segunda-feira, Setembro 15, 2014

Dias da cor da noite [poema 23]

Há dias assim
Da cor da noite
Dias que parecem noites
Dias que não são dias
Daqueles que vão mas não voltam
São dias que vão e voltam
Como a noite chega ao final do dia

São os dias em que me faltas
Ou estou órfão de Ti

quinta-feira, Setembro 11, 2014

Uma confissão marcante

Era padre faz pouco tempo. Sabia-me dono do saber e do mundo. Achava-me capaz das melhores proezas, das mais sensatas virtudes sacerdotais. Além disso, estava no centro das espiritualidades sacerdotais em Portugal. Fátima. Tinha aprendido a oração da absolvição. Sabia-a de cor. Estava apto para ser sinal do perdão misericordioso do Senhor.
A senhora que se abeirou para se confessar tinha uma idade própria de quem já passou por muito, mas ainda há-de passar por muito mais. Não me olhou nunca nos olhos. Sofrera e sofria. Sofria e não queria sofrer mais. Achara-se usada e não queria mais. E como o perdão de Deus é tão próximo, tão íntimo, tão à maneira de Deus, agarrei na mão da senhora para lhe mostrar que Deus a agarrava também. Mas o inóspito aconteceu num repente que me marcou para sempre. Ela retirou a mão das minhas, afastou o corpo ligeiramente. Esperou a absolvição de forma nervosa, tímida, assustada. Eu assustado também, jurei a mim mesmo que, durante a confissão, não voltaria a agarrar na mão de desconhecidos. Hoje faço o possível para me colocar no lugar da pessoa que se está a confessar. Apenas escutá-la naquilo que é e sente. Não é fácil. Mas tem de ser. É que naquela confissão marcante aprendi que ainda estava muito longe de saber como Deus agia nas pessoas. Porque cada pessoa é uma pessoa. E Deus age sempre diferente de pessoa para pessoa.

sábado, Setembro 06, 2014

Conversas com uma senhora muito religiosa

Conversa pouco fiada entre duas pessoas adultas. Um padre e uma senhora. Senhor padre, eu sou uma pessoa muito religiosa, diz ela. O padre pensa nas freiras em quem se costuma pensar quando se fala em religiosas, mas não deixa o seu pensamento sair para fora. Aproveita o ocaso da situação para explicar Olhe que é melhor dizer que somos pessoa de fé do que dizermos que somos religiosos. Ser religioso é viver de religiosidades. Ter fé é viver Deus. A senhora acenou que compreendera e emendou. Sou uma pessoa com uma fé tremenda. Sabe, padre, eu já fui cinco vezes a Fátima. Não vou muitas vezes à missa, mas Nossa Senhora de Fátima ajuda-me sempre que preciso. O padre teve outro pensamento errático. A senhora pensa na Senhora quando precisa, mas tem muita fé. A fé dos que têm fé quando precisam. O tal padre deve ter feito uma cara estranha porque a senhora insistiu que tinha uma fé enorme em Nossa Senhora. O padre perguntou se não tinha fé em Deus e a senhora falou que claro, mas ia poucas vezes à missa. O padre concluiu que para a senhora a fé estava em cinco vezes que foi a Fátima e não nas cinco vezes que fora à missa. O padre perguntou-lhe quanto gostava de Deus, ela disse que muito, mas que gostava mais de Nossa Senhora. O padre achou que o Senhor Deus não se deve importar com isso, porque Ele também gosta muito da Sua mãe. O padre e a senhora falaram muito mais e acho que a senhora no final estava mais esclarecida. Na realidade, ela era mais uma pessoa religiosa que uma pessoa de fé. Mas não vem mal ao mundo. Acho que Deus sabe esperar.

