sábado, junho 25, 2016

A justiça de Deus

Estava em pausa para um delicioso café com uns paroquianos quando da mesa ao lado e em tom de meter-se com o padre, se ouviu um Deus devia ser mais justo. O senhor que proferira a frase explicou depois, dirigindo-se na minha direcção, que achava que Deus deveria ser igual para todos. E que deveria fomentar na terra a igualdade de oportunidades. Porque é que alguns tinham tanto e outros tão pouco! E porque é que os maus eram os que mais sorte tinham na vida! 
A ocasião deu-me a oportunidade de abordar o assunto da forma como o tenho pensado muitas vezes e que agora resumo. Nós estamos embrenhados na justiça dos homens, num tipo de justiça que trata ou quer tratar todos por igual. Basta imaginar o que numa empresa fabril é considerado como igualdade de direitos e de remunerações. Deus não funciona assim. A justiça dos homens também é costume traduzir-se no tratamento por merecimentos, isto é, uma justiça que opera segundo se merece. Deus não funciona assim. A justiça de Deus não é como a justiça dos homens. 
A justiça de Deus não é fazer igual aquilo que não o é, porque completamente distinto e único, nem fazer como se merece. A justiça de Deus é fazer como se precisa. Como cada um precisa. Nem sequer é como cada um quer. É como Deus entende e sabe que cada um precisa. Não é tratar por igual, mas com o mesmo amor. A justiça de Deus é a justiça que ama.

sábado, junho 18, 2016

as janelas parede [poema 110]

Trepa as paredes brancas pintadas de fresco
A primeira janela está cerrada e a segunda,
As restantes não se abrem, mesmo de dentro
As mãos de tinta escorregam e não há pincel
Não há mais nada para além de paredes e janelas
E um homem que trepa as paredes em busca
De janelas abertas para um mundo que não sabe

Aos poucos o peito amalgama-se com as paredes
Deixa de ser peito para ser parede em busca de janelas
O corpo humano fica todo ele da cor dessa procura
Às tantas desaparece no meio das paredes níveas
Ninguém o vê, ninguém o descobre, mas ele está
No meio das janelas que já não precisa abertas,

As janelas que são parede

quinta-feira, junho 16, 2016

aceitação [poema 109]

Aceitar que a árvore é árvore e não floresta
Que a floresta está na terra e não no mar
Que o mar tem peixes e não pássaros
Que os pássaros debicam e não mordem
Que as pessoas não devem morder a árvore
Que a árvore, a floresta, o mar e os pássaros
Não são pessoas de um conto de Andersen
É ser-se assim como se é e assim aceitar
Para além do que é aceitar em mim ou em nós
Longe do que se pode simplesmente aceitar

sábado, junho 11, 2016

A Igreja da senhora Matilde ou não

A senhora Matilde teve a coragem de me dizer que não precisava da Igreja para nada. A mesma Matilde que marcara reunião com o pároco, isto é, comigo, por causa de um baptizado que queria da Igreja. Faz parte, por conseguinte, daqueles meio cristãos que se dizem inteiramente cristãos e que vão em busca da Igreja quando sentem necessidade, cultural ou festiva, específica da Igreja. Uma necessidade que lhes vem dos seus antepassados e não provavelmente de Deus. Continuava a senhora Matilde a conversa, olhando o relógio do telemóvel, porventura com medo que o tempo corresse atrás de si, dizendo que acreditava em Deus e isso bastava. 
Perguntei-lhe então se tinha fé, e repetiu o que afirmara antes, que acreditava em Deus. Com três ou quatro observações desconstruí e desarmei as afirmações da senhora, mas a ocasião fez a reflexão, e da reflexão vieram as perguntas sobre quem fez a Igreja ou quem a fundou, e qual a sua necessidade verídica. Essa reflexão acabei por fazê-la em casa, no meio dos meus papéis. 
Jesus não fez uma Igreja. Não encarnou para fundar uma Igreja. A Igreja é de Cristo. Mas o que fez a Igreja foi o impacto que Ele teve nas pessoas. Podemos dizer que houve dois impactos. 
O primeiro tratava-se do impacto que a pessoa fascinante de Jesus provocava. Uma pessoa, como alguém dizia, com uma harmonia, equilíbrio e personalidade fora do mundo habitado. Foi este impacto que originou os discípulos, isto é, aqueles que seguiam Jesus como um mestre. 
Depois veio o impacto da ressurreição que provocou nos discípulos a necessidade de serem missionários, isto é, de partilhar a graça que haviam testemunhado. Este foi o impacto genuíno da fé. O impacto que originou aquilo que hoje chamamos fé. Foi ele que, com o tempo, gerou a Igreja, o conjunto dos discípulos missionários que não podiam mais calar a vida que os habitara após o encontro com Cristo. Foi esse impacto, a que a Igreja dá o nome de Espírito Santo, que, embora não fundando propriamente, gerou no coração dos discípulos a necessidade prática da Igreja como instrumento para continuar a missão do próprio Jesus. 
Que pena que tantas vezes pareça ainda não termos tido esse impacto em nossas vidas e que pena ainda confundirmos a Igreja de Cristo, que é humana, com uma instituição meramente de homens.

quinta-feira, junho 02, 2016

A que deve hoje a Igreja dar mais importância?

Depois da última sondagem que perguntava sobre as obras espirituais de misericórdia que mais praticávamos, e na qual se obtiveram os resultados a seguir anexados, vem agora nova sondagem.

