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sábado, agosto 29, 2020

Agulhas, camelos e ricos

O padre relia e actualizava, na homilia, aquela passagem que fala de agulhas, camelos e ricos. Com certeza se recordam de Jesus ter dito que era mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. O padre ufanava-se para esclarecer a passagem. Entusiasmado, esbracejava. Agarrava-se ao micro. A homilia estava ao rubro quando, por engano, acabou dizendo que era mais fácil entrar uma agulha pelo fundo do camelo, do que um rico. Toda a assembleia sorriu sem ruído. Ou seja, para dentro. Mas nisto, um senhor lá do meio da assembleia, um daqueles senhores bem-dispostos, interessados e castiços, exclamou. Com jeitinho, até é capaz! E aí toda a gente se escangalhou de vez. Até o padre.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "De rabo para o ar"

quinta-feira, agosto 20, 2020

Os sucessos pastorais não são nossos

A vida de um padre não depende dos sucessos pastorais ou apostólicos. Não depende do que fazemos nem do que conseguimos alcançar com o que fazemos. Não depende de momentos entusiastas em que a nossa existência e missão parecem fazer sentido. A vida de um padre depende exclusivamente de Deus. 
O padre não é padre porque seja perfeito. Ou porque seja impecável. Ou porque possua muitas capacidades. Ou ainda porque seja místico ou santo. O padre é padre porque um dia Deus quis que ele fosse padre. Que deixasse Deus actuar de uma forma especial através dele. Por isso a vida de um padre também não se deve deter nas fragilidades que o apoquentam, mas na força de Deus. Dizia S. Paulo que nas fragilidades se fazia forte. Dizia que era através das suas fragilidades que a força de Deus se manifestava. Os frutos do trabalho do apóstolo eram os frutos do trabalho de Deus. 
Os frutos, os sucessos, as vitórias da nossa missão apostólica, são os passos que Deus vai dando através de nós.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As flores que valem vidas"

domingo, julho 26, 2020

Abandono em tempos de pandemia

No país que mora ao lado do nosso, Espanha, segundo um estudo que me pareceu fidedigno, o número de católicos diminuiu cinco pontos percentuais em dois meses, de abril a junho, isto é, em dois meses de pandemia e confinamento. É uma observação um pouco estranha, na medida em que dois meses não são dois anos, e as pessoas não mudam o seu entendimento da vida e da fé em tão pouco tempo. Ou se calhar mudam. Não sei. O que sei é que a assiduidade à eucaristia, sobretudo nas paróquias urbanas, tem diminuído. Pelo menos parece-me, do que vou ouvindo e vendo. 
Jesus não falou de templos ou igrejas, é verdade. Também não organizou propriamente uma religião. A fé, acima de tudo, vive-se. Mas também se alimenta nas celebrações. Precisa de se alimentar. Estes tempos frágeis e de abandono dos templos poderiam ter o lado positivo de se religar a fé ao Evangelho, mais que aos sacramentos. Temo, porém, que, dentro da sociedade líquida, pluralista e pos-secularista em que vivemos, o abandono seja mais a consequência do modo social de ver a fé e a igreja ou a religião. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As nossas paróquias estão a morrer"

domingo, julho 19, 2020

Padres ou cabeleireiros

A alegria daqueles idosos que me receberam no lar para a eucaristia não tem como contar-se. A directora técnica lembrara-se de me propor, com todos os cuidados e mais algum, que passasse por lá a rezar com eles, a celebrar com eles. Estavam radiantes e, apesar de usar máscara e viseira, protecção dos sapatos, álcool gel constante, e de nunca me ter aproximado deles, também eu lhes senti o pulsar. Por isso partilhei esse sentimento com uma pessoa responsável de outro lar nas minhas comunidades, dispondo-me a fazer o mesmo, caso achassem oportuno e assegurassem os cuidados e normas imprescindíveis. 
Assim que essa pessoa teve oportunidade de conversar com alguns utentes, e como quem não quer a coisa, contou que o senhor padre fora celebrar missa a um outro lar e perguntava se não seria boa ideia ele vir cá também. E a resposta do senhor José não se fez esperar. O melhor mesmo era vir cá a cabeleireira!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Américo faltou à missa"

