quinta-feira, maio 19, 2016

se a deus [poema 107]

Se ao menos o céu caísse a pique
E entrasse pela janela fechada adentro
Como se guardasse

Se ao menos a árvore falasse
E sussurrasse na mão do lenhador
Como se quisesse

Se ao menos a pedra voasse a rir
E não quebrasse o coração partido
Como se fosse

Guardaria o deus de papel
Como se fosse
carne

quarta-feira, maio 18, 2016

O senhor padre está aqui para servir

Não se passou, mas podia passar-se assim. Imaginei uma qualquer senhora no meu encalço para que lhe acedesse a um desejo. Um desejo daqueles que, embora plausíveis, são inadequados ou pouco possíveis. Imaginei um daqueles pedidos relativos a uma missa numa hora que lhe seria agradável e num horário que me seria impossível. Ou um baptismo desta ou daquela forma, distinto do sacramento. Ou um papel urgente de um registo que não existe. Coisas assim que ocorrem muitas vezes e diariamente aos padres. 
Imaginei a senhora de olhos, primeiro arregalados e cheios de ternura para convencerem, e depois arregalados, abertos e carregados, para insinuarem, dizendo. O senhor padre está aqui para servir. 
E não é que tinha razão! Essa é a nossa missão, ao ponto de estarmos ou devermos estar para o outro como ele necessita. Era verdade o que ela dizia. Esquecia porém que, como um pai serve mais o que os filhos precisam do que o que os filhos desejam, eu deveria servir o que ela necessitava e não o que queria. Esquecia porém que não se consegue dar pão quando só se tem a farinha, ou não se consegue fazer omeletas se não se tem ovos. Esquecia porém que mais do que servir cada homem, eu estava para servir Deus em cada homem. Não sabia, cuido eu, a distinção entre bens que queremos e o Bem Maior. E que era esse que eu gostaria de servir!

segunda-feira, maio 16, 2016

às vezes queria gostar [poema 106]

Às vezes gostava de pensar a vida como imaginação
Contar barcos de papel e ovelhinhas para dormir
Em sonho e em vasos de flores em cor de sépia.

Às vezes gostava sentir-me estrangeiro em mim
Montado no meu unicórnio azul com asas verdes
Em criações que fossem espaços indizívelmente.

Às vezes gostava de morrer para lá de aqui
Num pássaro sem asas mecânicas e horas mortas
Em circunferências que distam da circunferência.

Às vezes gostava de não ser para ser qualquer coisa
Que não sei palavrear, mas queria que fosses tu

sexta-feira, maio 13, 2016

olhos desaguados [poema 105]

As pálpebras abertas para ti
Como o mar insiste em desaguar
Traz nas ondas algas marinhas
Que pernoitam no meu olhar

As lágrimas vão cair no sono
Na inquietude da vida em vão
Como era bom não haver noite
E os olhos não desaguassem

quarta-feira, maio 11, 2016

como uma porta

Bater à porta é ter a certeza que alguém pode estar do outro lado, que alguém nos pode atender ou, pelo menos, escutar o ruído do bater da porta. Ninguém pode teimar em dizer que a porta é só uma porta. Se é porta é porque pode abrir-se e trazer o outro lado de lá, dele mesmo, ou levar-nos até esse lado que desconhecemos porventura, mas que ansiamos, senão não bateríamos à porta. Se é porta é porque possibilita encontrar esses dois mundos, o de lá e o de cá. Se é porta, é porque está na minha mão poder abrir-se, e à minha mão de poder tocar-se. Se é porta é porque tem paredes ao seu redor. E se tem paredes pode ser casa, e se é casa é lugar para habitar. 
A porta não fecha somente a casa em si, mas abre-a. Dá a possibilidade de deixar entrar na casa quem vem e quem bate. Mesmo quando a porta tem uma fechadura, que serve o significado do que fecha, ela podia definir-se como abertura. Afinal o que se fecha é porque antes estava aberto e pode voltar a abrir-se. 
Perguntar por Deus é como uma porta.

domingo, maio 08, 2016

Passareio [poema 104]

Num piscar de olhos soltou-se um pássaro em mim
Enquanto os fechava, voou ao céu, num eterno ai
Ai como voava livre, e cada vez mais débil
Cada vez mais alto, mais perto, e mais fraco
Planando no céu de Deus, cada vez mais livre.

