quinta-feira, agosto 16, 2018

Tenho saudades de Deus

Estávamos numa reunião de catequistas a fazer uma avaliação do ano catequético e abordando aqueles que deveriam ser os objectivos da catequese. Falávamos da necessidade de levar os catequisandos a encontrar-se com Cristo, a apaixonar-se por Ele, a querer que Ele fosse a referência das suas vidas. Falávamos à vontade. Os catequistas partilhavam as suas dificuldades, vontades, desejos e sonhos. Foi uma óptima reunião. E, às tantas, uma das catequistas expressou, a medo e como quem vai dizer uma barbaridade, que às vezes tinha saudades de Deus. Disse-o e esclareceu logo de seguida que não se referia àquela saudade que se tem quando alguém que amamos está longe. Disse que pensava n’Ele e que, de vez em quando, sentia este desejo de o ter mais perto, de o ter a seu lado. Isso, explicava, era para ela o mesmo que ter saudades de Deus.
Encontrava-se à minha esquerda. Levantei os olhos e olhei na sua direcção, como se o mundo tivesse parado. Ela fixou também o seu olhar no meu, aguardando que lhe desse uma repreensão. Contudo, o meu olhar era de satisfação, de admiração, de encanto. Não me lembro de alguma vez ter ouvido alguém fazer esta afirmação. Fiz um sorriso do tamanho do mundo, e disse simplesmente Que afirmação tão especial!

domingo, agosto 12, 2018

A senhora que ouve muito mal e fala alto na Igreja

A senhora Francisca ouve muito mal. Para não dizer que não ouve nada. Chamo-a de Francisca porque o santo padroeiro dos surdos é S. Francisco de Sales. Não é o nome dela, obviamente. Mesmo que lhe gritem, tem dificuldade em perceber as palavras e o teor das frases. Mas vai quase sempre á missa, provando que estar com Deus nem sempre é escutar palavras dos homens.
Na passada quinta-feira, a senhora Francisca chegou na hora em que a Igreja estava em silêncio. O Santíssimo estava exposto à adoração, e centrava n'Ele todos os olhares e restantes sentidos. Acercou-se da pessoa responsável pela marcação de intenções de missa com o objectivo de marcar uma. Ela não deu conta, mas a sua voz soou como se trouxesse consigo um altifalante ligado à corrente. Começaram então os murmúrios da assembleia presente. A maior parte creio que eram de pena. Não quero pensar que eram de desdém, porque toda a gente vai conhecendo as limitações da senhora Francisca. Eu sorri com vontade de lhe fazer um afago. É verdade que também me distraíra da atenção que depositava no Senhor exposto. Mas a voz dela soara-me a voz de Deus. Era uma voz doce e meiga. Se, por um momento, me distraíra, logo me concentrou em Deus. Não me levantei, nem para a mandar calar nem para lhe fazer o afago que me apetecia fazer-lhe. Mas agradeci a Deus por ela. Viver com as nossas limitações é um dom enorme de Deus.

sexta-feira, agosto 10, 2018

fogo sem Deus [poema 191]

Esse fogo que se permite no meio de vidas que ardem

Em frente ao écran se assiste,
e insiste, não viste?

Ponho as mãos naqueles e também por eles
Ainda são meus, no coração, ainda são
São muito mais teus, são o que és o que são

Leva-os para onde ande o mar
Onde o calor não ande nem possa chegar
e a vida volte a navegar... a andar

