Quando a jovem, entusiasmada, se dirigiu ao ambão para ler a segunda leitura, que era de S. Paulo aos Romanos e que estivera a preparar afincadamente, fez-se o natural silêncio na assembleia. A sua voz foi, como é hábito, amplificada pelo microfone. Graças a Deus que o silêncio não foi interrompido quando ela leu “leiteira da epístola de São Paulo aos Romanos”. O silêncio manteve-se, mas eu não aguentei. Já não me ria tanto para dentro como nesta ocasião. Deixei de ouvir o teor do texto. Imaginei o afamado apóstolo pela manhã, com os olhos enremelados, recebendo à porta de sua casa uma senhora com um pote de leite para vender. Era a sua leiteira. A senhora que lhe levava o leitinho fresco todos os dias, ainda ele mal acordara. Ó que maldoso fui! Reconheço. Menos mal que não me veio à lembrança nenhum animal que dá leite. Ri-me, ri-me e voltei a rir até conseguir compor-me na cadeira presidencial onde estava sentado. Não sei se fui o único a rir para dentro. Para fora, ninguém se manifestou. Pelos vistos, toda a gente decidira respeitar a leiteira de S. Paulo.
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sábado, janeiro 26, 2019
sábado, junho 02, 2018
Os óculos da paróquia
Tenho ao meu encargo uma paróquia pequenita, onde são poucos os que sabem e conseguem ler as leituras na Eucaristia. O senhor Jacinto é um deles. Mas no passado Sábado, quando chegou a hora de ler a primeira leitura, e porque se esquecera dos seus óculos, enquanto se dirigia ao ambão, ia perguntando ao resto do pessoal, em alta voz, se alguém tinha uns óculos que lhe emprestasse. E não é que havia! Levantou-se a senhora Capitolina, tirou os óculos que o seu nariz e orelhas seguravam, e entregou-lhos junto ao ambão. Já estão a imaginar como me ria tapando a boca para não se escutarem as gargalhadas. Ninguém se descoseu ou achou estranho. E na hora o senhor Jacinto começou a leitura sem qualquer problema. Da mesma forma a concluiu e, distraído, já ia para o seu lugar quando a senhora Capitolina foi ao seu encalço, a meio da coxia, para lhe pedir os óculos, dado que agora era ela que tinha de ler a segunda leitura. Mais difícil foi aguentar por detrás da mão tanta vontade de rir. E como se não bastasse, quando chegámos, depois da homilia, à Oração dos Fieis, e o senhor Jacinto se dirigiu, de novo, ao ambão, para fazer a referida leitura das preces, já a Capitolina, sem que lhos pedisse, saíra do seu lugar para lhe emprestar os óculos.
Por este andar, no próximo dia que lá voltar, sou bem capaz de ter de pedir à senhora Capitolina que também mos empreste para ler o Evangelho. Óculos destes não é em todas as paróquias que existem!
Por este andar, no próximo dia que lá voltar, sou bem capaz de ter de pedir à senhora Capitolina que também mos empreste para ler o Evangelho. Óculos destes não é em todas as paróquias que existem!
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quarta-feira, setembro 24, 2014
O burro do Alfredo
O burro do Alfredo é o vizinho mais próximo do cemitério. É ele que, do seu posto de trabalho, vela cada campa. É um burro sossegado, mas atento. Não se dá por ele a não ser nos funerais ou nos finados. Chegados ao cemitério, findo o canto fúnebre, o burro do Alfredo continua a salmodia na sua língua materna. É difícil manter a compostura e guardar a seriedade. O seu dono é o primeiro a desfazer-se em prantos de gargalhada contida. Já o avisei para que guarde o animal a sete chaves quando há funeral, mas o Alfredo esquece-se. É que ninguém consegue ficar-lhe indiferente numa cerimónia que exige tanto recato. Foi quando o Alfredo me contou que em tempos o padre que eu substituíra, para dar início ao ritual das exéquias e efectuar a despedida do defunto no cemitério, dado que os presentes faziam barulho inapropriado, pediu, alto e bom som, que se fizesse silêncio a fim de ele prosseguir a oração com a devida dignidade. As pessoas aceitaram o pedido e calaram-se. Nisto, o burro do Alfredo, quase em tom de gozo com o padre, abre as goelas e esboça um zurro do nunca visto. Sorriram as pessoas e conformou-se o padre, dizendo. Bem, a este não posso eu mandar calar.
