quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Perseguição [poema 43]

Aqui viajo e aqui me acho
Entre o mundo que me persegue
E o mundo que persigo
Entre o Deus que me persegue
E os deuses que persigo
Aqui viajo e aqui me acho
perseguido

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Na tua opinião, a Pastoral da Igreja está desperta para a diversificação dos ministérios e para a responsabilização dos leigos?

Fica aqui o resultado da última sondagem que apurou os três melhores textos de 2014, a saber: Como te amo, Senhor?, Entrego-te e O baptizado social da Sara.
Hoje surge nova sondagem para responder a uma inquietação que trago comigo, que ressoa do concílio Vaticano II, e que tem a ver com o conceito de Igreja que aí se propõe na Lumen Gentium, Igreja como Povo de Deus. Nesta perspectiva me parece que a Igreja deveria incluir mais espaço aos leigos e aos ministérios laicais. Mas há muitas resistências, quer da parte dos padres quer da parte dos próprios leigos. Não quero manipular nenhuma das vossas opções, mas auscultar o que pensais e como o vedes. As próximas sondagens andarão à volta deste assunto, e hoje proponho que me digais a vossa opinião sobre a diversificação dos ministérios e a responsabilização dos leigos. Podem e devem justificar as vossas opções.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

uma mãe a falar da fé

Foi-me dito por uma mãe de uma idade próxima aos quarenta, após um encontro com os pais daqueles que vão fazer a festa da vida e durante o qual se falou abertamente sobre questões de vida e de fé. Reproduzo-o porque me deslumbrou o que me contou. Não vou conseguir usar tão bem das palavras que ela usou. Mas foi mais ou menos assim. Senhor padre, eu queria tanto, mas tanto, que os meus filhos percebessem em mim a importância de ter fé, que às vezes até exagero. Procuro testemunhá-lo com a vida, mas ainda assim eles não conseguem perceber-me, e fico triste. Porém não desisto. Compreendo que não lhes posso impor nada e que eles estão numa fase complicada. O mais velho tem quinze anos. Vem de uma hora de catequese e diz que não aprendeu nada ou que não se lembra. Que não entende porque tem de ir à catequese. E há uns dias tiveram um grande diálogo em casa sobre estes assuntos. E que lhe disse: meu filho, enquanto tu tiveres tudo para te sentires satisfeito e preenchido, é óptimo. Mas quando deixares de o ter, também podes continuar a sentir-te satisfeito e preenchido. É isso que a fé faz. Por isso ela é tão importante.
Fiquei de boca à banda com o que ela falou ao filho. É mesmo isso que faz a fé. E para atestá-lo estão milhares de homens e mulheres que, embora ficando sem nada, envelhecendo, perdendo as capacidades e as forças da vida, continuam com uma vida cheia, preenchida e satisfeita, porque a fé lhes dá o que as outras coisas já não conseguem dar. Claro que a fé não é supletiva. Ela não substitui. Preenche. Preenche a vida.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

quaresma [poema 42]

Quero
Arrancar as grades da minha janela
E tocar as flores,
Limpar cada pedaço de vidro
Não me cortar,
Nesta janela que me faz olhar para além
Ver que há além,
Que as flores lindas do Paraíso estão além
E eu vejo daqui,

Não toco nem as flores nem o além,
Afinal estou aqui e elas além
E entre nós há uma imensa janela
Com grades e vidros.

Desejo a todos Quaresma com esperança!

sábado, fevereiro 14, 2015

Gostava de ter os melhores paroquianos do mundo

Gostava de ter os melhores paroquianos do mundo. Aqueles que não incomodam, que não criticam, que não se queixam, que não pedem coisas sem sentido ou que sejam difíceis de conceder, que sabem rezar e rezam, que conhecem bem a Deus, que possuem uma grande fé.
Gostava de ter os melhores paroquianos do mundo. Quase como se fossem de outro mundo! Sim, porque ao procura-los, não os encontro neste mundo. E se os houvesse assim, porque precisariam de mim? E que dizer do meu desejo de que os outros fossem os melhores quando eu não o consigo ser?
Ainda bem que os meus paroquianos não são os melhores do mundo, porque também não têm o melhor pároco do mundo. Ainda bem que eles precisam de mim, assim. Como eu preciso deles, assim. Ainda bem que podemos caminhar juntos.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Que faço aqui? parte dois

Que faço aqui? Não sei que faço. Que faço aqui? Sei que algo faço. Ninguém está ou vive sem fazer algo. Mesmo quem se encontra numa cama do hospital com parte dos órgãos sem funcionar. Ou aquela pessoa que tem trissomia vinte e um. Ou aquela que deixou de poder andar. Ou que já não vê ou nunca viu. Ou que mora do outro lado do mundo e não sabe senão que tem de caçar para comer. Ou a criança que tenta dar os primeiros passos. Ou aquele idoso que dá os últimos.
Que faço aqui? Sei que a cada dia será um dia menos para o que faço aqui. Sei que em cada dia cresço para o céu. Cada dia é mais um dia que aproxima o céu. Sei que em cada dia consigo algo mais e por isso cresço, na idade e na vida. Mas não consigo ainda dar a reposta que gostava de merecer à pergunta que tantas vezes faço. Que faço aqui? E hoje faço outra pergunta. E tu, que fazes ai? Talvez na tua resposta eu encontre a minha. Ou a nossa.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

barco à vela [poema 41]

Fazem ruído as velas,
Mas não são elas.
É o vento
A movê-las
Numa dança de advento.

