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terça-feira, maio 26, 2020

Rezar com eles

Ontem à noite descansei do meu confinamento para ir a um bairro da paróquia rezar com alguns paroquianos. Soube, por uma das senhoras que ali habita, que todos os dias deste mês de maio, às vinte e uma horas, uma das vizinhas colocava uma imagem de Nossa Senhora de Fátima num pequeno patamar de um parque que o bairro tem, com vela acesa, uma jarra com flores e um terço ao pescoço. Os vizinhos vão chegando e, com as devidas distâncias, rezam o terço em conjunto. Sei que há mais bairros da paróquia a fazê-lo, de modo muito parecido mas em outros horários. Ontem estavam umas dez pessoas. Mais eu, que cheguei sem avisar. Foi uma alegria. Rezei com eles. Ainda me pediram para presidir. Não. Tinha ido rezar com eles. E assim foi. Muito bonita a noite com as luzes dos candeeiros e uma estrela no céu a cintilar. Foi retemperador. 
Afinal, também há e houve coisas lindas a nascer nestes tempos de pandemia, mesmo em termos de fé. Estes grupos que, por si mesmo, se reuniram a rezar, são dom de Deus que prova que a Igreja é muito mais do que aquilo a que estamos habituados.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é a minha arma"

sexta-feira, abril 24, 2020

"oração cansada"

Estou tão cansado, Senhor.
E não é cansado de não fazer nada.
Não é cansado de estar em casa, em quarentena, mesmo sem poder estar com os meus amigos, com os meus colegas, com outros familiares.
Não é cansado de estar recolhido, entre quatro paredes, sozinho com os meus botões, com a televisão, ou com as redes sociais.
Estou aqui em casa, Senhor, a ver o mundo à minha volta a passar.
E estou cansado de esperar.
Estou cansado da ansiedade e da incerteza.
Estou cansado de ter medo e de estar em pânico.
Estou cansado deste estado de estar cansado.
Meu Senhor e Meu Deus, onde estás?! Porque não fazes nada?!

Meu filho, eu também estou cansado…
Naqueles que estão cansados de tantas decisões que têm de tomar e responsabilidades que têm de assumir;
Naqueles que estão cansados porque saem todos os dias de casa, arriscando a sua vida e a dos seus, para que não te falte o pão em casa;
Naqueles que estão cansados pelo desespero de ter perdido o emprego ou estarem em risco de o perder;
Naqueles que estão cansados de esperar uma mão que os ajude, que lhes dê alimento e pousada onde dormir;
Naqueles que estão cansados de sair de casa, ainda que voluntariamente, para cuidar de quem não tem quem cuide deles;
Naqueles que estão cansados de esperar em casa, porque infectados pelo maldito vírus, sem saber como será o dia de amanhã;
Naqueles que estão cansados de cuidar dos doentes, horas seguidas a fio, sem parar e a ver muitas vidas a falecer;
Naqueles que estão cansados de sofrer, nas camas dos hospitais, agarrados à vida pelo fio de máquinas.
Meu filho, estou tão cansado!
Mas, não me canso de estar cansado!
E sabes porquê? Porque te amo, muito.
Porque te amo muito, assim… e quem ama não deixa de cuidar!
Amo-te muito, meu filho.

Esta oração foi feita há uns dias atrás. Foge um pouco do estilo literário que gosto de usar neste espaço. Mas achei que era uma partilha oportuna para fazer. 
Boa oração, na certeza de que Deus nos ama!

sexta-feira, abril 17, 2020

Padres covid II

Alguns colegas padres desdobram-se, na comunicação social e nas redes sociais, em dezenas de propostas e aparições, replicando-as e multiplicando-as, com o que isso tem de positivo e negativo. Não julgo. Evito ajuizar. Mas não evito pensar. Tenho andado a reflectir sobre este novo modo de ser e viver em Igreja, e ainda não tenho nada claro. 
No entanto, ouvi há dias um colega dizer uma coisa que me chamou a atenção e me fez pensar. Dizia que, no meio de tanta “informação”, ainda não tinha ouvido dizer que há padres que, nestas horas, rezam a Deus em silêncio pelas suas comunidades. Um padre rezar, no silêncio, sem alardes, sem mediatismos, pelos seus, neste momento, deveria ser uma coisa estranha! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padres covid"

