quinta-feira, fevereiro 04, 2016

a mãe [poema 90]

Não há mais além
Para dizer uma mãe

Há um aqui em mim
Sem morrer nem fim

Ela é quem nos tem
Ela é o que me sou
Ela é, como dizer,
a mãe

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Os ruídos e silêncios da missa

Ainda celebro missas com ruído de fundo semelhante a vento que entra pelas portas mal fechadas. Um ruído que soa a terço rezado e por vezes a repetição das palavras que eu professo. Pensava eu na minha meninice sacerdotal que com o tempo este ruído iria desaparecer. Mas não. Há ainda pessoas nas nossas missas do tempo em que a missa era em latim e dava jeito ocupar o tempo com algo útil, que se percebesse e que fosse autêntico. O autêntico possível. E essa gente é a que ainda tem mais tempo disponível para ir à missa. É a gente de um certo tempo de cristandade. O resto da gente já não tem tempo sequer para rezar terços durante a missa. Ou fora dela. 
Incomoda, de certa forma, este ruído. Mas também incomoda ouvir silêncios do lado de lá do altar.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Judas [poema 89]

Vem a noite sublinhada pelas manchas de uma lua
Os discípulos moram em silêncio, o ruído mora ao lado

Numa das pontas ouço e permaneço ainda mais ao lado
O Mestre conta histórias com um belo enredo, cedo

Molho o pão com Ele
Hoje é a minha vez de o levar à morte

segunda-feira, janeiro 25, 2016

A Igreja Titanic

Quem já viu o famoso filme da tragédia ocorrida em 1912 que deixou afogar e morrer mais de 1.000 pessoas, deve ter presente como poucas vidas foram salvas. Diz a história que eram poucos barcos salva-vidas, mas que havia neles lugar para mais 470 pessoas além das que foram salvas. Só que, para não se incomodarem os mais doutos, ricos e prestigiados ocupantes do barco, os barcos salva-vidas não foram inteiramente ocupados. Quando o barco enfim se afundou, duas dessas pequenas embarcações regressaram para salvar os sobreviventes, mas a maioria já estavam mortos por afogamento ou hipotermia. Conseguiram ainda salvar 9 resistentes. Conta-se que mesmo assim, de entre as pessoas dentro dos barcos, ainda houve quem resmungasse pela atitude dos que quiseram procurar sobreviventes. 
Toda esta situação vem a propósito de uma leitura que fiz há dias e que falava da Igreja como um Titanic. Uma Igreja autorreferencial, voltada para os seus, que tenta a todo o custo salvar-se. Uma Igreja que deixa muitos a afundar porque tem medo de molhar o barco, de o estragar, de correr riscos, de afundar também. Uma Igreja que pode pintar os barcos das melhores cores e apetrechá-los com as melhores máquinas a vapor, mas que esquece a sua missão. Uma Igreja que sabe que deve ir, mas que lhe custa ir e que, por isso, resmunga quando alguém vai. E se vai, muitas vezes já vai tarde. Uma Igreja que tenta aguentar o barco, mas não chega ao cais. Dá que pensar!

sábado, dezembro 26, 2015

Fizemos 10 anos de vida

Ontem, dia 25 de Dezembro, este espaço fez 10 anos.
Na verdade tinha-o iniciado uns tempos antes, como contei em Dezembro de 2006, mas renasceu e aqui está com 10 anos de vida, muitas histórias, muitas amizades, muitos passos dados, muitos textos, muitos comentários, muita coisa que não sei explicar.
Contas feitas:
  • 708 textos (544 textos de prosa,  76 sondagens e, nos últimos dois anos, 88 de poesia)
  • 13.743 comentários (alguns dos quais também são da minha autoria)
  • + de 662.000 visitas contabilizadas
Não sei bem que dizer! É meu costume usar poucas vezes o ponto de exclamação. Gosto mais de frases afirmativas. Porém, hoje é o que me apetece escrever mais. E ao lado dele alguns pontos de interrogação.
O que aconteceu ao longo destes anos está narrado nas palavras escritas, pelo meio delas, em frases não ditas, e com o auxílio de imensos comentários. Não vou esconder que fui muitas vezes ajudado, humana e espiritualmente, pelos comentários aqui deixados. Fazem parte deste espaço, que não é só meu.
Quando penso no futuro, não sei bem que dizer. Não sei bem que vai Deus pedir-me a seguir. Já pensei muitas vezes publicar em formato livro. Mas suponho que isso implicaria dar outro passo, deixando um pouco o anonimato. E não sei se isso é bom para quem me visita. Ou para mim. Às vezes também me vem à ideia um uso maior das redes sociais para que os textos cheguem a mais pessoas. Mas de igual modo não tenho certezas de ser assim que Deus quer. Os textos existem para que quem se encontrar com eles os possa ler.
Não sei muito bem o que por aí vem. Mas sei que já passaram 10 anos e tenho muito para agradecer a Deus. Sinto que neste espaço ficou espelhada a forma como cresci e como cresceu a minha espiritualidade. Sinto que fui muitas vezes força para gente que estava abatida. Sinto que fui algumas vezes um instrumento válido de Deus. E só por isso já valeu. E se, porventura, nalguma ocasião não fui tão correcto ou magoei alguém, mesmo sem querer, deixo agora o meu pedido de desculpas.
Obrigado a todos pelas vossas visitas, comentários, reacções, divulgação e partilhas.
Seja o que Deus quiser!



