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segunda-feira, agosto 10, 2020

Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

O que me impede de ter um olhar misericordioso por mim próprio, quando o próprio Deus me ama como eu sou? Não que isso justifique as minhas opções erradas. Os pecados. Os erros. As costas voltadas. As queixas desmedidas. Mas é verdade que Deus me ama muito mais do que eu me amo. Deus ama-me, não por eu ser bom, que não sou, mas porque Ele é bom. Deus ama cada um de nós, não por sermos bons, mas porque Ele é bom. Ele ama-me como eu sou e não como eu gostaria de ser. Isto parece redutor, e parece que põe tudo em Deus. O Centro. E, ao mesmo tempo, retira toda a nossa responsabilidade. Não é verdade. Nós somos responsáveis. Mas o centro é mesmo Ele. Por isso Jesus falava em perdoar setenta vezes sete vezes, que é o mesmo que pronunciar o número infinitamente. Porque quem ama, não ama com medidas. Ama com esse número que é muito mais que setenta vezes sete vezes. O número que não cabe na numeração, tal como a conhecemos. Por isso ama e perdoa. Porque só sabe amar quem souber perdoar. Só ama de verdade quem consegue aceitar a diferença que o outro é. A diferença que, no outro, pode até ser, dor. Por isso deu a vida por todos. Não deu a vida só por alguns. Deus a vida por bons e maus, por justos e injustos, por judeus e gregos, por escravos e homens livres. Por mim. Por ti. Por todos nós. E nunca é demais repetir isto. Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

A PROPÓSITO OU A DESPOPÓSITO: "A estatura do verdadeiro amor"

domingo, maio 17, 2020

A caminhar se faz o caminho!

A primeira vez que a Valentina falou comigo estes dias foi para me segredar que estava sem rumo, perdida, cheia de medos, receios, dúvidas, angústias. Estava cheia de todas aquelas palavras que tentam definir o pânico. Não sabia que fazer. Não sabia nada de nada. Não estava bem. 
Fui-lhe respondendo que era normal termos receios, mas que não vermos para além deles, era o mesmo que tapar os olhos à luz que se procura no fundo do túnel. Até à presença de Deus que se pressente. Que o caminho a fazer era continuar a viver no meio das limitações... que, afinal, sempre existiram. Agora só nos parecem mais visíveis. E mais isto e mais aquilo, no sentido de apaziguar aquele coração e convidá-lo a fazer caminho. 
Não passaram vinte e quatro horas quando a Valentina me contactou para me dizer que se estava a fazer luz na sua vida e fé, embora com dificuldades. É isso, respondi. O caminho faz-se caminhando, sem certezas que não seja fazer o caminho, mesmo caindo, mesmo voltando um pouco atrás, mesmo com vontade em desistir, mesmo com obstáculos a ultrapassar. O importante na fé não são as certezas, mas o caminho! força... a todos os que se chamam, por estes dias, de Valentina. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padres que não sabem que caminham"

terça-feira, fevereiro 11, 2020

Então já não há extrema-unção?

Esta tarde ligaram-me de um número que não conhecia, com este pedido urgente. Senhor padre, o meu pai quer receber a extrema-unção. Está com alzheimer associado a demência natural. Insiste em falarmos consigo, porque está a morrer e quer receber a extrema-unção. Cada vez que o filho utilizava esta palavra para designar o sacramento da Unção dos Doentes, eu interrompia e dizia: Unção dos doentes. Unção dos doentes ou Santa Unção. Mas podemos ir ter consigo, senhor padre? O meu pai não se cala. Como se fosse apenas para o calar. 
Tinham de fazer uma pequena viagem de carro. Por isso tardaram um pouco. O tempo suficiente para, ao cruzar-me com uma amiga destes amigos, parar para cumprimentar e ouvir. Olhe, senhor padre, já deu a extrema-unção ao senhor tal? O filho anda aflito! Não sabe o que fazer! Unção dos doentes. Insisti. Olhou para mim com olhos de quem pergunta Mas já não há extrema-unção? 
Na verdade, por mais que falemos destas coisas na comunidade cristã, nem sempre estão atentos, ou nem sempre estão. Digamos, portanto, que foi uma oportunidade para explicar o que é este sacramento. O seu porquê. O seu sentido. Que não se pode pensar como um sacramento de mortos. Todos os sacramentos são dos vivos e para os vivos e este é, especificamente, um sacramento para dar força, ânimo e vida. Por isso não se deve esperar, in extremis, pela hora, como se fosse um sacramento dos mortos ou dos que estão quase a morrer, e apenas para que se possam salvar.
Ainda o meu latinório ia a meio, quando ela, com pressa, perguntou: Então já não há extrema-unção?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Vivemos para morrer."

