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quinta-feira, agosto 20, 2020

Os sucessos pastorais não são nossos

A vida de um padre não depende dos sucessos pastorais ou apostólicos. Não depende do que fazemos nem do que conseguimos alcançar com o que fazemos. Não depende de momentos entusiastas em que a nossa existência e missão parecem fazer sentido. A vida de um padre depende exclusivamente de Deus. 
O padre não é padre porque seja perfeito. Ou porque seja impecável. Ou porque possua muitas capacidades. Ou ainda porque seja místico ou santo. O padre é padre porque um dia Deus quis que ele fosse padre. Que deixasse Deus actuar de uma forma especial através dele. Por isso a vida de um padre também não se deve deter nas fragilidades que o apoquentam, mas na força de Deus. Dizia S. Paulo que nas fragilidades se fazia forte. Dizia que era através das suas fragilidades que a força de Deus se manifestava. Os frutos do trabalho do apóstolo eram os frutos do trabalho de Deus. 
Os frutos, os sucessos, as vitórias da nossa missão apostólica, são os passos que Deus vai dando através de nós.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As flores que valem vidas"

domingo, julho 26, 2020

Abandono em tempos de pandemia

No país que mora ao lado do nosso, Espanha, segundo um estudo que me pareceu fidedigno, o número de católicos diminuiu cinco pontos percentuais em dois meses, de abril a junho, isto é, em dois meses de pandemia e confinamento. É uma observação um pouco estranha, na medida em que dois meses não são dois anos, e as pessoas não mudam o seu entendimento da vida e da fé em tão pouco tempo. Ou se calhar mudam. Não sei. O que sei é que a assiduidade à eucaristia, sobretudo nas paróquias urbanas, tem diminuído. Pelo menos parece-me, do que vou ouvindo e vendo. 
Jesus não falou de templos ou igrejas, é verdade. Também não organizou propriamente uma religião. A fé, acima de tudo, vive-se. Mas também se alimenta nas celebrações. Precisa de se alimentar. Estes tempos frágeis e de abandono dos templos poderiam ter o lado positivo de se religar a fé ao Evangelho, mais que aos sacramentos. Temo, porém, que, dentro da sociedade líquida, pluralista e pos-secularista em que vivemos, o abandono seja mais a consequência do modo social de ver a fé e a igreja ou a religião. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As nossas paróquias estão a morrer"

domingo, julho 12, 2020

O ministério sacerdotal não é um privilégio

Estava ordenado há pouco tempo e fora enviado pelo seu bispo a estudar em Roma. Numa daquelas universidades famosas no meio eclesiástico. Encontraram-lhe alojamento num típico colégio de estudantes que eram, ao mesmo tempo, sacerdotes. Independentemente das virtudes deste jovem sacerdote, oriundo de um país de missão ad gentes e que não conheço nem quero ajuizar, contaram-me que, como no colégio se organizavam por grupos para executar algumas tarefas, e que lhe tocara levantar, com outros, as mesas do almoço e jantar de uma semana em cada mês, este sacerdote se dirigira ao director do colégio para lhe manifestar que não faria aquele serviço, porque, e cito: “isso colocava em causa a sua dignidade sacerdotal”. Claro que, à distância da realidade e das palavras no tom em que foram usadas, facilmente abrimos a mão para apontar com o dedo indicador. Mas depois descobrimos os restantes dedos, o médio, o anelar e o mínimo, a apontar para nós. Como de facto. 
Parece-me muito fácil que nós, os consagrados, por nos termos entregue a Deus de uma forma total, ou quase total, caiamos na tentação de pensar que isso nos traz uma dignidade que Deus não concede aos outros. Ou que nos devem respeitar, não pelo que somos e porque somos, mas pela dignidade do nosso múnus sacerdotal. Ou, num extremismo despropositado, chegar a pensar que a Igreja, no seu conjunto e no povo que é de Deus, nos tem de agradecer porque já nos entregámos a Deus. Que tolice! 
O ministério sacerdotal não é um privilégio. É uma forma de vida e missão. É uma vocação para os outros e não para nós. É um serviço. Nós é que temos de agradecer a quem nos dá a possibilidade de viver essa missão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer vir jantar connosco?"

