segunda-feira, maio 22, 2017

Oração especial

Venho aqui, hoje, rezar por um colega que decidiu fazer um ponto de interrogação à sua vida sacerdotal. O que ele não sabe é que esse ponto de interrogação se pode transformar em ponto final num ápice. Ele disse-me que se tratavam de reticências. Eu percebi o que ele queria dizer, mas também pensei em muitas vírgulas. E que se calhar perdera o entusiasmo próprio dos pontos de exclamação constantes da nossa missão sacerdotal. 
Às vezes é preciso enfrentar-nos e não enfrentarmos apenas a nossa vida. Estou com ele, no que está e no que vier, nas decisões que tomar ou que ficarem por tomar. Como creio em Deus, mais do que nos homens, estou seguro que Deus vai guiar cada um dos seus passos e reforçar o seu sacerdócio neste tempo solitário.
E rezarei, rezarei para que não seja um ponto final. Para que sejam apenas dois pontos.

sexta-feira, maio 19, 2017

Não sou daqui [poema 144]

Sou emigrante nesta terra emprestada
Refugiado da vida que me foi dada
Vivo escondido por detrás das coisas
Nas orlas do que acontece em mim
Vivo martírios em segredo no fim
Esse local perdido onde tu poisas.

quarta-feira, maio 17, 2017

[poema 143]

Em minha casa há um lugar sagrado
Que não se toca, não se desvela,
Como tesouro à meia noite guardado

Sabe-se mas finge-se que se não sabe
Para não saber
Que os lugares sagrados não são
Para se ter

segunda-feira, maio 15, 2017

Um dia 13 de Maio muito especial

O dia 13 de Maio de 2017 não volta mais. Não volta porque nenhum dia que passa pode voltar a passar. O que eventualmente permanece de cada dia que passa é a marca ou as marcas que ele deixa em nós. E o dia 13 de Maio de 2017 deixou em Portugal marcas que haveriam de ser gravadas no nosso coração e que nos deveriam fazer sentir bem como o país que somos. 
Destaco pessoalmente o centenário das aparições de Fátima e a canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta, com o suplemente da visita do Papa. Sim, que a sua visita foi o suplemento ou complemento que faltava, mas não foi o centro do que ocorreu nesse dia. 
Deixem-me também dizer que sou benfiquista e que me alegrei com o tetra. Mas foi apenas uma alegria com um tamanho pequeno. Tamanho maior reservei para a vitória no festival da Eurovisão. Sim, gosto muito de música e desde pequeno que assistir a este evento faz parte da minha gramática pessoal. Alguns até poderiam lembrar-se de fazer alusão a um verdadeiro milagre de Nossa Senhora ou por intermédio de algum dos novos santos. Não vou tão longe. Mas de facto o dia 13 de Maio deste ano, no centenário das aparições de Fátima, trouxe-nos um novo salvador, o Salvador Sobral. Portugal venceu o festival da Eurovisão com a autenticidade deste rapaz que nos salvou de cinquenta e não sei quantos anos de festival, quase sempre em lugares que faziam esquecer o país que somos. 
Foi deveras um dia em cheio, que me encheu por dentro e por fora. Sobretudo por dentro. Encheu-me de orgulho por ser português, por ter fé, por ser assim como sou. Contudo, e como sempre, não há bela sem senão. Ainda recordo os comentários na internet que fui lendo desde o dia em que o Salvador venceu o programa em Portugal. E mesmo com a vitória nas mãos, os mesmos derrotistas que falavam mal dos seus tiques e de uma pobre melodia, pouco festivaleira e que nos ia envergonhar na Ucrânia, continuam a sua ventura de dizer coisas e mais coisas para justificar as coisas e mais coisas que já haviam dito. 
Já sobre as notícias que a internet dava a conhecer a propósito dos dias 12 e 13 em Fátima, então não queiram saber. Os muitos comentários que apareciam depois de muitas dessas notícias falavam de embustes, de analfabetismo dos que professam a fé católica, do engodo que é o catolicismo, de lavagens cerebrais, da inquisição e por aí fora. 
Creio que andamos realmente muito distraídos. Vivemos num mundo de pseudo-intelectuais que se acham donos de poder fazer todo o tipo de afirmações, mesmo sem saber do que falam. Só porque sim. Só porque temos a possibilidade de dar opiniões. Ainda bem que a maior parte delas são virtuais, isto é, são muito menos reais do que pensam os seus autores. São na maioria das vezes, faltas de atenção e respeito. E dizem muito mais de nós do que da nossa opinião. Isso sim é que é real. 
Ainda há coisa de uns minutos passei pela página de facebook de um amigo que já faleceu e que cumpriria hoje, se fosse vivo, mais um aniversário. Pasmei com alguns comentários postados exactamente neste dia. Sobretudo com aquele que desejava votos de um dia feliz. E olhem que ele é bem capaz de estar a festejar no céu e a rir-se de nós.

