quinta-feira, maio 23, 2019

Bem-me-quer-mal-me-quer [poema 216]

Enquanto contava as pétalas e as deitava fora
O tempo passava, o sol amainava, tudo desaparecia
Malmequer bemmequer, um dois e três, outra vez
Ali, no meio do tanque do jardim, estátua de pedra
A sonhar com o amor que perdera no meio da guerra.
Contava pétalas como quem desvela padres-nossos
Com os dedos fechados sobre as contas do rosário
avé-maria, avé-maria, rezava, rezava, um dois três,
outra vez

Talvez o bem me queira mais que o mal me quer

sábado, maio 18, 2019

O Miguel e a guerra

O Miguel anda no primeiro ano da catequese. Segundo informações da catequista, tem uma enorme capacidade de fantasiar, contar e recontar o que vê e ouve. É um miúdo muito atento. Tem um coração sensível, capaz de se emocionar com os problemas dos colegas. E um dia, na catequese, veio à baila um apelo relacionado com as crianças pobres de um país em guerra. A catequista ia descrevendo as situações em que estavam essas crianças, e os miúdos, que a escutavam, começaram também a contar coisas que tinham visto na televisão ou ouvido na rádio. Houve até uma miudita que recordou os colegas como, às vezes, se queixavam porque queriam um telemóvel novo e os pais não davam, e estas crianças não tinham nada senão a guerra. A catequista ficou sem palavras. Mas o Miguel é que lhas tirou todas. As palavras e as letras que compõem as palavras. Nem sabia se rir se chorar, se pensar bem se pensar mal. Na verdade, não soube como o interpretar. Depois de todos saírem da sala da catequese, cabisbaixos e pensativos, o Miguel veio ter com a catequista, pôs-se em bicos de pés, levantou os bracitos, colocou-os em cima dos ombros da catequista e, olhando-a nos olhos, disse. Catequista, não tenhas medo, eu quando for grande mato a guerra.

terça-feira, maio 14, 2019

Aos olhos de Deus somos todos iguais

O senhor não diga que é indigno do amor de Deus. Ele até pode ficar triste. Foi assim que a Maria se dirigiu a mim a propósito de umas coisas que dissera sobre o não ser digno de tanto amor de Deus. Deixem-me referir que gosto muito deste nome, Maria, e tenho vontade de o usar muitas vezes, embora não seja o verdadeiro nome desta minha paroquiana amiga. Eu chamo-a de Maria porque nela se realça o lado materno, protector, interessado, atento, próprio das mães. Pelos vistos, tinha ficado um pouco triste por eu dizer essas coisas. Ela mesmo mo referia. Não diga essas coisas, senhor padre. O senhor tem muita sabedoria. Deus tem de gostar muito de si. Eu sou leiga e o senhor é padre. O senhor está acima de mim. Deus ama-o, de certeza, muito mais que a mim. 
E foram as suas últimas frases que me estremeceram por dentro. Não, Maria, eu não estou acima de ninguém. Posso ter mais formação teológica, mas isso não me habilita senão para aprofundar ainda mais Deus. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Deus não me ama mais por eu ser padre. Se Deus me amasse mais por eu ser padre, Ele não amava gratuita, desinteressada e livremente. Seria um elitista. E os elitistas não amam assim. No coração de Deus cada um ocupa, independentemente de quem é ou como é, o lugar mais especial.

sábado, maio 11, 2019

tempus [poema 215]