terça-feira, agosto 12, 2014
Oração dos fieis super especial
Numa das minhas mais pequenas comunidades, daquelas que quase não precisam do sino para se avisar que o padre chegou, pois as casas são contíguas à Igreja, o insólito que já não é assim tão insólito, aconteceu. Estava a minha pessoa a verbalizar a homilia quando o telemóvel do António tocou. Este, que se encontrava numa das pontas de um dos bancos, retirou o dito som do bolso e, sem o desligar, atravessou o banco de uma ponta à outra, atrapalhado e atropelando os que lá estavam sentados, esquecendo-se que teria sido mais fácil sair pela ponta do banco onde se encontrava. As cabeças da comunidade voltaram-se para ele e não tardaram em ser abanadas para a direita e para a esquerda. Ainda o António não se encontrava na rua e já se ouvia o habitual Estou, sim, Estou. Interrompi a homilia o suficiente para que o António não fosse interrompido. O à vontade numa comunidade cristã familiar dá para estas coisas, assim como para outras que vieram a seguir. Até final da homilia, mantive-me o mais possível contido. Mas já na Oração dos Fieis, estando o António no seu lugar do banco, não resisti a fazer a seguinte petição. Nós te pedimos, Senhor, por aqueles que não sabem ou se esquecem de desligar o telemóvel antes de entrar na missa, e por aqueles que saem a correr da Igreja para o atender e ainda antes de saírem já o estão a atender. Oremos irmãos. E a pequena comunidade em coro, a sorrir, devolveu um Ouvi-nos, Senhor. O António virou-se para o lado correspondente à sua ponta do banco e recusou-se a dizer, como os outros, Ouvi-nos, Senhor. Ainda agora estou a ver a cara do António e a imaginar a cara do Senhor.
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sábado, maio 31, 2014
O peitinho da menina
A menina que ia baptizar estava toda vestidinha de branco com aqueles vestidos maiores que as crianças, cheios de folhos e muito justos no pescoço. Os pais e os padrinhos estavam de fato sem gravata. A ocasião merecia vestimentas à altura que é como quem diz roupas de cerimónia. Eu já me vesti assim em ocasiões como esta.
Ali estavam diante de mim e de toda a comunidade, quando chegou aquele momento em que é necessário descobrir o peito da criança para ali ser ungida. Ora, sendo um vestido justo no pescoço, ou se desaperta um ou dois botões, caso os tenha, seja na frente ou atrás, ou então há que levantar os folhos do tecido e encontrar um pedaço de peito para ungir. Muitas vezes arma-se tamanha confusão que nem queiram saber. Eu costumo pedir calma e suficiente serenidade para que o momento seja ajustado ao rito. Mais, costumo ir dando indicações aos pais sobre o que vem a seguir, para que estejam concentrados no sacramento e menos no que fazer durante o sacramento. Faço sinais com os olhos. Sim, às vezes também os pisco. Murmuro palavras e indicações. Aponto discretamente. E assim fiz no baptizado da menina para que lhe descobrissem ou destapassem o peitinho. Falei duas ou três vezes Peitinho. Não me entenderam, e o pai olhava para mim a perguntar. Apontei ao peito da criança. Nada. Apontei para o meu peito e disse Agora é aquele momento do peito. E até que enfim o pai me entendeu. Assim sendo, entregou a criança à mãe, colocou as duas mãos no primeiro botão da sua camisa sem gravata e toca de desapertar uns botões. O padre teve de intervir, não fosse o homem desapertar a camisa toda. Depois clarificou que era o peito da criança que tinha de ser descoberto. E depois nem o padre nem as gargalhadas resistiram mais. Além desse desfecho burlesco, este padre que aqui está a escrever aprendeu uma grande lição. Que tinha de ser mais claro, não fosse algum dia alguma mãe lembrar-se de fazer o mesmo.
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domingo, maio 18, 2014
O cego de nascença
Vinha o cego de nascença no Evangelho. Vinham os fariseus. E vinha Jesus a dizer que alguns pensavam que viam, mas não viam, e que outros havia que, mesmo sendo cegos, viam. Isto é, o ver não é apenas ter olhos abertos e reparar nas coisas à nossa volta, mas percebê-las e deixar que elas sejam o nosso viver com sentido. Dito de uma forma um pouco mais católica, Jesus atrevera-se a curar um cego de nascença para que, ao ver, este pudesse ver com os olhos de Deus. É o ver com a fé. É o ver o mundo para além do horizonte do nosso olhar.
