domingo, julho 15, 2018

Dona da minha vida

A frase era demasiado imperativa. Eu sou dona da minha vida. Era demasiado impositiva e antropocêntrica. Eu sou dona da minha vida e posso fazer o que quiser com ela. 
Esta frase saiu dos lábios de uma amiga, para afirmar a sua opinião sobre a eutanásia e sobre outros assuntos relacionados com a vida. Creio que ela foi honesta consigo mesma, pois é isso mesmo que pensa. Está convencida que se a vida é dela, é a sua dona. De facto a vida é dela. Mas não creio que seja a sua dona. E não o digo por uma questão piedosa, como quando dizemos, sem mais, “estamos nas mãos de Deus”. Como se fosse um fado, um destino de resignação que não queríamos mas que temos de aceitar. Essa lógica não me agrada muito.
Faço esta afirmação de uma forma, que julgo, um pouco mais cientifica ou com base na experiência humana. Porque se fossemos donos da nossa vida, como explicar que, sem o querermos, nos surjam doenças, problemas, sofrimentos? Se fossemos donos da nossa vida, o mais provável é que todos tivéssemos uma bela casa e belos carros e mais não sei o quê. Seríamos todos muito capacitados, sumamente inteligentes e dotados. Se nós fossemos donos da nossa vida, o mais provável era acabarmos achando-nos igualmente donos das vidas dos outros. Acabaria tornando-se um caos.
Nós somos donos das nossas opções, mas não somos donos da nossa vida.

quarta-feira, julho 11, 2018

Há paróquias e paróquias

Há paróquias que o são porque assim foram constituídas, zonas religiosas com um determinado território para cumprir a sua cultura religiosa e alimentar um pouco a fé de cada um, sobretudo através dos sacramentos. E há paróquias que querem ser comunidades cristãs e que, partindo da Palavra de Deus, fazem caminho para serem cada vez mais comunidade cristã.
Digo isto porque, apesar de ter paróquias a meu encargo como no primeiro caso, também tenho algumas paróquias que vejo crescer como no segundo. Há dias uma destas, por ocasião de uma festa onde, no final, havia rematações de buxos, chouriças e farinheiras confecionadas por um número bonito de senhoras da comunidade, assisti a algo que superou grande parte das minhas expectativas. Depois de tudo rematado, e sem que se previsse, lá foi grande parte da minha gente para o forno assar outra grande parte das chouriças e farinheiras. Eu tivera necessidade de me deslocar a outro local, e às tantas recebo uma chamada a dizer que estava tudo pronto para o convívio e estavam à minha espera. Qual não foi o meu espanto quando, ao chegar, verifiquei que estava quase toda a comunidade reunida para o convívio e, ainda por cima, ninguém tocara na comida antes de eu chegar. Porque sim, disseram. Porque eu era o seu pastor. Para além das chouriças e farinheiras, não faltou o pão e até uma sopinha, como eu gosto, e umas sobremesas para os mais gulosos. Bonita comunidade esta, que tenho de agradecer a Deus.

quinta-feira, julho 05, 2018

poemas de Deus [poema 188]

...e começo este poema, como se viesse de trás
A correr, com muitas outras letras e palavras,
Com um passado a querer ser presente, alado
Como se um poema nunca fosse só, fosse memória
E muitas letras que se conjugam juntas para ser
Assim fossem as palavras que Deus solta em nós,
Poemas vivos de ontem, num hoje que vai Ser

terça-feira, julho 03, 2018

Tenho devoção a Nossa Senhora, graças a Deus

O senhor Joaquim Neves é um típico indivíduo que é capaz de ir a Fátima quantas vezes lhe for possível, e ir à missa apenas nas festas e nos funerais. É meu amigo de longa data, daqueles amigos que quando nos avistam num café, se dirigem a nós para saber como está o senhor padre. Não é mau homem, nem se pode dizer que não tenha fé. É apenas alguém que precisava passar de uma fé um tanto infantilizada a uma fé amadurecida. 
Eu entrara, a meio da manhã, no café, para tomar um cafezinho rápido. Mas quando o senhor Joaquim me avistou, rapidamente se dirigiu ao meu encalço e iniciou uma conversação interessada. Que isto e que aquilo, que eu tenho muita fé, que eu mais isto e aquilo, e voltava ao Que eu tenho muita fé, ou aquela expressão ainda mais comum, Que eu cá tenho a minha fé. Tá a ver, padre, olhe que eu tenho muita devoção a Nossa Senhora, graças a Deus. 
E foi nesse preciso instante que meus olhos se arregalaram. O senhor Joaquim, que possui uma fé algo infantil, e que mais rapidamente diz que tem fé em Nossa Senhora do que em Deus, acabou construindo uma frase que não me deixou indiferente. Na verdade, acabou afirmando que a nossa devoção a Maria só existe por causa de Deus. Disse-o como aquela típica expressão que usamos a toda a hora: graças a Deus isto e graças a Deus aquilo. Mas eu entendi-o como se de uma verdade teológica se tratasse.

sábado, junho 30, 2018

Destas questões ético-morais, quais as que te preocupam mais?