Ele sentia

Que a vida não voltava
Só ia

Que o presente passava
Era e já não era

Que o futuro esperava
Sentado à espera

De tornar-se passado

terça-feira, maio 07, 2019

cristão, católico, religioso, clérigo, consagrado, leigo, fiel…

Termos como “cristão”, “católico”, “religioso”, “clérigo”, “consagrado”, “leigo”, “fiel” questionam-me. São eles que vêm até mim perguntar da sua existência, e eu careço de resposta para lhes dar. Não os entendo. Ou não entendo completamente o seu porquê e o seu para quê. Designam pessoas no âmbito da fé. Distinguem estados de vida, classes de fé, ou coisa do género. Como distinguem, também distanciam. O termo que entendo melhor na sua definição é “clérigo”. Porque faço parte do grupo. É mais ou menos o sujeito que faz parte da classe eclesiástica. Aquele que alcançou as ordens sacras. O cristão que exerce o sacerdócio. Foi assim que li algures. Mas também o entendo melhor na sua definição que na sua essência. 
Mas não gosto muito destes termos. Ou melhor, da sua utilização, sem mais. Todos eles me parecem palavras que servem a catalogação e gosto pouco da estratificação da fé. Mesmo sabendo que não há nenhum crente igual. Mesmo sabendo que existem funções, dons e carismas diferentes. Faz-me impressão cá dentro e pronto. Católico significa universal ou pessoa que professa o catolicismo. Religioso ou é alguém que tem ou vive intensamente a religião, ou é alguém que se consagrou de forma mais intensa a Deus. Mas acho que os outros também são ou deveriam ser, no mínimo, seres algo religiosos. O consagrado é quele que se consagrou a Deus. Mas não deveríamos todos os que temos fé de nos consagrar a Deus? O fiel é aquele que tem fé e a ela cuida a fidelidade. Digo eu. O leigo é aquele que não tem as ordens sacras, não é padre ou religioso. Mas também designa, ao menos na nossa língua portuguesa, aquele que não tem conhecimento sobre determinado assunto. Que expressa certa ignorância acerca de alguma coisa. Que é desconhecedor. É o termo mais complicado de entender. 
De todos estes termos, o que menor inquietação me causa é o termo “cristão”, porque designa quem segue a Cristo ou ao Cristianismo. Mas os outros parecem-me, de certo modo, o resultado de uma terminologia burocrática e institucional. Tão assim, que a maioria dos cristãos não os entende nem os usa e, quando questionados sobre eles, pouco sabem. 
O que vale é que, diante de Deus, somos quem somos e nada mais. Somos um tu para Deus. Bem personalizado. Pouco categorizado. Amado por quem somos e não pelo que nos designa, mesmo que seja na fé.

domingo, maio 05, 2019

O avental [poema 214]

O avental da minha mãe nasceu noutra geração
Passou da idade, do tempo, de mão em mão
Vezes sem conta foi retalhado e arranjado
Por sua mãe e nossa mãe, a aquela que aí vem

O avental foi alfaiate, foi parteiro, foi faxineiro,
Foi enfermeiro, hospedou-me a mim, fui o romeiro
Trouxe-o, regalo do tempo da minha mãe

quinta-feira, maio 02, 2019

Rezar antes das refeições

Antes de cada refeição é meu costume rezar a pedir a Deus pelos que a proporcionaram e a pedir para que ela retempere as nossas forças. É um hábito que recebi em casa, da mão dos meus pais. Hábito que repito onde quer que esteja, em minha casa, em casa de algum paroquiano, no restaurante. Convido todos, mesmo os que não conheço muito bem ou com quem estou menos à vontade, a acompanhar-me. 
E assim, há dias, na casa de um dos meus paroquianos, numa festa de aniversário de um dos seus filhos mais pequenos, onde estavam mais uns quantos dos seus amiguinhos da mesma idade, formulei o mesmo convite e, antes que me persignasse e desse início à pequena oração, o pequenote que fazia anos disse, um pouco envaidecido, que costumava rezar todos os dias em casa antes de comer. Depois perguntou aos amigos se também rezavam em suas casas antes da comida. Nisto, um dos seus amiguinhos, com a maior das ingenuidades, respondeu que não. Que a sua mãe sabia cozinhar.

terça-feira, abril 30, 2019

Relojoeiro do tempo [poema 213]

Gostava de brincar aos relógios. Coleccionava
horas a rodar sempre para o mesmo lado
O lado que ele não sabia onde começava e terminava
Onde o fim se iniciava, rodava e rodava

Os ponteiros das horas nunca estavam sós. Estavam com o lugar
Onde se perdiam se os buscassse mais cedo ou mais tarde
À noite era mais fácil, porque o medo vem mas adormece
E a rodar continua, como relógio, no sentido dos ponteiros

sábado, abril 27, 2019

Jesus trabalha na farmácia

Depois das férias da Páscoa, uma das nossas catequistas, por sinal religiosa consagrada, regressou aos encontros que, de vez em quando, fazia na creche, com os petizes que tinham entre 4 e 5 anos de idade. Costumava contar-lhe muitas histórias à volta da grande história de Jesus. Como vinha mais que a propósito, começou a falar-lhes sobre os acontecimentos vividos na Páscoa. Sobre a Morte e Ressurreição de Jesus. Alguns deles tinham participado na encenação da via-sacra e, pelo que a catequista percebera, haviam interiorizado grande parte dos momentos encenados. Aproveitou a ocasião para afirmar que Jesus dera a vida, de verdade, porque era muito nosso amigo e que ressuscitara, voltara a viver para nós sermos muito felizes um dia, com Ele, no céu. 
Mas nisto, um dos pequenitos levantou a mão e disse. Olha, Jesus não morreu de verdade. Foi só faz-de-conta, a fingir. A catequista ficou estarrecida. E a criança continuou. Não sei se sabes, mas Jesus é o senhor Fernando e ele está vivo a trabalhar na farmácia. Pois é, reponderam os outros em coro. Sabes, catequista, os maus puseram-lhe uma coisa na cabeça, com picos, bateram-lhe com umas coisas mas não fazia doer, porque outros batiam numa tábua para fazer barulho. Tinha muito sangue, faz de conta, porque era tinta. Ele caiu na rua, mas levantou-se. E quando o pregaram numa cruz, o senhor Fernando disse umas palavras e fez assim. Ao dizer isto, inclinou a cabecita. 
A catequista já não sabia bem o que dizer. Tinha sido, de certo modo, desarmada. Entretanto, pegou nas palavras que acabara de escutar e começou a fazer a destrinça entre Jesus verdadeiro e o senhor Fernando, seu fiel seguidor, que tinha, de facto, encarnado de forma excelente, a figura de Jesus. Dizia-me a catequista que achava que eles haviam percebido a diferença entre Jesus, que deu a vida de verdade, e que ressuscitou, voltou a viver, e o senhor Fernando, que foi só faz de conta, por isso não morreu e continua a trabalhar, na farmácia. Pelo menos ficaram a conhecer melhor como foi que Jesus deu a vida por nós.