sexta-feira, janeiro 10, 2020

Vivemos para morrer.

Iniciei assim a homilia. Vivemos para morrer. Disse-o, convencido de ser uma enorme verdade de vida. Nascemos para viver e vivemos para morrer. Para chegar a esse momento, do qual ninguém escapa. Ricos ou pobres. Mais capacitados ou mais desajeitados. Todos. Todos vivemos para morrer. Na verdade, o sentido da vida começa quando encontramos o sentido da morte. Se não o encontramos, vivemos a morrer por dentro até que ocorra a morte. A nossa vida deixa de ser vida para estar morta. Porque temos medo e ansiedade, o que nos mata interiormente e não nos deixa viver em pleno este dom maravilhoso que nos foi dado, a vida. Não há pior morte que a de estar vivo, mas morto por dentro. Vivendo sem sentido de viver. Não obstante, vivemos para morrer. Para passar pela morte. Que é apenas mais um momento, embora nos pareça o fim dos momentos. 
Eu acho que não tenho medo de morrer. Digo Acho para não parecer exagerado. Ou muito seguro de mim. Que não sou assim tanto. Imagino-me a conversar comigo dizendo estas coisas e a ver como reage o meu rosto. Para ver se é verdadeiro ao falar de uma coisa que custa tanto falar. Claro que tenho o instinto natural da sobrevivência. Sofro quando algo me afecta na saúde. Quando vejo dor e sofrimento. Quando me deparo com a morte, sobretudo dos que mais amo. Quando vejo o tempo passar e não voltar. Quando vejo as capacidades a desparecer-me por entre os dedos, mesmo quando os fecho na mão, tentando agarrá-las. Mas acho que não tenho medo da morte. Porque estou convencido que a morte é apenas a plenitude da vida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É a vida"