E nisto, depois de pregar abundantemente sobre o cego que ficou a ver e os fariseus que pensavam que viam, mas não viam, imaginem o que sucedeu. Depois de tanto palavreado e tanta homilia, depois de tanto afirmar que às vezes poderíamos nós, como os fariseus, pensar que víamos, mas ainda não víamos, imaginem que ao voltar para a cátedra (leia-se lugar onde o presidente da cerimónia se senta), arrumei uma cabeçada numa cruz de madeira, próxima do altar, que temos lá colocada desde o início da Quaresma, e que não vi. Ora cá está a confirmação do que acabara de partilhar na homilia. Alguns pensam que vêem, mas afinal não vêem. A minha acólita, aflita, bem me perguntava se eu estava bem. Mas eu não fazia outra coisa senão rir-me perdidamente. Os restantes paroquianos olhavam aflitos para mim. Mas eu sorria para eles e perguntava. Jesus tinha razão ou não tinha?
E nisto, depois de pregar abundantemente sobre o cego que ficou a ver e os fariseus que pensavam que viam, mas não viam, imaginem o que sucedeu. Depois de tanto palavreado e tanta homilia, depois de tanto afirmar que às vezes poderíamos nós, como os fariseus, pensar que víamos, mas ainda não víamos, imaginem que ao voltar para a cátedra (leia-se lugar onde o presidente da cerimónia se senta), arrumei uma cabeçada numa cruz de madeira, próxima do altar, que temos lá colocada desde o início da Quaresma, e que não vi. Ora cá está a confirmação do que acabara de partilhar na homilia. Alguns pensam que vêem, mas afinal não vêem. A minha acólita, aflita, bem me perguntava se eu estava bem. Mas eu não fazia outra coisa senão rir-me perdidamente. Os restantes paroquianos olhavam aflitos para mim. Mas eu sorria para eles e perguntava. Jesus tinha razão ou não tinha?
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segunda-feira, abril 14, 2014
versão altamente inédita da paixão e morte de Jesus
NOTA: não aconselhável a leitores com problemas cardíacos!
A Eucaristia de Domingo de Ramos tem um Evangelho que não passa despercebido. Além de se ler a paixão e morte de Jesus, o tamanho do texto é bem acima da média. São umas boas oito ou dez páginas, aliviadas pela forma dialogada de três leitores. Por melhores que estes sejam e por mais bem preparados que se encontrem, é comum haver gafes pelo meio. Umas melhores que outras. Umas que não trocam o sentido das palavras ou das frases, e outras que as alteram completamente. Umas inusitadas e outras altamente hilariantes. E foi assim numa das minhas paróquias. A leitora até leu bastante bem. Mas para o fim já se mostrava cansada. Assim na cena final da paixão do Senhor, numa versão altamente inédita, temos o Centurião e os que com ele guardavam Jesus, isto é, os soldados, em vez de ficarem “aterrados”, ficarem enterrados. Tal seria o pavor. Mas nisto, vem o final apoteótico. E vemos Jesus na cruz que, clamando outra vez com voz forte, espirrou. Nesta versão Jesus não “expirou”. Espirrou. Não é uma versão má de todo. Espirrar é melhor que expirar. Devia estar constipado o nosso Jesus. Da próxima vez, antes de ir lá para a cruz, que tome os remédios.
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terça-feira, abril 08, 2014
As marotas da homilia
Estava a minha pessoa no meio de uma homilia. Foi num dia daqueles em que me apeteceu ir por ali fora pela coxia dentro. A Palavra de Deus desse dia dava ganas de não ficar parado. E para explicar como ser discípulos de Cristo, de acordo com o Evangelho do dia, a minha pessoa pegava nas imagens do Sal e da Luz, tal como Jesus pegara há muitos anos. Às páginas tantas, entre muitas outras alusões, referi que a luz servia para nós fazermos tudo, pois que sem luz, a apalpar, era mais difícil, e às vezes impossível. Olha o verbo que eu fui utilizar. Apalpar. Umas devotas, que estavam para os lados do coro, deixaram escapar uns sorrisinhos sonoros. Na verdade, até já estamos habituados ou andamos a habituar-nos a um ambiente descontraído ou bem disposto na nossa comunidade. Mas aquela tinha sido demais. Eu tivera um pensamento semelhante na hora em que elaborara a homilia. Talvez o mesmo que estais agora a ter. Deixara-o para trás, porque me parecera inoportuno ou desajustado. Porém, depois das minhas amigas terem deixado escapar os sorrisos, não resisti, fiz uma pausa profunda, respirei com a mesma profundidade, e chamei-as de marotas. Ora o que eu fui fazer. Logo os sorrisos se alastraram pela Igreja toda, e eu próprio caí no mesmo riso desgarrado. Ainda hoje sorrio quando me lembro, e fico a pensar como a marotice entra em todo o lado. Não que isso seja mau ou grave. Eu diria que era desajustado. Mas pelo menos serviu para nos rirmos a bom rir. Espero que o Senhor Deus se tenha rido também. E se não se riu connosco, que se tenha rido de nós
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sábado, março 29, 2014
Nós não ressuscitamos
Por entre as colheres de sopa e os garfos das batatas cozidas, a conversa gerava-se à volta de tudo um pouco. À mesa do restaurante a comida entra-nos misturada com muito assunto à mistura. Para isso nos sentamos acompanhados. Às páginas tantas, veio à baila o livro de um colega com o título “Ressuscitarão os mortos?”. E disse Já li e aconselho vivamente, como se o advérbio acrescentasse à acção alguma coisa mais. Não recordo porque acrescentei Vivamente, mas agora que estou a escrever parece que faz uma conjugação interessante com o título do livro.
