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terça-feira, dezembro 17, 2019

O príncipe do lar

Vou chamar-lhe Henrique porque, segundo me informei, significa "príncipe do lar". Acho que o nome se ajusta ao que reconto. Este menino é conhecido por ser educado, calmo, sereno, meigo, terno, simpático. A catequista descreveu-o com estes adjectivos. Segundo ela, havia já algum tempo em que ele andava tristonho, sem brilho no olhar. Não parecia o mesmo Henrique que entrara na catequese há um ano ou dois. Passava quase todo o tempo do encontro de catequese alheio, distante. Longe de tudo e de todos. A catequista andava preocupada e não sabia como o abordar. Mas houve um dia em que ele estava mais perto dela, e no momento em que olhava fixamente o nada, no vácuo do tudo que era e havia à sua volta, aproximou-se dele, e perguntou. Olá, Henrique, então que se passa? Parece que andas um pouco triste. O Henrique escondeu os olhitos, nos quais se notara a presença discreta de uma lágrima, e respondeu com a meiguice habitual. Pois ando, catequista. Sabes, é que eu agora tenho dois pais e não sei se hoje vou para casa do primeiro se do segundo. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O casamento depois de dez anos casados"

domingo, novembro 10, 2019

O padrinho do noivo

Era o padrinho do noivo. Era a pessoa que se encontrava mais perto do noivo na hora da comunhão que distribuí nas duas espécies, a espécie do pão e a espécie do vinho. Eh lá, não mames tudo, disse, que é como dizer ‘não bebas tudo’. Não me recordo se também disse para deixar para os outros. Talvez tivesse dito. É comum a observação. Mas distraí-me nas palavras. Era o padrinho do noivo. Típico padrinho que é apenas um amigo dos copos. Serve bem como testemunha, é certo. Os padrinhos de casamento são apenas testemunhas do casamento. Assinam como testemunhas. Não têm, portanto, senão que testemunhar que o acto aconteceu. Não precisam requisitos especiais. Mas dizer isso no meio da cerimónia de casamento, em voz audível o suficiente para que alguns se deixassem rir, e enquanto o noivo comunga o Sangue do Senhor, é o mesmo que banalizar toda a cerimónia ou transformá-la num acto de aparência e de adorno de festa. Por mais engraçado que tenha sido. Por mais cool que tenha sido. É transformar a comunhão do Senhor, na espécie do vinho, em mais um copo numa noite de copos. É transformar a Última Ceia numa Tainada à boa maneira do norte.

sábado, maio 18, 2019

O Miguel e a guerra

O Miguel anda no primeiro ano da catequese. Segundo informações da catequista, tem uma enorme capacidade de fantasiar, contar e recontar o que vê e ouve. É um miúdo muito atento. Tem um coração sensível, capaz de se emocionar com os problemas dos colegas. E um dia, na catequese, veio à baila um apelo relacionado com as crianças pobres de um país em guerra. A catequista ia descrevendo as situações em que estavam essas crianças, e os miúdos, que a escutavam, começaram também a contar coisas que tinham visto na televisão ou ouvido na rádio. Houve até uma miudita que recordou os colegas como, às vezes, se queixavam porque queriam um telemóvel novo e os pais não davam, e estas crianças não tinham nada senão a guerra. A catequista ficou sem palavras. Mas o Miguel é que lhas tirou todas. As palavras e as letras que compõem as palavras. Nem sabia se rir se chorar, se pensar bem se pensar mal. Na verdade, não soube como o interpretar. Depois de todos saírem da sala da catequese, cabisbaixos e pensativos, o Miguel veio ter com a catequista, pôs-se em bicos de pés, levantou os bracitos, colocou-os em cima dos ombros da catequista e, olhando-a nos olhos, disse. Catequista, não tenhas medo, eu quando for grande mato a guerra.