domingo, julho 12, 2020

O ministério sacerdotal não é um privilégio

Estava ordenado há pouco tempo e fora enviado pelo seu bispo a estudar em Roma. Numa daquelas universidades famosas no meio eclesiástico. Encontraram-lhe alojamento num típico colégio de estudantes que eram, ao mesmo tempo, sacerdotes. Independentemente das virtudes deste jovem sacerdote, oriundo de um país de missão ad gentes e que não conheço nem quero ajuizar, contaram-me que, como no colégio se organizavam por grupos para executar algumas tarefas, e que lhe tocara levantar, com outros, as mesas do almoço e jantar de uma semana em cada mês, este sacerdote se dirigira ao director do colégio para lhe manifestar que não faria aquele serviço, porque, e cito: “isso colocava em causa a sua dignidade sacerdotal”. Claro que, à distância da realidade e das palavras no tom em que foram usadas, facilmente abrimos a mão para apontar com o dedo indicador. Mas depois descobrimos os restantes dedos, o médio, o anelar e o mínimo, a apontar para nós. Como de facto. 
Parece-me muito fácil que nós, os consagrados, por nos termos entregue a Deus de uma forma total, ou quase total, caiamos na tentação de pensar que isso nos traz uma dignidade que Deus não concede aos outros. Ou que nos devem respeitar, não pelo que somos e porque somos, mas pela dignidade do nosso múnus sacerdotal. Ou, num extremismo despropositado, chegar a pensar que a Igreja, no seu conjunto e no povo que é de Deus, nos tem de agradecer porque já nos entregámos a Deus. Que tolice! 
O ministério sacerdotal não é um privilégio. É uma forma de vida e missão. É uma vocação para os outros e não para nós. É um serviço. Nós é que temos de agradecer a quem nos dá a possibilidade de viver essa missão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer vir jantar connosco?"

quinta-feira, julho 09, 2020

Deus no quintal

A catequista explicava que Deus estava em todo o lado. Que estava também no coração de cada um deles. Que estava por todo o lado. Nisto, o Francisco, que não era o papa mas tinha o nome dele, perguntou se também estava no quintal do avô. E a catequista, admirada pelo interesse do seu catequisando, respondeu que sim. Claro que estava. Também estava no quintal do avô do Francisco. Mas o petiz, vejam lá tamanha astúcia, não deixou alongar a conversa e arrematou. Mas o meu avô nem tem quintal, como pode Deus lá estar?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Falar de Deus"

terça-feira, junho 30, 2020

A desculpa do vírus

A celebração do último domingo foi ao ar livre, porque se tratava de uma data importante para a comunidade. Quando, a meio da tarde, fui verificar se estava tudo pronto, passei por uma esplanada de café com mesas repletas. Cheias. Pessoas quase ao molho de volta de uma mesa. Mesmo de famílias diferentes. Amigos de esplanada. Meti conversa com algumas dessas pessoas que não tinham máscara colocada. Foi o assunto da conversa. Eu com máscara e eles sem máscara, mas descansados porque estavam na rua, apesar de todos já terem passado os sessenta e muitos ou mais. E ali ficaram, pelo menos que eu desse conta, umas duas horas. Não vem mal ao mundo, como se costuma dizer. 
Porém, ao entardecer, um dos senhores que ficou a ajudar a arrumar as coisas no final da missa, contou-me, com um certo desconforto, que fora tomar café no local onde está a referida esplanada, e que ouvira umas pessoas dizerem que não iam à missa, pois era arriscado ir. Ficara perplexo porque, dizia, as pessoas que falaram estavam numa esplanada sem cumprir cuidados de distância, uso de máscara e desinfecção das mãos, mas achavam arriscado ir à missa, que também era ao ar livre, mas onde ninguém podia estar sem máscara colocada, estavam todos a distâncias adequadas, não conversavam uns com os outros e até tinham desinfectado as mãos. 
E depois a culpa é do vírus. Ou a desculpa. Algumas vezes consciente e coerente, é verdade. Mas muitas outras vezes inconsistente, incoerente e, pior ainda, inconsciente.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Agora só vão as beatas"