Apresentamos hoje os resultados da sondagem que apurou os melhores textos de 2016 com a vossa ajuda, depois de um processo de selecção e de votação online.
Os mais votados foram, respectivamente e por esta ordem:
  1. Padres que não sabem que caminham
  2. As partilhas da D. Amélia 
  3. Pobres de rua

Hoje iniciamos também nova sondagem, com a pergunta: Destas questões ético-morais, quais as que te preocupam mais?
Já sabem que o objectivo é a reflexão e a partilha de opiniões sobre o assunto. Por isso aguardam-se as justificações das opções nos comentários.

quinta-feira, junho 28, 2018

Atestado de imunidade

Ligou-me um amigo, intrigado, porque uma vizinha lhe tinha ido perguntar o que era e onde se pedia um atestado de imunidade, pois o pároco onde vai baptizar o netinho pedira um atestado de imunidade do futuro padrinho da criança. Tinha recorrido a este vizinho porque ele era mais entendido nestas coisas. Mas pelos vistos não. O meu amigo não sabia nem imaginava o que era este atestado. Por isso, e pela confiança que nos une, ligara com a mesma pergunta: o que é e onde se pede um atestado de imunidade para ser padrinho. 
A princípio também eu fiquei intrigado com o telefonema e a pergunta. Para que quereria o padre um documento que atestasse a imunidade do padrinho? E a que imunidade se referia? Imune à fé? Imune à Igreja? Imune ao padre? Porém, foi apenas uma questão de segundo e meio para perceber que não se tratava de um atestado de imunidade, mas de um atestado de idoneidade. Afinal o que o meu colega pedira não era senão um atestado de idoneidade que provasse que este padrinho possuía os requisitos necessários que garantissem que seria um padrinho idóneo. 
E por causa do atestado de imunidade, o resto da conversa ao telefone foi um fartote de rir.

domingo, junho 24, 2018

As confissões da moda

Não, não são as confissões que estão na moda. Até porque mais parece que se tornou algo démodé. Não é por esse motivo que escolhi este título. Antes quero fazer referência àquelas pessoas que se confessam dizendo que não têm pecados. São gente para quem ter ou não ter pecados é secundário. Confessam-se apenas por causa da festa. Há um certo pudor - quando há - em se abeirar da comunhão na festa do filho sem estar confessado, porque sempre foi assim ensinada ou ensinado. Mas depois, diante do sacerdote, dizem que não têm pecados. E quando lhes falamos das faltas da missa dominical, perguntam, à boca cheia, Atão mas isso é pecado? São aqueles que se limitam a assinalar os mesmos pecados que diziam na confissão quando eram crianças. As mentiritas, as asneiras, as palavras e pequenas chatices e zangas. São esses os pequenos nadas de gente para quem o pecado não é assunto. Mas o pior é que se calhar nem Deus é assunto. E isto está na moda.

