quinta-feira, outubro 17, 2019

O poema [poema 232]

O poema termina aqui, onde começou
Passo-o a limpo para que o possas reconhecer
Para que, lendo-o, possas entender
Que o poema é e já passou
Que tudo começa onde alguém terminou
E mesmo sem o ser
Acabou

segunda-feira, outubro 14, 2019

Missas dominicais ou mais ou menos isso

Regressei, há pouco, de duas missas dominicais, celebradas com o intervalo de cerca de vinte minutos e quarenta quilómetros. Participaram nelas um total de vinte e oito pessoas. Contei-as, porque é fácil contar estes números. Para ser mais concreto, treze numa e quinze noutra. Duas paróquias distantes uma da outra, mas unidas em similar realidade. Numa, o coro é uma senhora que repete sempre os mesmos cânticos e o leitor não varia de semana para semana. Na outra, variam os leitores, embora pouco, mas não varia a idade dos presentes, muito acima dos setenta anos. Por mais que insista, as pessoas ocupam harmonicamente a igreja, um aqui, outro ali e outro lá ao fundo. Dispersos, mas para que mais bancos da igreja sejam ocupados, digo eu. Sempre se pode dizer que havia gente em dez bancos. Terminei a manhã com a missa na minha paróquia maior. Valeu para sentir que valeu. Eu sei que aquela gente das paróquias mais pequenas não pode nem deve ser abandonada. Sei que cada eucaristia vale por si mesma e que possui a dignidade que Cristo lhe conferiu. Sei que as assembleias cristãs não deixam de ser assembleias por terem pouca gente. Aliás, gente que merece escutar a Palavra de Deus e alimentar a fé. Só não sei como manter isto, no meio de outras tantas paróquias!

quinta-feira, outubro 10, 2019

Falemos de missão ou outras coisas

Missão, Missão Ad Gentes, Evangelização, Nova Evangelização. Isto anda como andam as modas. Agora fala-se muito de Missão, porque é o termo que Francisco gosta de usar por excelência. Há uns quarenta anos, a expressão Evangelização também constituía alguma novidade. Não passou muito tempo para que se começasse a falar de Nova Evangelização, ainda que nunca se tenha percebido completamente de que se tratava. Hoje fala-se no conceito amplo da Missão, mas cada vez que se usa o termo, lá se vai o pensamento para as terras de missão, como eram conhecidas as missões ad gentes. Ainda hoje, quando nas nossas comunidades, falamos de missionários, o pensamento foge para aqueles homens que viajaram para esses países onde Cristo, supostamente, não era conhecido. Como se nós, pela nossa identidade, não tivéssemos o dever de ser missionário. Já para não falar no descuido fácil do proselitismo ou colonialismo de algumas dessas missões. Mas passemos à frente. Há quem, de modo mais pró, utilize o termo Missão Inter-gentes. Uma amálgama de tudo para todos e entre todos. Interessante. Assim como a identificação que se faz de Missão Ad Intra e Ad Extra, ou seja, a missão para dentro da Igreja e a missão para fora. Ambas necessárias. Gosto particularmente do termo Evangelizar como ‘dar a boa notícia’, a boa nova da salvação. Mas gosto de falar em Missão porque penso neste termo como vocação, como sentido da vida, como identidade. Porém, o que importa realmente não são os termos que usamos, mas que toda a nossa acção de Igreja, e como Igreja, seja permanentemente o anúncio e o testemunho da Boa Nova da Salvação. Todas as teologias, formações, catequeses, liturgias, para-liturgias, acções sócio-caritativas, planos e programas pastorais, encontros e reuniões pastorais, deveriam ser acções evangelizadoras.

domingo, outubro 06, 2019

brado [poema 231]

Esta noite preciso escrever no teu corpo,
Tatuá-lo, mais uma vez, com a palavra,
Esboçar em ti o que vejo nos espelhos,
Marcar-te com o sinal da minha ânsia,
Sussurrar-te ao coração com este peito
Rasgado por não mais saber onde é a dor,
Desfazer-me num grito a dizer quem sou:

Uma cruz que carrega o teu amor.

quinta-feira, outubro 03, 2019

esta coisa da ressurreição da carne está mal explicada, não tá?