Ora uma jovem esposa que se encontrava em diagonal comigo, para fazer parte da conversa, anuiu com um Claro que sim, claro que ressuscitamos. E porque ninguém dizia mais nada, insistiu. Há alguma dúvida?! Chegou a usar o nome de Deus para validar as palavras. Pelo amor de Deus, fico com pena que alguém possa duvidar, pois que seria de nós se não ressuscitássemos?! A jovem esposa tinha uma fé genuína, mas o padre, que era eu, acenou que não. Ela parou de abrir a boca para comer e abriu-a para se admirar. No meio do meu acenar, fiz uma afirmação que fez parar talheres, pratos, copos, olhos e bocas das outras três pessoas que almoçavam connosco. Nós não ressuscitamos. E repeti. Nós não ressuscitamos. Depois de ter engolido em seco, a jovem esposa pôs os olhos nos outros e a pergunta em mim. Então, mas nós não ressuscitamos?
Com um ar o mais sério que possais imaginar, poisei o meu talher, mudei o tom de voz, aquele tom de voz mais cavernoso, e respondi. Não, minha amiga. Nós não ressuscitamos. Quem ressuscita são os mortos. A jovem estava tão desarmada, que não conseguia ainda chegar à compreensão e mantinha a posição de estátua que não come, não pensa nem sente. Por isso acrescentei. Olha lá, porque cargas de água é que nós, que estamos vivos, precisamos de ressuscitar? Só os mortos é que ressuscitam.
Vou-vos dizer, este padre nunca mais toma juízo.
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quinta-feira, janeiro 09, 2014
A geração do telemóvel II e o porco do senhor Manuel
O Manuel, que é meu ajudante na paróquia e na missa, pelos vistos, faz parte da geração que não sabe calar o telemóvel ou usar a tecla de silêncio. Posta esta informação, vamos à missa que está na hora dela. Ou melhor, vamos ao final da missa que está quase a acabar. Faltam a oração post-comunio, os avisos e a bênção final. Levantamo-nos ou erguemo-nos para lhes dar lugar ou para acabar com elas. Dou início à referida oração e nisto ouve-se ali ao lado, a uns dois metros de distância, um porco a berrinchar de uma forma que achei assustadora. Calou-se tudo, menos o porco. Todos olhámos em redor. A matança do porco chegara à Igreja e à missa. Era o telemóvel do senhor Manuel. Fez-se ouvir até à porta de saída com o senhor Manuel a correr. Porco e senhor Manuel a fugir, e toda a assembleia a segui-los com a mão na boca para evitar os sons das gargalhadas. Bem quis dar avisos e a bênção final. Mas foi tudo a correr como o porco do telemóvel e o senhor Manuel. Terminada a missa, em vez do cântico final, a assembleia em coro, padre incluído, não conseguiu evitar fazer ouvir as suas gargalhadas. Pelo menos saiu tudo bem disposto da missa.