sexta-feira, janeiro 12, 2018

O matrimónio é coisa demasiado séria

Gostava de chamar José e Maria aos dois jovens que acabaram de sair do cartório paroquial depois de marcarem o matrimónio para a hora tal do dia tal. Gostava de lhes dar esse nome por analogia com a sagrada família de Nazaré, mas não me sinto no direito de estabelecer a comparação, sobretudo porque nem um nem o outro me pareceram suficientemente esclarecidos quanto a Deus ou quanto ao passo que querem dar. O diálogo foi franco e aberto. Tão franco e aberto que, ao final, me pareceu estar a oferecer um sacramento que nunca será entendido como tal. Também lhes falei de coisas como o Curso de Preparação para o Matrimónio ou a nulidade do matrimónio. Sobre este último, o interesse destes jovens veio ao de cima com rubores acrescidos. Sobre o referido curso, senti que lhes era um fardo que não pretendiam, embora tivessem de o cumprir. Estavam mais preocupados com pormenores cerimoniais, a beleza do espaço e da animação, os copos e bebes e as horas do casamento. Despedi-me deles com uma sensação estranha, uma sensação que já não é de hoje, mas de muitas outras ocasiões em que há algo que não entendemos mas desconfiamos. Vou rezar por eles esta tarde na Eucaristia.

terça-feira, novembro 21, 2017

Relações pré-matrimoniais e o pecado

Não interessa propriamente o teor da conversa, que ocorreu ao telefone. Mas interessa referir que, entre outras coisas, falámos sobre as relações pré-matrimoniais. Como se sabe, grande parte dos jovens que decidem casar pela Igreja, hoje, já vivem uma vida em comum e possuem uma vida sexual activa. Por muito que possa custar, é um dado adquirido, perante o qual nem sempre se sabe que pensar. Neste sentido, ouvi do lado de cá da linha de telefone, o que a pessoa do lado de lá disse sem constrangimentos. A relação sexual de quem se ama, mesmo antes do casamento, é menos pecado que andarmos zangados uns com os outros. Porque a primeira, em princípio, é feita com amor, e o segundo é feito sem amor. Eu não sei se concordo com uma afirmação assim tão arriscada. Mas é inegável que o pecado é uma ausência de amor, e o que é feito com amor, em princípio, não é pecado.
A conversa deixou-me a pensar. Deixou-me a pensar sobretudo numa Igreja que, às vezes, concentra demasiadas energias nas questões morais ou sexuais. Para mim, a Igreja não é um conjunto de regras, mas uma forma de viver, tal como a fé não é um mero assentimento a determinados dogmas ou virtudes, mas uma configuração com uma pessoa, Cristo. É preciso humanizar mais a Igreja. Não no sentido de que seja mais mundana, mas no sentido de que seja mais de Deus. O Reino de Deus não é uma construção religiosa para uma conduta religiosa, mas uma dinâmica para um mundo mais humano. Creio que precisamos de uma pastoral humanizadora, não tanto no sentido filosófico, antropológico ou sociológico, mas no sentido cristão da palavra, isto é, uma pastoral que humanize a vida para a levar à plenitude de sentido e de felicidade que o Pai nos concede. Talvez assim, comecemos a olhar-nos uns aos outros com menos olhares reprovadores e com o olhar misericordioso de Deus. Talvez assim a Igreja pudesse explicar aos jovens que as melhores relações são aquelas que, por amor, conseguem trazer mais felicidade à nossa vida.

quinta-feira, setembro 22, 2016

José, de personagem secundária a modelo principal

Cada vez gosto mais do José, a figura secundária da cena da encarnação, aquele que não foi tido nem achado para que o Filho de Deus encarnasse, aquele que continuou no anonimato das páginas da Escritura. 
Num mundo extremamente varonil, onde a mulher ocupava um segundo plano, assistimos a uma personagem que, sendo homem, ocupa o segundo plano, o plano daqueles que não centram o olhar da nossa atenção. É aquela personagem sem a qual o filme não seria a mesma coisa, mas sobre a qual poucos ficam a falar após o fim do filme. E foi este José que aceitou este segundo plano, um plano sofrido, porque nem sempre entendia o que se passava. E quando a sua amada apareceu grávida, aparece este homem, modelo de misericórdia para as famílias e matrimónios de hoje, modelo de misericórdia porque põe em primeiro lugar aqueles que ama, Jesus e Maria.

