quinta-feira, outubro 22, 2020

A pandemia descristianizante

Há dias, um cardeal, o cardeal Jean-Claude Hollerich, disse, numa entrevista, que a pandemia tinha acelerado a descristianização da Europa e que muita gente que ia à missa só por um hábito cultural deixaria de ir. E acrescentava que a pandemia só adiantara um processo que, na sua opinião, apenas tinha sido adiantado uns dez anos. E é capaz de ter alguma razão este cardeal. 
Iniciámos a catequese da paróquia nestes dias. De entre as festas da catequese que ficaram por fazer no ano pastoral passado, quisemos começar pelo sacramento da Eucaristia, a festa da Primeira Comunhão. Vamos realizá-la em breve, assim Deus e as circunstâncias o permitam. Para a preparar, reunimos os pais, obviamente que com os cuidados necessários derivados da pandemia. E ali estavam três dezenas de rostos que há muito não vejo na igreja. Graças a Deus que estavam ali. Mas, infelizmente, não os tenho visto nas celebrações da comunidade. 
Na verdade, a pandemia veio hipotecar um certo trabalho que esta minha comunidade cristã vinha fazendo com os pais dos nossos catequisandos e com o qual se vinha aumentando o número de pais e crianças na eucaristia dominical. Mas agora não têm ido. Independentemente das razões, dos medos, das inseguranças de cada um, o cardeal é bem capaz de ter alguma razão. Esta pandemia não tem ajudado a alimentar a fé comunitária. Pelo menos essa. Ou pelo menos a dimensão comunitária da fé, que tão importante é para alimentar a verdade de uma fé que vive o “nisto conhecerão que sois meus discípulos; se vos amardes uns aos outros”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Queres ficar à missa?"

terça-feira, outubro 20, 2020

O paroquiano que reza pelo seu pároco

O senhor Manuel, que é um bom homem e é meu paroquiano, dizia-me que todos os dias rezava por mim. Como eu achava aquilo fantástico, gostava de o ouvir. Creio que ele também gostava de o repetir. E um dia destes, num dos nossos diálogos, regressámos ao assunto. A sério? Mas reza mesmo todos os dias por mim? Agora fora de brincadeiras, reza todos os dias por mim? Insistia eu. A resposta não se fez esperar. Mas não foi propriamente a que eu estava habituado a ouvir. Sim, senhor padre. Eu também rezo todos os dias pelos pecadores. 
Não sei se lhe saiu assim, se respondeu sem pensar, se respondeu com maldade, ou com intenção natural de nos rirmos. Mas que me ri, ri. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O burro do Alfredo"

sexta-feira, outubro 16, 2020

Gostar das pessoas

Foi num país africano que ocorreu o que vou contar. Era, na altura, um país onde os missionários ad gentes andavam de terra em terra, ou de missão em missão, como diziam, para cuidar das almas daqueles convertidos. O padre João fazia parte deste grupo de missionários. Tinha fama de zeloso e de realizar bons trabalhos de evangelização. Prova disso era o tempo que despendia a escutar as pessoas. Durasse o tempo que durasse. Como aconteceu num determinado dia, data que interessa pouco porque fazia parte de um dia normal e os dias normais a gente não sabe datar. O que interessa é que o padre João, nesse dia, estivera três horas a escutar um velhinho. O professor lá da terra que, de longe, tomara conta desta acção do padre João, no dia seguinte foi ter com ele para lhe dizer, com agrado, que já tinha percebido que o padre João gostava muito deles. Que gostava muito desta gente lá da terra. Como o nosso amigo padre não percebera onde fizera essa descoberta, perguntou-lhe porque fazia tal afirmação. E o professor respondeu. Só quem gosta muito de nós pode estar três horas a ouvir um velhinho. 
 
