quinta-feira, Julho 24, 2014

sei e não sei [poema 18]

Eu sei

Que o tempo passa
E só damos conta dele quando passou

Eu sei

Que a vida corre
E só damos por ela quando já não corre

Não sei

Se pedir ao tempo
Que me dê outro tempo
Se pedir à vida
Que me dê outra vida

Quando este meu tempo
Quando esta minha vida
Me são pertença, meus

Eu é que não dei conta, não me apercebi,
No tempo e na vida acho que me perdi

Eu sei

Porque estava mais ocupado comigo
Do que com o tempo e com a vida

segunda-feira, Julho 21, 2014

Funerais sem mim

Bato no peito para dizer que não devia ser assim. Que a minha forma de encarar os funerais devia ser outra, mais tranquila, mais serena. Que nas vésperas do funeral devia fazer uma visita à capela funerária para estar com a família sofrida. Estar com eles, mesmo que não dissesse muitas palavras. Rezar com eles, mesmo que fossem frases feitas, jaculatórias conhecidas, o terço que é a oração mais fácil quando não se sabe que rezar e se quer estar uns bons minutos a rezar. Mas só de pensar naquelas pessoas com rosto banhado em lágrimas, com roupas de luto, com as outras pessoas a carregarem mais o seu luto com os Meus Sentimentos, dá-me uma vontade de fugir para um canto, escondido no recôndito de uma qualquer capela com sacrário e dizer ao Senhor que afaste de mim este cálice. Bato no peito porque sei como poderia ser bom para aquela gente. Invento desculpas para não ir, quando uma razão apenas existe. Tenho fé clara e autêntica na Ressurreição, mas a dor do que sofre com a perda de alguém é como se me adentrasse pelas entranhas do coração e o fizesse partir em pedaços para lançar ao longe e ao largo. Sou padre e sou pastor. Mas não me peçam para ser capaz. Nunca encaixei muito bem aquela de ir dar os sentimentos, porque os sentimentos não se dão. Vivem-se. E nessa hora de dor a nossa atenção precisa é dos que nos são mais próximos. Precisamos deles como se dependêssemos deles ou da sua atenção. Precisamos daqueles que nos são próximos em sangue ou afectivamente, daqueles que nos sustentam e nos seguram em pé. Os outros, apesar da sua bondade, da sua afabilidade, da sua companhia, acabam por fazer com que o nosso corpo morto ou desfalecido pareça ainda mais pesado. Sei disso porque já morreram pessoas a quem estava ligado de formas extraordinariamente belas, e o que eu queria era que me deixassem ali agarrado aos que me sustinham em pé. São horas que têm de ser. Mas eu não consigo ser bom padre nessas ocasiões. Peçam-me mais tarde que fale com eles. Isso faço. Mas naquela hora só me apetece fugir. Por isso bato no peito para dizer que não devia ser assim.

quinta-feira, Julho 17, 2014

Como se põe toda a gente a rezar

Não há palavras como as que são ditas em oração. Não há diálogo mais cheio de amor do que aquele que é feito com Aquele que mais nos ama, Deus. Por isso a força da oração é das maiores forças do mundo, porque é a força do amor presente nas palavras. Assim sendo, um padre deve arranjar o maior número de estratagemas, salvo seja, para colocar os seus paroquianos a rezar. Claro que a oração para ser genuína tem de brotar do nosso coração e ser nossa, mas não custa nada dar-lhe um empurrão.
Ora, na semana passada saí uns dias para descansar e para fazer uma viagem fora de Portugal. No final da missa da paróquia ocorreu-me por toda a minha gente a rezar. Como sabeis, o vosso pároco vai sair uns dias em viagem. Queria pedir encarecida e carinhosamente a vossa oração. Assim, aqueles que querem que eu regresse, que rezem para que eu volte são e salvo. Aqueles que, porventura não desejem que eu regresse, que rezem também para que o Senhor Deus lhes faça o favor almejado. Não vos vou contar nem os que se riram nem as risadas que se ouviram. Vou apenas contar-vos que fiquei convencido que convencera toda a minha gente a rezar. Ou que pelo menos lhes ensinara que se pode rezar para pedir algo bom ou algo muito bom, entendam-me. Vá, verdade verdadinha, há muita gente por aí a rezar para que a vida da vizinha tenha muitos acidentes de percurso. Eu sei. Mas agora quero apenas rir-me. Ainda hoje à tarde me ri quando uma senhora me veio assegurar que rezara por mim e eu não resisti a perguntar-lhe se rezara para que eu regressasse ou para que não regressasse.

segunda-feira, Julho 14, 2014

a Hora [poema 17]

Ele adormece para acordar
No mundo esquecido
para não dizer perdido
ou para se levantar!