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segunda-feira, novembro 11, 2013
O filho da Glória
A Glória tem um filho que a costuma acompanhar à missa, embora ainda esteja longe da idade escolar. Costuma estar sossegado e parece atento. O atento possível naquelas idades. No Domingo passado o refrão do salmo dizia “Senhor, ficarei saciado quando surgir a Vossa Glória” e, como é normal, as pessoas repetiram o refrão as vezes necessárias. No final da leitura do salmo, enquanto, no silêncio próprio da espera, a pessoa que ia ler a segunda leitura se dirigia ao ambão, o habitualmente sossegado do filho da Glória levanta-se, sobe para o banco onde estava sentado, vira-se para as pessoas que agora o viam perfeitamente, e pergunta numa voz fininha, ainda meio indefinida, mas compreensível. Porque é que hoje só dizem o nome da minha mãe e não dizem o nome das mães dos outros meninos? E sentou-se, com o sururu da assembleia a sorrir, e com a mãe a cruzar o dedo com os lábios, para fazer pouco barulho. Em casa a mãe explica, disse. E o senhor padre do altar repetiu. A mãe Glória em casa já explica.
Estou mesmo a ver qualquer dia o filho da Ressurreição a fazer o mesmo. Falamos tanto dela na Missa!
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segunda-feira, março 04, 2013
O Papa Emérito
O hábito faz o monge e eu não sou superior ao hábito. Daí que este Domingo, na hora em que se intercede ou invoca o Papa, engasguei-me em quase todas as missas. Não veio mal ao mundo, nem à Igreja, digo eu. E cuido que os meus colegas, no geral, se devem ter engasgado também. Além do hábito, não se sabia o que pronunciar. Papa Bento XVI, pois que ainda é Papa. Papa emérito Bento XVI. Ou talvez unicamente Papa emérito. Ou nada mesmo nada. Investiguei as normas e umas coisas, mas não fiquei seguro. Escolhi, por isso, Papa emérito Bento XVI, decisão que não impediu nem o engasganço nem que fizesse um Papa emérito, pausa, Bento XVI. Ora depois da missa, corri para o café com alguns paroquianos. Fazia parte deste alguns a Adriana, que tem pouco mais de vinte anos. Qual não é o meu espanto, quando esta pergunta. Então já temos novo Papa? De onde é o senhor Emérito? Gargalhada geral incontida. A Adriana não sabia o significado da palavra emérito e convenceu-se que era o novo Papa. Valha-nos Deus, que os Papas pouco nos valem. Ainda estou engasgado de tanto rir. É o que dá termos Papa e não termos.
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sexta-feira, dezembro 21, 2012
A Maria, o burro e a vaca
A Maria, que não é a mãe de Jesus mas é muito brincalhona, estava à minha espera no final da missa para me fazer uma pergunta importante e a propósito deste Natal. Ó senhor padre, diga-me lá uma coisa ou diga o que tem a dizer da proibição que o senhor Papa fez, aquela de que não podemos por o burro e a vaca no presépio. Não consegui conter a gargalhada e ela também não. Olha uma coisa destas, continuava. Então hei-de deitar o burro e vaca que lá tenho em casa para o lixo! Era gargalhada atrás de gargalhada, e não resisti a contar uma história verosímil que li algures e que, segundo consta, há uma qualquer referência dela no tal livro do Papa, “ A infância de Jesus”. Sabe, senhora Maria, na Bíblia não aparecem nenhum burro ou vaca nas passagens em que se fala do nascimento de Jesus. Nem uma referenciazinha sequer. Porém, a dada altura, a Igreja não quis deixar o menino sozinho com a mãe e o pai. Aliás, queriam que no presépio toda a humanidade estivesse representada. Vai daí que as melhores figuras que encontraram foi o burro e a vaca. E assim, a partir daquela altura, tanto eu como a senhora já estamos representados no presépio. Foi rir até mais não. Confesso que ainda não li o livro do papa, mas já li o suficiente para perceber que o Papa, tal como eu, aconselha a que nos centremos no essencial do Natal e da Vida. Não proíbe nada. Não bane o burro e a vaca do presépio. Mais, diz que nenhum presépio vai prescindir deles. Agora quem não quer que se queixe. Eu prefiro rir-me disto tudo e pensar que afinal nem estou nada mal representado no presépio. O que importa é estar por lá.
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Aproveito para desejar a todos um Natal cheio da presença de Deus!
