terça-feira, Novembro 25, 2014

Que faço aqui?

Que faço aqui? Faço esta pergunta imensas vezes. Tantas quantas não entendo que faço aqui. Ou o que me queres, Senhor, aqui? Ou o que esperas de mim aqui? Ou o que me pedes aqui? E quando vou de aqui para ali, a pergunta vem atrás como uma sombra ou uma perseguição doentia. Sei que pretendes alguma coisa. Sei até aquilo da salvação. Sei que sabendo-o Tu, eu não precisava saber. Sei que queres que eu esteja aqui. Ou penso que queres. Sei pequenas coisas que penso que faço aqui. Mas nunca sei deveras que faço aqui. E quando penso que há tanta gente que pensa que os padres, que escolheram ser padres, devem saber tudo o que Deus quer deles, como se tivessem uma ligação telefónica ao céu, como se não fossem como os restantes humanos criados e com perguntas, dou por mim a perguntar de novo Que faço aqui? E depois chego a pensar que no dia em que deixar de perguntar que faço aqui, nesse dia já não faço nada aqui.

segunda-feira, Novembro 24, 2014

sexta-feira, Novembro 21, 2014

cansaço [poema 33]

O cansaço tomou conta do meu querer
Removeu-me de mim e aquietou-se em silêncio
Paulo fala de palavras que o vento forte leva
Porventura a um céu mais brilhante que o meu
Fala de fracos e de fortes, forças da força de Deus
A penumbra vem deitar-se a meu lado para não ficar só
São só palavras, digo eu, e amanhã há-de amanhecer
Vem dormir comigo, ainda cabes neste leito meu
Este cansaço é por Ti, fá-lo Teu, neste sono
E amanhã sonharei que amanheceu

terça-feira, Novembro 18, 2014

Uma história de encontrar

Dois viajantes no tempo encontraram-se num tempo que, digamos, se chamava intermédio. O que vinha do sul tinha uma tez morena, barba escorreita, olhos da cor do mar. O que vinha do norte possuía uns traços típicos de homem rude do campo. Ambos levavam um bastão na mão direita. Ambos eram peregrinos. Ambos faziam da vida um caminho e possuíam muitas semelhanças. O que os distinguia deveras era o deus que professavam. O do sul acreditava num deus muito parecido com o deus Sol dos antigos. Dava-lhe um nome estranho e dizia que era o dono das energias e das forças da vida. O que viajava do norte acreditava no deus a que chamava Deus dos cristãos. Eram homens de boas intenções. Saudaram-se com simpatia e desejaram uma boa viagem um ao outro. A conversa não durou muito, pois não eram propriamente proselitistas. Falaram dos seus deuses. Um dizia que o meu é que salva, e o outro repetia que o dele é que salvava. Sim, que a salvação era no final do caminho e ambos eram caminhantes. E por ali morreram as palavras, pois não havia mais nada a dizer. O que contava era a salvação. Isso é que define um deus. Cada um seguiu o seu caminho, pelas estradas que escolheram.
Passados uns anos os dois viajantes encontraram-se de novo, num tempo que seria ou que eu chamaria de céu. Feitos os cumprimentos habituais, abraço para aqui e para ali, o que viajara desde o sul agarrou o seu irmão do norte e disse Afinal foste salvo. Este sorriu e concordou que sim, que o seu Deus o tinha salvo. Então o do sul encolheu os ombros e disse que também tinha sido salvo. Depois sorriu e acrescentou Foi o teu Deus que me salvou.
 
Esta história não existiu senão no meu coração, mas tive vontade em a partilhar.

sexta-feira, Novembro 14, 2014

A estrada de cimento [poema 32]

Do outro lado da rua
Está quem não está neste.
Os dois lados da rua
estão divididos, ao meio
sem meio,
por uma estrada de cimento.

