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quinta-feira, novembro 21, 2019

O morto que não queria nada com Deus

A história passou-se com um senhor que nunca quisera nada com Deus, que nunca fora visto na missa, que dificilmente se abeirava do padre ou da Igreja. Não se dizia ateu, porque não sabia bem o significado dessa palavra. Contudo, dizia, à boca cheia, que não acreditava em Deus nem nessas coisas dos padres.
Um dia, porém, o padre foi informado que o referido senhor se encontrava nas últimas. Foi informado só por acaso, isto é, caso o padre quisesse lá passar. Embora sabendo que não ia adiantar muito. E o meu amigo padre foi. Recorda-se bem que começava a fazer escuro e que, quando chegou a casa, já o corpo do senhor estava coberto por lençóis, e ainda que havia gente a andar de um lado para o outro a fazer preparativos não sei bem de quê. Estava dado como morto. Mas o padre não resistiu em se abeirar dele e levantar o lençol para lhe ver o rosto. E quando o fez, deu-lhe a impressão de que teria havido um ínfimo pestanejar. Por isso, e sabendo que o ouvido era das últimas coisas que se perdia, começou a falar-lhe do perdão de Deus, da absolvição, da Unção dos Enfermos. O corpo, de facto, ainda não estava frio quando este meu amigo o ungiu com o óleo dos enfermos. Nisto, contou, aconteceu o inusitado. O homem pegou-lhe na mão, e disse, em bom som, Obrigado. E depois suspirou e faleceu.
E contava-me o colega que, para ele, tinha sido uma evidência de que a salvação não exclui ninguém.

domingo, novembro 17, 2019

Vinha-se confessar ou parecido

Vinha, despachada, enquanto me preparava para confessar, a pedido de um colega, numa paróquia vizinha. Era uma jovem risonha, sem dúvida. Vinha-se confessar, mas não sabia o que estava a fazer e, segundo me disse, não se recordava de se ter confessado nunca. Mas ria-se. E ria-se. Não sei se de incómodo, se de azia, se de nervosismo, se de graça. A graça que tinha tudo aquilo. Porque, tenho a certeza, se lhe falasse da graça de Deus, ela ia continuar a rir. Não sabe esse termo. Usa-o só por piada. E conhece uma senhora velhota que tem esse nome ou parecido. Não sabia, como era de esperar, o que era um exame de consciência ou um acto de contrição. Não sabia o que era sequer o pecado. Ela não tinha. Foi o que disse. Nem sabia bem o que era isso. Foi o que disse. Mas nunca ouviste falar de pecados? Perguntei. Que eu me lembre, não. Respondeu. Não desisti dela. Não desisti da confissão. Fizémos o que foi possível. Embora desconfiado, creio que a graça sacramental ou a graça de Deus é maior que todas estas coisas. Mas quando lhe perguntei porque estava ali, respondeu que estava ali, sem saber muito bem porquê, mas tinham-lhe dito que, para se crismar, tinha de se confessar.

sábado, julho 06, 2019

A resposta

Estava num retiro para sacerdotes, num momento especial, diante do Santíssimo Sacramento exposto. Com base numa passagem do evangelho de João, lá para o final do mesmo, quando Jesus pergunta insistentemente a Pedro se O amava, eu fazia ao Senhor a pergunta com que comecei este retiro. Que queres de mim, Senhor, quando eu próprio não sei bem, muitas vezes, o que quero? Confidencio, com pudor, que esta pergunta tem sido recorrente nos meus últimos tempos, cansados, inquietos, expectantes. Perguntava e tornava a perguntar ao Senhor, sem obter um sinal que me satisfizesse. As luzes não aumentavam nem diminuíam. Não havia sinais na rua. Nem coisas extraordinárias a acontecer. Só havia silêncio, sobretudo no meu coração. 
Nisto, um sacerdote, de idade avançada, dirigiu-se a mim, de entre os vários sacerdotes presentes, perguntando e pedindo se o podia confessar. Levantei-me prontamente e afastámo-nos os dois para um local mais recôndito. Não tem propriamente interesse o conteúdo desta confissão. Mas eu fui, durante a mesma e aos poucos, edificando-me com a virtude daquele homem que entregara a sua vida ao Senhor e que agora, com falta de saúde, em sofrimento, quando as capacidades já não lhe permitem muito, continuava a entregar-se de uma forma que eu não consigo explicar ou definir. Acabada a confissão, levantámo-nos e foi cada um para seu lado. Ele foi para diante do Santíssimo exposto e eu vim a correr para o quarto de modo a esconder as lágrimas no rosto. 
Não sei se foi a resposta do Senhor e ou se foi a resposta que eu esperava. A verdade é que me senti instrumento da misericórdia de Deus. No meio de muitos outros sacerdotes, com certeza mais dignos que eu, este padre escolhera-me a mim e eu fora um pequenino instrumento de Deus. Como disse, não tenho a certeza de que tenha sido a resposta à pergunta que, insistentemente, fazia ao Senhor. Ou até sei. Talvez não saiba como a dizer. Mas sempre posso dizer Obrigado, meu Senhor. Ofereço-te esta lágrima feita de amor.

