Mostrar mensagens com a etiqueta serviço. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta serviço. Mostrar todas as mensagens

domingo, julho 12, 2020

O ministério sacerdotal não é um privilégio

Estava ordenado há pouco tempo e fora enviado pelo seu bispo a estudar em Roma. Numa daquelas universidades famosas no meio eclesiástico. Encontraram-lhe alojamento num típico colégio de estudantes que eram, ao mesmo tempo, sacerdotes. Independentemente das virtudes deste jovem sacerdote, oriundo de um país de missão ad gentes e que não conheço nem quero ajuizar, contaram-me que, como no colégio se organizavam por grupos para executar algumas tarefas, e que lhe tocara levantar, com outros, as mesas do almoço e jantar de uma semana em cada mês, este sacerdote se dirigira ao director do colégio para lhe manifestar que não faria aquele serviço, porque, e cito: “isso colocava em causa a sua dignidade sacerdotal”. Claro que, à distância da realidade e das palavras no tom em que foram usadas, facilmente abrimos a mão para apontar com o dedo indicador. Mas depois descobrimos os restantes dedos, o médio, o anelar e o mínimo, a apontar para nós. Como de facto. 
Parece-me muito fácil que nós, os consagrados, por nos termos entregue a Deus de uma forma total, ou quase total, caiamos na tentação de pensar que isso nos traz uma dignidade que Deus não concede aos outros. Ou que nos devem respeitar, não pelo que somos e porque somos, mas pela dignidade do nosso múnus sacerdotal. Ou, num extremismo despropositado, chegar a pensar que a Igreja, no seu conjunto e no povo que é de Deus, nos tem de agradecer porque já nos entregámos a Deus. Que tolice! 
O ministério sacerdotal não é um privilégio. É uma forma de vida e missão. É uma vocação para os outros e não para nós. É um serviço. Nós é que temos de agradecer a quem nos dá a possibilidade de viver essa missão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer vir jantar connosco?"

segunda-feira, abril 27, 2020

A Igreja que está para vir

Há um abalo em tudo à nossa volta. Mesmo na Igreja. Tanto no seu todo como na sua hierarquia. Faço figas, porém, para que seja um abalo positivo. Rezo todos os dias com essa intenção. E há, de facto, algo positivo que tenho vindo a descobrir. Cresce pouco a pouco, mas cresce. É a "Igreja doméstica"! A Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. Uma Igreja que se reunia em casa e onde as celebrações eram presididas pelo dono do lar. 
O problema é que, ao longo dos tempos, o clero foi-se apoderando ou apropriando da Igreja e dos sacramentos, mesmo que o tenha feito sem intenção, transformando a Igreja de Cristo numa Igreja piramidal, vertical, clerical. E habituou os crentes a esse modelo. Um modelo de Igreja dependente dos bispos e dos seus padres. Por isso, talvez muitos crentes tenham perdido o foco e se tenham sentido algo desamparados nestes tempos de difícil acesso aos seus padres. Pelo menos o acesso presencial. 
É claro que precisamos de uma “ordem”, como dizia Anselmo Borges numa entrevista que me fez pensar. Por isso precisamos de ministros ordenados. Precisamos de “organizar”. Mas não podemos fazer depender deles a Igreja que é de Cristo e de todos.
Será que a Igreja que está para vir vai ser mais laical e menos clerical?! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"

terça-feira, abril 14, 2020

Linhas da frente

A minha sobrinha enfermeira foi para a linha da frente no combate à pandemia que alastra vírus e pânicos. Como muitos outros. Como tantos. Como tantos a quem temos de agradecer muito! 
Na ocasião que informou a família, não tive tempo para medir as palavras ou os pensamentos. Disse-lhe o que pensava, embora o fizesse com o coração nas mãos. Com o coração apertado nas mãos. Na minha humilde opinião, é mais maravilhoso que melindroso ir para a linha da frente! Ter nas mãos a possibilidade de ajudar, é uma das coisas mais bonitas que o ser humano tem ao seu alcance numa ocasião como esta! Deveríamos viver para ajudar a viver. Por isso fiquei orgulhoso por ela e com ela. Apreensivo, mas orgulhoso. Pedi-lhe que não desvalorizasse nunca o cuidado e a precaução. Sem medo, mas com consciência de que devia também cuidar dela para poder continuar a cuidar dos outros! 
Cuida-te. Eu rezarei por ti, e através de ti, por todos os que como tu, estarão nessa linha. E assim, a rezar, espero estar na linha da frente!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Silvina tem agora mais uma razão para viver"