quinta-feira, abril 25, 2019

Madalena [poema 212]

Entrou pela porta fechada, em pranto
Ajoelhou diante de mim como um sacrário
Banhou-me os pés, lembrou-me alguém
Ouviam-se vozes por dentro das vozes
O grito vinha de um local que não sei
Abraçava o que sobrava das minhas pernas
Mendigava que não lhe desse nada, de nada
Entrou e saiu, surgiu e partiu, como um fantasma
Nem odor, nem rumor, dela não ficou nada
nada de nada

domingo, abril 21, 2019

Jesus morreu e ressuscitou aqui na minha terra

Foi isto que uma criança disse um dia depois de termos encenado a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Como ela era uma criança pequenina, a mãe deve ter-lhe explicado algumas coisas. E foi assim que ela se acercou de mim e me informou, para o caso de eu não saber, que Jesus tinha morrido e ressuscitado na nossa terra.
Era bom, era. Era bom que Ele morresse e ressuscitasse em cada um de nós, nas nossas terras, nas nossas vidas… 

Aproveito para desejar a todos os meus visitantes e amigos uma Santa Páscoa.
Que Jesus ressuscite nas nossas terras, nas nossas comunidades e nas nossas vidas!

sexta-feira, abril 19, 2019

Iouda Iskariôth [poema 211]

Há um precipício enorme no meu nome
Um fingimento entre o beijo e a emboscada
Um nome que é e não é, nunca sei quem sou
Farsa, perfídia, logro, trapaça ou cilada
De tanto, mas tanto, me transformei em nada.

Vendi meu corpo às pessoas e às árvores
No balanço da vida pendurei quem fui
Poderia ter renascido, todavia me perdi
Entre os pedaços de nomes que possuo
Com um precipício de um tamanho enorme
Sem Ti

terça-feira, abril 16, 2019

Luto [poema 210]

Eu vi o luto por entre a terra
Os juncos ao seu redor a correr como ponteiros
Não era negro. Não era senão dor. Rebento

As carpideiras saltavam de junco em junco
A gosto do tempo. Seduzido como amigo
desconhecido

E apareceste tu, carregado de muita gente
Mundos que o mundo levou com o vento.
As carpideiras passaram, os juncos pararam,
Tudo se silenciou
Num momento

E o luto voou como se tivesse nascido
Para morrer no tempo

sábado, abril 13, 2019

A tradição da procissão de Páscoa

O padre tinha a sua saúde bastante debilitada, A idade avançada também não o auxiliava. Arrastava-se mais que andava. Mas era dia de Páscoa e, como a tradição manda, depois da missa tem de haver procissão. Dizem assim as vozes religiosas que estão habituadas desta maneira. Com as tradições. O padre, no final da missa, que presidiu a um custo notório, fez uma pergunta. Tendo em conta o estado débil em que se encontrava, perguntou a quem o ouvia na assembleia se achavam que devia fazer a procissão ou não. Contou-me quem ficou chocado nesse momento, já lá vão uma série de anos, porque ninguém abriu a boca. Ninguém fora capaz de dizer que, para cuidar da sua saúde, melhor seria não se fazer a procissão. Como ninguém abrira a boca, o padre resignou-se e respondeu por eles. Assim sendo, faz-se a procissão, mesmo que não resista a meio dela. Continuou sem resposta. Fez-se a procissão. O padre, graças a Deus, não caiu. Poucos meses depois o padre faleceu. Não há causa efeito, como é óbvio. Mas há uma Páscoa que não se percebe muito bem se foi Páscoa se foi apenas mais uma tradição.