quarta-feira, abril 10, 2019

A Rosário, apertada pela vida

Só se lhe adivinhavam os olhos, porque brilhavam. De resto, estava tão agasalhada, tão coberta, que nada mais se via. Reparei que trazia um cachecol, um xaile, uma echarpe, umas coisas por cima das outras, a apertar, que o frio aperta. Vinha confessar-se, que o medo também aperta. Senhor prior, queria confessar-me. Não quero morrer em pecado. Quase todas as semanas, ou semana sim semana não, tenho de confessar a Rosário que tem medo de morrer em pecado. Desta vez, e antes de aceder ao seu pedido, quis saber porque fazia aquilo daquela maneira, aflita, apertada pelos andrajos e pela vida. Respondeu de chofre que tinha medo do castigo de Deus. A Rosário deve ser daquelas pessoas que passa o tempo da homilia a rezar e não ouve as minhas pregações que falam do Amor de Deus que não castiga. Ou então é daquelas que o tempo marcou por uma enformação exagerada do pecado, e por mais que ouça falar do Amor de Deus, apenas o sente quando se confessa e se livra de castigos. 
E mesmo antes de o fazer já estava a dizer. Não quero morrer em pecado, senhor prior. E era assim que vinha confessar-se porque a saúde já não é a mesma. Porque não sabe o dia e a hora e tem de estar confessada. Mesmo que o pecado sejam apenas umas pequenas falhas de atenção ou lucidez. A Rosário tem sempre de se confessar. Vive apertada pelos andrajos e pela vida. Vive apertada pelo medo de que Deus não se lembre dela quando, afinal, Deus tem o amor todo para dar a cada um de nós, como se nós fossemos tudo para ele.

sábado, novembro 17, 2018

como no tempo dos fariseus

A história que vou contar ocorreu por ocasião de uma confissão. Não vou desvendar qualquer segredo de confissão. Não poderia nem quero. O que recordo ocorreu assim que a senhora se sentou ao meu lado, e ainda antes das orações iniciais da confissão. A senhora sorria e olhava-me com um ar que me pareceu de superioridade e soberba cristã. Tentei não julgar. Como agora tento. Mas não posso deixar de referir que me fez recordar os fariseus do tempo de Jesus que se consideravam puros, perfeitos, melhores que os outros. A senhora disse, assim, tal e qual. Eu não sei que pecados tenho, senhor padre, e repetia. Eu não sei que pecados tenho. Desfiando um sem número de virtudes, prosseguiu dizendo que a minha vida é assim e assado, eu faço isto e aquilo na igreja. Perdoem-me se fiz mal, mas respondi-lhe à letra, dizendo que assim também não sabia que absolvição lhe poderia dar. Afinal também eu não sabia que pecados Deus lhe poderia perdoar. Ou até sabia. As coisas compuseram-se depois, com a confissão, apesar de me ter parecido que a senhora me virou as costas contrariada. 
Neste momento bato no meu peito, porque não sou, de maneira alguma, dono deste tipo de juízos. Mas é que esta senhora só me lembrava os famosos fariseus do tempo de Jesus!

domingo, junho 24, 2018

As confissões da moda

Não, não são as confissões que estão na moda. Até porque mais parece que se tornou algo démodé. Não é por esse motivo que escolhi este título. Antes quero fazer referência àquelas pessoas que se confessam dizendo que não têm pecados. São gente para quem ter ou não ter pecados é secundário. Confessam-se apenas por causa da festa. Há um certo pudor - quando há - em se abeirar da comunhão na festa do filho sem estar confessado, porque sempre foi assim ensinada ou ensinado. Mas depois, diante do sacerdote, dizem que não têm pecados. E quando lhes falamos das faltas da missa dominical, perguntam, à boca cheia, Atão mas isso é pecado? São aqueles que se limitam a assinalar os mesmos pecados que diziam na confissão quando eram crianças. As mentiritas, as asneiras, as palavras e pequenas chatices e zangas. São esses os pequenos nadas de gente para quem o pecado não é assunto. Mas o pior é que se calhar nem Deus é assunto. E isto está na moda.