Já é hora de chegar a Hora

Faz-se vento
Fora e dentro
Nada ficou isento

Veio a noite que é dia
Veio o tempo que é história
Chegou a hora que é a Hora
Bate a hora que é agora
E sempre
O Dia da Vida

in Santo Sepulcro - Jerusalém

sexta-feira, Julho 11, 2014

Eu desejava que os padres fossem cada vez mais... [3]

Na continuação das últimas sondagens, temos agora mais seis opções possíveis para escolhermos as carecterísticas que gostaríamos de rever ainda mais nos sacerdotes. Recordo que este tipo de sondagens que têm aparecido aos poucos neste espaço têm como objectivo deixar algumas ideias aos sacerdotes, a começar por mim, sobre as virtudes, capacidades ou características que devemos desenvolver na nossa vida e missão. Recordo que as duas caratcerísticas mais votadas foram "autenticos" e "acolhedores", sendo que este último atingiu a larga maioria de 63%.
Deixamos os resultados da última sondagem e colocamos online a terceira edição desta "saga".

terça-feira, Julho 01, 2014

Para lá de mim [poema 16]

Para lá de mim
Está um lugar
A que chamo estar

Para lá de mim
Está um nascer
A que chamo ser

Para lá de mim
Está Alguém
A quem chamo mãe

Para lá de mim
Estou eu
Num outro Ser
Sem fim

estarei ausente uns dias, para cá de mim!
... e deixo um abraço amigo para estar sempre presente nesse abraço!

sábado, Junho 28, 2014

a solidariedade não se faz de cima para baixo

O Carlos que é meu sacristão, vive no limiar da sociedade que quase não tem dinheiro para viver. Faz parte daquele grupo que precisa de quem lhe estenda a mão. Não tem rendimentos nem segurança social. Tem o que a paróquia e os biscates no campo lhe dão. Por isso, sempre que posso ou sempre que o meu coração pede, abro mão dos dinheiros que trago no bolso, entre outras partilhas maiores ou menores. Preocupo-me com ele, como muitos na paróquia se preocupam com ele, e ele sabe. Preocupo-me que não lhe falte nada, até porque lhe tenho uma admiração de santidade. Ninguém precisa saber destes gestos, mas ele sabe.
Há dias fui convidado a almoçar na casa de uns paroquianos que fizeram questão de acrescentar Traga o seu sacristão. Fiquei imensamente feliz por levá-lo comigo. No final da refeição, já não sei a que propósito, o Carlos manifestou o bem que eu lhe fazia. Ouvi e emendei, na frente de quem ouviu. Carlos, por mais que eu lhe faça bem, isso nunca será tanto como aquilo que me tem feito de bem. O que lhe tenho dado é muito pouco comparado com o que ele me tem dado. Ele calou, mas eu aproveitei para pensar. E pensei que a solidariedade não pode ser olhar o outro com pena, como um coitadinho que eu ajudo. Não. Não é ver o outro como um coitadinho. Não é vê-lo de cima. Mas vê-lo de lado, ou melhor, de frente. Com o Carlos isto é até mais fácil do que com os outros pela admiração de fé que lhe tenho. Mas a solidariedade para ser autêntica não pode ser feita de cima para baixo, mas de frente.