quarta-feira, abril 10, 2019

A Rosário, apertada pela vida

Só se lhe adivinhavam os olhos, porque brilhavam. De resto, estava tão agasalhada, tão coberta, que nada mais se via. Reparei que trazia um cachecol, um xaile, uma echarpe, umas coisas por cima das outras, a apertar, que o frio aperta. Vinha confessar-se, que o medo também aperta. Senhor prior, queria confessar-me. Não quero morrer em pecado. Quase todas as semanas, ou semana sim semana não, tenho de confessar a Rosário que tem medo de morrer em pecado. Desta vez, e antes de aceder ao seu pedido, quis saber porque fazia aquilo daquela maneira, aflita, apertada pelos andrajos e pela vida. Respondeu de chofre que tinha medo do castigo de Deus. A Rosário deve ser daquelas pessoas que passa o tempo da homilia a rezar e não ouve as minhas pregações que falam do Amor de Deus que não castiga. Ou então é daquelas que o tempo marcou por uma enformação exagerada do pecado, e por mais que ouça falar do Amor de Deus, apenas o sente quando se confessa e se livra de castigos. 
E mesmo antes de o fazer já estava a dizer. Não quero morrer em pecado, senhor prior. E era assim que vinha confessar-se porque a saúde já não é a mesma. Porque não sabe o dia e a hora e tem de estar confessada. Mesmo que o pecado sejam apenas umas pequenas falhas de atenção ou lucidez. A Rosário tem sempre de se confessar. Vive apertada pelos andrajos e pela vida. Vive apertada pelo medo de que Deus não se lembre dela quando, afinal, Deus tem o amor todo para dar a cada um de nós, como se nós fossemos tudo para ele.

sexta-feira, abril 05, 2019

Anjos caídos [poema 209]

Vieram do céu, em magotes, anjos sem véu
gotas de chuva dourada, estrelas candentes
cheias de céu

Vieram renascer, aqui pernoitar, no mundo
Nos seus mil braços, em mil e um pedaços

Chegaram, viveram, moraram
Sofreram, no mundo acordaram
pernoitaram
Na morte adormeceram

Subiram, voaram e para o céu voltaram
Como anjos caídos
do Céu

terça-feira, abril 02, 2019

A Adelaide prefere abraçar Deus

Não há muitas palavras que consigam traduzir como fiquei depois de escutar a Adelaide, que é uma senhora com alguma idade, reformada do ensino, viúva, mãe e avó. É uma cristã autêntica. Pelo menos no sentido em que procura a autenticidade da fé. 
No meio de um diálogo interessante e discreto, contou-me que, às vezes, perguntando-se a si mesma se tivesse que escolher entre abraçar Deus ou os filhos, ela escolhia abraçar Deus. Parece uma afirmação crua. Meio fanática. Meio despropositada. Mas eu sei que a sua afirmação é verdadeira. Tal como sei que, na terra, o seu amor maior são os filhos. Nunca se cansa de falar deles e com eles, apesar das distâncias. 
Por isso fiquei sem palavras. Fiquei sem chão. Não sei se algum dia eu conseguiria fazer tamanha afirmação de amor!

sexta-feira, março 29, 2019

as horas do relógio [poema 208]

A esta hora o relógio não costuma parar
Não pára senão quando anoitece,
No abraço de algum corpo entrelaçado
Deixa de ser presente e é passado
Morre. Quando tudo acontece.

A esta hora o relógio não quer parar
Roda sobre si mesmo, espelhando-se para fora,
Como se ele e o mundo fossem o mesmo
A realidade que se foi embora.

terça-feira, março 26, 2019

Gestos que parecem insignificantes e não são

Estão no 9º ano de escolaridade e vinham directamente de uma festa na escola para o encontro da Catequese. A catequista recebeu-os como habitualmente e eles entraram na sala da catequese como habitualmente, isto é, com o alarido habitual. Eles próprios dizem que estão numa idade parva. Mas a catequista gosta deles. O alarido nem sempre acalma. Às vezes dura o encontro quase todo. Mas a catequista não desiste de gostar deles. 
Naquele dia, o João, nome fictício, porque o nome acaba por ser o menos importante, abeirou-se dela com uma caixa de chocolates, abriu-a. A caixa era grande e só lhe restava um chocolate. Tome, catequista, disse o João, estivemos numa festa, na escola, e eu guardei este chocolate para a catequista. Era apenas um. Mas a catequista ficou muito emocionada, muito sensibilizada com a ternura do gesto. Dizia-me ela que a atitude adoçara mais o seu coração do que o próprio chocolate.

quinta-feira, março 21, 2019

poema de amor maior [poema 207]

Quero-te como cigarro que não se apaga. Respira-se
Para dentro. Como a via lactea em teu redor. Sem fim.
Em mim. Como fonte imaginária que me consome.
Para fora. Nunca te poderei dizer o tamanho do que sinto.
Inteiro, interior e eternamente. Eterno principalmente.
És um tudo que estás em nada. O que sou. Em mim
Existes como forma de amar. Sou em ti a palavra
Que não tem ponto final. Um poema teu de Amor
incondicional

Hoje, dia Mundial da poesia, achei que fazia sentido concluir o dia com um poema de amor ao Amor Maior, tantas vezes esquecido!