sábado, junho 20, 2020

A Igreja do relacional

O artigo era duro de ler. Tentei diminuir-lhe o tamanho no coração. Falava de alguns padres que, por desespero, tinham perdido a força de viver. Dava exemplos concretos, usava nomes concretos, tratava números e dados concretos. Dizia que a vida religiosa não dava superpoderes aos padres e que em muitos casos a fé não era forte o suficiente para superar momentos difíceis. Excesso de trabalho, falta de lazer, perda de motivação. O grau de exigência enorme. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade. Qualquer deslize, por menor, que seja, torna-se alvo da multidão que vive para apontar dez dedos aos outros. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes, pelos visto, têm de estar sempre prontos e com sorrisos rasgados. 
Os padres não deviam estar sozinhos. Pelo menos não deviam fazer a vida sozinhos. O comum das pessoas tem, habitualmente, o lado da vida mais profissional e o lado mais relacional. Quando um comum cristão chega a casa do seu emprego, desliga o interruptor do emprego e liga o interruptor do relacional mais próximo. Nós, padres, chegamos a casa, e mantemos o interruptor do profissional sem relacional. Somos profissionais do sagrado sem segundos para o não ser. Falta-nos sermos ou sentirmo-nos comuns cristãos. Não me parece que baste o alimento espiritual dos padres. Na minha modesta opinião, é necessário reorganizarmo-nos como Igreja. Enquanto a vida das comunidades se centrar nos padres, eles não serão apenas mais um membro da comunidade, ainda que com grandes responsabilidades. Serão sempre o foco da comunidade. O alvo. Por isso as pessoas quando falam da comunidade falam dele, pensam nele, apontam para ele. Por isso gosto pouco desta Igreja que deposita no clero a essência do caminho da fé, mesmo que seja feito em comunidade. E sonho com uma Igreja que abraça todos em caminho. Uma verdadeira comunidade onde o relacional esteja acima do doutrinal, do funcional, e até do sacramental. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o 'tem de'"

terça-feira, junho 16, 2020

a verdade anda cada vez mais longe da verdade

Uma das minhas paroquianas é uma assídua frequentadora da net, sobretudo redes sociais, na procura constante por respostas de fé e respostas espirituais. De vez em quando partilha comigo, num gesto muito amigo, interessado e verdadeiramente generoso. O problema é que 80% dessas partilhas, no que se refere a artigos de opinião, são partilhas sem triagens, seja no que se refere a fake-news, seja no que se refere à influência ou ideologia que está por detrás dos textos. E, infelizmente, a presença dos ultra-conservadores na internet, sobretudo nas redes sociais, é muito prolífera. Como diria o outro, são poucos mas gritam muito alto. Talvez porque necessitem de se fazer ouvir. Mas é só um talvez. 
O último texto que partilhou comigo, ainda há pouco, era de um site que tem por nome algo do género “Missa Tridentina”. Creio que ela não sabe a que se refere a missa tridentina ou o Concílio de Trento. Nem sabe como distinguir ideologias no seio da Igreja. Por isso não a recrimino. Procuro ajudá-la a fazer as interpretações, distâncias, entendimentos e pronunciamentos devidos. A saber ler para além das linhas ou das palavras. Nas entrelinhas. Com isenção suficiente para formar uma opinião ou opção sólida. Mas nisto, lembrei tantos cristãos que, diariamente, recebem conteúdos, mesmo religiosos, mesmo cristãos, mesmo católicos, sem saber ler ou sem ter o código de leitura adequado para os ler. E assim a verdade anda cada vez mais longe da verdade!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amizades especiais"

quarta-feira, junho 03, 2020

Onde esteve a Igreja nestes tempos

A Clara é uma senhora de meia idade. Diz-me que a sua fé também anda na meia idade. Ela quer amadurecer a sua fé, mas acha que ainda tem mais de metade do caminho por andar. E nestes tempos, disse-me, perdeu-se um pouco, porque buscava e o que encontrava, sobretudo na net, era quase sempre de fraca profundidade. Ela não se contentava com mais do mesmo, ou com abordagens que não iam ao amago do essencial. Viu muita coisa que, na sua opinião, só infantilizava ainda mais os crentes. Por isso me fez a pergunta sobre onde estivera a verdadeira Igreja nestes tempos de confinamento. 
A minha resposta estava na ponta da língua, porque muito reflectida e meditada por estes dias. A Igreja destes tempos esteve e continua a estar no coração de cada crente. Assim como Deus. Ele está por todo o lado, é certo. Está nas nossas igrejas que estiveram fechadas. Está na rua e nos acontecimentos. Está nas casas das pessoas. Até está nas muitas manifestações que ela quase chamou de medíocres. Mas onde Ele quer estar deveras é no coração de cada um. E é aí que a Igreja começa por se construir, por ganhar raízes, por se nutrir. A comunidade cristã é imprescindível para o itinerário de fé. Mas a fé é uma razão do nosso interior. Por isso a verdadeira Igreja está onde sempre tem estado, no coração de cada crente. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja da senhora Alcinda"