terça-feira, agosto 23, 2016

Um casamento que se chama civil

Por obrigações de sangue, participei há poucos dias naquilo que se chama um casamento civil. Uma experiência inolvidável. Uma tentativa de fazer de um contrato uma cerimónia. Foi o que me pareceu e, durante os largos minutos em que a senhora primeira ajudante de conservadora lia os números da lei, o meu coração palpitava de inconformação. Reconheço que desconhecia esses números da lei e desconhecia que apenas utilizavam palavras como contrato, deveres e direitos. Um dos meus cunhados e uma das minhas irmãs, que me observavam, comentaram depois que até parecia que me saía fumo da cabeça, tal seria o meu desconforto. Era o desconforto de quem tem claro que o casamento é um matrimónio, e que mais do que um contrato é uma aliança. Não tenho nada contra o que se chama de casamento civil. E sei que em muitas circunstancias, como era o caso, é a única solução possível para quem quer manifestar o amor como um compromisso para toda a vida. Foi assim que quis entender e viver o momento. Mas não consegui abstrair-me daquilo que é a aliança de amor entre duas pessoas que se amam e dão este passo. Não consegui abstrair-me do facto de a palavra amor não ter sido utilizada em nenhum momento da pretensa cerimónia. Não consegui distanciar-me daquilo que sou, sacerdote. Não consegui, e por isso no final perdi a vergonha e pedi autorização aos noivos, o que me foi concedido, para dizer umas palavras. Peguei no microfone e expressei o que sentia, ao mesmo tempo dizendo que desejava que aquele momento não fosse apenas um contrato, mas uma aliança, e que embora não tivessem podido fazê-lo diante de Deus, que Deus estivesse com eles o resto das suas vidas como creio que estará.

terça-feira, agosto 09, 2016

Casamentos sem missa

Estão ambos fora do país há muito. Agora pretendem casar, e já marcaram uma data pdo próximo ano. Querem casar pela Igreja num dia que coincide com outro compromisso idêntico que assumira anteriormente. Como tal, falámos da possibilidade de não ser eu a presidir e, eventualmente, não ter missa. Em princípio concordaram, e assim assumimos, juntos, essa data. Ontem vieram falar-me de novo e referiram que queriam com missa. Depois de uma pergunta discreta, descaíram-se dizendo que não costumavam ir à missa. Só quando estão em Portugal, cerca de três meses, e nem sempre vão, mesmo nessa ocasião. Mas querem missa, e perguntei o porquê da insistência. Ao que responderam que senão não era a mesma coisa. 
Claro que não. Uma coisa é uma Eucaristia e outra uma celebração sem Eucaristia. Estamos de acordo nisso que é uma evidência óbvia. Mas insistir que deve ter missa, quando ela tem pouco sentido nas suas vidas, o que pensar?! E lá vem outra vez a questão cultural dos sacramentos.

quinta-feira, março 17, 2016

Falou-lhe na comunhão espiritual

Conheço um jovem que descobriu a fé depois de estar casado pelo civil e ter uma bela filha. Está a fazer uma caminhada muito bonita, muito entusiasta e, ao mesmo tempo, muito respeitadora dos tempos e espaços da esposa e do resto da família. Aprendeu que a fé não se impõe. É o testemunho que propõe. Já lá vão uns anos e a esposa também tem dado uns pequenos passos. São pequenos, mas são passos. 
Há dias um colega negou-lhe a absolvição e negou-lhe a possibilidade de comungar. Falou-lhe da famosa comunhão espiritual. O jovem contou-me resignado. Iria levar isto a sério, mesmo quando consegue viver a Quaresma em castidade e mesmo quando a vida que ele queria viver de modo agradável aos olhos de Deus, como diz, não dependa somente dele. O que está a fazer – digo-o porque o conheço - é muito autêntico e muito bonito. Imagino que Deus esteja a olhar por ele e para ele com um amor e uma vontade muito maiores do que se calhar olha para mim e para esse meu colega que lhe negou a absolvição. 
Mas eu fiquei triste, por dentro sobretudo. Esta forma de ser Igreja-juíza que impõe e não propõe caminhar cansa.

