sábado, outubro 20, 2018

as minhas aves [poema 194]

Amanhã é um novo dia, para dar de beber às aves, sentadas em meu regaço, 
Comprei literalmente, por um vintém que não sei, um fontanário para elas 
Em troca, doei a vida para que a água se debicasse, se bebesse, se afogasse 
As aves esvoaçaram até à fonte, detiveram-se à minha beira, no beirado, 
Como um beirado de uma casa que não têm, ali pousaram em desassossego.
Encharquei a mão de água, imensa água em acanhada mão, com mágoa 
A água desapareceu entre os dedos, e ali quedaram pequenas lágrimas,
Afinal a àgua da fonte são as minhas lágrimas, e as aves vão e voltam
São minhas como beirado, pousam no meu regaço que é um regato
em lágrimas que nasceram na fonte que é água a viver um dia sem fim... 


quinta-feira, outubro 18, 2018

Tenho-te dito

Estava aqui a remexer papeis onde, por ocasião dos meus retiros, anoto alguns pensamentos, ou momentos que, de me tocarem, me levam a escrever. Num desses papéis encontrei um desabafo que escrevi num desses momentos. Já lá vão uns cinco anos. Escrevia assim. 
Estou de retiro. Ou devia estar. Venho, por meus pés, olhar-te na hóstia que depuseram na custódia. Faz sentido que cumpra os horários do retiro. Por isso estou aqui por meus pés, que é como quem diz, por minha própria vontade, embora esta vontade tenha surgido do horário. Há um silêncio à minha volta. Não o há dentro de mim. Queria ter alguma coisa para te falar. Uma conversa. Mas estou vazío. Alguém um dia disse que era preciso uma pessoa esvaziar-se para falar contigo. Contudo, para ser sincero, o meu vazío não me deixa espaço para conversas. Insisto que quero falar contigo, mas não consigo. Será isto um falar-te? Ocorre-me rezar o Pai Nosso, para facilitar as coisas. Mas fico nas duas primeiras palavras. As outras não me saem. Levanto os olhos do papel para te olhar de longe. Estás mesmo aí? O meu ar desconfiado, que não quer sê-lo, está aqui. Penso nos meus paroquianos, porque acho que tenho de pensar em alguma coisa. Quer-me parecer que, por mais que insista, hoje não consigo dizer-te senão que não consigo. 
Tenho-te dito.

sábado, outubro 13, 2018

O frade dorminhoco

São seis horas da madrugada. Depois da liturgia das horas, das laudes, entregamo-nos, numa hora, à meditação. Tem sido assim todos os dias, tanto de manhã como ao findar da tarde. E um dos frades mais velhos que está na comunidade do mosteiro, mal se apagam a maioria das luzes, senta-se num pequeno banco, de joelhos, e o sono cai sobre ele. É engraçado que pende sempre para o seu lado direito. Sempre para o mesmo lado. Como se esse lado o segurasse no tempo. 
A princípio, chamou-me a atenção pelo caricato da situação. Sorria com alguma pena, evitando que, ao meu redor, se apercebessem. Depois fui intuindo que, se calhar, seria uma doença. Deixei de sorrir, mas não deixei de alimentar a pena. Só aos poucos, com o tempo, fui descobrindo que aquele estar poderia muito bem falar da sua intimidade com Deus. Fui descobrindo que aquele frade dorminhoco aproveitava, em cada meditação, para dormir no colo de Deus. Deixava-se embalar nos braços de Deus, como a criança se entrega ao colo da mãe. É no colo da mãe que uma criança mais se sente confortável, segura, confiante, feliz. Não existe maior amor de filho do que aquele que se entrega ao amor de alguém que nos dá a vida, faz viver, ajuda a caminhar, e nos enche de amor. E assim percebi que o frade dorminhoco se entregava a Deus, na sua meditação, muito mais que eu. Eu ainda não aprendera a adormecer no colo de Deus.

quarta-feira, outubro 10, 2018

Noite escura

Desengane-se quem pensa que o recolhimento de um retiro serve a necessidade de paz e tranquilidade. É isso que muitos de nós buscamos num retiro espiritual, num encontro de oração, numa celebração comunitária da fé. Desengane-se quem pensa que uma experiência de encontro com Deus nos traz a paz que ansiamos diariamente e que parece longe de alcançar nas correrias diárias da vida. Um verdadeiro encontro com Deus faz-nos encontrar connosco próprios, com a nossa essência e, portanto, com as nossas misérias, ansiedades, erros e pecados, o que S. João da Cruz chama de “noite escura”. 
O que pode fazer esse encontro com Deus é garantir que Deus nos ama. A experiência de encontro com Deus o que pode operar em nós é o sentirmo-nos amados por Deus. Quando alguém ama e se encontra com a pessoa amada, não deixa de ser quem é, não deixa as suas fragilidades de lado. Ama com tudo o que é. Mas é nesse amor que ganha as forças para viver.

