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sábado, fevereiro 08, 2025

O empurrão

Desequilibrou-se, porque a doença que tem propicia desequilíbrios. Caiu e magoou-se. Não havia ninguém em casa, mas insiste que foi empurrada. Diz ela que foi empurrada por uma familiar que já faleceu há dezenas de anos. Era uma prima com quem se dava muto bem até passarem a dar-se muito mal. Estavam zangadas quando ela morreu. E como não fizeram as pazes, agora culpabiliza-a de tudo o que lhe acontece de mal. Caiu e magoou-se porque foi empurrada por ela e ponto final. Eu até posso compreender que a nossa cabeça possa ter deste tipo de associações. Afinal, sempre buscamos explicações para o que nos acontece. Mas o que a senhora Genoveva, que visitei há dias na sua casa de doente, não sabe, é que o problema está todo na sua cabeça e no seu coração. Como não resolveu esta situação em tempo útil e como ainda tem dentro dela esta mágoa, facilmente o seu pensamento vai para ali, para a relação sofrida que deixou por resolver há muito tempo. O empurrão que ela precisava era o empurrão do perdão.

A PROPÓPSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sabe o que é que ela me fez, padre?"

quinta-feira, outubro 17, 2024

o pai do padre

Quando aos dezassete anos informou os pais que ia entrar no Seminário, ao pai só lhe apetecia bater-lhe, e a mãe continuou a esfregar a roupa no tanque, sem retirar os olhos dela. Rapidamente as lágrimas começaram a cair-lhe do rosto, mas quase não se notava porque as lágrimas se juntavam na água do tanque. Ele também não deu conta. Fechou os olhos para não ver. Foi desta maneira que o António disse aos pais, que eram mais ateus que outra coisa, que decidira ser padre. Não era gente má. Mas isso não fazia deles cristãos. Não iam à missa. Não queriam saber dos padres. O irmão mais velho é que se metera na Acção Católica e o mais novo, pelos vistos, sem que se adivinhasse, fora-lhe no encalço. Tão grande era o desplante, que no dia em que o filho fechou as malas e se despediu, o pai lhe disse, em tom de pai, que se cruzasse aquela porta, deixaria de ser seu filho. E o tempo passou. Pouco se falavam e, nas férias, as palavras pouco mais serviam do que para mostrar o desagrado. O filho ainda não era padre e ainda havia tempo de o demover de ideias tão ridículas. Onde já se viu um filho de gente que não é de Igreja se tornar um padre. Antes se tornasse um malandro das ruas. Não o pensava assim, mas verbalizava-o para que o filho pensasse bem no que fazia. E o tempo continuou a passar, como tudo na vida passa. Os anos foram calejando aquela família. Mas nem a ideia do filho nem a do pai desapareciam. Casmurros ambos. Ambos do mesmo sangue. Um mês antes da ordenação sacerdotal, o pai, sem que nem sequer a sua estimada esposa, que o acompanhava nas ideias e nas desideias, soubesse, foi visitar o padre da freguesia. Aquele a quem, pouco depois da primeira conversa do filho sobre a estranha decisão, acabaria por culpar e visitar com um pau na mão, pronto a ser usado se a ocasião fizesse o ladrão. Graças a Deus que o padre não estava só e a companhia o demovera. Agora a visita era por outro motivo. Talvez por ser um coração duro, tardou em abrir-se e a conversa demorou umas boas duas horas. Terminou com a absolvição. Nunca ninguém soube o teor da confissão nem o motivo da conversão. O pai mudou. O pai voltou a ser pai. O pai abraçou o filho na sua ordenação como se fosse a maior alegria que um pai pudesse ter. Perceber que a felicidade é um dom de Deus não é para todos. E o tempo passou. Mas, desta vez, foi apenas um mês. E o pai partiu para o outro pai. Foi de repente e os médicos não puderam fazer nada. O filho ainda hoje gostava de perceber, mas não percebe. Só sabe que os desígnios de Deus não se sabem de verdade. Só se acreditam… e se confiam. 
 