terça-feira, Junho 24, 2014

a fé das lamparinas

Ainda no mês de Maio, numa das minhas muitas comunidades, ao entrar na Igreja deparei-me com a imagem de Nossa senhora de Fátima num trono bonito rodeado por aquelas lamparinas vermelhas que piscam e piscam até se gastar a pilha. Aquelas lamparinas que costumamos ver nos cemitérios, e que quando as vemos fora deles, não conseguimos afastar a imagem dos cemitérios. Embora as velas de chama e fumo sejam perigosas fora dos horários em que alguém está dentro da igreja e deixem marcas sobretudo nas imagens, a verdade é que não fazem tanto lembrar os mortos. Assim sendo, no final da missa perguntei-lhes o que, porventura lhes faziam lembrar aquelas lamparinas, e foram unânimes em responder que lembravam os cemitérios. Eu concordei e acrescentei que se calhar o melhor era retirá-las de ao pé do trono de Nossa Senhora. Reforço a ideia de que nem sequer usei da força, da persuasão ou dos galões para que retirassem de lá as senhoras lamparinas. Achei que daria melhor a volta à questão fazendo com que fossem eles a retirar as ilações necessárias.
Contaram-me mais tarde que duas senhoras não ficaram nada contentes. Uma delas que costumava ir todos os dias ao terço e à missa quando lá a havia, dissera zangadíssima que os padres só sabiam tirar a fé e que nunca mais tornava ao terço ou à missa. Dito e feito. Não tem aparecido. Eu chamaria a isto a fé das lamparinas ou das velinhas acesas. Mas acho que se calhar devo estar errado. Vale mais termos a nossa fé concentrada numa vela ou numa lamparina, mesmo que lembre os mortos, do que não a ter em lado algum.

sábado, Junho 21, 2014

Eu desejava que os padres fossem cada vez mais... [2]

Na continuidade da última sondagem, temos agora mais seis opções possíveis para escolhermos as carecterísticas que gostaríamos de rever ainda mais nos sacerdotes.
Recordo que este tipo de sondagens que vão aparecer aos poucos neste espaço não têm como objectivo julgar ninguém. Muito pelo contrário, tem como objectivo deixar algumas ideias aos sacerdotes, a começar por mim, sobre as virtudes, capacidades ou características que devemos desenvolver na nossa vida e missão. Por estes motivos se agradece, desde já.
Deixamos os resultados da última sondagem e colocamos online a nova.
 

scolhe a opção que mais preferes
Parte 2: Eu desejava que os padres fossem cada vez mais...

domingo, Junho 15, 2014

Deus faz tudo perfeito

Um senhor, daqueles senhores carecas e castiços que gostam de dar um ar de graça, querendo meter-se com o senhor padre, contou-me uma pequena história sobre um bispo que fora fazer a visita pastoral a uma determinada paróquia e no meio do sermão repetira umas dez vezes que Deus fazia tudo perfeito. Ora um senhor corcunda que se encontrava no meio da assembleia, no final da missa resolveu ir dar um dedinho de conversa com o tal do senhor bispo que dizia umas coisas que na cabeça dele não faziam lá grande sentido. Era corcunda, mas não era parvo. Era corcunda, mas também era destemido. Por isso, chegado ao pé do tal senhor bispo, resolveu abordá-lo de chofre. O senhor disse umas quantas vezes que Deus fazia tudo perfeito. Interrompeu as palavras com o dedo na direcção da corcunda, e acrescentou. Acha que isto é perfeito? O senhor bispo, sem meias medidas, respondeu prontamente. Olhe que dos corcundas que eu já vi, o senhor é o mais perfeito.
O senhor careca e castiço metera-se comigo. Mas não soube que se metera também com os meus pensamentos. De facto não será uma corcunda que dita a nossa perfeição ou imperfeição. Como a perfeição é algo bastante relativo. A perfeição para a qual Deus nos cria foge muitas vezes ao homem ou ao seu conceito de perfeição. Além de que se nos permite ter algo que identifiquemos como uma deficiência, nos costuma conceder a força ou a capacidade de vivermos com ela ou de vivermos usando-a para alcançarmos a perfeição. Mais ainda, muitas das nossas chamadas imperfeições não são senão fruto das nossas opções em liberdade, a mesma liberdade que nos foi concedida por Deus. Mais ainda, aquilo que a nós nos parece imperfeição, a outro pode parecer uma forma de perfeição ou uma imperfeição que não chega aos calcanhares da sua. Mais ainda, aquilo que para muitos é um mundo imperfeito, para outros não é mais que o mundo perfeito, que foi assim feito com imperfeições para ser perfeito.
Gosto muito de pensar, e por isso o repito, que a perfeição com que Deus cria tudo vai muito para além do conceito de perfeição para o homem. Por isso é que nos faz olhar para além das nossas fragilidades. Por isso é que as Suas grandes obras foram e têm sido feitas no meio de tantas fragilidades.
Feitas as contas, o tal do senhor bispo tinha toda a razão quando disse que Deus faz tudo perfeito.