terça-feira, maio 03, 2016

Falar de Deus

Para se falar de Deus há tanto para dizer. Fica sempre tanto por dizer. Parece que duas centenas de mãos cheias nunca chegariam. Quanto mais duas mãos meio vazías. Porém, quando se abre a boca, que é como quem diz, a vontade de falar de Deus, parece que algo nos cala ou nos força a emudecer. Verdade seja dita que não há palavras suficientes para falar de Deus. E será por isso que muitas vezes usamos as palavras formatadas. Ditas de cor e salteado, rapidamente, para não se esquecer ou não se enganar. Já me aconteceu não saber que falar de Deus, que é mais acertado dizer apetecer falar de Deus, e depois de começar há um sem fim de palavras que não me deixam acabar o que digo. Eu diria que são palavras arrastadas de emoções. Não sei se já te aconteceu sentires que devias falar das coisas de Deus a propósito ou a despropósito. A mim já. Muitas vezes. Quase sempre que encaro um rosto que olha para mim como padre. E depois tolhem-se-me as palavras. Tinha vontade de dizer qualquer coisinha, nem que fosse apenas um piscar de palavras. Mas saem formatadas porque me obrigo a dizer qualquer coisa. Quem é que porventura tem dificuldade em falar de Deus? Escondo-me atrás da cortina da janela, que quase não tapa nada, mas enfim, e digo baixinho para ninguém ouvir. Eu. O eu sai-me mais rápido e fácil do que o Deus. Espero não ser o único, porque senão isto descamba. 
E desculpem, amigos, este deambular de palavras. Estava aqui a querer escrever algo que tivesse a ver com Deus e só me saiu isto. Para falar da dificuldade que é forçarmo-nos a falar de Deus. Vale mais deixarmos Deus falar por nós.

quinta-feira, abril 28, 2016

Tanto e tão pouco

Senhor, porque me deste tanto e esperas que nesse tanto te veja somente a ti? 
Desculpa, meu amigo e Senhor, mas é nesse tanto que me deste, porque quiseste, que me deixo cair na auto-estima em desmesura. É nesse tanto que me regozijo centrado em mim. É nesse tanto que me esqueço de ti porque estou ocupado comigo. É nesse tanto que me afasto tantas vezes de ti porque não me dou conta que te necessito em mim. É nesse tanto, que é tão bom e me deste com amor, que eu me perco tantas vezes… Quando é quase sempre no meu tão pouco que te encontro e sou feliz!

sexta-feira, abril 22, 2016

“Amor amado a corpo inteiro”

Li nos meus devaneios poéticos um verso de Pedro Casaldáliga a propósito da vocação ao sacerdócio que dizia mais ou menos assim: “amor amado a corpo inteiro”. A frase estremeceu em mim e na minha vocação. Arrancou de mim, do meu corpo, a certeza de que não sou digno de tal sentir. Digo-o. Afirmo-o. Raramente amo a corpo inteiro. Digo-lhe muitas vezes expressões como “toma as minhas mãos”, ou “toma meus pés e meu andar”, ou “toma minha boca e minhas palavras”, ou “toma meu coração”, ou “toma meu pensar”, ou “toma meu sofrer” e por aí fora. Na verdade tenho-lhe oferecido partes de mim, mas não o corpo inteiro. 
Perdoa-me, Senhor, pelas vezes que só te entrego parte de mim.

