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sábado, abril 13, 2019

A tradição da procissão de Páscoa

O padre tinha a sua saúde bastante debilitada, A idade avançada também não o auxiliava. Arrastava-se mais que andava. Mas era dia de Páscoa e, como a tradição manda, depois da missa tem de haver procissão. Dizem assim as vozes religiosas que estão habituadas desta maneira. Com as tradições. O padre, no final da missa, que presidiu a um custo notório, fez uma pergunta. Tendo em conta o estado débil em que se encontrava, perguntou a quem o ouvia na assembleia se achavam que devia fazer a procissão ou não. Contou-me quem ficou chocado nesse momento, já lá vão uma série de anos, porque ninguém abriu a boca. Ninguém fora capaz de dizer que, para cuidar da sua saúde, melhor seria não se fazer a procissão. Como ninguém abrira a boca, o padre resignou-se e respondeu por eles. Assim sendo, faz-se a procissão, mesmo que não resista a meio dela. Continuou sem resposta. Fez-se a procissão. O padre, graças a Deus, não caiu. Poucos meses depois o padre faleceu. Não há causa efeito, como é óbvio. Mas há uma Páscoa que não se percebe muito bem se foi Páscoa se foi apenas mais uma tradição.

sexta-feira, setembro 28, 2018

O que é fazer tudo

Está mais que provado que hoje as pessoas pouco querem com Deus, com a Igreja, com os padres ou com a fé. Contudo, persistem em querer realizar as festas do baptismo, primeira comunhão e Crisma. Sobretudo estas. Dizem que, tendo-as feito, fizeram “tudo”, como se esse tudo fosse a garantia de serem cristãos. Segundo estes, quem vai à missa são as beatas. E quando algum jovem vai à missa, é apontado como anjinho, santinho ou parecido. Não está na moda ir à missa. A Catequese serve, na generalidade, para que se habilitem as crianças e jovens e fazer estas festas. É comum ouvir pais afirmarem que, porque eles fizeram tudo, também querem que os filhos façam tudo. O tal “tudo”. É comum que, embora honestamente, alguns dos catequisandos respondam que o objectivo deles ao participar na Catequese, é poder fazer o Crisma. Depois dele, como se sabe, já não querem nada com Deus, ser do qual foram questionando a existência, mas não o expressaram para evitar não fazer o Crisma. Depois vêm os funerais e as festas populares, acções que manifestam, de forma clara, que a Igreja tem servido, quase exclusivamente, para cumprir sacramentos, sacramentais e festas religiosas populares. E a nós, padres, pedem-nos que sejamos funcionários destas coisas todas. Aquele tipo de empregado que deve estar ali no território que chamamos paróquia, para quando se precisa de alguma destas coisas. Nem formação, nem evangelização, nem entusiasmos, nem dinamismos ou estratégias, têm conseguido inverter a situação. Bem reflectem os peritos pastorais, mas a coisa teima em ser difícil. No meio disto tudo, valha-nos ao menos que, graças a Deus, ainda vai havendo quem não desista de Deus ou da Igreja e precise verdadeiramente da missão dos padres. Ainda assim, como podem resistir as vocações sacerdotais ou como podem surgir vocações ao sacerdócio?

domingo, junho 24, 2018

As confissões da moda

Não, não são as confissões que estão na moda. Até porque mais parece que se tornou algo démodé. Não é por esse motivo que escolhi este título. Antes quero fazer referência àquelas pessoas que se confessam dizendo que não têm pecados. São gente para quem ter ou não ter pecados é secundário. Confessam-se apenas por causa da festa. Há um certo pudor - quando há - em se abeirar da comunhão na festa do filho sem estar confessado, porque sempre foi assim ensinada ou ensinado. Mas depois, diante do sacerdote, dizem que não têm pecados. E quando lhes falamos das faltas da missa dominical, perguntam, à boca cheia, Atão mas isso é pecado? São aqueles que se limitam a assinalar os mesmos pecados que diziam na confissão quando eram crianças. As mentiritas, as asneiras, as palavras e pequenas chatices e zangas. São esses os pequenos nadas de gente para quem o pecado não é assunto. Mas o pior é que se calhar nem Deus é assunto. E isto está na moda.