 A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A chorar durante a missa"

terça-feira, junho 04, 2024

Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor

Arrepiei-me ao ver, num pequeno vídeo, o modo como o padre Pio olhava fixamente a hóstia consagrada em suas mãos. Quase me vieram umas lágrimas ao rosto. Assim também no vídeo, após um longo momento detido com o olhar em Jesus sacramentado, o padre Pio teve de usar um pano para limpar as lágrimas, tão emocionado estava. Já sabia que ele tinha um profundo amor à Eucaristia, mas agora via-o com os meus próprios olhos. Fiquei embaraçado. Envergonhei-me das muitas vezes em que me distraio a celebrar a Eucaristia. Na verdade, muitas vezes o meu pensamento voa para as preocupações da vida, para as inquietações do ministério sacerdotal, para as decisões pastorais, para os problemas das pessoas que também me apoquentam. Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor. Que vergonha! Dás-me a graça de te poder olhar a um palmo de distância, de poder usar as tuas palavras da Última Ceia, de poder estar contigo suspenso nas minhas indignas mãos, e perco-me na minha limitada condição existencial e sacerdotal. Li, em tempos, que o padre Pio afirmara: “Que a sua primeira eucaristia e a última tenham o mesmo amor e o mesmo ardor”. Peço-te perdão, Senhor, pelas vezes em que não tenho presidido à Eucaristia como devia. Sei que te tornas presente em cada Eucaristia, independentemente de quem a preside e do modo como é presidida. Mas, por favor, faz-te presente também em mim sempre que eu celebre a Eucaristia. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não falo não falo e não falo"

quarta-feira, setembro 14, 2022

os pecados e as pessoas

No mundo há, a meu ver, quatro tipos de pessoas que se relacionam com o pecado de modo diferente. Existem pessoas constantemente aflitas por causa dele. Fazem parte de um modo de ser Igreja que aprendeu a viver a fé presa ao antigo e com o pecado repetidamente a entrar pelos ouvidos e pela cabeça. Não conseguem deixar de ter medo de Deus que castiga os pecadores. Existe, no sentido oposto, um grupo de pessoas, substancialmente maior, que vive sem pecado, porque o que uns chamam de pecado outros lhe desconhecem o nome e o sentido. Ou não querem saber destes pormenores da vida da Igreja ou minimizam-nos. São o segundo e terceiro grupo de pessoas a que me refiro. Os que minimizam o papel e significado do pecado fazem parte dos que, de certo modo, podemos denominar de progressistas. Com base no amor infinito de Deus, desculpam com isso todas as suas falhas. Ultrapassam o pecado fazendo de conta que ele não tem peso ou pesa como um pequeno grão de pó numa balança. Também neste lado estão as pessoas para quem a vida não precisa destas coisas de Deus e se riem do que os católicos chamam de pecados. Vivem sem a consciência de pecar. O pecado é um termo que não faz parte das suas vidas e do seu mundo. E mesmo que a consciência os acuse de algo, nunca lhe dão o nome de pecado. Existem ainda aquelas pessoas que encaram com naturalidade o seu pecado e tentam incorporá-lo, para poderem lidar com ele e o superar. Não vivem com medo de Deus, e usam os pecados como ocasiões para fortalecer o caminho para Deus. É que essa fragilidade os faz reconhecer a necessidade do amor de Deus na forma de perdão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Senhor, toma o meu pecado"

sábado, julho 17, 2021

"A pecadora da cidade"

Era conhecida na cidade como a pecadora. Era portanto o símbolo, a presença, a essência do mal na cidade. Ser conhecido como pecador sem nome é o mesmo que ser conhecido pelo pecado. A encarnação do pecado. Não interessa a intensidade ou a qualidade do pecado, porque na cidade o que importava era como a conheciam. A pecadora. A sociedade, aqui representada na “cidade”, é demasiadas vezes aquilo que nos fasta de Deus e de nós próprios. Porque passamos a ser o que parecemos e passamos a sentir-nos ausentes de quem somos de verdade. Mesmo diante de Deus, numa humanidade sofrida em que pesa a indignidade de amor por parte do senhor do amor. Vivemos apenas a nossa humanidade frágil. 
Não gosto das cidades que não se importam com quem nelas moram. As cidades indiferentes. Mas gosto ainda menos das cidades que vivem a apontar dedos. Já lá dizia Bernanos que a mediocridade era o pior mal da sociedade. Os medíocres, para não sentirem que o são, apequenam os que conseguem apequenar. Fazem da sociedade um lugar apequenado. Apequenado porque todos os seus habitantes são, por motivos diferentes e paradoxais, cada vez mais pequenos. 
Gosto, porém, do modo como Jesus deixa que esta mulher o toque na sua impureza e pecado. Que leve até ele a condição de pecadora. Mesmo os adereços. Tudo o que levou com ela era o que usava com outros homens. Menos os beijos de verdade. E o que fez Jesus? Mandou-a em paz. Na paz que brota de saber-se amado por Deus. E ela foi. Imaginamos que foi, porque o relato do evangelho não nos diz para onde foi nem como foi. Nem se voltou à vida pecadora de antes. Certo que deve ter continuado a ser conhecida como a pecadora. Mas o que interessa isso, quando nos sabemos amados por Deus? 
 
