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segunda-feira, fevereiro 23, 2026

A Igreja fácil

Vivemos num tempo do fácil. Tudo tem de ser fácil, de fácil acesso, de fácil consumo, sem dificuldades, adversidades, contratempos, sacrifícios ou compromissos. Sem um não aos nossos desejos e vontades. Neste contexto, a Igreja tem-se tornado um espaço ou um lugar onde o fácil também acontece. Ou, para sermos mais honestos, um espaço onde os seus principais agentes facilitam para se tornarem populares de forma mais fácil. Infelizmente, quando um padre exige alguma coerência entre o sacramento que se exige como um direito e a vida que lhe deve corresponder, está a alterar as regras deste tempo. Li algures a um outro colega, referindo-se a este tipo de situações, que “o consumidor não quer ser discípulo; quer ser cliente”. Concordo. Por isso se não há nesta loja, vai-se à loja do vizinho. Procura-se o padre facilitador, aquele que, como referia esse colega, “por preguiça pastoral ou medo de ser impopular, ‘despacha’ sacramentos”. E depois este padre é que é bom e aquele é que é mau. Mede-se o padre pelo facilitismo com que ele se presta a ser um comerciante do sacramento. Este é que é o padre porreiro. O outro é o padre que afasta as pessoas da Igreja. Como se estas pessoas não estivessem já afastadas e não quisessem manter-se nesse afastamento. Vivemos num tempo do fácil e, muitas vezes, por causa do porreirismo, a Igreja vai-se transformando, muitas vezes, numa Igreja fácil.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma conversa de acolhimento e imposições"

segunda-feira, julho 08, 2024

Os preços dos casamentos

Na Coreia do Sul o padre que preside a um casamento recebe, no mínimo, quinhentos euros. Mesmo assim, é o custo mais barato da cerimónia, porque os noivos gastam muito mais noutras coisas. Em Portugal, mesmo que a celebração ande em redor dos cem euros, os noivos queixam-se quase sempre, falam mal dos padres e dizem que a Igreja só quer dinheiro. No entanto, acham praticamente normal gastar cerca de dois mil euros no vestido da noiva, mais mil e quinhentos euros no produtor de imagem, mais aproximadamente uns mil euros para flores e outros adornos, mais seiscentos euros para os músicos, and so on and so on... É como querer gastar pouco dinheiro com uma prenda e não se importar de gastar muito com o embrulho da prenda.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma benção especial de alianças"

segunda-feira, setembro 04, 2023

Vinha apenas para se casar.

Muito querida e simpática. Ele também, mas mais discreto. Ou mais calado. Encontraram-se com o padre para combinar os últimos retoques da cerimónia do seu casamento. Ela olhando de frente e ele de soslaio. Ela atrevida e corajosa e ele meio envergonhado. Senhor padre, queremos pedir-lhe um favor. Durante a cerimónia não pergunte quantos filhos queremos ter. É que, embora em tom mais ou menos de brincadeira, já o ouvimos perguntar a uns noivos quantos pretendiam ter, e como nós não pretendemos ter nenhum, gostaríamos de não ter de responder a isso publicamente. O noivo pareceu-me ter vontade de a interromper para dizer que ela é que não queria ter filhos. No entanto, mudou somente o olhar de soslaio para ela. Ela é que vestia calças, como se costuma dizer. O padre prometeu que não perguntava. Também lhes fez considerações sobre o significado de um amor fecundo. Mas ela não quis ouvir. Vinha apenas para se casar.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Mais um Manuel e uma Maria vão casar pela Igreja"

quinta-feira, agosto 31, 2023

a igreja dos mortos

Ela dizia-lhe que, por amor de Deus, o casamento dela não poderia ser realizado na igreja paroquial. Poderia ser em qualquer igreja ou capela da paróquia, menos ali. Até poderia ser na rua, mas não ali. Estava fora de questão. O padre, que apenas a escutava e acolhia com atenção, nunca lhe dissera que o casamento tinha de ser na igreja paroquial. Ela é que se adiantava a dizer que queria assim e ponto final. E sem que o padre lhe perguntasse o que quer que fosse, ela acrescentou que associava aquela igreja aos mortos e isso causava-lhe muita dor. Finalmente, o padre, que fez questão de não fazer nenhum comentário, entendeu o motivo daquela empolgada noiva: como ela só costuma entrar na igreja paroquial para os funerais, é natural que ela associe aquela igreja aos mortos. A avaliar pelo número daqueles que só entram na igreja para funerais, é bem provável que muita mais gente pense como ela.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Outra promessa esquisita"

