A história passou-se com um senhor que nunca quisera nada com Deus, que nunca fora visto na missa, que dificilmente se abeirava do padre ou da Igreja. Não se dizia ateu, porque não sabia bem o significado dessa palavra. Contudo, dizia, à boca cheia, que não acreditava em Deus nem nessas coisas dos padres.
Um dia, porém, o padre foi informado que o referido senhor se encontrava nas últimas. Foi informado só por acaso, isto é, caso o padre quisesse lá passar. Embora sabendo que não ia adiantar muito. E o meu amigo padre foi. Recorda-se bem que começava a fazer escuro e que, quando chegou a casa, já o corpo do senhor estava coberto por lençóis, e ainda que havia gente a andar de um lado para o outro a fazer preparativos não sei bem de quê. Estava dado como morto. Mas o padre não resistiu em se abeirar dele e levantar o lençol para lhe ver o rosto. E quando o fez, deu-lhe a impressão de que teria havido um ínfimo pestanejar. Por isso, e sabendo que o ouvido era das últimas coisas que se perdia, começou a falar-lhe do perdão de Deus, da absolvição, da Unção dos Enfermos. O corpo, de facto, ainda não estava frio quando este meu amigo o ungiu com o óleo dos enfermos. Nisto, contou, aconteceu o inusitado. O homem pegou-lhe na mão, e disse, em bom som, Obrigado. E depois suspirou e faleceu.
E contava-me o colega que, para ele, tinha sido uma evidência de que a salvação não exclui ninguém.
Um dia, porém, o padre foi informado que o referido senhor se encontrava nas últimas. Foi informado só por acaso, isto é, caso o padre quisesse lá passar. Embora sabendo que não ia adiantar muito. E o meu amigo padre foi. Recorda-se bem que começava a fazer escuro e que, quando chegou a casa, já o corpo do senhor estava coberto por lençóis, e ainda que havia gente a andar de um lado para o outro a fazer preparativos não sei bem de quê. Estava dado como morto. Mas o padre não resistiu em se abeirar dele e levantar o lençol para lhe ver o rosto. E quando o fez, deu-lhe a impressão de que teria havido um ínfimo pestanejar. Por isso, e sabendo que o ouvido era das últimas coisas que se perdia, começou a falar-lhe do perdão de Deus, da absolvição, da Unção dos Enfermos. O corpo, de facto, ainda não estava frio quando este meu amigo o ungiu com o óleo dos enfermos. Nisto, contou, aconteceu o inusitado. O homem pegou-lhe na mão, e disse, em bom som, Obrigado. E depois suspirou e faleceu.
E contava-me o colega que, para ele, tinha sido uma evidência de que a salvação não exclui ninguém.