quinta-feira, junho 25, 2020

A Luiza está no céu a enfeitar igrejas

A Luiza já está no céu. Partiu esta manhã. Tinha um tumor que se alastrou, em pouco tempo, pela vida inteira. Ou por inteiro. Teve início num pequenino local do corpo e depressa arrastou a vida da Luiza. 
Há três semanas foi informada que iria para paliativos. Falámos, nessa ocasião, por videoconferência. Estava serena. Muito consciente, mas segura da vontade de Deus. Pedira no IPO para falar comigo. As lágrimas caíram sem força. Sorrimos e falámos abertamente e com naturalidade sobre a realidade. Fiquei rendido perante tudo o que falámos e perante a postura de fé, de temor a Deus e de realismo da Luiza, uma das minhas paroquianas que assumia com facilidade serviços paroquiais. 
A única coisa que pedira aos médicos fora uma visita rápida a casa e aos seus. Acederam-lhe ao pedido e, passada uma semana, mais coisa menos coisa, estive com ela, em sua casa, com o Senhor que lhe dei a comungar. Estavam os filhos. E o marido. Quando lhe manifestei a minha alegria por ver ali os filhos, respondeu que se tinham ido despedir dela. Assim, friamente. O marido começou a chorar e dizia que preferia partir em vez dela, ao que ela reclamou, dizendo. Tu vais na tua vez que eu vou na minha. Inclinei-me. De verdade que me inclinei sobre tamanha fé. Só faltou ajoelhar-me diante dela. Pensei-o, mas achei despropositado com a família ali ao pé. Mas disse-lhe que admirava a sua tão grande fé. Que Deus já lhe tinha reservado um lugar no céu. E que eu me sentia um privilegiado por ter tido a oportunidade de privar com ela. 
Quando saí de casa, saí com a certeza de que seria a última vez. Falámos mais algumas vezes ao telefone. Ontem mesmo enviara-lhe ao final da tarde, depois da missa que celebrara, uma pequena sms a dizer que rezara por ela e que tinha pedido a Deus que lhe segurasse nas mãos quando estivesse a ser mais difícil. As pessoas da paróquia vão contando coisas bonitas. Que preparou tudo para que tratassem do irmão que vive sozinho e precisa de cuidados. Que estava nas mãos de Deus. Que a esperava muita coisa bonita no céu. A uma comadre que insistia com ela que ainda haviam de ir as duas enfeitar e cuidar a Igreja matriz, ela respondeu que gostava muito, mas que, de certeza que no céu também ia ter muitas igrejas e que Deus lhe daria alguma para cuidar e enfeitar. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte I"

