, mas um poço de vida, como se costuma dizer. Está numa fase de perguntas e porquês. Está numa fase em que quer saber tudo o que não sabe. E a mãe, a senhora Alcina, sabe muitas coisas, mesmo em termos religiosos. É uma daquelas pessoas que teve uma boa formação cristã, e que não tem receio de falar da sua fé, da sua catolicidade, do seu cristianismo. Pelos vistos, a filha ouve com atenção as suas palavras sábias. E por isso, um dia destes, interrompeu a mãe no diálogo que esta fazia com uma amiga, para lhe perguntar se o cristianismo vinha do Cristiano Ronaldo. De certo que ele é bem capaz de, nos dias de hoje, ser mais conhecido que o próprio Cristo. Não há sequer uma criança, pelo menos em Portugal, que não conheça este ídolo das nossas gerações. Considerações sérias aparte, com esta história lembrei a piada que em tempos li, na língua castelhana, sobre os argentinos que, numa época conturbada e mais frágil do seu patriota, futebolista e mediático Messi, pediam ao Papa Francisco, argentino de gema, que “bautice a Messi para que se convierta en Cristiano”. Tradução quase literal de “baptize Messi para que se converta em cristão”.

sexta-feira, outubro 26, 2018

Os “de fundos”

Nas redes sociais encontramos de tudo um pouco. Coisas que nos afrontam, que nos magoam, que nos enganam, que nos incomodam, que nos inquietam, que nos preocupam, que nos indignam, e depois encontramos situações, palermices ou piadas do mais hilariante possível. 
E foi assim que, há uns dias atrás, a propósito do dia dos “fiéis defuntos”, tive a dita de poder ler uma pergunta fascinante de uma distinta amiga do facebook. Era uma daquelas amigas que, por tudo e por nada, posta coisas no dito cujo. Ora um prato, ora dois, ora uma foto, ora um anúncio, ora uma frase feita, ora umas perguntinhas, ora venha o diabo e escolha. Apeteceu-me dizer Quase hora a hora. Nada que não seja corrente, fluente e banal nos dias de hoje. Mas, adiante. Então a dita amiga, dizia eu, manifestando o seu enorme interesse e conhecimentos sobre o assunto, decidira perguntar aos seus amigos virtuais se sabiam o que eram os “de fundos”? Sim, os “de fundos”. 
Foi assim que li, reli e voltei a ler para ter a certeza de que não tinha lido mal. A dita explicava logo de seguida, tim tim por tim, o que era. Mal ela sabia que estava a falar dos “defuntos” e não dos “de fundos”. Mas eu, dado que a vista se me tornara búzia, turva e sei lá mais o quê, já não conseguia ver qual palavra que fosse. É que não conseguia parar de imaginar aquilo que costumamos dizer que vem lá dos fundos, das nossas zonas fundeiras, ali um pouco abaixo das costas. Ria-me despregadamente a pensar que os “de fundos” só podiam ser esse teimoso cheiro que, de vez em quando, vem lá dos fundos. Já lá dizia o outro: até os mortos se levantaram! 
Ou teriam sido os “de fundos”?

sábado, setembro 01, 2018

A Adrenalina do senhor prior

Estava sentado ao seu lado. A distância não alimentava muito desconforto. Mas ela não parava de fazer piropos ao senhor prior. Estávamos no meio de uma festa de aniversário, uma daquelas festas para as quais o pároco ainda vai sendo convidado. Assim como ela. Não era mulher que fizesse incómodo libidinal ao senhor prior. Era apenas uma senhora castiça que usava todas as conversas para meter picante. Por isso o padre, que era eu, ria-se e divertia-se. E às tantas entrou na brincadeira. 
Na noite anterior estivera até tarde a assistir a um concerto, que achara maravilhoso. Cantara imenso, batera palmas, saltara, dançara. Por isso, ao deitar-se, teve dificuldade em adormecer. Estava, como se costuma dizer, com adrenalina. Por isso, em tom de brincadeira, disparou para a vizinha do lado. Esta noite deitei-me cá com uma adrenalina! E fez com a mão um sinal de exclamação e excitação. Mas a exclamação e excitação da senhora ainda foram maiores. Dormiu com quem, senhor prior? Com a Adre…quê? Com uma Adelina, ou Adrelina? Eu bem digo, os padres são cá uma peça! Mas faz bem, senhor prior, os padres são homens como os outros.

