sexta-feira, Abril 18, 2014

Entrego-Te

Hoje entrego-Te, Senhor, os que me pesam. Entrego-Te as cruzes que carrego sem vontade. Entrego-Te a Odília que está com tanto cancro. A Maria que foi abandonada pelo marido. A Maria que está entrevada no andarilho. O José que sofre no matrimónio. O meu pai que está vivo. A minha família que tu sabes. Os jovens que cruzam comigo e não cruzam contigo e eu queria. Os pais dos meninos da catequese que não vão à missa. Os bancos vazios de tantas eucaristias a que presido. Os ventos que levam histórias que não são verdadeiras. Os padres que andam atarefados. Os colegas que eu queria compreender. O meu bispo que eu queria que fosse mais pastor. O cansaço do que tenho de fazer e não me apetece. Os sacramentos devolutos que não quero. A paróquia que parece não querer sê-lo. O conselho económico que quer deixar de o ser. Aquelas vinte e quatro pessoas que exigem que o meu dia seja de vinte e cinco horas, ou seja, todo para elas. O António que devia fazer o que lhe pedi e não fez. Aqueles com quem me apetecia tomar café. Aquelas pessoas que me apetecia amar sem medida. Aquela senhora divorciada. Aquela que não tem pão à mesa e mo revelou. Aqueles que não lembro agora. Aqueles que precisam. Aqueles que não sei lembrar.
Entrego-Te todo este peso que é enorme. Entrego-Te todo este peso para que seja dos dois. Para que, de partilhado, me seja mais leve. Diante da Tua cruz, nesta hora tão grande, os pesos dos que me pesam tornaram-se mais leves. Eu sabia que entregando-Tos, eles seriam mais leves. Obrigado, Senhor, por transformares estas minhas cruzes na Tua Cruz. Obrigado, Senhor, por transformares esta minha vida pesada naquela que é a Tua Vida.
 
Boa Páscoa, amigo
Ele quer ressuscitar em ti

quinta-feira, Abril 17, 2014

acontece [poema 10]

Cresce a noite
Desce o tempo
Cai o corpo
Vence o vento.

Acaba o dia
Vai a história
Faz-se escuro
Na memória.

Bate a Hora
Ele adormece
Depois acorda
E acontece…

segunda-feira, Abril 14, 2014

versão altamente inédita da paixão e morte de Jesus

NOTA: não aconselhável a leitores com problemas cardíacos!

A Eucaristia de Domingo de Ramos tem um Evangelho que não passa despercebido. Além de se ler a paixão e morte de Jesus, o tamanho do texto é bem acima da média. São umas boas oito ou dez páginas, aliviadas pela forma dialogada de três leitores. Por melhores que estes sejam e por mais bem preparados que se encontrem, é comum haver gafes pelo meio. Umas melhores que outras. Umas que não trocam o sentido das palavras ou das frases, e outras que as alteram completamente. Umas inusitadas e outras altamente hilariantes. E foi assim numa das minhas paróquias. A leitora até leu bastante bem. Mas para o fim já se mostrava cansada. Assim na cena final da paixão do Senhor, numa versão altamente inédita, temos o Centurião e os que com ele guardavam Jesus, isto é, os soldados, em vez de ficarem “aterrados”, ficarem enterrados. Tal seria o pavor. Mas nisto, vem o final apoteótico. E vemos Jesus na cruz que, clamando outra vez com voz forte, espirrou. Nesta versão Jesus não “expirou”. Espirrou. Não é uma versão má de todo. Espirrar é melhor que expirar. Devia estar constipado o nosso Jesus. Da próxima vez, antes de ir lá para a cruz, que tome os remédios.

sábado, Abril 12, 2014

O Domingo de Ramos

A Francisca é catequista dos mais pequeninos, aqueles que hoje chegam à catequese sem saber uma oração, por mais pequena que seja. Nem o anjinho da guarda, que recordo com tanta saudade. Veio-me contar, a propósito destas coisas dos pais que enviam os filhos à catequese, pese embora o princípio da boa vontade e da boa intenção, mas que não poem os pés na Igreja a não ser quando a festa da catequese acontece. Sabe o que me perguntou há dias uma mãe! Ah e tal, ó catequista, não é agora um dia destes aquela coisa dos ramos? Olhe, é agora antes da Páscoa ou depois? É que eu estava a pensar ir. Temos de ir benzer os ramos, não é? Dizia satisfeita do seu interesse em benzer os ramos, como se estivesse a mostrar o maior interesse nos interesses da catequista. A Francisca contava-me que ficara de cara à banda e não soubera responder mais que um É já no próximo Domingo.
Cá está a prova de que os pais precisam mais catequese que os filhos. E mesmo com interesses ainda enganados, vale a pena agarrá-los por estas coisas que a nós, o comum dos cristãos que vão à missa, nos possam parecer coisas de outro mundo. Afinal o outro mundo é também o mundo onde vivemos. Claro que fiquei triste pela constatação. Mas não quero perder a esperança nestes pais. Pior que não saber quando é o Domingo de Ramos ou para que existe uma cerimónia de bênção dos ramos, é estar convencido profundamente que não se podem comer verduras nesse dia, porque depois pode acontecer alguma coisa de mal na vida das pessoas. Pior que não saber, é estar sabedor de coisas, a meu ver, tão desajustadas. Acho eu. Que às vezes já não sei que achar.

