segunda-feira, julho 27, 2015

A proposta que não fizeram ao Pe Manuel

O padre Manuel contou-nos, em partilha, a primeira resposta que deu ao chamamento de Deus. Vivia numa aldeia, guardava vacas, tinha pouca instrução, tinha a noção de Deus que era possível e que a família lhe incutia. A mãe sobretudo. Iam à missa dominical. Pouco mais. Eram vários irmãos. O mais velho era também o mais esperto. No final da missa era costuma ir à sacristia saudar o senhor prior. Numa dessas saudações, o senhor prior voltou-se para o mais velho e disse. Olha que tu é que havias de ir para padre. O irmão mais velho e mais inteligente abanou a cabeça em tom de negação, fechou os olhos por detrás dos óculos e respondeu que não. E nisto o Manuel que ainda não era o padre Manuel, nos seus seis anos, interrompeu para dizer que se não ia o irmão iria ele. E foi, contava a sorrir. Não sabia como, mas foi. E se aquele padre, porventura, nunca tivesse feito aquela proposta, isso não teria acontecido.
Acho que nós, padres, nos dias que correm, temos esquecido de fazer essa proposta. Tampouco me parece que sejamos uma proposta.

quinta-feira, julho 23, 2015

ser mar [poema 65]

E se o mar morresse para não ser mar
cansado de ser ondas e só ondas de sal
Se ele quisesse ser terra para ver o mar
Parado à beira das ondas, que vão e vêm
e são de sal

domingo, julho 19, 2015

Se morresse

Se morresse com a idade da minha mãe, viveria pouco mais de vinte anos. Se morresse com a idade que o meu pai já tem, viveria ainda mais cerca de quarenta.
Não sei se tenho medo de morrer. Acho que não. Quando penso nisso, há um rosto de mistério que assusta, mas acalenta.
Se morresse daqui a pouco tempo, que levaria comigo? E pergunto-o sabendo que iria apenas um corpo vestido no caixão, provavelmente com a casula da minha ordenação. A pergunta é maior que o corpo, a roupa e o caixão. Que levaria? Que construí nesta vida? Que tenho feito do dom que Deus me deu?
Quando penso nos que amo e que deixaria, o corpo retorce-se em dor. De facto não quero deixá-los porque os amo, e quando se ama não se quer acabar essa coisa tão bonita que é o amor. Mas quando penso que também iria ao encontro do meu Deus que tanto amo, e que provavelmente iria experimentar a maravilha do amor mais misterioso e mais subtil, não sei bem que pensar.
Mas penso. E penso que ninguém fica nesta vida para ficar. O tempo passa e voa. Voa tão rápido como os segundos. Voa quase sem lhe sabermos o tempo e a duração.
Que mistério tão insigne, tão difícil de entender, tão estranhamente doloroso e tão grande ao mesmo tempo!

quarta-feira, julho 15, 2015

Devem os divorciados "recasados" poder comungar?

Dentro de poucos meses teremos a segunda parte do Sínodo sobre a família que tanto tem dado que falar e que tem dividido as alas da Igreja: por um lado uma ala conservadora e jurídica, e por outro uma ala mais progressista ou tolerante. O debate sobre o acesso aos sacramentos por parte dos "divorciados e recasados" é sem dúvida um dos temas mais polémicos a ser discutido no sínodo da família. Vamos nós abrir um diálogo saudável, ou pelo menos, auferir opiniões. A pergunta pode parecer demasiado simplista, pois não exclarecemos pontos de vista ou damos razões favoráveis ou desfavoráveis. O objectivo é tão só proporcionar um espaço de opinião aberta.
Depois da última sondagem, onde se verificou que a maior parte dos meus leitores tenciona ler a "Laudato Si", como se verifica em anexo, agora propomos nova questão: Devem os divorciados "recasados" poder comungar?


segunda-feira, julho 13, 2015

o final do dia [poema 64]

Estarei muito melhor ao final do dia e da poda
Darei uvas e manjares como o nascer do dia
Serei novo céu e um pássaro que voa sem asas
Abrir-se-ão todas as portadas e as casas e as paredes
E as mãos calejadas, nas fotografias a preto e branco
E as flores mais estrelas sorrirão a todas as cores
Passem o filme da minha vida, pagarei o bilhete
Com gosto ao final do dia e da poda serei outro