sábado, junho 20, 2020

A Igreja do relacional

O artigo era duro de ler. Tentei diminuir-lhe o tamanho no coração. Falava de alguns padres que, por desespero, tinham perdido a força de viver. Dava exemplos concretos, usava nomes concretos, tratava números e dados concretos. Dizia que a vida religiosa não dava superpoderes aos padres e que em muitos casos a fé não era forte o suficiente para superar momentos difíceis. Excesso de trabalho, falta de lazer, perda de motivação. O grau de exigência enorme. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade. Qualquer deslize, por menor, que seja, torna-se alvo da multidão que vive para apontar dez dedos aos outros. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes, pelos visto, têm de estar sempre prontos e com sorrisos rasgados. 
Os padres não deviam estar sozinhos. Pelo menos não deviam fazer a vida sozinhos. O comum das pessoas tem, habitualmente, o lado da vida mais profissional e o lado mais relacional. Quando um comum cristão chega a casa do seu emprego, desliga o interruptor do emprego e liga o interruptor do relacional mais próximo. Nós, padres, chegamos a casa, e mantemos o interruptor do profissional sem relacional. Somos profissionais do sagrado sem segundos para o não ser. Falta-nos sermos ou sentirmo-nos comuns cristãos. Não me parece que baste o alimento espiritual dos padres. Na minha modesta opinião, é necessário reorganizarmo-nos como Igreja. Enquanto a vida das comunidades se centrar nos padres, eles não serão apenas mais um membro da comunidade, ainda que com grandes responsabilidades. Serão sempre o foco da comunidade. O alvo. Por isso as pessoas quando falam da comunidade falam dele, pensam nele, apontam para ele. Por isso gosto pouco desta Igreja que deposita no clero a essência do caminho da fé, mesmo que seja feito em comunidade. E sonho com uma Igreja que abraça todos em caminho. Uma verdadeira comunidade onde o relacional esteja acima do doutrinal, do funcional, e até do sacramental. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o 'tem de'"

terça-feira, junho 16, 2020

a verdade anda cada vez mais longe da verdade

Uma das minhas paroquianas é uma assídua frequentadora da net, sobretudo redes sociais, na procura constante por respostas de fé e respostas espirituais. De vez em quando partilha comigo, num gesto muito amigo, interessado e verdadeiramente generoso. O problema é que 80% dessas partilhas, no que se refere a artigos de opinião, são partilhas sem triagens, seja no que se refere a fake-news, seja no que se refere à influência ou ideologia que está por detrás dos textos. E, infelizmente, a presença dos ultra-conservadores na internet, sobretudo nas redes sociais, é muito prolífera. Como diria o outro, são poucos mas gritam muito alto. Talvez porque necessitem de se fazer ouvir. Mas é só um talvez. 
O último texto que partilhou comigo, ainda há pouco, era de um site que tem por nome algo do género “Missa Tridentina”. Creio que ela não sabe a que se refere a missa tridentina ou o Concílio de Trento. Nem sabe como distinguir ideologias no seio da Igreja. Por isso não a recrimino. Procuro ajudá-la a fazer as interpretações, distâncias, entendimentos e pronunciamentos devidos. A saber ler para além das linhas ou das palavras. Nas entrelinhas. Com isenção suficiente para formar uma opinião ou opção sólida. Mas nisto, lembrei tantos cristãos que, diariamente, recebem conteúdos, mesmo religiosos, mesmo cristãos, mesmo católicos, sem saber ler ou sem ter o código de leitura adequado para os ler. E assim a verdade anda cada vez mais longe da verdade!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amizades especiais"