quarta-feira, maio 16, 2018

santinhas e missinhas

Não tem muito mais que metro e meio. Tudo nela parece diminutivo. Até no trato. Chamam-na de Alicinha. Não a conheço o suficiente. Agora que o expresso, dá-me vontade de rir, pensando que é capaz de não ter tamanho suficiente para se conhecer bem. Pensamentos tolos, mas que me poem um sorriso nos lábios. Dizia eu que quase tudo nela tem a ver com diminutivos. Por isso fala em santinha, procissãozinha, missinha, e outras inhas a propósito da festa do próximo fim-de-semana. Eu gosto da Alicinha e gosto daquilo que me parece ser o lugar carinhoso das palavras em diminutivo. Mas quando ouço coisas como santinho ou missinha, fico com uma sensação estranha de que, às vezes, estas coisas não são mais que uma diminuição daquilo que valem, daquilo que são! 

sexta-feira, maio 11, 2018

As festas e a fé

Quando saí de casa, no Domingo, para celebrar as missas, a manhã estava cinzenta. As nuvens pousavam, frias, sobre nós. As estradas estavam geadas. A aldeia onde ia celebrar a primeira missa ficava a várias dezenas de quilómetros. Pouca estrada se via o suficiente para ser desbravada com ligeireza. Cheguei atrasado uns oito minutos da hora prevista para a missa. Todos me esperavam dentro da Igreja, apesar desta também estar habitada pelo frio. Era, no entanto, menos fria que a rua. 
Porém, enquanto atravessava a aldeia, a meio do caminho, veio ao encalço do meu carro uma senhora que me obrigou a parar com gestos de “espere aí mais um pouco”. Enquanto abria o vidro do meu lado do carro, fui-lhe recordando que já estava atrasado e não havia tempo a perder. Ela insistiu para dizer que precisava que eu marcasse uma festinha a santo tal no dia tal, que era a cerca de quinze dias desse Domingo. Era só uma missinha e uma procissão. Com a vida organizada para os próximos meses, expliquei que as coisas não se podiam tratar deste modo. Nem as festas religiosas se devem marcar só porque alguém, do nada, por mais bem intencionada que esteja, se lembre de tal. 
Não consegui perceber propriamente o motivo de tal desejo e pedido. Mas o que mais me incomodou foi o que ocorreu depois que subi de novo o vidro do carro. A senhora que estivera uns quinze minutos ou mais à minha espera na rua fria, o que é de louvar pela coragem, e que desejava honrar o santo com uma missa e uma procissão, regressava então para os seus aposentos, para a sua casa que era logo ali ao lado. A missa daquele dia que a celebrasse eu e os outros que me esperavam.
E nós, padres, temos de continuar a acolher esta gente na esperança de que um dia percebam a verdadeira fé e a ter fé de verdade.

sexta-feira, janeiro 12, 2018

O matrimónio é coisa demasiado séria

Gostava de chamar José e Maria aos dois jovens que acabaram de sair do cartório paroquial depois de marcarem o matrimónio para a hora tal do dia tal. Gostava de lhes dar esse nome por analogia com a sagrada família de Nazaré, mas não me sinto no direito de estabelecer a comparação, sobretudo porque nem um nem o outro me pareceram suficientemente esclarecidos quanto a Deus ou quanto ao passo que querem dar. O diálogo foi franco e aberto. Tão franco e aberto que, ao final, me pareceu estar a oferecer um sacramento que nunca será entendido como tal. Também lhes falei de coisas como o Curso de Preparação para o Matrimónio ou a nulidade do matrimónio. Sobre este último, o interesse destes jovens veio ao de cima com rubores acrescidos. Sobre o referido curso, senti que lhes era um fardo que não pretendiam, embora tivessem de o cumprir. Estavam mais preocupados com pormenores cerimoniais, a beleza do espaço e da animação, os copos e bebes e as horas do casamento. Despedi-me deles com uma sensação estranha, uma sensação que já não é de hoje, mas de muitas outras ocasiões em que há algo que não entendemos mas desconfiamos. Vou rezar por eles esta tarde na Eucaristia.