Rezar na verdade da dor

O dia começava a escurecer. Sentado no meu sofá de três pessoas, rezava a liturgia das horas. Rezava atentamente os salmos. Gostara imenso da leitura de São Tiago. Gastara uns minutos a gostar dela. Contudo, chegada a oração das preces, e ao ler “concedei-nos, Senhor, a graça de tomar parte na vossa paixão por meio dos sofrimentos da vida”, a minha oração terminou por ali. Ficou ali parada. Ou começou deveras e num estremecimento de verdade que doeu. Como ser verdadeiro numa oração com este teor, quando mal vem a aflição, o sofrimento, a doença, a morte de alguém querido, as preocupações, os azares da vida, os problemas por resolver, e a gente não só perde o chão, como perde tudo?! Não queria mentir a Deus, mas é muito mais fácil dizer estas preces com a facilidade da boca que com a verdade e dificuldade do coração.

segunda-feira, março 18, 2019

A Senhora Accabadora [poema 206]

Tocava piano como quem sobe e desce escadas
Sabia sempre quando terminava o teclado e não havia mais nada,
Tocava como a onda vai e vem e não volta, mas virá outra na volta
Outra melodia outra cantata

Tocava o piano de um antepassado sem passado, como nada
Antes dele, mar feito em ondas como história
Fora-lhe dado como prenda não merecida mas amada

Era a senhora que tocava como ondas numa escada

sábado, março 16, 2019

Preocupas-te em cumprir ou viver o que é aconselhado na Quaresma?

Na última sondagem, que indagava sobre os post preferidos de 2018, constatou-se que, supostamente, os melhores textos foram:
1. Os coitados
2. O Cristo escondido
3. Os óculos da paróquia 

Pode rever os resultados no seguinte quadro, e pode rever os melhores textos dos anos anteriores, aqui.
Hoje, e quase a aproximar-nos da Páscoa, propomos uma nova pergunta e uma nova sondagem, relacionada com este período litúrgico da Quaresma: “Preocupas-te em cumprir ou viver o que é aconselhado na Quaresma?”

quinta-feira, março 14, 2019

velho poema [poema 205]

Sou pássaro velho, com asas sem penas,
Perderam-se no último voo, a caminho de ti
Ou regressando de ti, já não sei dizer como foi.
Se foram oferecidas, se foram roubadas,
Se voaram sozinhas, se te ficaram agarradas.

Sou pássaro perdido, sem as penas que perdi,
Me perdi com elas no tempo do voo perdido
Sou pássaro ferido, e por não mais voar,
Troquei minhas penas por penas que são minhas

Ainda me lembro de tempos vividos a voar
O mundo era meu, entre tudo o que era nosso
Essa distância que nos ligava, em cada voo
Em cada lançada de abraços para enamorar

Hoje sou pássaro sem ninho,
Pássaro de asas sem penas,
Pássaro com muitas penas
por não poder voar, mas vou.
Vou por elas, continuar
o caminho até ao ninho
a andar

segunda-feira, março 11, 2019

A Camila e o que Deus lhe está sempre a dar

A Camila é uma boa rapariga. É uma boa mãe. É uma boa catequista. Eu atrever-me-ia a dizer que é uma boa cristã. Mas a vontade de nada é a vontade que tem mais vezes. Passa o tempo a queixar-se do que não tem, do que queria ter, do que anseia viver. Desta vez queixava-se de este ano só ter cinco crianças na catequese. Por isso perdera a vontade de dar catequese. No entanto, em cada encontro da catequese fica feliz por poder partilhar Deus com aquelas cinco crianças. Como é bonito vê-las a crescer. Cada uma delas. Dizia-me. Cada uma delas. 
As suas palavras foram a melhor ocasião para lhe recordar como Deus lhe dava tanto e ela achava sempre tão pouco. Deus dera-lhe cinco crianças para guiar, e ela achava pouco. Deus dera-lhe a oportunidade de servir e ser missionária junto destas crianças, mas ela insistia no desejo de ir para África como missionária. Deus dera-lhe uma comunidade cristã onde crescer e por a render os talentos que lhe dera, e ela continuava a desaproveitar esses dons, porque nem sempre a comunidade é como ela gostaria que fosse. Tentou interromper-me para murmurar baixinho que nunca lhe ocorrera este pensar. Porém, eu continuei o meu raciocínio, como se não a estivesse a escutar, lembrando-lhe que Deus estava sempre a dar-lhe coisas, oportunidades, soluções, e que ela insistia em desaproveitar grande parte delas, porque achava que era pouco ou que não era bem o que queria.

sexta-feira, março 08, 2019

O teu eu [poema 204]

Vou a marte, não sei se fica longe
E volto aqui, ao teu colo
Para te dizer que te amo com o tamanho da distância
Que nos separa

Vou e volto, depois volto de novo
para lá
Aguardarei que chegues
Num coche, a galope de quatro
cavalos com asas.