quinta-feira, junho 28, 2018

Atestado de imunidade

Ligou-me um amigo, intrigado, porque uma vizinha lhe tinha ido perguntar o que era e onde se pedia um atestado de imunidade, pois o pároco onde vai baptizar o netinho pedira um atestado de imunidade do futuro padrinho da criança. Tinha recorrido a este vizinho porque ele era mais entendido nestas coisas. Mas pelos vistos não. O meu amigo não sabia nem imaginava o que era este atestado. Por isso, e pela confiança que nos une, ligara com a mesma pergunta: o que é e onde se pede um atestado de imunidade para ser padrinho. 
A princípio também eu fiquei intrigado com o telefonema e a pergunta. Para que quereria o padre um documento que atestasse a imunidade do padrinho? E a que imunidade se referia? Imune à fé? Imune à Igreja? Imune ao padre? Porém, foi apenas uma questão de segundo e meio para perceber que não se tratava de um atestado de imunidade, mas de um atestado de idoneidade. Afinal o que o meu colega pedira não era senão um atestado de idoneidade que provasse que este padrinho possuía os requisitos necessários que garantissem que seria um padrinho idóneo. 
E por causa do atestado de imunidade, o resto da conversa ao telefone foi um fartote de rir.

quinta-feira, junho 21, 2018

As histórias do nosso cangalheiro

O cangalheiro aqui da zona é um homem que se distrai com facilidade, mas com a mesma facilidade se despacha. Digamos que é despachado e castiço, embora o seu serviço não perca a dignidade. E há dias contaram-me o que ocorreu há uns anos quando ele preparava um morto para colocar no caixão. Tinha ido a casa do referido defunto para o vestir e preparar convenientemente. Como manda a etiqueta da ocasião, vestira o seu fato negro para não chocar os familiares e para que o assunto tivesse a sua dignidade. Entretanto, para poder fazer o serviço nas devidas condições, pousou o casaco do seu fato nas costas de uma cadeira que estava por ali perto. Como devem imaginar, a preparação ainda leva o seu tempo, porque é necessário tratar um pouco o rosto e vestir o defunto. E assim fez, como habitualmente o nosso amigo cangalheiro. Vão primeiro as roupas mais interiores, depois as calças do fato escuro, a camisa branca e por aí fora. Entretanto, ao vestir-lhe o casaco do fato reparou que este não lhe servia, que lhe ficava um pouco apertado. Como ninguém daria por nada, decidiu cortá-lo, com uma tesoura, nas costas. Finalmente o senhor estava conforme manda a coisa. Faltava o toque final, ou seja, alisar e dar um jeito para que tudo ficasse nos conformes, quando, ao passar a mão no peito do casaco e do senhor, deu conta que este ainda tinha uma carteira no bolso de dentro. Pensou para os seus botões que os familiares a deveriam ter esquecido. Pegou nela, com o devido cuidado, para a entregar à esposa. Mas ao avistá-la, teve a sensação de que já tinha visto aquela carteira nalgum lado. Por isso a abriu. E assim que a abriu reparou numa foto que era bem visível e conhecida. Era uma foto que ele tinha tirado com a esposa numas férias. Tratava-se, portanto, da sua carteira. Graças a Deus, pois por pouco não era enterrada com dinheiro e os seus documentos. Que alívio, pensou. Contudo, no mesmo instante deitou as mãos à cabeça. Acabara de ficar sem um casaco que não tinha sido nada barato.