quarta-feira, outubro 18, 2017

O negócio da salvação

Senhor padre, um colega seu disse-me que se me confessasse, comungasse e rezasse pela alma de uma pessoa à minha escolha, essa alma era salva e ia para o céu. Por isso lhe peço se me pode confessar. 
Não o conhecia, mas não o deixei ir-se embora sem a pretendida confissão. Também não conheço o denominado colega que lhe fez tamanha proposição. E mais uma vez não me quero julgar dono do juízo de Deus ou das boas intenções, tanto do colega como do senhor que me batera à porta. Não obstante, gostava de saber que raio de negócio é este que compra a salvação, ainda por cima, a salvação de alguém que não é o beneficiário directo da confissão, da comunhão e da oração. Que raio de negócio será este que limita a opção de Deus à nossa acção. Talvez tenha razão o meu colega, e talvez eu deva ir ali à igreja mais próxima comprar uma salvaçãozita para um amigo que faleceu e que gostava muito de ver no céu.

terça-feira, março 28, 2017

A minha mãe não me leva

Andava no quarto ano da Catequese. Viera ter comigo para se confessar, a mando da sua mãe, por causa da festa da Catequese em que vai participar, com o seu grupo, na próxima semana. Trazia as mãos nos bolsos e, como lhe disse que ficava mais bonita se as tirasse de lá, colocou-as uma na outra, com os dedos a entrelaçarem-se e a estalarem ao mesmo tempo. 
Pela reação pareceu-me que estava com algum receio de confessar-se. Ou do que ia confessar. Por isso, ainda antes de darmos início ao sacramento da confissão, perguntei-lhe se estava com medo. Não respondeu, mas fez uma cara de quem não sabia o que dizer porque tinha receio do que pudesse dizer. Eu sei que, na verdade, não se voltara a confessar desde a Primeira Comunhão. Sei que não costumava ir à Eucaristia. Sei que quase tudo lhe parecia meio estranho. Estar ali porque a mãe lhe dissera para estar. A mesma mãe que não a levava à Eucaristia. 
Como me apercebera disso, e porque, infelizmente, não é caso único, perguntei-lhe se era por nunca mais ter ido à missa que estava assim. E aquela criança, afastando os dedos e as mãos, baixou ainda mais os olhos e disse. A minha mão não me leva.

domingo, dezembro 11, 2016

Encostadas ao meu peito

Contado parece algo meio distorcido. Vivido é a suma daquilo que eu imagino que deva ser a relação do pastor e das ovelhas. Tal como dizia o Papa quando afirmava que os pastores deviam cheirar as ovelhas. 
Ocorreu numa das minhas paróquias. Numa daquelas em que a relação com as pessoas tem aumentado imenso, sendo visível o carinho de parte a parte. Sinto que as pessoas confiam no seu pastor e se sentem seguras na sua presença. E assim no outro dia, enquanto confessava, reparei que uma grande parte das senhoras se encostava ao meu peito (advirto que tinham idade no mínimo para serem minhas mães!). Eu estava sentado com o braço sobre o encosto do banco, e à medida que vinham confessar-se, algumas aconchegavam-se para nos escutarmos coração a coração. Houve uma altura em que dei por mim a gostar de me sentir assim, tão pároco.

sábado, agosto 06, 2016

O padre tem de saber perdoar

O padre tem de saber perdoar. Dizia um bispo, em voz grave, no meio de uma pequena palestra sobre a confissão. E argumentava a afirmação com frases do papa. Recordava inclusive uma pequena história que este contara sobre um padre que tinha escrúpulos porque arranjava sempre uma forma de perdoar na confissão. 
Perdoem a ousadia que eu não tive para interromper o senhor bispo da voz grave. O padre não é dono do perdão. É instrumento do perdão de Deus. Usa o perdão de Deus na confissão. Tem de saber usar o perdão como ele é, infinito e sem explicação que não seja amor. Tem de ser sinal do amor de Deus na confissão. Tem de ser o rosto de Cristo que acolhe. Talvez isso seja saber perdoar, Mas não é ele que perdoa na confissão. 
O padre tem de sentir o perdão. Isso sim. Só quando sente o perdão em si, sabe o que é o perdão nos outros. Só sabe ser instrumento de perdão quem já foi objecto desse perdão. Só sabe acolher em amor na confissão quem um dia foi também acolhido com perdão e amor.