quinta-feira, junho 11, 2020

A importância da eucaristia

Não sei muito bem o que dizer de pessoas que consomem missas. Que vão a todas as que conseguem, mesmo que depois a sua vida ande longe delas. A uma distância de coração. Também não sei que dizer das pessoas que vão quando lhes ocorre, quase como quando lhes apetece sair para tomar um café, um chá ou um gelado. Nem sei que dizer daqueloutras que tanto dá irem como não irem, mas que vão porque se habituaram a fazer do domingo um dia em que vestem uma roupa melhorada e vão à missa. 
Não sei catalogar a fé, e não devo catalogá-la. Muito menos as pessoas. Mas estes tempos têm-me feito reflectir nestas coisas. Elas veem a mim, junto com as pessoas. Não há como fazer de conta que não penso nisto e não me inquieta. É que, ainda por cima, estes tempos de confinamento sem missas comunitárias presenciais, trouxeram à tona algumas debilidades. Sei que muita gente gastou muito mais tempo a rezar do que habitualmente fazia. Sei que muita gente buscou Deus até com mais intensidade e empenho. Sei que muita gente esteve diante de um ecran a ver missas. Mas agora que voltamos a ter a oportunidade de celebrar juntos, de celebrar em comunidade, verifica-se que uma grande percentagem dos nossos paroquianos ainda anda um pouco à deriva. Há quem faça tudo para ir à missa. Mas também há quem não faça nada. Há quem tenha receios reais de ir à missa, mas não se evite de ir ao café ou de estar em algum aglomerado de pessoas, mesmo sem máscaras. E as nossas igrejas cumprem mais regras de segurança que a maioria dos outros espaços sociais. Há quem faça uma vida diária quase normal, mas não tenha qualquer preocupação em ir à missa. Como se ela fosse apenas algo secundário ou um passatempo. 
Sabem o que me parece? Das duas uma. Ou se tornou mais fácil assistir à missa que celebrá-la, ou a eucaristia não tem importância suficiente na vida das pessoas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Queres ficar à missa?"

quarta-feira, junho 03, 2020

Onde esteve a Igreja nestes tempos

A Clara é uma senhora de meia idade. Diz-me que a sua fé também anda na meia idade. Ela quer amadurecer a sua fé, mas acha que ainda tem mais de metade do caminho por andar. E nestes tempos, disse-me, perdeu-se um pouco, porque buscava e o que encontrava, sobretudo na net, era quase sempre de fraca profundidade. Ela não se contentava com mais do mesmo, ou com abordagens que não iam ao amago do essencial. Viu muita coisa que, na sua opinião, só infantilizava ainda mais os crentes. Por isso me fez a pergunta sobre onde estivera a verdadeira Igreja nestes tempos de confinamento. 
A minha resposta estava na ponta da língua, porque muito reflectida e meditada por estes dias. A Igreja destes tempos esteve e continua a estar no coração de cada crente. Assim como Deus. Ele está por todo o lado, é certo. Está nas nossas igrejas que estiveram fechadas. Está na rua e nos acontecimentos. Está nas casas das pessoas. Até está nas muitas manifestações que ela quase chamou de medíocres. Mas onde Ele quer estar deveras é no coração de cada um. E é aí que a Igreja começa por se construir, por ganhar raízes, por se nutrir. A comunidade cristã é imprescindível para o itinerário de fé. Mas a fé é uma razão do nosso interior. Por isso a verdadeira Igreja está onde sempre tem estado, no coração de cada crente. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja da senhora Alcinda"

quinta-feira, maio 28, 2020

Agora só vão as beatas

Como referia Rino Fisichella há uns dias, a fé precisa dos sentidos. O homem é feito para o relacionamento e isto é ainda mais verdadeiro para a dimensão da fé cristã. Obviamente que vivemos uma época adversa a esta realidade e somos obrigados a viver confinados e a guardar distâncias. Contudo, a distância não pode ser o futuro da existência pessoal ou da fé. 
Falo destas coisas porque ouvi dois paroquianos que me fizeram pensar. Falaram comigo em horas e contextos diferentes e disseram-me quase o mesmo, também de maneira diferente, perante o retomar previsto das celebrações comunitárias. O primeiro, homem, com alguma formação, humana e cristã, depois de ter lido as muitas orientações e regras a cuidar, disse que era melhor ficar em casa e assistir à missa da televisão. O segundo paroquiano era uma mulher, talvez com menos formação, mas pessoa de missa dominical. Em amena cavaqueira foi dizendo que agora quem ia à missa eram só as beatas. E que ela não ia, pois preferia ver a missa em casa. 
Claro que entendo a reação própria do receio. Eu também tenho os meus receios. Mas ouvir estas coisas ditas com tanta naturalidade e facilidade, só veio reforçar a ideia que tenho vindo a ter de que tanta multiplicação de missas nos meios de comunicação social e virtual pode ter confundido as pessoas. Numa sociedade que já privilegiava, por si mesma, o individualismo, pode ter-se reforçado a ideia de que a nossa fé pode ser uma coisa privada, sem comunidade, uma vivência privada, sem relacção.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As missas ou missinhas"