sábado, novembro 08, 2014

comprometidos apenas pelo filho

Lia o jornal do dia, num bar da minha terra, no intervalo dos goles de café matinal, quando um jovem se aproximou cumprimentando-me e indicando que talvez já não me lembrasse dele. De facto a cara tinha algo de familiar, mas a minha memória é muito pequenina. Com cara de envergonhado, disse-lhe que tinha uma ideia, mas que era só isso, uma ideia. Lá me respondeu que era um antigo acólito da paróquia, um daqueles que estivera na minha Missa Solene, aquela que chamamos de primeira. Lembrei-me dele de facto. Tinha traços dessa meninice. Conversa puxa conversa. Onde está agora? Estou em tal sítio. E tu que fazes? Estudas? Não, já estou a trabalhar ali naquela empresa. É pá, como o tempo passa e a gente cresce ou se torna velho. Riamos disso. Eu do crescimento dele e ele, supostamente, da minha velhice. Olhe que até já tenho um filho. Isso é que é bonito, dizia eu, quando me ocorreu, desconfiado, perguntar-lhe se casara. Respondeu que não. Insisti sem complexos nem repreensões, que não gosto dessas coisas mas também não tenho que achar-me dono das certezas. É pá, e então não pensas nunca fazê-lo, isto é, casar-te? Oh, não sei, logo se vê. E foi o Logo se vê que me arrastou para uma série de pensamentos. Esta coisa das uniões de facto está a tornar-se tão banal e tão natural ou comum, que até dói. E o problema não está nelas em si. As pessoas juntam-se porque é menos comprometedor juntarem-se que casarem. Hoje é muito difícil as pessoas comprometerem-se seja com o que for. Neste caso em concreto, eles esquecem que até já têm um compromisso comum, o próprio filho.

quinta-feira, outubro 02, 2014

nulidade do matrimónio

Tenho um amigo que andou quase dez anos a tentar anular um casamento que deveras nunca lhe existiu. Eu disse de propósito a palavra “anular” porque era assim que ele pensava antes de se dar conta que “anular” era dizer que queria acabar com algo que existira. Afinal não existira. Por isso passou a pedir a “nulidade” do seu casamento. A sua vida tinha sido um embuste. Entretanto, descobrira a fé e Deus. Queria começar tudo de novo. Queria participar com todas as letras nos sacramentos, mormente no que o fazia ser parte de uma comunidade concreta e viva, a Eucaristia. Não podia. Durante anos, em tribunais eclesiásticos, juntou forças com desânimos, vontades com paciências. Pedia a nulidade do matrimónio. Era um sacramento que nunca fora. Um casamento que nunca fora. Tem filhos desse tempo. Não se arrepende. Da vida nunca nos devemos arrepender. Mas queria a verdade. Sobretudo a verdade da fé. A Verdade que descobrira em Deus. A verdade que lhe era vedada por uma lei que até fazia o seu sentido. Sim, ele sabia que fazia sentido. Só não sabia que o sentido de uma lei estava acima da vida e da fé. Hoje, num autêntico casamento, é feliz e aproveita o tempo e a voz que possui para dizer que agora não só tem um casamento autêntico como tem uma fé preenchida. Conheço mais casos de gente que a meio do seu percurso de vida e de fé se acharam, muitas vezes sem culpa medida, com um Deus que lhes é próximo mas que lhes pede uma certa distância. Sinceramente, como padre, como pastor, como pároco, como amigo, como crente, eu acho que devemos dizer sempre que o melhor caminho para fazer o caminho é aquele que não tem buracos na estrada, que tem um asfalto de topo, que não tem portagens. Mas quem percebe de carros sabe que nem sempre o carro está como novo. E quem percebe de condução sabe que nem sempre o condutor está em condições. Há cansaços, há sonos, há adrenalinas, há distrações. E assim os caminhos para chegar ao outro lado nem sempre são os que vêm no GPS. Como fazer? Fazemos um stop forçado na estrada para impedir que se chegue ao destino, ou ajudamos a pessoa que se enganou no caminho a voltar ao caminho?