quarta-feira, março 25, 2020

os funerais covid

Contaram-me que alguns colegas têm ouvido reclamações e desaforos de pessoas por causa das restrições dos funerais e por não haver missa de sétimo dia. É verdade que, a cada dia que passa e diante das evidências, têm diminuído este tipo de atitudes e reacções. Mas ainda há poucos dias, um agente funerário me contava que uma neta de uma senhora falecida discutira com ele, porque queria ver a avó a todo o custo. Queria velório como se nada fosse. Queria tudo e mais alguma coisa a que achava que tinha direito. Isto é duro. Muito duro. 
O primeiro funeral a que presidi, com uma pequena celebração no cemitério, na presença de pouquíssimos familiares, doeu muito. Doeu tanto que, ainda antes de começar, olhei para os rostos daquelas pessoas e as lágrimas caíram-me pelo rosto sem eu lhes dar licença. É bem provável que tenhamos de buscar uma nova forma de fazer o luto! Mas também é importante não deixarmos que a dor seja mais forte que a nossa racionalidade! Neste momento há um bem maior do que a nossa própria dor. O bem comum. E é bom recordar o que ocorreu, por exemplo, num funeral, em Espanha, onde se contaminaram dezenas de pessoas. Ou o que, no Irão, e diante da enorme dificuldade em tratar da sepultura de quem morre com o vírus, como dizem algumas informações, os corpos têm sido sepultados em valas abertas. Assim como é de supor o que poderá acontecer em paróquias onde o pároco contrair o vírus e tiver de ficar em casa. 
É doloroso ouvir estas coisas. Saber delas. Pensar nelas. Imaginá-las. Tudo é doloroso neste momento. Rezemos. Rezemos por quem tanto sofre num momento como este e partilhemos da sua dor na oração!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como serão os funerais quando não houver padres?"

quarta-feira, março 18, 2020

padres covid

Padres que sobem aos telhados da Igreja e se filmam a celebrar a missa. Padres que gravam vídeos de lágrimas para os seus. Padres que replicam mensagens e mensagens. Padres que têm muitas ideias criativas e que pululam na internet, especialmente nas redes sociais, para chegar aos fiéis, para alimentar a fé dos fiéis. Que bom! Aprovo e apoio cem por cento. Fico orgulhoso desta nossa Igreja que encontra um outro modo, diante da adversidade, para evangelizar, para chegar às pessoas, para as não abandonar. Fico orgulhoso das centenas e milhares de missas que hoje estão disponíveis às pessoas nas suas famílias, Igrejas Domésticas, através das redes sociais. 
Porém, no meio de tanta coisa, não sei algumas coisas. Não sei, por exemplo, se alimentar as pessoas, replicando e tornando a replicar nas redes sociais, não será alimentar em demasia o mundo virtual em detrimento da realidade e da verdade das famílias reunidas por si mesmas e não por redes sociais! Assim como também não sei se nalguns casos não se trata de um aproveitamento, mesmo que inconsciente, para um certo egolatrismo! 
Não sei mesmo. Acho que cada vez sei menos!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Na lareira 1"

quarta-feira, março 04, 2020

Como se aprende a rezar?

Era uma senhora discreta. Mas interessada. Dirigiu-se a mim com discrição e interesse. Senhor padre, como é que se aprende a rezar? Perguntou. Respondi-lhe com outra pergunta. Como se aprende a amar? Se era com teorias, com aulas, com leituras, em laboratório, em sonhos, em fantasias. Eu mesmo respondi e prossegui. Olhe que se aprende a amar, amando. E a oração é como o amor. É uma forma de namoro com Deus. Por isso também se aprende a rezar, rezando. Tal como se aprende a amar, amando, se aprende a rezar, rezando.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Rezar é falar com Deus"