quarta-feira, julho 10, 2019

Quanto mais acredito, menos faço

Um padre amigo e sábio disse-me um dia que quanto mais acreditava, menos fazia. Eu estava ciente e seguro de que devia ser ao contrário. Que quanto mais motivados pela fé, mais entusiastas da acção deveríamos ser. Que tolice a minha. E não era exagero da juventude que possuía nesse tempo. Era a tolice de quem se convence que a sua acção vai salvar tudo o que encontrar pela frente. Como se essa salvação dependesse de nós. Tão tolo. Hoje percebo um pouco melhor a frase daquele meu amigo. Não a levo à letra. Nem conseguiria. Mas tento. Talvez no meu pouco que faço surja o muito de Deus. Talvez menos activo, eu não me confunda com a sociedade, relações e religiosidade consumistas. Sim, porque nós vivemos numa sociedade que consome bens, numa afectividade que consome pessoas e numa igreja que consuma ritos e gestos religiosos. Talvez a nossa melhor acção seja Ser. Ser para amar e ser amado por Deus.

segunda-feira, março 11, 2019

A Camila e o que Deus lhe está sempre a dar

A Camila é uma boa rapariga. É uma boa mãe. É uma boa catequista. Eu atrever-me-ia a dizer que é uma boa cristã. Mas a vontade de nada é a vontade que tem mais vezes. Passa o tempo a queixar-se do que não tem, do que queria ter, do que anseia viver. Desta vez queixava-se de este ano só ter cinco crianças na catequese. Por isso perdera a vontade de dar catequese. No entanto, em cada encontro da catequese fica feliz por poder partilhar Deus com aquelas cinco crianças. Como é bonito vê-las a crescer. Cada uma delas. Dizia-me. Cada uma delas. 
As suas palavras foram a melhor ocasião para lhe recordar como Deus lhe dava tanto e ela achava sempre tão pouco. Deus dera-lhe cinco crianças para guiar, e ela achava pouco. Deus dera-lhe a oportunidade de servir e ser missionária junto destas crianças, mas ela insistia no desejo de ir para África como missionária. Deus dera-lhe uma comunidade cristã onde crescer e por a render os talentos que lhe dera, e ela continuava a desaproveitar esses dons, porque nem sempre a comunidade é como ela gostaria que fosse. Tentou interromper-me para murmurar baixinho que nunca lhe ocorrera este pensar. Porém, eu continuei o meu raciocínio, como se não a estivesse a escutar, lembrando-lhe que Deus estava sempre a dar-lhe coisas, oportunidades, soluções, e que ela insistia em desaproveitar grande parte delas, porque achava que era pouco ou que não era bem o que queria.

segunda-feira, novembro 12, 2018

A limpeza da Igreja

A mãe ia sair de casa, apressada, quando o filho mais velho, que já anda na universidade, lhe perguntou, intrigado, onde ia àquela hora. Seriam umas duas horas da tarde de Sábado. É que ainda, por cima, já era costume vê-la sair porta fora nos sábados anteriores. Pelo menos uns três ou quatro. A mãe respondeu que ia, mais umas amigas, limpar a Igreja. O filho, mais intrigado, perguntou-lhe porque ia fazer isso, se ele, quando ia à Igreja a encontrava sempre limpa. Para que era necessário ela ir limpá-la se ela estava sempre limpa. E a mãe respondeu que estava limpa exactamente porque havia senhoras, na comunidade cristã, que, tal como ela, todas as semanas se juntavam para limpar a Igreja

sexta-feira, maio 25, 2018

Não percebo porque é que são sempre os mesmos

Amanhã há uma formação com o tema tal, e aparecem aquelas pessoas que já sabemos que irão. Um dia destes temos retiro, e aparecem as mesmas pessoas. É preciso que se trate deste assunto ou daquele, que se limpe a igreja ou se trate da refeição tal, e são praticamente os mesmos. Vamos realizar um encontro da paróquia, uma viagem ou uma actividade cultural, e aparecem os mesmos. São os mesmos que nos dão alegria por serem eles que participam, por serem com quem contamos, quem nos segura a comunidade, quem garante a mesma comunidade, quem faz a paróquia ser uma paróquia. Mas não sei que dizer ou pensar dos outros oitenta ou noventa por cento de paroquianos, que até vão à Eucaristia, mas que não aparecem nunca mais!