segunda-feira, outubro 28, 2019

Os ultras

O substantivo ou adjectivo, como lhe quiserem chamar, não é da minha autoria. Chamam-se ultras àquelas pessoas que, por algum motivo e em determinado aspecto, são extremistas ou radicais. Ouso chamar ultras àqueles católicos de uma ala extremamente conservadora e que têm atacado veementemente o Papa Francisco e grande parte das suas opções, posturas, discursos e documentos, indiciando que estão contra a doutrina e contra a Igreja. 
Os ultras são, na sua maioria, gente que gosta de se pensar como uma elite. Cardeais, ou parecidos, que adoram longas caudas e longas vénias, vestes bordadas e de marca, autênticos príncipes e princesas da Igreja instituição. Padres e quase padres, ou leigos que parecem mais que padres, e citam de cor o catecismo, Tomás de Aquino, documentos e papas de séculos passados. Os argumentos são quase sempre citações ou passagens da história caducada. Também citam a Bíblia, como arma de arremesso, porque a Bíblia diz assim e assado. Porém, apenas utilizam passagens e versículos que justificam, literalmente, as suas investidas. Parece gente formada. Mas é mais enformada que formada. Mais manipulada que formada. Aliás, utiliza muito esse estratagema da manipulação. E segue líderes interesseiros que não estão dispostos a perder o seu status quo. Gente que se acha dona do Espírito Santo e sabe a vontade de Deus, em primeira mão. 
Arrogam-se o direito de atacar quem quer que tenha opinião diferente da sua ou que ponha em causa a pretensa doutrina ou as normas morais. Nem que seja o Sumo Pontífice. Ou seja, o responsável máximo da mesma Igreja que tanto defendem. São integristas, donos da verdade, e veem inimigos em tudo e em todos. Porque todos os outros são impuros. Não fazem parte do grupo dos puros. Vade retro. 
São católicos que estagnaram numa fase da história da Igreja que já lá vai, mas que querem ressuscitar. Na esperança de que haja uma nova ressurreição. Não a de Jesus. Mas a da Igreja que desfaleceu. Gente que não quer ver os sinais dos tempos e se sente ofendida que alguém o faça. Gente que se acha a mais católica do mundo e que faz juras de fidelidade à mãe Igreja. Na sua boca, fica-se, muitas vezes com a sensação de que é Deus que serve a Igreja e não a Igreja a Deus. 
Gente que me faz lembrar os fariseus hipócritas do tempo de Jesus que viviam para cumprir coisas, rituais, preceitos, sem que isso interferisse realmente no mais íntimo das suas vidas, o coração. Conjunto de gentes que gostam de se chamar comunidades, embora sejam mais guetos fechados sobre si mesmos, que vivem mais para manter as crenças dogmáticas do que a simplicidade da fé e do amor salvador e misericordioso de Deus. Gente que é capaz de adorar a Deus, mas não tenho a certeza de que O amem.

quarta-feira, outubro 18, 2017

O negócio da salvação

Senhor padre, um colega seu disse-me que se me confessasse, comungasse e rezasse pela alma de uma pessoa à minha escolha, essa alma era salva e ia para o céu. Por isso lhe peço se me pode confessar. 
Não o conhecia, mas não o deixei ir-se embora sem a pretendida confissão. Também não conheço o denominado colega que lhe fez tamanha proposição. E mais uma vez não me quero julgar dono do juízo de Deus ou das boas intenções, tanto do colega como do senhor que me batera à porta. Não obstante, gostava de saber que raio de negócio é este que compra a salvação, ainda por cima, a salvação de alguém que não é o beneficiário directo da confissão, da comunhão e da oração. Que raio de negócio será este que limita a opção de Deus à nossa acção. Talvez tenha razão o meu colega, e talvez eu deva ir ali à igreja mais próxima comprar uma salvaçãozita para um amigo que faleceu e que gostava muito de ver no céu.

domingo, março 19, 2017

O sorriso da minha mãe

Hoje lembrei-me do sorriso da minha mãe. Era um sorriso rasgado. Quase se notava mais o seu sorriso que o seu rosto. Ou melhor, quase se notava mais o seu rosto sorridente que a dor sofrida da sua enfermidade. 
Também chorava. Vi-lhe algumas lágrimas correr pelos sulcos cansados do rosto. Mas eram poucas, e misturavam-se com a alegria de um rosto feliz. A minha mãe era feliz. Também se afrontava com as afrontas da vida. Como mãe que era, pesavam-lhe sobretudo as afrontas dos filhos, onde me incluo especialmente. Mas era feliz. Tinha uma vida cumprida. Não uma daquelas vidas gastas sem saber bem como e para quê. Era uma vida entregue aos outros e a Deus. 
Talvez eu esteja a exagerar, porque a minha mãe é simplesmente a “mãe”. O cordão umbilical que me alimentou ainda não se desligou nem vai desligar. Talvez eu exagere ao afirmar que a vida da minha mãe era uma vida com “V” grande, à maneira do “D” grande de Deus. Mas como lhe devo tanto da minha vida e do meu sacerdócio, deixai-me recordar esse sorriso que tantas vezes me dá vontade de continuara a viver e a ser sacerdote.