segunda-feira, julho 11, 2016

Confessei-me há uns minutos

Confessei-me há uns minutos atrás. Depois de um largo exame de consciência, abeirei-me de um colega para sentir, através do seu olhar, o perdão de Deus. Após a enumeração das faltas e pecados que sentia pesarem-me na consciência, o colega falou amável e delicadamente da nossa condição humana frágil. 
Porque me deu tempo para me por no seu lugar de confessor, apercebi-me que a maioria das minhas faltas estavam intimamente relacionadas com o meu antro ou auto-centrismo. Com a tentação de nos olharmos como centro da nossa vida. Como aquele que busca em si compensações, sucessos, satisfações. Acabou por ser muito bom dar conta em mim que o pecado é exactamente a ausência de Deus porque nos colocamos no centro de tudo. Foi bom experimentar na pele o que tenho ensinado teologicamente a outros. Foi bom, no final, perceber que a gratificação da vida nos vem de Deus e não de nós. Paradoxalmente, é Deus que nos dá a satisfação ou alegria plena da vida, e somos nós que nos entregamos à insatisfação do nosso ser. 
Curiosamente, o colega sugeriu-me que recordasse aquele momento da nossa ordenação em que nos prostramos no chão, colados ao pó do tapete à frente do altar. Afinal é essa a condição e postura que nos habilitam para sermos autenticamente sacerdotes.

terça-feira, março 08, 2016

Confissão entrou em recessão

Dois padres, hora e meia em dois dias seguidos. Não sei se chegou às duas dezenas as pessoas que vieram confessar-se para que a Páscoa fosse mais graça de Deus este ano. Já não há filas de pessoas para confessar. O sacramento da penitência entrou em recessão. Os homens já não sabem que pecam. Os homens já não se lembram que Deus perdoa. Os homens esqueceram que além deles há Deus.
Talvez este ano da Misericórdia nos ajude a descobrir que precisamos de misericórdia.

sábado, janeiro 17, 2015

O acto de confessar

É maravilhoso passarmos duas horas ou mais a confessar. Estar ali acocorado numa cadeira ou num confessionário sem preocupação que não seja estar ali para os outros. É maravilhoso dispormo-nos a confessar e depois de uma hora chegarmos à conclusão de que não somos nada. É maravilhoso sentirmo-nos insignificantes na confissão. Sabermo-nos apenas a ponte que Deus construiu para chegar da Sua margem à margem das pessoas na sua dor. São aqueles momentos que nos garantem a nossa pequenez. Não é preciso que as confissões sejam sensacionais no sentido jornalístico da questão, ou profundamente direcções espirituais. Conta tão só que sintamos o amor de Deus actuar. É um encontro diante da misericórdia de Deus e diante das pessoas que Deus ama desta forma tão íntima. O perdão de Deus na intimidade da confissão. Comparações aparte, os padres têm neste acto uma graça que não cabe no tamanho do mundo. As nossas vidas de padre são demasiado preenchidas com afazeres, mas devíamos dedicar mais do nosso sacerdócio a confessar. Só nos faria bem. Pessoalmente, sinto uma necessidade grande de sentir este Deus, através da minha fragilidade, diante do acto da confissão. É maravilhoso.