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Eu na periferia

Estou triste comigo. Com uma daquelas tristezas que se transpiram pelos poros e que, por mais que se use um perfume ou um desodorizante, cheiram a bafio. Fiquei triste comigo há cerca de uns quinze minutos, lá pelas vinte e uma horas da noite, quando bati à porta de um pobre daqui da terra. Com a agravante de que para saber a morada, tive de pedir a alguém que me ajudasse. Sinto agora que isso era uma agravante porque estou a pensar nela. Os meus motivos eram bons. Não posso dizer que não eram bons! Mas depois que a senhora me abriu a porta, dei conta que esta não me conhecia. Sabia que eu era o padre porque alguém a avisara que eu daria por lá um salto. Claro que me posso desculpar dizendo que ela não me conhecia porque não vai à missa. No entanto, não posso por o acento da situação nela. Tenho de o por em mim. E se ela não me conhece é porque nunca me dera a conhecer. Porque nunca batera à sua porta. Porque não fora ao seu encontro. Ao encontro da sua pobreza. Da sua periferia. E agora estou triste porque, afinal, não sou o padre que deveria ser.

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Um estacionamento especial

Foi numa dessas viagens para um destino meio conhecido que tive de estacionar o carro num local desconhecido. De entre os espaços para o acomodar, aquele pareceu-me o melhor. Mas como o carro é novo, fiquei desconfiado sobre se seria o local mais abrigado dos amigos do alheio. E nisto vi rondar, a poucos metros, uns indivíduos estranhos, dos tais que aparentam gostar daquilo que não é deles. Olha o que fui pensar. Fiz o que tinha a fazer e regressei tão depressa quanto pude. Já dentro do carro, e depois de observar se me faltava algo, constatei que estacionara junto a um portão enorme e que por detrás se vislumbrava um edifício igualmente enorme. Naquele momento abre-se parte do portão, e de lá sai uma irmã, uma freira, como lhe quiserem chamar. Era uma senhora vestida de hábito. Era uma consagrada, que trazia na sua mão dois sacos que, percebi depois, continham comida. Os dois indivíduos, separadamente e de forma sorrateira, olhando para a esquerda e para a direita a ver se alguém os acompanhava com o olhar, abeiraram-se da irmã, e receberam cada um seu saco, junto com um sorriso e uma troca de palavras que não deu para escutar. Liguei o motor do carro a sorrir para dentro, e saí daquele lugar magnífico que uns minutos antes me fizera desconfiar. 
Vejam o que a gente pensa e o que devia pensar.

quinta-feira, setembro 22, 2016

José, de personagem secundária a modelo principal

Cada vez gosto mais do José, a figura secundária da cena da encarnação, aquele que não foi tido nem achado para que o Filho de Deus encarnasse, aquele que continuou no anonimato das páginas da Escritura. 
Num mundo extremamente varonil, onde a mulher ocupava um segundo plano, assistimos a uma personagem que, sendo homem, ocupa o segundo plano, o plano daqueles que não centram o olhar da nossa atenção. É aquela personagem sem a qual o filme não seria a mesma coisa, mas sobre a qual poucos ficam a falar após o fim do filme. E foi este José que aceitou este segundo plano, um plano sofrido, porque nem sempre entendia o que se passava. E quando a sua amada apareceu grávida, aparece este homem, modelo de misericórdia para as famílias e matrimónios de hoje, modelo de misericórdia porque põe em primeiro lugar aqueles que ama, Jesus e Maria.

