quinta-feira, janeiro 23, 2020

A sociedade irritada III

Na sociedade em que vivemos proclama-se a liberdade como a máxima das máximas. Liberdade de expressão. Liberdade de entendimento. Liberdade religiosa. Liberdade sexual. Liberdade de tudo. Mesmo que, mais do que nunca, as pessoas estejam presas em si mesmas. Amarradas a estereótipos de moda. A minorias e discursos de identidades minoritárias. É uma sociedade homogénea, cada vez mais heterogénea. Ou heterogénea cada vez mais homogénea. Uma sociedade onde tudo é possível, mas onde nada é possível. Onde tudo se aceita, mas nada se aceita. Uma sociedade que propõe e quer aceitar a diferença. Mas que nunca foi tão indiferente. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A sociedade irritada I" e "A sociedade irritada II"

segunda-feira, janeiro 20, 2020

A Bíblia é Deus a falar connosco

Iniciámos um encontro sobre a Bíblia, onde estavam presentes alguns pais e algumas crianças da catequese, com a pergunta simples, directa e básica: O que é a Bíblia? E um miudito levantou o dedo, para responder que era um livro que nos falava de Deus. Disse-o com o sorriso matreiro de quem tinha aprendido bem a doutrina, de quem estava atento na catequese, de quem queria deixar orgulhosos os pais que também o escutavam. E tinha alguma razão o miúdo. 
Lida como um romance, ainda que meio abstracto, a Bíblia fala-nos de Deus, da sua mais ou menos história entre os homens ou com eles. Mas é muito mais que isso. Depois de aproveitar a sabedoria das suas palavras, respondi que não nos falava de Deus, somente ou propriamente, mas que era Deus a falar connosco.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As inutilidades das nossas Bíblias"

quarta-feira, janeiro 15, 2020

conversas de outros mundos

Era uma conversa que escutava ao longe, como quem não quer entrar na conversa, mas está lá em silêncio. Era uma conversa fiada, mas que não era bem fiada. Era uma conversa entre dois padres amigos, mais ou menos da minha idade. Aquela idade em que se começa a olhar mais para o passado que para o futuro, mais para o que não fizemos que para o que ainda poderíamos fazer. Dizia um. Cada vez que olho para os casados da minha idade, alguns que andaram na escola comigo, a passear com os seus filhos, fico a pensar. A ti nunca te acontece? O outro respondeu que não. Que não tinha pensado muito nisso. Na verdade, talvez um pouco. Mas pouco. O primeiro continuou. Já imaginaste quem vai cuidar de ti quando estiveres velhote, doente, incapacitado? E o outro respondeu na mesma linha. Também ainda não tinha pensado muito nisso. Dizia que não tinha muito tempo para pensar neste tipo de coisas. Ok, acrescentou o outro. E ficou por ali a conversa.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Fez-me só parar o carro"

sexta-feira, janeiro 10, 2020

Vivemos para morrer.

Iniciei assim a homilia. Vivemos para morrer. Disse-o, convencido de ser uma enorme verdade de vida. Nascemos para viver e vivemos para morrer. Para chegar a esse momento, do qual ninguém escapa. Ricos ou pobres. Mais capacitados ou mais desajeitados. Todos. Todos vivemos para morrer. Na verdade, o sentido da vida começa quando encontramos o sentido da morte. Se não o encontramos, vivemos a morrer por dentro até que ocorra a morte. A nossa vida deixa de ser vida para estar morta. Porque temos medo e ansiedade, o que nos mata interiormente e não nos deixa viver em pleno este dom maravilhoso que nos foi dado, a vida. Não há pior morte que a de estar vivo, mas morto por dentro. Vivendo sem sentido de viver. Não obstante, vivemos para morrer. Para passar pela morte. Que é apenas mais um momento, embora nos pareça o fim dos momentos. 
Eu acho que não tenho medo de morrer. Digo Acho para não parecer exagerado. Ou muito seguro de mim. Que não sou assim tanto. Imagino-me a conversar comigo dizendo estas coisas e a ver como reage o meu rosto. Para ver se é verdadeiro ao falar de uma coisa que custa tanto falar. Claro que tenho o instinto natural da sobrevivência. Sofro quando algo me afecta na saúde. Quando vejo dor e sofrimento. Quando me deparo com a morte, sobretudo dos que mais amo. Quando vejo o tempo passar e não voltar. Quando vejo as capacidades a desparecer-me por entre os dedos, mesmo quando os fecho na mão, tentando agarrá-las. Mas acho que não tenho medo da morte. Porque estou convencido que a morte é apenas a plenitude da vida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É a vida"

