sábado, Outubro 18, 2014

Os pecados que são sempre os mesmos

Queria confessar-se. Porém, envergonhada, disse-me que trazia os mesmos pecados de sempre. Afinal são sempre os mesmos, padre. Isso, além de a irritar, cansava-a. Por isso nem sabia se devia confessar-se. Ou se era digna de usar a confissão para confessar pecados que eram sempre os mesmos. É que a confissão exige arrependimento, e arrependimento exige o desejo de mudar. Pelos vistos, ela não mudava.
Sentara-se a meu lado, resignada sem querer resignar-se. Ajude-me, senhor padre. O pedido era sincero. Muito sincero. Diga-me lá, disse eu, se nunca, mas nunca mesmo, conseguiu evitar algumas ocasiões desses pecados. Isso sim, senhor padre. Imagine então que de dez vezes que era para cometer os tais pecados que são sempre os mesmos, conseguiu evitar cometê-los duas vezes. O mesmo é dizer que só os cometeu oito vezes. Ora nós também devemos valorizar as vezes que fomos capazes de não cometer os tais pecados que são sempre os mesmos. Foram só duas vezes. Mas foram duas e não foram uma ou nenhuma. Assim, na verdade, crescemos e o perdão de Deus é mais agradável em nós. Deus sabe que foram oito, mas podiam ser dez. Ele sabe que foi fraca oito vezes, mas que também foi forte duas.
Porque nos havemos de amarrar aos pecados que cometemos e não às ocasiões em que fomos mais fortes que eles! Nunca tinha pensado nisto e assim, disse-me. Já aprendi uma coisa nova hoje. E melhor que isso, no final levantou-se mais feliz da cadeira das confissões e dos pecados.

quinta-feira, Outubro 16, 2014

Ficar [poema 26]

Fica.
Fica sem mais palavras que o ficar.

Desnuda-te.
Desnuda-te sem mais roupas que o teu ser.

Esquece.
Esquece o que trazes no teu silêncio

Deixa-Me falar,
Tão só escuta.
Deixarás de ser apenas tu:
serás Eu em ti

segunda-feira, Outubro 13, 2014

Deus pouco omnipotente

Ontem, numa mesa de um restaurante, assisti a uma cena que não sei muito bem descrever. Aquilo lembrava um tribunal onde era permitido comer, rir, falar alto, gesticular com os talheres e os punhos em riste. A conversa era audível em todo o restaurante. Pelo menos pareceu-me. Eram quase todos advogados de acusação. Falavam do suposto Deus dos católicos que era uma treta, uma história bem ou mal inventada por um grupinho de gajos de vestido preto até aos pés com interesses económicos. O que me custou mais a engolir não foi “os gajos de preto”. Foi a forma como falavam de Deus. Eu comia um carapau grelhado e a espinha ia-se-me entalando na garganta, o que fez nascer em mim um desejo secreto que já tive outras tantas vezes. Deus havia de intervir. Deus havia de se mostrar a esta gente. Mostrar o seu poder. Mostrar a sua omnipotência para que todos acreditassem. Mas Ele ainda teima em fazer as Suas grandes obras no meio de tanta simplicidade, pequenez e outras vezes até fragilidade. Valha-nos Deus. Porque não dá uma ensaboadela ou uma ensinadela a esta gentinha que usa estes temas para comer um almoço opíparo e divertir-se à custa de assuntos sérios! Já me ocorreu que Deus podia perfeitamente enviar um missilzinho à cabeça de alguns para lhes organizar os miolos. Bem, estou a exagerar, como é óbvio. Não era preciso um míssil. Bastavam uns pozinhos miraculosos. Quer-me parecer que Ele já deve ter usado este remédio e que também não funcionou.
Este Deus não é como os poderosos da terra. Ele, que tudo pode, age com um poder tão pequenino, tão à maneira dos mais pequeninos.
E é assim o Deus da minha fragilidade, da minha pequenez, da minha simplicidade. E se assim não fosse, era apenas o Deus que admiro. O Deus que me faria acreditar. Mas não seria o Deus que amo. Ainda bem que Deus é tão assim.

