terça-feira, dezembro 16, 2014

Como classificarias a Igreja?

Um dia destes, ou melhor, uma noite destas, num encontro interessante com jovens, e no meio de uma pequena brincadeira, pedi aos presentes que de zero a dez tentassem classificar ou avaliar a Igreja dos nossos dias. Alguns tiveram a coragem de falar a sua pontuação. Outros calaram-se. Apeteceu-me insistir com aquela de Levante o dedo quem se situa entre os zero e os cinco, os seis e os sete, e assim por diante. Lá foram levantando os braços aos poucos, e pouco acima do meio da tabela.
Às tantas, uma das jovens, irreverente e atrevida, mas com sincera vontade, levantou outra vez o braço para me fazer a mesma pergunta. E o senhor padre, como a classificaria? Recordo que respondi prontamente Dez. Dez na escala de dez. Inquieta, perguntou porquê. Respondi que porque a Igreja era de Cristo. Ele é a cabeça da qual nós somos o corpo. Por isso só poderia atribuir-lhe um dez. E será sempre dez, mesmo quando não se goste de algo na Igreja, seja estrutural seja humanamente falando, seja como seja. É como um orçamento de Estado, lembrei. Uma coisa é aprovar o orçamento no geral, e outra nas especialidades.

sábado, dezembro 13, 2014

Vou aqui a Belém [poema 37]

Trabalho na máquina do tempo
Da vida faço um segundo, moribundo,
Vou daqui a Belém, num momento.

Procuro em vão, onde estão?
Nas casas dos homens não.

Tropeço nas estrelas, desisto ou não?
Eis quando senão, surge, nasce
No lugar daqueles que habitam
em palhas e não são, mais que amigos
do homem que, então
O deixa ali, deitado, coitado
Como se não fosse deste mundo
Que num segundo, moribundo,
Me traz de volta na máquina do tempo.
Venho de lá num momento.

E não volto, porque aqui tenho Belém
O Menino Jesus e Sua Mãe

sexta-feira, dezembro 12, 2014

novo dia novo [poema 36]

Dá-me um dia novo
Que a manhã seja o dia todo
Que o entardecer seja novo início
Que o paraíso seja um mero
Que a eternidade seja um eterno hoje
Que a esperança seja sempre ontem
Que a alegria seja tudo em ser
Que o conjunto não seja justapor
Que o Nós seja a habitação
Que eu precise que nada mais precise

Dá-me um dia novo
Um dia que comece e acabe em Ti
Um dia que comece e nunca acabe

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Maria e o Faça-se em mim

Há ruídos lá fora. Ouça carros a passar e vozes misturadas. Mas não as consigo definir. Parecem apenas melodias da realidade. Eu estou aqui dentro com Maria. Sim, com Maria na passagem que diz “Faça-se em mim a Tua vontade”. Parei nela. Estacionei ali. Por isso estou em silêncio, mas não sem palavras. Não sei como Maria teve essa coragem! Não é apenas um desejo. O desejo de que Deus faça alguma coisa. É abertura. Abertura total para que Deus entre e me preencha todo. Não é vontade de que algo aconteça, com o risco do acontecer que é efémero. Agora acontece e depois deixou de ser no mesmo instante em que deixou de acontecer. É a disponibilidade para que seja, para que Deus seja em mim. Maria tinha essa disponibilidade, que não era apenas para ser instrumento. Era disponibilidade de vida. A minha vida é Tua, como eu quero que a Tua esteja em mim. Por isso este Sim é a fé. Por isso a fé nos faz felizes porque se trata de amor. Por isso quero ser padre. Por isso o silêncio em mim faz mais do que o ruído lá fora.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

O baptizado social da Sara

À saída da igreja estavam dois palhaços, ou melhor, duas pessoas vestidas de palhaços, com um boquet de balões cheios de hélio, um de cada lado da porta. Dentro estavam cerca de sessenta manequins, ou melhor, pessoas bem vestidas e aperaltadas, num entra e sai, num fala e comenta, num cumprimenta e sorri. Tratava-se afinal do baptizado social da Sara. Tinham escolhido o Sábado à tarde para que os convidados regressassem a suas casas sem sobressaltos. De facto, depois das três horas da manhã, com algumas bebidas bebidas, o regresso pode ter sobressaltos. A festa foi muito linda. Foi mesmo. E não quero ajuizar. Retirem as frases em que falo de palhaços e manequins. Fixem-se apenas no sacramento. Sim, para o baptizado que os levara a tamanha celebração com palhaços, balões, comes e bebes até altas horas, animação musical pimba para dançar e arranjar mais apetite para voltar a comer e beber. Fixem-se no sacramento. O baptizado social da Sara faz parte dos sacramentos que hoje a sociedade, através da Igreja, oferece a pessoas bem intencionadas mas com uma ideia errada acerca da fé e dos sacramentos. Que vêem a fé como uma cultura e os sacramentos como um acto social.

quarta-feira, dezembro 03, 2014

O advento é um tempo de “espera”