revisitar Lc 7, 36-50
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre tem de saber perdoar"

quinta-feira, julho 15, 2021

Bater no peito

Hoje a minha meditação embalou-se com a oração do publicano e do fariseu. Enquanto o segundo se achava dono da sua oração, o primeiro batia no peito e pedia compaixão. Numa primeira vista, quem lê este texto, facilmente olha de soslaio o fariseu, porque faz uma oração de autojustificação, centrada nele mesmo, nos seus méritos e merecimentos. Tomamos o partido da compaixão e por isso tomamos o lugar de Deus, mesmo sem dar conta que, nessa opção, tomamos um lugar que não é nosso. Julgamos como se fôssemos o Senhor Deus. Mas o que mais me intrigou foi o bater no peito do publicano. Bater no peito é o símbolo do reconhecimento da nossa fragilidade. Batemos no peito quando nos achamos culpados e, ao mesmo tempo, indignos da compaixão do Senhor. E imaginei aquele homem sincero a bater no peito insistente e repetidamente. Como se quanto mais batesse, mais precisasse do Senhor e da sua mão. O problema é que passar a vida a bater no peito é uma atitude muito semelhante à do fariseu que estava centrado em si mesmo. Quando passamos a vida a bater no peito, é como se estivéssemos voltados sobre nós próprios e sobre a nossa fragilidade, erro ou pecado, o que ainda é pior. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. Gostava muito que esta passagem terminasse com o publicano a sair do templo com um sorriso a transbordar da graça de Deus e de mãos dadas com Ele. Gostava muito. 
 
revisitar Lc 18, 9-14
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Pássaro ferido, mas a voar"

quarta-feira, março 10, 2021

A culpa do pecado é do perdão de Deus

A culpa do pecado é do perdão de Deus. Sei que a afirmação pode não fazer sentido. Aliás pensar que o perdão de Deus possa ser o culpado dos nossos pecados, parece descabido e despropositado. E informo que não li isto em nenhum lado. Li-o, no meu coração, numa daquelas meditações em que a gente se põe a deambular. Talvez até seja mesmo uma expressão excessiva se a fizer como se todos pecassem mais à vontade por se saberem continuamente perdoados por uma tão grande misericórdia como é a misericórdia de Deus. Se calhar é apenas a minha preciosa desculpa diante de Deus. 
Eu sei que Ele está sempre pronto a perdoar e a fazer-me sentir o Seu perdão. Por ter esta certeza tão certa, não será que fico à espera que Deus faça tudo por mim? Que faça aquilo que não me apetece fazer? Talvez seja essa a maior desculpa para não enfrentarmos os nossos pecados. Ou dito de outra forma, creio que diante do pecado, para além de valorizarmos o perdão de Deus, deveríamos rever também o nosso amor a Deus e a verdade da nossa fidelidade. Deus perdoa sem nós o merecermos. Mas também devemos viver no Seu Amor e procurar a sua Graça. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A rixa"

