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domingo, março 29, 2020

super-padre

Há uns quinze dias, quando nos começámos a isolar, quando as celebrações comunitárias foram suspensas e as igrejas fechadas, dei por mim, em casa, a perguntar-me que fazer para, com simplicidade e naturalidade, continuar a guiar estes meus rebanhos, estas minhas comunidades. Estava nisto quando uma catequista me contactou, porque precisava falar. Ter com quem trocar uns dedos de conversa. Ou melhor, ter quem a ouvisse. Falámos um pouco de muitas coisas relacionadas com este mal-estar. E, às tantas, manifestei-lhe a preocupação que carregava. 
Como resposta a esta inquietação, olhem só o que o Senhor Deus tinha preparado para mim da boca desta minha paroquiana. Senhor padre, não queira carregar a cruz sozinho. Neste momento, os seus paroquianos querem apenas que continue a ser o nosso padre. Para ser mais claro, refiro que disse o meu nome próprio. Nós queremos que continue a ser o nosso padre tal. E continuou. Às vezes queremos fazer coisas que não dependem da nossa vontade. E nós precisamos de saber que está bem. Foi mais ou menos isto que ela disse ou quis dizer, ou eu interpretei. E não sabe o bem que me fez! 
Ninguém tem de ser um super-herói diante destas contingências. Temos de ser quem somos. Não tenho de ser um super-padre. Eu tenho de ser o padre que tenho sido. Isso já é heroico.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"

segunda-feira, outubro 14, 2019

Missas dominicais ou mais ou menos isso

Regressei, há pouco, de duas missas dominicais, celebradas com o intervalo de cerca de vinte minutos e quarenta quilómetros. Participaram nelas um total de vinte e oito pessoas. Contei-as, porque é fácil contar estes números. Para ser mais concreto, treze numa e quinze noutra. Duas paróquias distantes uma da outra, mas unidas em similar realidade. Numa, o coro é uma senhora que repete sempre os mesmos cânticos e o leitor não varia de semana para semana. Na outra, variam os leitores, embora pouco, mas não varia a idade dos presentes, muito acima dos setenta anos. Por mais que insista, as pessoas ocupam harmonicamente a igreja, um aqui, outro ali e outro lá ao fundo. Dispersos, mas para que mais bancos da igreja sejam ocupados, digo eu. Sempre se pode dizer que havia gente em dez bancos. Terminei a manhã com a missa na minha paróquia maior. Valeu para sentir que valeu. Eu sei que aquela gente das paróquias mais pequenas não pode nem deve ser abandonada. Sei que cada eucaristia vale por si mesma e que possui a dignidade que Cristo lhe conferiu. Sei que as assembleias cristãs não deixam de ser assembleias por terem pouca gente. Aliás, gente que merece escutar a Palavra de Deus e alimentar a fé. Só não sei como manter isto, no meio de outras tantas paróquias!

quinta-feira, setembro 26, 2019

Cumprir a fé

Há gente que, na Igreja, vive uma relação com Deus como empregado. Vivem, como antigamente os escribas e fariseus, para cumprir coisas, numa relação interesseira do deve e haver. Nunca se assumem como filhos. Nunca agem por amor, mas só por obrigação. Nunca se sentem amados, mas premiados e ou castigados. É por isso que têm dificuldade em amar e perceber Deus nas suas vidas. Porque Deus é amor. E o amor não se pode merecer. Ou é gratuito ou não existe.