terça-feira, Setembro 02, 2014

A burrita da Virgínia

A Virgínia tem idade suficiente para olhar a vida a agradecer tudo a Deus. O marido já faleceu há anos. Não tiveram filhos. Tiveram enteados e pessoas que adoptaram para auxiliar. Não daqueles verdadeiros adoptados do papel e assinaturas. Mas os adoptados que precisavam apenas de alguém por perto. A virgínia é uma pessoa culta, mas isso não lhe tira a solidão, e acha-se uma pessoa sozinha, meio abandonada. Porém, no meio disto tudo, tem um ar de graça. Tem uma forma de ser divertida. Há dias disse-me que pedia muitas vezes uma coisa a Deus. Para satisfazer a minha curiosidade, contou-me o pedido que fazia insistentemente a Deus. Pedia-lhe que a deixasse ser a burrita do presépio. O pedido e o segredo eram sérios, mas os dois rimos a bom rir. E continuou. Ó senhor padre, a burrita ainda carregou com a Nossa Senhora e com o Menino. Eu nem para isso sirvo. De facto, o pedido era mais sério do que parecia à partida. Mas para compor o momento, achei-me no dever de concordar com ela dizendo que se ela pedia para ser a burrita, eu poderia ou deveria pedir para ser a vaquita. Não, não era pelos cornos. Rimos. Era mais pela graça de ali estar ao lado da mãe e do Menino, e eu nem sempre conseguia estar com eles. A rir nos quedámos os dois, mas o assunto era sério.

sábado, Agosto 30, 2014

Eu desejava que os padres fossem cada vez mais... [5]

Vamos já na quinta sondagem relacionada com as características ou virtudes que gostaríamos de ver mais nos sacerdotes de hoje. Temos agora disponíveis mais seis opções possíveis. Recordo que este tipo de sondagens que têm aparecido aos poucos neste espaço têm como objectivo deixar algumas ideias aos sacerdotes sobre o que devem privilegiar na sua vida e vocação. Recordo que as quatro características mais votadas nas outras sondagens foram "autenticos", "acolhedores", "simples" e “pastores”, sendo que este último apenas teve mais 6% que a segunda opção, “disponíveis” e ficou pelos 37%. Deixamos os resultados da última sondagem e colocamos online a quinta edição desta "saga".
 

quinta-feira, Agosto 28, 2014

nascer [poema 22]

Cinco crianças de mãos dadas
Brincam no alvor da praia.
À sua volta as areias não param
Nada as olha, são livres.
Não pensam se há olhares sobre elas.
São puras, genuinidade do ser.
Hoje queria ser a sexta criança,
Ser livre na imensidão dos olhares
Que se cruzam com as vidas
Emaranhadas nos lençóis de água.
Voltar ao Teu ventre,
Nascer dentro de Ti,
De mãos dadas com os que nascem
No âmago de Ti.

sábado, Agosto 23, 2014

A Laura e os desanimados da vida de hoje

Faz parte do grupo de desanimados da vida de hoje. Cuido que hoje o desânimo faz mais parte da vida das pessoas do que no tempo em que as contrariedades não eram mais que obstáculos da vida. Cuido que hoje as contrariedades da vida se transformam excessivamente em formas de viver sem vontade. A Laura é boa senhora, boa mãe, boa funcionária, boa cristã. Mas ultimamente entrou pela porta larga deste grupo, passou a fazer parte dele. Anda cansada de não ser fácil o emprego, a relação com os seus e com os que não são seus, e com mais uma série de coisas que nem soube enumerar. Ó Laura, quando estamos bem connosco, o problema pode ser grave, mas será sempre pequeno. Quando não estamos bem, o problema pode até ser pequeno, que será sempre grave. Por isso, Laura, antes de te debruçares sobre os teus problemas, debruça-te sobre ti. Encontra-te e encontrarás todas as respostas. Procura estar bem por dentro e tudo será mais fácil por fora. Na verdade os problemas têm sempre duas formas de se encararem. Ou com desânimo. Ou com ânimo. Em ambos os casos os problemas são o mesmo. Mas são vistos e sentidos de forma diferente, assim como têm peso diferente na nossa vida. Um, de tão pesado, deita-nos por terra. O outro tem o peso que tem, mas lança-nos em frente.

terça-feira, Agosto 19, 2014

mar cheio [poema 21]