terça-feira, junho 25, 2019

A oração do meu pai

Quando atravesso a porta de entrada do lar onde está meu pai, um frio percorre-me a espinha como se tivesse de atravessar o inverno para o ver. A saudade mistura-se com a ansiedade e o receio de constatar o seu estado de saúde progressivamente mais débil. Quando estou mais que uma semana sem o ver, aperta-se-me a saudade. Quando o tenho de deixar, aperta-se-me o coração. 
Ontem repetiu-se este tipo de episódio. E depois da troca de mimos, como é costume, dirigimo-nos, a passo de caracol, para a capela do lar, onde rezámos, juntos, o que nos apeteceu. Pai-nosso, avé-maria, salvé-rainha, consagração-a-nossa-senhora e por aí fora. 
Numa das pausas desse momento lindo, disse-lhe com simplicidade, Paizinho, tenho sentido tanto a falta da tua oração por mim, que nem imaginas! Ele concordou comigo. Que antigamente rezava muito por mim e agora não. Entre conversas com pouco sentido e conversas com mais sentido, aquela resposta pareceu a mais lúcida do mundo. A sua capacidade mental tem-se alterado. É normal que não se lembre de rezar, coisa que fazia persistentemente. Talvez a sua oração neste momento particular da sua vida seja outra. Mas eu é que sinto falta da certeza e força da sua oração por mim e pela minha vocação. 
Nisto parou um pouco. Não sei se pensativo. Olhou-me e disse. O melhor era rezares tu por mim agora. A frase marcou-me profundamente. Ainda agora lhe sinto a profundidade da marca. Tive de, discretamente, voltar o meu rosto na direcção do sacrário, escondendo a lágrima que percorreu a minha face. Pequenina, mas do tamanho do mar.

quinta-feira, maio 02, 2019

Rezar antes das refeições

Antes de cada refeição é meu costume rezar a pedir a Deus pelos que a proporcionaram e a pedir para que ela retempere as nossas forças. É um hábito que recebi em casa, da mão dos meus pais. Hábito que repito onde quer que esteja, em minha casa, em casa de algum paroquiano, no restaurante. Convido todos, mesmo os que não conheço muito bem ou com quem estou menos à vontade, a acompanhar-me. 
E assim, há dias, na casa de um dos meus paroquianos, numa festa de aniversário de um dos seus filhos mais pequenos, onde estavam mais uns quantos dos seus amiguinhos da mesma idade, formulei o mesmo convite e, antes que me persignasse e desse início à pequena oração, o pequenote que fazia anos disse, um pouco envaidecido, que costumava rezar todos os dias em casa antes de comer. Depois perguntou aos amigos se também rezavam em suas casas antes da comida. Nisto, um dos seus amiguinhos, com a maior das ingenuidades, respondeu que não. Que a sua mãe sabia cozinhar.

quinta-feira, março 21, 2019

Rezar na verdade da dor

O dia começava a escurecer. Sentado no meu sofá de três pessoas, rezava a liturgia das horas. Rezava atentamente os salmos. Gostara imenso da leitura de São Tiago. Gastara uns minutos a gostar dela. Contudo, chegada a oração das preces, e ao ler “concedei-nos, Senhor, a graça de tomar parte na vossa paixão por meio dos sofrimentos da vida”, a minha oração terminou por ali. Ficou ali parada. Ou começou deveras e num estremecimento de verdade que doeu. Como ser verdadeiro numa oração com este teor, quando mal vem a aflição, o sofrimento, a doença, a morte de alguém querido, as preocupações, os azares da vida, os problemas por resolver, e a gente não só perde o chão, como perde tudo?! Não queria mentir a Deus, mas é muito mais fácil dizer estas preces com a facilidade da boca que com a verdade e dificuldade do coração.