Desta vez a pergunta surge diante das diversas missões ou funções que a Igreja presta ou deve prestar de forma singular: A que deve hoje a Igreja dar mais importância? 
Insistimos que a ideia é realçar aquela que deveria ser a sua prioridade, embora sabendo que, de certo modo, todas são importantes. Já sabem que podem/devem deixar vossas opiniões comentadas!

terça-feira, maio 31, 2016

Uma conversa de acolhimento e imposições

Pediu um minuto que tardou quinze, e disse que era uma palavra que transformou em tantas quantas cabiam em quinze minutos. Não foram mais, nem palavras nem minutos, porque estavam umas quarenta pessoas esperando a missa que iniciou passados dez minutos da hora prevista. O excesso de pontualidade que me caracteriza foi interrompido pela minha vontade séria em acolher a senhora, apesar de que ela só pretendia ouvir um Sim ao que pedia, e mais nada. Por isso falou e repetiu que a Igreja não era aberta. Como se ela tivesse que ser escancarada. Usou reiteradamente o nome do Papa para dizer que ele sim, que ele acolhia as pessoas nas suas necessidades. Como se alguma vez ele tivesse afirmado que já não era preciso os padrinhos terem fé para acompanhar seus afilhados no crisma. Ou como se ele tivesse mudado o catecismo. Ou as normas para aceder aos sacramentos. Uma coisa é acolher e outra dizer que sim a tudo. Mas parece que agora está na moda invocar o papa para dizer aquilo que ele não diz a fim de se conseguir a todo o custo um Sim laxista, facilitista e light, expressões que o papa insistentemente usa para afirmar que não pode ser assim. Que não pode nem deve existir laxismo, facilitismo e fé light. 
Perguntou-me se havia alguma solução e eu respondi, com um sorriso, que sim, que a senhora que pretendia ser madrinha também se podia crismar. Perguntou se poderia simplesmente apresentar-se na celebração, e respondi, com um novo sorriso, que teria de fazer um caminho de autenticidade para não receber uma coisa, mas um sacramento. Interrompeu-me então porque nem ela nem a pretensa madrinha aceitariam essa imposição. Na verdade, estava a fazer-lhe uma proposta que ela interpretou como uma imposição. E como já estava cansado, e sem sorrisos, pois já se me haviam esgotado, tive de perguntar-lhe: então a senhora não quer que lhe imponha nada, mas está há quinze minutos a tentar impor-me a mim?! 
Convenhamos que não há forma de acolher quem não quer ser acolhido e a quem tão só interessa senão um Sim. Talvez por isso ela só pediu um minutinho, pois para dizer sim bastaria. Para acolher é preciso muito mais caminho que nem os minutos nem as palavras conseguem contabilizar. 
Não relatei todo o teor da conversa, e em abono da verdade, há que dizer que depois disso já falámos largos minutos, já pediu desculpa pela abordagem menos cuidada, já aceitou as soluções que encontrámos em conjunto. Mas escrevi na altura o que sentia, porque geralmente quem menos aceita são os que mais impõem. E isto ocorre diariamente nas nossas igrejas.

domingo, maio 29, 2016

um dia [poema 108]

Não tenho ninho permanente nem toca onde abrigar-me
Tenho tão só um novo mundo recriado em quatro paredes
Quatro portas de quatro quadrantes todos diferentes
Não são paredes como empreitada entregue a alguém
Não são portas de fábrica em série e em madeira
São portas que são minhas, abertas para possibilidade de ser...

quinta-feira, maio 19, 2016

se a deus [poema 107]

Se ao menos o céu caísse a pique
E entrasse pela janela fechada adentro
Como se guardasse

Se ao menos a árvore falasse
E sussurrasse na mão do lenhador
Como se quisesse

Se ao menos a pedra voasse a rir
E não quebrasse o coração partido
Como se fosse

Guardaria o deus de papel
Como se fosse
carne

quarta-feira, maio 18, 2016

O senhor padre está aqui para servir

Não se passou, mas podia passar-se assim. Imaginei uma qualquer senhora no meu encalço para que lhe acedesse a um desejo. Um desejo daqueles que, embora plausíveis, são inadequados ou pouco possíveis. Imaginei um daqueles pedidos relativos a uma missa numa hora que lhe seria agradável e num horário que me seria impossível. Ou um baptismo desta ou daquela forma, distinto do sacramento. Ou um papel urgente de um registo que não existe. Coisas assim que ocorrem muitas vezes e diariamente aos padres. 
Imaginei a senhora de olhos, primeiro arregalados e cheios de ternura para convencerem, e depois arregalados, abertos e carregados, para insinuarem, dizendo. O senhor padre está aqui para servir. 
E não é que tinha razão! Essa é a nossa missão, ao ponto de estarmos ou devermos estar para o outro como ele necessita. Era verdade o que ela dizia. Esquecia porém que, como um pai serve mais o que os filhos precisam do que o que os filhos desejam, eu deveria servir o que ela necessitava e não o que queria. Esquecia porém que não se consegue dar pão quando só se tem a farinha, ou não se consegue fazer omeletas se não se tem ovos. Esquecia porém que mais do que servir cada homem, eu estava para servir Deus em cada homem. Não sabia, cuido eu, a distinção entre bens que queremos e o Bem Maior. E que era esse que eu gostaria de servir!

segunda-feira, maio 16, 2016

às vezes queria gostar [poema 106]

Às vezes gostava de pensar a vida como imaginação
Contar barcos de papel e ovelhinhas para dormir
Em sonho e em vasos de flores em cor de sépia.

Às vezes gostava sentir-me estrangeiro em mim
Montado no meu unicórnio azul com asas verdes
Em criações que fossem espaços indizívelmente.

Às vezes gostava de morrer para lá de aqui
Num pássaro sem asas mecânicas e horas mortas
Em circunferências que distam da circunferência.

Às vezes gostava de não ser para ser qualquer coisa
Que não sei palavrear, mas queria que fosses tu