sexta-feira, Outubro 10, 2014

terça-feira, Outubro 07, 2014

mais mãe

Onde estás? Sei onde estavas há treze anos, mas onde estás agora, passado tanto tempo e que para mim parece pouco? Na minha cabeça? No meu coração? No meu que fazer? Na minha saudade? Na minha lágrima?
Onde está o teu sorriso que revia no meu? Onde estão as tuas mãos que teciam como a melhor tecedeira do meu reino? Onde estão as tuas palavras sábias para o meu caminho incerto? Onde estão as tuas orações que eram por mim e por tudo o que nem sei? Onde está o teu amor que eu sentia tão mas tão enorme e tão mas tão próximo? Onde está a mãe que faz falta a qualquer filho?
Sei onde estavas há treze anos, mas o tempo passa e aquilo que sabia há treze anos não sei como sabê-lo hoje. As perguntas que faço mais não são que desejos. Ou presenças. Talvez sejam presenças daquilo que tenho de ti em mim. Mas não deixam de ser perguntas de quem te queria ter mais presente. Embora no céu, embora minha ainda mãe, eu quisera ter-te mais minha, mais hoje, mais mãe.

quinta-feira, Outubro 02, 2014

nulidade do matrimónio

Tenho um amigo que andou quase dez anos a tentar anular um casamento que deveras nunca lhe existiu. Eu disse de propósito a palavra “anular” porque era assim que ele pensava antes de se dar conta que “anular” era dizer que queria acabar com algo que existira. Afinal não existira. Por isso passou a pedir a “nulidade” do seu casamento. A sua vida tinha sido um embuste. Entretanto, descobrira a fé e Deus. Queria começar tudo de novo. Queria participar com todas as letras nos sacramentos, mormente no que o fazia ser parte de uma comunidade concreta e viva, a Eucaristia. Não podia. Durante anos, em tribunais eclesiásticos, juntou forças com desânimos, vontades com paciências. Pedia a nulidade do matrimónio. Era um sacramento que nunca fora. Um casamento que nunca fora. Tem filhos desse tempo. Não se arrepende. Da vida nunca nos devemos arrepender. Mas queria a verdade. Sobretudo a verdade da fé. A Verdade que descobrira em Deus. A verdade que lhe era vedada por uma lei que até fazia o seu sentido. Sim, ele sabia que fazia sentido. Só não sabia que o sentido de uma lei estava acima da vida e da fé. Hoje, num autêntico casamento, é feliz e aproveita o tempo e a voz que possui para dizer que agora não só tem um casamento autêntico como tem uma fé preenchida. Conheço mais casos de gente que a meio do seu percurso de vida e de fé se acharam, muitas vezes sem culpa medida, com um Deus que lhes é próximo mas que lhes pede uma certa distância. Sinceramente, como padre, como pastor, como pároco, como amigo, como crente, eu acho que devemos dizer sempre que o melhor caminho para fazer o caminho é aquele que não tem buracos na estrada, que tem um asfalto de topo, que não tem portagens. Mas quem percebe de carros sabe que nem sempre o carro está como novo. E quem percebe de condução sabe que nem sempre o condutor está em condições. Há cansaços, há sonos, há adrenalinas, há distrações. E assim os caminhos para chegar ao outro lado nem sempre são os que vêm no GPS. Como fazer? Fazemos um stop forçado na estrada para impedir que se chegue ao destino, ou ajudamos a pessoa que se enganou no caminho a voltar ao caminho?

terça-feira, Setembro 30, 2014

Morri [poema 24]