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domingo, novembro 04, 2012
Uma romagem animada
Tínhamos acabado de chegar ao cemitério para cumprir a nossa romagem, como é hábito nesta época. Já estavam todos à minha volta para darmos início à Celebração, quando dois cães decidiram penetrar no círculo, por entre as pessoas. Começa o enxotanço daqui e dali. Uns com um psit, não sei se apropriado mas sonoro. Outros com o pé, como se os pobres animais fossem duas bolas de futebol. Graças a Deus que ninguém lhes acertou. Mas talvez por isso os ditos animais teimaram em voltar ao centro da cerimónia. Todos nos distraíamos com a situação. Até que uma senhora chegou à fala com um deles, o que lhe havia passado mais perto. Psit, vai lá para a rua. Ó meus amigos, desculpai, mas não resisti. E no mesmo tom da senhora, embora entre os dentes e mais envergonhado que ela, eu acrescentei. Mas na rua já ele está. Pois claro que a senhora queria dizer Vai lá para fora do cemitério. E todos o havíamos entendido. Só que não resisti. E comigo, nenhum dos romeiros resistiu em soltar uns valentes sorrisos. E assim tivemos uma romagem ao cemitério mais animada. Não que tenham de ser necessariamente alegres, ou alegres desta forma. Mas, a meu ver, seriam mais verdadeiras as romagens que nos fizessem sentir a alegria da Vida Eterna. Ponto final, que ainda estou com vontade de me rir.
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sexta-feira, setembro 07, 2012
Quem canta, seu mal espanta
A senhora Emília é a cantora mor numa das minhas comunidades. Inicia e orienta os cantos da liturgia. É muito prestável, mas já não é a primeira vez que na hora do pós-comunhão fica em silêncio. Pelos vistos estavam assim habituados. E não vem mal ao mundo que a acção de graças seja feita na intimidade própria do silêncio. Porém, como gosto de cantar, insisto que se cante. No último Sábado assim aconteceu. Como ela estava perto da cátedra onde me sento, insisti baixinho, mas de forma audível, para que cantassem. Nada. Fez-se ainda mais silêncio. Mas nisto alguém resolveu cantar do lado de fora da porta da capela. Estávamos nós no tal silêncio profundo quando se ouviu, como se fosse ali juntinho à porta, o senhor burro a zurrar. Gargalhada geral na capela. Mais sonora que o zurro do senhor burro. E o senhor padre não resistiu a comentar do altar. Ora, eu tenho dito para cantarem. Mas hoje alguém me ouviu, e já que não cantamos nós, que haja quem cante por nós. E saímos da eucaristia todos bem-dispostos, pois que, deixem passar a expressão, quem canta seu mal espanta.
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sexta-feira, julho 13, 2012
Santo Anás
O texto da Oração dos Fieis, a determinada altura, dizia qualquer coisa como Deus nos livre das tentações de Satanás. Ora, Satanás toda a gente sabe que é uma das formas de tratamento para o Demónio ou Diabo. Mas quando se fala neste ser, só de o imaginar, a nossa espinha recebe um arrepio e peras. Porém, o arrepio que me percorreu a espinha no outro dia, durante a missa de uma das paróquias, não se deveu ao ser em causa, mas a outro que, à partida, faria parte dos bons e do reino celestial mais celestial que se pode imaginar. Conto. A Carlita deve ter uns quinze anos e é uma moça cinco estrelas. Quando vai à missa, participa nos cânticos e nas leituras. Lá estava ela preparadinha da silva, como se costuma dizer, para ler a oração dos fiéis. E tudo correu na perfeição até ao exacto momento em que surge a palavra “satanás” e a Carlita se desconcentra e acaba por apelar a Deus para que nos livre das tentações do santo Anás. E foi por este motivo que um arrepio me percorreu a espinha e me fez meter mão à boca para que ninguém visse a minha vontade de me espalhar em gargalhas. Todavia, aprendi duas coisas. Primeiro, que ninguém na assembleia devia estar atento, porque ninguém fez gestos parecidos com o meu. Segundo, para que peçamos que nos livre das tentações, este santo só pode ser o padroeiro das altas farras. Ora toma lá, santo Anás.
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sexta-feira, março 25, 2011
Prego a fundo no Pai Nosso
Estava no ambão proclamando o Evangelho. Depois de umas duas frases ou versículos, por assim dizer, o Evangelho dizia algo como Quando rezardes não digais muitas palavras como os pagãos, porque o Senhor bem sabe o que precisais. Depois desta insinuação ou chamada de atenção, o Evangelho colocava o Senhor ensinando a oração do Pai Nosso. E ali estava eu com a leitura do Pai Nosso, esforçando-me por a tornar verdadeira leitura. Entretanto, pressenti que à minha volta havia gente acompanhando-me com os lábios. Diria que se ouviam os lábios mexer. Mas quando chegou a parte final da leitura da oração, naquela parte do Mas livrai-nos de todo o mal, ouviu-se, por toda a igreja, Amen. Eram umas três pessoas, ou cinco, ou seis. A mim pareceram-me centenas, porque ecoou fortemente no meio da minha leitura. A partir dali o Evangelho do Senhor meteu outra velocidade, passando directamente de uma primeira para uma quinta. Começou aos engulhos, aos soluços. Parei duas vezes, mas foi para acelerar ainda mais a seguir. O motor precisava arranjar força para acelerar. O prego ia a fundo e eu respirava de forma igual, fundo. Mas cada vez que recordava o Ámen, a minha vontade era largar os engulhos, os soluços, as respirações a fundo, e espalhar-me em gargalhadas. Não se tratava nem de distracção, nem de hábitos. Para mim trata-se do esvaziar das nossas orações, porque as gastamos em repetições que apenas nos saem da boca e não do coração. Logo hoje que o Senhor nos dizia que ao rezarmos não devíamos dizer muitas palavras.