terça-feira, abril 30, 2013

A franja em pé

A franja do cabelo tapava-lhe o olho direito, e pendurava-se no esquerdo a querer tapar-lhe os dois. Assim falava-me sem correr o risco de me olhar nos olhos. Sentámo-nos à mesa do café. Para um simples café e troca de palavras. Aos aromas do café juntámos o novelo da sua vida, que desfiou devagar e com paragens, pois estava cheio de nós. Tinha-se divorciado. O marido não fora violento, nem nada que pareça. Não havia razões daquelas que os noticiários parecem adorar. Ela queria ser mais feliz do que era, e separou-se. Depois disso já teve vários namorados, com quem sonhara ser feliz. Nunca fora propriamente depravada. Nem propriamente feliz. E perguntava-me. Será que é mal ou pecado ter sentimentos e procurar ser feliz? Eu achei que esse era o anseio de todos. Não julguei. Não quis. Já chega o que os outros devem julgá-la. E embora não queira aligeirar o tema, digo que fiquei incomodado. De franja em pé. E às vezes penso que a Igreja tem de se sentir incomodada.

segunda-feira, agosto 20, 2012

Mais um Manuel e uma Maria vão casar pela Igreja

O Manuel e a Maria, nomes fictícios desta história real, são dois jovens com os seus vinte e tantos anos que se vão casar em breve. Com eles estavam também a mãe e a irmã do noivo. A conversa decorreu com entusiasmo própria, por um lado, de quem está ansioso pelo casamento, eles, e por outro, de quem está a manifestar a sua alegria pelo acontecimento de fé, eu. A meio da conversa falei do sacramento da confissão. O rosto deles perdeu entretanto algum entusiasmo. Para quê, Senhor padre, perguntaram. Da mesma forma perguntei se não pretendiam comungar. Demoraram uns segundos, próprio de quem está a pensar se há-de responder sim ou não, e depois acabaram por dizer É melhor, senhor padre. Recolhemo-nos os três, eu e os jovens noivos. E antes que começássemos o sacramento da Confissão, o noivo foi dizendo que desde o Crisma que não se confessava. Mais, que desde o crisma não ia à missa. Mas que era muito amigo de Deus. A noiva, por seu lado, como se dissesse a mais interessante das verdades, foi acrescentando que ela desde a primeira comunhão que não ia à missa. Agradeci a honestidade deles, mas fiz-lhes duas perguntas a que não conseguiram responder se não com um esgar de voz e de olhos. Então porque vos ides casar pela Igreja? Não achais incoerente querer Deus para umas coisas e não O querer para outras?

sábado, julho 31, 2010

O caso descaso!

Dirijo-me à conservatória do registo civil. Vou apressado porque é o último dia para entregar a acta do casamento de sábado. Temos três dias úteis para o fazer. Esqueci de retirar os óculos de sol. Está um calor insuportável. Entro e tudo se faz escuro. Continua, porém o calor. Estavam várias pessoas na fila de espera. Os padres já são conhecidos por tantas actas que entregam. Apesar de ser uma entrega simples e rápida, não quis ultrapassar ninguém da fila. Porém, de entre o escuro reconheço uma paroquiana. Olhamos um para o outro. Por aqui, padre? E tu também por aqui, Sofia? São as perguntas óbvias, como se não tivéssemos percebido que estávamos lá. Eu tinha a desculpa dos óculos escuros. Ela tinha a desculpa de estar de costas. Mas fizemos a aproximação normal das pessoas que se conhecem bem. Então que faz? Perguntou. Trago uma acta de casamento. Por acaso é do casamento deste sábado na paróquia. E tu? Trabalha num escritório de advogados e trazia um pedido de divórcio. Fiquei incomodado. Mas está a tornar-se normal e, sem querer, tentamos que seja normal para nós. Conheço? Tornei. São o José e a São, padre. Os do supermercado. Os meus olhos estavam cobertos pelos óculos e foi o que valeu. Mas fez-se ainda mais escuro e mais calor. Enquanto acrescentava um casal ao número dos casados, na mesma hora ela acrescentava um casal ao número dos divorciados. Não era propriamente novidade que as coisas não andavam bem, pois já os tinha escutado a ambos. Mas não pensei que as minhas palavras e orações não tivessem o efeito desejado. O diálogo gerou-se a partir do caso e descaso das pessoas. O caso hoje e descaso amanhã. A admiração dos que duram mais de dez anos. A admiração pelos que duram dezenas de anos. O conservador explicava que ganhava mais com os divórcios. E eu disse que as famílias, os filhos, a sociedade perdiam. Olhe que se calhar temos mais divórcios por ano que casamentos, padre. Acrescentou. A conversa prolongou-se. Mas fugi dali assim que consegui. Pena que não deixei lá a conversa. Entrei no carro. Continuava muito escuro e muito calor.

