domingo, dezembro 29, 2019

Este é o tempo da desgraça ou da graça?

Sem querer, juntáramo-nos, na mesma mesa, e começámos a falar sobre a Igreja dos nossos tempos, uma Igreja que está sendo questionada no mais fundo da sua vocação, identidade e missão, ou seja, para o que ela existe como mandato deixado por Cristo, segundo o evangelho de S. Marcos: “Ide por todo o mundo, e anunciai a Boa Nova a toda a criatura”. Era um leigo comprometido, interessado, reflexivo. O que afirmava, afirmava-o porque já tinha pensado nisso. Porque já se tinha perguntado, muitas vezes, tal como eu, sobre a Igreja dos nossos tempos. E a determinada altura disse. Vivemos em tempos de desgraça. Na verdade, eu também já tirara a mesma conclusão. Também eu tivera este tipo de pensamento. Não me conformo muito, como já manifestei, com a forma de ser da Igreja hoje. Mas, aos poucos, no meio do nosso diálogo, comecei a pensar que, afinal este tempo, pode ser, muito bem, um tempo de graça. Já ultrapassámos aquela fase, aquele tempo da Igreja em que, aqui no Ocidente, quase se nascia cristão. Já lá vai o tempo em que não questionávamos a nossa fé. Não questionávamos o que o Magistério da Igreja dizia. Não nos interessava se o padre era assim ou assado. Aceitávamos tudo como se essa forma de aceitar fosse um dado adquirido. No meio de tantas crises, que alguns chamam crises de Deus, da Igreja, da Fé e da própria sociedade, deparamo-nos, afinal, com a oportunidade de ir ao centro da questão. A oportunidade de nos recentrarmos no essencial. A oportunidade de reencontrarmos a verdadeira Igreja de Cristo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A irmã Graça"

Desejo a todos os meus amigos e visitantes um ano de 2020 cheio de Deus!

terça-feira, dezembro 24, 2019

O menino que nasce no meio da porcaria

Atenção que eu li um título parecido há tempos e isso livra-me da autoria moral deste título. Mais, sou a informar que há certas palavras que são muito mais difíceis de dizer ou escrever que de ler. Eu tinha pensado, inclusive, numa palavra mais directa, mas não consegui usá-la. Portanto, não se assustem por eu, hoje, fazer questão de lembrar que Jesus nasceu numa gruta cheia de dejectos de animais e maus cheiros (por causa dos dejectos dos animais), uma gruta muito pobre, uma espécie de estábulo, algo mais para animais que para pessoas. Ou seja, naquele tipo de condições que nós costumamos dizer que não são condições humanas para nascer. Não, não havia enfermeiras ou parteiras. Nem empregados ou exércitos para guardar tão ilustre nascimento. Também não havia ar condicionado ou climatização solar. Estava rodeado de animais e, provavelmente, foram eles que o aclimataram. Recordo-vos que nem sequer era bem-vindo por parte de alguns, sobretudo alguns dos mais poderosos do tempo. Basta recordar o massacre dos inocentes a mando do rei Herodes como tentativa de acabar com a vida do protagonista desta história. 
A história de Natal que contamos nestas alturas do ano faz lembrar histórias como o capuchinho vermelho ou a bela adormecida. Mesmo quando excluímos dela a figura do Pai Natal e o comércio à volta dele, a nossa narrativa de Natal parece um conto de fadas. Até as estrelinhas brilham mais. Até os anjinhos aparecem para cantar. Tudo é tão belo e bom, que até se esquece a realidade em que Deus encarnou. Ou porque encarnou. E que ama muito os homens, ao ponto de se associar, desde o primeiro momento da sua encarnação, ao que mais sofre, ao mais desprotegido, ao mais necessitado. E que quer mostrar a sua omnipotência, não no poder e na riqueza, mas no amor. E que veio ao mundo para dar mais sentido ao mundo, mesmo que pareça não fazer sentido. E que Deus é Emanuel, isto é, Deus connosco. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "E o Menino fica esquecido entre as palhas de um presépio pequenino por debaixo de uma árvore grande enfeitada"

Aproveito para vos desejar um Santo Natal e um Feliz Ano Novo: Que Ele seja a certeza no meio das nossas incertezas!

domingo, dezembro 22, 2019

Quando pensas no Natal, o que é que, honestamente, te lembras em primeiro lugar?