Esse fogo que se permite no meio de vidas que ardem

terça-feira, agosto 07, 2018

Chorar à beira-mar

Experimentem chorar à beira-mar. 
Em primeiro lugar, façam um passeio pela areia, deixando que os pés se molhem com a espuma que as ondas formam. Olhem mais para o mar que para a areia. Olhem para o longe que se esconde atrás do mar. Porém, de vez em quando, olhem para trás, e reparem como o rasto dos vossos pés desaparece depressa. O caminho andado não mais volta atrás. 
Depois disso, sentem-se na areia húmida. E chorem à vontade. Vão ver que as lágrimas se juntarão ao mar sem ninguém se aperceber. Por algum motivo dizem que as lágrimas são salgadas. Talvez seja porque todas vão dar ao mar. Talvez até sejam elas o que salga o mar. 
Podem ainda escrever as vossas mágoas na areia fina. Verão que as ondas levam cada uma delas para o alto mar. É só esperar uma onda ou duas, e lá vão. Afinal as ondas vêm e vão, trazem e levam. Levam tudo o que escrevermos à beira-mar. 
Convido-vos a fazer esta experiência ou exercício de chorar à beira-mar. Talvez assim percebam como as vossas lágrimas nunca estão sozinhas. Nunca serão lágrimas sozinhas. Serão um pequenino impulso do mar. Uma pequenina gota de um infinito mar. 
Foi o que fiz hoje para falar com Deus da dor que carrego por ser filho e amar.

sexta-feira, agosto 03, 2018

Cuidar de quem nos cuidou

A vida, a nossa vida, tem diversas fases. Em cada uma delas alguém nos cuida ou cuidou. Eu não recordo propriamente como foram os primeiros tempos e primeiros passos da minha vida. Não recordo como foi a primeira fase da minha vida. Não tinha a consciência do que fazer. Alguém a tinha  e teve por mim, e hoje sou muito do que fizeram da minha vida aqueles que dela cuidaram. 
A minha mãe já faleceu e já está onde um dia quero estar, junto de Deus. O meu pai, por seu lado, está agora naquela fase da vida que precisa dos meus cuidados, dos cuidados dos filhos. Está naquela fase em que a consciência da vida já não é o que era. Não interessa aqui o que isso dói. Porque não há como medir a dimensão dessa dor e da impotência perante a situação. Dói simplesmente. Dói como se tivesse uma espinha cravada no coração e constantemente a sangrar. O que interessa é que chegou a hora de cuidar dele. A hora de recompensar tudo o que fez de nós aquilo que somos. Não há comparação para explicar o que recebemos dos nossos pais. Por isso não há medida para os cuidar. Não há medida, ou tempo a medir, ou disponibilidade a avaliar, ou quantidade de amor a realizar. Esta é a oportunidade que Deus nos dá para cuidar quem de nós cuidou, e para ajudar a ser mais quem nos fez ser o muito do que somos.
Escrevo, neste momento, a chorar e a sorrir. A chorar pela impotência e dor. A sorrir pelo dom que Deus me deu de cuidar quem de mim cuidou.

quinta-feira, julho 26, 2018

carta [poema 190]

Reescrevo-te hoje como testamento
Em papel de carta para me enviar a ti
Penso-te como poema de minha carne ou sangue
Filho de um encontro em lençois que não tive
Deixo-te este coração, sem vida, a palpitar
Bebo de ti quando fecho o envelope
E coloco o teu nome e o sê-lo daqui
Reescrevo-te como acto de tornar a escrever
Como acto de te escrever de novo em mim
Ou no beijo que quedou da última oração

segunda-feira, julho 23, 2018

novelo de lã [poema 189]

Era um novelo de lã pequenino, a nascer
Um fio a querer ser muito mais, no coração

Enrolava-se e desenrolava-se,
às vezes dobava-se
Nalguma mão calejada,
nalgumas mãos de fada

Deixava pontas soltas, para outros nós, a crescer
Era novelo a viver, às vezes sobreviver,
ou repousar
Ia e vinha, como onda de espuma a fazer-se mar

Encontrava-se e perdia-se
no meio dos seus irmãos
Era um novelo, enfim, que um dia Deus fez
Vestido de lã, nas suas próprias mãos