Aqui para os meus lados diz-se que se vai fazer uma espera quando, às escondidas ou às escuras, se vai preparar o assalto a alguém. Faz-se-lhe uma espera para lhe dar uma coça ou para lhe sacar alguma coisa. Não sei que possamos sacar ou sovar no advento. Mas sei que o advento é um tempo de espera.
Ó padre, não era melhor dizermos esperança e evitávamos assim essas confusões de que está a falar? perguntou a Maria João no meio da reunião de catequistas. Ó Maria João, a esperança pode ficar-se naquela de ansiar algo, de esperar ou confiar que aconteça algo, mas não no agora que tem a certeza do acontecer e que começa já a acontecer. A espera é um já acontecer agora. A esperança pode deixar-nos confortáveis e passivos esperando. A espera exige de nós uma acção já e contínua. Ui, padre, está cá com umas filosofias! Explique-se melhor.
Para entenderdes melhor, permiti que vos fale do que se espera. De uma forma muito superficial, todos os anos dizemos que esperamos o nascimento do menino Deus. Dizemos que esperamos o Natal, e na verdade os muitos adventos de cada ano, às vezes, não são mais do que um esperar o Natal. Devia antes ser a espera de um Deus que teima em vir ao nosso encontro, ao encontro da nossa intimidade. É mais que esperar um Natal. É esperar que Deus aconteça no meu interior. Por isso não é uma espera fácil. É uma espera dura e dolorosa. Porque Ele não vem para nos facilitar a vida. Vem para a felicitar. Para lhe dar sentido pleno. E por isso exige, e por isso dói. E por isso faz-nos fazer a acção de esperar para que vá acontecendo e para que seja já. E por isso exige que me desacomode. Que não espere acomodado, passivo. Advento aliás é a resposta litúrgica (espero não dizer uma asneira litúrgica, que eu não sou propriamente liturgista, mas digo-o na mesma) para um tempo inteiro que se quer que seja uma vida inteira. A espera que recordamos no advento é uma espera de toda a vida. Como uma noiva espera seu noivo para a festa e se banha, maquilha, prepara as palavras e os olhares, perfuma-se, torna a maquilhar-se, veste o melhor vestido, prepara uma surpresa, penteia-se e torna a compor o cabelo, sorri, anda de um lado ao outro amando já, mesmo sem que o noivo tenha chegado e esteja ainda à porta…

domingo, novembro 30, 2014

Eu desejo que em 2015, os padres sejam mais...

Desde o dia 6 de Junho que esteve online uma série de sondagens relacionada com as características ou virtudes que gostaríamos de ver mais nos sacerdotes de hoje. Fizémos um total de 7 sondagens, com resultados muito interessantes. Recordo que, como se costuma dizer, "valem o que valem", isto é, valem apenas como apontamento, pois as sondagens têm determinadas fragilidades que não se conseguem propriamente contornar. Porém, as principais escolhas, de alguma forma, são bastante sintomáticas:  "autenticos", "acolhedores", "simples", “pastores”, “evangelizadores”, "íntegros" e na última "homens de fé". A mim pessoalmente ofereceu-me muito material para reflectir. Gostava muito que agora, neste post, deixassem a vossa análise a estes resultados.
Ainda publicamos os resultados da última sondagem. Entretanto deixem-me usar pela última vez esta saga para aquilo que chamo uma segunda parte e que reune as opções mais votadas, junto com aquelas 3 que obtiveram melhores segundo lugares (com critérios de próximidade e de dispersão ou não de votos), num total de 10 opções, e façam agora a vossa escolha final. Para mim as 7 sondagens anteriores chegavam. Mas, até ao final do ano, e quase como um desejo para 2015, vamos ainda reflectir um pouco mais.
 

quinta-feira, novembro 27, 2014

asas [poema 35]

E voar nas asas do céu
Abrir as celas uma a uma
Soltar os pássaros que há em mim
Gritar aos anjos da guarda, sou eu,
Não me afastem do céu
Pois quero as asas de Deus

terça-feira, novembro 25, 2014

Que faço aqui?

Que faço aqui? Faço esta pergunta imensas vezes. Tantas quantas não entendo que faço aqui. Ou o que me queres, Senhor, aqui? Ou o que esperas de mim aqui? Ou o que me pedes aqui? E quando vou de aqui para ali, a pergunta vem atrás como uma sombra ou uma perseguição doentia. Sei que pretendes alguma coisa. Sei até aquilo da salvação. Sei que sabendo-o Tu, eu não precisava saber. Sei que queres que eu esteja aqui. Ou penso que queres. Sei pequenas coisas que penso que faço aqui. Mas nunca sei deveras que faço aqui. E quando penso que há tanta gente que pensa que os padres, que escolheram ser padres, devem saber tudo o que Deus quer deles, como se tivessem uma ligação telefónica ao céu, como se não fossem como os restantes humanos criados e com perguntas, dou por mim a perguntar de novo Que faço aqui? E depois chego a pensar que no dia em que deixar de perguntar que faço aqui, nesse dia já não faço nada aqui.

segunda-feira, novembro 24, 2014