quarta-feira, maio 18, 2016

O senhor padre está aqui para servir

Não se passou, mas podia passar-se assim. Imaginei uma qualquer senhora no meu encalço para que lhe acedesse a um desejo. Um desejo daqueles que, embora plausíveis, são inadequados ou pouco possíveis. Imaginei um daqueles pedidos relativos a uma missa numa hora que lhe seria agradável e num horário que me seria impossível. Ou um baptismo desta ou daquela forma, distinto do sacramento. Ou um papel urgente de um registo que não existe. Coisas assim que ocorrem muitas vezes e diariamente aos padres. 
Imaginei a senhora de olhos, primeiro arregalados e cheios de ternura para convencerem, e depois arregalados, abertos e carregados, para insinuarem, dizendo. O senhor padre está aqui para servir. 
E não é que tinha razão! Essa é a nossa missão, ao ponto de estarmos ou devermos estar para o outro como ele necessita. Era verdade o que ela dizia. Esquecia porém que, como um pai serve mais o que os filhos precisam do que o que os filhos desejam, eu deveria servir o que ela necessitava e não o que queria. Esquecia porém que não se consegue dar pão quando só se tem a farinha, ou não se consegue fazer omeletas se não se tem ovos. Esquecia porém que mais do que servir cada homem, eu estava para servir Deus em cada homem. Não sabia, cuido eu, a distinção entre bens que queremos e o Bem Maior. E que era esse que eu gostaria de servir!

quarta-feira, abril 13, 2016

As partilhas da D. Amélia

A dona Amélia tem um quintal grande. Couves, cenouras, alhos, batatas, salsa e por aí fora. É um quintal onde abundam aquelas pequenas coisas que se fazem grandes nas nossas cozinhas.
Contaram-me que a dona Amélia era muito generosa. Nada que eu não soubesse já e em primeira pessoa. Contaram-me porém ou entretanto que às vezes chegava à casa ou à porta de algumas pessoas e deixava sacos da sua horta. Contaram que muitas dessas pessoas nem a conheciam. E ela dizia que não importava. E deixava o saco com as couves e as batatas. 
A Amélia é mulher de fé. É discreta. Poucos sabem destas coisas que ela faz. Mas faz, e fá-lo a quem quer que seja porque não espera um obrigada. Não espera receber nada em troca. Dá porque quer dar. Dá por amor. Partilha como poucos sabem o verdadeiro significado da palavra. 
Que bom que é ter assim paroquianos!

terça-feira, setembro 22, 2015

É possível fazer Igreja sem sacramentos?

Estávamos à mesa de um café vários padres, pouco conhecidos na verdade, mas unidos pelo mesmo ideal, o sacerdócio. As diferentes idades e experiências eram patentes na conversa. Uma deles era missionário. Estivera vários anos na Amazónia, no Brasil, no meio de uma população indígena. Totalmente indígena, referia, no sentido de que estavam afastados do mundo civilizado, nómadas, índios que viviam da terra, da pesca e da caça como já só se vê em filmes. Um outro colega de uma geração mais velha que a minha perguntou-lhe como faziam, que faziam, como evangelizavam. E o padre missionário respondeu que apenas estavam com eles, que os ajudavam a procurar, por exemplo, deixar de se guerrear. O padre mais velho voltou com nova pergunta sobre como eram os baptismos, e o padre missionário informou que não tinham feito nenhum. Que a vida e cultura deles era muito diferente da nossa. E que Deus estava e manifestava-se por lá de outra forma. Que alguns dos índios se questionavam do que faziam lá três homens que se chamavam padres, e chamava-lhes a atenção do que faziam de diferente. Mas em termos daquilo que é a fé que nós conhecemos aqui na Europa, talvez tivessem dado poucos passos.
O padre mais velho, evitando demonstrar o seu escândalo, repetiu a pergunta. Ou melhor, fez a mesma pergunta de outro modo. Mas a resposta foi a mesma.
Eu, pessoalmente, fiquei encantado por perceber como a nossa missão sacerdotal não passa pelo proselitismo, mas pelo mostrar ou manifestar Deus através da nossa vida e acções. Fiquei encantado por perceber que Deus está muito para além do baptismo e qualquer outro sacramento. Muito para além da Igreja e da minha fé. Afinal Deus não pode nunca formatar-se, enformar-se. Ele entra em tudo e em todos de formas tão variadas, tão impensáveis. Mas entra.

sábado, fevereiro 14, 2015

Gostava de ter os melhores paroquianos do mundo

Gostava de ter os melhores paroquianos do mundo. Aqueles que não incomodam, que não criticam, que não se queixam, que não pedem coisas sem sentido ou que sejam difíceis de conceder, que sabem rezar e rezam, que conhecem bem a Deus, que possuem uma grande fé.
Gostava de ter os melhores paroquianos do mundo. Quase como se fossem de outro mundo! Sim, porque ao procura-los, não os encontro neste mundo. E se os houvesse assim, porque precisariam de mim? E que dizer do meu desejo de que os outros fossem os melhores quando eu não o consigo ser?
Ainda bem que os meus paroquianos não são os melhores do mundo, porque também não têm o melhor pároco do mundo. Ainda bem que eles precisam de mim, assim. Como eu preciso deles, assim. Ainda bem que podemos caminhar juntos.