Falam as velas
Mas não falam delas
Falam do vento.

sábado, janeiro 31, 2015

Mais uma vez o Carlos

O Carlos, que é meu sacristão, tem pouca comida em casa. Tem a que lhe oferecem. Mas quando o Pedro vai a sua casa com fome, este senta-se à mesa e come, nem que o Carlos deixe de comer para que o Pedro coma. O Pedro quase não para em casa, tem de tomar uns remédios para sossegar a tensão, mete-se em problemas a toda a hora. É daqueles jovens que quase ninguém quer receber em casa, com medo de que algo de lá desapareça ou que venham complicações atrás dele. Mas o Carlos deixa-o entrar, acolhe-o, dá-lhe espaço à mesa, ouve-o, confia nele quanto baste, mata-lhe a fome com o pouco que tem, e faz do Evangelho vida.

terça-feira, janeiro 27, 2015

Amizades especiais

Soube ontem que tenho quase dois mil amigos. Conto-os como conto as horas que passam. Mais uma e já foi. São os amigos que se contam em fotos de comida, de animais, de coisas que se vêem e guardam em fotos. São amigos que partilham o que os amigos partilham. E dizem que gostam sem apreciar-lhe o verdadeiro gosto. É só para dizer que vi ou que li. Tenho quase dois mil amigos no facebook. Gente que entra e sai pela internet, numa rede que socializa muitas banalidades do ser. Tem coisas boas, claro que tem. A magia da divulgação e da partilha. A força do encontro e do reencontro. A forma fácil de dizer ao outro qualquer coisa. Isso é muito bom e por isso tenho e uso esta rede social.
Mas ontem chegou-me um convite especial. São raros os convites que faço. Estou lá com as minhas fotos escarrapachadas porque um dia tive de entrar para ver algo que não poderia ver noutro lado. E lá me fiquei. E assim recebi o convite de uma jovem que não conhecia ou que não me lembrava de conhecer. Mas como na nossa vida de padres passam tantas pessoas que não conseguimos reconhecer facilmente, aceitei o convite. Poderia, inclusive, ser alguém com uma necessidade especial de me contactar ou de contactar um padre. Veio depois um Olá. E outro. Um dia após outro. E um “és super giro, parabéns”. A declaração inóspita levou-me a perguntar-lhe que desejava, e respondeu que me queria conhecer. Conhecer. Mas conhecer-me através do facebook?! Ainda por cima depois daquela declaração?! Questionei-a do acto de conhecer através do facebook, pedi desculpas mas tinha coisas mais importantes para fazer e desejei-lhe as maiores felicidades. O que mais me intrigou foi o nem se ter dado ao trabalho de perceber que eu era padre. Ou se calhar até deu. O que seria ainda mais intrigante. Ou então sou eu que no facebook sou pouco padre. Ou então eu não sei socializar no facebook .Ou então esta rede social tem possibilidades que eu desconhecia. Ou então não sei que diga. Onde irá parar este mundo social que é virtual?

sábado, janeiro 24, 2015

os funerais mais assim

Ora pois bem, hoje aprendi quais os requisitos necessários para que um funeral de um ente da nossa família seja àquela hora que se quer, na forma celebrativa que se quer, mesmo que isso implique e complique com a vida e os programas de vida e missão do pároco. Eu sou de opinião que isto se resolvia rapidamente com uns clones de padres. Vá, para falar com mais caridade, isto resolvia-se era com mais vocações sacerdotais. Mas para tal acontecer também era necessário que houvesse uma maior consciência desta necessidade por parte dos cristãos. Quer-me parecer que os nossos cristãos não precisam muito de padres. Precisam é que eles façam o que eles querem ou precisam. E assim, do outro lado do telefone se ouviu um Senhor padre, faça lá o jeito pois eu sou catequista na minha paróquia. Portanto, meus amigos e amigas, se quiserem ter o que pretendem do padre, basta serem catequistas. Eu até entendo o que a senhora, no meio da aflição, quis dizer. Eu até entendo que um catequista, sendo pessoa de fé, queira realizar toda a sua vida e a dos seus com toda a manifestação de fé possível. Porém, fazia algum sentido serem igualmente os primeiros a aceitar aquilo que é possível, manifestando que a sua fé não depende das circunstâncias, mas da sua relação com Deus. A minha resposta foi autêntica. Minha senhora, eu costumo fazer o melhor por todos porque todos merecem o melhor. E por ali ficámos, até porque para mim os funerais são sempre momentos de excepção complicados e sensíveis. Lá se encontrou a solução possível para ambas partes e tudo ficou bem. Aliás, a senhora no dia do funeral veio pedir-me desculpa pela forma como me tinha abordado.
Mas quando desliguei o telefone lembrei-me daquele colega que um dia foi contactado por um senhor da agência funerária para o informar, sem o consultar, que tinha um funeral no dia seguinte às 16h. O colega não esteve com meias medidas e respondeu-lhe que sim senhor, que não havia problema. E naquele exacto momento concedeu autorização ao senhor da Agência para presidir às cerimónias exequiais do outro dia às 16h. Se foi ele a marcar, que fosse ele a presidir. O padre dava-lhe autorização.