sábado, outubro 18, 2014

Os pecados que são sempre os mesmos

Queria confessar-se. Porém, envergonhada, disse-me que trazia os mesmos pecados de sempre. Afinal são sempre os mesmos, padre. Isso, além de a irritar, cansava-a. Por isso nem sabia se devia confessar-se. Ou se era digna de usar a confissão para confessar pecados que eram sempre os mesmos. É que a confissão exige arrependimento, e arrependimento exige o desejo de mudar. Pelos vistos, ela não mudava.
Sentara-se a meu lado, resignada sem querer resignar-se. Ajude-me, senhor padre. O pedido era sincero. Muito sincero. Diga-me lá, disse eu, se nunca, mas nunca mesmo, conseguiu evitar algumas ocasiões desses pecados. Isso sim, senhor padre. Imagine então que de dez vezes que era para cometer os tais pecados que são sempre os mesmos, conseguiu evitar cometê-los duas vezes. O mesmo é dizer que só os cometeu oito vezes. Ora nós também devemos valorizar as vezes que fomos capazes de não cometer os tais pecados que são sempre os mesmos. Foram só duas vezes. Mas foram duas e não foram uma ou nenhuma. Assim, na verdade, crescemos e o perdão de Deus é mais agradável em nós. Deus sabe que foram oito, mas podiam ser dez. Ele sabe que foi fraca oito vezes, mas que também foi forte duas.
Porque nos havemos de amarrar aos pecados que cometemos e não às ocasiões em que fomos mais fortes que eles! Nunca tinha pensado nisto e assim, disse-me. Já aprendi uma coisa nova hoje. E melhor que isso, no final levantou-se mais feliz da cadeira das confissões e dos pecados.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Uma confissão marcante

Era padre faz pouco tempo. Sabia-me dono do saber e do mundo. Achava-me capaz das melhores proezas, das mais sensatas virtudes sacerdotais. Além disso, estava no centro das espiritualidades sacerdotais em Portugal. Fátima. Tinha aprendido a oração da absolvição. Sabia-a de cor. Estava apto para ser sinal do perdão misericordioso do Senhor.
A senhora que se abeirou para se confessar tinha uma idade própria de quem já passou por muito, mas ainda há-de passar por muito mais. Não me olhou nunca nos olhos. Sofrera e sofria. Sofria e não queria sofrer mais. Achara-se usada e não queria mais. E como o perdão de Deus é tão próximo, tão íntimo, tão à maneira de Deus, agarrei na mão da senhora para lhe mostrar que Deus a agarrava também. Mas o inóspito aconteceu num repente que me marcou para sempre. Ela retirou a mão das minhas, afastou o corpo ligeiramente. Esperou a absolvição de forma nervosa, tímida, assustada. Eu assustado também, jurei a mim mesmo que, durante a confissão, não voltaria a agarrar na mão de desconhecidos. Hoje faço o possível para me colocar no lugar da pessoa que se está a confessar. Apenas escutá-la naquilo que é e sente. Não é fácil. Mas tem de ser. É que naquela confissão marcante aprendi que ainda estava muito longe de saber como Deus agia nas pessoas. Porque cada pessoa é uma pessoa. E Deus age sempre diferente de pessoa para pessoa.

terça-feira, fevereiro 18, 2014

Um café com sabor a Deus

Gosto muito de café. Tomo uns três ou quatro por dia. A meio da manhã tem de ser. Como aquele que diz que se não for à missa ao Domingo nem é Domingo, manhã para mim sem café nem é manhã. Alguns paroquianos, um ou dois em particular, ligam e dizem Vai um cafezinho? E lá vou eu para o café. Não consigo estar lá muito mais tempo que aquele que demora o tomar do café. Mas sento-me à conversa, que também é bom e sabe tão bem como o café.
Há dias numa destas acções matinais, uma senhora chamou-me para a sua mesa. Estava sozinha, lendo o jornal. Primeiro, de costas um para o outro, foi metendo conversa. Depois convidou-me e acabei por me sentar a seu lado. Foi desabafando e contando que há mais de um ano que não ia à missa. Explicava-se, comprimia-se, metia as mãos uma na outra, remexia-se na cadeira. Dizia que não tinha motivos para ter deixado de ir à missa, uns mal-entendidos, umas histórias de mulheres. Desfiava coisas do passado que agora não achava bem, mas tinham acontecido. Depois de tanta palavra puxa palavra, perguntei-lhe se não gostaria de se confessar, pois que aquilo era uma autêntica confissão. Mas aqui, perguntou ela. A não ser que não queira, respondi. Sorriu e disse que sim. Estava mesmo a precisar, senhor padre. E foi logo ali, naquela mesa de café que se confessou e que recebeu a absolvição. O café estava praticamente vazio. Mas que não estivesse. Seria igual. Afinal, qual é o lugar mais sagrado para o perdão de Deus? É aquele onde esse perdão for mais genuíno. Além disso, quem mais precisa encontrar-se com o perdão ou a mão de Deus, não se encontra, geralmente, dentro das quatro paredes de uma igreja ou das quatro portadas de um confessionário. Naquela manhã o café soube-me muito melhor. Soube-me a uma presença especial de Deus. A ela também de certeza, pelas palavras com que terminámos a conversa e nos despedimos. Obrigada, padre. Veio mesmo a calhar. Já há muito que precisava deste momento. A partir deste Domingo vou passar de novo a ir à missa.