sábado, julho 10, 2010

Cumpri tudo

O Afonso veio de fora. Veio para marcar o casamento com a Susana. Apresentaram-se-me os dois à porta de casa para por os pontos nos is, que é como quem diz, para acertar o que houver de acertar. Queriam casar e precisavam saber o que era preciso. Cumpri tudo, diz o noivo. Referia-se ao baptismo, à primeira comunhão, à profissão de fé, ao crisma. Escrevo com letra pequena porque me pareceu que ele falou com letra pequena. Fiz a catequese até ao décimo ano. Faz parte deste grupo que, cada vez, se torna mais minoritário. Por isso, sorria. Cumpri tudo, padre. Ao que eu perguntei se não faltava alguma coisa. E ao que ele respondeu que tinha razão. Faltava o casamento.
E com a resposta, com tudo o que cumpriu, e com o significado da palavra cumprir, fiquei sem saber se tinha aquilo que deve ter um cristão que decide realizar este sacramento do matrimónio, ou outro, com verdade.

sexta-feira, agosto 07, 2009

A comunhão do casamento

Era gente simples, a daquele casamento. Gente da terra. Gente tão simples que, às vezes, não sabe comportar-se. Gente que aparece pouco. Gente de casamentos, baptizados e funerais. Gente de ficar à porta de entrada para poder atender telemóvel ou falar com o vizinho. Gente que veste a melhor roupa nestas ocasiões porque a ocasião merece. Mas no fundo, uma camisa sem mangas e umas calças de ganga era mais o seu género. Gente que não tem grande mal. Pelo menos quero pensar assim. Mas que não tem consciência dos pequenos males que podemos cometer na vida com a nossa ingenuidade ou negligência. Digo tudo isto para tentar justificar o que se passou naquele casamento. Justificar nem que seja só à minha consciência.
Já não era a primeira vez que ouvia uma voz a fazer comentários durante a cerimónia. Não conseguia perceber as palavras. Mas percebia que não eram apropriadas. Fiz sinal com os olhos. Mas não devem ter sido vistos. Nem os olhos nem o sinal.
Chega a hora da comunhão, e como habitualmente, levo aos noivos a comunhão sob as duas espécies, o pão e o vinho. Entrego o cálice ao noivo e explico. Comunga. Passa-me o cálice, volta-se para trás, para o seu público, os convidados, e diz: É boa esta pinga. Desta vez os meus olhos foram mais sintomáticos. Ele sorriu, mas engasgado. Entretanto já a noiva estava a comungar, quando ouço, ou o pai ou o padrinho dele, que não dei bem conta. Devagar, não te engasgues. Não deve ter dado conta dos meus olhos. O pessoal, os convidados, o público, ria-se. Eu fazia esforço para não me irritar e para não me rir. Que confusão! Se calhar devia ter tomado outra atitude. Mas não consegui. Continuei a missa com normalidade. Só no final, no momento das assinaturas, expliquei aos noivos e aos padrinhos presentes, que não tinha sido muito correcto.
Mas enquanto assinavam, eu perguntava-me o que andávamos nós, padres, a fazer com sacramentos de circunstancia.