terça-feira, setembro 10, 2019

Igreja menos clerical

Há uns dias, depois de umas obras numa das minhas paróquias, foi necessário limpar a Igreja, e o povo juntou-se para o fazer. Depois convidaram-me para almoçarmos juntos. Foi bonito. Muito bonito. Mas às tantas, uma das senhoras, que é muito atrevida e tem sempre um olhar desconfiado para com todos, perguntou porque é que eu não participara da limpeza da igreja. Ela até tinha razão. Eu também poderia ter participado. Só me faria bem estar ao lado deste meu povo. Respondi, em tom de brincadeira, que os padres deviam, de facto, ser limpa-igrejas. Que, aliás, eles deviam fazer tudo na comunidade cristã. 
Disse-o em tom de brincadeira. Mas depois o pensamento levou-me a pensar em muitas outras coisas que, nas comunidades cristãs, esperamos que o padre faça. Como se fosse omnipresente. Como se a Igreja fosse o padre. Como se uma comunidade cristã tenha de ser obrigatoriamente clerical. Estava mesmo a recordar-me daqueles colegas que, quando chegam a uma paróquia para celebrar missa, têm de preparar os vasos sagrados para a mesma, acender as velas e tocar o sino para que as pessoas venham. Estava também a imaginar como seria se os padres tivessem de varrer a Igreja, assear e adornar os altares, tratar das flores, lavar as alfaias, ler todas as leituras na Liturgia da Palavra, começar o canto da animação musical das cerimónias, e por aí fora. É óbvio que raramente as coisas acontecem assim. Mas isso não me impede de pensar que ainda há muita acção apostólica, litúrgica e formativa demasiado centrada na figura do padre, como se uma comunidade cristã dependesse totalmente deste. Ainda há comunidades cristãs que não conseguem fazer nada sem o padre, sem a sua presença e consentimento. Ainda há muitas comunidades cristãs centradas no padre, quando o centro da comunidade deve ser o próprio Cristo. Ainda há muitas comunidades cristãs que não são verdadeiras comunidades ou verdadeira Igreja.

quinta-feira, agosto 08, 2019

A falta que fazem os padres

Ó senhor padre, fazem-nos tanta falta os padres, dizia. Tenho andado a rezar para que haja muitos. E então para a experimentar, perguntei porque motivos é que os padres fazem tanta falta. Para nos celebrarem as missinhas. Não dá mesmo jeito quando temos celebração. E depois vinha fazer as festas todas e as procissões. Era tão bom tê-lo aqui à mão! É esta a falta que fazem os padres! 
E depois dizia há dias um colega mais velho que não se lembra de, nos últimos anos, algum dos seus paroquianos se ter abeirado dele para um conselho espiritual, para um desabafo, para uma dúvida ou questão de fé. Só se abeiravam dele por causa de marcações de coisas.

quinta-feira, janeiro 31, 2019

Não percebo porque é que são sempre os mesmos

Amanhã há uma formação com o tema tal, e aparecem aquelas pessoas que já sabemos que irão. Um dia destes temos retiro, e aparecem as mesmas pessoas. É preciso que se trate deste assunto ou daquele, quem limpe a igreja ou que trate do almoço tal, e são praticamente os mesmos. Vamos realizar um encontro da paróquia, uma viagem ou uma actividade cultural, e aparecem os mesmos. São os mesmos que nos dão alegria por serem eles que participam, por serem com quem contamos, quem nos segura a comunidade, quem garante a mesma comunidade, quem faz a paróquia ser uma paróquia. Mas não sei que dizer ou pensar dos outros oitenta ou noventa por cento de paroquianos, que até vão à Eucaristia, mas que não aparecem nunca mais!

segunda-feira, novembro 12, 2018

A limpeza da Igreja

A mãe ia sair de casa, apressada, quando o filho mais velho, que já anda na universidade, lhe perguntou, intrigado, onde ia àquela hora. Seriam umas duas horas da tarde de Sábado. É que ainda, por cima, já era costume vê-la sair porta fora nos sábados anteriores. Pelo menos uns três ou quatro. A mãe respondeu que ia, mais umas amigas, limpar a Igreja. O filho, mais intrigado, perguntou-lhe porque ia fazer isso, se ele, quando ia à Igreja a encontrava sempre limpa. Para que era necessário ela ir limpá-la se ela estava sempre limpa. E a mãe respondeu que estava limpa exactamente porque havia senhoras, na comunidade cristã, que, tal como ela, todas as semanas se juntavam para limpar a Igreja

