sábado, janeiro 19, 2019

desAparição [poema 201]

Quando medrar quero morrer numa praia
Com o sol baixo, pequenino, espelhado no mar,
Crescendo por entre o brilho da água ao entardecer

Quando for grande quero morrer sob o luar.
Entre o sol e a lua, entre o ir e ficar, entre o ser e não ser,
entre o ir e não voltar, entre o ser e o voltar a ser

Quero morrer com asas, para poder voar,
Para não parar e mais que o mundo voltar a ver.
Quero ser um coração com asas sem poder falar
para dizer adeus a quem não deixarei de sentir
de ver, de contemplar, de percorrer e de amar...

Quando morrer, tenho a certeza, vou continuar
Entre o tudo e o nada, a esvoaçar

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Deus resolve-nos a vida

Deus resolve-nos a vida. Não no-la resolve por fora, por acções exteriores. Tudo o que é de Deus acontece no interior, mesmo as coisas exteriores. Por isso Ele não resolve as catástrofes. Dá-nos o entendimento e a oportunidade de fazer por elas. Não nos resolve a doença, mas dá-nos a capacidade de a viver. Não nos resolve as relações, mas indica-nos como lidar com elas. Não nos resolve o sofrimento ou a dor, mas inspira-nos o seu sentido. Deixa-nos morrer, mas até isso Ele ressuscita para a intimidade do seu ser. 
Deus afinal resolve-nos toda a nossa vida interiormente. Basta tão só que deixemos que habite em nós. Que lá de dentro dá sentido a todo o exterior. Que a nossa vida seja uma vida resolvida em Deus.

domingo, janeiro 13, 2019

Deus não nos resolve a vida

Padre, eu bem peço a Deus e Ele não me ouve. Padre, eu bem procuro, mas não consigo encontrar. Padre, onde está Deus, que eu não o vejo? Como posso ver Deus no meu cancro? Onde é que posso ver Deus no abandono do meu marido? Onde é que posso ver Deus na minha vizinha que está sempre a criticar-me nas costas sem que lhe tenha feito mal? Onde está Deus naquela criança que faleceu ontem, como disse a televisão, porque caiu não sei de que andar do apartamento onde vivia? Deus deve andar muito distraído, padre. 
A senhora chorava. Chorava compulsivamente. As palavras saiam da sua boca tão depressa e tão intensas como as lágrimas saíam dos seus olhos. Ela pretendia que Deus lhe resolvesse a vida, lhe resolvesse os problemas, lhe resolvesse o que não entendia, o que lhe escapava, o que não queria, o que a fazia sofrer. Mas Deus não nos resolve assim a vida. Ele dá-nos as ferramentas para nós a resolvermos. Quem tem de incorporar e reaprender a dor, a doença, o sofrimento, as relações, enfim, a vida, somos nós… com a Sua ajuda, com a Sua preciosa presença, com a Sua tão grande força. Assim começou nossa conversa. Tinha vontade de dizer que foi assim que terminou. Mas não. Foi assim que começou…

quarta-feira, janeiro 09, 2019

As freiras missionárias

Numa comunidade missionária ad gentes, havia umas irmãs, freiras, que cuidavam daqueles que eram abandonados pela dor e pela doença. O padre ia à comunidade mais ou menos uma vez por mês. Nessa circunstância celebrava a missa e baptizava quem lho pedisse. Quem me contou a história, referiu que o padre tinha sempre baptismos para realizar. E um desses dias, o padre perguntou a uma senhora que se queria baptizar qual era o motivo para esse pedido. Perguntou mesmo se ela queria abraçar a fé. E a senhora, que estava acamada, com uma doença quase terminal, respondeu que não sabia propriamente o que era essa coisa da fé. O que ela queria era ter a mesma religião daquelas freiras. A senhora acamada não sabia muito bem o que era a fé, mas queria o que aquelas mulheres consagradas tinham de especial. Fora o testemunho daquelas mulheres, a sua entrega, a sua vida que chamara a atenção, cativara e, de certo modo, convertera aquela senhora. Não há melhor evangelização que o testemunho.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

ser o mar [poema 200]

Apetecia-me abraçar as ondas
Com as minhas penas
de pássaro sem asas,
Penas carregadas,
molhadas,
sem mar

Apetecia-me mergulhar
nas ondas, e voltar
à praia, com elas regressar
Ao fundo do mar

Como elas, ser
o mar

sábado, janeiro 05, 2019

Em termos cristãos qual destes foi, para ti, o maior acontecimento no ano 2018?

A 11 do mês de Dezembro passado, postei uma sondagem com o título "O que melhoravas na Catequese da Infância e Adolescência em Portugal?". Curiosamente, as votações penderam apenas para cinco das dez opções possíveis, garantindo que se está a tornar necessário ou imprescindível uma maior formação de catequistas, uma atenção maior aos pais, uma catequese menos doutrinal e escolar, uma catequese mais kerigmática, assim como rever os catecismos tal como estão actualmente.
Hoje, a propósito do ano que passou, propomos uma nova sondagem para pensar nalguns dos acontecimentos mais importantes ou relevantes de 2018: Em termos cristãos qual destes foi, para ti, o maior acontecimento no ano 2018?

