Estava ordenado há pouco tempo e fora enviado pelo seu bispo a estudar em Roma. Numa daquelas universidades famosas no meio eclesiástico. Encontraram-lhe alojamento num típico colégio de estudantes que eram, ao mesmo tempo, sacerdotes. Independentemente das virtudes deste jovem sacerdote, oriundo de um país de missão ad gentes e que não conheço nem quero ajuizar, contaram-me que, como no colégio se organizavam por grupos para executar algumas tarefas, e que lhe tocara levantar, com outros, as mesas do almoço e jantar de uma semana em cada mês, este sacerdote se dirigira ao director do colégio para lhe manifestar que não faria aquele serviço, porque, e cito: “isso colocava em causa a sua dignidade sacerdotal”. Claro que, à distância da realidade e das palavras no tom em que foram usadas, facilmente abrimos a mão para apontar com o dedo indicador. Mas depois descobrimos os restantes dedos, o médio, o anelar e o mínimo, a apontar para nós. Como de facto.
Parece-me muito fácil que nós, os consagrados, por nos termos entregue a Deus de uma forma total, ou quase total, caiamos na tentação de pensar que isso nos traz uma dignidade que Deus não concede aos outros. Ou que nos devem respeitar, não pelo que somos e porque somos, mas pela dignidade do nosso múnus sacerdotal. Ou, num extremismo despropositado, chegar a pensar que a Igreja, no seu conjunto e no povo que é de Deus, nos tem de agradecer porque já nos entregámos a Deus. Que tolice!
O ministério sacerdotal não é um privilégio. É uma forma de vida e missão. É uma vocação para os outros e não para nós. É um serviço. Nós é que temos de agradecer a quem nos dá a possibilidade de viver essa missão.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer vir jantar connosco?"
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer vir jantar connosco?"