Voltou passada a história no vai e vem do tempo
No abrir dos olhos presos que piscara em mim,
Voltou mais leve, mais livre, mais pássaro
Com duas asas douradas que o céu lhe dera.

sexta-feira, maio 06, 2016

em mistério que é [poema 103]

Aqui não vejo nada
Apenas há mistério
Que é nada para ser.

Diz-se que há algo que se vê
Ou negação do que possa ser
Se sei que não o vejo, é nada.

Ver é afinal definir o visto!

E Ele só se vê depois de visto
Dentro, em mistério que é
No coração.

terça-feira, maio 03, 2016

Falar de Deus

Para se falar de Deus há tanto para dizer. Fica sempre tanto por dizer. Parece que duas centenas de mãos cheias nunca chegariam. Quanto mais duas mãos meio vazías. Porém, quando se abre a boca, que é como quem diz, a vontade de falar de Deus, parece que algo nos cala ou nos força a emudecer. Verdade seja dita que não há palavras suficientes para falar de Deus. E será por isso que muitas vezes usamos as palavras formatadas. Ditas de cor e salteado, rapidamente, para não se esquecer ou não se enganar. Já me aconteceu não saber que falar de Deus, que é mais acertado dizer apetecer falar de Deus, e depois de começar há um sem fim de palavras que não me deixam acabar o que digo. Eu diria que são palavras arrastadas de emoções. Não sei se já te aconteceu sentires que devias falar das coisas de Deus a propósito ou a despropósito. A mim já. Muitas vezes. Quase sempre que encaro um rosto que olha para mim como padre. E depois tolhem-se-me as palavras. Tinha vontade de dizer qualquer coisinha, nem que fosse apenas um piscar de palavras. Mas saem formatadas porque me obrigo a dizer qualquer coisa. Quem é que porventura tem dificuldade em falar de Deus? Escondo-me atrás da cortina da janela, que quase não tapa nada, mas enfim, e digo baixinho para ninguém ouvir. Eu. O eu sai-me mais rápido e fácil do que o Deus. Espero não ser o único, porque senão isto descamba. 
E desculpem, amigos, este deambular de palavras. Estava aqui a querer escrever algo que tivesse a ver com Deus e só me saiu isto. Para falar da dificuldade que é forçarmo-nos a falar de Deus. Vale mais deixarmos Deus falar por nós.

quinta-feira, abril 28, 2016

Tanto e tão pouco

Senhor, porque me deste tanto e esperas que nesse tanto te veja somente a ti? 
Desculpa, meu amigo e Senhor, mas é nesse tanto que me deste, porque quiseste, que me deixo cair na auto-estima em desmesura. É nesse tanto que me regozijo centrado em mim. É nesse tanto que me esqueço de ti porque estou ocupado comigo. É nesse tanto que me afasto tantas vezes de ti porque não me dou conta que te necessito em mim. É nesse tanto, que é tão bom e me deste com amor, que eu me perco tantas vezes… Quando é quase sempre no meu tão pouco que te encontro e sou feliz!

sexta-feira, abril 22, 2016

“Amor amado a corpo inteiro”

Li nos meus devaneios poéticos um verso de Pedro Casaldáliga a propósito da vocação ao sacerdócio que dizia mais ou menos assim: “amor amado a corpo inteiro”. A frase estremeceu em mim e na minha vocação. Arrancou de mim, do meu corpo, a certeza de que não sou digno de tal sentir. Digo-o. Afirmo-o. Raramente amo a corpo inteiro. Digo-lhe muitas vezes expressões como “toma as minhas mãos”, ou “toma meus pés e meu andar”, ou “toma minha boca e minhas palavras”, ou “toma meu coração”, ou “toma meu pensar”, ou “toma meu sofrer” e por aí fora. Na verdade tenho-lhe oferecido partes de mim, mas não o corpo inteiro. 
Perdoa-me, Senhor, pelas vezes que só te entrego parte de mim.