quarta-feira, maio 13, 2009

O casamento depois de dez anos casados

Estão casados pelo civil há cerca de dez anos. Têm duas crianças. A mais nova possui pouco mais que doze meses. Já os conhecia de outras andanças e de outras paróquias. Recordo ter perguntado na altura o motivo de não terem casado pela Igreja. Seria natural, pelo menos da parte dela, católica que vive os motivos de o ser. Recordo também a resposta que me deixou a pensar. O Afonso não fez caminhada de fé suficiente. Para ele não tem significado algum o casamento religioso. Deus ainda não é importante para ele. Eu vou esperar, disse a Teresa. Não quero fazer nem hipocrisias a Deus nem ao Afonso. No entanto quiseram baptizar o filho mais velho. Falámos de novo sobre o casamento. Não estava posto de parte. Falámos da verdade da sua fé. Quer mais verdade do que esta, padre? Perguntou a Teresa. Ambos queremos Deus nas nossas vidas. Mas não queremos nada à pressa. E queremos que o Tiago – chama-se assim o mais velho – tenha a oportunidade de fazer connosco o caminho. O Tiago baptizou-se na legalidade própria e possível.
Hoje o Afonso, a Teresa, o Tiago e o mais novo vivem, por acaso do destino, numa das minhas paróquias e tivemos oportunidade de nos reencontrar há dias. Queriam baptizar o mais novo. E queriam também confidenciar, dialogar e saber o que pensaria se eles quisessem casar pela Igreja. Eu fiz o mesmo que uns anos atrás. Deixei que tomassem eles a decisão de forma consciente. Perguntei do Afonso, de Deus na vida do Afonso. Respondeu-me o próprio que ainda precisava de caminhar mais, mas que neste momento Deus já lhe era algo importante. Não foi preciso muito. A papelada fez-se com serenidade. A cerimónia também. Nada de embrulhos. Eu sabia sobretudo o que ia na cabeça feliz da Teresa. Mas não resisti a perguntar na homilia o motivo de só agora, passados dez anos, terem optado pela sua união com a bênção de Deus. A Teresa olhou o Afonso. Este não teve meias medidas. Falou abertamente. Já somos uma família. Mas queremos constituir uma família cristã.
Of course que obriguei os presentes, que não eram muito mais que uma vintena, a perceber o que havia sido dito. Repeti-o e iniciei uma salva de palmas à verdade daquele casamento.
Hoje, cada vez que um casal, daqueles que não estão casados pela Igreja, me pede o baptismo de um filho, fico à espera de rever a família do Afonso, da Teresa, do Tiago e do Mateus.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Escolha certa e história errada

Escolheu um homem, digamos que o homem certo, com uma história errada. E por isso não teve direito a nada. A nada que é como se costuma dizer. A nada é como quem diz. Tem direito a ser feliz, caso faça por isso. Mas como mulher de fé que se deixou apaixonar por um homem divorciado, apenas teve direito a rezar. Mas o pior é que, por culpa da minha complacência, a dor de não poder casar religiosamente ainda aumentou.
Digamos que legalmente não é correcto deixar usar uma instalação religiosa, mesmo que seja um adro de uma capela, para um casamento civil. Não é, de todo. Mesmo que a boa intenção esteja lá. Nem uma bênção de alianças que mais não seja como que um bênção de um objecto importante para uma pessoa. Mas pastoralmente ficamos sem armas para esgrimir, sem soluções para ter, sem sabedoria e sensatez para decidir.
Por isso anui com algo parecido. Um adro, uma bênção rápida das alianças.
Conclusão das conclusões. Errei. Os superiores contactaram-me e proibiram-me. Alegaram “Infâmia”. Nunca me tinha acontecido isto. Mas aconteceu. Alguém foi comunicar o que eu estava para fazer. Também não sei se o interesse em comunicar era o de ajudar ou o de prejudicar!! Há destas coisas. Mas a culpa é só minha. Não é dos que se chibaram. Eu devia saber que não devia fazer. Por isso, e em vésperas do acontecimento, tudo foi reduzido a nada. A nada é como quem diz. Ela tem direito a ser feliz e Deus há-de encarregar-se de lhe fazer perceber que a ama nesta opção de procurar a felicidade.
Porém, hoje estou triste. Pelo meu erro, pelas consequências do meu erro, e por perceber que as escolhas das pessoas podem até considerar-se acertadas, que se a história estiver errada, continuará sempre errada.