sexta-feira, dezembro 15, 2017

As missas de Natal parte II

Há paróquias que só se enchem para a missa de Natal. Também ocorre o mesmo por ocasião da missa da bênção dos ramos, da missa de Páscoa, da missa da festa da aldeia, da missa quando se vai em romagem ao cemitério. E com menos pompa, também nas missas de funerais. Mas não todas, porque depende do morto a homenagear. 
É uma graça, dirão alguns, termos tanta gente nas nossas Igrejas por estas ocasiões. E é mesmo uma bênção, nem sempre aproveitada, sobretudo para anunciar o Evangelho como ele merece. Que grande oportunidade para chegar ao coração de cada um dos que ainda não se encontraram com Cristo, mas estão ali. Também é de recordar que nessas ocasiões vem muita gente de fora. Familiares e amigos juntam-se, com o motivo da celebração festiva que nos junta numa Igreja ou numa capela lá da aldeia. Tudo são graças de Deus. Suas bênçãos. 
Mas ainda ontem fui celebrar uma missa, a uma paróquia dessas, com 13 pessoas presentes, incluindo eu. Mesmo quando vou a paróquias que deixam a Igreja meio compostinha, pergunto-me sempre pelos outros vinte, trinta, quarenta, cinquenta por cento ou mais que não foram lá compô-la, mas que depois vão engalanados para a missa de Natal, e ai do padre se não tiver possibilidade de lá ir celebrar. Pois que, senão, dizem, o padre é que tira a fé e a religião já não é como dantes. Pudera. Claro que não é como dantes. E embora não pretenda questionar a fé herdada que existia como um modo cultural de viver, não posso deixar de me queixar que não é possível manter esse tipo de religiosidade num tempo em que as pessoas usam a religião como uma feira e o padre como um vendedor ambulante de sacramentos. 
Neste Natal vou ter a coragem de pedir ao Menino Jesus que não ponha mais padres no sapatinho. Talvez quando o número de padres for exíguo e as terrinhas não consigam ter as suas missinhas de Natal, nos detenhamos a buscar o essencial do cristianismo, como um balbuciar de uma criança que vai crescer. Isso mesmo me lembra o Menino Jesus numas palhinhas deitado.

terça-feira, dezembro 05, 2017

Missas de Natal

Não sei como fazer para marcar tanta missa no dia de Natal, comentei com uma paroquiana de umas das minhas aldeias, no ensejo de que me aliviasse o peso de não saber que fazer. Como todos os cristãos compreendem que as coisas estão cada vez mais difíceis a este nível, também a Sandra compreende. A primeira coisa que disse foi um longo e pesado Pois. E acrescentou que as coisas estão a ficar complicadas. Mas decidiu dar uma ajudinha e perguntou porque não arranjava um padre.
Primeiro ri-me. Depois respondi que um padre já eu tinha arranjado. Eu mesmo. E por último pedi-lhe que arranjasse ela um. De facto parece que a nossa obrigação de padres, quando não podemos fazer certas celebrações, é a de arranjar padres. Outros padres que nos substituam. Mas poucos casais se preocupam em arranjar filhos padres. 
A Sandra também sorriu porque entendeu. Mas depois foi citando, um a um, nomes de padres que ela pensava que estavam disponíveis, isto é, sem paróquias. Contudo, um a um, todos os nomes que referia são agora párocos. Em verdade, não é fácil encontrar um padre disponível para ajudar outro padre, porque todos, afinal, vão precisando de ajuda. Entre sete, oito e mais paróquias, não há como celebrar missa de Natal em todas. Além de ser humana e praticamente impossível, é esquecer que a verdadeira missão da Igreja está muito para além das missas. Elas são o centro da vida cristã, mas ainda é mais importante a vida cristã. Os padres têm-se gastado a celebrar missas, porque não há padres para celebrar tanta missa. E depois sobra pouco tempo para anunciar a Boa Nova da salvação, essa que Jesus nos trouxe quando nasceu. Além disso, deixem-me dizê-lo. O Natal é muito mais que a missa de Natal.