terça-feira, novembro 06, 2018

Pagar para ter a doutrina

Este ano o grupo de catequistas, juntamente comigo, decidiu convidar os pais daqueles que vão frequentar a catequese na paróquia, a darem um contributo para ajudar os custos com a Catequese. Nem sequer é obrigatório. Os pais foram convidados sem carácter de obrigatoriedade. Mas os zunzuns da paróquia, as vozes críticas da mesma, decidiram interpretar este convite como “agora é obrigatório pagar para ter a doutrina”. Foi assim que alguém se referiu ao assunto, em tom jocoso, quando estávamos à mesa de um restaurante, no meio de uma refeição. Reparem que até o termo “doutrina” fala do que as pessoas entendem que é a catequese, uma doutrina que se dá a conhecer. Respondi, saturado com os comentários que tenho ouvido a propósito, que nada era obrigatório na minha comunidade cristã. Nem contribuir economicamente, porque era uma questão de generosidade e partilha, nem a Catequese, nem o que quer que seja. O senhor indagou-me dos donativos, indicando que a paróquia devia viver dos donativos. Eu perguntei-lhe quais eram os donativos que ele tinha efectuado, e calou-se. Depois insistiu com o habitual tema de que a Igreja é rica e que o Vaticano devia auxiliar as paróquias, ou então que umas ajudassem as outras, referindo explicitamente o Santuário de Fátima. Tem alguma razão, neste ponto, este senhor. O que ele não sabia era que o Santuário de Fátima já tinha auxiliado a nossa paróquia e que o natural/ideal era que cada comunidade cristã tivesse a capacidade de  subsistir por si mesmo. Esclareci-o de que as contas da paróquia eram públicas e apresentadas anualmente com transparência, e que a gestão corrente dos últimos dois anos, devido aos custos normais e àquelas coisas que não se valorizam a não ser quando se precisa delas, tinha um saldo negativo. Acham que isso interessou ao senhor? Nada. A conversa continuou no mesmo tom, por um lado de quem acha que a paróquia não necessita de contributos de ninguém para nada, e por outro de quem está saturado desta forma de entendimento, que nada tem a ver com uma comunidade verdadeiramente cristã

sexta-feira, setembro 28, 2018

O que é fazer tudo

Está mais que provado que hoje as pessoas pouco querem com Deus, com a Igreja, com os padres ou com a fé. Contudo, persistem em querer realizar as festas do baptismo, primeira comunhão e Crisma. Sobretudo estas. Dizem que, tendo-as feito, fizeram “tudo”, como se esse tudo fosse a garantia de serem cristãos. Segundo estes, quem vai à missa são as beatas. E quando algum jovem vai à missa, é apontado como anjinho, santinho ou parecido. Não está na moda ir à missa. A Catequese serve, na generalidade, para que se habilitem as crianças e jovens e fazer estas festas. É comum ouvir pais afirmarem que, porque eles fizeram tudo, também querem que os filhos façam tudo. O tal “tudo”. É comum que, embora honestamente, alguns dos catequisandos respondam que o objectivo deles ao participar na Catequese, é poder fazer o Crisma. Depois dele, como se sabe, já não querem nada com Deus, ser do qual foram questionando a existência, mas não o expressaram para evitar não fazer o Crisma. Depois vêm os funerais e as festas populares, acções que manifestam, de forma clara, que a Igreja tem servido, quase exclusivamente, para cumprir sacramentos, sacramentais e festas religiosas populares. E a nós, padres, pedem-nos que sejamos funcionários destas coisas todas. Aquele tipo de empregado que deve estar ali no território que chamamos paróquia, para quando se precisa de alguma destas coisas. Nem formação, nem evangelização, nem entusiasmos, nem dinamismos ou estratégias, têm conseguido inverter a situação. Bem reflectem os peritos pastorais, mas a coisa teima em ser difícil. No meio disto tudo, valha-nos ao menos que, graças a Deus, ainda vai havendo quem não desista de Deus ou da Igreja e precise verdadeiramente da missão dos padres. Ainda assim, como podem resistir as vocações sacerdotais ou como podem surgir vocações ao sacerdócio?