quarta-feira, janeiro 08, 2020

tenho quase a certeza que te vi [poema 241]

Numa noite tão alta como o céu
Eu vi o silêncio como uma visão

De facto,
O silêncio parece-se com o não ser
Mas só parece, porque também é
Na contradição do que, de facto, não é

Sobretudo, vi-te no silêncio,
Como silêncio em mim
Que não se calou

Tão alto como sendo uma visão
Do céu

sábado, janeiro 04, 2020

O menino Jesus sem casa

A criança berrava e chorava compulsivamente. Ouvia-se a sua tão profunda tristeza nas lágrimas que lhe inundavam as faces. Estava a passear de mão dada com a mãe que lhe prometera uma visita ao presépio. Ao presépio grande da comunidade. Um presépio de rua feito com madeira e palha, à boa maneira antiga. Muito lindo, por sinal, com uma cabana toda iluminada e que albergava a sagrada família, o anjo, o burrinho e vaquinha. Mas o temporal dos dias de Natal fizera das suas. O vendaval deitara abaixo tanto a cabana como as figuras do presépio. E se estas não tardaram em ser levantadas, o mesmo já não foi possível com a cabana que ficara um monte de destroços. Deixara de ser uma cabana para ser um monte de lenha para queimar. Ora, a criança, nos seus cinco anitos, berrava e chorava compulsivamente, porque, como ela dizia em palavras inacabadas, à maneira da sua idade, o menino Jesus já não tinha casa onde morar. Devia estar cheio de frio. Queria levá-lo para sua casa. E pedia à mãe que fizesse alguma coisa. Que ao menos a deixasse pegar no menino e emprestar-lhe o casaco ou o gorro. E chorava. E berrava. Porque Jesus, sem ela saber, morava no seu pequenito coração.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Estamos nas mãos de Deus"

quarta-feira, janeiro 01, 2020

escrever por escrever [poema 240]

Guardo a escrita para mim
Digo-a para a ler
Para ela se guardar
Para a reter

E é tudo em mim o que sou
Ou desejo, para ser

Espelho em mim
Do meu viver

domingo, dezembro 29, 2019

Este é o tempo da desgraça ou da graça?

Sem querer, juntáramo-nos, na mesma mesa, e começámos a falar sobre a Igreja dos nossos tempos, uma Igreja que está sendo questionada no mais fundo da sua vocação, identidade e missão, ou seja, para o que ela existe como mandato deixado por Cristo, segundo o evangelho de S. Marcos: “Ide por todo o mundo, e anunciai a Boa Nova a toda a criatura”. Era um leigo comprometido, interessado, reflexivo. O que afirmava, afirmava-o porque já tinha pensado nisso. Porque já se tinha perguntado, muitas vezes, tal como eu, sobre a Igreja dos nossos tempos. E a determinada altura disse. Vivemos em tempos de desgraça. Na verdade, eu também já tirara a mesma conclusão. Também eu tivera este tipo de pensamento. Não me conformo muito, como já manifestei, com a forma de ser da Igreja hoje. Mas, aos poucos, no meio do nosso diálogo, comecei a pensar que, afinal este tempo, pode ser, muito bem, um tempo de graça. Já ultrapassámos aquela fase, aquele tempo da Igreja em que, aqui no Ocidente, quase se nascia cristão. Já lá vai o tempo em que não questionávamos a nossa fé. Não questionávamos o que o Magistério da Igreja dizia. Não nos interessava se o padre era assim ou assado. Aceitávamos tudo como se essa forma de aceitar fosse um dado adquirido. No meio de tantas crises, que alguns chamam crises de Deus, da Igreja, da Fé e da própria sociedade, deparamo-nos, afinal, com a oportunidade de ir ao centro da questão. A oportunidade de nos recentrarmos no essencial. A oportunidade de reencontrarmos a verdadeira Igreja de Cristo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A irmã Graça"