terça-feira, junho 20, 2017

Uma profissão de fé com pouca fé

Eu sei que isto parece mais uma das minhas queixas. Mas queixo-me só para ti, Senhor, baixinho, para que ninguém ouça o meu coração de padre a palpitar. Entrego-te estes miúdos que andam na catequese e que vão fazer a festa da profissão de fé. Entrego-te em especial aqueles que não voltaram a confessar-se desde a primeira comunhão, há três anos. E aqueles que não sabiam o acto de contrição para se confessar. E aqueles que pouco mais voltaram à missa e que, envergonhados, diziam que costumavam ir algumas vezes, que é o mesmo que dizer poucas, ou muito poucas. E aqueles que já nem sabem a oração do Pai-Nosso. Sim, essa oração que cada cristão deveria ter na ponta da língua, e que, pelo menos, este miudos tinham aprendido há quatro anos quando, na catequese, fizeram a festa do Pai-Nosso. 
Senhor, peço-te por eles, e pela Igreja dos tempos actuais que vive desta forma desprendida daquela que é a verdade da fé. Peço-te, em último lugar, por mim, para que não esmoreça a vontade de ser um verdadeiro modelo de fé, um verdadeiro testemunho do Evangelho, e não deixe de cumprir, em cada tarefa eclesial ou sacerdotal, o mandato que deixaste aos teus apóstolos de anunciar a Boa Nova, isto é, evangelizar.

quinta-feira, dezembro 22, 2016

As mensagens de natal ou que tal

Estamos na época das mensagens, pouco lidas ou pouco recebidas, ou não sei. Palavras que se soltam e não se prendem. Estais neste preciso momento, e quase com certeza, a receber centenas de mensagens de Natal que ou não ledes ou ledes a correr, e o que interessa nelas é que alguém se lembrou de vós. Na verdade, isso, só por si, é bastante importante. Mas cuido que a maioria apenas nos contentamos com recebê-las. Eu recebo umas largas centenas e gosto muito de as receber. Mas vivo neste mundo e assumo que a maior parte delas as leio a correr. 
Mais curioso ainda é o fenómeno de ter de mandar mensagens. Como a obrigação vem do facto de também nós as recebermos, então multiplicamos as mesmas mensagens sem nos preocuparmos ao menos com a originalidade delas. E depois recebemos mensagens assinadas com outro nome que não o da pessoa que no-la enviou, porque esta se esqueceu de, ao menos, apagar essa assinatura. Ou acabamos por receber uma série de mensagens iguais. 
Obrigamo-nos. Obrigamo-nos a escrever e receber mensagens. Fazêmo-lo soltando palavras sem as sentir, ou pouco sentidas, sem que sejam muito mais do que obrigações. Claro que exagero, pois existem muitas mensagens verdadeiras e sentidas em cada Natal. Claro que no meio desta panóplia de mensagens, que devem dar muito a ganhar às operadoras de telecomunicações, existem muitas que são genuínas e têm propósitos genuínos. 
Assim também os bispos multiplicam as suas mensagens de Natal, como costumo seguir numa das nossas agências católicas. Quero crer que são escritas e enviadas sem a obrigação das mensagens de telemóvel, de facebook ou de twiter. Que são sentidas e brotam do espírito de Natal. Que não são apenas para se fazerem presentes ou para constar. E que possam ser lidas como tal, como mensagens de Deus a cada um de nós que ama.