segunda-feira, setembro 24, 2018

Beatas, ratas de sacristia, ou santas

Há quem lhes chame beatas do padre, ratas de sacristia, e por aí fora. Nomes que se ouvem por todas as paróquias e que, às vezes, até a nós, padres, nos ocorre repetir. Mas são aquelas mulheres que sustentam a paróquia com a sua oração, todos os dias, à mesma hora, na Igreja. Guardam essa hora para estar com Ele e para rezar por todas as necessidades, por todos e toda a paróquia. São meia dúzia de senhoras com uma certa idade que quase nunca faltam a esse compromisso que assumiram diante de Deus e da comunidade. Se calhar nem sempre são pessoas que na vida diária têm as melhoras condutas. Apontam-lhes, com frequência, o dedo, como sendo pessoas que batem no peito ou colocam as mãos juntas para rezar, mas pouco fazem, de mãos abertas, para ajudar os outros. Não sei se isso é verdade ou não. Também me parece que esse tipo de juízo é demasiado exagerado. Não há ninguém perfeito. Mas uma coisa é certa: elas raramente falham ao compromisso de rezar pela comunidade toda. Por isso hoje queria dirigir-lhes o meu Bem hajam, e chamar-lhes de minhas santas, ou santas da minha comunidade cristã. Vós suportais, em muito, a nossa comunidade. Não há casa sem fundações. Não há árvore sem raízes. Não há intimidade com Deus sem oração. Não há Igreja sem oração. Não há comunidade cristã sem oração.

quarta-feira, julho 11, 2018

Há paróquias e paróquias

Há paróquias que o são porque assim foram constituídas, zonas religiosas com um determinado território para cumprir a sua cultura religiosa e alimentar um pouco a fé de cada um, sobretudo através dos sacramentos. E há paróquias que querem ser comunidades cristãs e que, partindo da Palavra de Deus, fazem caminho para serem cada vez mais comunidade cristã.
Digo isto porque, apesar de ter paróquias a meu encargo como no primeiro caso, também tenho algumas paróquias que vejo crescer como no segundo. Há dias uma destas, por ocasião de uma festa onde, no final, havia rematações de buxos, chouriças e farinheiras confecionadas por um número bonito de senhoras da comunidade, assisti a algo que superou grande parte das minhas expectativas. Depois de tudo rematado, e sem que se previsse, lá foi grande parte da minha gente para o forno assar outra grande parte das chouriças e farinheiras. Eu tivera necessidade de me deslocar a outro local, e às tantas recebo uma chamada a dizer que estava tudo pronto para o convívio e estavam à minha espera. Qual não foi o meu espanto quando, ao chegar, verifiquei que estava quase toda a comunidade reunida para o convívio e, ainda por cima, ninguém tocara na comida antes de eu chegar. Porque sim, disseram. Porque eu era o seu pastor. Para além das chouriças e farinheiras, não faltou o pão e até uma sopinha, como eu gosto, e umas sobremesas para os mais gulosos. Bonita comunidade esta, que tenho de agradecer a Deus.

sábado, junho 02, 2018

Os óculos da paróquia

Tenho ao meu encargo uma paróquia pequenita, onde são poucos os que sabem e conseguem ler as leituras na Eucaristia. O senhor Jacinto é um deles. Mas no passado Sábado, quando chegou a hora de ler a primeira leitura, e porque se esquecera dos seus óculos, enquanto se dirigia ao ambão, ia perguntando ao resto do pessoal, em alta voz, se alguém tinha uns óculos que lhe emprestasse. E não é que havia! Levantou-se a senhora Capitolina, tirou os óculos que o seu nariz e orelhas seguravam, e entregou-lhos junto ao ambão. Já estão a imaginar como me ria tapando a boca para não se escutarem as gargalhadas. Ninguém se descoseu ou achou estranho. E na hora o senhor Jacinto começou a leitura sem qualquer problema. Da mesma forma a concluiu e, distraído, já ia para o seu lugar quando a senhora Capitolina foi ao seu encalço, a meio da coxia, para lhe pedir os óculos, dado que agora era ela que tinha de ler a segunda leitura. Mais difícil foi aguentar por detrás da mão tanta vontade de rir. E como se não bastasse, quando chegámos, depois da homilia, à Oração dos Fieis, e o senhor Jacinto se dirigiu, de novo, ao ambão, para fazer a referida leitura das preces, já a Capitolina, sem que lhos pedisse, saíra do seu lugar para lhe emprestar os óculos.
Por este andar, no próximo dia que lá voltar, sou bem capaz de ter de pedir à senhora Capitolina que também mos empreste para ler o Evangelho. Óculos destes não é em todas as paróquias que existem!