sexta-feira, julho 10, 2015

Pastoral de gestação

Entrámos em diálogo por causa de um baptizado que pediu. Expliquei as minhas condições, como se fossem as melhores. Informei que não eram minhas e que as cumpria porque as assumia. Ela não queria saber delas. Queria baptizar o menino porque a avó insistia. Não tinha fé, notava-se, mas não o dizia. Era um diálogo de quem pedia e de quem mandava. Ela e eu. Acolhi-a simpaticamente. Acabou por aceitar. Mas não saiu dali com mais do que um aceitar condições para obter a aprovação. Não foi fé. Não se abriu à fé. Não fizemos nada senão cumprir uma formalidade. Não fui pastor. Não dialoguei de igual para igual. Não a vi na sua condição. Não fiz proselitismo, mas também não a atendi na sua verdadeira necessidade. O nosso diálogo de pastores tem de ser isso mesmo, mais pastoral. Não pode ser um diálogo dialético. E não se trata de conceder ou ceder ou ser simplesmente light. Eu não seria capaz de, nestas coisas, ser ligth. Também não deveria ser uma imposição. Deveria ser acima de tudo uma proposta. Deveria ser uma proposta a partir do sítio onde a pessoa está. Talvez um dia consiga!

terça-feira, julho 07, 2015

Chuva [poema 63]

Chove a cântaros que as mulheres trazem à cabeça
Vêm da fonte os cântaros com melodias de embalar
A fonte chove todos os dias para encanto das mulheres
Que vão à fonte buscar a sede que a vida tem
Passo por entre a chuva que ela molha-me o rosto
Entra no coração para lhe regar os vasos de sangue
Há chuva todos os dias mesmo quando não a quero
A fonte nunca seca, mesmo quando não chove

quinta-feira, julho 02, 2015

As pombas e o Espírito Santo

Um padre amigo contou como em tempos muito idos um missionário entrara na China para fazer aquilo que chamamos evangelização. E que ao deparar-se com a forma como as pombas eram entendidas pelos habitantes daquela cultura, achou que devia pedir ao papa da altura para lhe permitir não apresentar o Espírito Santo como uma pomba, pois os habitantes daquele local viam as pombas apenas como uns animais incomodativos e porcos. Era assim que falavam delas. Contava o padre amigo que a resposta do papa fora que sempre assim foi e que assim deveria continuar a ser.
Não sei até que ponto a história é verídica. Porém, de certa forma, ela continua a acontecer nos dias de hoje quando uma igreja ocidental tenta impor a Igreja de Cristo com a sua cultura. Como se Deus só fosse autêntico no Ocidente. Como se Deus existisse no sempre foi assim ou no sempre falámos assim. Como se Deus se formatasse a uma qualquer forma de entendimento,

terça-feira, junho 30, 2015

um assunto a que não quero dar título

Há padres que se suicidam, e a notícia propaga-se, morbidamente, pelos corredores escuros dos claustros da vida. Nisto a comunicação social não se tem metido, não sei se por respeito aos falecidos ou seus familiares, se por ser uma realidade desconhecida, se porque na verdade o número é exíguo em comparação com aqueles que morrem de morte dita natural.
Mas a gente vai sabendo e, mais do que angustiar-se com a angústia, faz-se pergunta em nós da pergunta mais difícil que há. É a pergunta dos porquês? Fica-se assim a perguntar Porquê, ou porque é que a Fé não faz evitar estas coisas. Sim porque um padre deveria ser um exímio ser de Fé, e ela, que se saiba, responde como ninguém às questões da vida e da morte. Porém, o que nós esquecemos é que antes da fé a pessoa tem de ter resolvida igualmente a sua humanidade. Ninguém conseguirá um dia distanciar a sua fé da sua humanidade, ou usar apenas a fé. Nem os santos.
Outra pergunta que se faz, ou que é apenas minha e agora, é Porque é que ninguém se apercebeu ou fez alguma coisa, ou esteve ali presente para segurar o braço de quem se queria lançar no abismo. E também a resposta me veio sofrida, mas escorreita. Ninguém consegue viver nem sentir autenticamente Deus se não souber amar e viver essa maravilha do amor. Isso pode acontecer e expressar-se de muitas formas, mas tem de existir. Disso tenho a firme certeza. Pois é ou são esses amores que sustentam a nossa vontade de viver! Pois é ou são esses amores que estão ao nosso lado e nos podem segurar quando já não temos mão para agarrar ou não temos mão em nós.

sábado, junho 27, 2015

esvaziasses [poema 62]

Carcaça trajada, polida, carcaça enfim
Balão cheio, colorido, balão de ar a mim
Pipa de vinho, velha, envelhecida, sem vinho
Passo andante, corpo vestido, errante caminho

Vazío sem par nem par e em dor
E se adentrasses que fosse Senhor?