quarta-feira, janeiro 02, 2019

Pesquisar Jesus na Internet

Num dos encontros de catequese dos mais pequenitos, diante de um powerpoint que a catequista apresentava, esta foi confrontada por um deles, uma menina de olhos bem azuis, vivos e irrequietos. Ó catequista, tu pesquisas Jesus na internet? A catequista não foi tão rápida como um colega seu, outro petiz esperto. Olha que Jesus não se pesquisa na internet. E um outro, cheio de simplicidade, acrescentou. Jesus pesquisa-se no coração. É aí que o podemos encontrar. 
A catequista estava atónita. Não tivera sequer tempo de elaborar uma resposta tão sábia. Contou-me, com os olhos embaciados, que esta conversa a marcara. As crianças tinham-na deixado profundamente emocionada pelo modo como vão acolhendo a Palavra e como Jesus se faz sentir no fundo dos seus pequenitos corações. No fim das contas, tão pequenos quanto grandes, tão simples como sábios, tão ingénuos como autênticos.

sábado, dezembro 29, 2018

a folha [poema 199]

A folha caíra no pedaço de terra batida
e no empedrado do granito cinza da vida

Chegara ao seu outono, nunca mais volvida
a pintar de esperança o autor, o castanheiro
Soltara-se de súbito, sozinha e desfalecida
Perdera a sorte de morrer num canteiro

Mas o vento soprou sobre ela e ela veio a mim
Peguei-lhe ao colo como uma criança a nascer
Embalei-a nos braços, embrulhei-a em cetim
No livro de uma vida que há-de renascer...

no fim

terça-feira, dezembro 25, 2018

O Pai Natal dos meus sonhos

Encontrei uma carta no correio. Toda encarnada. Toda enfeitada. Parecia o embrulho de uma prenda. Era uma carta com remetente sem morada. Descobri, depois de aberta, que era uma carta de um pai natal. Apercebi-me disso porque tinha uma caligrafia muito bonita, também encarnada, estava cheia de emojis coloridos e, no final, era assinada por um pai natal. Curiosamente, vinha assinada em minúsculas. A leitura era fácil, dado que o texto não era longo e as letras tinham um tamanho acima da média. Não sei traduzir tal e qual o que li. Não me sinto verdadeiramente autorizado a fazer copi past, nem me dou ao desplante de fazer minhas as palavras que li e que me fizeram chorar. Afinal, tratava-se de uma oração de um qualquer pai natal, dos muitos pais natais que nesta época pululam nas nossas cidades e nos nossos centros comerciais a apregoar felicidade. A oração era dirigida a Jesus. Ao Menino Deus. 
Era a carta de um Pai Natal que se ajoelhava diante do verdadeiro Natal. Dizia palavras como: eu só trago brinquedos e tu trazes amor; eu faço rir as crianças, mas tu ama-las de verdade; eu deixo uma alegria passageira, mas tu deixas o teu coração para sempre; eu tenho bochechas rosadas e uma barba branca e farta, a maioria das vezes postiças, mas tu tens umas cicatrizes nas mãos e no peito que são a maior verdade; podes encontrar vários como eu nas cidades e centros comerciais, mas só tu és o único omnipotente, vivo e verdadeiro; eu alimento a economia e o mercado de consumo, mas tu dás sentido à vida das pessoas; eu brinco às cartas e mensagens de pedidos, mas tu levas a sério cada um de nós… Era tão linda e tão autêntica a carta! 
No final, antes da assinatura, dizia ainda algo do género: diante de ti me dobro no teu aniversário. E depois assinava. Era o Pai Natal dos meus sonhos. 

Aproveito para agradecer a Deus estes 13 anos de vida do "Confessionário dum Padre" e os 1022 textos que nele foram publicados

sábado, dezembro 22, 2018

Onde há-de nascer Jesus este ano?

Quando Jesus estava para nascer, Maria e José, como todos sabemos, encontravam-se em Belém, para se recensear. E quando chegou o momento de Maria dar à luz, pelos vistos, não havia lugar para eles nas hospedarias. Deus decidira habitar no meio da humanidade e esta não arranja um lugarzinho para Ele nascer! Não era preciso um hospital xpto ou um hotel de luxo. Tão só precisava de um lugar acolhedor com as mínimas condições para que Maria pudesse dar à luz e oferecer a Luz à humanidade. Mas não. Não havia. Os homens não tinham lugar para Ele. Ora se não havia lugar entre os homens para Deus encarnar e assumir a nossa humanidade, então que sejam os animais, num estábulo, a acolhê-l’O. Se não havia uma lareira para O aquecer, então que se encarreguem os rebanhos e as palhas de O aquecer. 
Foi assim há mais de dois mil anos. Mas hoje as diferenças não são muitas. Também hoje Deus terá dificuldade em nascer de novo. No meio de tanta azáfama, correrias, ruídos, comidas, talheres, prendas e stresses, terá Ele lugar para nascer? Quando andamos tão ocupados com tantas coisas que nos distraem do essencial, não estaremos de novo a fazer com que Ele procure outro lugar para nascer? 
Ele quer nascer em cada um de nós e hospedar-se no nosso lar. Ele quer habitar no lugar mais especial que temos, o nosso coração. O que nos vale é que Ele não desiste de nós, não desiste de ser a nossa Luz, nem desiste de nos habitar. Assim encontre um lugar, mesmo que seja mais pobre e humilde, para continuar a nascer!

Que Jesus nasça em nossos corações neste Natal