terça-feira, Abril 08, 2014

As marotas da homilia

Estava a minha pessoa no meio de uma homilia. Foi num dia daqueles em que me apeteceu ir por ali fora pela coxia dentro. A Palavra de Deus desse dia dava ganas de não ficar parado. E para explicar como ser discípulos de Cristo, de acordo com o Evangelho do dia, a minha pessoa pegava nas imagens do Sal e da Luz, tal como Jesus pegara há muitos anos. Às páginas tantas, entre muitas outras alusões, referi que a luz servia para nós fazermos tudo, pois que sem luz, a apalpar, era mais difícil, e às vezes impossível. Olha o verbo que eu fui utilizar. Apalpar. Umas devotas, que estavam para os lados do coro, deixaram escapar uns sorrisinhos sonoros. Na verdade, até já estamos habituados ou andamos a habituar-nos a um ambiente descontraído ou bem disposto na nossa comunidade. Mas aquela tinha sido demais. Eu tivera um pensamento semelhante na hora em que elaborara a homilia. Talvez o mesmo que estais agora a ter. Deixara-o para trás, porque me parecera inoportuno ou desajustado. Porém, depois das minhas amigas terem deixado escapar os sorrisos, não resisti, fiz uma pausa profunda, respirei com a mesma profundidade, e chamei-as de marotas. Ora o que eu fui fazer. Logo os sorrisos se alastraram pela Igreja toda, e eu próprio caí no mesmo riso desgarrado. Ainda hoje sorrio quando me lembro, e fico a pensar como a marotice entra em todo o lado. Não que isso seja mau ou grave. Eu diria que era desajustado. Mas pelo menos serviu para nos rirmos a bom rir. Espero que o Senhor Deus se tenha rido também. E se não se riu connosco, que se tenha rido de nós

sexta-feira, Abril 04, 2014

Os meninos da Primeira Comunhão que não voltaram à missa

Já passou quase um ano desde a última Primeira Comunhão aqui da paróquia. Os meninos que a fizeram estavam no terceiro ano da catequese e passaram para o quarto, ano em que é sugerido que se faça a festa da Palavra. Uma festa que realça não só mais uma etapa de catequese, mas uma integração da Palavra de Deus, isto é, da Sagrada Escritura, na vida destas crianças. Até aqui não há novidade maior. Os pais, na reunião que tive com eles para preparar esta festa e para lhes prestar conhecimentos básicos da Bíblia, saíram contentes da reunião e desejosos que os seus filhos se confessassem. Até aqui tudo bem e não há novidade grande. Assim fizemos no Sábado antes da festa. Os meninos, como manda a regra do entusiasmo, perfilaram para se confessar. Mas qual não é o meu espanto quando descubro que alguns deles, talvez uns quatro ou cinco, não tinham voltado à Eucaristia desde a sua festa da Primeira Comunhão. Dito de outra forma mais óbvia ainda. Desde aquele dia em que comungaram pela primeira vez, não o tinham tornado a fazer. Culpa dos pais. Culpa dos catequistas. Culpa do pároco. Culpa da Igreja. Culpa da vida. Culpa de quem? Não há culpa que resista a um dado adquirido. A festa da Primeira comunhão é muitas vezes a festa da única comunhão. Negue-se o facto e estamos a esconder a cabeça na areia. Não se negue e teremos de repensar a catequese que tem servido, não para alimentar ou amadurecer na fé, mas para cumprir um ritual apenas social e festivo. Soube de colegas que têm obrigado as crianças, através de passaportes carimbados, ou coisas do género, a participar na Eucaristia. Sei de um colega que decidiu não fazer esta festa da Primeira Comunhão no ano passado porque nem as crianças nem seus pais iam à missa. Não sei se resulta ou se resultou. Não sei se deva ou se não. Eu não gosto que a fé seja exigida ou negociada. Assim como não gosto que a comunhão seja proibida. Sei o que não gosto e sei o que gostaria. Mas neste entretanto, não sei o que fazer. Alguém saberá?