domingo, abril 17, 2016

Perguntam-me muitas vezes o que é a fé

Perguntam-me muitas vezes o que é a fé. Algumas pessoas perguntam com vontade em saber. Outras com desejo de confrontar. Outras com desprezo para poderem afirmar que é uma invenção. Outras porque a têm e não sabem verbaliza-la. E depois há o João que acredita na existência de Deus, sabe muitas coisas de Deus porque andou na catequese e era bom aluno, e quando o avô morreu surgiram-lhe uma série de dúvidas sobre a justiça e a forma como Deus actua. Estava muito confuso, e muitos de nós andamos confusos. Muitos de nós somos o João. Um João que não só não sabe o que é a fé, como sabe menos ainda o que é tê-la. 
A fé não é um conjunto de crenças, coisas que se acreditam, ou uma doutrina assentida, ou um conjunto de verdades, ou uma constituição com leis, ou uns mandamentos, ou uma ideologia, ou uma doutrina social para saber viver, ou uma visão moralista da realidade, ou uma invenção da Igreja para dar sentido a um sem sentido de muitas coisas que não se entendem com facilidade, ou uma forma de se libertar, ou uma forma de conviver com sofrimentos existenciais, ou uma forma de praticar ou viver o amor.
O amor é amor, tanto como a fé é amor. O amor explica muitas vezes como é a fé porque o amor sente-se, sabe-se sem saber explicar-se, vive-se porque nos faz felizes, procura-se porque sem ele não conseguimos viver. Mas ainda assim, a fé é muito mais que amor. Porque é a forma gratuita, ou quase gratuita, de responder ao amor maior, o amor gratuito e incondicional de Deus. 
Quantas vezes procuramos aprender, e entender, e professar o que diz Deus, mas não temos qualquer tipo de relação com Ele! Quantas vezes sabemos uma teologia sobre o mistério de Deus, mas não tem impacto na forma como vivemos! Quantas vezes falamos Dele, mas não falamos com Ele! Quantas vezes nos preocupamos em cumprir umas normas, uns preceitos, uns rituais, sem que sejam mais do isso, normas, preceitos e rituais! Quantas vezes nos é proposto Jesus sem que o vejamos mais que uma história fantástica! 
Quantas vezes aprendemos a fé, mas não a vivemos! Só vivendo se sabe o que é. E nem nessa altura a conseguiremos explicar. E quanto mais a vivermos, mais teremos vontade em a viver.

quarta-feira, abril 13, 2016

As partilhas da D. Amélia

A dona Amélia tem um quintal grande. Couves, cenouras, alhos, batatas, salsa e por aí fora. É um quintal onde abundam aquelas pequenas coisas que se fazem grandes nas nossas cozinhas.
Contaram-me que a dona Amélia era muito generosa. Nada que eu não soubesse já e em primeira pessoa. Contaram-me porém ou entretanto que às vezes chegava à casa ou à porta de algumas pessoas e deixava sacos da sua horta. Contaram que muitas dessas pessoas nem a conheciam. E ela dizia que não importava. E deixava o saco com as couves e as batatas. 
A Amélia é mulher de fé. É discreta. Poucos sabem destas coisas que ela faz. Mas faz, e fá-lo a quem quer que seja porque não espera um obrigada. Não espera receber nada em troca. Dá porque quer dar. Dá por amor. Partilha como poucos sabem o verdadeiro significado da palavra. 
Que bom que é ter assim paroquianos!

domingo, abril 10, 2016

Hoje para sempre [poema 102]

Hoje não me apetece ser feliz
O êxtase da secura apoderou-me
As pedras da calçada tomaram corpo
As águas fizeram-se oceano em terra
O fogo deixou de ser paixão e queima
No mais ínfimo de mim esgotei-me
Em nadas que eram um tudo de nada
quimeras de um mundo privado em mim

Hoje apetece apenas ser-me eu
Que incorpora e é para além de coisas
Cruz e dor para ser em plenitude

sexta-feira, abril 08, 2016

As não respostas que são resposta

A mãe gostara da homilia que eu fizera no funeral da sua filha. Porventura havia respondido às suas inquietações naquele momento indisível, que não se podia dizer porque seria o meu dizer e não o seu. Mas pelos vistos assimilou em si o que eu dissera na inocência da minha vontade de deixar Deus falar em mim. E o curioso é que não dissera quase nada. Ou melhor, não utilizara frases cliché ou dogmas que enfatizamos muitas vezes nas homilias para consolar ou para orientar o nosso olhar à Ressurreição. Simplesmente deixara quase tudo em aberto.
Recordo que apresentara algumas propostas de entendimento da morte, mas que deixara no ar afirmações de que não sabia tudo, pois que a forma de eu receber o mistério de Deus era diferente do contexto de qualquer outra pessoa. Não fiz o papel de quem não sabia que dizer, o que ocorre também muitas vezes no nada com que nos deparamos em funerais. Eu sabia o que estava a dizer. Só não queria apresentá-lo como encerrado numa doutrina sobre o mistério da morte.
Assumir em nós a incompreensão da morte é também assumir um Deus que se faz presente mesmo quando parece que nos faltam as palavras. Pelo menos foi o que pensei depois do comentário agradável daquela mãe. Espero que não tenha sido apenas complacente, mas aberta ao dom da morte que é tão incompreensível.