quinta-feira, outubro 01, 2020

Às vezes infantilizamos o sacramento da penitência

Dizem por aí que as pessoas se confessam cada vez menos. Ou que há menos pessoas a confessar-se. Assim como também há cada vez menos padres a disponibilizar tempos e espaços de confissão. Há uma grande probabilidade de tudo isto ser verdade. E isso, de certo modo, fala da imaturidade da fé ou espiritualidade dos nossos cristãos. 
Contudo, também podemos falar daqueloutro grupo de pessoas que, dentro do grupo dos que ainda se confessam, o fazem para cumprir. E dizem coisas que já não lembram a ninguém. Não mato e não roubo, senhor padre. E fica-se por aí. Não gosto deste tipo de confissões como máquina de relatar pecados em série, que afinal são não pecados. Uma vez por ano tenho de confessar-me. Não interessa como. Não interessa porquê. Nem para quê. Interessa que cumpra. Se o padre sugere uma Celebração Penitencial, que é isso? Perguntam. Não faz sentido. O meu sentido é aquilo a que me habituei. E faz-lhes sentido que assim seja. 
E depois temos pessoas que se confessam a dizer o que não fizeram. Ou as virtudes que fizeram. Ou então resumem o seu pecado a pormenores que não entram dentro do coração ou da vida da própria pessoa. As pessoas nem fazem exame de consciência. Que é isso, senhor padre? Já para não referir o número de pessoas que se ajoelha e diz: Senhor padre, não sei o que confessar. Pergunte-me lá. Porque se habituaram a que o padre indicasse quais eram os seus pecados. Tipo pergunta-resposta, ou teste de cruzinhas. Às vezes infantilizamos o sacramento da penitência. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma confissão ou um abraço?"

segunda-feira, agosto 10, 2020

Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

O que me impede de ter um olhar misericordioso por mim próprio, quando o próprio Deus me ama como eu sou? Não que isso justifique as minhas opções erradas. Os pecados. Os erros. As costas voltadas. As queixas desmedidas. Mas é verdade que Deus me ama muito mais do que eu me amo. Deus ama-me, não por eu ser bom, que não sou, mas porque Ele é bom. Deus ama cada um de nós, não por sermos bons, mas porque Ele é bom. Ele ama-me como eu sou e não como eu gostaria de ser. Isto parece redutor, e parece que põe tudo em Deus. O Centro. E, ao mesmo tempo, retira toda a nossa responsabilidade. Não é verdade. Nós somos responsáveis. Mas o centro é mesmo Ele. Por isso Jesus falava em perdoar setenta vezes sete vezes, que é o mesmo que pronunciar o número infinitamente. Porque quem ama, não ama com medidas. Ama com esse número que é muito mais que setenta vezes sete vezes. O número que não cabe na numeração, tal como a conhecemos. Por isso ama e perdoa. Porque só sabe amar quem souber perdoar. Só ama de verdade quem consegue aceitar a diferença que o outro é. A diferença que, no outro, pode até ser, dor. Por isso deu a vida por todos. Não deu a vida só por alguns. Deus a vida por bons e maus, por justos e injustos, por judeus e gregos, por escravos e homens livres. Por mim. Por ti. Por todos nós. E nunca é demais repetir isto. Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

A PROPÓSITO OU A DESPOPÓSITO: "A estatura do verdadeiro amor"

quarta-feira, abril 10, 2019

A Rosário, apertada pela vida

Só se lhe adivinhavam os olhos, porque brilhavam. De resto, estava tão agasalhada, tão coberta, que nada mais se via. Reparei que trazia um cachecol, um xaile, uma echarpe, umas coisas por cima das outras, a apertar, que o frio aperta. Vinha confessar-se, que o medo também aperta. Senhor prior, queria confessar-me. Não quero morrer em pecado. Quase todas as semanas, ou semana sim semana não, tenho de confessar a Rosário que tem medo de morrer em pecado. Desta vez, e antes de aceder ao seu pedido, quis saber porque fazia aquilo daquela maneira, aflita, apertada pelos andrajos e pela vida. Respondeu de chofre que tinha medo do castigo de Deus. A Rosário deve ser daquelas pessoas que passa o tempo da homilia a rezar e não ouve as minhas pregações que falam do Amor de Deus que não castiga. Ou então é daquelas que o tempo marcou por uma enformação exagerada do pecado, e por mais que ouça falar do Amor de Deus, apenas o sente quando se confessa e se livra de castigos. 
E mesmo antes de o fazer já estava a dizer. Não quero morrer em pecado, senhor prior. E era assim que vinha confessar-se porque a saúde já não é a mesma. Porque não sabe o dia e a hora e tem de estar confessada. Mesmo que o pecado sejam apenas umas pequenas falhas de atenção ou lucidez. A Rosário tem sempre de se confessar. Vive apertada pelos andrajos e pela vida. Vive apertada pelo medo de que Deus não se lembre dela quando, afinal, Deus tem o amor todo para dar a cada um de nós, como se nós fossemos tudo para ele.