terça-feira, dezembro 25, 2018

O Pai Natal dos meus sonhos

Encontrei uma carta no correio. Toda encarnada. Toda enfeitada. Parecia o embrulho de uma prenda. Era uma carta com remetente sem morada. Descobri, depois de aberta, que era uma carta de um pai natal. Apercebi-me disso porque tinha uma caligrafia muito bonita, também encarnada, estava cheia de emojis coloridos e, no final, era assinada por um pai natal. Curiosamente, vinha assinada em minúsculas. A leitura era fácil, dado que o texto não era longo e as letras tinham um tamanho acima da média. Não sei traduzir tal e qual o que li. Não me sinto verdadeiramente autorizado a fazer copi past, nem me dou ao desplante de fazer minhas as palavras que li e que me fizeram chorar. Afinal, tratava-se de uma oração de um qualquer pai natal, dos muitos pais natais que nesta época pululam nas nossas cidades e nos nossos centros comerciais a apregoar felicidade. A oração era dirigida a Jesus. Ao Menino Deus. 
Era a carta de um Pai Natal que se ajoelhava diante do verdadeiro Natal. Dizia palavras como: eu só trago brinquedos e tu trazes amor; eu faço rir as crianças, mas tu ama-las de verdade; eu deixo uma alegria passageira, mas tu deixas o teu coração para sempre; eu tenho bochechas rosadas e uma barba branca e farta, a maioria das vezes postiças, mas tu tens umas cicatrizes nas mãos e no peito que são a maior verdade; podes encontrar vários como eu nas cidades e centros comerciais, mas só tu és o único omnipotente, vivo e verdadeiro; eu alimento a economia e o mercado de consumo, mas tu dás sentido à vida das pessoas; eu brinco às cartas e mensagens de pedidos, mas tu levas a sério cada um de nós… Era tão linda e tão autêntica a carta! 
No final, antes da assinatura, dizia ainda algo do género: diante de ti me dobro no teu aniversário. E depois assinava. Era o Pai Natal dos meus sonhos. 

Aproveito para agradecer a Deus estes 13 anos de vida do "Confessionário dum Padre" e os 1022 textos que nele foram publicados

terça-feira, novembro 20, 2018

A oração é estar com Deus

A oração é simplesmente estar com Deus. Foi esse o convite que Jesus fez aos seus apóstolos. Vinde e vede. Mas nós teimamos em fazer da nossa oração um desabafo das nossas coisas, dos nossos problemas e insatisfações, quando Deus já conhece tudo isso. Teimamos em pedir coisas e em querer que Deus se manifeste de forma incontundente, quando Ele quer apenas estar connosco e que estejamos com Ele como dois amigos que se amam e se encontram. Teimamos em falar de nós, como se ele fosse um desconhecido e nós uma relíquia a conhecer. 
Às vezes penso que Deus se deve esgotar com as nossas orações tão cansativas, tão chatas, tão angustiadas, tão pedinchonas. O que vale é que nos tem um amor para além de qualquer oração. O que vale é que deve ter uma paciência infinita, e até nessas nossas formas de oração ele deve descobrir que é um modo de estarmos com ele. Que assim seja.

sexta-feira, novembro 09, 2018

Um coração igual ao de Deus

Creio que o mais bonito de Deus é o seu coração, e é esse coração que nós devemos dar a conhecer aos outros. Não há nada mais bonito que o Seu coração. Mas, como posso transmitir o que está no coração de Deus se eu não conhecer esse coração? E como posso conhecer um coração que ama se eu não amar?
Estas duas perguntas misturaram-se com mais uma série de perguntas que me fiz, ou me surgiram, no meu último retiro, esse espaço privilegiado de intimidade com Deus que ainda hoje recordo. Foi num daqueles momentos especiais em que estava embrenhado em mim mesmo e em Deus, a pensar estas coisas do amor de Deus, como era fantástico sentir esse amor, percebê-lo, viver na certeza de tão grande amor. Assim, vindo do nada, ou de algo que me pareceu nada, mas pode ter sido verdadeiramente um tudo, surgiu em mim uma vontade enorme de amar. Parecia uma tolice. Mais uma das minhas tolices. Não estava sequer ali ninguém a meu lado para amar! Estava sozinho, diante do sacrário. Mas foi isso mesmo que senti. Uma vontade enorme de amar os outros. 
Naquele preciso momento me foi dado perceber, por experiência própria, que quanto mais nos enchermos de amor, mais vontade temos para amar. Quanto mais nos sentirmos em comunhão com Deus, mais vontade sentimos para entrar em comunhão com os irmãos. Que o amor de Deus aumenta o amor dos irmãos. Que quando sentimos em nós o amor de Deus, sentimos também esse apetite maravilhoso de amar mais quem está ao nosso redor.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Um chamamento que não sei