Em Agosto deste ano perguntávamos "Na tua opinião, hoje a sociedade em geral é favorável à Igreja em particular?" e obtivémos os resultados que a seguir se apresentam, mas dos quais gostaria de realçar que quase 49% acha que a sociedade é pouco favorável e outros 49%, em conjunto, é de opinião que a sociedade não é nada favorável ou é mesmo contrária. Dá que pensar, não dá?


Hoje colocamos nova sondagem online, a propósito do Natal, e encetamos uma pergunta que gostaríamos de ver respondida com honestidade: Quando pensas no Natal, o que é que, honestamente, te lembras em primeiro lugar?

sexta-feira, dezembro 20, 2019

Chorador [poema 239]

Quando o coração chora, acompanho o seu chorar
As lágrimas são as palavras que a dor não diz
São os rios que precisam de mar

Quando o coração chora, não chora sozinho
Tem uma alma por detrás a gritar baixinho
Contigo vou, meu coração e secreto amigo

terça-feira, dezembro 17, 2019

O príncipe do lar

Vou chamar-lhe Henrique porque, segundo me informei, significa "príncipe do lar". Acho que o nome se ajusta ao que reconto. Este menino é conhecido por ser educado, calmo, sereno, meigo, terno, simpático. A catequista descreveu-o com estes adjectivos. Segundo ela, havia já algum tempo em que ele andava tristonho, sem brilho no olhar. Não parecia o mesmo Henrique que entrara na catequese há um ano ou dois. Passava quase todo o tempo do encontro de catequese alheio, distante. Longe de tudo e de todos. A catequista andava preocupada e não sabia como o abordar. Mas houve um dia em que ele estava mais perto dela, e no momento em que olhava fixamente o nada, no vácuo do tudo que era e havia à sua volta, aproximou-se dele, e perguntou. Olá, Henrique, então que se passa? Parece que andas um pouco triste. O Henrique escondeu os olhitos, nos quais se notara a presença discreta de uma lágrima, e respondeu com a meiguice habitual. Pois ando, catequista. Sabes, é que eu agora tenho dois pais e não sei se hoje vou para casa do primeiro se do segundo. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O casamento depois de dez anos casados"

sábado, dezembro 14, 2019

O telemóvel e a missa

No meio da eucaristia. No meio da assembleia. No meio da consagração. Toca um telemóvel. O som não é dos piores. Calo-me. Desliga-se. Continuo. Afinal não se desligou, mas atendeu-se. Ouviu-se o Estou no meio da missa. Calo-me de novo. Escutamos todos, respeitando a pequena conversa. Acaba a conversa. Continuo. Se houve falta de respeito? Houve. Se foi com má intenção? Quase de certeza que não. Faz parte da forma de ser de quem não sabe como usar as novas tecnologias, digo eu. Incomodou? Muito, sobretudo porque ocorreu a meio de um dos momentos mais importantes da eucaristia, a consagração. 
Mas também me fez lembrar algo que me contaram, em tempos, acerca da resposta de um colega perante uma situação deste género, com gente que ficava indignada com as pessoas que atendiam o telemóvel na missa para dizer que não podiam atender porque estavam na missa. Ficavam indignados sobretudo porque atendiam dizendo que não podiam atender quando o estavam a fazer. Mas o referido colega, um padre conhecido pela sua sabedoria de vida, com quem partilharam esta perplexidade, respondera: mas ao menos do outro lado alguém ficou a saber que ainda se vai à missa.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A geração do telemóvel"

quarta-feira, dezembro 11, 2019

O cão pregador

Já não é a primeira vez que, numa das minhas comunidades mais pequeninas, os animais vizinhos dão sinal de vida e presença. Aliás, costuma andar por ali um cãozito que vai guardando a porta de entrada da igreja. E há dias, enquanto eu, durante a homilia, fazia a minha brilhante pregação, deu-lhe para se por a ladrar. Ladrava sem parar, ao ponto de, na igreja, nos começarmos a incomodar e a olhar na direcção da porta. Eu não desistia de continuar a minha brilhante homilia. Contudo, e perante a insistência do nosso amigo, tive mesmo de intervir. Ó meus amigos, vejam lá se o indivíduo se cala. Ou prego eu, ou prega ele. E assim nos rimos despregadamente durante um bom bocado. Olhem que uma destas! A dona saiu à rua e lá lhe disse qualquer coisa que não se ouviu. Eu imagino que lhe deve ter dito que ou pregava o senhor padre ou pregava ele. E não é que o cãozito se calou?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quem canta, seu mal espanta"

sábado, dezembro 07, 2019

Uma Maria qualquer [poema 238]