quinta-feira, maio 28, 2020

Agora só vão as beatas

Como referia Rino Fisichella há uns dias, a fé precisa dos sentidos. O homem é feito para o relacionamento e isto é ainda mais verdadeiro para a dimensão da fé cristã. Obviamente que vivemos uma época adversa a esta realidade e somos obrigados a viver confinados e a guardar distâncias. Contudo, a distância não pode ser o futuro da existência pessoal ou da fé. 
Falo destas coisas porque ouvi dois paroquianos que me fizeram pensar. Falaram comigo em horas e contextos diferentes e disseram-me quase o mesmo, também de maneira diferente, perante o retomar previsto das celebrações comunitárias. O primeiro, homem, com alguma formação, humana e cristã, depois de ter lido as muitas orientações e regras a cuidar, disse que era melhor ficar em casa e assistir à missa da televisão. O segundo paroquiano era uma mulher, talvez com menos formação, mas pessoa de missa dominical. Em amena cavaqueira foi dizendo que agora quem ia à missa eram só as beatas. E que ela não ia, pois preferia ver a missa em casa. 
Claro que entendo a reação própria do receio. Eu também tenho os meus receios. Mas ouvir estas coisas ditas com tanta naturalidade e facilidade, só veio reforçar a ideia que tenho vindo a ter de que tanta multiplicação de missas nos meios de comunicação social e virtual pode ter confundido as pessoas. Numa sociedade que já privilegiava, por si mesma, o individualismo, pode ter-se reforçado a ideia de que a nossa fé pode ser uma coisa privada, sem comunidade, uma vivência privada, sem relacção.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As missas ou missinhas"

terça-feira, maio 26, 2020

Rezar com eles

Ontem à noite descansei do meu confinamento para ir a um bairro da paróquia rezar com alguns paroquianos. Soube, por uma das senhoras que ali habita, que todos os dias deste mês de maio, às vinte e uma horas, uma das vizinhas colocava uma imagem de Nossa Senhora de Fátima num pequeno patamar de um parque que o bairro tem, com vela acesa, uma jarra com flores e um terço ao pescoço. Os vizinhos vão chegando e, com as devidas distâncias, rezam o terço em conjunto. Sei que há mais bairros da paróquia a fazê-lo, de modo muito parecido mas em outros horários. Ontem estavam umas dez pessoas. Mais eu, que cheguei sem avisar. Foi uma alegria. Rezei com eles. Ainda me pediram para presidir. Não. Tinha ido rezar com eles. E assim foi. Muito bonita a noite com as luzes dos candeeiros e uma estrela no céu a cintilar. Foi retemperador. 
Afinal, também há e houve coisas lindas a nascer nestes tempos de pandemia, mesmo em termos de fé. Estes grupos que, por si mesmo, se reuniram a rezar, são dom de Deus que prova que a Igreja é muito mais do que aquilo a que estamos habituados.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é a minha arma"

quarta-feira, maio 13, 2020

A Igreja que faz o mesmo de sempre

Temos continuado, nestes tempos de pandemia, a fabricar uma Igreja centrada no padre, ou seja, clerical, e nos sacramentos, nomeadamente a missa, ou seja, sacramentalizadora. Com tudo o que isso tem de bom e de preocupante. Chegamos a transformar o meio num fim. Abusamos um pouco multiplicando celebrações e sinais de que, com boas intenções, conseguimos transformar o invisível e escondido das nossas igrejas fechadas, vazias e silenciadas, num certo produto de consumo e num certo proselitismo, ainda que inconsciente. O objectivo parece passar por mantermos as gentes e os crentes connosco. Com a Igreja dos padres. E nós funcionamos, mesmo sem querer, como funcionários de uma Igreja aparentemente aberta, mas realmente fechada. Ou seja, uma Igreja com cheiro a mofo, porque fechada, e em ruínas, porque não tem crentes. 
É o problema de sempre na Igreja dos últimos tempos, aquele para o qual o Papa Francisco tanto tem alertado. É o problema de uma Igreja em constante manutenção. Conservando-se. Fazendo o mesmo de sempre, embora com novos meios.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O papa e os padres"