terça-feira, abril 05, 2016

Não estar agarrado ao meu sacerdócio

Tem dias que me penso sem ser padre. Como se fosse um simples leigo. Penso que nos acontece a todos pensarmo-nos, de vez em quando, como não sendo aquilo que somos, ou não fazendo aquilo que fazemos. 
E é altamente curioso que durante esses dias e pensamentos a sensação seja de uma certa paz. Digamos uma paz estranha, para assinalar que se trata de uma forma de estar que não sei muito bem dizer, mas que não me desassossega. Uma forma de pensar que não me faz desejar não pensar. 
Imagino-me sentado nos bancos da Igreja como qualquer leigo, e dou por mim a rezar como rezo, a caminhar como caminho, a viver a fé como vivo. Talvez não me fosse dispensado tanto tempo para o Senhor ou não fosse obrigado a ter tempo para o Senhor. Ou fosse um tempo de Deus que não precisasse dizê-lo ou pensá-lo. Mas eu seria na mesma Dele. Porventura até seria mais capaz Dele, porque mais livre de me obrigar a coisas Dele. 
Imagino-me a dar catequese como os meus catequistas, pois gosto muito de ensinar e partilhar, e a cantar no coro, pois gosto muito de cantar. Imagino-me a animar um grupo de jovens, pois gosto muito de vê-los crescer para Deus. Imagino-me ministro a levar a comunhão aos doentes, a visitar quem precisasse, a participar nos retiros ou nas formações da paróquia. Pode parecer pretensioso da minha parte, mas quase me imagino melhor leigo que padre. 
Penso agora que isso me pode ajudar a falar aos outros como eles, a partir de Deus e não a partir de mim. Falando e pregando a pensar neles. Naqueles que não são padres mas podem ser tão ou mais crentes que eles. E fico em paz, porque todos estes pensamentos me trazem a certeza de que não precisava ser padre para ser de Deus. Isso dá-me a certeza de que Deus é mais importante que o meu sacerdócio. Isso dá-me consciência de que não devo estar agarrado ao meu sacerdócio, mas a Deus.

domingo, abril 03, 2016

Santo sepulcro [poema 101]

Trouxe-Te aqui todos os que me deste
Toma-os, são tão teus como quiseste

Carrega-os nestas ruelas estreitas,
feitas de vidas
Calcadas e amarrotadas
em fugas e refugas da morte
Estreitas e apertadas,
que apertam num passo,
Não sei se passo

Mas posso
Trazer-Tos e entregar-Tos aqui
Neste sepulcro que revolvi

Como um pedaço de mim
Recebido sem ter fim

sexta-feira, abril 01, 2016

Tão claro como ser dia 1 de Abril

Pelo menos em Portugal, que eu saiba, o dia 1 de Abril é um dia em que se pode mentir. É um dia em que não se levam a mal determinadas mentiras. É um dia em que uma verdade pode ser interpretada como mentira. E apetece-me dizer que é apenas mais um dia. Se calhar mais um dia de mentiras e verdades misturadas num saco a que chamamos azul, de luvas brancas, de batom nos lábios e manicura escondida. É um dia como tantos outros, em que a humanidade vive o seu mundo centrada sobre o seu ego, sobre os seus interesses, sobre o seu desejo de dominar. Uma humanidade alicerçada num antropocentrismo deísta, numa individualidade excluente, numa sociedade pluralista que tudo aceita mas que nada tolera. Uma certa forma globalizada de viver sem Deus. 
Claro que tudo isto é mentira e eu estou a brincar ao dia 1 de Abril. Claro que não me identifico com esta sociedade ou humanidade. Nem a Igreja se identifica. Nada se identifica aqui e agora desta forma. Claro que só precisamos viver um dia de cada vez e que todos sejam dia 1 de Abril. E isto é tão claro como ser dia 1 de Abril.