Eu vi uma mulher com vestido sem cor
Percorria os corredores da procissão
De mil véus para tapar rostos desfeitos
Rasgados, esquecidos, amortalhados

Vi uma mulher que era como um conto de fadas
Uma história de encantar, porque me encantava
Por entre os corredores das procissões vazias

Vi uma mulher calçada com mãos agarradas,
a adormecer no caminho do céu

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Comungar por comungar

Rodeada dos seus netinhos, era uma velhinha muito sorridente. Contava muitas histórias dos tempos da sua meninice e era um gosto escutá-la. Contudo, há dias encontrei-a a chorar compulsivamente, embora as lágrimas fossem pequeninas e o rosto não desenhasse de forma clara o seu caminho. Um dos netinhos ia fazer a Primeira Comunhão, e convidara a avó. Ia fazer uma grande festa. A cerimónia era às onze horas, mas antes disso os convidados tinham um pequeno repasto em casa. Por isso a avó chorava. Chorava ao recordar a sua primeira comunhão. Nesse tempo era obrigatório estar vinte e quatro horas sem comer para poder comungar. Por vezes, algumas crianças não aguentavam e desmaiavam. Ela não aguentara, e umas horas antes da Primeira Comunhão, dera um salto á cozinha e, às escondidas, assaltara o cozido meio à portuguesa que a mãe dela fizera para depois da festa. Chorava com remorso. Nunca confessara esse pecado. Tinha vergonha de não ter sido tão forte como Deus merecia. Não O ter respeitado como devia. E agora, ao ouvir o convite do netinho, o passado voltara a ela. Na verdade, ao longo da sua longa vida, tinha entendido que, afinal, não se desrespeitava Deus matando a fome. No entanto, dava conta que agora já nada disso era importante e chorava. Ai, senhor padre, há tanta gente que não guarda nenhum jejum antes de comungar. Há tanta gente que vai comungar sem estar confessada. Há tanta gente que vai comungar em pecado. Há tanta gente que vai comungar sem saber o que vai comungar. Sem perceber que é Deus que entra em nós para entrar em comunhão connosco. A avozinha estava triste porque hoje a comunhão já não era bem comunhão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os meninos da Primeira Comunhão"

domingo, dezembro 01, 2019

O padre em quem Deus acreditava

É um padre dos antigos. Não é daqueles antigos que permanecem no tempo como peças de um museu de antiguidades. É um padre vivido. Com uma vida de sacerdócio de dezenas de anos a correr com gosto. Claro que não é um padre isento de problemas. Creio que também não é isento de dúvidas. Foi assim que se abeirou de mim. Desabafou com gosto e entusiasmo, ainda que cheirasse a receio. Isto é, sorria e, ao mesmo tempo, virava os olhos para o lado. A verdade é que também há uma distância no tempo que nos une. Ele tem mais uns vinte e cinco anos que eu. 
A conversa surgiu com uma certa naturalidade, é certo. Como dois colegas unidos pelas mesmas circunstâncias de vida. Por muitas correrias e muitas chatices. Sabes, rapaz. Foi assim que me chamou para dizer o que ia dizer. Talvez para dar maior autoridade ao que ia referir a seguir. Sabes, rapaz, Deus acredita em mim. Repetia num outro tom de voz mais próximo do sussurro e do meu ouvido. Deus acredita em mim. E isso é o que me importa e o que me vale. 
Olhei-o a tentar entrar mais para dentro das palavras que acabara de escutar. Olhei-o e fiquei com os olhos parados nele. Ou nas palavras. Queria escutá-las de novo. Bebe-las até à última gota de sentido. Até secarem e atravessarem o nosso olhar, passando dele para mim. Tal como a segurança de vida e vocação deste meu colega. Sentir que Deus acredita em nós.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Afinal isto é Dele e não meu"

Nasce neste Advento de 2019 esta pequena rúbrica a que chamarei "A propósito ou a despropósito" e que pretende recordar ou revisitar textos antigos, que irei buscar ao "baú", e que estejam mais ou menos a propósito do texto agora publicado, ou então que, pelo menos, façam sentido, na minha cabeça ou coração, revisitar.