sábado, agosto 27, 2016

O padre não é bom da cabeça

O senhor estava ao telefone a convidar um amigo para a festa do seu filho que ia fazer a primeira comunhão no dia tal. Eu estava numa mesa ao lado à espera que me entregassem o carro após a mudança do vidro que se partira vá-se lá saber como. O senhor esperava também o seu carro por motivo idêntico, quando, para ocupar o tempo, efectuou a chamada que ouvi como se fosse para mim. O que ele não sabia é que eu era padre e que o padre a que se havia de referir o conhecia bastante bem. 
O padre não é bom da cabeça, dizia. Olha que ele exige três anos para fazer a primeira comunhão. São de facto três os anos estipulados pela Conferência episcopal portuguesa e pelo itinerário da Catequese. Para mostrar ainda mais a força da decisão que tomara, queixava-se que o padre, que não é bom da cabeça, dizia que com mais de três faltas o miúdo seria retido na catequese. Onde já se viu! Exclamava. 
O padre é doido por exigir estas coisas. E depois encontrou uma catequista ali ao lado, pareceu-me que numa paróquia bem ao lado, que aceitou o miúdo para fazer a primeira comunhão, e em dois meses vai conseguir fazer catequese de três anos. Grande catequista. E ainda diz o senhor que o filho, afinal, até gosta daquilo, e já sabe tudo. Como se fosse uma questão de saber. 
Estava o filho contente e o pai mais que contente, porque afinal o seu filho querido ia fazer uma festa linda. Aquela festa que provavelmente irá fazer poucas vezes na vida. Porque comungar deveria ser sempre uma festa. E vai ter casa cheia com almoço bem melhorado. 
Tal pai, tal catequista, que nunca devem ter ouvido a Jesus dizer que se o quisessem seguir, até teriam de deixar pai e mãe!

sexta-feira, julho 29, 2016

Baptismos ajeitados

Falemos de baptizados. Estamos na época deles. Ou falemos de outras coisas que parecem baptizados. Ou falemos de uma Igreja ou de padres que se transformam em funcionais para agradar ou atrair sobre si uma popularidade barata. É aquele tipo de padre ou de igreja que diz a tudo que sim, não porque seja para bem do reino, da fé, do anúncio do Evangelho ou do amor de Deus, mas porque é mais fácil, mais prazenteiro, e sempre sacam da boca das pessoas palavras como Este padre é que é um gajo porreiro. 
Eu também tenho como opinião que a lei se faz para o homem e o homem não deve ser escravo da lei. O que não entendo é que em favor dessa opinião, se permita tudo sem que a fé, a conversão, o catecumenado, a formação, contem para uma decisão tão importante como é assumir a fé, tornar-se discípulo de Cristo, ingressar na comunidade dos discípulos de Cristo, isto é, receber o baptismo. 
Não estou zangado, nem indignado. Estou triste. E isto é um desabafo. Pois quando as pessoas vão à paróquia vizinha porque lá o padre aceita quatro ou cinco padrinhos, padrinhos sem crisma ou sem qualquer idoneidade, padrinhos com pouca mais idade que o afilhado, sem uma mínima preparação para o sacramento, ou sem as licenças que nos são pedidas, e às vezes até com exclusão de parte da cerimónia e do ritual do baptismo, eu fico triste. 
Não fico triste pelo facto de não alcançar, porventura, a mesma popularidade. Não fico triste por causa das dores de cabeça que é ter de atender pessoas que ameaçam com ir a outra paróquia se não se aceitam suas condições. Nem sequer fico triste com esses colegas, pois, como eu, eles terão de um dia prestar contas a Deus das suas opções. E talvez Deus os ouça com maior amor do que a mim. 
Fico triste é quando me apercebo que na Igreja, ou em alguns locais dessa Igreja, o que conta não é o anúncio do Evangelho, o encontro com Cristo e o sentido cristão da vida, mas o sacramento como acção cultural ou como o jeito que se faz para se ficar bem ou não se ter problemas. Triste porque fazemos sacramentos por fazer. Triste porque a Igreja dos homens, contrariamente à de Cristo, é muitas vezes uma igreja light.

