sábado, dezembro 07, 2019

Uma Maria qualquer [poema 238]

Eu vi uma mulher com vestido sem cor
Percorria os corredores da procissão
De mil véus para tapar rostos desfeitos
Rasgados, esquecidos, amortalhados

Vi uma mulher que era como um conto de fadas
Uma história de encantar, porque me encantava
Por entre os corredores das procissões vazias

Vi uma mulher calçada com mãos agarradas,
a adormecer no caminho do céu

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Comungar por comungar

Rodeada dos seus netinhos, era uma velhinha muito sorridente. Contava muitas histórias dos tempos da sua meninice e era um gosto escutá-la. Contudo, há dias encontrei-a a chorar compulsivamente, embora as lágrimas fossem pequeninas e o rosto não desenhasse de forma clara o seu caminho. Um dos netinhos ia fazer a Primeira Comunhão, e convidara a avó. Ia fazer uma grande festa. A cerimónia era às onze horas, mas antes disso os convidados tinham um pequeno repasto em casa. Por isso a avó chorava. Chorava ao recordar a sua primeira comunhão. Nesse tempo era obrigatório estar vinte e quatro horas sem comer para poder comungar. Por vezes, algumas crianças não aguentavam e desmaiavam. Ela não aguentara, e umas horas antes da Primeira Comunhão, dera um salto á cozinha e, às escondidas, assaltara o cozido meio à portuguesa que a mãe dela fizera para depois da festa. Chorava com remorso. Nunca confessara esse pecado. Tinha vergonha de não ter sido tão forte como Deus merecia. Não O ter respeitado como devia. E agora, ao ouvir o convite do netinho, o passado voltara a ela. Na verdade, ao longo da sua longa vida, tinha entendido que, afinal, não se desrespeitava Deus matando a fome. No entanto, dava conta que agora já nada disso era importante e chorava. Ai, senhor padre, há tanta gente que não guarda nenhum jejum antes de comungar. Há tanta gente que vai comungar sem estar confessada. Há tanta gente que vai comungar em pecado. Há tanta gente que vai comungar sem saber o que vai comungar. Sem perceber que é Deus que entra em nós para entrar em comunhão connosco. A avozinha estava triste porque hoje a comunhão já não era bem comunhão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os meninos da Primeira Comunhão"

domingo, dezembro 01, 2019

O padre em quem Deus acreditava

É um padre dos antigos. Não é daqueles antigos que permanecem no tempo como peças de um museu de antiguidades. É um padre vivido. Com uma vida de sacerdócio de dezenas de anos a correr com gosto. Claro que não é um padre isento de problemas. Creio que também não é isento de dúvidas. Foi assim que se abeirou de mim. Desabafou com gosto e entusiasmo, ainda que cheirasse a receio. Isto é, sorria e, ao mesmo tempo, virava os olhos para o lado. A verdade é que também há uma distância no tempo que nos une. Ele tem mais uns vinte e cinco anos que eu. 
A conversa surgiu com uma certa naturalidade, é certo. Como dois colegas unidos pelas mesmas circunstâncias de vida. Por muitas correrias e muitas chatices. Sabes, rapaz. Foi assim que me chamou para dizer o que ia dizer. Talvez para dar maior autoridade ao que ia referir a seguir. Sabes, rapaz, Deus acredita em mim. Repetia num outro tom de voz mais próximo do sussurro e do meu ouvido. Deus acredita em mim. E isso é o que me importa e o que me vale. 
Olhei-o a tentar entrar mais para dentro das palavras que acabara de escutar. Olhei-o e fiquei com os olhos parados nele. Ou nas palavras. Queria escutá-las de novo. Bebe-las até à última gota de sentido. Até secarem e atravessarem o nosso olhar, passando dele para mim. Tal como a segurança de vida e vocação deste meu colega. Sentir que Deus acredita em nós.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Afinal isto é Dele e não meu"

Nasce neste Advento de 2019 esta pequena rúbrica a que chamarei "A propósito ou a despropósito" e que pretende recordar ou revisitar textos antigos, que irei buscar ao "baú", e que estejam mais ou menos a propósito do texto agora publicado, ou então que, pelo menos, façam sentido, na minha cabeça ou coração, revisitar.

sexta-feira, novembro 29, 2019

Meu tu [poema 237]

Devias morar onde mora
o meu eu

Nessa hora sem ponteiros
Nesse mar que não desaparece
Nesse espaço sem medida
Nessa montanha que cresce
Nesse mais íntimo da vida
Que não sou eu senão
Tu
ou Tu e eu

terça-feira, novembro 26, 2019

O padre que mora na catequese

A senhora professora de moral é amiga do senhor prior. São amigos de longa data. De andanças das catequeses e das pastorais juvenis. Até se tratam por tu. E a senhora professora, enquanto preparava o acolhimento na sala do primeiro ano, precisou de falar com o pároco onde está a dar aulas para combinar algo com ele, o tal amigo. Na dita sala já se encontrava um dos pequenitos alunos que, achando estranha a conversa, perguntou à professora. Estás a falar com quem? Ela respondeu com a mesma simplicidade. Com o senhor padre. Insistiu o pequeno. Aquele que dá a missa? Sim, aquele que celebra a missa. Mas, como o pequeno, de vez em quando vai a outras paróquias, continuo o interrogatório. O que mora na catequese? 
Olha o que nos rimos com o petiz. Porque as pessoas moram onde são vistas, certo? Apetece fazer ou desenhar um lol.