Saberei que és tu pelo perfume
E pela melodia dos cascos
No teclado, e ao final uma rúbrica

Serei eu o teu eu

domingo, março 03, 2019

A roupa suja

As casas pegam uma com a outra e são separadas apenas por um quintal. Simples, com umas couves misturadas com flores meio selvagens. O quintal é da vizinha Beatriz. Tem virado para lá uma das janelas da vizinha Eduarda. São muito amigas. Amigas sobretudo da conversa alheia. Encontram-se no muro do quintal, e dão um pé-de-meia de conversa fiada. O tempo, o sol, o frio, as batatas, e as outras vizinhas, como é óbvio. Não é por mal. É por hábito. Não é por mal. É para ter que dizer. 
O que a vizinha Beatriz não sabe é que a vizinha Eduarda a costuma vigiar da janela que dá para o quintal. Raramente a abre. Contudo, por entre o cortinado, lá vai dando uma espreitadela. Por isso, e já o comentou com uma das vizinhas do fundo da rua, descobriu que a vizinha Beatriz não é lá muito asseada. Atão não é que lava mal a roupa. Ou o detergente que usa presta pouco. Pois que, quando ela, por acaso, sempre por acaso, olha para a roupa da vizinha Beatriz estendida no quintal, as roupas estão, assim, a modos que, pouco limpas, para não dizer cheias de nódoas. Mas fica só entre nós. Repetia. Fica só entre nós. 
Há dias, porém, o marido da vizinha Eduarda, que gosta de tudo muito asseado e arrumadinho, chegou a casa mais cedo e foi fumar um cigarrito à janela que dá para o quintal. Mas quando ia para abrir a janela, reparou que esta já há uma boa temporada que não devia ver uma pano e um detergente, de tão suja que estava. Ó Eduarda, a ver se dás um jeito nesta janela, pois quase não dá para se ver através dela.
Afinal, não eram as roupas lavadas da vizinha que permaneciam sujas. A sua janela é que estava mal lavada. E assim se descobriu quem era, na verdade, a vizinha pouco asseada!
Lá dizia o outro: “Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?”

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

A importância do karaté na catequese

Num diálogo amistoso com a mãe de uma criança que frequenta a catequese, falávamos sobre o que era necessário ou não, o que era importante ou não na catequese. Eu dizia que era a "fé". Que se devia educar para a fé. A mãe dizia que era o "caracter". Que era formar o carácter. Que este era ainda mais importante que ir à missa, pois o que as crianças precisavam era de caracter.
Nisto, o filho, um petiz que frequenta o segundo ano da catequese, estando ao nosso lado e escutando-nos com entusiasmo, interrompeu-nos e disse. Eu tenho. Eu tenho isso, mãe. Todas as semanas. Eu tenho karaté todas as semanas.

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

A morte que não se espera

Numa semana uma média de um funeral por dia. Neste mês de Fevereiro, só no concelho onde estou já faleceram mais de trinta pessoas, e ainda não terminou o mês. Estes dias tem falecido muita gente por estas bandas. Agora que o digo é que o penso. Gosto mais do verbo falecer que do verbo morrer. Este último é mais cru. Mas talvez estas coisas sejam mesmo cruas. E nuas. Ou seja, despem-nos de todos os embrulhos que a nossa vida possa ter. 
Vivemos como se a vida aqui na terra não tivesse fim. Vivemos fazendo de conta que a morte não está ao virar da esquina. E quando ela passa da esquina para a rua onde moramos, deixamos que a morte tome conta de nós como se nunca mais houvesse amanhã. Dói. A morte dói. A morte entra-nos no coração para doer. E como dói, vivemos como se sobrevivêssemos. Esperando que cada doença e cada situação mais dramática não nos toque à porta, não entre na nossa casa, não nos faça sentir que a vida entre os mortais é só isto. 
Vou deitar-me com esta dor de vida, a pensar no funeral de amanhã. Mais um. Mais um não saber já que dizer na homilia. Mais uma dor de alma. Mais um pedir a Deus: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.

sábado, fevereiro 23, 2019

os sapatos de pedra [poema 203]

Despediu-se, descalçou-se e colocou pedras nos sapatos
Encheu-os, não as contou para não parecerem muitas
Para não parecerem pedra

Melhor era descalçar-se de tudo e desnudar-se
Deixar a roupa que usara a vida inteira e deixar-se
Na praia, à beira-água, para a maré levar, ao passar

