terça-feira, janeiro 27, 2015

Amizades especiais

Soube ontem que tenho quase dois mil amigos. Conto-os como conto as horas que passam. Mais uma e já foi. São os amigos que se contam em fotos de comida, de animais, de coisas que se vêem e guardam em fotos. São amigos que partilham o que os amigos partilham. E dizem que gostam sem apreciar-lhe o verdadeiro gosto. É só para dizer que vi ou que li. Tenho quase dois mil amigos no facebook. Gente que entra e sai pela internet, numa rede que socializa muitas banalidades do ser. Tem coisas boas, claro que tem. A magia da divulgação e da partilha. A força do encontro e do reencontro. A forma fácil de dizer ao outro qualquer coisa. Isso é muito bom e por isso tenho e uso esta rede social.
Mas ontem chegou-me um convite especial. São raros os convites que faço. Estou lá com as minhas fotos escarrapachadas porque um dia tive de entrar para ver algo que não poderia ver noutro lado. E lá me fiquei. E assim recebi o convite de uma jovem que não conhecia ou que não me lembrava de conhecer. Mas como na nossa vida de padres passam tantas pessoas que não conseguimos reconhecer facilmente, aceitei o convite. Poderia, inclusive, ser alguém com uma necessidade especial de me contactar ou de contactar um padre. Veio depois um Olá. E outro. Um dia após outro. E um “és super giro, parabéns”. A declaração inóspita levou-me a perguntar-lhe que desejava, e respondeu que me queria conhecer. Conhecer. Mas conhecer-me através do facebook?! Ainda por cima depois daquela declaração?! Questionei-a do acto de conhecer através do facebook, pedi desculpas mas tinha coisas mais importantes para fazer e desejei-lhe as maiores felicidades. O que mais me intrigou foi o nem se ter dado ao trabalho de perceber que eu era padre. Ou se calhar até deu. O que seria ainda mais intrigante. Ou então sou eu que no facebook sou pouco padre. Ou então eu não sei socializar no facebook .Ou então esta rede social tem possibilidades que eu desconhecia. Ou então não sei que diga. Onde irá parar este mundo social que é virtual?

sábado, janeiro 24, 2015

os funerais mais assim

Ora pois bem, hoje aprendi quais os requisitos necessários para que um funeral de um ente da nossa família seja àquela hora que se quer, na forma celebrativa que se quer, mesmo que isso implique e complique com a vida e os programas de vida e missão do pároco. Eu sou de opinião que isto se resolvia rapidamente com uns clones de padres. Vá, para falar com mais caridade, isto resolvia-se era com mais vocações sacerdotais. Mas para tal acontecer também era necessário que houvesse uma maior consciência desta necessidade por parte dos cristãos. Quer-me parecer que os nossos cristãos não precisam muito de padres. Precisam é que eles façam o que eles querem ou precisam. E assim, do outro lado do telefone se ouviu um Senhor padre, faça lá o jeito pois eu sou catequista na minha paróquia. Portanto, meus amigos e amigas, se quiserem ter o que pretendem do padre, basta serem catequistas. Eu até entendo o que a senhora, no meio da aflição, quis dizer. Eu até entendo que um catequista, sendo pessoa de fé, queira realizar toda a sua vida e a dos seus com toda a manifestação de fé possível. Porém, fazia algum sentido serem igualmente os primeiros a aceitar aquilo que é possível, manifestando que a sua fé não depende das circunstâncias, mas da sua relação com Deus. A minha resposta foi autêntica. Minha senhora, eu costumo fazer o melhor por todos porque todos merecem o melhor. E por ali ficámos, até porque para mim os funerais são sempre momentos de excepção complicados e sensíveis. Lá se encontrou a solução possível para ambas partes e tudo ficou bem. Aliás, a senhora no dia do funeral veio pedir-me desculpa pela forma como me tinha abordado.
Mas quando desliguei o telefone lembrei-me daquele colega que um dia foi contactado por um senhor da agência funerária para o informar, sem o consultar, que tinha um funeral no dia seguinte às 16h. O colega não esteve com meias medidas e respondeu-lhe que sim senhor, que não havia problema. E naquele exacto momento concedeu autorização ao senhor da Agência para presidir às cerimónias exequiais do outro dia às 16h. Se foi ele a marcar, que fosse ele a presidir. O padre dava-lhe autorização.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

onde Deus e o homem [poema 40]