sexta-feira, maio 25, 2018

Não percebo porque é que são sempre os mesmos

Amanhã há uma formação com o tema tal, e aparecem aquelas pessoas que já sabemos que irão. Um dia destes temos retiro, e aparecem as mesmas pessoas. É preciso que se trate deste assunto ou daquele, que se limpe a igreja ou se trate da refeição tal, e são praticamente os mesmos. Vamos realizar um encontro da paróquia, uma viagem ou uma actividade cultural, e aparecem os mesmos. São os mesmos que nos dão alegria por serem eles que participam, por serem com quem contamos, quem nos segura a comunidade, quem garante a mesma comunidade, quem faz a paróquia ser uma paróquia. Mas não sei que dizer ou pensar dos outros oitenta ou noventa por cento de paroquianos, que até vão à Eucaristia, mas que não aparecem nunca mais!

domingo, maio 20, 2018

A Igreja dos “chineses”

Não tenho nada contra os chineses, nem contra as suas lojas que proliferam por todo o lado. Também não questiono a qualidade dos seus produtos. Poderia questionar o facto de eles não pagarem impostos, mas não sei o suficiente do assunto, nem é sobre isso que pretendo escrever. O título que escolhi também não é depreciativo, nem pressupõe que haja uma Igreja chinesa. 
Já aqui utilizei uma expressão da qual não sou propriamente dono, embora me tenha apoderado dela, a “Igreja supermercado”. É com base nessa expressão que hoje reflecti sobre esta Igreja que as pessoas procuram apenas quando querem algum sacramento, e que, no restante espaço das suas vidas, não procuram nem pretendem procurar. Essa Igreja que alimenta serviços mas não alimenta a fé. Essa Igreja que alimenta tradições, mas não se preocupa com o anúncio da Boa Nova. Essa Igreja a que se vai quando se precisa de alguma coisa materialmente ou ritualmente falando. 
É essa Igreja-loja que hoje me ocorreu comparar com a loja dos chineses na medida em que as pessoas a procuram, independentemente da qualidade da oferta e exigindo preços de saldo ou preços baixos. Apetece-me manifestar a minha tristeza por um tipo de pessoas que não vivem na e para a comunidade cristã, não contribuem ou partilham com a comunidade paroquial, e exigem todas as regalias possíveis, quando bem lhes apetece, só porque no escaparate se pode ler “Igreja”. 
Na conjectura de alguns, a Igreja tem de ser desprendida, pobre, miserável, e assim o mais injusto que ela poderia fazer era tentar manter uma gestão equilibrada das suas contas, da sua administração e dos seus bens. Como Igreja que é, teria de ser espaço gratuito e aberto para todas as necessidades, mesmo que se esvazie de conteúdo e se aproxime da falência.
Enfim, eu também gostava que tudo fosse como nas primeiras comunidades cristãs, que tudo fosse partilhado e tudo fosse gratuito. 

terça-feira, abril 10, 2018

E se os padres fizessem greve?