Já lá vão muitos anos. Andava na escola primária quando escutei, pela primeira vez, que o Senhor chamava alguns a ser sacerdote. Na altura a palavra soava-me a algo estranho. Como poderia saber o que era o sacerdócio! Era mais fácil traduzi-la por “padre”. Recordo que ouvi, pela primeira vez, numa aula, um jovem seminarista que, por sinal, hoje é bispo, dizer que o Senhor podia chamar alguns de nós para padre. Continuo a lembrar que a palavra padre só me fazia lembrar o padre da minha paróquia. Aquele senhor de uma certa idade que celebrava as missas. Achei engraçada a ideia de poder ser chamado. E um dia achei que o Senhor me chamava mesmo. Era uma criança. O significado desse chamamento só uns anos mais tarde, depois de fazer muitas perguntas, me foi possível ir entendendo. Mas ainda hoje não sei porque o Senhor me chamou. O que viu em mim. O que vê em mim. Lembro alguns acontecimentos marcantes dessa época da minha meninice. Lembro quando o tal padre da minha paróquia me disse que eu bem podia ser padre. Lembro quando, um dia, corajosamente, me abeirei do altar e me deixei ficar ali, como se fosse esse o meu lugar. O lugar que o Senhor queria que eu ocupasse. Mas ainda hoje não sei porquê. Ainda hoje pergunto ao Senhor porquê. Porquê eu, de tantos outros meninos, a maioria muito melhores que eu. Se me perguntassem se eu gosto de ser padre, não sei bem se a resposta seria positiva. Há um misto e muitos paradoxos nas respostas que poderia dar. Só há uma coisa certa. Estou aqui. Como sou. E Ele está por aqui, por não sei bem donde. Vamos tratando-nos, cada vez, mais por tu. De vez em quando sinto que nos abraçamos. Outras vezes berramos um com o outro. Não me sinto digno do seu amor. Mas Ele teima em querer amar-me assim. Por isso, vou-me sentindo esse indigno amigo que é amado por Alguém que teima em me amar… assim.

quinta-feira, outubro 18, 2018

Tenho-te dito

Estava aqui a remexer papeis onde, por ocasião dos meus retiros, anoto alguns pensamentos, ou momentos que, de me tocarem, me levam a escrever. Num desses papéis encontrei um desabafo que escrevi num desses momentos. Já lá vão uns cinco anos. Escrevia assim. 
Estou de retiro. Ou devia estar. Venho, por meus pés, olhar-te na hóstia que depuseram na custódia. Faz sentido que cumpra os horários do retiro. Por isso estou aqui por meus pés, que é como quem diz, por minha própria vontade, embora esta vontade tenha surgido do horário. Há um silêncio à minha volta. Não o há dentro de mim. Queria ter alguma coisa para te falar. Uma conversa. Mas estou vazío. Alguém um dia disse que era preciso uma pessoa esvaziar-se para falar contigo. Contudo, para ser sincero, o meu vazío não me deixa espaço para conversas. Insisto que quero falar contigo, mas não consigo. Será isto um falar-te? Ocorre-me rezar o Pai Nosso, para facilitar as coisas. Mas fico nas duas primeiras palavras. As outras não me saem. Levanto os olhos do papel para te olhar de longe. Estás mesmo aí? O meu ar desconfiado, que não quer sê-lo, está aqui. Penso nos meus paroquianos, porque acho que tenho de pensar em alguma coisa. Quer-me parecer que, por mais que insista, hoje não consigo dizer-te senão que não consigo. 
Tenho-te dito.