quarta-feira, maio 10, 2017

Fui assim criada e assim hei-de morrer

Senhora Maria, diga-me porque tem fé. Fui assim criada e assim hei-de morrer. Ou assim hei-de ser até que o Senhor me leve. Podia ser deste modo o início de uma conversa com a senhora Maria ou com muitas das senhoras que, às vezes nas nossas comunidades, mais vão à missa ou mais dispõem as mãos para a oração. Seria, quase de certeza, uma conversa curta, pequena, sem discussão, encerrada em respostas breves e cerradas no Sempre foi assim. 
Não digo que a forma como essas pessoas receberam a fé é má ou desajustada. Quem sou eu para a questionar! Era recebida de pais para filhos, como se recebia tudo o resto. Ora isso é bom. Eu mesmo sou fruto dessa transmissão geracional. Dessa herança de fé. O menos bom é que isso, muitas vezes, ficava por ali. Por receber-se. Por ficar infantilizada. 
Também acho de uma enorme coragem, nos dias conturbado de hoje, que hajam pessoas a fazer convictamente a afirmação de que sempre terão esta fé que receberam. Assim como penso que não seria justo e correcto afirmar que essas pessoas não têm fé. Têm, com certeza. 
Contudo, tenho alguma dificuldade em aceitar que se tenham contentado com uma fé infantil. Muitas vezes descomprometida da vida, presa ao passado e ao culto. Uma fé que é mais uma religião ou uma forma religiosa de viver.

domingo, maio 07, 2017

[poema 142]

Olha-me
Nos olhos e diz-me se te vês

Abraça-me
No peito e diz-me se estás

Beija-me
Por dentro,
E diz-me se sou
Um pedaço do teu amor

sexta-feira, maio 05, 2017

Esta é para ti, Dina, parte XII, já lá vão cinco anos

Faz hoje cinco anos que faleceu a Di(a)na. Apetece-me dizer que ela faleceu, mas a sua história não, porque os santos permanecem na vida de outras vidas. Eles regressam a todo o momento, não por causa da saudade, mas por nos terem marcado na parte interior do coração. Por teimarem em palpitar dentro do nosso coração. 
Tenho uma foto da Dina, junto com outros nossos amigos, na parede do quarto. Foi ela que ma ofereceu. Está colocada na parede à altura do olhar quando estou para me deitar e adormecer. Está, portanto, à altura de todos os dias a olhar. Eu não sou muito saudosista. Não é meu costume magicar com o passado. Mas hoje, sem explicação aparente ou verificação de datas, estando diante do computador a escrever coisas que cuido serem de Deus, abri este espaço na Internet e, sem pensar ou saber porquê, premi no menu o “Especial D(i)ana”. Li tudo de novo. Vivi tudo de novo. Só depois me apercebi da data. Verti de novo umas lágrimas. Respirei fundo de novo, aquele mais fundo de nós mesmos. E comecei a escrever este texto para te dizer, Dina, que ainda estás viva. Pelo menos no coração de muitos que te amaram e amam. Para te dizer que a tua história não acabará senão quando acabar a vida dos que te conheceram, real ou virtualmente. Bem-hajas mais uma vez, porque hoje senti de novo aquele arrepio de Deus que não se explica!

quarta-feira, maio 03, 2017

sonho meu sonho teu [poema 141]

Roguei aos céus que não voasse
Que não fugisse por entre os ramos
Que uma mão o detivesse, o parasse.

Mas o sonho partiu em papel com asas
O poema foi-se destilando em palavras
E as nuvens desenhando-se para as apanhar

Uma correria louca instigava as águas
E elas caíam tão juntas como a chuva
Por entre os ramos do meu sonho de papel

E o sonho desapareceu,
amarrotado,
sem palavras,
sem asas

Ficou escondido,
guardado e esquecido
Por entre papeis que dobrei em mim

sábado, abril 29, 2017

conversão [poema 140]

Tenho a saudade de voltar a ti
Como se fosse o último a saber
O segredo para voltar

És mais que ventre onde quero amar
Berço que a luz maior me trouxe a ti
Por entre o perfume que não perece
nem anoitece

Tenho saudade de te dizer
Como nome que recolhi
No coração

quarta-feira, abril 26, 2017

As hóstias bentas

Ocorreu bem longe daqui, numa paróquia que um amigo assumiu há pouco tempo. Contou ele que numa ocasião, durante a comunhão, se apercebera que as hóstias não eram suficientes. Começou, por isso, a parti-las de modo que chegassem para todos os que estavam na fila da comunhão. Nisto uma das catequistas, ao ver a dificuldade do padre, e com muita solicitude, correu à sacristia e trouxe de lá uma píxide improvisada com hóstias por consagrar. Abeirou-se do padre e sussurrou-lhe ao ouvido. Benza-as que assim já chega para todos. 
A situação é caricata apenas para quem sabe que não é o mesmo uma hóstia consagrada que uma hóstia por consagrar, e que não é o mesmo uma consagração que uma bênção. Termos simples e básicos, digo eu, para quem possui a mínima formação de fé. Pelos vistos a solícita catequista, pese embora a sua genuína generosidade, não a tinha. Claro que ninguém é obrigado a saber tudo. E, como costumo dizer, não sou ninguém para julgar a fé dos outros. 
Porém o problema vai muito para além do facto da senhora catequista não saber estas coisas. O problema é que uns dias antes o tal padre convidara os catequistas para uma formação e a resposta que obteve foi um claro Não. Que não precisavam mais formação.