Lá, onde Deus e o homem se encontram,
Palpitas alma minha e me desejas
Namoro que me traz a eternidade
Uma réstia de ser como sou
Grita, alma minha e pula
De ramo em ramo alguém te trará
A ti, que és minha e me desejas
Lá, onde Deus e o homem se encontram

sábado, janeiro 17, 2015

O acto de confessar

É maravilhoso passarmos duas horas ou mais a confessar. Estar ali acocorado numa cadeira ou num confessionário sem preocupação que não seja estar ali para os outros. É maravilhoso dispormo-nos a confessar e depois de uma hora chegarmos à conclusão de que não somos nada. É maravilhoso sentirmo-nos insignificantes na confissão. Sabermo-nos apenas a ponte que Deus construiu para chegar da Sua margem à margem das pessoas na sua dor. São aqueles momentos que nos garantem a nossa pequenez. Não é preciso que as confissões sejam sensacionais no sentido jornalístico da questão, ou profundamente direcções espirituais. Conta tão só que sintamos o amor de Deus actuar. É um encontro diante da misericórdia de Deus e diante das pessoas que Deus ama desta forma tão íntima. O perdão de Deus na intimidade da confissão. Comparações aparte, os padres têm neste acto uma graça que não cabe no tamanho do mundo. As nossas vidas de padre são demasiado preenchidas com afazeres, mas devíamos dedicar mais do nosso sacerdócio a confessar. Só nos faria bem. Pessoalmente, sinto uma necessidade grande de sentir este Deus, através da minha fragilidade, diante do acto da confissão. É maravilhoso.

terça-feira, janeiro 13, 2015

se são [poema 39]

São vermelhos, amarelos
Pretos, brancos, às cores

São altos, magros, espadaúdos
Gordos, fortes, cabeludos

São feios, desgastados
Bem feitos e pintados

São bons, pobres, simples
Têm ciúme, usam maldades

São assim os que me destes
Tão diferentes,
tão especiais
Tão únicos
Tão teus
E mos entregaste

domingo, janeiro 11, 2015

Como penso que deveria ser um bom guia espiritual

Um dia destes uma paroquiana, com idade para ser minha mãe, entrou pela sacristia dentro só para me dizer que tinha uma admiração especial pelo padre da freguesia, sobretudo porque tinha sempre uma palavra, uma resposta, um caminho para apontar às suas inquietações. O senhor padre é um bom guia espiritual. Agradeci amavelmente e prossegui nos meus afazeres, para que a vaidade não subisse para cima da mesa de altar. No mesmo dia, porém, e talvez para o Senhor Deus reforçar a ideia de que o altar não tem espaço para vaidades, alguém se dirigiu a mim para uma outra palavra, num sentido quase igual, mas diametralmente oposto. Tinha idade para ser minha irmã, a senhora que me disse que não entendia como tinha sempre uma palavra, uma resposta para todas as perguntas que me eram feitas. Não se coibiu, inclusive, de acrescentar que lhe dava ideia de que eu tinha a mania que sabia tudo. Mas não sei. E também não sei se quero saber tudo, pois acho que no dia que soubesse tudo, deixaria de caminhar. Acabei por partilhar com esta segunda senhora o que há muito me parece uma verdade, ainda que não tenha a certeza. Um bom guia, inclusive ou sobretudo o guia espiritual, não é aquele que tem todas as certezas, mas aquele que as aponta.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

queremos padres mais autênticos, pastores, simples, acolhedores, evangelizadores, disponíveis, homens de fé e humildes, nesta ordem de prioridades

Desde o dia 6 de Junho que esteve online uma série de sondagens relacionada com as características ou virtudes que gostaríamos de ver mais nos sacerdotes de hoje. Fizémos um total de 7 sondagens, com resultados muito interessantes. Recordo que, como se costuma dizer, "valem o que valem", isto é, valem apenas como apontamento, pois as sondagens têm determinadas fragilidades que não se conseguem propriamente contornar. Porém, as principais escolhas, de alguma forma, são bastante sintomáticas: "autenticos", "acolhedores", "simples", “pastores”, “evangelizadores”, "íntegros" e na última "homens de fé". A mim pessoalmente ofereceu-me muito material para reflectir. Gostava muito que agora, neste post, deixassem a vossa análise ao resultado da última sondagem que reuniu os mais votados nas outras sondagens. Para tal, publicamo-los.
 
