quarta-feira, maio 20, 2015

Cão de esmola [poema 57]

Cão de esmola e de trela
Às pernas do dono pedinte
Migalha é pérola, é ela,
Dona de ti, mais de vinte

Dono que sejas deves querer
Que pérola seja pão de viver

sexta-feira, maio 15, 2015

Falar de Deus e com Deus

Parece-me que as nossas liturgias, as nossas pregações, as nossas orações estão cheias de palavras tão feitas, tão clericais, tão eruditas, tão bem compostas, mas tão pouco nossas. Falamos de Deus e com Deus como se não estivesse ao nosso lado como estamos ao lado uns dos outros. Usamos as palavras sem as tornar nossas. Falamos com a boca, às vezes com a inteligência, mas pouco deixamos que fale o coração, que é quem melhor sabe usar as palavras.

terça-feira, maio 12, 2015

espelho [poema 56]

Olhar-me na água e encontrar-me, espelho
De ti não sou nada, mas sou
Água da alvorada, ao final da tarde
Obra criada, ferida, calcada, porém
Beleza de quem cria pelo maior bem.

sábado, maio 09, 2015

Clericalidade da Igreja

O padre disse isto. O padre fez aquilo. O padre quer assim. Falo da minha paróquia e penso no meu padre. E quando penso na igreja penso nos padres. E quando falo mal da igreja falo dos padres. E a Igreja deve mudar, isto é, os padres devem mudá-la. Ainda por cima são cada vez menos. E os padres pensam o mesmo. Os padres pensamos que pensamos diferente, mas ainda vemos a igreja a partir dos padres. Os padres pregamos a Igreja a dizer que somos todos, mas no subconsciente vivemos a igreja como se fossem os padres. Caímos no risco, e palermice, de olhar os outros fiéis a partir de nós. De lhes dar espaço, mas somos nós que o damos. De lhes conceder ministérios, mas à volta do nosso ministério. E, sem querer, caímos no poder de sermos condutores de uma barca que é de Jesus e que está cheia de imensas pessoas, das quais só um pequeníssimo número é padre. E às vezes até parece que indicamos o caminho, mas não caminhamos. Às vezes esquecemos que fazemos parte da igreja que é tão grande e nós somos tão pequeninos. E quem fala dos padres, pode falar dos bispos, e até do Papa. A cabeça da Igreja é Cristo, do qual todos nós somos corpo.

quinta-feira, maio 07, 2015

ando [poema 55]

Vou ao lado e não conduzo
Fico atrás, sempre para trás
O mudo vê e o cego fala
Ando um pouco acima, do degrau
Planando como ave, rara
Que não conta e não se vê
Tão só numa asa

terça-feira, maio 05, 2015

Pão da Vida [poema 54]

Tragas-me no meio do silêncio
Doce paladar que amarga e dói
Ázimo sem sal que necessito
Tão doce
E dói

sexta-feira, maio 01, 2015

sementeira [poema 53]

Semeia-se nos campos o vento
Fruto lhe nasce a tempestade
O barqueiro não chega, soprou
Outros ventos nasceram ali
Cobre-se a terra, ela amainou
O barqueiro chega, não mais voltou

quarta-feira, abril 29, 2015

novelo emaranhado

Entrego-te este novelo, Senhor, este novelo emaranhado, atado e desatado, sem pontas que eu veja, com muitos nós, com um peso que não sei medir. Um novelo que desenhei sem querer ou por mau querer. Preciso que o carregues, nem que seja em cima ou preso à Tua cruz. Sei que ela já está carregada de tantos novelos assim. Sei que te peço muito, que te carrego muito. Mas para Ti, Senhor, um novelo é só mais um novelo, e este é o meu, o novelo. Em Ti está mais seguro. Tu, que tudo podes, faz dele um caminho para chegar mais a Ti, como aquelas crianças que, para não se perderem, prendem uma ponta do novelo a um local e vão fazendo o caminho seguro porque sabem que há um novelo que nos faz voltar atrás se necessário. Tu, que tudo podes transformar, carrega este novelo durante o tempo necessário para que quando ele me for devolvido, seja apenas um pequeno novelo, mais leve, com menos nós, bem atado, menos emaranhado, sem pontas soltas.

segunda-feira, abril 27, 2015

A Olímpia e o milagre da vida

Já em tempos contei como era a dona Olímpia. O seu coração puro via em tudo algo de bom. Uma maneira de ver que eu cuido muito parecida à de Deus.
Hoje a Olímpia vai a sepultar depois de dois ou três anos a sofrer com um cancro e a sofrer por não poder fazer mais pelos outros, como era seu costume, numa simplicidade que fazia questão de sublinhar, Porque eu não sei nada, senhor padre, não sei dizer as coisas, não valho nada, mas amo muito a Deus. Uma dádiva de toda uma vida em favor dos outros. Por isso tomara conta de pessoas em sua casa que não lhe eram de sangue. Gente difícil, gente que precisava de um cuidado tão bonito como o que Olímpia era capaz de por em prática. Foi a primeira pessoa que me abriu as portas de sua casa quando cheguei a estas paróquias. Até se dar o processo da doença, todos os sábados comia em família. Sim, porque me haviam recebido como família. Era assim a Olímpia. Recebia todos no seu coração como se fizessem parte dele e do sangue que ele tinha a palpitar.
No período da doença tivemos oportunidade de conversar bastas vezes. Sempre aprendi com ela como se vive com fé o sofrimento, como se encara a dor com o amor de Deus. Mas numa das últimas vezes foi-me dada a graça de ouvir-lhe algo sobre a morte, que ela encarava de forma sublime e natural, e que não vou mais esquecer. Senhor padre, o maior milagre da vida é a morte!
E a dona Olímpia, que afirmava não saber dizer as coisas, ensinou-me de forma convicta uma verdade teológica que só os doutores da fé conseguem afirmar, que só os santos dizem de forma tão sábia. De facto, quem acredita na ressurreição e no caminho que nos é dado fazer aqui na terra, sabe que a morte é apenas a expressão máxima da vida.
Obrigada, amiga Olímpia, pelo dom tão grande da tua vida. Junto com a minha mãe, olha por nós do céu.

sábado, abril 25, 2015

rosas sem querer [poema 52]

Ontem é melhor que hoje não estou
Milagres são rosas sem saber
As pérolas no meu pescoço, vou
Veio a noite silenciosa bater

Além no além alguém vem também
Namorar com as rosas sem querer
São espinhos, não são rosas, sou
Dono do meu não viver.