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quarta-feira, março 04, 2026

a propósito dos diáconos permanentes

O número de diáconos permanentes em Portugal aumentou mais de 70% desde 2010. Quando a 8 de dezembro de 1984 foram ordenados os primeiros quatro diáconos permanentes em Portugal, na então jovem Diocese de Setúbal, por iniciativa do seu primeiro bispo, D. Manuel da Silva Martins, não se imaginava que o número de diáconos permanentes fosse aumentando a uma velocidade considerável. Segundo o Annuario Pontificio 2025 e o Annuarium Statisticum Ecclesiae 2023, os diáconos permanentes constituem o grupo de clérigos que cresce mais rapidamente no mundo. O seu número chegou a 51.433 em 2023. Lembrando como a Igreja se foi organizando e construindo nos seus inícios, considero estes dados uma enorme graça. Contudo, e olhando a realidade por outro prisma, não deixo de me fazer a pergunta sobre se não estaremos a assistir a uma clericalização do diaconado ou, pelo contrário, a uma laicização do sacramento da ordem. O risco de clericalização surge quando o diácono entende ou vive o seu ministério como uma forma incompleta de sacerdócio; quando mede a sua eficácia pastoral pela sua proximidade funcional ao altar e à liturgia; quando adopta estilos e linguagem que não brotam da sua própria identidade, mas de uma imitação do sacerdote. Um diácono não precisa nem deve parecer um padre. Mas há um segundo risco, menos visível e talvez mais subtil: a laicização do diaconado. Isto ocorre quando o ministério diaconal é diluído em tarefas que poderiam ser desempenhadas por leigos. A Igreja não ordena para resolver problemas de organização, mas para tornar visível, de forma estável, um aspeto do mistério de Cristo e uma vocação dentro da Igreja. O diaconado não se justifica pela falta de sacerdotes ou para fabricar super-leigos. Justifica-se por si mesmo, como ministério de serviço. Se isto for esquecido, a ordenação diaconal torna-se um acessório.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os diáconos"

sábado, novembro 01, 2025

A formação nos Seminários

A tradição tridentina dos seminários modelou uma geração de sacerdotes separados do mundo e do Povo de Deus. Com razão, o concílio de Trento insistiu na necessidade de formar os padres porque estes tinham uma formação muito frágil. No entanto, o afastar os seminaristas da realidade em que vivem e hão-de um dia servir, gera uma tendência ao clericalismo, ao espírito de castas e eleitos, promovendo a sensação de superioridade em relação ao Povo de Deus. A figura do sacerdote reveste-se, deste modo, de uma sacralidade excessiva que, mesmo sem querer, o vai afastando da realidade que é o mundo. Os seminários não podem formar presbíteros distantes, autorreferenciais ou rígidos. Devem formar pastores verdadeiramente humanos e próximos das pessoas. Devem formar acompanhadores dos fiéis e não ministros do culto. 
Com frequência a formação nos seminários tem privilegiado a separação, a sacralização da figura clerical e o autoritarismo, em vez de formar para o serviço, a humildade e a proximidade com o Povo de Deus. Depois de um concílio Vaticano II pendente, parece que volta esse estilo de formação, ou melhor, de candidatos que buscam esse tipo de formação. Temos de rezar mais pelos seminários, pelos seminaristas e seus formadores, pelos candidatos ao ministério ordenado e pelos responsáveis da pastoral vocacional, para que se procurem e encontrem caminhos que formem ministros da humanidade e do amor de Deus, e não tanto ministros do culto, sem mais.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As perguntas que hoje faço"