sexta-feira, agosto 14, 2015

As mordomas das festas

Entregaram-me um papel com seis nomes dias antes da festa para que, por ocasião da mesma, nomeasse as novas mordomas. Pelos nomes não as conhecia. Mas como estas coisas se comentam, alguém me veio contar que não deveria nomear algumas delas. Uma era divorciada. Outra tinha fama de se meter na cama com homem alheio. Pelo menos essas. Que o senhor padre não deveria nomear.
Na verdade, faço questão de que algumas das pessoas que fazem parte de uma mordomia de festa assegurem o sentido de fé nas festas religiosas e que todas as pessoas nomeadas aceitem as normas que nos são propostas para este tipo de festas. Porém, como pároco, sinto o dever de acolher todos, indistintamente da sua estrada de vida. Judeus ou gregos, escravos ou homens livres, pecadores ou que não se sabem pecadores.
A Igreja não é uma comunidade de perfeitos. O papa Francisco tem dito isso imensas vezes. Aliás, não podia ser de outro modo, porque não há gente perfeita. Além disso temos de confiar na mão de Deus.
E respondi a quem me chamou a atenção. Nas minhas paróquias quero que todos se sintam acolhidos. Repare que as mordomas deste ano, por exemplo, depois da proposta que lhes fiz, confessaram-se. E a maior parte delas já não o fazia há dezenas de anos.
Não basta abrir portas às nossas igrejas. É preciso deixar a porta aberta.

sábado, maio 31, 2014

O peitinho da menina

A menina que ia baptizar estava toda vestidinha de branco com aqueles vestidos maiores que as crianças, cheios de folhos e muito justos no pescoço. Os pais e os padrinhos estavam de fato sem gravata. A ocasião merecia vestimentas à altura que é como quem diz roupas de cerimónia. Eu já me vesti assim em ocasiões como esta. Ali estavam diante de mim e de toda a comunidade, quando chegou aquele momento em que é necessário descobrir o peito da criança para ali ser ungida. Ora, sendo um vestido justo no pescoço, ou se desaperta um ou dois botões, caso os tenha, seja na frente ou atrás, ou então há que levantar os folhos do tecido e encontrar um pedaço de peito para ungir. Muitas vezes arma-se tamanha confusão que nem queiram saber. Eu costumo pedir calma e suficiente serenidade para que o momento seja ajustado ao rito. Mais, costumo ir dando indicações aos pais sobre o que vem a seguir, para que estejam concentrados no sacramento e menos no que fazer durante o sacramento. Faço sinais com os olhos. Sim, às vezes também os pisco. Murmuro palavras e indicações. Aponto discretamente. E assim fiz no baptizado da menina para que lhe descobrissem ou destapassem o peitinho. Falei duas ou três vezes Peitinho. Não me entenderam, e o pai olhava para mim a perguntar. Apontei ao peito da criança. Nada. Apontei para o meu peito e disse Agora é aquele momento do peito. E até que enfim o pai me entendeu. Assim sendo, entregou a criança à mãe, colocou as duas mãos no primeiro botão da sua camisa sem gravata e toca de desapertar uns botões. O padre teve de intervir, não fosse o homem desapertar a camisa toda. Depois clarificou que era o peito da criança que tinha de ser descoberto. E depois nem o padre nem as gargalhadas resistiram mais. Além desse desfecho burlesco, este padre que aqui está a escrever aprendeu uma grande lição. Que tinha de ser mais claro, não fosse algum dia alguma mãe lembrar-se de fazer o mesmo.