sábado, outubro 13, 2018

O frade dorminhoco

São seis horas da madrugada. Depois da liturgia das horas, das laudes, entregamo-nos, numa hora, à meditação. Tem sido assim todos os dias, tanto de manhã como ao findar da tarde. E um dos frades mais velhos que está na comunidade do mosteiro, mal se apagam a maioria das luzes, senta-se num pequeno banco, de joelhos, e o sono cai sobre ele. É engraçado que pende sempre para o seu lado direito. Sempre para o mesmo lado. Como se esse lado o segurasse no tempo. 
A princípio, chamou-me a atenção pelo caricato da situação. Sorria com alguma pena, evitando que, ao meu redor, se apercebessem. Depois fui intuindo que, se calhar, seria uma doença. Deixei de sorrir, mas não deixei de alimentar a pena. Só aos poucos, com o tempo, fui descobrindo que aquele estar poderia muito bem falar da sua intimidade com Deus. Fui descobrindo que aquele frade dorminhoco aproveitava, em cada meditação, para dormir no colo de Deus. Deixava-se embalar nos braços de Deus, como a criança se entrega ao colo da mãe. É no colo da mãe que uma criança mais se sente confortável, segura, confiante, feliz. Não existe maior amor de filho do que aquele que se entrega ao amor de alguém que nos dá a vida, faz viver, ajuda a caminhar, e nos enche de amor. E assim percebi que o frade dorminhoco se entregava a Deus, na sua meditação, muito mais que eu. Eu ainda não aprendera a adormecer no colo de Deus.

quarta-feira, outubro 10, 2018

Noite escura

Desengane-se quem pensa que o recolhimento de um retiro serve a necessidade de paz e tranquilidade. É isso que muitos de nós buscamos num retiro espiritual, num encontro de oração, numa celebração comunitária da fé. Desengane-se quem pensa que uma experiência de encontro com Deus nos traz a paz que ansiamos diariamente e que parece longe de alcançar nas correrias diárias da vida. Um verdadeiro encontro com Deus faz-nos encontrar connosco próprios, com a nossa essência e, portanto, com as nossas misérias, ansiedades, erros e pecados, o que S. João da Cruz chama de “noite escura”. 
O que pode fazer esse encontro com Deus é garantir que Deus nos ama. A experiência de encontro com Deus o que pode operar em nós é o sentirmo-nos amados por Deus. Quando alguém ama e se encontra com a pessoa amada, não deixa de ser quem é, não deixa as suas fragilidades de lado. Ama com tudo o que é. Mas é nesse amor que ganha as forças para viver.

sábado, outubro 06, 2018

Esse amor maior que não se consegue dizer

Habita-me, Senhor. Habita-me, Senhor. Foi a repetir esta frase que passei grande parte da minha hora de contemplação esta tarde. Havia um ponto de luz na capela, voltado para um ícone da Santíssima Trindade. Não havia mais luz. Estávamos naquele silêncio umas doze pessoas, entre frades, sacerdotes e leigos. 
Sentara-me numa cadeira pouco confortável, com os pés descalços, e as mãos abertas, repousadas sobre as pernas e voltadas para cima, na esperança de acolher o que viesse do céu. De vez em quando fazia como vira os judeus fazer diante do muro das lamentações, numa peregrinação à Terra Santa. Com eles aprendi que, para não me distrair, podia balancear meu corpo. Nunca experimentara este modo de orar, mas esta tarde fi-lo, na esperança que afastasse de mim as distrações. Todo eu esperava que o Senhor se manifestasse durante aquela hora de íntima oração. Não senti nada de especial. Não houve nenhum êxtase. Não houve nenhuma levitação. Não houve estrelinhas a sobressair por entre as minhas pálpebras. Eu pedia insistentemente a Deus que me habitasse, que eu fosse seu habitáculo, que se fizesse sentir como o sangue a correr-me nas veias. Não sei bem o que senti. Muito menos explicar. O que sei é que aquela hora me pareceu muito pequenina. Prolongava-a com vontade por mais uns largos minutos. Não consigo, de todo, definir o que sentia. Creio que as palavras humanas, para se dizerem, se socorrem de símbolos, de coisas que conseguimos descrever. Mas há momentos que não se conseguem dizer, e este foi um deles. O que posso afirmar é que me apetecia ficar por ali, a descobrir esse amor maior em mim.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Antes de me recolher neste retiro