Hoje colocamos nova sondagem com os textos que sugeristes para escolhermos os melhores de 2014 (abaixo da sondagem têm os textos se precisarem revê-los). Obrigado pela vossa colaboração amiga.

terça-feira, janeiro 06, 2015

Como se a fé

Como se a fé se comprasse numa qualquer primeira loja da rua. Como se ela estivesse nas montras de uma loja de santuário. Como se levar um expositor de santinhos baratos de loja para casa fosse a força da nossa fé. Ou se esta se quantificasse pela quantidade de santinhos que supersticiosamente são alumiadas num canto da casa por uma vela pronta comprada no mesmo mercado. Como se a fé fosse um negócio ou uma empresa de remédios low cost. Como se a fé não fosse as entranhas que nos fazem viver.

sábado, janeiro 03, 2015

rever Confessionário Dum Padre em 2014

Seleccionei parte dos meus textos preferidos publicados ao longo do ano 2014, e agora peço a vossa ajuda para seleccionar aqueles que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes. Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Agradeço desde já a vossa participação e colaboração. Como no ano passado, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. Podem sugerir outros que não estejam nesta selecção. Para mim, relê-los fez-me bem. Pode ser que faça a mais alguém.
 
Janeiro

Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro

quarta-feira, dezembro 31, 2014

2015: Nunca desistas de nós.

Acho que a idade é uma mestra. É dos melhores professores que temos na vida. Ou pelo menos com ela vêm até nós muitas sabedorias. E em cada ano que passa, sem querer, deixa de ser importante esse passar. Hoje, nas vésperas de um novo ano civil, não me apetece senão desfrutar que estou vivo. Estou aqui em casa a trabalhar como faria em qualquer outro dia ou altura do ano. Amanhã farei o mesmo. Amanhã será dia de missas como habitualmente em cada Domingo ou dia de feriado. Imagino que amanhã não haja muitas diferenças com o dia de hoje. Apenas muda um número nos quatro números que indicam os anos. 2015. E é a idade que ensina que a vida não se pode concentrar numa data ou numa passagem de ano. Aliás, cuido que a partir de determinadas idades, deixamos de olhar o futuro para olhar o passado. Não estou ainda nessa etapa. Estou talvez na intermédia, que olha para o futuro e para o passado ao mesmo tempo, como se o presente ditasse o que foi o passado e marcasse o futuro. E é por este motivo que me apetece escrever ainda antes de sair para ir ter com uns amigos de peito. A família vai juntar-se a grande distância de mim. Já foi muito bom o Natal com ela. Os que a vão substituir são bons substitutos. São os substitutos que Deus me deu ou dá. Cá está o que eu estou a pensar. No que Deus nos dá. No que Deus nos deu em 2014. No que esperamos ter da Sua parte em 2015. Não quero olhar muito atrás no tempo. Mas reconheço quase ao segundo a presença desse Deus que teima em amar-nos apesar das nossas teimosias. Olho para o amanhã e sinto que Ele vai lá estar como sempre numa presença discreta, mas significativa, actuante e transformadora. Meu Senhor, meu Deus e meu Tudo, eu sei que operas em mim, operas em cada um de nós. Eu sei que nos concedes dons para além do nosso merecimento e da nossa bondade. Nunca desistas de nós. Nunca desistas de mim, mesmo quando não for aquilo que esperas que seja. É isso que desejo para mim e estendo a todos os que amo directa ou indirectamente, a todos os que precisam de Ti através de mim, onde quer que seja.