quinta-feira, agosto 10, 2023

casamentos quase civis

Saí agora da igreja, depois de concluído um casamento que me pareceu muito mais um casamento de conservatória de registo civil do que um casamento católico, embora saiba que as raízes da fé estavam, porventura, nalguns dos presentes. Saxofone à entrada com músicas que não tinham nada a ver. Nenhum grupo de animação musical, a não ser este senhor que tocou à entrada do noivo um tema, outro à entrada das damas de honor, outro à entrada dos meninos das alianças e outro à entrada da noiva. Nada de litúrgico ou de mensagem religiosa. Leituras a correr, cerimónia a correr, tudo a correr que à saída se esperava outro grande arraial com música de circunstância, foguetes e o habitual arroz em quantidade. Drone à mistura. Flores pela passadeira, gritos e palmas a horas e a desoras. Quase toda a assembleia comungou, o que me levou a desconfiar pois não respondiam aos diálogos da celebração. O ritual fez-se. Cumpriu-se. Concluiu-se. No final assinámos os registos e pronto. Por mais correcto que eu tentasse ser ou por mais simpáticos e merecedores que fossem os noivos, quase tudo me lembrou o casamento pelo civil a que assisti já lá vão uns tempos. Se não fizermos algo para contrariar esta tendência, qualquer dia estas cerimónias não são mais do que uma cerimónia social na qual tanto dá estar um padre ou um conservador.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um casamento que se chama civil"

terça-feira, fevereiro 07, 2023

os casamentos sem divórcio

A noiva sentara-se à minha frente para dialogarmos sobre o seu casamento. Pormenores. Alguma logística. Acerca das leituras não quis saber. Deixou ao meu critério de escolha. Mas sobre a homilia, largou um pedido. Senhor padre, gostava que não falasse de divórcio no meu casamento. Pois muito bem. Falar só coisas bonitas e positivas, que a moça não quer que na festa dela se falem de coisas menos boas. E tem razão, a moça. Tem toda a razão. Os casamentos não servem para falar de coisas tristes. São celebrações do amor e o amor é o caminho da felicidade. Não é o caminho da tristeza. É o caminho da união e não da separação. Por isso, não falarei de divórcio no casamento desta noiva. E evitarei nos casamentos de outras noivas que hão-de vir. Aprendi que nos casamentos só se deve falar de coisas boas, não vá ser mau agouro da coisa. É que uma vez, num casamento, contou-me ela, eu apresentara alguns dados de divórcios em Portugal e acontece que, passado pouco tempo, aqueles nubentes se divorciaram. Foi mau agouro. A tal homilia começara por constatar que o amor era o que mais nos fazia felizes, depois perguntava então porque motivo é que havia tantas divórcios, e no final apresentava pistas do que seria ou deveria ser o verdadeiro amor, aquele amor que não redunda em divórcio. No entanto, a noiva só escutara os dados. E o mais certo é que toda a assembleia só tenha ouvido os dados. E o agoiro agoirou. Pronto, prometo que não vou agoirar mais. Mas olhem que isto me fez lembrar aqueles pais que evitam que os filhos encarem a morte dos entes queridos e fazem de conta para que estes não se aflijam. Não vá ser mau agoiro também e as crianças fiquem tristes.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O caso descaso!"

quinta-feira, dezembro 02, 2021

missa sem missa

E ela falava abertamente como se fosse a mais culta no assunto. Pois, sim senhor, eu casei-me numa missa sem missa. Que a diferença é ser muito mais curta e não fazer os convidados aguentar tanto tempo na missa. Só não tem a parte da comunhão e do ofertório. Txaraaaaaaaaaan! Disse, como se tivesse destapado a mais curiosa verdade que a Igreja permite. Quer dizer, pelo menos nalguns lados, dizia. Assim como a possibilidade de casar sem estar baptizado. Que isso dependia de padre para padre. Pois ela casou com um não baptizado. Bem vistas as coisas, a Igreja até está mais moderna do que alguns pensam, dizia. E dizia e dizia, e dizia mais coisas como se tivesse tirado um curso de sacramentologia. O que ela não sabia é que a missa sem missa, a que ela se referia, não era uma missa. Era uma celebração da Palavra. E que a grande diferença entre a primeira e a segunda, é que esta última não tem o momento da consagração. Na verdade até pode ter distribuição da comunhão. E também não sabia que já há muitos, mas muitos anos, a Igreja prevê a possibilidade de casamentos mistos ou com disparidade de culto. Ela casou como se a Igreja fosse uma boutique ou um híper-mercado, isso é que foi. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Casamentos sem missa"