domingo, outubro 07, 2018

Meu pai e minha mãe

Quando somos crianças, dependemos completamente do amor dos nossos pais. É esse amor que nos cria para a vida, para a educação, para a fé, ou seja, para ser quem somos. É a lei natural da vida e da fé. Com o tempo vamo-nos tornando autónomos e vamos construindo a nossa independência. Vamos conseguindo ser para além do cordão umbilical que temos com os nossos pais. Gosto de pensar que a ligação que temos aos nossos pais nunca corta de modo completo o nosso cordão umbilical. Mas a lei da vida é esta. E com o tempo, os cortes que este cordão vai sofrendo, traz-nos novos modos de sobreviver, de viver e de sentir. 
Hoje faz dezassete anos que a minha mãe faleceu. Não podia esquecer esta data. Muito menos quando a situação de saúde do meu pai está desajustada ao meu desejo. Por mais que eu quisesse que a minha mãe aqui estivesse e o meu pai estivesse completamente bem, isso não é possível. É a lei da vida. Mas a impotência e a dor são tão grandes que, por mais que façamos, continuamos impotentes e a sofrer. É a lei da vida. Repito insistentemente que é a lei da vida para me confortar. É a vida que Deus criou para vivermos. Não há volta a dar. Por isso é que me parece que devíamos gastar a nossa vida com o que ela tem de melhor e mais bonito, com o que ela tem de mais essencial e importante, o amor. 
Hoje vou visitar meu pai e vou amá-lo freneticamente. Hoje vou abraçar minha mãe nos meus pensamentos e vou amá-la freneticamente. Não sei amar meu pai e minha mãe senão deste modo, estejam eles fisicamente aqui ou não, estejam eles fisicamente bem ou não. Que interessa se eles não podem estar! O que interessa é que eu estou… aqui, para os continuar a amar e a religar nosso cordão umbilical.

sábado, outubro 06, 2018

Esse amor maior que não se consegue dizer

Habita-me, Senhor. Habita-me, Senhor. Foi a repetir esta frase que passei grande parte da minha hora de contemplação esta tarde. Havia um ponto de luz na capela, voltado para um ícone da Santíssima Trindade. Não havia mais luz. Estávamos naquele silêncio umas doze pessoas, entre frades, sacerdotes e leigos. 
Sentara-me numa cadeira pouco confortável, com os pés descalços, e as mãos abertas, repousadas sobre as pernas e voltadas para cima, na esperança de acolher o que viesse do céu. De vez em quando fazia como vira os judeus fazer diante do muro das lamentações, numa peregrinação à Terra Santa. Com eles aprendi que, para não me distrair, podia balancear meu corpo. Nunca experimentara este modo de orar, mas esta tarde fi-lo, na esperança que afastasse de mim as distrações. Todo eu esperava que o Senhor se manifestasse durante aquela hora de íntima oração. Não senti nada de especial. Não houve nenhum êxtase. Não houve nenhuma levitação. Não houve estrelinhas a sobressair por entre as minhas pálpebras. Eu pedia insistentemente a Deus que me habitasse, que eu fosse seu habitáculo, que se fizesse sentir como o sangue a correr-me nas veias. Não sei bem o que senti. Muito menos explicar. O que sei é que aquela hora me pareceu muito pequenina. Prolongava-a com vontade por mais uns largos minutos. Não consigo, de todo, definir o que sentia. Creio que as palavras humanas, para se dizerem, se socorrem de símbolos, de coisas que conseguimos descrever. Mas há momentos que não se conseguem dizer, e este foi um deles. O que posso afirmar é que me apetecia ficar por ali, a descobrir esse amor maior em mim.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Antes de me recolher neste retiro

Antes de me ausentar, disse aos meus paroquianos, no final da missa, que ia recolher-me num mosteiro, para me encontrar com Deus. Eu bem sei que Deus está em todo o lado, ao nosso alcance, mas precisava de um espaço para me encontrar com Ele. O mosteiro recebeu-me de braços abertos. Era escuro quando cheguei e tudo me pareceu enorme. Enorme demais para mim. As pedras contavam histórias de quem já por aqui passara com os mesmos desejos e vontades que eu. São pedras gastas de histórias. O meu quarto tem apenas o essencial para que eu possa estar nele. Não há rede fixa ou móvel. Não há senão a sensação de que não há nada para além de mim. Mesmo quando ouço um ruído na floresta em redor. Ou no quarto alguma mola da cama se remexe. Ou num quarto ao lado se ouvem passos que desconheço. 
Eu dissera aos meus paroquianos que precisava encontrar-me com Deus. E agora, no meio de uma gargalhada, apercebi-me do erro das minhas palavras. Deus já lá está. Ele já está comigo há muito tempo. Desde que me desejou, ainda antes do seio de minha mãe. Ele está comigo. Ele vai comigo para todo o lado. Nós é que nem sempre damos conta disso, porque demasiado ocupados em nós mesmos. O que nos falta é a consciência desse seu estar. E só tomamos consciência disso quando entramos em nós, no mais profundo de nós. Naquilo que muitos chamam alma e eu prefiro chamar de mim mesmo. Aquele íntimo que diz mais do que parecemos, que diz o perfume do que somos feitos, a beleza que se esconde por detrás da aparência, a certeza de que se existe por algo maior. Afinal, encontrar-me com Deus é entrar na minha intimidade. É lá que a consciência da sua presença se define.