domingo, maio 24, 2020

Subir ao céu em corpo e alma

A Joana, que é catequista, comentava que a Ascenção era Jesus a subir ao céu em corpo e alma. Acenei na sua direcção e fiz do meu dedo indicador um metrónomo, de um lado para o outro, a dizer que não. Ficou intrigada e curiosa ao mesmo tempo e, por isso, pediu-me que lhe explicasse o que queria dizer com o meu dedo a acenar. Aprendera assim e era assim que ensinava aos meninos. 
Comecei por lhe dizer que não fazia mal em explicar assim aos meninos, porque para podermos falar de Deus, que não vemos, temos de usar a nossa linguagem e aquilo que conhecemos. 
No entanto, há que dizer que esta festa tem sido mal entendida por muita gente e, nesse sentido, alguns teólogos nem lhe apreciam o nome. Dizem que o termo “ascensão” não é o mais correcto porque evoca a categoria de espaço físico. 
Jesus ressuscitado não subiu nem podia subir ao céu no sentido literal da palavra. Aliás, a sua corporeidade já não era como antes de ter morrido. Não era um fantasma, mas o seu corpo não tinha explicação. Por isso é que os seus não o reconheceram logo, como referem os evangelhos. Não poderia, portanto, ter subido em corpo para o céu. Além disso, Deus também não vive num “espaço” físico. O céu, mais que um “lugar”, é um “estado”, ou seja, uma forma de estar. Ora, para que a subida de Jesus ao céu não se confunda com a imagem de um astronauta ou um balão de hélio que sobe e desaparece no ar, estes teólogos preferem utilizar termos como “exaltação” ou “glorificação”. E têm razão! 
A Ascensão, na verdade, é a glorificação plena de Jesus Cristo. E se percebemos que o céu não é um espaço físico, mas é estar com Deus e em Deus, então percebemos melhor que, afinal, Jesus não nos abandonou. Continua connosco, ao nosso lado. Apenas nos precedeu para a glória de estar com o Pai e no Pai. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O céu e o inferno, parte I"

domingo, maio 17, 2020

A caminhar se faz o caminho!

A primeira vez que a Valentina falou comigo estes dias foi para me segredar que estava sem rumo, perdida, cheia de medos, receios, dúvidas, angústias. Estava cheia de todas aquelas palavras que tentam definir o pânico. Não sabia que fazer. Não sabia nada de nada. Não estava bem. 
Fui-lhe respondendo que era normal termos receios, mas que não vermos para além deles, era o mesmo que tapar os olhos à luz que se procura no fundo do túnel. Até à presença de Deus que se pressente. Que o caminho a fazer era continuar a viver no meio das limitações... que, afinal, sempre existiram. Agora só nos parecem mais visíveis. E mais isto e mais aquilo, no sentido de apaziguar aquele coração e convidá-lo a fazer caminho. 
Não passaram vinte e quatro horas quando a Valentina me contactou para me dizer que se estava a fazer luz na sua vida e fé, embora com dificuldades. É isso, respondi. O caminho faz-se caminhando, sem certezas que não seja fazer o caminho, mesmo caindo, mesmo voltando um pouco atrás, mesmo com vontade em desistir, mesmo com obstáculos a ultrapassar. O importante na fé não são as certezas, mas o caminho! força... a todos os que se chamam, por estes dias, de Valentina. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padres que não sabem que caminham"