quinta-feira, junho 21, 2018

As histórias do nosso cangalheiro

O cangalheiro aqui da zona é um homem que se distrai com facilidade, mas com a mesma facilidade se despacha. Digamos que é despachado e castiço, embora o seu serviço não perca a dignidade. E há dias contaram-me o que ocorreu há uns anos quando ele preparava um morto para colocar no caixão. Tinha ido a casa do referido defunto para o vestir e preparar convenientemente. Como manda a etiqueta da ocasião, vestira o seu fato negro para não chocar os familiares e para que o assunto tivesse a sua dignidade. Entretanto, para poder fazer o serviço nas devidas condições, pousou o casaco do seu fato nas costas de uma cadeira que estava por ali perto. Como devem imaginar, a preparação ainda leva o seu tempo, porque é necessário tratar um pouco o rosto e vestir o defunto. E assim fez, como habitualmente o nosso amigo cangalheiro. Vão primeiro as roupas mais interiores, depois as calças do fato escuro, a camisa branca e por aí fora. Entretanto, ao vestir-lhe o casaco do fato reparou que este não lhe servia, que lhe ficava um pouco apertado. Como ninguém daria por nada, decidiu cortá-lo, com uma tesoura, nas costas. Finalmente o senhor estava conforme manda a coisa. Faltava o toque final, ou seja, alisar e dar um jeito para que tudo ficasse nos conformes, quando, ao passar a mão no peito do casaco e do senhor, deu conta que este ainda tinha uma carteira no bolso de dentro. Pensou para os seus botões que os familiares a deveriam ter esquecido. Pegou nela, com o devido cuidado, para a entregar à esposa. Mas ao avistá-la, teve a sensação de que já tinha visto aquela carteira nalgum lado. Por isso a abriu. E assim que a abriu reparou numa foto que era bem visível e conhecida. Era uma foto que ele tinha tirado com a esposa numas férias. Tratava-se, portanto, da sua carteira. Graças a Deus, pois por pouco não era enterrada com dinheiro e os seus documentos. Que alívio, pensou. Contudo, no mesmo instante deitou as mãos à cabeça. Acabara de ficar sem um casaco que não tinha sido nada barato.

quinta-feira, junho 14, 2018

Não é fácil encontrar vocações sacerdotais por aí

Nunca houve tão poucos jovens. As percentagens apontam para uma desproporção entre mortes e nacimentos. O nosso país, bem como toda a Europa, está a envelhecer. Também por isso não admira que a maioria das pessoas que frequenta as nossas Igrejas seja maioritariamente envelhecida. Nunca houve tão poucos jovens católicos praticantes. Digamos que a maioria recebeu o baptismo, mas não recebeu a fé. Nunca a juventude esteve tão indiferente e despreocupada com o seu futuro. Quando se lhes pergunta o que gostariam de fazer ou o que querem para o futuro, as respostas são similares ao Nim. Não sei bem, Ainda não pensei nisso, Isto não está fácil. Também é do senso comum que esta malta hoje está cada vez mais individualista, egoísta, descomprometida, sem capacidade de fazer sacrifício. Mesmo as famílias crentes não têm tempo ou formação suficiente para educar estes jovens ou fazê-los crescer na fé. Os religiosos são pouco visíveis, pouco conhecidos, convive-se pouco com eles. É fácil perceber que o seu tempo para estar com as pessoas acaba por se tornar escasso. E muitas vezes quando se ouve falar deles não é por bons motivos Os meios de comunicação social são pródigos em falar dos elementos da hierarquia católica quando um deles se destaca pela negativa. A sociedade não valoriza, e até despreza, a vida religiosa. Vivemos numa época bastante pragmática, pouco idealista. Os jovens regem-se por experiências e por “coisas” efémeras, rápidas e sem consequências. Parece-me ainda que a vida que nós padres vamos levando não suscita grandes encantos. Vivemos a correr, com várias paróquias quase minúsculas, a cumprir preceitos, numa vivência solitária de vida humana, cheios de pequenos conflitos interiores e exteriores. E por tudo isto, e por muito mais que se poderia acrescentar, como será possível termos mais vocações sacerdotais?

terça-feira, junho 12, 2018

Preparar o baptismo

Convidaram-me para, numa outra comunidade paroquial, presidir a um baptizado. São gente amiga a quem já presidi ao casamento e baptizados dos outros filhos. Como sabem que não gosto de fazer por fazer ou, dito de outro modo, que gosto que o sacramento não se faça por fazer, vieram contar-me que o pároco da comunidade onde vai ser o baptizado não exigia qualquer tipo de preparação e que tudo dependeria de mim e da minha vontade. Na minha opinião deve fazer-se sempre, nem que seja apenas de modo espiritual, para interiormente preparar a celebração. E como sabem o que penso e como penso, decidiram procurar outras paróquias próximas, pois não conseguiam conjugar esforços para virem ter comigo pessoalmente. 
E agora chega o real motivo destas minhas palavras. Por não saber detalhadamente os contextos, contornos ou os diálogos ocorridos, evito fazer o mínimo juízo deles. Contudo, não consigo ficar indiferente. Contou-me o casal que o pároco onde residem lhes respondeu que não fazia a preparação e que se quisessem tinham muitos conteúdos na internet para se prepararem. Que fossem lá. Um outro, a quem recorreram, respondeu que tinha prevista uma dessas preparações em tal data que, aliás, era posterior à data do baptismo, mas que também não costumava fazer a reunião para aqueles que iam baptizar seus filhos ou afilhados fora da sua paróquia. E assim vão as preparações de baptismos!