A mesma estrada
que une as duas ruas.

terça-feira, Novembro 11, 2014

Seminaristas às dezenas

O Juan é padre. Provem da América Latina, de um país que não sei se é muito grande, mas deve ser. Dizia-me que no ano em que entrou para o curso de Teologia no Seminário da sua diocese eram quase cem candidatos. Mais ou menos os mesmos que entraram este ano. Aliás, são ainda mais os que gostariam de entrar, mas não entraram na triagem. Dizia-me que as paróquias, embora grandes, têm vários sacerdotes. Vão muitos aprofundar os mistérios de Deus nos estudos porque são muitos. São da América Latina, embora este acontecer não seja assim tão recorrente. O Juan perguntava-me do meu país. Na minha diocese, respondi, sobram os dedos de uma mão para contar os seminaristas que estão em teologia. O Juan perguntou-me então se Portugal ainda tinha cristãos na missa. Respondi que tem gente na missa. Gente. Gente que vamos supor que tem fé. Há países da Europa com menos gente na missa. E menos fé. Mas ser padre hoje em Portugal é só para um pequenino número de jovens a quem Deus não foi indiferente. O Deus que não é só Deus de alguns sacramentos, das festas e dos funerais.
Alguma coisa tem de mudar na Europa dos cristãos. Talvez olhar para fora seja o primeiro passo.
 
Nesta semana dos Seminários deste ano 2014, queria pedir ao Senhor da Messe que abra os olhos aos trabalhadores da Messe para que vejam para além deles.

sábado, Novembro 08, 2014

comprometidos apenas pelo filho

Lia o jornal do dia, num bar da minha terra, no intervalo dos goles de café matinal, quando um jovem se aproximou cumprimentando-me e indicando que talvez já não me lembrasse dele. De facto a cara tinha algo de familiar, mas a minha memória é muito pequenina. Com cara de envergonhado, disse-lhe que tinha uma ideia, mas que era só isso, uma ideia. Lá me respondeu que era um antigo acólito da paróquia, um daqueles que estivera na minha Missa Solene, aquela que chamamos de primeira. Lembrei-me dele de facto. Tinha traços dessa meninice. Conversa puxa conversa. Onde está agora? Estou em tal sítio. E tu que fazes? Estudas? Não, já estou a trabalhar ali naquela empresa. É pá, como o tempo passa e a gente cresce ou se torna velho. Riamos disso. Eu do crescimento dele e ele, supostamente, da minha velhice. Olhe que até já tenho um filho. Isso é que é bonito, dizia eu, quando me ocorreu, desconfiado, perguntar-lhe se casara. Respondeu que não. Insisti sem complexos nem repreensões, que não gosto dessas coisas mas também não tenho que achar-me dono das certezas. É pá, e então não pensas nunca fazê-lo, isto é, casar-te? Oh, não sei, logo se vê. E foi o Logo se vê que me arrastou para uma série de pensamentos. Esta coisa das uniões de facto está a tornar-se tão banal e tão natural ou comum, que até dói. E o problema não está nelas em si. As pessoas juntam-se porque é menos comprometedor juntarem-se que casarem. Hoje é muito difícil as pessoas comprometerem-se seja com o que for. Neste caso em concreto, eles esquecem que até já têm um compromisso comum, o próprio filho.

quinta-feira, Novembro 06, 2014

Encontra-me [poema 31]

Encontra-me, meu amigo
Afasta aquilo que nos afasta
Encontra-te onde estou, comigo
Não demores, que desgasta

Encontra-me, estou preso
Não sei como encontrar-me
Neste meu estar indefeso
Me quedo por não estares

quarta-feira, Novembro 05, 2014

noivado [poema 30]

Outrora era a festa das uvas
Do repasto e da farinha de trigo
Um dia Ele visitou-me e disse:
Hoje quero fazer festa em ti

segunda-feira, Novembro 03, 2014

Ponto de Luz [poema 29}

Um ponto de luz,
Pequenino ponto de luz,
Guia mais que tudo
O que não é luz,
Por maior que seja.

O Ponto de luz,
Por mais pequenino que seja,
Faz que eu veja
O caminho