quarta-feira, maio 06, 2020

As igrejas vazias e fechadas

Sabemos que em todo o mundo, nestes tempos de crise, as igrejas estão vazias e fechadas. Podemos imaginá-las. Cheias de pó. Com cheiro a mofo das chuvas e do calor que se começa a sentir. A precisar de arejar. Sair das quatro paredes em que se seguram. Não é nada que não tivéssemos já imaginado. O vírus veio só apressar a imaginação. Aliás, em alguns países, isso já foi ocorrendo. Igrejas, seminários, mosteiros, casas paroquiais a esvaziarem-se. A perderem o nome. A silenciarem-se. 
Li há dias em Tomáš Halík que, quando a Igreja medieval fez um uso excessivo de proibições e sanções, levando a máquina eclesial a uma espécie de “greve geral”, sem celebrações e sacramentos, as pessoas começaram a procurar mais a relação pessoal com Deus, uma “fé nua”. Teve ali, de certo modo, o nascimento da mística espanhola, a quem muito devemos hoje na mística e na contemplação. 
Talvez tenhamos agora a oportunidade de encher as nossas igrejas vazias com as portas abertas a um modo de estar mais verdadeiro, mais interior. Mais silencioso e, ao mesmo tempo, mais vivo e verdadeiro. Talvez tenhamos agora a oportunidade de ir ao centro do Evangelho, fazer uma viagem ao interior da nossa fé despida, e revisitar a Igreja que está em todo o lado e é muito humana e doméstica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Deus não quer a nossa religiosidade"

sexta-feira, maio 01, 2020

A Igreja que está aí

A pandemia do coronavírus fez com que as celebrações religiosas passassem a ser recebidas através dos meios de comunicação social e virtual. A Igreja passou a viver e a expressar-se nestes meios. Mas esta não é a Igreja. Esta é a Igreja de uma situação difícil. A Igreja, por si mesma é uma comunidade real. É o Povo de Deus que caminha no acto da fé e do seu amadurecimento, no acto da caridade e do testemunho, no acto da Palavra e dos sacramentos. 
É verdade que a Igreja vive à volta dos sacramentos, e especialmente do sacramento da eucaristia, fonte e cume da vida cristã. Mas não depende exclusivamente deles. Ela depende do Senhor Deus. Por isso também pode viver sem eles. Não pode é banalizá-los ou dar a ideia - demasiado clerical, por sinal – que, sem eles, não há forma de se alimentar, celebrar e viver a fé. Se já antes muitos dos nossos sacramentos perdiam alguma autenticidade, porque ausentes de fé, agora esse risco aumentou. Tanto que o Papa Francisco, na homilia da Missa na Casa Santa Marta de 17 de abril, sublinhou este risco de viver a comunhão eclesial apenas de modo virtual. 
Os sacramentos valem por si, mesmo à distância. Há uma certa presença, embora virtual, através destes meios de comunicação social e virtual. Não são falsos, mas também não são a realidade, mesmo que a reproduzam muito bem. 
Talvez a pastoral das nossas comunidades, nestes tempos de contingência, se tenha vindo a centrar em demasia na celebração eucarística, absorvendo muitas das nossas energias, salientando o quantitativo, em detrimento do serviço da Palavra, da formação e, nalguns casos, da caridade. Talvez seja um hábito que vem de trás. E talvez seja este o salto que a Igreja que está para vir deveria fazer. O salto de uma Igreja sacramentalizadora para uma Igreja missionária, de uma Igreja eclesiocêntrica para uma Igreja cristocêntrica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Gostava de fechar a minha Igreja.