sábado, junho 28, 2014

a solidariedade não se faz de cima para baixo

O Carlos que é meu sacristão, vive no limiar da sociedade que quase não tem dinheiro para viver. Faz parte daquele grupo que precisa de quem lhe estenda a mão. Não tem rendimentos nem segurança social. Tem o que a paróquia e os biscates no campo lhe dão. Por isso, sempre que posso ou sempre que o meu coração pede, abro mão dos dinheiros que trago no bolso, entre outras partilhas maiores ou menores. Preocupo-me com ele, como muitos na paróquia se preocupam com ele, e ele sabe. Preocupo-me que não lhe falte nada, até porque lhe tenho uma admiração de santidade. Ninguém precisa saber destes gestos, mas ele sabe.
Há dias fui convidado a almoçar na casa de uns paroquianos que fizeram questão de acrescentar Traga o seu sacristão. Fiquei imensamente feliz por levá-lo comigo. No final da refeição, já não sei a que propósito, o Carlos manifestou o bem que eu lhe fazia. Ouvi e emendei, na frente de quem ouviu. Carlos, por mais que eu lhe faça bem, isso nunca será tanto como aquilo que me tem feito de bem. O que lhe tenho dado é muito pouco comparado com o que ele me tem dado. Ele calou, mas eu aproveitei para pensar. E pensei que a solidariedade não pode ser olhar o outro com pena, como um coitadinho que eu ajudo. Não. Não é ver o outro como um coitadinho. Não é vê-lo de cima. Mas vê-lo de lado, ou melhor, de frente. Com o Carlos isto é até mais fácil do que com os outros pela admiração de fé que lhe tenho. Mas a solidariedade para ser autêntica não pode ser feita de cima para baixo, mas de frente.

quarta-feira, janeiro 29, 2014

As batatas do Carlos que é meu sacristão

Por alturas do Natal passado, a minha despensa viu os baldes de batata esvaziarem-se. Restavam umas três ou quatro batatas que já nem davam para uma sopa em condições. Ora, como o Carlos, que é meu sacristão, conhece e é conhecido por toda a gente aqui na terra, enquanto nos preparávamos para a Eucaristia, ousei perguntar-lhe se conhecia alguém que tivesse lá umas batatitas e não se importasse de as partilhar. Acenou com a cabeça, para cima e para baixo, que quer dizer sim. Ergui os ombros, alcei o pescoço e fiz uma beiça em forma de pergunta e, percebendo que eu lhe perguntara Quem, respondeu-me que ele tinha. E sorriu. Intuí que tivesse vários sacos ou baldes delas na arrecadação. Aqui o ingénuo nestas coisas, que sou eu, não sabia nem sabe que esta não é altura para ter arrobas de batatas em casa. A resposta dele é que mo ensinou. Já tenho poucas, senhor padre. Mas como o conceito de poucas é sempre muito relativo, insisti em saber o que eram essas poucas. Eram apenas um saquito ou dois. É óbvio e lógico que eu não tive coragem de lhe pedir nem uma mão cheia delas. O Carlos faz parte do grupo de pessoas que vive com meia dúzia de euros e com o que o quintal lhe oferece. Mesmo pagando-as, ele ficaria sem elas e eu não queria isso. O assunto encerrou por ali, mas não no coração do Carlos que é meu sacristão. Ao outro dia de manhã, quando saí à rua, tinha uma saca de batatas à porta. O Carlos levantara-se cedo para que não faltassem as batatas para o almoço do senhor padre.
O meu olhar demorou-se nas batatas, e nelas recordei o Evangelho de Lucas e o episódio daquela pobre viúva que deitara duas pequeninas moedas de cobre na caixinha de esmolas. Jesus observava e comentara que ela deitara mais que os ricos que ali haviam deixado fortunas, porque ela dera tudo o que tinha para viver.
É assim o Carlos que é meu sacristão.
 