sábado, Março 29, 2014

Nós não ressuscitamos

Por entre as colheres de sopa e os garfos das batatas cozidas, a conversa gerava-se à volta de tudo um pouco. À mesa do restaurante a comida entra-nos misturada com muito assunto à mistura. Para isso nos sentamos acompanhados. Às páginas tantas, veio à baila o livro de um colega com o título “Ressuscitarão os mortos?”. E disse Já li e aconselho vivamente, como se o advérbio acrescentasse à acção alguma coisa mais. Não recordo porque acrescentei Vivamente, mas agora que estou a escrever parece que faz uma conjugação interessante com o título do livro.
Ora uma jovem esposa que se encontrava em diagonal comigo, para fazer parte da conversa, anuiu com um Claro que sim, claro que ressuscitamos. E porque ninguém dizia mais nada, insistiu. Há alguma dúvida?! Chegou a usar o nome de Deus para validar as palavras. Pelo amor de Deus, fico com pena que alguém possa duvidar, pois que seria de nós se não ressuscitássemos?! A jovem esposa tinha uma fé genuína, mas o padre, que era eu, acenou que não. Ela parou de abrir a boca para comer e abriu-a para se admirar. No meio do meu acenar, fiz uma afirmação que fez parar talheres, pratos, copos, olhos e bocas das outras três pessoas que almoçavam connosco. Nós não ressuscitamos. E repeti. Nós não ressuscitamos. Depois de ter engolido em seco, a jovem esposa pôs os olhos nos outros e a pergunta em mim. Então, mas nós não ressuscitamos?
Com um ar o mais sério que possais imaginar, poisei o meu talher, mudei o tom de voz, aquele tom de voz mais cavernoso, e respondi. Não, minha amiga. Nós não ressuscitamos. Quem ressuscita são os mortos. A jovem estava tão desarmada, que não conseguia ainda chegar à compreensão e mantinha a posição de estátua que não come, não pensa nem sente. Por isso acrescentei. Olha lá, porque cargas de água é que nós, que estamos vivos, precisamos de ressuscitar? Só os mortos é que ressuscitam. Vou-vos dizer, este padre nunca mais toma juízo.

quarta-feira, Março 26, 2014

Os contactos do vaticano

Ele há cada uma! Imaginem que há uns dias atrás um indivíduo, que se apresentou como Mestre de uma Ordem, me veio pedir por email os contactos do Vaticano, porque tinha umas necessidades que não me soube explicar, mas que eram grandes. Imagino que do tamanho do Vaticano. Não me explicou as necessidades, mas pareceram-me estranhas, mesmo sem as explicar. Tentei ser delicado informando que não tinha esses contactos. Ele respondeu que poderia parecer-me esquisito, mas que falava a verdade e que sabia de fonte segura que eu teria esse tipo de contactos. Mais gostaria, se possível, que lhos desse ou que, se porventura eu não lhos pudesse dar por qualquer motivo secreto, que lho dissesse. Acreditem que eu quis acreditar. Acreditem que fiz esforço por lhe responder com caridade. Acreditem que não quis imiscuir-me nas necessidades do senhor. Acreditem que não quis julgar a pessoa em causa. Porém, tive de dizer-lhe que essa sua fonte segura era muito insegura, pois de facto não tinha nem tenho esse tipo de contactos. Nem sinto necessidade de os ter. Para que haveria de um simples padre precisar de contactos do Vaticano? Sugeri-lhe que procurasse no site do Vaticano e que podia ser que lá encontrasse o que desejava. De resto não lhe podia ser mais útil. Ainda hoje acho que o mais estranho no meio desta estranheza toda está na segurança com que assegurava que eu tinha os ditos contactos. Só faltava ter-me pedido o contacto de telemóvel do Papa, ou até de Deus. Olha que ele há cada uma! Alguém por acaso sabe os contactos do Vaticano?

sexta-feira, Março 21, 2014

minha barca de papel [poema 8]

Vais na barca, não vais?

Eu vou nessa barca aos ais.
Vão outros tantos a mais,
Muitos como eu, iguais
Nunca mais chegamos ao cais.

Fico na dúvida se vais
Ocupado com os meus ais
Caminhas, não sei se vens ou sais
Cansado dos meus ais
Como tantos iguais,
Muitos, muitos mais.
Sei ao menos que não cais.
Mas vais na barca, não vais?

Eu vou para onde vais.

Hoje, Dia Mundial da Poesia, tinha de deixar aqui umas palavras...