quinta-feira, julho 02, 2015

As pombas e o Espírito Santo

Um padre amigo contou como em tempos muito idos um missionário entrara na China para fazer aquilo que chamamos evangelização. E que ao deparar-se com a forma como as pombas eram entendidas pelos habitantes daquela cultura, achou que devia pedir ao papa da altura para lhe permitir não apresentar o Espírito Santo como uma pomba, pois os habitantes daquele local viam as pombas apenas como uns animais incomodativos e porcos. Era assim que falavam delas. Contava o padre amigo que a resposta do papa fora que sempre assim foi e que assim deveria continuar a ser. Não sei até que ponto a história é verídica. Porém, de certa forma, ela continua a acontecer nos dias de hoje quando uma igreja ocidental tenta impor a Igreja de Cristo com a sua cultura. Como se Deus só fosse autêntico no Ocidente. Como se Deus existisse no sempre foi assim ou no sempre falámos assim. Como se Deus se formatasse a uma qualquer forma de entendimento,

terça-feira, junho 30, 2015

um assunto a que não quero dar título

Há padres que se suicidam, e a notícia propaga-se, morbidamente, pelos corredores escuros dos claustros da vida. Nisto a comunicação social não se tem metido, não sei se por respeito aos falecidos ou seus familiares, se por ser uma realidade desconhecida, se porque na verdade o número é exíguo em comparação com aqueles que morrem de morte dita natural.
Mas a gente vai sabendo e, mais do que angustiar-se com a angústia, faz-se pergunta em nós da pergunta mais difícil que há. É a pergunta dos porquês? Fica-se assim a perguntar Porquê, ou porque é que a Fé não faz evitar estas coisas. Sim porque um padre deveria ser um exímio ser de Fé, e ela, que se saiba, responde como ninguém às questões da vida e da morte. Porém, o que nós esquecemos é que antes da fé a pessoa tem de ter resolvida igualmente a sua humanidade. Ninguém conseguirá um dia distanciar a sua fé da sua humanidade, ou usar apenas a fé. Nem os santos.
Outra pergunta que se faz, ou que é apenas minha e agora, é Porque é que ninguém se apercebeu ou fez alguma coisa, ou esteve ali presente para segurar o braço de quem se queria lançar no abismo. E também a resposta me veio sofrida, mas escorreita. Ninguém consegue viver nem sentir autenticamente Deus se não souber amar e viver essa maravilha do amor. Isso pode acontecer e expressar-se de muitas formas, mas tem de existir. Disso tenho a firme certeza. Pois é ou são esses amores que sustentam a nossa vontade de viver! Pois é ou são esses amores que estão ao nosso lado e nos podem segurar quando já não temos mão para agarrar ou não temos mão em nós.

sábado, junho 27, 2015

esvaziasses [poema 62]

Carcaça trajada, polida, carcaça enfim
Balão cheio, colorido, balão de ar a mim
Pipa de vinho, velha, envelhecida, sem vinho
Passo andante, corpo vestido, errante caminho

Vazío sem par nem par e em dor
E se adentrasses que fosse Senhor?

quarta-feira, junho 24, 2015

dedicatória [poema 61]

Amo em ti

Campo lavrado da casa em ruínas
Paredes brancas de pedra nua
Escadas ausentes, porta batida
sem chaves, mas amo em ti

tudo

quinta-feira, junho 18, 2015

Incêndio atinge igreja do milagre da multiplicação dos pães

Incêndio atinge igreja do milagre da multiplicação dos pães. Li a notícia a meio da manhã nas redes sociais. Vinha na página de um conhecido jornal nacional. Como já lá estive há uns anos, numa experiência de fé emocionante, fiquei triste com a notícia. O espaço nunca perderá o significado que tem para quem imagina que possa ter sido ali o milagre da multiplicação dos pães. Recordo que imaginar Jesus por aquelas paragens estremeceu em mim o que de melhor tem o meu coração. Mas o que mais me chamou a atenção na notícia foram os abundantes comentários jocosos. Copio alguns como lá estão ainda. “alguem nao prestou atencao ao forno...”; “Agora é a multiplicação do pão torrado....ou das tostas”;”Hoje há torradinhas para todos.”; “se calhar estavam a aquecer o forno para fazer os pães em duplicado.”; “Agora podem multiplicar os tijolos”; “Lá se foi a padaria do bairro,...”; “Esqueceram-se do forno aceso , agora nem pão multiplicado vão ter.”; “ao menos o pão cozido deve ter ficado”; “"Esturraram-se" as carcaças! Hahahaa”…
O ahahaha ainda soa na minha cabeça. Não é que me sinta indignado com a falta de respeito. Já estou habituado. As redes sociais dão possibilidade a todos os seus frequentadores de dizer o que bem lhes apetece sem medir a reação própria e natural do frente a frente. Além disso, faltar ao respeito não dá direito ao desrespeitado de faltar ao respeito a quem faltou ao respeito. Sim, porque a seguir logo diriam que não me podes faltar ao respeito por eu dizer o que me apetece.
Sinto-me, isso sim, espantado pelo facto de algo como uma casa que ardeu possa dar azo a piadas. Já estou a imaginar como seria comunicar a algumas dessas pessoas que gostam de rir com o mal alheio. Olhe a sua casa ardeu, ahahahah, esturricaram-se as mobílias, ahahaha, a comida que tinha na despensa já está cozinhada, ahahaha, cheira-me a esturro, ahahahah. Talvez, ou talvez não, nessa ocasião se apercebessem que o mal alheio só é alheio enquanto não nos toca a nós. Apetecia-me dizer mais umas coisas, mas não quero faltar ao respeito.

terça-feira, junho 16, 2015

Tencionas ler a nova Encíclica do papa Francisco?