sábado, junho 02, 2018

Os óculos da paróquia

Tenho ao meu encargo uma paróquia pequenita, onde são poucos os que sabem e conseguem ler as leituras na Eucaristia. O senhor Jacinto é um deles. Mas no passado Sábado, quando chegou a hora de ler a primeira leitura, e porque se esquecera dos seus óculos, enquanto se dirigia ao ambão, ia perguntando ao resto do pessoal, em alta voz, se alguém tinha uns óculos que lhe emprestasse. E não é que havia! Levantou-se a senhora Capitolina, tirou os óculos que o seu nariz e orelhas seguravam, e entregou-lhos junto ao ambão. Já estão a imaginar como me ria tapando a boca para não se escutarem as gargalhadas. Ninguém se descoseu ou achou estranho. E na hora o senhor Jacinto começou a leitura sem qualquer problema. Da mesma forma a concluiu e, distraído, já ia para o seu lugar quando a senhora Capitolina foi ao seu encalço, a meio da coxia, para lhe pedir os óculos, dado que agora era ela que tinha de ler a segunda leitura. Mais difícil foi aguentar por detrás da mão tanta vontade de rir. E como se não bastasse, quando chegámos, depois da homilia, à Oração dos Fieis, e o senhor Jacinto se dirigiu, de novo, ao ambão, para fazer a referida leitura das preces, já a Capitolina, sem que lhos pedisse, saíra do seu lugar para lhe emprestar os óculos.
Por este andar, no próximo dia que lá voltar, sou bem capaz de ter de pedir à senhora Capitolina que também mos empreste para ler o Evangelho. Óculos destes não é em todas as paróquias que existem!

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Senhor padre, estou sempre a pensar em Deus.

Era uma daquelas santas, mas tão santas, que vive quase exclusiva ou obcecadamente para ser santa. Um tanto como aquelas meninas ou meninos que entram em programas de televisão de entretenimento para ganharem fama de vips, importantes, ou o que nos valha que pareça que são.
Eu sei que a santidade é uma das metas da fé. Mas fazer disso o apanágio para que os outros tomem conta da nossa fama, vai la vai. Olha, aquela tem fama de santa! E eu acrescentaria. De pau oco. E olhem que faço esforço para evitar esse tipo de julgamentos. Mas valha-nos Deus ou santo António. Ela insistia em contar-me tanta virtude, mas tanta virtude, que ela era isto e fazia aquilo, e evitava aqueloutra coisa.
A santidade era tal, que a determinada altura chegou a dizer. Senhor padre, estou sempre a pensar em Deus. Dia e noite estou a pensar n’Ele. E deixava decair as palavras, em vogais abertas e alongadas, para as reticencias, do tipo “todo o tem…po do di…a… e da noi…te…” (não sei se por as reticencias antes ou depois!) E pergunta o padre, que era este pobre pecador, eu mesminho: Mas então a senhora nunca dorme?

terça-feira, setembro 05, 2017

O último terço do jogo

A Joaninha e os seus pais iam no carro comigo quando no final do relato de um jogo de futebol, com a selecção de Portugal, se ouvia na rádio os comentadores a darem as suas abalizadas opiniões, a avaliarem prestações, a dizerem de si e todas essas coisas típicas de uma noite de futebol. A viagem, que não era longa, fazia-se no silêncio. Ou melhor, na escuta atenta do que diziam os comentadores. Afinal Portugal havia vencido. Mas a Joaninha quebrou o nosso silêncio depois de um dos comentadores dizer que um determinado jogador estivera muito bem no terço do jogo. E perguntou. Ó pai, mas afinal os jogadores também rezam o terço no meio do jogo?

sexta-feira, julho 14, 2017

Ser ou não ser o primeiro em tudo

Havia um padre numa pequena aldeia para os lados de não sei donde, que era conhecido por uma certa soberba. Não era mau homem. Aliás, tinha fama de excelente pregador. Mas a soberba perseguia-o, e algumas vezes deixava-se apanhar por ela. 
Claro que não sei quem é este padre amigo. Nem o julgo. Sei apenas estas pequenas coisas que me contaram. Assim como também me contaram que um dia destes, numa das suas afamadas homilias, enquanto falava do pecado e dizia que todos éramos pecadores, todos sem excepção, saiu-lhe da boca algo mais ou menos assim: Meus amigos e queridos paroquianos, todos pecamos. Eu também peco. Aliás, eu sou o primeiro a pecar. 
Grande humildade a deste padre que, diante dos seus paroquianos, decidiu assumir a sua fragilidade, o seu pecado. Mas nisto uma senhora, já entradota na idade, levantou-se do meio da assembleia e dos bancos, e em tom aborrecido, respondeu, em alta voz, com uma pergunta mais ou menos assim: Até no pecado o senhor tem de ser o primeiro?