Parece que este texto não vem a propósito, mas vem. Hoje, dia do pai, aproveito para enviar um grande abraço a todos os pais e um abraço muito apertado ao meu.

domingo, fevereiro 21, 2016

Deus resolve-nos a vida

Hoje não quero dar nome à pessoa que, em conversa, me disse que não entendia como Deus não nos resolvia os problemas que tínhamos e permitia que houvesse tanto sofrimento, mesmo de pessoas inocentes. Não quero dar-lhe nome, para que cada um possa ali colocar o seu. Porque sei que na nossa vida estas dúvidas aparecem apanhando-nos desprevenidos. A essas pessoas sem nome para dizer, eu hoje quero dizer. 
Deus resolve-nos a vida. Não no-la resolve por fora, por acções exteriores. Tudo o que é de Deus acontece no interior, mesmo as coisas exteriores. Por isso Ele não resolve as catástrofes. Dá-nos o entendimento e a oportunidade de as resolver. Não nos resolve a doença, mas dá-nos a capacidade de a viver. Não nos resolve as relações, mas indica-nos como lidar com elas. Não nos resolve o sofrimento ou a dor, mas inspira-nos o seu sentido. Deixa-nos morrer, mas até isso Ele ressuscita para a intimidade do seu ser. 
Deus afinal resolve-nos toda a nossa vida, mas interiormente. Basta tão só que O deixemos habitar em nós. Lá dentro Ele dará sentido a todo o nosso exterior.

segunda-feira, janeiro 25, 2016

A Igreja Titanic

Quem já viu o famoso filme da tragédia ocorrida em 1912 que deixou afogar e morrer mais de 1.000 pessoas, deve ter presente como poucas vidas foram salvas. Diz a história que eram poucos barcos salva-vidas, mas que havia neles lugar para mais 470 pessoas além das que foram salvas. Só que, para não se incomodarem os mais doutos, ricos e prestigiados ocupantes do barco, os barcos salva-vidas não foram inteiramente ocupados. Quando o barco enfim se afundou, duas dessas pequenas embarcações regressaram para salvar os sobreviventes, mas a maioria já estavam mortos por afogamento ou hipotermia. Conseguiram ainda salvar 9 resistentes. Conta-se que mesmo assim, de entre as pessoas dentro dos barcos, ainda houve quem resmungasse pela atitude dos que quiseram procurar sobreviventes. 
Toda esta situação vem a propósito de uma leitura que fiz há dias e que falava da Igreja como um Titanic. Uma Igreja autorreferencial, voltada para os seus, que tenta a todo o custo salvar-se. Uma Igreja que deixa muitos a afundar porque tem medo de molhar o barco, de o estragar, de correr riscos, de afundar também. Uma Igreja que pode pintar os barcos das melhores cores e apetrechá-los com as melhores máquinas a vapor, mas que esquece a sua missão. Uma Igreja que sabe que deve ir, mas que lhe custa ir e que, por isso, resmunga quando alguém vai. E se vai, muitas vezes já vai tarde. Uma Igreja que tenta aguentar o barco, mas não chega ao cais. Dá que pensar!

quarta-feira, dezembro 23, 2015

As três chaves

Tenho três chaves na mão. São chaves que me ofereceram quando ainda não sabia balbuciar que estava vivo. São as chaves imaginárias que coloquei hoje de novo nas mãos para olhá-las e compreender-me.
A primeira disseram-me que abria a porta da vida.
A segunda que abria a porta do paraíso.
A última que abria a porta de Deus.
Disseram-me também que só poderia escolher e ficar com uma. E para me ajudar a fazê-lo, disseram-me que se escolhesse a primeira, escolhia a vida. Se escolhesse a segunda, escolheria a vida em plenitude. Se escolhesse a terceira, era escolhido.
Mas escolhido como? Para quê? De que forma? Perguntei eu. Era escolhido para viver amado, receber o amor em plenitude, viver para sempre em Deus.
Meio encolhido, meio envergonhado, sem me achar merecedor, escolhi ser escolhido. Escolhi a terceira. Afinal era a porta das portas!