domingo, julho 15, 2007

Sinto-me uma pecadora

Veio numa hora sem movimento. Uma hora tardia. Não foi directa no assunto. Mas as palavras eram directas. Contidas, mas directas. Não sei por onde começar. Continuei em silêncio. Deixei que ela escolhesse as palavras. Se veio ao meu encontro, já tinha encontrado a força necessária. A mais difícil. Agora era uma questão de tempo e de palavras. E no meio de umas tantas deambulações, soltou quatro. Traí o meu marido. E não me sinto bem em relação a ele e em relação a Deus. Sinto-me uma pecadora. Quero ser forte. Mas o meu coração recorda a outra pessoa. Amas ainda o teu marido, perguntei. Respondeu que sim. Mas que não sabia como lidar com a situação. Ele perdoava, mas ela não se sentia capaz de se sentir perdoada. Até porque não esquecia os momentos com a outra pessoa. E eu encontrei-me a louvar a sua honestidade. Senti que isso era ainda mais importante que a traição. E desejei-lhe muita força. Nós, cristãos, somos tão santos como pecadores. Tão fortes como tão fracos. Sinceramente, penso que uma das nossas vitórias é podermos assumir que somos fracos. Como Jesus. Assumir as nossas fragilidades com humildade. Fui mais longe quando disse Não te envergonhes de ser frágil. Quanto à tua fragilidade, leva-a nos ombros apenas como isso, uma fragilidade. As paixões são muito descontroladoras e muito superficiais. São rápidas a consumir e a desaparecer. São fruto e consequência de desejos. O amor é mais profundo. Mais doloroso. Mais difícil. Complicado… mas mais interessante. A paixão resulta do desejo inato de prazer. O amor do desejo natural de ser feliz. Tens de fazer esta distinção. Se te sentires fraquejar, descobre a tua força interior e percebe à tua volta como o que tens neste momento é belo. Procura dar-lhe novo sabor. À tua relação com o marido. Procura dialogar. Demonstrar o que sentes e deixar que ele faça o mesmo. Deita-te nos braços dele e sente como é bom ter quem nos aconchegue com verdade. Ainda que com rotina. Não há nada melhor que termos com quem partilhar-nos totalmente... E não só sexualmente…

quarta-feira, abril 18, 2007

Cinquenta anos

Faziam cinquenta anos de casamento. Bateu-me à porta apenas ela e uma amiga. Que ele não entrava nestas coisas. Queriam marcar uma festa de aniversário com missa. Aqui há uns anos evitava-as, por causa dos transtornos. Simplificava as coisas com uma cerimónia simples. Até na casa dos interessados. Hoje reconheço que é mais meritório um aniversário que o próprio casamento. Não é que seja mais válido, mas certifica o amor verdadeiro. O casamento deixa sempre, hoje, uma dúvida. E este certificava cinquenta anos. Insisti na ideia da Eucaristia dominical. Comunidade presente para celebrar o amor. Foram pensar, mas a resposta foi não. E assim foi no passado sábado.
Dezassete pessoas, comigo dezoito. Missa bastante silenciosa. Incomodava apenas o tlink e o tlonk de cada máquina, pois haviam-se esquecido de as colocar no modo de silêncio. Cerca de dez flashes, entre câmaras de filmar e câmaras de fotografar. Não deu tempo para refilar com palavras. Fiz um ou dois trejeitos, mas também não eram óbvios. Respondiam pouco. Era mais um diálogo entre mim e mim. Pelo menos eu não ouvia, e, pelo hábito, eu até tremia com receio de mandar duas ao lado. Mas se não respondiam, como foram comungar? Sim, porque pelo menos metade comungou. Estranho. Mais tarde imaginei que eles estavam como eu, respondendo baixinho com receio de mandar duas ao lado.
Ele confessou-se antes da missa, para comungar nessa missa. A última foi há 25 anos. Imagino que aos 75 se vai confessar de novo. Festejassem cada ano e era todos os anos.
Bonito foi o rosto dos noivos. Estavam bonitos e frescos. Aparentavam menos uns 25. Ainda lhes exigi um “Eu amo-te” cara a cara e olhos quase nos olhos, porque foi rápido e a fugir, com o decoro da pureza e da vida nestas idades. Insisti que eram palavras bonitas e a utilizar toda a vida. Festa do amor. Mas fiquei com uma sensação de que não se festejou propriamente o matrimónio religioso. Isso só Deus sabe. A minha certeza induz-me apenas à festa do amor de dois cônjuges após cinquenta anos. Já não é mal, pois Deus devia estar agradado. E tlink. E tlonk.