domingo, março 03, 2019

A roupa suja

As casas pegam uma com a outra e são separadas apenas por um quintal. Simples, com umas couves misturadas com flores meio selvagens. O quintal é da vizinha Beatriz. Tem virado para lá uma das janelas da vizinha Eduarda. São muito amigas. Amigas sobretudo da conversa alheia. Encontram-se no muro do quintal, e dão um pé-de-meia de conversa fiada. O tempo, o sol, o frio, as batatas, e as outras vizinhas, como é óbvio. Não é por mal. É por hábito. Não é por mal. É para ter que dizer. 
O que a vizinha Beatriz não sabe é que a vizinha Eduarda a costuma vigiar da janela que dá para o quintal. Raramente a abre. Contudo, por entre o cortinado, lá vai dando uma espreitadela. Por isso, e já o comentou com uma das vizinhas do fundo da rua, descobriu que a vizinha Beatriz não é lá muito asseada. Atão não é que lava mal a roupa. Ou o detergente que usa presta pouco. Pois que, quando ela, por acaso, sempre por acaso, olha para a roupa da vizinha Beatriz estendida no quintal, as roupas estão, assim, a modos que, pouco limpas, para não dizer cheias de nódoas. Mas fica só entre nós. Repetia. Fica só entre nós. 
Há dias, porém, o marido da vizinha Eduarda, que gosta de tudo muito asseado e arrumadinho, chegou a casa mais cedo e foi fumar um cigarrito à janela que dá para o quintal. Mas quando ia para abrir a janela, reparou que esta já há uma boa temporada que não devia ver uma pano e um detergente, de tão suja que estava. Ó Eduarda, a ver se dás um jeito nesta janela, pois quase não dá para se ver através dela.
Afinal, não eram as roupas lavadas da vizinha que permaneciam sujas. A sua janela é que estava mal lavada. E assim se descobriu quem era, na verdade, a vizinha pouco asseada!
Lá dizia o outro: “Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?”

domingo, maio 06, 2018

Das crianças é a verdade dos céus

A avó contou o sucedido como quem conta a melhor coisa do mundo. Pelos vistos, ela tinha-se esquecido de parabenizar uma das suas melhores amigas no dia do seu aniversário. Passara já um dia da data quando foi recordada pelo lapso, e ficou muito triste. Aliás, muito preocupada. Como fora capaz de se esquecer de uma data que lhe era tão especial! Ia no carro, de regresso a casa, conduzindo, lamentando-se do esquecimento, e falando sozinha da desfaçatez que a preocupava. Falava sozinha mas não estava sozinha. No banco de trás trazia os seus dois netos, uma menina de oito anos e um menino de cinco anos. Contou-me então que, às tantas, no meio do seu monólogo, foi interrompida pelo menino que lhe disse. Ó vó, não te preocupes porque os amigos desculpam sempre. A avó ficou sem palavras. Na verdade, os amigos autênticos são sempre capazes de perdoar. E ouvi-lo da boca de uma criança, que à partida, prima pela ingenuidade, só dá maior garantia a esta verdade. Não há palavras para a alegria e admiração da avó. Os verdadeiros amigos perdoam sempre.

sábado, agosto 06, 2016

O padre tem de saber perdoar

O padre tem de saber perdoar. Dizia um bispo, em voz grave, no meio de uma pequena palestra sobre a confissão. E argumentava a afirmação com frases do papa. Recordava inclusive uma pequena história que este contara sobre um padre que tinha escrúpulos porque arranjava sempre uma forma de perdoar na confissão. 
Perdoem a ousadia que eu não tive para interromper o senhor bispo da voz grave. O padre não é dono do perdão. É instrumento do perdão de Deus. Usa o perdão de Deus na confissão. Tem de saber usar o perdão como ele é, infinito e sem explicação que não seja amor. Tem de ser sinal do amor de Deus na confissão. Tem de ser o rosto de Cristo que acolhe. Talvez isso seja saber perdoar, Mas não é ele que perdoa na confissão. 
O padre tem de sentir o perdão. Isso sim. Só quando sente o perdão em si, sabe o que é o perdão nos outros. Só sabe ser instrumento de perdão quem já foi objecto desse perdão. Só sabe acolher em amor na confissão quem um dia foi também acolhido com perdão e amor.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Vem aí a misericórdia