quinta-feira, novembro 26, 2015

A auto-salvação

O padre António é um pouco mais novo que eu. Andámos na mesma escola e no mesmo Seminário com diferença de poucos anos. Há dias, ou semanas, tivemos a oportunidade de nos cruzarmos e cumprimentarmos num funeral. O padre António presidiu à celebração e, portanto, à homilia. Falou oportunamente da salvação que vem de Deus através de Jesus Cristo. Que bem falava o António. E recorria à frase conhecida de Jesus que se apresentava como o Caminho, a Verdade e a Vida, dizendo que este caminho que era Ele, era o mesmo que fazer como Ele, segundo o seu exemplo, virtudes, valores, os valores do Evangelho, para que assim pudéssemos chegar ao céu, ao céu da eternidade. Reconheço que de certa forma já falara assim do assunto, com essa explicação que parece óbvia. Mas ao escutar o António, e talvez porque não tinha que pensar no raciocínio do que dizer a seguir, recordei as famosas heresias de Pelágio e de Jansen. Conhecidas respectivamente por pelagianismo e jansenismo. E naquele dia dei por mim a reconhecer que esta forma de falar da salvação é mais uma auto-salvação que uma salvação por Jesus, é mais uma salvação por méritos que pela graça de Deus. Só Deus salva afinal. A nós resta-nos abrir o coração a essa graça tão grande que é o anseio maior da vida. A nós resta-nos o livre arbítrio. A Deus a graça da salvação.

quarta-feira, outubro 14, 2015

A salvação dos sem culpa

Na conversa de café de há uns dias, aquela conversa que contei onde estavam vários padres, sendo um deles missionário, recordo também uma das afirmações que me chocou do padre mais idoso que la se encontrava. Insisto que a idade não deveria contar para a reflexão ou para a situação. Era apenas o padre que naquela conversa tinha mais idade, e ponto final. Era também o colega que discretamente se escandalizara com o modo de estar do tal padre missionário entre os índios na Amazónia. 
Depois do acto de escandalizar-se, perguntou, dirigindo-se a todos os presentes, como poderiam estes índios salvar-se. Entrei na conversa para dizer que talvez eles se salvassem melhor que qualquer um de nós. E não é que o tal senhor padre concordou comigo! Mas estragou o companheirismo quando acrescentou que decerto se salvariam pela sua ingenuidade. Como não haviam tido hipótese de conhecer a Deus, e eram ingénuos em relação a Deus, se calhar – dizia – salvavam-se. Não gostei. Até porque talvez estes índios fossem mais coerentes que nós para com Deus. Mais íntegros, mais genuínos com o Criador. Mais puros. Ele insistiu na sua teoria, explicando que se estava a referir ao facto de eles não terem culpa. E nesse momento o padre missionário perguntou. Mas culpa de quê? A pergunta respondeu tudo. Eu fiquei um pouco chocado com a afirmação do tal senhor padre. Não quero pensar que não gosto dele. Quero percebê-lo, e até certo ponto percebo o que ele arrasta de tantos anos formatado numa forma de ser Igreja “societas perfecta”. Mas fiquei chocado deveras.
Valeu a pergunta ou resposta final do padre missionário. Se valeu. Já para não falar que a salvação vem da graça de Deus e não dos homens, sejam eles quem forem.

terça-feira, setembro 22, 2015

É possível fazer Igreja sem sacramentos?