rever

segunda-feira, outubro 28, 2013

A irmã Graça

A irmã Graça tem o tamanho que tem. É a irmã mais baixa da comunidade religiosa que a minha paróquia tem. Há dias uma outra irmã da comunidade completou mais um aniversário. Teve direito a surpresas quanto baste. Esta não cabia em si de alegria. Porém, ao olhar para a irmã Graça, o seu rosto de alegria parecia ainda maior. Muito maior que o seu tamanho. Se a irmã aniversariante não cabia em si de alegria, a alegria da irmã Graça não cabia no tamanho da irmã aniversariante. Estava feliz com a felicidade da irmã que, na mesma comunidade, fazia anos. Regressei a casa, encantado pelo tamanho da irmã, tão grande. Assim acontecesse na comunidade cristã com a alegria e o sucesso dos outros cristãos. Assim acontecesse entre o clero, com a alegria e o sucesso dos colegas. E fiquei a meditar com o testemunho cristão da irmã Graça, que de pequena, só deve ter o tamanho.

quinta-feira, junho 06, 2013

Os ordenados dos padres

Um jovem de idade mais parecida com a minha do que com a dos jovens no vigor da idade, dizia-me em conversa, com uma certa admiração para comigo e que me deixou admirado com ele, que eu devia receber muito dinheiro. Não o disse como quem perguntasse ou desdenhasse, mas para afirmar que eu merecia um enorme ordenado, dado que o que fazia dava sempre algum fruto, ou de outra forma, onde tocava, algo de bom acontecia. Foi esta a explicação que me deu. Claro que fui para casa preenchido, como se não houvesse um cantinho em mim onde pudessem caber outras coisas, sobretudo as minhas fragilidades. Umas horas mais tarde, em conversa telefónica com um colega, assim como quem não quer a coisa, mas até quer, contei-lhe o sucedido. Este respondeu-me da seguinte forma, que me deixou com um espaço enorme para preencher com as minhas fragilidades. O que fazes, fazes a pensar em ti ou para ti, ou em Deus e para Deus? Eu esclareci-lhe que era em Deus, ou que às vezes era o que tinha de ser feito. E ele acrescentou. É que se fazes as coisas a pensar em ti, deverias receber muito mais dinheiro. Mas se as fazes a pensar em Deus, até o que recebes é demais.

sexta-feira, maio 17, 2013

A história do meu pai

No meio da nossa conversa de bastidores, isto é, de sacristia, enquanto chegava a missa e não, a Adelina ia contando a história de uma familiar que estava doente. A doença que todos temem. O Cancro. O que lhe valia era a fé. Eu lembrei e lembrei-lhe a história da minha mãe. Depois falei do meu pai. Que o que lhe tinha valido na morte da minha mãe tinha sido a fé. Assim como ao resto da minha família. E às tantas ela contou algo, que pelos vistos, há bastante tempo tinha vontade de partilhar comigo. Logo pouco depois de eu vir aqui para a paróquia, encontrara o meu pai no hospital, onde este faz voluntariado, e perguntara-lhe que fazia ali. E que o meu pai respondera prontamente. Sabe, comecei isto com a minha mulher. A minha mulher era santa. Depois de ela morrer, eu tinha de continuar o trabalho dela. A missão dela. Eu acrescentei cá para comigo. A missão de santidade dela. Não sabem vocês como me soube bem celebrar a missa a seguir.

terça-feira, abril 09, 2013

é assim que me apetece ser padre

Começou por pequenos desabafos. Continuou num grande desabafo. Prolongou-se por vários meses em inúmeros desabafos ou inúmeras vezes o mesmo desabafo. Todos os dias procurava em mim uma resposta, uma palavra, uma atenção, um refúgio. Algumas vezes era maçadora, cansativa, exigente. Eu respondia à medida da minha disponibilidade. Mas respondia. Penso que até correspondia. Já lá vão vários meses, e há dias a pessoa que me contactava por email perguntou porque é que eu não a abandonava. Porque é que eu ainda lhe respondia às canseiras e desabafos. Se e porque é que eu precisava dela. E eu respondi de coração. Não te abandono porque Deus não te abandona. Quero precisar de ti porque Deus quer precisar de ti. Depois perguntou porque motivo eu era assim e dizia aquelas coisas. E eu respondi. Porque sou padre e é assim que me apetece ser padre.