quinta-feira, julho 19, 2018

As humanae vitae e as pessoas

Li há días uns artigos que falavam da famosa enciclica “Humanae Vitae”, de Paulo VI, sobre os seus avanços ou recuos na moral sexual. Li também que antes desta encíclica ser publicada, o Papa tinha encomendado uma outra, com o nome "De nascendae prolis", e que ia no sentido contrário ao da “Humanae Vitae”, sobretudo no que se refere ao uso de contraceptivos que não apenas os naturais. Também me recordo de, em tempos, ter lido qualquer coisa sobre uns meandros obscuros no processo que levou à luz a “Humanae Vitae”. Uns textos que falavam de interesses e de desinteresses. Não me recordo de tudo agora. A minha memória nunca foi fecunda. 
Primeiro informo que sou a favor da vida, de todos os modos e feitios, com todas as dificuldades e sofrimentos. O maior dom que Deus nos dá a cada um não deveria ser tratado como algo descartável. Nesse mesmo sentido, sou favorável a que o acto sexual esteja sempre aberto ao dom da vida. Mas dentro da consciência das pessoas, e dentro das camas dos casais, e dentro do modo como as pessoas geram uma paternidade responsável, creio que devemos ser mais inclusivos que exclusivos. Afinal, aquela encíclica, que foi muito fracturante na altura (recorde-se que estávamos nos anos 60), que verdadeiras repercussões tem hoje, quando cerca de 98% dos católicos (refiro-me aos verdadeiros católicos que têm e vivem uma fé em caminho) usam estes métodos contraceptivos como se isso não importunasse a sua fé? É que se calhar não importuna mesmo.

domingo, julho 15, 2018

Dona da minha vida

A frase era demasiado imperativa. Eu sou dona da minha vida. Era demasiado impositiva e antropocêntrica. Eu sou dona da minha vida e posso fazer o que quiser com ela. 
Esta frase saiu dos lábios de uma amiga, para afirmar a sua opinião sobre a eutanásia e sobre outros assuntos relacionados com a vida. Creio que ela foi honesta consigo mesma, pois é isso mesmo que pensa. Está convencida que se a vida é dela, é a sua dona. De facto a vida é dela. Mas não creio que seja a sua dona. E não o digo por uma questão piedosa, como quando dizemos, sem mais, “estamos nas mãos de Deus”. Como se fosse um fado, um destino de resignação que não queríamos mas que temos de aceitar. Essa lógica não me agrada muito.
Faço esta afirmação de uma forma, que julgo, um pouco mais cientifica ou com base na experiência humana. Porque se fossemos donos da nossa vida, como explicar que, sem o querermos, nos surjam doenças, problemas, sofrimentos? Se fossemos donos da nossa vida, o mais provável é que todos tivéssemos uma bela casa e belos carros e mais não sei o quê. Seríamos todos muito capacitados, sumamente inteligentes e dotados. Se nós fossemos donos da nossa vida, o mais provável era acabarmos achando-nos igualmente donos das vidas dos outros. Acabaria tornando-se um caos.
Nós somos donos das nossas opções, mas não somos donos da nossa vida.

quarta-feira, julho 11, 2018

Há paróquias e paróquias

Há paróquias que o são porque assim foram constituídas, zonas religiosas com um determinado território para cumprir a sua cultura religiosa e alimentar um pouco a fé de cada um, sobretudo através dos sacramentos. E há paróquias que querem ser comunidades cristãs e que, partindo da Palavra de Deus, fazem caminho para serem cada vez mais comunidade cristã.
Digo isto porque, apesar de ter paróquias a meu encargo como no primeiro caso, também tenho algumas paróquias que vejo crescer como no segundo. Há dias uma destas, por ocasião de uma festa onde, no final, havia rematações de buxos, chouriças e farinheiras confecionadas por um número bonito de senhoras da comunidade, assisti a algo que superou grande parte das minhas expectativas. Depois de tudo rematado, e sem que se previsse, lá foi grande parte da minha gente para o forno assar outra grande parte das chouriças e farinheiras. Eu tivera necessidade de me deslocar a outro local, e às tantas recebo uma chamada a dizer que estava tudo pronto para o convívio e estavam à minha espera. Qual não foi o meu espanto quando, ao chegar, verifiquei que estava quase toda a comunidade reunida para o convívio e, ainda por cima, ninguém tocara na comida antes de eu chegar. Porque sim, disseram. Porque eu era o seu pastor. Para além das chouriças e farinheiras, não faltou o pão e até uma sopinha, como eu gosto, e umas sobremesas para os mais gulosos. Bonita comunidade esta, que tenho de agradecer a Deus.