sexta-feira, setembro 24, 2021

futuro sem pessoas

Numa sondagem realizada este ano a jovens entre os dezoito e os vinte anos, pelo instituto Noto Sondaggi e encomendada pela fundação Donat-Cattin, em itália, concluiu-se que 51% dos jovens entrevistados não se imaginam como pais. Não querem sê-lo. Uma pesquisa realizada em 2018 no Brasil, pelo Nube – Núcleo Brasileiro de Estágios - perguntou a 41.389 pessoas, na faixa etária de 15 a 26 anos, se pretendiam ter filhos, e 28,3% dessas pessoas revelaram não considerar a ideia de ter filhos. Outra pesquisa americana, do Instituto PEW, realizada nesse mesmo ano, constatou que cresce o número de americanos que declaram não querer ter filhos no futuro. E o Census 2021 em Portugal revelou uma perda total de 214 286 habitantes em 10 anos. 
Pelos vistos, as novas gerações não querem formar família ou ter filhos. Não querem ser fecundos. Não querem este tipo de compromissos. Como muitos outros tipos de compromisso que lhes criem exigências para além do suposto bem-estar. É muito estranho, uma vez que a felicidade acontece pelo amor e o verdadeiro amor é fecundo, isto é, saí de si para os outros e espelha-se ou espalha-se nos outros. Nós somos potencialmente felizes porque temos a oportunidade de amar. Por isso, os solitários têm dificuldade em serem felizes. 
A continuar assim, o mundo terá cada vez menos pessoas, tanto no sentido demográfico como no sentido antropológico. As pessoas não querem mais pessoas! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O senhor que agradece tudo"

sábado, agosto 28, 2021

A missa do Centro de Preparação para o Matrimónio, vulgo CPM

Navegava, há dias, pela net, à procura de uns dados sobre o CPM, Centro de Preparação para o Matrimónio, quando, às tantas, numa página, dei por mim a ler comentários de noivos que já tinham participado ou iam participar no CPM. Um deles chamou-me particularmente a atenção, porque dizia: Nós já fizemos, até gostámos, mas depois tivemos de ir à missa. 
Notou-se bem o tom de fastio, mesmo sem ser assinalado. Porque o “tivemos de ir à missa” surge depois do “até gostámos, mas”. Ou seja, duas pessoas que decidem casar pela Igreja, provavelmente depois de exigirem ao padre missa no casamento - mas isso sou eu que posso estar a exagerar -, e depois ficam algo descontentes ou esmorecidos no seu contentamento, porque no final do encontro de preparação para o seu matrimónio católico tiveram de ir à missa. 
 

sábado, maio 22, 2021

Ó senhor padre, tem de ser que eu não tenho outra data

Ó senhor padre, tem de ser que eu não tenho outra data. Já está tudo marcado com o restaurante, os músicos e o fotógrafo. Depois da necessária suspensão por causa da pandemia, reagendaram a data do seu casamento para um domingo, e até querem manter a hora porque os convidados já estão informados. Ou seja, o último a saber da decisão e da remarcação é aquele que supostamente vai presidir à celebração. E tem de ser, porque já está tudo marcado, senhor padre. Olhe que eu até pensei que era mais fácil por ser ao domingo. Pois, os padres ao domingo estão, ironicamente, muito mais disponíveis, de facto. Não há outro padre? Sim, há padres aos magotes, que, ironicamente, nem têm de celebrar eucaristias dominicais nas suas paróquias. E é isto que andamos a alimentar nesta Igreja-supermercado de sacramentos de ‘vista’. Eu bem sei que estes noivos, como tantos outros, sofreram imenso com a suspensão do seu casamento. Mas é preciso haver, na mesma, uma santa paciência e um jogo grande de cintura para encontrar uma solução para o ‘tem de ser’ e manter um sorriso nos dentes quando nos apetece usá-los de outro modo. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Mais um Manuel e uma Maria vão casar pela Igreja"