Desejo a todos os meus amigos e visitantes um ano de 2020 cheio de Deus!

terça-feira, dezembro 24, 2019

O menino que nasce no meio da porcaria

Atenção que eu li um título parecido há tempos e isso livra-me da autoria moral deste título. Mais, sou a informar que há certas palavras que são muito mais difíceis de dizer ou escrever que de ler. Eu tinha pensado, inclusive, numa palavra mais directa, mas não consegui usá-la. Portanto, não se assustem por eu, hoje, fazer questão de lembrar que Jesus nasceu numa gruta cheia de dejectos de animais e maus cheiros (por causa dos dejectos dos animais), uma gruta muito pobre, uma espécie de estábulo, algo mais para animais que para pessoas. Ou seja, naquele tipo de condições que nós costumamos dizer que não são condições humanas para nascer. Não, não havia enfermeiras ou parteiras. Nem empregados ou exércitos para guardar tão ilustre nascimento. Também não havia ar condicionado ou climatização solar. Estava rodeado de animais e, provavelmente, foram eles que o aclimataram. Recordo-vos que nem sequer era bem-vindo por parte de alguns, sobretudo alguns dos mais poderosos do tempo. Basta recordar o massacre dos inocentes a mando do rei Herodes como tentativa de acabar com a vida do protagonista desta história. 
A história de Natal que contamos nestas alturas do ano faz lembrar histórias como o capuchinho vermelho ou a bela adormecida. Mesmo quando excluímos dela a figura do Pai Natal e o comércio à volta dele, a nossa narrativa de Natal parece um conto de fadas. Até as estrelinhas brilham mais. Até os anjinhos aparecem para cantar. Tudo é tão belo e bom, que até se esquece a realidade em que Deus encarnou. Ou porque encarnou. E que ama muito os homens, ao ponto de se associar, desde o primeiro momento da sua encarnação, ao que mais sofre, ao mais desprotegido, ao mais necessitado. E que quer mostrar a sua omnipotência, não no poder e na riqueza, mas no amor. E que veio ao mundo para dar mais sentido ao mundo, mesmo que pareça não fazer sentido. E que Deus é Emanuel, isto é, Deus connosco. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "E o Menino fica esquecido entre as palhas de um presépio pequenino por debaixo de uma árvore grande enfeitada"

Aproveito para vos desejar um Santo Natal e um Feliz Ano Novo: Que Ele seja a certeza no meio das nossas incertezas!

domingo, dezembro 22, 2019

Quando pensas no Natal, o que é que, honestamente, te lembras em primeiro lugar?

Em Agosto deste ano perguntávamos "Na tua opinião, hoje a sociedade em geral é favorável à Igreja em particular?" e obtivémos os resultados que a seguir se apresentam, mas dos quais gostaria de realçar que quase 49% acha que a sociedade é pouco favorável e outros 49%, em conjunto, é de opinião que a sociedade não é nada favorável ou é mesmo contrária. Dá que pensar, não dá?


Hoje colocamos nova sondagem online, a propósito do Natal, e encetamos uma pergunta que gostaríamos de ver respondida com honestidade: Quando pensas no Natal, o que é que, honestamente, te lembras em primeiro lugar?