Viverá como pedra a esperar, como sapato a vaguear
Solitário, pesado, robusto, apressado e lento, mas a
andar

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

coração [poema 202]

O meu coração bate, bate mesmo,
Bate-me por dentro
E irrompe pela pele
Ora sim ora não, como se numa hora fosse
e na outra não
Como se morresse
num segundo
Dentro do meu mundo
E voltasse depois à vida, a bater

Que regressasse para me abater

sábado, fevereiro 16, 2019

O último José

O último José a quem fui dar a Unção dos Doentes fez-me pensar para além de mim, para além da vida, para além da missão sacerdotal. Quando me deparei com ele, nos Cuidados Continuados, em primeiro lugar, recordo, esbocei um abraço. Só isso. Apertei-lhe, depois, a mão. Só isso. Falei com ele como se não estivesse onde estava. Aquela cama articulada onde o José permanecia com os olhos abertos, mas sem olhares, e com a boca entreaberta, mas sem palavras. Esbocei um abraço e apertei-lhe a mão como se fosse o outro dia em que nos saudámos com um aperto de mãos e trocámos duas ou três palavras sem jeito, com pouco nexo. O nexo das conversas triviais. O perguntar-se como se está e o dizer que se vai indo. Quando já era visível que o José não andava bem. Quando ao perto já se manifestava a sua doença e a debilidade. 
Creio que quem sofre sabe que está num estado diferente de quem o visita no sofrimento. Mesmo quando não expressam qualquer sinal de entendimento. E creio que só quando nos fazemos companheiros do caminho, sócios da jornada, quem sofre perceberá que não está só. Doeu-me aquele diálogo surdo de dois companheiros de uma viagem. Dois companheiros que não têm muito para dizer senão estarem juntos a fazer o caminho. Mas também não sei se ocorreu tal e qual. Talvez o tenha imaginado assim depois que presidi ao funeral deste amigo José.

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

A carta de um filho ao seu pai que partiu.

Chorei. Chorei porque as palavras me tocaram naquela parte de nós mesmos que chora, aquela parte íntima que não tem como se dizer. E depois chorei, ao pensar que na minha partida, os meus filhos não se vão despedir de mim, não me farão cartas bonitas destas. 
Era uma carta de despedida de um filho ao pai que partira por causa daquela maldita doença do cancro. A mesma que seis meses antes lhe levara a mãe. Gente com idade pouco acima dos cinquenta. Tudo ocorreu demasiado rápido, para que pudesse assimilar tanto sofrimento. Por isso descarregava na sua carta de despedida o que sentia. Passados três meses da mãe partir com muito sofrimento, os médicos haviam dito que o pai não tinha escapatória. Mas o filho tivera a oportunidade de dizer adeus ao pai naquela hora em que lhe apertou a mão e partiu. Fui tudo, apesar de doloroso, muito bonito. A beleza das coisas que nos ultrapassam no mistério. Vinham do médico e faziam uma série de quilómetros para chegar a casa. O pai estava, obviamente, esgotado e à base de morfina. Como dormia, não pararam na estação de serviço, como tinham previsto. O pai dera conta e pediu que parassem na seguinte. Esperou uns bons cinquenta quilómetros, e quando pararam, enfim, para descansar, o pai chamou os dois filhos que iam no carro, e disse o adeus mais bonito, ao agradecer o que eles tinham sido para ele. E partiu. No final da carta, o filho dizia, como testemunho de quem sofreu tanto em tão pouco tempo: “Não se zanguem. Não odeiem. Perdoem. Sorriam. Dêem. Partilhem. Digam que gostam. Abracem mais. Amem mais”. 
Grande filho que presta uma homenagem tão bela aos pais. Chorei. Por eles. Por tantos como eles. E por mim, porque gostaria de que um dia, alguém como um filho, me homenageasse de igual modo.