sexta-feira, março 19, 2021

Sou muito mais a Sofia

A Sofia está casada com o seu marido há cerca de vinte anos, os anos suficientes para saber o que é o matrimónio e a família, com os seus lados positivos e os seus lados mais frágeis. Os anos suficientes para falar deles com o peso da experiência vivida e sentida. Vem esta descrição a propósito da conversa que encetámos há dias, com uns amigos, sobre o modo de viver em casal. Alguém referia, sem mais, que nenhum dos cônjuges podia perder a sua personalidade. Outro interveniente opinava que nenhum dos dois deveria perder a sua personalidade, mas que deveriam necessariamente ajustar-se em casal, fazer conceções, readaptações de vida e de personalidade. Ao menos para evitar uma forma de amar egocêntrica e indiferente. E às tantas, a Sofia interrompeu-nos e disse que, no que toca a personalidade, ela era muito mais a Sofia com o Fernando, seu marido. Assim, sem mais. Que ela era muito mais a Sofia com o Fernando. E todos nos calámos a olhar a beleza do que ela havia dito. Pelo menos eu. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "José, de personagem secundária a modelo principal" 

... no início do Ano da Família Amoris Laetitia

terça-feira, dezembro 17, 2019

O príncipe do lar

Vou chamar-lhe Henrique porque, segundo me informei, significa "príncipe do lar". Acho que o nome se ajusta ao que reconto. Este menino é conhecido por ser educado, calmo, sereno, meigo, terno, simpático. A catequista descreveu-o com estes adjectivos. Segundo ela, havia já algum tempo em que ele andava tristonho, sem brilho no olhar. Não parecia o mesmo Henrique que entrara na catequese há um ano ou dois. Passava quase todo o tempo do encontro de catequese alheio, distante. Longe de tudo e de todos. A catequista andava preocupada e não sabia como o abordar. Mas houve um dia em que ele estava mais perto dela, e no momento em que olhava fixamente o nada, no vácuo do tudo que era e havia à sua volta, aproximou-se dele, e perguntou. Olá, Henrique, então que se passa? Parece que andas um pouco triste. O Henrique escondeu os olhitos, nos quais se notara a presença discreta de uma lágrima, e respondeu com a meiguice habitual. Pois ando, catequista. Sabes, é que eu agora tenho dois pais e não sei se hoje vou para casa do primeiro se do segundo. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O casamento depois de dez anos casados"

domingo, novembro 10, 2019

O padrinho do noivo

Era o padrinho do noivo. Era a pessoa que se encontrava mais perto do noivo na hora da comunhão que distribuí nas duas espécies, a espécie do pão e a espécie do vinho. Eh lá, não mames tudo, disse, que é como dizer ‘não bebas tudo’. Não me recordo se também disse para deixar para os outros. Talvez tivesse dito. É comum a observação. Mas distraí-me nas palavras. Era o padrinho do noivo. Típico padrinho que é apenas um amigo dos copos. Serve bem como testemunha, é certo. Os padrinhos de casamento são apenas testemunhas do casamento. Assinam como testemunhas. Não têm, portanto, senão que testemunhar que o acto aconteceu. Não precisam requisitos especiais. Mas dizer isso no meio da cerimónia de casamento, em voz audível o suficiente para que alguns se deixassem rir, e enquanto o noivo comunga o Sangue do Senhor, é o mesmo que banalizar toda a cerimónia ou transformá-la num acto de aparência e de adorno de festa. Por mais engraçado que tenha sido. Por mais cool que tenha sido. É transformar a comunhão do Senhor, na espécie do vinho, em mais um copo numa noite de copos. É transformar a Última Ceia numa Tainada à boa maneira do norte.

sábado, maio 18, 2019

O Miguel e a guerra

O Miguel anda no primeiro ano da catequese. Segundo informações da catequista, tem uma enorme capacidade de fantasiar, contar e recontar o que vê e ouve. É um miúdo muito atento. Tem um coração sensível, capaz de se emocionar com os problemas dos colegas. E um dia, na catequese, veio à baila um apelo relacionado com as crianças pobres de um país em guerra. A catequista ia descrevendo as situações em que estavam essas crianças, e os miúdos, que a escutavam, começaram também a contar coisas que tinham visto na televisão ou ouvido na rádio. Houve até uma miudita que recordou os colegas como, às vezes, se queixavam porque queriam um telemóvel novo e os pais não davam, e estas crianças não tinham nada senão a guerra. A catequista ficou sem palavras. Mas o Miguel é que lhas tirou todas. As palavras e as letras que compõem as palavras. Nem sabia se rir se chorar, se pensar bem se pensar mal. Na verdade, não soube como o interpretar. Depois de todos saírem da sala da catequese, cabisbaixos e pensativos, o Miguel veio ter com a catequista, pôs-se em bicos de pés, levantou os bracitos, colocou-os em cima dos ombros da catequista e, olhando-a nos olhos, disse. Catequista, não tenhas medo, eu quando for grande mato a guerra.