segunda-feira, abril 27, 2020

A Igreja que está para vir

Há um abalo em tudo à nossa volta. Mesmo na Igreja. Tanto no seu todo como na sua hierarquia. Faço figas, porém, para que seja um abalo positivo. Rezo todos os dias com essa intenção. E há, de facto, algo positivo que tenho vindo a descobrir. Cresce pouco a pouco, mas cresce. É a "Igreja doméstica"! A Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. Uma Igreja que se reunia em casa e onde as celebrações eram presididas pelo dono do lar. 
O problema é que, ao longo dos tempos, o clero foi-se apoderando ou apropriando da Igreja e dos sacramentos, mesmo que o tenha feito sem intenção, transformando a Igreja de Cristo numa Igreja piramidal, vertical, clerical. E habituou os crentes a esse modelo. Um modelo de Igreja dependente dos bispos e dos seus padres. Por isso, talvez muitos crentes tenham perdido o foco e se tenham sentido algo desamparados nestes tempos de difícil acesso aos seus padres. Pelo menos o acesso presencial. 
É claro que precisamos de uma “ordem”, como dizia Anselmo Borges numa entrevista que me fez pensar. Por isso precisamos de ministros ordenados. Precisamos de “organizar”. Mas não podemos fazer depender deles a Igreja que é de Cristo e de todos.
Será que a Igreja que está para vir vai ser mais laical e menos clerical?! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"

segunda-feira, abril 20, 2020

uma Igreja virtual

Este vírus está, com a nossa cumplicidade, a transformar-nos em seres virtuais. Pouco a pouco, vamos passando da vida ao vivo, em tempo real, para uma forma de vida indirecta, mediada pela internet, sobretudo as redes sociais. Trabalhamos, conversamos, beijamo-nos e abraçamo-nos virtualmente. 
E começamos a viver a fé de igual modo. Estamos também a transformar-nos numa Igreja virtual. Uma Igreja que propõe e consome virtualmente, com voracidade, centenas de propostas, numa degustação espiritual, em menu a la carte. Uma Igreja que consome likes, emojis e améns. Uma Igreja de entra e sai. Portanto, efémera e provisória. Uma Igreja que não agarra e não compromete. Uma Igreja mais passiva que activa, mais espectadora que participante, mais admiradora que vivente. 
Esta transformação, como é óbvio, tem coisas boas. Mas inquieta. Ou devia inquietar. É verdade que tudo é graça e dom de Deus. É verdade que esta é também uma parte da igreja possível destes tempos. E é só uma parte. Contudo, não sei como será quando regressarmos à vida real. É que o virtual tem esta coisa de nos aproximar e nos afastar ao mesmo tempo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É possível fazer igreja sem sacramentos?"

sexta-feira, abril 17, 2020

Padres covid II

Alguns colegas padres desdobram-se, na comunicação social e nas redes sociais, em dezenas de propostas e aparições, replicando-as e multiplicando-as, com o que isso tem de positivo e negativo. Não julgo. Evito ajuizar. Mas não evito pensar. Tenho andado a reflectir sobre este novo modo de ser e viver em Igreja, e ainda não tenho nada claro. 
No entanto, ouvi há dias um colega dizer uma coisa que me chamou a atenção e me fez pensar. Dizia que, no meio de tanta “informação”, ainda não tinha ouvido dizer que há padres que, nestas horas, rezam a Deus em silêncio pelas suas comunidades. Um padre rezar, no silêncio, sem alardes, sem mediatismos, pelos seus, neste momento, deveria ser uma coisa estranha! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padres covid"

sexta-feira, março 20, 2020

a nossa parte

Dizem-me que algumas pessoas ficaram indignadas por não terem missa estes dias. Dizem-me que algumas já tinham ficado indignadas com a Igreja quando se lhes sugeriu que não comungassem, por uma questão higiénica, na boca, alegando que se a hóstia consagrada era o Senhor, nada deveríamos temer. Recebi um correio electrónico com uma carta de um suposto colega alertando para o perigo de não celebrarmos missas com as pessoas. Tive oportunidade de ver uns vídeos de umas missas onde, em Espanha, um determinado bispo dava comunhão na boca, exclusivamente, sem medidas de higiene. Algo similar de um padre que percorrera as ruas com o Santíssimo a bater à porta para que as pessoas fossem à missa. 
Respeito que pensem diferente de mim e que, supostamente, confiem em Deus ao ponto de depositar n’Ele toda a acção. No entanto, estas atitudes ou reacções fazem-me lembrar os estudantes que rezam insistentemente para obterem ajuda nos exames, até acendem uma velinha a Nossa Senhora, mas depois não estudam ou não estudam o suficiente! 
Deus faz muito. Deus até pode fazer tudo. Mas também quer que nós façamos a nossa parte!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha Igreja do futuro"