Mão cheia de nada
Entrelaçados os dedos de vontade.
Tiberíades fica longe,
O vento é forte,
E vence a mão que teima
Em agarrar o mar,
A mão cheia de nada
Que deixa o mar fugir
Por entre os dedos
Entrelaçados de vontade
Agarra-te ao mastro, vá
Não vás cair ao mar
Que queres agarrar…

domingo, Agosto 17, 2014

Uma mãe que quer baptizar seu filho

Ligou para o telemóvel. Já fui à sua procura, senhor padre, três vezes e não o encontrei. Escusado será dizer que não me procurou nas horas em que devia e que a maioria dos paroquianos sabe que estou à disposição. Algumas dessas horas até se confundiram com as horas das eucaristias da paróquia. Sorri na mesma sem maldade. Depois disse que queria baptizar a filha. Certo, e perguntei-lhe em que dia estava a pensar. Queria no dia tal que é um Sábado. Informei que os baptizados eram durante a Eucaristia, de preferência a dominical, porque no baptismo se entrava na Comunidade Cristã e eu fazia questão de levar isto a sério. É também assim que aconselham as normas. Ela disse que não havia mal e que podia ser na missa de Sábado. E aquela mãe não sabia, apesar de eu estar aqui há mais de dois anos, que, para poder dar alguma assistência nas muitas outras paróquias que tenho, aqui não há missa ao Sábado. Claro que esta forma de não saber as coisas pode dizer muito do tipo de católica que ela é. Tudo ficou esclarecido. Tanto quanto possível. Mas passada que foi uma hora voltou a ligar. Pelo menos foi correcta. Há quem não chegue a tanto. Olhe, senhor padre, é só para dizer que, como não dá para ser no Sábado, nós vamos fazer o baptizado na paróquia tal, que é a dos meus pais. Pediu-me desculpa e desligou. Aceitei, como é óbvio. Não é meu feitio complicar estas coisas. Mas agora que passou outra hora, de repente parei para pensar e senti assim como que uma nostalgia. Aquela mãe tem todo o direito de fazer as suas escolhas e destas serem respeitadas. Esforço-me até ao tutano para não julgar. E continuo a esforçar-me. Se calhar ainda não é suficiente. Não tem mal a decisão daquela mãe. Está no seu direito. Mas sendo uma cristã que não sabe das coisas básicas da comunidade em que está inserida, saberá das mais profundas?

terça-feira, Agosto 12, 2014

Oração dos fieis super especial

Numa das minhas mais pequenas comunidades, daquelas que quase não precisam do sino para se avisar que o padre chegou, pois as casas são contíguas à Igreja, o insólito que já não é assim tão insólito, aconteceu. Estava a minha pessoa a verbalizar a homilia quando o telemóvel do António tocou. Este, que se encontrava numa das pontas de um dos bancos, retirou o dito som do bolso e, sem o desligar, atravessou o banco de uma ponta à outra, atrapalhado e atropelando os que lá estavam sentados, esquecendo-se que teria sido mais fácil sair pela ponta do banco onde se encontrava. As cabeças da comunidade voltaram-se para ele e não tardaram em ser abanadas para a direita e para a esquerda. Ainda o António não se encontrava na rua e já se ouvia o habitual Estou, sim, Estou. Interrompi a homilia o suficiente para que o António não fosse interrompido. O à vontade numa comunidade cristã familiar dá para estas coisas, assim como para outras que vieram a seguir. Até final da homilia, mantive-me o mais possível contido. Mas já na Oração dos Fieis, estando o António no seu lugar do banco, não resisti a fazer a seguinte petição. Nós te pedimos, Senhor, por aqueles que não sabem ou se esquecem de desligar o telemóvel antes de entrar na missa, e por aqueles que saem a correr da Igreja para o atender e ainda antes de saírem já o estão a atender. Oremos irmãos. E a pequena comunidade em coro, a sorrir, devolveu um Ouvi-nos, Senhor. O António virou-se para o lado correspondente à sua ponta do banco e recusou-se a dizer, como os outros, Ouvi-nos, Senhor. Ainda agora estou a ver a cara do António e a imaginar a cara do Senhor.