quarta-feira, maio 06, 2020

As igrejas vazias e fechadas

Sabemos que em todo o mundo, nestes tempos de crise, as igrejas estão vazias e fechadas. Podemos imaginá-las. Cheias de pó. Com cheiro a mofo das chuvas e do calor que se começa a sentir. A precisar de arejar. Sair das quatro paredes em que se seguram. Não é nada que não tivéssemos já imaginado. O vírus veio só apressar a imaginação. Aliás, em alguns países, isso já foi ocorrendo. Igrejas, seminários, mosteiros, casas paroquiais a esvaziarem-se. A perderem o nome. A silenciarem-se. 
Li há dias em Tomáš Halík que, quando a Igreja medieval fez um uso excessivo de proibições e sanções, levando a máquina eclesial a uma espécie de “greve geral”, sem celebrações e sacramentos, as pessoas começaram a procurar mais a relação pessoal com Deus, uma “fé nua”. Teve ali, de certo modo, o nascimento da mística espanhola, a quem muito devemos hoje na mística e na contemplação. 
Talvez tenhamos agora a oportunidade de encher as nossas igrejas vazias com as portas abertas a um modo de estar mais verdadeiro, mais interior. Mais silencioso e, ao mesmo tempo, mais vivo e verdadeiro. Talvez tenhamos agora a oportunidade de ir ao centro do Evangelho, fazer uma viagem ao interior da nossa fé despida, e revisitar a Igreja que está em todo o lado e é muito humana e doméstica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Deus não quer a nossa religiosidade"

segunda-feira, maio 04, 2020

Funerais a fugir

São os funerais de hoje. É o que tenho sentido em cada funeral que tenho presidido durante este período de contingência. No cemitério. Distantes uns dos outros. Com máscaras e outras protecções. Pouquíssimas pessoas. Familiares que nem podem ir. Amigos, só se a família for muito reduzida. Chora-se para dentro. Chora-se mais, mas para dentro. É o desespero de não ter espaço e tempo para chorar.
Ainda me recordo do primeiro funeral. Precisei de um minuto para me recompor e limpar as lágrimas. Recordo de modo especial o funeral de um jovem de dezoito anos. Chorei do início ao fim, em solavancos com as palavras. Não consegui aguentar a máscara. Não consegui limpar os olhos. Não consegui senão manifestar que estávamos unidos até neste não saber como fazer e sofrer.
Habitualmente tardo uns quinze minutos. Depende um pouco. Tento dar dignidade à celebração. Pelo menos tento. Ela é digna por si mesma. Vale pela presença de Deus e não pela presença das pessoas, em multidão. Não vale pelo que digo, mas pelo que Deus diz. Mas fico sempre com a sensação de que toda a gente quer sair dali o mais depressa possível. Toda a gente tem pressa. Dizem-me os cangalheiros. Demore pouco, padre. A família olha para mim a ver a hora em que termina o desconsolo. Os senhores da funerária querem ir desinfectar-se para casa. Para mim é tudo muito estranho. Depois da leitura do evangelho, partilho umas palavras. Mas soam-me a palavras que sobram. Nalgumas ocasiões pelo menos. Rezamos. Estamos. Unimo-nos. Mas tudo parece correr. Tudo parece ser a fugir. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os funerais Covid"