Li há tempos que um pároco em Itália afixara um cartaz na porta da Igreja a dizer algo mais ou menos do tipo "A missa foi suspensa por falta de fiéis. Padre tal estará disponível quando for chamado". A informação foi publicada num jornal e alvo de muita conversa, sobretudo nas redes sociais. 
Pessoalmente não me parece que a sua opção tenha sido a mais indicada. Um padre, à partida e como servo de Deus, deveria também ter a disponibilidade de coração para qualquer necessidade do foro da fé, mesmo quando à sua frente está um número reduzido de fiéis. No entanto, com a carência de sacerdotes, com as notícias que nos vão dando conta da sua debandada, das depressões ou similares na vida de tantos sacerdotes, o assunto merece a atenção de todos aqueles que se interessam pela Igreja.
A paróquia é, desde tempos imemoráveis, o território por excelência da acção de um sacerdote a que se chama pároco. Mas o número de padres tem diminuído e o mesmo não ocorre com o número de paróquias, ainda que muitas delas tenham perdido parte dos requisitos básicos de uma comunidade paroquial. O mais comum é a diminuição drástica de paroquianos. Nunca me aconteceu colocar-me diante do altar sem fiéis para celebrar a missa. Mas já celebrei bastas vezes para menos que uma dezena de pessoas. Contudo, os bispos teimam em dividir os padres pelas paróquias como se fossem fatias de um bolo, as comunidades costumam tratar-se como consumidoras e os padres aqueles que estão do outro lado do balcão. Temos esquecido que é mais importante a transmissão da fé que a divisão de territórios por párocos. Estes têm cada vez mais a seu cargo lugares para cuidar, lugares para realizar sacramentos a correr, Igrejas a cair por dentro e por fora, sem tempo para a real missão que assumiram na sua ordenação. Na verdade, e embora possa ser apenas minha opinião, um padre não se ordena para ser pároco, mas para ser padre. A sua missão não se confina a um território. A sua missão é anunciar a Boa Nova. 
Qualquer dia é bem possível que também os padres comecem a fazer greve para exigir que a vocação que abraçaram volte a ser a vocação sacerdotal.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Eu na periferia

Estou triste comigo. Com uma daquelas tristezas que se transpiram pelos poros e que, por mais que se use um perfume ou um desodorizante, cheiram a bafio. Fiquei triste comigo há cerca de uns quinze minutos, lá pelas vinte e uma horas da noite, quando bati à porta de um pobre daqui da terra. Com a agravante de que para saber a morada, tive de pedir a alguém que me ajudasse. Sinto agora que isso era uma agravante porque estou a pensar nela. Os meus motivos eram bons. Não posso dizer que não eram bons! Mas depois que a senhora me abriu a porta, dei conta que esta não me conhecia. Sabia que eu era o padre porque alguém a avisara que eu daria por lá um salto. Claro que me posso desculpar dizendo que ela não me conhecia porque não vai à missa. No entanto, não posso por o acento da situação nela. Tenho de o por em mim. E se ela não me conhece é porque nunca me dera a conhecer. Porque nunca batera à sua porta. Porque não fora ao seu encontro. Ao encontro da sua pobreza. Da sua periferia. E agora estou triste porque, afinal, não sou o padre que deveria ser.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Igrejas a fechar

De entre as milhares de paróquias que existem no mundo, mormente na Europa, existem bastantes que são demasiado pequenas. Quer pela exiguidade dos seus membros, porque uns vão morrendo e não nascem crianças para, pelo menos, os repor, quer pela descida crescente do número de crentes e de praticantes, de gente que se interessa verdadeiramente pela sua paróquia. 
São paróquias que geralmente recusam deslocar-se à paróquia vizinha para fazer um número mais plausível de fiéis. Paróquias que em cada eucaristia têm pouco mais de dez ou vinte pessoas, inclusive nas dominicais. Na minha diocese tem aumentado o número de paróquias deste género. E nós, os seus párocos, vamos aumentando o número de paróquias a nosso cargo, sete, oito, dez, e mais para cada um. Paróquias a morrer. Paróquias que exigem a missa deles, mesmo que já não caibam nas horas do dia tantas missas. Paróquias que merecem Deus e que merecem ser comunidade. Todas as localidades o merecem por si mesmas. Mas não sei se estas questões passam por merecimentos. E também não sei se algumas delas não deveriam ser extintas legalmente. 
O que sei foi o que a senhora Graça, uma das persistentes de uma dessas paróquias a meu cargo, me contou. Dizia que há dias, numa conversa com um senhor lá da terra que não quer saber da paróquia a não ser nos funerais, casamentos e baptizados, ela esboçara o seu descontentamento pela paróquia estar assim, a morrer. E qual foi a resposta, clara, directa, sem meias medidas, quase como se tanto fizesse ou se fosse o destino desejado? Deixe morrer duas ou três beatas que lá andam sempre, e vai ver como a Igreja se fecha.