segunda-feira, março 09, 2020

A igualdade das mulheres na Igreja

Li que um grupo de mulheres em Espanha, católicas assumidas, como se designaram, iam sair às ruas a pedir a igualdade. Li o texto com atenção, mas não o entendi. A peça jornalística referia que iam fazer uma manifestação diante dalgumas igrejas. Continuei a não entender.
Querer mais espaços na Igreja, mais papéis de liderança, mais voz é bom. Querer uma Igreja menos patriarcal e mais matriarcal, dentro dos necessários equilíbrios, é muito bom. É algo que também desejo. Mas invocam o princípio da igualdade e isso da homogeneização é algo que me incomoda. 
É uma tolice quando achamos que somos menos que os outros só porque não fazemos o mesmo. Esta coisa da igualdade impede a nossa diferença. Somos diferentes e precisamos da diferença que cada um é para se fazer a pluralidade e comunhão. Há coisas que as mulheres fazem muito melhor que os homens! E já o fazem em Igreja. E são igualmente Igreja como os homens o são no que fazem. Eu reconheço a corresponsabilidade das mulheres na Igreja. Como reconheço a corresponsabilidade dos leigos no geral. Ou dos religiosos. Ou dos homens. 
Nunca fui adepto do dia das Mulheres, como se houvesse necessidade de um dia para falar da sua dignidade. Para mim todos os dias são das mulheres. Como dos homens. Como da humanidade. Como de Deus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja das mulheres

domingo, dezembro 29, 2019

Este é o tempo da desgraça ou da graça?

Sem querer, juntáramo-nos, na mesma mesa, e começámos a falar sobre a Igreja dos nossos tempos, uma Igreja que está sendo questionada no mais fundo da sua vocação, identidade e missão, ou seja, para o que ela existe como mandato deixado por Cristo, segundo o evangelho de S. Marcos: “Ide por todo o mundo, e anunciai a Boa Nova a toda a criatura”. Era um leigo comprometido, interessado, reflexivo. O que afirmava, afirmava-o porque já tinha pensado nisso. Porque já se tinha perguntado, muitas vezes, tal como eu, sobre a Igreja dos nossos tempos. E a determinada altura disse. Vivemos em tempos de desgraça. Na verdade, eu também já tirara a mesma conclusão. Também eu tivera este tipo de pensamento. Não me conformo muito, como já manifestei, com a forma de ser da Igreja hoje. Mas, aos poucos, no meio do nosso diálogo, comecei a pensar que, afinal este tempo, pode ser, muito bem, um tempo de graça. Já ultrapassámos aquela fase, aquele tempo da Igreja em que, aqui no Ocidente, quase se nascia cristão. Já lá vai o tempo em que não questionávamos a nossa fé. Não questionávamos o que o Magistério da Igreja dizia. Não nos interessava se o padre era assim ou assado. Aceitávamos tudo como se essa forma de aceitar fosse um dado adquirido. No meio de tantas crises, que alguns chamam crises de Deus, da Igreja, da Fé e da própria sociedade, deparamo-nos, afinal, com a oportunidade de ir ao centro da questão. A oportunidade de nos recentrarmos no essencial. A oportunidade de reencontrarmos a verdadeira Igreja de Cristo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A irmã Graça"

Desejo a todos os meus amigos e visitantes um ano de 2020 cheio de Deus!

sexta-feira, novembro 08, 2019

Um cisma de poder

Há dias ouvi dizer que Francisco, o nosso papa, não temia um cisma. Muitos, sobretudo uma determinada comunicação social, acharam que estava aí um cisma na calha e que o papa já andava preocupado com ele. 
De modo algum um cisma, como divisão que é, pode ser algo bom. Mas também das coisas más, às vezes, é possível retirar coisas boas. Como diz o ditado ‘há males que vêm por bem’. É que, por detrás das disputas teológicas dos cismas que a história conta, sempre se esconderam questões de poder. Creio plausível afirmar que a maior parte das divisões no seio da Igreja se deveram a questões de poder. As questões religiosas eram apenas pretextos. 
Quem sabe se aquele grupo que tem atacado o Papa Francisco e que, embora faça muito ruído e seja poderoso economicamente, é bem mais pequeno do que o que parece, depois destas disputas de poder, não faz com que a Igreja no geral, sobretudo a Igreja Povo de Deus como um todo, valorize ainda mais esta forma de ser Igreja menos autorreferencial e eclesiocêntrica, típicas da neo-cristandade!