Depois da última sondagem lançada pouco depois da Páscoa, e que nos perguntava se a Igreja ainda estaria muito centrada no clero (vide resultados abaixo), vamos hoje lançar nova sondagem.
“Laudato si, sobre o cuidado da casa comum” é o título da nova Encíclica do Papa Francisco sobre o tema do ambiente que vai ser lançada no próximo dia 18 deste mês de Junho, no Vaticano. A encíclica vai estar disponível inicialmente em italiano, francês, inglês, alemão, espanhol e português. A expressão 'Laudato si' (louvado seja) remete para o 'Cântico das Criaturas', de São Francisco de Assis, que inspirou o Papa argentino na escolha do seu nome, após a eleição pontifícia.
A questão que agora colocamos é muito simples e directa: Tencionas ler a nova Encíclica do papa Francisco?
Já sabem que podem expor as suas razões nos coments, e inclusive falar das expectactivas que têm.

sexta-feira, junho 12, 2015

O charlatão do restaurante

O meu cunhado é sócio de um restaurante onde vou de vez em quando visitá-lo e comer. Por lá sabem e comenta-se que ele tem um cunhado padre. Há dois dias fiz uma dessas visitas, e pedi, com fome, uma sopa e um segundo prato. Ainda não acabara a sopa quando um dos empregados me perguntou se o senhor ao balcão se podia sentar na minha mesa para conversar. Respondi que sim e fiz espaço.
O dito senhor apresentou-se como um charlatão de há três meses a esta parte. Advertiu que não acreditava em Deus, mas precisava falar. Enquanto espetava umas garfadas na comida, escutei os últimos três anos da sua vida, que vai nos setenta. A esposa tinha falecido com cancro há três anos e a filha há um com uma doença fulminante. Há três meses tinha-lhe sido diagnosticado um cancro inoperável, pois já não havia nada a fazer de tantas metástases. Não tinha medo da morte, mas precisava falar e eu, porventura, era um bom alvo de conversa. Ouvi sem o interromper muito, até nos fazerem sinal de que tinham de levantar a mesa. No final falei-lhe rapidamente de alguns casos idênticos que acompanhara e aos quais a fé ou a certeza de Deus dera a força que precisavam. Que Deus não nos resolvia os problemas, pois eles fazem parte da nossa vida aqui na terra, mas que dava a força necessária para os viver e para que o sofrimento pudesse ser algo revelador. Não quis concordar muito, mas à despedida, num aperto de mão agradecido, foi dizendo que ia pensar no que lhe disse e quem sabe se não se convertia.
Ao que lhe respondi que por algum motivo escolhera sentar-se ao lado de um padre para que o escutasse, e que eu aceitara exactamente pelo mesmo motivo.

quarta-feira, junho 03, 2015

explicação do mundo [poema 60]

Vai verde na foice e na manhã do tempo
Volta, a voltar cada página do livro branco
Sem explicação que seja o tempo e voe

O mar vai e vem nas ondas negras
O azul do céu pousa e dá-lhes nova cor
Sem explicação que seja o vento e sopre

Em quatro patas se constrói o dia
De amarelos e de flores e outras cores
Sem explicação que não seja o Criador

Sem explicação

sexta-feira, maio 29, 2015

Conversas com gente de idade

Conversas com gente a que costumamos designar de idade, como se as outras não tivessem qualquer tipo de idade. São aqueles a quem já perdoamos tudo, mas para com os quais temos algo próximo da comiseração, o que não pode ser bom. São aqueles que entregamos à noite da vida, como se já não tivessem luz para iluminar. Mas são esses os que mais sabem da vida, os que mais nos podem ensinar da vida. São os que já viveram.
Olhe, senhor padre, aqui estou sem forças. Olhe, senhor padre, que tenho esta doença. Já não vejo para ler. Já não ouço quase nada. Quando eu era jovem. Enquanto poder, não preciso que me ajudem. Era bem melhor estar na minha casinha. A vida é assim. Os meus filhos não me vêm ver. Vou-me entretendo a rezar. Já não sei que faço aqui. Era melhor o Senhor me chamar. Estas pernas não ajudam nada. Vou outra vez ao médico. Já fui operada oito vezes. Tomo nove comprimidos por dia. Não consigo comer sozinha. Aqui estou como Deus quer. Faça-se a vontade de Deus.
São aqueles que nos ensinam que a vida tem valor até ao fim, mesmo quando parece que já não há vida. São aqueles que vivem de forma diferente, sem correrias, sem pressas. São aqueles que gastam o tempo a viver. Que fazem tudo para viver, mesmo quando lhes apetece morrer. São aqueles que mais facilmente se entregam ao Senhor, porque são aqueles que dão conta que precisam Dele. São aqueles que um dia seremos nós, e com os quais deveríamos aprender a viver, mesmo que nos falte vida.