sábado, setembro 23, 2017

O papa e os padres

Há um ou dois dias li, numa das redes sociais da moda, uma crítica ao Papa Francisco pelo facto de estar sempre a criticar os padres. Pelas palavras usadas e pelas entrelinhas dessas palavras, aquilo pareceu-me mais um ataque que uma crítica. Para o autor do artigo, pelos vistos um colega, cada vez que o Papa falava dos padres, mesmo quando dizia o que deviam ser e não propriamente o que não deviam ser, entrevia nele palavras de ataque aos padres. E acrescentava, ou teimava, que era obrigação do Papa acarinhar e proteger mais os seus. Como se o restante povo de Deus não fizesse parte dos seus. Todo o texto era voltado para dentro, para a Igreja formada pelo “clero”, na génese do que significava essa palavra na Grécia Antiga, a “herança ou parte escolhida”. Ou o que se documentou no concílio Vaticano I que falava da Igreja, referindo-se à hierarquia, como a sociedade perfeita. Ou o que podemos recordar dessa época medieval com um clero que vivia à custa do poder.
O Papa mais não faz do que aquilo que fazia Jesus chamando a atenção dos anciãos, dos apóstolos e dos fariseus quando estes, convencidos de que eram os mais sabedores, os mais perfeitos e os mais cumpridores, viviam uma religião de méritos ou de puros. 
Tem razão, na minha opinião, o Papa. Os que coordenamos ou dirigimos a barca da Igreja deveríamos ser mais Cristo e deixarmos de insistir que somos um alter Cristo¸ como dizem alguns documentos. 
Às vezes estamos tão convencidos daquilo que somos, que vivemos a defendê-lo, em vez de defender a Cristo. Vivemos a tentar demonstrar a nossa bondade em vez de mostrar a bondade de Deus. Tem razão o Papa. Enquanto nos mantivermos assim, autorreferenciais, convencidos da nossa dignidade, provavelmente não cumprimos a missão que temos nas mãos... e que devíamos ter em todo o nosso ser.

quinta-feira, setembro 14, 2017

A vida a arder

Estou triste. E não encontro outra palavra para dizer o que sinto. Estou triste porque não entendo como é possível ver arder um país e ver arder as vidas das pessoas que nele habitam. Sim, não é só a vida em si, mas a forma de viver que arde sem que as pessoas, com todas as mãos que conseguem usar, consigam fazer desaparecer esse flagelo. 
Hoje estou triste porque uma das minhas comunidades esteve cercada pelo fogo, sem poder sair nem entrar. Sem poder senão esperar e entregar-se nas mãos de Deus. Vou revê-los em breve. Não sei muito bem o que lhes posso ou devo dizer. Eu sei que a natureza se encarregará de dar a volta por cima. Sei também que todos os meus paroquianos saberão dar a volta por cima. Mas dói. Dói por tanta coisa, e porque a vida arde e não sabemos que fazer!

domingo, setembro 10, 2017

vens [poema 156]

Peço respostas, vens em perguntas
Volto-te as costas, e voltas a vir
Como perguntas que eu sei

No coração

Poderei responder
por ti
em ti


terça-feira, setembro 05, 2017

O último terço do jogo

A Joaninha e os seus pais iam no carro comigo quando no final do relato de um jogo de futebol, com a selecção de Portugal, se ouvia na rádio os comentadores a darem as suas abalizadas opiniões, a avaliarem prestações, a dizerem de si e todas essas coisas típicas de uma noite de futebol. A viagem, que não era longa, fazia-se no silêncio. Ou melhor, na escuta atenta do que diziam os comentadores. Afinal Portugal havia vencido. Mas a Joaninha quebrou o nosso silêncio depois de um dos comentadores dizer que um determinado jogador estivera muito bem no terço do jogo. E perguntou. Ó pai, mas afinal os jogadores também rezam o terço no meio do jogo?

sexta-feira, setembro 01, 2017

Fiquei sem as minhas irmãs

Fiquei sem elas. Aliás, não fui só eu quem ficou sem elas. Foi toda uma comunidade paroquial. Ficámos sem as irmãs consagradas que há várias décadas aqui haviam construído uma comunidade religiosa, uma presença espiritual. Sim, muito mais espiritual que pastoral, embora se notasse particularmente a sua presença na pastoral da paróquia. Como não têm tido vocações, a sua provincial vê-se obrigada a fechar, pouco a pouco, algumas casas onde estão pequenas comunidades religiosas. Quando anunciámos o encerramento desta casa e desta pequena comunidade de três irmãs, embora com umas lágrimas a deslizar pelo sulco da face, a voz do agradecimento foi mais forte. Nesta hora, dizia eu ao microfone da Igreja paroquial, não podemos prender-nos à lamentação da perda, mas ao agradecimento dos vários dons que cada um recebeu com a sua presença. É isso mesmo que penso. Mais do que lamentar-nos da sua ausência, devemos agradecer a sua presença. 
Foi tudo rápido e agora já cá não estão. Não quero desistir de procurar uma outra congregação ou Instituto de vida Consagrada para aqui estabelecer uma comunidade religiosa. Mas a coisa não está fácil. As respostas ao nosso convite vão chegando com a descrição de dificuldades similares. A maioria delas diz que também estão a fechar casas e comunidades. 
A realidade está ao alcance dos nossos olhos. E nós teimamos em fazer como se nada estivesse ocorrendo na Igreja. Vamos fazendo o mesmo de sempre, com menos vocações consagradas, menos cristãos, menos recursos, numa pastoral de manutenção que não tem mais lugar num mundo em que a fé conta cada vez menos.

quarta-feira, agosto 30, 2017

esse silêncio [poema 155]

Inauguramos o silêncio entre portadas
De casa em casa que são pedras lavradas
Esse silêncio que não conhecemos senão
No espaço entre umas pessoas e as outras
Ou entre si mesmas na quietude de não ser
Há ali a comunicação dos gestos que são.