 A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Que esse Jesus não era um gajo fixe"

terça-feira, outubro 13, 2020

madrugada [poema 287]

Caíam do céu gotas de água tépida 
No desnudado da madrugada 
Nos corpos misturados ao amanhecer 
E assim se apagava o desenho dos corpos 
E da madrugada

sábado, outubro 10, 2020

Uma fé que quer Deus sem esforço

A Olívia é uma jovem mãe com duas filhas em idade de crescimento e andam na catequese. Tem olhos de quem Deus lhe diz alguma coisa. Tem expressões que me parecem do mesmo som das de Deus. Ressoa um pouco de Deus. Mas não vai à missa, esse acto relacional da comunidade a que chamamos, e bem, sacramento da eucaristia. Tem as suas ideias. Gosta de Deus. Quer que Ele esteja presente na sua vida, sobretudo agora que está doente. Mas não quer esforçar-se por Ele. 
Eu não posso afirmar que a Olívia não esteja a fazer um caminho de fé interior. Mas, às vezes, de tão interior que a fé se torna, ela passa ao plano do privado e esquece que a própria intimidade com Deus é uma relação de afecto que precisa de aprender-se no afecto com o outro ou os outros. Ela não quer esforçar-se ou não sabe que precisa de se esforçar por Deus. Como no namoro ou no matrimónio, quem ama precisa esforçar-se pelo amado. Ao menos para explorar o profundo desse sentimento relacional. Quem ama não pode contentar-se com o sentimento que nutre pelo amado. Precisa esforçar-se por ele! Torná-lo fecundo. 
É um pouco assim que eu vejo a fé de muitas outras olívias pelo mundo fora, que até são coerentes e autênticas num certo sentimento que têm com Deus, mas não se querem esforçar para além desse sentimento, fruto de uma sociedade sem compromisso, responsabilidade e sacrifício, uma sociedade líquida à qual basta a superficialidade das relações, mesmo que sejam verdadeiras. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Queria saber como posso ter fé"

quarta-feira, outubro 07, 2020

desejo [poema 286]

O que desejo tocar quando abro a mão 
É esse espaço que és tu 
Sem forma no fotograma dos tempos 
E que tento desenhar com um dedo no 
Chão 
 
Para que a terra seja a ponte com o céu 
E o ar o espaço que de ti se torna 
Meu 
 
Este desejo de te suster na respiração 
No acto de te inspirar 
e ficar 
 
na mão.

domingo, outubro 04, 2020

O retiro e a percepção de Deus

O que vai fazer ao retiro, senhor padre? Encontrar-me com Deus, respondi. Mas Deus não está em toda a parte? Está, respondi, intrigando-me aos poucos com as perguntas que surgiam, umas atrás das outras. Se está em toda a parte, não podia encontrar-se com Deus no meio das outras pessoas? Claro que podemos e devemos encontrar-nos com Deus no outro. Sendo sua imagem, o outro será sempre a melhor forma de criar Deus numa imagem que é a nossa tradução de Deus. Mas… e sem que eu tivesse tempo para o Mas, ele insistiu. Então porque se tem de afastar das pessoas quando faz um retiro? Ele esquecia que a gente não se afasta das pessoas quando se afasta fisicamente delas para um deserto a sós com Deus. Elas vão connosco, porque a nossa afectividade vai connosco para todo o lado e as pessoas que amamos transportamo-las no coração. Nunca saem desse local tão especial dentro de nós. 
O António não parava a sua inquietação, e a rua onde nos encontrámos naquela tarde, depois da missa onde informara as pessoas que ia estar uns dias em retiro, parecia um ringue de uma luta entre os dois e connosco próprios. Ou comigo. Porque na realidade, há pensamentos que só são reais em nós quando temos oportunidade de os dizer em palavras. 
Ó senhor padre, quando, de manhã, me levanto e vou para o meu emprego, Deus não fica na cama, pois não? Desta vez ria-se, porque queria dar um ar de graçola. Ó senhor António, hoje deu-lhe para se meter comigo. Se Deus está em toda a parte, olhe que esteve na cama consigo e sua esposa. Assim como está no carro onde se desloca e no seu local de trabalho. E acrescentei Mesmo que O não queira lá ou não dê conta da Sua presença. Não desarmou, porém. E o ruído, senhor padre? Não há Deus no ruído? Apanhou-me desprevenido, raios partam o António. E obrigou-me a desfazer a frase feita do Deus que se encontra no silêncio. Claro que Deus também está no ruído. 
Então porque vai para um retiro de silêncio, afastado das pessoas e das suas rotinas para se encontrar com Deus? A diferença, senhor António, não estão no lugar onde encontramos Deus, porque o encontramos em todo o lugar, mas na percepção que fazemos dessa presença. E quando paramos as nossas coisas do dia a dia, com as quais nos ocupamos ou sobreocupamos, há uma outra percepção ou pré-sentido de Deus. 
Num retiro, os sentidos apuram mais a Sua presença, porque nos gastamos só em procura-lo. É como se O olhássemos olhos nos olhos, o ouvíssemos na ausência de palavras, inalássemos o seu perfume, saboreássemos o seu gosto e o tocássemos com coração. No deserto do retiro aprofundam-se os sentidos de Deus e, portanto, a Sua presença. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O meu retiro"