terça-feira, janeiro 31, 2017

Conversa desajeitada

Conversa de quem quer algo, de forma volátil, numa paróquia que tem à sua frente três padres. Olhe, diz ela para a funcionária do cartório, quando é que posso falar consigo para marcar umas coisitas? A funcionária perguntou de que coisas se trata, e ela respondeu que, como agora há três padres na terra, se podem fazer coisas que antigamente não se faziam. Mas o quê, retorquiu a funcionária. Assim, como batizar o meu neto e o meu genro no mesmo dia. A funcionária esclareceu que isso se poderia, eventualmente, fazer, desde que o genro fizesse catequese. A resposta da senhora foi um Isso é que vai ser mais complicado. Queria fazer-lhe uma surpresa e mandar-lhe a água para a cabeça e um dos teus três padres rezava e pronto. Não dá para fazer assim? Como a senhora não parava quieta e parecia querer escapulir-se da conversa, a funcionária reiterou que tinha que falar com um dos sacerdotes. Um quê? Perguntou. Um dos padres. Ahhh, ok, eu gosto muito daquele dos olhos azuis. Sim, talvez seja. Ficou contente e mudou de caminho em direção a casa com um boa noite e Ainda bem que é o girinho que vai falar comigo. E assim terminou uma conversa profunda de um cristão profundo.

quarta-feira, setembro 24, 2014

O burro do Alfredo

O burro do Alfredo é o vizinho mais próximo do cemitério. É ele que, do seu posto de trabalho, vela cada campa. É um burro sossegado, mas atento. Não se dá por ele a não ser nos funerais ou nos finados. Chegados ao cemitério, findo o canto fúnebre, o burro do Alfredo continua a salmodia na sua língua materna. É difícil manter a compostura e guardar a seriedade. O seu dono é o primeiro a desfazer-se em prantos de gargalhada contida. Já o avisei para que guarde o animal a sete chaves quando há funeral, mas o Alfredo esquece-se. É que ninguém consegue ficar-lhe indiferente numa cerimónia que exige tanto recato. Foi quando o Alfredo me contou que em tempos o padre que eu substituíra, para dar início ao ritual das exéquias e efectuar a despedida do defunto no cemitério, dado que os presentes faziam barulho inapropriado, pediu, alto e bom som, que se fizesse silêncio a fim de ele prosseguir a oração com a devida dignidade. As pessoas aceitaram o pedido e calaram-se. Nisto, o burro do Alfredo, quase em tom de gozo com o padre, abre as goelas e esboça um zurro do nunca visto. Sorriram as pessoas e conformou-se o padre, dizendo. Bem, a este não posso eu mandar calar.

terça-feira, agosto 12, 2014

Oração dos fieis super especial

Numa das minhas mais pequenas comunidades, daquelas que quase não precisam do sino para se avisar que o padre chegou, pois as casas são contíguas à Igreja, o insólito que já não é assim tão insólito, aconteceu. Estava a minha pessoa a verbalizar a homilia quando o telemóvel do António tocou. Este, que se encontrava numa das pontas de um dos bancos, retirou o dito som do bolso e, sem o desligar, atravessou o banco de uma ponta à outra, atrapalhado e atropelando os que lá estavam sentados, esquecendo-se que teria sido mais fácil sair pela ponta do banco onde se encontrava. As cabeças da comunidade voltaram-se para ele e não tardaram em ser abanadas para a direita e para a esquerda. Ainda o António não se encontrava na rua e já se ouvia o habitual Estou, sim, Estou. Interrompi a homilia o suficiente para que o António não fosse interrompido. O à vontade numa comunidade cristã familiar dá para estas coisas, assim como para outras que vieram a seguir. Até final da homilia, mantive-me o mais possível contido. Mas já na Oração dos Fieis, estando o António no seu lugar do banco, não resisti a fazer a seguinte petição. Nós te pedimos, Senhor, por aqueles que não sabem ou se esquecem de desligar o telemóvel antes de entrar na missa, e por aqueles que saem a correr da Igreja para o atender e ainda antes de saírem já o estão a atender. Oremos irmãos. E a pequena comunidade em coro, a sorrir, devolveu um Ouvi-nos, Senhor. O António virou-se para o lado correspondente à sua ponta do banco e recusou-se a dizer, como os outros, Ouvi-nos, Senhor. Ainda agora estou a ver a cara do António e a imaginar a cara do Senhor.