domingo, novembro 24, 2019

A sociedade irritada II

Na sociedade em que vivemos está na moda o insulto. Mesmo não sendo anónimo, quase sempre no anonimato. Quase sempre virtual. Quase sempre fora do real. Mas que dói como realidade. Nunca ou quase nunca cara a cara. Os insultos na cara são punhos erguidos. Mas também são saco de boxe. É a sociedade das redes sociais que são pouco sociais. Uma socialização de irritados com a vida. Que para ali vão debitar as amarguras de uma vida atrás da realidade, num écran que fabrica opinadores de serviço. Sociedade virtual. Quer-me parecer que vivemos numa sociedade mal resolvida e constantemente irritada.

quinta-feira, novembro 21, 2019

O morto que não queria nada com Deus

A história passou-se com um senhor que nunca quisera nada com Deus, que nunca fora visto na missa, que dificilmente se abeirava do padre ou da Igreja. Não se dizia ateu, porque não sabia bem o significado dessa palavra. Contudo, dizia, à boca cheia, que não acreditava em Deus nem nessas coisas dos padres.
Um dia, porém, o padre foi informado que o referido senhor se encontrava nas últimas. Foi informado só por acaso, isto é, caso o padre quisesse lá passar. Embora sabendo que não ia adiantar muito. E o meu amigo padre foi. Recorda-se bem que começava a fazer escuro e que, quando chegou a casa, já o corpo do senhor estava coberto por lençóis, e ainda que havia gente a andar de um lado para o outro a fazer preparativos não sei bem de quê. Estava dado como morto. Mas o padre não resistiu em se abeirar dele e levantar o lençol para lhe ver o rosto. E quando o fez, deu-lhe a impressão de que teria havido um ínfimo pestanejar. Por isso, e sabendo que o ouvido era das últimas coisas que se perdia, começou a falar-lhe do perdão de Deus, da absolvição, da Unção dos Enfermos. O corpo, de facto, ainda não estava frio quando este meu amigo o ungiu com o óleo dos enfermos. Nisto, contou, aconteceu o inusitado. O homem pegou-lhe na mão, e disse, em bom som, Obrigado. E depois suspirou e faleceu.
E contava-me o colega que, para ele, tinha sido uma evidência de que a salvação não exclui ninguém.

terça-feira, novembro 19, 2019

luzes sem luz [poema 236]

Sinto, cada dia mais, a necessidade de apagar as luzes
Ou fechar os olhos dentro delas, apoucar-me
Vestir os mais pequenos tamanhos de roupa
Apanhada no estendal que houver mais escondido
No meio da selva que os dias abrem à luz

No meio das milhares de luzes
Meio acesas, por fora,
Meio apagadas, por dentro.
Sinto, cada dia mais, a necessidade de não ser
Senão um pontinho de luz
a crescer

domingo, novembro 17, 2019

Vinha-se confessar ou parecido

Vinha, despachada, enquanto me preparava para confessar, a pedido de um colega, numa paróquia vizinha. Era uma jovem risonha, sem dúvida. Vinha-se confessar, mas não sabia o que estava a fazer e, segundo me disse, não se recordava de se ter confessado nunca. Mas ria-se. E ria-se. Não sei se de incómodo, se de azia, se de nervosismo, se de graça. A graça que tinha tudo aquilo. Porque, tenho a certeza, se lhe falasse da graça de Deus, ela ia continuar a rir. Não sabe esse termo. Usa-o só por piada. E conhece uma senhora velhota que tem esse nome ou parecido. Não sabia, como era de esperar, o que era um exame de consciência ou um acto de contrição. Não sabia o que era sequer o pecado. Ela não tinha. Foi o que disse. Nem sabia bem o que era isso. Foi o que disse. Mas nunca ouviste falar de pecados? Perguntei. Que eu me lembre, não. Respondeu. Não desisti dela. Não desisti da confissão. Fizémos o que foi possível. Embora desconfiado, creio que a graça sacramental ou a graça de Deus é maior que todas estas coisas. Mas quando lhe perguntei porque estava ali, respondeu que estava ali, sem saber muito bem porquê, mas tinham-lhe dito que, para se crismar, tinha de se confessar.

sexta-feira, novembro 15, 2019

meu peso de amor [poema 235]

O peso do teu amor é uma cruz
Toma-se-lhe o tamanho pela dor
Cresce como uma nascente que não seca
No coração

Não tem lábios o teu amor
Tem paladar, tem muita dor
No coração

O teu amor tem o peso que é uma cruz
inteira, um coração