Estávamos à mesa de um café vários padres, pouco conhecidos na verdade, mas unidos pelo mesmo ideal, o sacerdócio. As diferentes idades e experiências eram patentes na conversa. Uma deles era missionário. Estivera vários anos na Amazónia, no Brasil, no meio de uma população indígena. Totalmente indígena, referia, no sentido de que estavam afastados do mundo civilizado, nómadas, índios que viviam da terra, da pesca e da caça como já só se vê em filmes. Um outro colega de uma geração mais velha que a minha perguntou-lhe como faziam, que faziam, como evangelizavam. E o padre missionário respondeu que apenas estavam com eles, que os ajudavam a procurar, por exemplo, deixar de se guerrear. O padre mais velho voltou com nova pergunta sobre como eram os baptismos, e o padre missionário informou que não tinham feito nenhum. Que a vida e cultura deles era muito diferente da nossa. E que Deus estava e manifestava-se por lá de outra forma. Que alguns dos índios se questionavam do que faziam lá três homens que se chamavam padres, e chamava-lhes a atenção do que faziam de diferente. Mas em termos daquilo que é a fé que nós conhecemos aqui na Europa, talvez tivessem dado poucos passos.
O padre mais velho, evitando demonstrar o seu escândalo, repetiu a pergunta. Ou melhor, fez a mesma pergunta de outro modo. Mas a resposta foi a mesma.
Eu, pessoalmente, fiquei encantado por perceber como a nossa missão sacerdotal não passa pelo proselitismo, mas pelo mostrar ou manifestar Deus através da nossa vida e acções. Fiquei encantado por perceber que Deus está muito para além do baptismo e qualquer outro sacramento. Muito para além da Igreja e da minha fé. Afinal Deus não pode nunca formatar-se, enformar-se. Ele entra em tudo e em todos de formas tão variadas, tão impensáveis. Mas entra.

quinta-feira, julho 02, 2015

As pombas e o Espírito Santo

Um padre amigo contou como em tempos muito idos um missionário entrara na China para fazer aquilo que chamamos evangelização. E que ao deparar-se com a forma como as pombas eram entendidas pelos habitantes daquela cultura, achou que devia pedir ao papa da altura para lhe permitir não apresentar o Espírito Santo como uma pomba, pois os habitantes daquele local viam as pombas apenas como uns animais incomodativos e porcos. Era assim que falavam delas. Contava o padre amigo que a resposta do papa fora que sempre assim foi e que assim deveria continuar a ser.
Não sei até que ponto a história é verídica. Porém, de certa forma, ela continua a acontecer nos dias de hoje quando uma igreja ocidental tenta impor a Igreja de Cristo com a sua cultura. Como se Deus só fosse autêntico no Ocidente. Como se Deus existisse no sempre foi assim ou no sempre falámos assim. Como se Deus se formatasse a uma qualquer forma de entendimento,

terça-feira, novembro 18, 2014

Uma história de encontrar

Dois viajantes no tempo encontraram-se num tempo que, digamos, se chamava intermédio. O que vinha do sul tinha uma tez morena, barba escorreita, olhos da cor do mar. O que vinha do norte possuía uns traços típicos de homem rude do campo. Ambos levavam um bastão na mão direita. Ambos eram peregrinos. Ambos faziam da vida um caminho e possuíam muitas semelhanças. O que os distinguia deveras era o deus que professavam. O do sul acreditava num deus muito parecido com o deus Sol dos antigos. Dava-lhe um nome estranho e dizia que era o dono das energias e das forças da vida. O que viajava do norte acreditava no deus a que chamava Deus dos cristãos. Eram homens de boas intenções. Saudaram-se com simpatia e desejaram uma boa viagem um ao outro. A conversa não durou muito, pois não eram propriamente proselitistas. Falaram dos seus deuses. Um dizia que o meu é que salva, e o outro repetia que o dele é que salvava. Sim, que a salvação era no final do caminho e ambos eram caminhantes. E por ali morreram as palavras, pois não havia mais nada a dizer. O que contava era a salvação. Isso é que define um deus. Cada um seguiu o seu caminho, pelas estradas que escolheram.
Passados uns anos os dois viajantes encontraram-se de novo, num tempo que seria ou que eu chamaria de céu. Feitos os cumprimentos habituais, abraço para aqui e para ali, o que viajara desde o sul agarrou o seu irmão do norte e disse Afinal foste salvo. Este sorriu e concordou que sim, que o seu Deus o tinha salvo. Então o do sul encolheu os ombros e disse que também tinha sido salvo. Depois sorriu e acrescentou Foi o teu Deus que me salvou.
 
Esta história não existiu senão no meu coração, mas tive vontade em a partilhar.