sexta-feira, janeiro 12, 2018

O matrimónio é coisa demasiado séria

Gostava de chamar José e Maria aos dois jovens que acabaram de sair do cartório paroquial depois de marcarem o matrimónio para a hora tal do dia tal. Gostava de lhes dar esse nome por analogia com a sagrada família de Nazaré, mas não me sinto no direito de estabelecer a comparação, sobretudo porque nem um nem o outro me pareceram suficientemente esclarecidos quanto a Deus ou quanto ao passo que querem dar. O diálogo foi franco e aberto. Tão franco e aberto que, ao final, me pareceu estar a oferecer um sacramento que nunca será entendido como tal. Também lhes falei de coisas como o Curso de Preparação para o Matrimónio ou a nulidade do matrimónio. Sobre este último, o interesse destes jovens veio ao de cima com rubores acrescidos. Sobre o referido curso, senti que lhes era um fardo que não pretendiam, embora tivessem de o cumprir. Estavam mais preocupados com pormenores cerimoniais, a beleza do espaço e da animação, os copos e bebes e as horas do casamento. Despedi-me deles com uma sensação estranha, uma sensação que já não é de hoje, mas de muitas outras ocasiões em que há algo que não entendemos mas desconfiamos. Vou rezar por eles esta tarde na Eucaristia.

terça-feira, novembro 21, 2017

Relações pré-matrimoniais e o pecado

Não interessa propriamente o teor da conversa, que ocorreu ao telefone. Mas interessa referir que, entre outras coisas, falámos sobre as relações pré-matrimoniais. Como se sabe, grande parte dos jovens que decidem casar pela Igreja, hoje, já vivem uma vida em comum e possuem uma vida sexual activa. Por muito que possa custar, é um dado adquirido, perante o qual nem sempre se sabe que pensar. Neste sentido, ouvi do lado de cá da linha de telefone, o que a pessoa do lado de lá disse sem constrangimentos. A relação sexual de quem se ama, mesmo antes do casamento, é menos pecado que andarmos zangados uns com os outros. Porque a primeira, em princípio, é feita com amor, e o segundo é feito sem amor. Eu não sei se concordo com uma afirmação assim tão arriscada. Mas é inegável que o pecado é uma ausência de amor, e o que é feito com amor, em princípio, não é pecado.
A conversa deixou-me a pensar. Deixou-me a pensar sobretudo numa Igreja que, às vezes, concentra demasiadas energias nas questões morais ou sexuais. Para mim, a Igreja não é um conjunto de regras, mas uma forma de viver, tal como a fé não é um mero assentimento a determinados dogmas ou virtudes, mas uma configuração com uma pessoa, Cristo. É preciso humanizar mais a Igreja. Não no sentido de que seja mais mundana, mas no sentido de que seja mais de Deus. O Reino de Deus não é uma construção religiosa para uma conduta religiosa, mas uma dinâmica para um mundo mais humano. Creio que precisamos de uma pastoral humanizadora, não tanto no sentido filosófico, antropológico ou sociológico, mas no sentido cristão da palavra, isto é, uma pastoral que humanize a vida para a levar à plenitude de sentido e de felicidade que o Pai nos concede. Talvez assim, comecemos a olhar-nos uns aos outros com menos olhares reprovadores e com o olhar misericordioso de Deus. Talvez assim a Igreja pudesse explicar aos jovens que as melhores relações são aquelas que, por amor, conseguem trazer mais felicidade à nossa vida.

quinta-feira, setembro 22, 2016

José, de personagem secundária a modelo principal

Cada vez gosto mais do José, a figura secundária da cena da encarnação, aquele que não foi tido nem achado para que o Filho de Deus encarnasse, aquele que continuou no anonimato das páginas da Escritura. 
Num mundo extremamente varonil, onde a mulher ocupava um segundo plano, assistimos a uma personagem que, sendo homem, ocupa o segundo plano, o plano daqueles que não centram o olhar da nossa atenção. É aquela personagem sem a qual o filme não seria a mesma coisa, mas sobre a qual poucos ficam a falar após o fim do filme. E foi este José que aceitou este segundo plano, um plano sofrido, porque nem sempre entendia o que se passava. E quando a sua amada apareceu grávida, aparece este homem, modelo de misericórdia para as famílias e matrimónios de hoje, modelo de misericórdia porque põe em primeiro lugar aqueles que ama, Jesus e Maria.