sexta-feira, maio 01, 2020

A Igreja que está aí

A pandemia do coronavírus fez com que as celebrações religiosas passassem a ser recebidas através dos meios de comunicação social e virtual. A Igreja passou a viver e a expressar-se nestes meios. Mas esta não é a Igreja. Esta é a Igreja de uma situação difícil. A Igreja, por si mesma é uma comunidade real. É o Povo de Deus que caminha no acto da fé e do seu amadurecimento, no acto da caridade e do testemunho, no acto da Palavra e dos sacramentos. 
É verdade que a Igreja vive à volta dos sacramentos, e especialmente do sacramento da eucaristia, fonte e cume da vida cristã. Mas não depende exclusivamente deles. Ela depende do Senhor Deus. Por isso também pode viver sem eles. Não pode é banalizá-los ou dar a ideia - demasiado clerical, por sinal – que, sem eles, não há forma de se alimentar, celebrar e viver a fé. Se já antes muitos dos nossos sacramentos perdiam alguma autenticidade, porque ausentes de fé, agora esse risco aumentou. Tanto que o Papa Francisco, na homilia da Missa na Casa Santa Marta de 17 de abril, sublinhou este risco de viver a comunhão eclesial apenas de modo virtual. 
Os sacramentos valem por si, mesmo à distância. Há uma certa presença, embora virtual, através destes meios de comunicação social e virtual. Não são falsos, mas também não são a realidade, mesmo que a reproduzam muito bem. 
Talvez a pastoral das nossas comunidades, nestes tempos de contingência, se tenha vindo a centrar em demasia na celebração eucarística, absorvendo muitas das nossas energias, salientando o quantitativo, em detrimento do serviço da Palavra, da formação e, nalguns casos, da caridade. Talvez seja um hábito que vem de trás. E talvez seja este o salto que a Igreja que está para vir deveria fazer. O salto de uma Igreja sacramentalizadora para uma Igreja missionária, de uma Igreja eclesiocêntrica para uma Igreja cristocêntrica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Gostava de fechar a minha Igreja.

segunda-feira, abril 27, 2020

A Igreja que está para vir

Há um abalo em tudo à nossa volta. Mesmo na Igreja. Tanto no seu todo como na sua hierarquia. Faço figas, porém, para que seja um abalo positivo. Rezo todos os dias com essa intenção. E há, de facto, algo positivo que tenho vindo a descobrir. Cresce pouco a pouco, mas cresce. É a "Igreja doméstica"! A Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. Uma Igreja que se reunia em casa e onde as celebrações eram presididas pelo dono do lar. 
O problema é que, ao longo dos tempos, o clero foi-se apoderando ou apropriando da Igreja e dos sacramentos, mesmo que o tenha feito sem intenção, transformando a Igreja de Cristo numa Igreja piramidal, vertical, clerical. E habituou os crentes a esse modelo. Um modelo de Igreja dependente dos bispos e dos seus padres. Por isso, talvez muitos crentes tenham perdido o foco e se tenham sentido algo desamparados nestes tempos de difícil acesso aos seus padres. Pelo menos o acesso presencial. 
É claro que precisamos de uma “ordem”, como dizia Anselmo Borges numa entrevista que me fez pensar. Por isso precisamos de ministros ordenados. Precisamos de “organizar”. Mas não podemos fazer depender deles a Igreja que é de Cristo e de todos.
Será que a Igreja que está para vir vai ser mais laical e menos clerical?! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"

segunda-feira, abril 20, 2020

uma Igreja virtual

Este vírus está, com a nossa cumplicidade, a transformar-nos em seres virtuais. Pouco a pouco, vamos passando da vida ao vivo, em tempo real, para uma forma de vida indirecta, mediada pela internet, sobretudo as redes sociais. Trabalhamos, conversamos, beijamo-nos e abraçamo-nos virtualmente. 
E começamos a viver a fé de igual modo. Estamos também a transformar-nos numa Igreja virtual. Uma Igreja que propõe e consome virtualmente, com voracidade, centenas de propostas, numa degustação espiritual, em menu a la carte. Uma Igreja que consome likes, emojis e améns. Uma Igreja de entra e sai. Portanto, efémera e provisória. Uma Igreja que não agarra e não compromete. Uma Igreja mais passiva que activa, mais espectadora que participante, mais admiradora que vivente. 
Esta transformação, como é óbvio, tem coisas boas. Mas inquieta. Ou devia inquietar. É verdade que tudo é graça e dom de Deus. É verdade que esta é também uma parte da igreja possível destes tempos. E é só uma parte. Contudo, não sei como será quando regressarmos à vida real. É que o virtual tem esta coisa de nos aproximar e nos afastar ao mesmo tempo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É possível fazer igreja sem sacramentos?"