Vem aí o ano da misericórdia. Por isso toda a gente vai usando a palavra como se de um slogan se tratasse. É agora que a misericórdia vai acontecer. Como se ela não tivesse já ocorrido em Deus para connosco de uma forma que não se repetirá jamais. Éramos nós que precisávamos do seu perdão e foi Ele quem tomou a iniciativa de se aproximar de nós para nos amar. Mas eu também me entusiasmo com este desejo ansioso de que algo de belo, autêntico e transformador aconteça este ano. 
Porém não posso esquecer-me daquela senhora que me contava da sua dificuldade em lidar com umas vizinhas e, por outro lado, manifestava um desejo sincero de fazer umas partilhas com uns pobres da terra. Porque também queria ser misericordiosa no ano da misericórdia. 
Cuido que no plano das relações a dificuldade existe porque geralmente nos colocamos no centro da relação. O outro tem de ser como nós queremos, ajustado à nossa forma de pensar, de sentir e de ser. Mesmo sem querer, os problemas com os outros têm na raiz esta dificuldade em nos relacionarmos com eles como são, a partir do ponto onde estão. Não era assim Jesus. Não é assim Deus que teima em aproximar-se de nós como somos. 
Quero dizer-vos hoje que este olhar o outro a partir de nós poderá também impedir a nossa misericórdia. O Papa bem disse e farta-se de repetir: temos de ir às periferias, temos de ir ao encontro dos outros, sobretudo dos que mais necessitam. Temos, afinal, de sair de nós mesmos. Temos de deixar de ser o centro. Senão o que fizermos ao outro não será por ele, mas por nós. Senão o bem que fizermos não será para os outros, mas para nós. Senão os outros não serão sujeito, mas objecto. Nós seremos apenas um deus sem saber que o somos, centrados nesse poder de podermos ser deus. 
No ano da misericórdia se não sairmos de nós ao encontro do outro, poderemos até praticar as obras da misericórdia, mas não seremos misericordiosos. Seremos apenas condescendentes.

domingo, abril 12, 2015

Amas-me, Senhor?

Amas-me, Senhor? Amas-me como sou, tão pobre, tão frágil, tão pecador? Amas-me sem condições? Sem me exigires que seja santo? Que seja modelo? Sem me obrigares a ser o melhor padre que gostarias que fosse? Sem me exigires uma fé perfeita? Amas-me mesmo quando eu não te amo ou to não sei demonstrar? Amas-me mesmo quando te magoo ou te desiludo? Amas-me quando te volto as costas e quando não quero o teu amor? Amas-me mesmo quando não mereço o teu amor? Amas-me mesmo quando ninguém mais me amar? Amas-me mesmo quando eu já não tiver forças para amar? Amas-me, Senhor, como sou?
Dia da Divina Misericórdia

sábado, abril 04, 2015

Pássaro ferido, mas a voar

Hoje venho aqui porque Tu também vieste. Assim sem nada. Tu mesmo e eu mesmo. Tu vivo e eu a viver. A viver-Te. A senhora Maria dizia há dias que não conseguia perdoar a vizinha dela porque esta tinha dito mal dela. E acabou por viver o que a vizinha dizia dela e não a sua vida, que é muito mais do que o que dizem de nós. O não saber perdoar é como um pássaro sem asas. Um pássaro que não é bem pássaro porque não consegue voar. Tu deste o exemplo do perdão com o sinal mais que é a morte, como se esse despojamento fizesse em ti aquilo que és, as asas por excelência de quem quer voar. As asas para podermos voar na liberdade da Páscoa, na liberdade de estarmos vivos porque nos deste as asas para viver e ser pássaro. Hoje venho aqui sem grandes asas para pedir as Tuas asas. Chegou a hora de aprender a voar. Chegou a hora de aprender com a tua morte que um pássaro só é pássaro porque lhe deste a possibilidade de voar nas Tuas asas. Quero sonhar que estou na Tua cruz, planando alto, num voo cruzado, entre Ti e contigo. Ama-me sempre assim, amigo Senhor. Vem de novo com Tuas asas para que eu seja pássaro ferido, mas a voar.