segunda-feira, agosto 05, 2013

Os padres também se confessam

Quando entrei no confessionário, penso que no número cinco da fileira de confessionários do Santuário de Fátima, não sabia o que esperar. Há sempre aquela expectativa. Que rosto estará do outro lado do confessionário! Já me aconteceu aproveitar a passagem por Fátima para me confessar, e sair de lá com a sensação de que o colega foi mais juiz que instrumento do perdão, e com a nítida sensação de que me faltava ainda a graça de Deus. Numa dessas ocasiões fiz o meu exame de consciência de confessor e prometi a mim mesmo nunca julgar ninguém na confissão. Ao abeirar-me do confessionário quero apenas pensar na misericórdia de Deus. Não quero pensar quem será o meu confessor. Mas penso. E creio que deve acontecer o mesmo com todos os que se abeiram de um padre para se confessarem. Como me vai acolher este padre. Como me vai olhar. Que irá pensar de mim, das minhas fragilidades, do peso dos meus pecados. Irá aliviar-me ou ainda me fará sentir mais pecador. Sairei de lá com a graça ou com a desgraça de Deus. E ocorrem-me também estas perguntas todas. Porque com o saco dos pecados aos ombros, não há sotaina ou batina que faça diferença. Ou que lhe retire peso.
Entrei e o colega recebeu-me com um português meio arranhado. Cheguei a pensar que estava safo. Informei que era padre. Abri o meu coração. O colega era muito acolhedor. Reparei no pormenor do terço na mão. Agarrava nele, sem o rezar. Ouviu-me, e afinal entendeu-me. O que conta na confissão somos nós e Deus. O padre é apenas a ponte de misericórdia de Deus. Mas este colega surpreendeu-me. Não me julgou nunca. Já há bastante tempo que não me confessava. Às vezes, nós padres, deixamo-nos andar. Também para nós nem sempre é fácil encontrar o colega que nos ouça em confissão. Aqueles que nos estão mais próximos e que nos conhecem e que até nos ouvem nos nossos desabafos, nem sempre são aqueles que escolhemos para entregar o saco dos pecados. E o meu colega confessor lembrou-me aquela frase do Papa Francisco que dizia algo mais ou menos do tipo “Deus nunca se cansa de nos perdoar; nós é que nos cansamos de lhe pedir perdão”. Quantas vezes eu não lera já essa frase. Mas dita naquele momento e por aquele colega confessor, abriu em mim algo que não consigo explicar. Falo tantas vezes do perdão de Deus para os que me escutam, que acabo por esquecer de perceber o perdão de Deus em e para mim. No final da confissão, saí mais vazio e mais cheio, na certeza e vontade de me confessar mais vezes.

sexta-feira, maio 24, 2013

Uma senhora que precisava confessar-se

Não conheço a senhora que se sentou ao meu lado para se confessar, numa paróquia vizinha. Diria que tem mais de setenta anos e mora, ou vive sozinha. Depois de uns bons minutos a contar repetidamente as mesmas coisas, na confissão, ficou em silêncio. Julguei que já tinha exposto tudo o que sentia. Não me lembro de lhe ter ouvido pecados. Ficou em silêncio. Um silêncio de espera, meu e dela. Por isso achei que estava na hora da penitência e da bênção. Olhe, como penitência vai rezar… e fui interrompido pelo pedido. Fale comigo, senhor padre. O que ela precisava era ouvir alguém. Alguém que fizesse eco das suas palavras. Alguém que olhasse para ela e não resistisse a estar com ela. Já não tinha forças para mais diálogos. Por isso esperava que eu não acabasse ali a sua conversa e pudesse sentir que era capaz de se relacionar ainda, por mais idade, menos filhos e marido que tivesse. Sem os olhos no relógio, nos minutos que passavam, achei que devia falar-lhe do tempo, do sol, da vida com sol, mesmo quando chove e o sol está escondido ou noutro lugar do planeta a brilhar, à espera de voltar para as nossas vidas. E assim passou um tempo de confissão, que não foi confissão, mas uma conversa de um Deus que está ali, para nós e para dialogar connosco. As pessoas hoje em dia não têm com quem conversar, fechadas nos seus problemas, ou num ecran de computador, ou num qualquer quarto de uma qualquer casa desabitada. Vou aproveitar o sol para uns dedos de conversa fiada.