sábado, setembro 22, 2012

Sempre foi assim toda a vida

A capela tem um telheiro em frente, forrado a madeira de carvalho bonita. O Telheiro tem duas entradas laterais com dois degraus que, de tão suaves, quase não se sentem. Na delimitação do telheiro está um pequeno muro, com mais de meio metro de altura, que serve o descanso das pessoas que ali se sentam. O espaço é agradável. Muito agradável. Ontem foi festa e, como festa popular que é, lá se deu uma voltinha com o andor de Nossa Senhora pelo recinto. A procissão é curta, como eu gosto. Foi muito digna com oração e silêncios. Gostei. Porém, quando estávamos a entrar para debaixo do telheiro, por uma das laterais, alguém se lembrou de puxar o andor, juntamente com as senhoras que o carregavam, de forma que o mesmo entrasse pelo lado oposto à entrada da capela, isto é, por uma zona onde não há escadas e as pessoas podem magoar-se ou cair no muro que perfaz, como já disse, mais de meio metro, e onde o telheiro obriga a grandes manobras para que a imagem não seja degolada. As senhoras que carregavam o andor iam mesmo caindo, e eu, que estava logo atrás, disse que era melhor ter entrado por uma das laterais, ao que o senhor que puxara o andor me respondeu, com cara de poucos amigos e sem olhar para mim sequer, Sempre foi assim toda a vida. Uma das senhoras que carregava o andor olhou-me a sorrir e repetiu a frase do homem, como que a dizer O que temos de aturar, padre! Desta vez não me zanguei nem um pouco. Antes me diverti. Soltei uma gargalhada sem som. Sempre foi assim toda a vida, como se a vida de sempre fosse apenas um pedaço de tempo, uns anos. Assim como também sempre andámos de burro e agora andamos de carro. Mas sempre foi assim toda a vida, repetem. Vou-vos contar. Hoje nem me pareceu tratar-se de uma situação de falta de fé orientada. Antes me pareceu uma falta de orientação lógica, já para não dizer em palavras mais portuguesas e numa só, uma estupidez. Há tanta gente que… sempre foi assim toda a vida.

sexta-feira, setembro 14, 2012

Promessa é promessa

Param a procissão com uma conversa de meia idade que começa numa discussão e acaba em berros. Não conheço as senhoras nem propriamente a procissão. Contaram-me que o peso do andor ronda várias toneladas carregadas por quatro homens possantes que a procissão é longa e o peso pesa. As senhoras fazem parte de um grupo de cerca de dez que fizeram promessa de carregar o andor. Não são possantes, mas fizeram promessa. São mais que quatro, mas fizeram promessa. E não há quem as demova. O padre que lá está há vários anos já nem liga. Promessa é promessa. E as senhoras berravam uma com a outra parando a procissão. Porque eu fiz uma promessa. E eu também. Mas eu fiz já lá vão dez anos. E eu já lá vão uns vinte. Só faltou a estalada. Uma puxa pela ponta do andor. A outra puxa pela manga do casaco da outra. Tudo a olhar como se o espetáculo aprimorasse a procissão. Quer-me parecer que a promessa é mais uma forma de as pessoas se mostrarem devotas do que por serem devotas. Quer-me parecer que a promessa é mais para os outros verem do que para ser vivida. Mas quando é que esta gente promete ser boa e fazer o bem?