terça-feira, janeiro 31, 2017

Conversa desajeitada

Conversa de quem quer algo, de forma volátil, numa paróquia que tem à sua frente três padres. Olhe, diz ela para a funcionária do cartório, quando é que posso falar consigo para marcar umas coisitas? A funcionária perguntou de que coisas se trata, e ela respondeu que, como agora há três padres na terra, se podem fazer coisas que antigamente não se faziam. Mas o quê, retorquiu a funcionária. Assim, como batizar o meu neto e o meu genro no mesmo dia. A funcionária esclareceu que isso se poderia, eventualmente, fazer, desde que o genro fizesse catequese. A resposta da senhora foi um Isso é que vai ser mais complicado. Queria fazer-lhe uma surpresa e mandar-lhe a água para a cabeça e um dos teus três padres rezava e pronto. Não dá para fazer assim? Como a senhora não parava quieta e parecia querer escapulir-se da conversa, a funcionária reiterou que tinha que falar com um dos sacerdotes. Um quê? Perguntou. Um dos padres. Ahhh, ok, eu gosto muito daquele dos olhos azuis. Sim, talvez seja. Ficou contente e mudou de caminho em direção a casa com um boa noite e Ainda bem que é o girinho que vai falar comigo. E assim terminou uma conversa profunda de um cristão profundo.

quarta-feira, janeiro 04, 2017

O sonho de ser padre e paróquia de outra maneira

Por vezes sonho com uma nova forma de ser paróquia e com um novo modo de ser padre. Penso que é legítimo sonhar para sair de mim e do comodismo da paróquia. Não. Não é um pesadelo. Não penso estas coisas exasperado com a situação. Ou como se a mudança fosse a única alternativa possível. Tenho apenas o sonho de um dia voltarmos à frescura das pequenas comunidades cristãs do tempo da Igreja primitiva. Menos organizadas, menos sacramentalizadas, menos hierarquizadas. Pequenas comunidades à descoberta de como ser comunidade. Sem certezas, dogmas e doutrinas. Como pequenos discípulos à descoberta de Jesus. Só Ele era o centro, a certeza, a mensagem. Só Ele mobilizava. Só Ele impactava para se viver como Igreja. 
Sonho um dia ser um simples cristão que é padre. Viver a fé com o compromisso de somente a viver para Viver. Não sei, na minha simplicidade, como arquitetar o esboço deste sonho. Mas sei sonhar. 
Talvez um dia, quando o céu se fixar na terra, mesmo que tenha de ser pintado pela mão de Deus, este sonho não seja só meu. E não seja só um sonho. 

Com este sonho começo o ano. Talvez em 2017 a Igreja renasça um pouco, as nossas paróquias se tornem mais comunidade, e nós padres sejamos mais autênticos. 

domingo, dezembro 11, 2016

Encostadas ao meu peito

Contado parece algo meio distorcido. Vivido é a suma daquilo que eu imagino que deva ser a relação do pastor e das ovelhas. Tal como dizia o Papa quando afirmava que os pastores deviam cheirar as ovelhas. 
Ocorreu numa das minhas paróquias. Numa daquelas em que a relação com as pessoas tem aumentado imenso, sendo visível o carinho de parte a parte. Sinto que as pessoas confiam no seu pastor e se sentem seguras na sua presença. E assim no outro dia, enquanto confessava, reparei que uma grande parte das senhoras se encostava ao meu peito (advirto que tinham idade no mínimo para serem minhas mães!). Eu estava sentado com o braço sobre o encosto do banco, e à medida que vinham confessar-se, algumas aconchegavam-se para nos escutarmos coração a coração. Houve uma altura em que dei por mim a gostar de me sentir assim, tão pároco.