segunda-feira, outubro 28, 2019

Os ultras

O substantivo ou adjectivo, como lhe quiserem chamar, não é da minha autoria. Chamam-se ultras àquelas pessoas que, por algum motivo e em determinado aspecto, são extremistas ou radicais. Ouso chamar ultras àqueles católicos de uma ala extremamente conservadora e que têm atacado veementemente o Papa Francisco e grande parte das suas opções, posturas, discursos e documentos, indiciando que estão contra a doutrina e contra a Igreja. 
Os ultras são, na sua maioria, gente que gosta de se pensar como uma elite. Cardeais, ou parecidos, que adoram longas caudas e longas vénias, vestes bordadas e de marca, autênticos príncipes e princesas da Igreja instituição. Padres e quase padres, ou leigos que parecem mais que padres, e citam de cor o catecismo, Tomás de Aquino, documentos e papas de séculos passados. Os argumentos são quase sempre citações ou passagens da história caducada. Também citam a Bíblia, como arma de arremesso, porque a Bíblia diz assim e assado. Porém, apenas utilizam passagens e versículos que justificam, literalmente, as suas investidas. Parece gente formada. Mas é mais enformada que formada. Mais manipulada que formada. Aliás, utiliza muito esse estratagema da manipulação. E segue líderes interesseiros que não estão dispostos a perder o seu status quo. Gente que se acha dona do Espírito Santo e sabe a vontade de Deus, em primeira mão. 
Arrogam-se o direito de atacar quem quer que tenha opinião diferente da sua ou que ponha em causa a pretensa doutrina ou as normas morais. Nem que seja o Sumo Pontífice. Ou seja, o responsável máximo da mesma Igreja que tanto defendem. São integristas, donos da verdade, e veem inimigos em tudo e em todos. Porque todos os outros são impuros. Não fazem parte do grupo dos puros. Vade retro. 
São católicos que estagnaram numa fase da história da Igreja que já lá vai, mas que querem ressuscitar. Na esperança de que haja uma nova ressurreição. Não a de Jesus. Mas a da Igreja que desfaleceu. Gente que não quer ver os sinais dos tempos e se sente ofendida que alguém o faça. Gente que se acha a mais católica do mundo e que faz juras de fidelidade à mãe Igreja. Na sua boca, fica-se, muitas vezes com a sensação de que é Deus que serve a Igreja e não a Igreja a Deus. 
Gente que me faz lembrar os fariseus hipócritas do tempo de Jesus que viviam para cumprir coisas, rituais, preceitos, sem que isso interferisse realmente no mais íntimo das suas vidas, o coração. Conjunto de gentes que gostam de se chamar comunidades, embora sejam mais guetos fechados sobre si mesmos, que vivem mais para manter as crenças dogmáticas do que a simplicidade da fé e do amor salvador e misericordioso de Deus. Gente que é capaz de adorar a Deus, mas não tenho a certeza de que O amem.

segunda-feira, outubro 14, 2019

Missas dominicais ou mais ou menos isso

Regressei, há pouco, de duas missas dominicais, celebradas com o intervalo de cerca de vinte minutos e quarenta quilómetros. Participaram nelas um total de vinte e oito pessoas. Contei-as, porque é fácil contar estes números. Para ser mais concreto, treze numa e quinze noutra. Duas paróquias distantes uma da outra, mas unidas em similar realidade. Numa, o coro é uma senhora que repete sempre os mesmos cânticos e o leitor não varia de semana para semana. Na outra, variam os leitores, embora pouco, mas não varia a idade dos presentes, muito acima dos setenta anos. Por mais que insista, as pessoas ocupam harmonicamente a igreja, um aqui, outro ali e outro lá ao fundo. Dispersos, mas para que mais bancos da igreja sejam ocupados, digo eu. Sempre se pode dizer que havia gente em dez bancos. Terminei a manhã com a missa na minha paróquia maior. Valeu para sentir que valeu. Eu sei que aquela gente das paróquias mais pequenas não pode nem deve ser abandonada. Sei que cada eucaristia vale por si mesma e que possui a dignidade que Cristo lhe conferiu. Sei que as assembleias cristãs não deixam de ser assembleias por terem pouca gente. Aliás, gente que merece escutar a Palavra de Deus e alimentar a fé. Só não sei como manter isto, no meio de outras tantas paróquias!