terça-feira, outubro 02, 2018

escrever sobre o início do meu retiro

Sinto o vento a bater forte contra as árvores, empurrando-as para eu ouvir os seus gemidos. Sinto a água a correr na fonte, aqui ao lado da janela onde me encontro, num quarto do meu tamanho, pequeno, como se fosse um regato do rio a calcorrear caminhos, batendo nas rochas ou pequenas pedras de uma matéria que não sei. É um som métrico, ritmado, Vai entrando no meu coração sem eu me aperceber. Ouve-se um que outro pássaro por entre o som da água e do vento. Espreito lá para fora. Está tudo igual ao dia. Ao dia do vai e vem da vida. Mas é tudo diferente. Tudo fala de forma diferente. Tudo é sol, mesmo que tenha descido a temperatura. Tudo parece entrar por mim a dentro de uma forma medida, serena, consciente. Nada parece correr por mim a dentro. Nada parece correr como quando, à minha secretária, repito pensamentos sobre os meus afazeres, sobre as minhas preocupações, sobre as minhas dores, sobre os pesos que a vida vai trazendo, pequenos ou grandes, e a correr me sufocam. Hoje essas coisas acalmaram. Estão lá. Não desapareceram. Continuam a ocupar os mesmos espaços da minha vida e do meu ser. Mas hoje o vento é mais forte, a água é mais intensa, o silêncio, que me começa a habitar, fala mais para mim. Hoje é tempo de me deixar encontrar por Deus.

sexta-feira, setembro 28, 2018

O que é fazer tudo

Está mais que provado que hoje as pessoas pouco querem com Deus, com a Igreja, com os padres ou com a fé. Contudo, persistem em querer realizar as festas do baptismo, primeira comunhão e Crisma. Sobretudo estas. Dizem que, tendo-as feito, fizeram “tudo”, como se esse tudo fosse a garantia de serem cristãos. Segundo estes, quem vai à missa são as beatas. E quando algum jovem vai à missa, é apontado como anjinho, santinho ou parecido. Não está na moda ir à missa. A Catequese serve, na generalidade, para que se habilitem as crianças e jovens e fazer estas festas. É comum ouvir pais afirmarem que, porque eles fizeram tudo, também querem que os filhos façam tudo. O tal “tudo”. É comum que, embora honestamente, alguns dos catequisandos respondam que o objectivo deles ao participar na Catequese, é poder fazer o Crisma. Depois dele, como se sabe, já não querem nada com Deus, ser do qual foram questionando a existência, mas não o expressaram para evitar não fazer o Crisma. Depois vêm os funerais e as festas populares, acções que manifestam, de forma clara, que a Igreja tem servido, quase exclusivamente, para cumprir sacramentos, sacramentais e festas religiosas populares. E a nós, padres, pedem-nos que sejamos funcionários destas coisas todas. Aquele tipo de empregado que deve estar ali no território que chamamos paróquia, para quando se precisa de alguma destas coisas. Nem formação, nem evangelização, nem entusiasmos, nem dinamismos ou estratégias, têm conseguido inverter a situação. Bem reflectem os peritos pastorais, mas a coisa teima em ser difícil. No meio disto tudo, valha-nos ao menos que, graças a Deus, ainda vai havendo quem não desista de Deus ou da Igreja e precise verdadeiramente da missão dos padres. Ainda assim, como podem resistir as vocações sacerdotais ou como podem surgir vocações ao sacerdócio?

segunda-feira, setembro 24, 2018

Beatas, ratas de sacristia, ou santas

Há quem lhes chame beatas do padre, ratas de sacristia, e por aí fora. Nomes que se ouvem por todas as paróquias e que, às vezes, até a nós, padres, nos ocorre repetir. Mas são aquelas mulheres que sustentam a paróquia com a sua oração, todos os dias, à mesma hora, na Igreja. Guardam essa hora para estar com Ele e para rezar por todas as necessidades, por todos e toda a paróquia. São meia dúzia de senhoras com uma certa idade que quase nunca faltam a esse compromisso que assumiram diante de Deus e da comunidade. Se calhar nem sempre são pessoas que na vida diária têm as melhoras condutas. Apontam-lhes, com frequência, o dedo, como sendo pessoas que batem no peito ou colocam as mãos juntas para rezar, mas pouco fazem, de mãos abertas, para ajudar os outros. Não sei se isso é verdade ou não. Também me parece que esse tipo de juízo é demasiado exagerado. Não há ninguém perfeito. Mas uma coisa é certa: elas raramente falham ao compromisso de rezar pela comunidade toda. Por isso hoje queria dirigir-lhes o meu Bem hajam, e chamar-lhes de minhas santas, ou santas da minha comunidade cristã. Vós suportais, em muito, a nossa comunidade. Não há casa sem fundações. Não há árvore sem raízes. Não há intimidade com Deus sem oração. Não há Igreja sem oração. Não há comunidade cristã sem oração.