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sábado, maio 09, 2009
Quinze maçãs especiais
A ti Maria é uma figura ímpar. Usa, como bom costume, o preto. Lenço na cabeça. Rugas na face. Sobrolho em riste. Poucos dentes. Lembra um filme de Manoel de Oliveira, mas em género comédia. Tem atitudes engraçadas, que lhe são sempre perdoadas, pela figura. Trabalha imenso no campo, na sua horta de passatempo. Macieiras, oliveiras, couves, batatas, cenouras, tomates. Com as pitas e os recos. Passa por lá grande parte do tempo, que a vida está difícil e precisa estar ocupada para evitar pensamentos vãos ou pouco saudáveis. É generosa. Cultiva para si e para dar. Partilha o que tem e o que não tem. Por isso bateu-me à porta com um saco na mão. Não eram mais que umas quinze maçãs que o peso da idade não suporta facilmente o peso de muitas maças. Mas a generosidade suporta quinze maças. Digamos antes umas maçãzitas que, confirmei depois, possuíam uns sinais acastanhados da idade e do prazo. Senhor padre, trago-lhe este saquito. Não é muito, mas é de bom grado. Estava para as levar para os porcos, mas depois lembrei-me do senhor, e trago-lhas aqui com muita amizade. Aceitei-as com a mesma amizade, porque é importante para o cristão saber receber e aceitar. Mas fi-lo à pressa, para ter o tempo necessário de me conter. Contive-me até fechar a porta e depois desatei às gargalhadas sozinho. Sim senhora, a consideração era tão genuína como castiça. Estava para as levar para os porcos, mas depois lembrei-me do senhor.
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quinta-feira, março 06, 2008
Trunfo é copas
Já tem muita idade este padre. Embora alguns teimem em não querer, os padres também envelhecem. Por isso os temos em funções com idade já de estar encostado às boxes. Um dois cavalos numa auto-estrada onde não ultrapassa os setenta, faz zigue-zague e complica a condução dos mais atrevidos, sobretudo os que gostam de fugir à bófia a mais de cento e sessenta. Peço umas tantas vezes a Deus que me livre de teimar em não querer. Mas como estou consciente de pensar igual em idade igual, já vou adiantando que me livre ao menos de chegar a essa idade.
Já tem muito jogo em cima este padre. Muitas horas de sueca. É um jogador nato. Passa os minutos sentado no café a jogar às cartas. Lá tem os comparsas da coisa. Se o querem ver na terra é na mesa do jogo. É lá o escritório deste amigo. Pelo menos não está a maior parte do tempo sozinho, está disponível, bem à mão de encontrar, e ninguém precisa de inventar coisas porque ele está constantemente à vista de toda a gente.
Porém, de tanto jogo, de tantas minutos e horas e dias é natural que aquilo esteja na cabeça e não saia. E também é natural uma pessoa de idade avançada adoecer com facilidade, ou pelo menos com mais facilidade. Vai daí que o padre adoece. Mas como expliquei atrás e como é natural, não desarmou. Pelo menos a missinha tinha de celebrar. Cansado, doente, com febre, faz a consagração. Segura entre dois dedos a sagrada hóstia, assim como quem pega numa carta, eleva-a, assim como quem vai jogar a última cartada, e depois solta-se porque afinal ali se concentra tudo, ali se joga a vida, e em vez de proclamar Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, deixa a cabeça traí-lo ou atraí-lo. Trunfo é copas.
Já tem muito jogo em cima este padre. Muitas horas de sueca. É um jogador nato. Passa os minutos sentado no café a jogar às cartas. Lá tem os comparsas da coisa. Se o querem ver na terra é na mesa do jogo. É lá o escritório deste amigo. Pelo menos não está a maior parte do tempo sozinho, está disponível, bem à mão de encontrar, e ninguém precisa de inventar coisas porque ele está constantemente à vista de toda a gente.