quinta-feira, outubro 01, 2020

Às vezes infantilizamos o sacramento da penitência

Dizem por aí que as pessoas se confessam cada vez menos. Ou que há menos pessoas a confessar-se. Assim como também há cada vez menos padres a disponibilizar tempos e espaços de confissão. Há uma grande probabilidade de tudo isto ser verdade. E isso, de certo modo, fala da imaturidade da fé ou espiritualidade dos nossos cristãos. 
Contudo, também podemos falar daqueloutro grupo de pessoas que, dentro do grupo dos que ainda se confessam, o fazem para cumprir. E dizem coisas que já não lembram a ninguém. Não mato e não roubo, senhor padre. E fica-se por aí. Não gosto deste tipo de confissões como máquina de relatar pecados em série, que afinal são não pecados. Uma vez por ano tenho de confessar-me. Não interessa como. Não interessa porquê. Nem para quê. Interessa que cumpra. Se o padre sugere uma Celebração Penitencial, que é isso? Perguntam. Não faz sentido. O meu sentido é aquilo a que me habituei. E faz-lhes sentido que assim seja. 
E depois temos pessoas que se confessam a dizer o que não fizeram. Ou as virtudes que fizeram. Ou então resumem o seu pecado a pormenores que não entram dentro do coração ou da vida da própria pessoa. As pessoas nem fazem exame de consciência. Que é isso, senhor padre? Já para não referir o número de pessoas que se ajoelha e diz: Senhor padre, não sei o que confessar. Pergunte-me lá. Porque se habituaram a que o padre indicasse quais eram os seus pecados. Tipo pergunta-resposta, ou teste de cruzinhas. Às vezes infantilizamos o sacramento da penitência. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma confissão ou um abraço?"

terça-feira, setembro 29, 2020

O nome [poema 285]

Daqui houve um nome que se ouviu no eco 
Um nome que se diz em surdina às paredes 
Com as trepadeiras a entrar pelas janelas 
O vidro baço que as segurava entre madeira antiga 
Um nome que nem se sabia que nome era 
Mas dizia-se, em palavras que se sentiam 
Pulsar entre mãos de terra húmida e corações 
A sangrar. 
 
Eu sou aquele que sou

sábado, setembro 26, 2020

A sociedade irritada V

Hoje usamos as redes sociais porque, para além de ser moda, é o foco da nossa personalização ou identidade, o local onde, como os adolescentes em tempos de emancipação, se procura manifestar uma personalidade. Ou melhor, para se dizer que se existe. Como se isso fosse a personalidade de uma pessoa ou a identificasse! Por isso as redes sociais se tornaram o mundo das opiniões, dos comentadores de bancada, dos julgamentos sem juiz. Por isso se tornaram o álbum favorito das nossas pequenas demonstrações do que visitamos, do que vestimos, do que comemos, das pessoas que nos acompanham, do que fazemos… mesmo que isso diga apenas uma muito ínfima parte de quem somos. Mas o importante é mostrarmos que somos! Por isso somos cada vez mais virtuais e a nossa personalidade é cada vez mais bipolar.