quinta-feira, dezembro 24, 2015

O tesouro [poema 88]

Preparou o seu nascimento
Amou-o como ao primeiro
Preparou-lhe um simples lar
Como casa que já existia
Mandou tecer roupas antigas
Em vasos de barro e argila
Para amar como ele queria

É um tesouro nascido
No local mais escondido,
O homem

Aproveito para desejar a todos os meus amigos um Natal cheio desse tesouro!

quarta-feira, dezembro 23, 2015

As três chaves

Tenho três chaves na mão. São chaves que me ofereceram quando ainda não sabia balbuciar que estava vivo. São as chaves imaginárias que coloquei hoje de novo nas mãos para olhá-las e compreender-me.
A primeira disseram-me que abria a porta da vida.
A segunda que abria a porta do paraíso.
A última que abria a porta de Deus.
Disseram-me também que só poderia escolher e ficar com uma. E para me ajudar a fazê-lo, disseram-me que se escolhesse a primeira, escolhia a vida. Se escolhesse a segunda, escolheria a vida em plenitude. Se escolhesse a terceira, era escolhido.
Mas escolhido como? Para quê? De que forma? Perguntei eu. Era escolhido para viver amado, receber o amor em plenitude, viver para sempre em Deus.
Meio encolhido, meio envergonhado, sem me achar merecedor, escolhi ser escolhido. Escolhi a terceira. Afinal era a porta das portas!

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Já algumas vez propuseste a algum familiar teu entrar no Seminário ou numa vida de consagração?

Depois da pergunta no mês passado sobre a hipótese de alguém da tua família decidir ser padre, e depois dos resultados sumamente positivos e esperançadores, a mim surgiu-me uma outra pergunta que, no fundo, é o outro lado da questão: Já algumas vez propuseste a algum familiar teu entrar no Seminário ou numa vida de consagração?
Numa época em que celebramos a entrega de Deus a cada um de nós, faz sentido pensar na nossa entrega.

sábado, dezembro 19, 2015

Não falo não falo e não falo

Hoje não me apetece olhar-te. Estás aí na Sagrada Custódia e estás bem. Deixa-te estar quietinho. Teimo que não me apetece, mas procuro-te de soslaio, para que nem eu dê conta que te estou a olhar. Baixo a cabeça. Olhar o chão é-me mais fácil. Conto as pregas da madeira e assim não penso em nada. Queres falar, fala para aí sozinho. Hoje não me apetece escutar-te. A vida está meio estranha. Não me canso dela. Gosto da vida que me deste e gosto da missão que me deste. Mas hoje apetece-me ficar sozinho. Não me procures. Lá estas tu a tentar-me. Não estou sozinho nesta capela diante do altar e de ti que estás exposto à adoração, senão assobiava para o lado. Ó pá, não compreendo porque há tanta coisa na vida que não me deixas compreender. Por isso hoje fico aqui sem te falar e sem te olhar. Talvez assim faças alguma coisa à minha maneira. Queres fazer à tua maneira? Não estás cansado que assim seja? A tua maneira já passou de moda. Não falo não falo e não falo, já disse. Sossega que eu também fico aqui sossegado. Não te incomodo. Por isso também não me incomodes. 
Levanto enfim a cabeça com vontade de assobiar para o lado, e olho-te. Não queria falar, mas já falei tanto contigo hoje! Não queria olhar-te, mas não deixava de te ver nos meus pensamentos! Ele há cada uma!

sexta-feira, dezembro 18, 2015

não vida [poema 87]

Vivo sem viver em mim
Vivo na rua das cores e das lojas
Que é mais fácil, mais comum
Fingir que se é o que se assiste