Já estávamos levantados e a despedir-nos. Não tem propriamente fé. Tem qualquer coisa de inquietação que gostava de poder chamar fé. Mas não tem. E não é só por não ir à missa. É porque, mesmo não questionando a existência de Deus, que pouco lhe interessa, acha que estas coisas não são necessárias. Ele tenta que a sua vida tenha sentido. Lê muito. Lê muitas coisas de Deus e da filosofia destas coisas. Gosta de saber. Penso que gostaria de saber de Deus. Por isso procura-me para conversarmos. E faz perguntas. Não sei se para me experimentar, se para aprender, se para se encontrar. Tal como esta que fez da última vez que nos reunimos para uma refeição. Ó padre, esta coisa da ressurreição da carne está mal explicada, não tá? 
Lembrei imediatamente uns textos que li em tempos e que realçavam que a ressurreição de Jesus não tinha sido propriamente corpórea. Não, pelo menos, como o corpo que Jesus possuía enquanto Deus encarnado. Por isso é que os seus apóstolos não o reconheciam. Era uma outra forma de corpo. Difícil de explicar. Muito difícil. Mas também não era um fantasma. Não, não era. Era só uma forma visível de se ser que não se conseguia definir. Contei-lhe isto. E depois disse-lhe que a Igreja, na sua doutrina, nos quer ajudar a entender que havemos de ressuscitar como um todo. Como o ser que somos. Como a pessoa que somos. E que nós somos, segundo a Igreja, tal como aprendi na teologia, um conjunto de corpo e alma. Aquilo que nos faz ser não é só o corpo comandado pelo cérebro. Há algo, a que chamamos alma, que nos faz ir mais longe, para além das nossas capacidades. É a diferença com os animais irracionais. E o que ressuscita é esse todo. Não é só a alma. Na ressurreição existiremos de modo diferente daqui da terra. Ressuscitará o corpo? Ressuscita o que somos e nos constitui. Mas não será como aqui. Até porque aqui somos corruptíveis e na vida eterna seremos incorruptíveis. É por aí que deve procurar, senhor José. Sem todas as certezas. Porque certo, certo, só saberemos quando a nossa vida se atravessar para lá. Eu também não tenho certezas. Tenho entendimentos.

domingo, setembro 29, 2019

Societas perfecta [poema 230]

No teu quarto antigo vejo tudo
Vejo relíquias vestidas de mobílias restauradas
Os lampadários apagados pelo uso
As paredes de granito gasto e traça
Uma porta de madeira esquecida
Está escuro, demasiado escuro

Vejo as janelas
Mas não vejo por elas

quinta-feira, setembro 26, 2019

Cumprir a fé

Há gente que, na Igreja, vive uma relação com Deus como empregado. Vivem, como antigamente os escribas e fariseus, para cumprir coisas, numa relação interesseira do deve e haver. Nunca se assumem como filhos. Nunca agem por amor, mas só por obrigação. Nunca se sentem amados, mas premiados e ou castigados. É por isso que têm dificuldade em amar e perceber Deus nas suas vidas. Porque Deus é amor. E o amor não se pode merecer. Ou é gratuito ou não existe.

sábado, setembro 21, 2019

ave sem nome [poema 229]

As aves não têm albergue, têm ninhos
Que voam, por entre as asas,
No meio de ervas daninhas
Bebericam das águas salobres
E continuam a construir
Outros ninhos

quarta-feira, setembro 18, 2019

E se Deus fosse um de nós?

E se Deus fosse um de nós? Sim, um daqueles com quem nos cruzamos diária e distraidamente. Um daqueles mendigos, mal vestidos, a pedir a nossa atenção. Uma criança que chora porque precisa de um colo ou que passa a correr para a escola. Um jovem estudante que anseia ser alguém um dia. Um pai de família que sai de casa cedo e regressa tarde do emprego. Uma mãe que, além do emprego, cuida da casa, da roupa e da comida. Um amigo que convida para um copo e dois dedos de conversa. Uma vizinha que passa todos os dias na porta onde saio e entro, também todos os dias. Uma viúva que baixa a cabeça quando passa por mim, para esconder as lágrimas. Um senhor de idade que parece contorcer-se com as dores da vida. São tantas as oportunidades ou possibilidades de Deus ser um deles, na simplicidade e banalidade do dia-a-dia, que quase me envergonho do modo como esqueço de tratar todos os que comigo se cruzam.

sexta-feira, setembro 13, 2019

um de nós [poema 228]

Entendo-te
Como se estivesse a ver-te por fora e por dentro
Como se os sulcos da vida fossem antepassados,
Pelos meus pés vestidos de lama, endurecidos,
Trilhados pela idade, cansados

Conheço-te
Nas palavras que ficam por dizer
Nos pensamentos que são sentimentos
A querer

Sei-te
Porque me sei
E não sei viver