Está fora de questão voltar ao meu corpo
Foi-me dado e retirado para longe de mim
Soltou-se daquilo que eu sou mais.
Enquanto foi, fez-me ser quem sou
Mas agora sou eu que não quero desfrutar do corpo
Está fora de questão concentrar-me nesse efémero
Hoje renasço e quero ser renascido
Não há ventura maior que renascer

sábado, Setembro 27, 2014

Eu desejava que os padres fossem cada vez mais... [6]

Vamos já na sexta sondagem relacionada com as características ou virtudes que gostaríamos de ver mais nos sacerdotes de hoje. Temos agora disponíveis mais seis opções possíveis.
Recordo que as cinco características mais votadas nas outras sondagens foram "autenticos", "acolhedores", "simples", “pastores” e “evangelizadores”, sendo que este último apenas teve mais 1% que a segunda opção, “humildes, e alcançou apenas uns 26%. Deixamos os resultados da última sondagem e colocamos online a sexta edição desta "saga".
 

quarta-feira, Setembro 24, 2014

O burro do Alfredo

O burro do Alfredo é o vizinho mais próximo do cemitério. É ele que, do seu posto de trabalho, vela cada campa. É um burro sossegado, mas atento. Não se dá por ele a não ser nos funerais ou nos finados. Chegados ao cemitério, findo o canto fúnebre, o burro do Alfredo continua a salmodia na sua língua materna. É difícil manter a compostura e guardar a seriedade. O seu dono é o primeiro a desfazer-se em prantos de gargalhada contida. Já o avisei para que guarde o animal a sete chaves quando há funeral, mas o Alfredo esquece-se. É que ninguém consegue ficar-lhe indiferente numa cerimónia que exige tanto recato. Foi quando o Alfredo me contou que em tempos o padre que eu substituíra, para dar início ao ritual das exéquias e efectuar a despedida do defunto no cemitério, dado que os presentes faziam barulho inapropriado, pediu, alto e bom som, que se fizesse silêncio a fim de ele prosseguir a oração com a devida dignidade. As pessoas aceitaram o pedido e calaram-se. Nisto, o burro do Alfredo, quase em tom de gozo com o padre, abre as goelas e esboça um zurro do nunca visto. Sorriram as pessoas e conformou-se o padre, dizendo. Bem, a este não posso eu mandar calar.

quinta-feira, Setembro 18, 2014

Ser como as crianças

Um dia perguntaram a Jesus quem é que entrava no Reino dos Céus, e Jesus respondeu, chamando a Si uma criança, que quem não fosse como as crianças não entraria no Reino dos Céus. Ontem também me formularam a mesma pergunta e eu fiz minhas as palavras de Jesus. O senhor que a formulara era emigrante e gabava-se de fazer essa pergunta a quantos padres encontrasse para depois poder dizer que já sabia, mas que continuava sem saber, e que ainda ninguém o satisfizera com a resposta. Pois que era por ser como as crianças? Por ter uma simplicidade que agrada a Deus? Por ser ingénuo ao ponto de não ter consciência das suas opções e escolhas? Por ser dependente de outrem para viver? Por ter uma relação de pequeno para maior com esse Deus que se diz amor? Porque é que Jesus se lembrara de usar uma criança para responder a uma coisa tão importante?
Confesso que tudo isto já me viera à ideia nas minhas meditações, e muitas dessas questões também já as fizera. Por isso a resposta dei-lha sem demorar os habituais minutos ou segundos de indecisão. As crianças não vivem preocupadas senão em ser felizes. Não complicam a vida. Vivem-na na procura do que as faz feliz. Não se preocupam com o dia de amanhã, com o pão, com a roupa que hão-de vestir, com o que quer que seja. E mesmo relativizando a idade e maturidade que possuem, a verdade é que são um exemplo daquilo que é a busca do reino de Deus, isto é, a preocupação apenas com aquilo que é essencial, isto é, a busca da felicidade autêntica. O homem olhou-me como quem até gostou da resposta. Mas ainda assim. Um dia ainda temos de conversar melhor.