quarta-feira, fevereiro 06, 2019

Deus grande e insignificante, ao mesmo tempo

O filho da Alexandra teve um acidente. Não foi tão grave como podia ter sido. Foi assim que a Alexandra falou para as amigas. Já não sei se ouvi a conversa, se me foi contada. A Alexandra estava a falar com as amigas dizendo que podia ter sido muito pior, mas que o filho estava bem. Tem algumas escoriações no corpo, mas podia ser pior. Por isso agradecia a Deus, dizendo que Deus era grande e nunca lhe falhava. Misturava Deus e Nossa Senhora. Obrigado Meu Deus e obrigada minha Nossa Senhora de Fátima por protegerem o meu menino. 
Dei por mim a dar graças a Deus pelas palavras da Alexandra. De facto, como é bom quando reconhecemos a grandeza de Deus e da sua mãe. Como é bom reconhecermos a sua protecção. Como é bom reconhecermos que Deus nunca falta. Estava nestes pensamentos quando me lembrei que a Alexandra aparece pouco na comunidade. É daquelas mães que, se puder, leva o filho a outra paróquia para se crismar, porque não se importa que ele não tenha catequese. É daquelas pessoas que quase só aparece nos dias de funerais, festas, casamentos e baptizados. Não é má mãe. Nem posso ajuizar que seja má cristã ou que tenha uma fé muito insipiente. Contudo, ao pensar nas suas palavras e ao recordar a sua pouca vivência celebrativa da fé, não pude deixar de pensar, com pena, que, às vezes, só nos recordamos da grandeza, força e presença de Deus quando surgem aquelas ocasiões fatídicas na nossa vida. Como se Deus só existisse para nós quando precisamos d’Ele. Como se fizesse parte daquele grupo de amigos que apenas buscamos quando nos apercebemos que não nos bastamos. Não é mal dar conta de que acima de nós, só Deus nos pode sustentar. Mas é uma pena que, fora desses momentos frágeis, a nossa vida se centre em nós próprios, como se Deus não existisse. É uma pena só darmos conta que Deus existe nessas horas quando ele está em todas as nossas horas. 
É caso para dizer: será que Deus é tão grande que não cabe nas nossas vidas diárias?!

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

sondagem "best post" 2018

Depois de ler as vossas opiniões e adicionar-lhe a minha opinião, vamos colocar à votação os textos/prosa que parecem os melhores 10. Foi muito difícil fazer essa escolha. Agora, através da sondagem afixada, conto convosco para apurarmos, como em anos anteriores, os melhores três. Se quiserem lê-los de novo, têm o link respectivo abaixo da sondagem. Também podem justificar as vossas opções.
Apresentamos ainda as conclusões da anterior sondagem que perguntava: "Em termos cristãos qual destes foi, para ti, o maior acontecimento no ano 2018?" e onde se destacou a "Abertura da Igreja aos recasados", seguido do "Chumbo da legalização da Eutanásia" e o "Sínodo dos bispos sobre os jovens".

quinta-feira, janeiro 31, 2019

Não percebo porque é que são sempre os mesmos

Amanhã há uma formação com o tema tal, e aparecem aquelas pessoas que já sabemos que irão. Um dia destes temos retiro, e aparecem as mesmas pessoas. É preciso que se trate deste assunto ou daquele, quem limpe a igreja ou que trate do almoço tal, e são praticamente os mesmos. Vamos realizar um encontro da paróquia, uma viagem ou uma actividade cultural, e aparecem os mesmos. São os mesmos que nos dão alegria por serem eles que participam, por serem com quem contamos, quem nos segura a comunidade, quem garante a mesma comunidade, quem faz a paróquia ser uma paróquia. Mas não sei que dizer ou pensar dos outros oitenta ou noventa por cento de paroquianos, que até vão à Eucaristia, mas que não aparecem nunca mais!

sábado, janeiro 26, 2019

A leiteira de S. Paulo

Quando a jovem, entusiasmada, se dirigiu ao ambão para ler a segunda leitura, que era de S. Paulo aos Romanos e que estivera a preparar afincadamente, fez-se o natural silêncio na assembleia. A sua voz foi, como é hábito, amplificada pelo microfone. Graças a Deus que o silêncio não foi interrompido quando ela leu “leiteira da epístola de São Paulo aos Romanos”. O silêncio manteve-se, mas eu não aguentei. Já não me ria tanto para dentro como nesta ocasião. Deixei de ouvir o teor do texto. Imaginei o afamado apóstolo pela manhã, com os olhos enremelados, recebendo à porta de sua casa uma senhora com um pote de leite para vender. Era a sua leiteira. A senhora que lhe levava o leitinho fresco todos os dias, ainda ele mal acordara. Ó que maldoso fui! Reconheço. Menos mal que não me veio à lembrança nenhum animal que dá leite. Ri-me, ri-me e voltei a rir até conseguir compor-me na cadeira presidencial onde estava sentado. Não sei se fui o único a rir para dentro. Para fora, ninguém se manifestou. Pelos vistos, toda a gente decidira respeitar a leiteira de S. Paulo.

terça-feira, janeiro 22, 2019

"best post" 2018

Embora sabendo que não é o mais importante, parece-me que esta é uma forma de revermos textos, pensarmos de novo, e ajudarmos o autor deste blogue a verificar caminhos. Assim, peço a vossa ajuda para seleccionar aqueles textos/prosa que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes em 2018. Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Agradeço desde já a vossa participação e colaboração. Como nas outras ocasiões, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. Podem sugerir outros que não estejam nesta selecção. A mim fez-me bem relê-los. Pode ser que faça bem a mais alguém.

Nota que os poemas não entram nesta sondagem.
Quem quiser dar uma espreitadela aos "best post" de 2012, 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017 clique AQUI.