sexta-feira, março 22, 2013

A minha experiência de confessar

Veio uma e sentou. Outra e sentou-se. Uma de cada vez. Sentaram-se várias senhoras, ao meu lado, para se confessarem. Cada uma com as suas vidas. No meio de tanta outra gente que não se confessa, ainda há quem tire um pouco da sua vida para tirar-lhe peso, e para o entregar a Deus, através do sacramento da Confissão. Ainda há quem busque a esperança que vem do saber-nos olhados por Deus com misericórdia. Foi assim ontem e hoje, dois dias, duas experiências, que tocaram a minha vida no mais íntimo de si. Nesta certeza de que, nós padres, somos um vaso muito frágil, às vezes algo partido, onde Deus deposita a sua água viva para refrescar quem dele beber. Aconteceu ontem numa paróquia envelhecida pelo tempo. Daquelas que são feitas de pedras antigas trabalhadas com vasos nos varandins. E no meio do desfiar de pequenos nadas daquelas muitas mulheres e alguns homens que se abeiraram da confissão, senti-me pequenino. Ouvia cada palavra como se aquelas fragilidades, aqueles pecados, fossem apenas a virtude que eu queria ter na minha vida. Porque eram uma manifestação de fé simples e humilde. Porque, na simplicidade daquelas confissões, eu me achava indigno da tamanha bondade que o sacramento da confissão tem por si. Tinha dificuldade em perceber como Deus me podia usar a mim, pois que ao lado daquela gente eu era um aprendiz. E hoje, ao confessar umas dezenas de crianças da catequese, ainda mais pequeno me senti. Elas, com o seu tamanhito de palmo e meio, fizeram-me crer que possuíam mais três ou quatro palmos que eu. Sei que eu estava na cadeira que concedia a absolvição e elas na cadeira dos absolvidos. Mas fiquei com a sensação de que as cadeiras estavam trocadas ou poderiam estar. Por mais teologias que saibamos. Por mais liturgias e pastorais, normas canónicas e sacramentais. Por mais certezas de fé que a nossa vocação sacerdotal tenha, na hora em que o perdão de Deus age através de nós, somos apenas uma frágil criatura, pequenina, que é somente instrumento, e mais nada. Inquieto por não me saber merecedor, depois destas horas em que estive a confessar, agigantou-se em mim a certeza de que sou muito pequenino.

quarta-feira, março 13, 2013

Já ninguém se confessa

Já ninguém se confessa, senhor padre. Disse-me uma senhora antes de desapertar o xaile da cabeça e se sentar para se confessar. Ela é do tempo das confissões que duravam várias horas com pelo menos cinco padres. Os padres passavam o período da Quaresma de terra em terra. Ali almoçavam e confraternizavam. Juntavam-se quase todos os padres do arciprestado. Segundo um colega desse tempo, era das melhores alturas do ano. Havia tempo para tudo. Até para estar às horas com a mesma pessoa na confissão. Hoje não é assim, e a senhora do xaile tem razão. Também há menos pessoas nas terras. São muito menos os padres. Não há tempo para estar horas com a mesma pessoa na confissão. Para a maior parte das pessoas a antiga desobriga pouco diz. A palavra Desobriga também não abonava este sacramento. Mas a senhora do xaile tem razão. Mesmo quem se confessa, costuma fazer da confissão um desfiar de frases feitas, memorizadas, de pequenos nadas, mas não daquilo que intrinsecamente está lá dentro de si e é pecado. Eu diria que a senhora do xaile tem alguma razão e que já pouca gente se confessa ou sabe confessar. Ou tem consciência do que é pecado. Ou consciência do perdão de Deus. E depois ainda existem aqueles que acham que não se devem confessar ao padre. Porque ele é como nós, um de nós. Pecador como nós. E embora seja Deus quem de facto perdoa, e não o padre, esquecem a graça sacramental da Confissão. Esquecem que a Confissão é um sacramento. Mas tanto dá. Dá igual estar em graça ou não. Assim como dá igual ir à missa ou não. Assim como dá igual ter fé ou não. Assim como há muitas outras coisas na fé que tanto dá ou não. É a fé dos nossos cristãos que tanto dá.