Corro de porta em porta, com o coração
Nas fechaduras, entro e saio e a quietude entra
Em mim, nesse silêncio que também se abre
E me diz: Não estou só, apesar do meu nada

Há alguém que se faz tudo para eu falar!

domingo, agosto 27, 2017

Mais um colega sacerdote foi levado pelo Senhor

Mais um colega sacerdote foi levado pelo Senhor, como se costuma dizer, para junto de Si. Não gosto da frase, mas uso-a. É uma frase que na morte nos diz que somos levados por Deus, como se Ele nos tirasse algo. Não gosto de pensar que Deus nos leva como quem nos tira a vida, sobretudo quando estou convencido que é nesse momento que mais nos dá de Si. Também não vejo Deus como um egoísta que leva as pessoas para si. Gosto mais de pensar que somos nós que vamos. Somos nós que vamos para ao pé Dele. Mas o que eu penso também deve ser de pouca importância. 
O meu colega tinha tanto a idade como a falta de saúde propícias para falecer. Fui ao funeral que o senhor bispo presidiu. Não lhe destapei o rosto. Não me apeteceu. Não tive vontade de satisfazer essa curiosidade. E ao longo da missa, que me perdoem, mas o meu pensamento não poisou sobre ele, sobre o caixão ou sobre as suas memórias. Andou por todo o lado a pensar em mim, neste sacerdócio que vivo ao lado dos poucos que vamos restando. Cada vez é mais desproporcional o número dos padres que morrem dos que vão sendo ordenados. Cada vez sobram mais paróquias e mais trabalho para os mesmos. A nostalgia veio a mim. Não porque tenha medo. É só mesmo porque gostava que as coisas fossem diferentes. 
Por isso o meu pensamento andou pelo relógio do tempo, umas décadas ou anos à frente, a pensar que um dia destes, se não mudarmos o modo como servimos a Deus, é bem capaz de ter de ser Deus a mudar.

quinta-feira, agosto 24, 2017

meu deus [poema 154]

Lá no alto havia um céu
Que um dia caiu e fez-se véu

No meu rosto de cera pálida

Me abria e me assombrava
Calava-me mas não me calava

Olhem, ali vai um Deus
Por entre terras e céus
Anda de mão dada e ferida
Fez-se carne, faz-se vida

O céu deixou de ser céu,

Passou a ser o que eu sou
e de mão dada me levou

segunda-feira, agosto 21, 2017

Uma católica que não pratica muito

Padre, eu não vou à missa, mas acredito. Sou católica mas não pratico muito, disse ela enquanto jantávamos à mesma mesa. E depois de lhe perguntar que significava para ela acreditar, foi asseverando que de vez em quando rezava e que para ela Deus existia e acabava por ser importante. Fez-me recordar aqueles meio-católicos que aprendem a sê-lo como religião de vontades extemporâneas. Essa religião que é fruto da educação, mas que não implica senão uma filiação numa instituição que se chama Igreja católica. 
A Ana está prestes a casar. Por isso lhe perguntei se o facto de ela acreditar no noivo, acreditar que ele existe ou que é importante para ela, ligar-lhe de vez em quando, sobretudo quando se lembra ou precisa de alguma coisa dele, lhe bastava. Sorriu para mim e respondeu que não. E que acharia se apenas de vez em quando tivesse oportunidade de tomar as refeições com ele, mesmo depois de casados. Ó padre, isso seria muito mau. 
Pois passa-se o mesmo com a fé. Não basta acreditar que Deus existe, lembrar-se dele algumas vezes, achar que ele é importante no sentido de ser coisa grande. É preciso que a gente viva partilhando com ele, confiando nele, querendo-o, vivendo com ele e nele, amando-o. É preciso tomar a refeição com ele. É preciso vê-lo como alguém importante, melhor ainda, imprescindível, para que a minha vida faça sentido. É isso que é ter fé. É isso que é ser católico.

sexta-feira, agosto 18, 2017

Que atributos opinas serem mais ajustados aos católicos de hoje em Portugal?

Já lá vão quatro meses desde a última sondagem, da qual apuramos os resultados como constam na foto em jpg. A pergunta referia-se à Ressurreição. Em Junho de 2009 publicámos sondagem idêntica, e agora podes comparar os resultados AQUI.
 
Hoje iniciamos nova sondagem a propósito do tipo de católicos que se auto-denominam como tal em Portugal: Que atributos opinas serem mais ajustados aos católicos de hoje em Portugal?