terça-feira, agosto 23, 2016

Um casamento que se chama civil

Por obrigações de sangue, participei há poucos dias naquilo que se chama um casamento civil. Uma experiência inolvidável. Uma tentativa de fazer de um contrato uma cerimónia. Foi o que me pareceu e, durante os largos minutos em que a senhora primeira ajudante de conservadora lia os números da lei, o meu coração palpitava de inconformação. Reconheço que desconhecia esses números da lei e desconhecia que apenas utilizavam palavras como contrato, deveres e direitos. Um dos meus cunhados e uma das minhas irmãs, que me observavam, comentaram depois que até parecia que me saía fumo da cabeça, tal seria o meu desconforto. Era o desconforto de quem tem claro que o casamento é um matrimónio, e que mais do que um contrato é uma aliança. Não tenho nada contra o que se chama de casamento civil. E sei que em muitas circunstancias, como era o caso, é a única solução possível para quem quer manifestar o amor como um compromisso para toda a vida. Foi assim que quis entender e viver o momento. Mas não consegui abstrair-me daquilo que é a aliança de amor entre duas pessoas que se amam e dão este passo. Não consegui abstrair-me do facto de a palavra amor não ter sido utilizada em nenhum momento da pretensa cerimónia. Não consegui distanciar-me daquilo que sou, sacerdote. Não consegui, e por isso no final perdi a vergonha e pedi autorização aos noivos, o que me foi concedido, para dizer umas palavras. Peguei no microfone e expressei o que sentia, ao mesmo tempo dizendo que desejava que aquele momento não fosse apenas um contrato, mas uma aliança, e que embora não tivessem podido fazê-lo diante de Deus, que Deus estivesse com eles o resto das suas vidas como creio que estará.

terça-feira, agosto 09, 2016

Casamentos sem missa

Estão ambos fora do país há muito. Agora pretendem casar, e já marcaram uma data do próximo ano. Querem casar pela Igreja num dia que coincide com outro compromisso idêntico que assumira anteriormente. Como tal, falámos da possibilidade de não ser eu a presidir e, eventualmente, não ter missa. Em princípio concordaram, e assim assumimos, juntos, essa data. Ontem vieram falar-me de novo e referiram que queriam com missa. Depois de uma pergunta discreta, descaíram-se dizendo que não costumavam ir à missa. Só quando estão em Portugal, cerca de três meses, e nem sempre vão, mesmo nessa ocasião. Mas querem missa, e perguntei o porquê da insistência. Ao que responderam que senão não era a mesma coisa. 
Claro que não. Uma coisa é uma Eucaristia e outra uma celebração sem Eucaristia. Estamos de acordo nisso que é uma evidência óbvia. Mas insistir que deve ter missa, quando ela tem pouco sentido nas suas vidas, o que pensar?! E lá vem outra vez a questão cultural dos sacramentos.

quinta-feira, março 17, 2016

Falou-lhe na comunhão espiritual

Conheço um jovem que descobriu a fé depois de estar casado pelo civil e ter uma bela filha. Está a fazer uma caminhada muito bonita, muito entusiasta e, ao mesmo tempo, muito respeitadora dos tempos e espaços da esposa e do resto da família. Aprendeu que a fé não se impõe. É o testemunho que propõe. Já lá vão uns anos e a esposa também tem dado uns pequenos passos. São pequenos, mas são passos. 
Há dias um colega negou-lhe a absolvição e negou-lhe a possibilidade de comungar. Falou-lhe da famosa comunhão espiritual. O jovem contou-me resignado. Iria levar isto a sério, mesmo quando consegue viver a Quaresma em castidade e mesmo quando a vida que ele queria viver de modo agradável aos olhos de Deus, como diz, não dependa somente dele. O que está a fazer – digo-o porque o conheço - é muito autêntico e muito bonito. Imagino que Deus esteja a olhar por ele e para ele com um amor e uma vontade muito maiores do que se calhar olha para mim e para esse meu colega que lhe negou a absolvição. 
Mas eu fiquei triste, por dentro sobretudo. Esta forma de ser Igreja-juíza que impõe e não propõe caminhar cansa.