Porém, de tanto jogo, de tantas minutos e horas e dias é natural que aquilo esteja na cabeça e não saia. E também é natural uma pessoa de idade avançada adoecer com facilidade, ou pelo menos com mais facilidade. Vai daí que o padre adoece. Mas como expliquei atrás e como é natural, não desarmou. Pelo menos a missinha tinha de celebrar. Cansado, doente, com febre, faz a consagração. Segura entre dois dedos a sagrada hóstia, assim como quem pega numa carta, eleva-a, assim como quem vai jogar a última cartada, e depois solta-se porque afinal ali se concentra tudo, ali se joga a vida, e em vez de proclamar Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, deixa a cabeça traí-lo ou atraí-lo. Trunfo é copas.
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domingo, fevereiro 10, 2008
O padre distraído
Isso acontece ao mais bem intencionado. Ao mais atento, desde que não seja picuinhas. Pelo menos, para mim, quero que sirva este argumento. E que Deus me perdoe.
Celebrava para umas cinco pessoas. Valha-nos ao menos isso que a quantidade não era muita. Mas a Missa tinha o mesmo valor. Pois, que ela é de valor infinito.
Prefácio. Sabem o que é? O senhor esteja convosco, ele está no meio de nós, corações ao alto, o nosso coração está em deus… e por aí fora. Escusado será recordar que o prefácio é exactamente antes da consagração. Por isso é pré-facio. Sabem também as palavras da bênção final da missa, não? O senhor esteja convosco, ele está no meio de nós, abençoe-vos deus todo-poderoso, pai, filho e espírito santo. Ide em paz e que o senhor vos acompanhe.
Façam de conta, agora, que são um dos cinco cristãos atentos. Estão atentos. Compenetrados. Imaginem o padre no altar tornando presente Jesus, o Seu corpo e Sangue. Solene. O mais solene possível para cinco pessoas. Recordo que estamos no prefácio. Eu estive apenas nas primeiras palavras. O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós. E lá vamos nós para a bênção final. Abençoe-vos Deus todo-poderoso, pai, filho e… e sou interrompido por uma senhora castiça e mais atenta que eu: Olhem que já nos está a mandar embora!
Deus me abençoe, penso eu. Distraído. Distraído. Repetia-me a mim. Não serei o primeiro nem o último, pensava a seguir para me sossegar. Não queria, mas aconteceu. Recordo que foi difícil voltar à Eucaristia. Os olhos lacrimejavam de tanto rir. Mas bem feitas as contas mentais, quem me mandou distrair?! Por isso, quando voltei ao meu espaço, a casa, não consegui deixar de pensar nas vezes em que, por hábito ou por distracção, repetimos as palavras sem as utilizar deveras!
Celebrava para umas cinco pessoas. Valha-nos ao menos isso que a quantidade não era muita. Mas a Missa tinha o mesmo valor. Pois, que ela é de valor infinito.
Prefácio. Sabem o que é? O senhor esteja convosco, ele está no meio de nós, corações ao alto, o nosso coração está em deus… e por aí fora. Escusado será recordar que o prefácio é exactamente antes da consagração. Por isso é pré-facio. Sabem também as palavras da bênção final da missa, não? O senhor esteja convosco, ele está no meio de nós, abençoe-vos deus todo-poderoso, pai, filho e espírito santo. Ide em paz e que o senhor vos acompanhe.
Façam de conta, agora, que são um dos cinco cristãos atentos. Estão atentos. Compenetrados. Imaginem o padre no altar tornando presente Jesus, o Seu corpo e Sangue. Solene. O mais solene possível para cinco pessoas. Recordo que estamos no prefácio. Eu estive apenas nas primeiras palavras. O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós. E lá vamos nós para a bênção final. Abençoe-vos Deus todo-poderoso, pai, filho e… e sou interrompido por uma senhora castiça e mais atenta que eu: Olhem que já nos está a mandar embora!
Deus me abençoe, penso eu. Distraído. Distraído. Repetia-me a mim. Não serei o primeiro nem o último, pensava a seguir para me sossegar. Não queria, mas aconteceu. Recordo que foi difícil voltar à Eucaristia. Os olhos lacrimejavam de tanto rir. Mas bem feitas as contas mentais, quem me mandou distrair?! Por isso, quando voltei ao meu espaço, a casa, não consegui deixar de pensar nas vezes em que, por hábito ou por distracção, repetimos as palavras sem as utilizar deveras!
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