Antes de me ausentar, disse aos meus paroquianos, no final da missa, que ia recolher-me num mosteiro, para me encontrar com Deus. Eu bem sei que Deus está em todo o lado, ao nosso alcance, mas precisava de um espaço para me encontrar com Ele. O mosteiro recebeu-me de braços abertos. Era escuro quando cheguei e tudo me pareceu enorme. Enorme demais para mim. As pedras contavam histórias de quem já por aqui passara com os mesmos desejos e vontades que eu. São pedras gastas de histórias. O meu quarto tem apenas o essencial para que eu possa estar nele. Não há rede fixa ou móvel. Não há senão a sensação de que não há nada para além de mim. Mesmo quando ouço um ruído na floresta em redor. Ou no quarto alguma mola da cama se remexe. Ou num quarto ao lado se ouvem passos que desconheço. 
Eu dissera aos meus paroquianos que precisava encontrar-me com Deus. E agora, no meio de uma gargalhada, apercebi-me do erro das minhas palavras. Deus já lá está. Ele já está comigo há muito tempo. Desde que me desejou, ainda antes do seio de minha mãe. Ele está comigo. Ele vai comigo para todo o lado. Nós é que nem sempre damos conta disso, porque demasiado ocupados em nós mesmos. O que nos falta é a consciência desse seu estar. E só tomamos consciência disso quando entramos em nós, no mais profundo de nós. Naquilo que muitos chamam alma e eu prefiro chamar de mim mesmo. Aquele íntimo que diz mais do que parecemos, que diz o perfume do que somos feitos, a beleza que se esconde por detrás da aparência, a certeza de que se existe por algo maior. Afinal, encontrar-me com Deus é entrar na minha intimidade. É lá que a consciência da sua presença se define.

terça-feira, outubro 02, 2018

escrever sobre o início do meu retiro

Sinto o vento a bater forte contra as árvores, empurrando-as para eu ouvir os seus gemidos. Sinto a água a correr na fonte, aqui ao lado da janela onde me encontro, num quarto do meu tamanho, pequeno, como se fosse um regato do rio a calcorrear caminhos, batendo nas rochas ou pequenas pedras de uma matéria que não sei. É um som métrico, ritmado, Vai entrando no meu coração sem eu me aperceber. Ouve-se um que outro pássaro por entre o som da água e do vento. Espreito lá para fora. Está tudo igual ao dia. Ao dia do vai e vem da vida. Mas é tudo diferente. Tudo fala de forma diferente. Tudo é sol, mesmo que tenha descido a temperatura. Tudo parece entrar por mim a dentro de uma forma medida, serena, consciente. Nada parece correr por mim a dentro. Nada parece correr como quando, à minha secretária, repito pensamentos sobre os meus afazeres, sobre as minhas preocupações, sobre as minhas dores, sobre os pesos que a vida vai trazendo, pequenos ou grandes, e a correr me sufocam. Hoje essas coisas acalmaram. Estão lá. Não desapareceram. Continuam a ocupar os mesmos espaços da minha vida e do meu ser. Mas hoje o vento é mais forte, a água é mais intensa, o silêncio, que me começa a habitar, fala mais para mim. Hoje é tempo de me deixar encontrar por Deus.

segunda-feira, abril 16, 2018

A vida da Virgínia

Eu bem peço a Deus que me leve, mas não há maneira. A Virgínia tem mais de oitenta anos. Nem sei bem a sua idade. Encara a vida com alegria. Mas acha que já cá não anda a fazer nada. Anda de moleta e de braço dado à empregada. Vai fazendo a sopinha e pouco mais. Lá vai rezando, diz-me, mas distrai-se a toda a hora. Às vezes também adormece e quando acorda tem de voltar ao início porque já não sabe em que parte da oração ia. Diz-me que mistura as orações com as panelas e não devia. Por isso pede constantemente a Deus que a leve, mas não há maneira. O que a Virgínia não sabe é que, mesmo sem dar conta, ela entrega a sua vida, com a mesma constância, a Deus. Faz do seu dia uma oração quase constante. Simples. Sem jeito. Esta última palavra é da sua autoria. Diz que não tem jeito. Por isso não sabe o que anda cá a fazer. Gosta muito de rezar, mas não reza como devia, diz. E eu fico imaginando o rosto de Deus a sorrir com a Virgínia!