sábado, janeiro 22, 2011

Esta Igreja é uma treta

A barafunda instalou-se. Os sete miúdos do nono ano da catequese faziam barulho como se fossem vinte e um. Três vezes mais. Alguns dos rapazes, ainda com pífias na voz, altercavam palavras, dizeres e frases que não se percebia se eram ou não donos e autores delas. Não me admirava que fossem apenas seus amplificadores. Hoje há uma crise de identidade enorme nos jovens. Por um lado querem afirmar-se com o seu Eu bem definido. Por outro, deixam-se arrastar pelo Nós que se tem de aparentar. As falhas na voz garantem que ainda são adolescentes. Mas perante a catequista eles sabem o que estão a dizer. E a barafunda estava instalada. Não é que se estivessem a portar mal. Elevavam apenas a voz para dizer de sua sentença. A catequese é uma seca. A catequista, que não gosta de encolher os ombros, lembrou-se de trocar os papéis e de lhes perguntar se acaso eles estivessem na sua posição como se sentiriam. E repetiram que isto é uma seca. Ou uma treta. Ou bazófias. Então, mas porque vindes à catequese? perguntou ela. Porque a minha mãe obriga, diz um. Porque quero ser padrinho, diz outro. Um deles, sorrindo descaradamente, insinuava que vinha fazer companhia aos outros, aos amigos. É por isso que não ides à missa? tornou a catequista. A missa é uma treta, diz o segundo. Mas então não acreditas em Deus? insistiu. Deus é uma treta. E ponto final. A catequista que não gosta de encolher os ombros, encolheu-os e decidiu apenas escutar. Quando me contou, para eu escutar também, não sabia bem o que sentir. Se desespero. Se pena. Se remorso. Se vontade de continuar esta missão. Padre, parece que andamos a gastar-nos desnecessariamente. No Sábado vou estar aqui às quinze horas com eles. E gostava que Deus também estivesse. Sabe, o que mais me custou foi ouvir que Deus é uma treta.
A mim também. Não entendo como estes miúdos vão à catequese onde, supostamente, se fala de Deus, se fala com Deus, se aprende a amar e a viver Deus, e depois afirmam que Ele é uma treta. Não o disse à catequista, mas apeteceu-me. Esta catequese é uma treta. E se pensarmos que muitos dos ditos cristãos, que enchem ou parece que enchem as quatro paredes das nossas igrejas, querem Deus para justificar as suas idas à missa ou às festas ou a determinados sacramentos, mas depois agem como se Ele fosse uma treta, deixem-me dizer bem alto, com a janela aberta. Esta igreja é uma treta.

quarta-feira, julho 22, 2009

Procissões cheias de gente

O António tem uma aversão às quatro paredes da Igreja. Digo eu. E ele diz que não é por mal. Que gosta muito de Nossa Senhora. São palavras dele. Mas não gosta de ir à missa. Quer-se dizer, não é por mal, repete. Mas não me puxa, padre. Até gosto de o ouvir nas suas palavras. Mas não me puxa. A minha São vai sempre. A Sarita, a minha neta, adora o senhor padre. É daqueles que vai todos os anos a Fátima e se gaba disso. Ó padre, este ano ainda não fui. Arranje-me lá lugar na camioneta. Houve um ano que foi a pé. Ó padre, o que me custou! Cheguei lá rotinho de todo. Mas Nossa senhora ajudou-me. Gosto muito de Nossa Senhora. Mas, ó senhor António, e então porque não há-de ir à missa? E lá volta a resposta. Não me puxa, padre. Já lhe disse. Não me puxa.
Já o tenho visto antes da missa, quando vou tomar um cafezinho rápido ao Central. Se for preciso paga-me o café. Ou eu a ele. Não é má pessoa. Mete-se nos copos, mas não incomoda ninguém.
E foi num desses dias que nos encontrámos no Central. Eu corria e bebia o café à pressa. Ele bebia o branquito traçado nas calmas. Eu lembrei. Olhe que a missa hoje é ao meio dia. Ó padre, já lhe disse. Interrompi-o para dizer Não lhe puxa, já sei. Estávamos na nossa conversa habitual do deve ir ou do fazia-lhe bem, ou do então não é amigo de Deus, quando, às tantas interrompe a dita conversa para me perguntar. É verdade, ó padre, hoje tem festa lá em cima, na anexa. Tenho. E a que horas é a procissão? É as três e meia. É boa hora. A ver se não falto, que eu não costumo falhar nenhuma das procissões das festas aqui à volta da terra.
Eu já estava de costas e a sair porta fora quando ele repetiu para o dono do café que não costumava falhar as procissões. Entrei no carro. Não tinha muito tempo para pensar porque estava com pressa de chegar cedo à primeira missa. Mas de facto, temos procissões cheias de gente que não costumamos ver na missa!