quinta-feira, outubro 02, 2025

e cansado

Estava cansado e farto de tudo. Farto das incompreensões e decisões do bispo. Farto dos colegas que só pensam neles. Farto dos paroquianos que vivem a exigir coisas que ele não consegue dar. Farto e cansado de tudo e de todos. Quando amanhecia, tinha vontade que a noite regressasse depressa para tomar o comprimido de dormir. Fazia o que tinha para fazer como qualquer máquina onde se coloca uma moedinha. Andava pela paróquia e pela vida de cabeça erguida e ombros levantados. Fazia lembrar o cavalo elegante com os antolhos para não ver senão o que está a sua frente para ser feito. Chegado a casa, o seu corpo transformava-se, tolhia-se, encurvava-se, amarelecia. Pegava no livro da liturgia das horas e rezava palavras sem dialogar com Deus. Sentia que a sua espiritualidade se esvaía por entre os dedos. Tentava segurá-la como se segura a água numa mão. Ficava apenas um resto de humidade que rapidamente secava. Era como se a fonte tivesse secado. Como se Deus o tivesse abandonado à sua sorte. Entrara no seminário de armas e bagagens, como se costuma dizer, entusiasmado porque ia mudar o mundo, ia ajudar as pessoas a encontrar-se com Cristo. Mas a realidade impôs-se. Era mais forte do que ele e do que todo o entusiasmo que alimentara em tempos de seminário. Sentia-se sozinho. Não tinha com quem partilhar os sucessos e as derrotas. Só as paredes da casa paroquial sabiam a verdade do seu coração, e a almofada que recolhia as lágrimas antes do comprimido fazer efeito. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"

domingo, setembro 28, 2025

Não tinha medo de morrer

Os últimos cinco anos foram passados com a quimioterapia ao peito. No verdadeiro sentido da palavra, era frequente trazer um fio ao pescoço com a quimioterapia pendurada. O que mais estranhava neste colega presbítero era a alegria que, mesmo assim, também transportava. Algumas vezes não resisti em dizer-lhe como isso me fazia bem. E ele apenas respondia que não era nada. E ria-se. Era como se se risse do cancro que se apoderara dele. Nos últimos tempos, o bispo quis dispensá-lo dos serviços paroquiais que se tornavam cada vez mais difíceis. Não desistiu até ter de ser levado novamente ao hospital onde lhe detetaram uma série de metástases em locais do corpo onde já não era possível atacar o maldito cancro. Restava esperar. E foi o que fez, consciente de que não se tratava de esperar o fim, mas esperar em Deus. Dizia o seu irmão, por sinal, igualmente presbítero, que ele repetia constantemente que não tinha medo de morrer porque sabia que ia ressuscitar. Em tom de brincadeira, também ia dizendo que os “bichos” não haveriam de o vencer e levar a melhor, pois quando morresse eles deixariam de ter que comer e morreriam, enquanto ele haveria de ressuscitar. E assim foi… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte XI, outro jovem"

sábado, agosto 02, 2025

menos padres para fazer o mesmo

Segundo os dados publicados pelo Observatorio Demográfico do Centro CEU 'Demografía de la Iglesia Católica’, na vizinha Espanha, a idade média do clero é superior a 65 anos, em comparação com a média de 35 anos em 1960. No ano lectivo de 2023-2024, entraram no Seminário em todo o país 143 jovens e foram ordenados 79 novos padres, quando seriam necessários por ano mais de 300 para compensar perdas e mortes. Em 1965, havia mais de 8.000 seminaristas maiores, e hoje são 950. A realidade em Portugal, da qual desconheço dados, deve andar por números similares. Só este ano, na minha diocese deixaram de ser párocos 8 padres, porque já haviam ultrapassado em muito os 80 anos e já não tinham capacidade e saúde para animar uma comunidade. No entanto, não houve nenhuma ordenação para este ministério. Para mim, o problema não é sermos menos padres, mas fazermos ou tentarmos fazer o mesmo que se fazia quando os padres eram em maior número e tinham a seu encargo muito menos paróquias. Ocupamo-nos com celebrações para alimentar a fé de pessoas que, na maioria, ainda não despertaram para ela. Por isso nos queixamos das igrejas vazias. E esquecemos que a missão dos discípulos de Jesus, a começar pelos que foram chamados ao sacerdócio ministerial, é, acima de tudo, evangelizar, isto é, anunciar a Boa Nova da Salvação.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O assunto era padres"

Dados e foto retirados de um artigo em Religión Digital

sexta-feira, maio 23, 2025

O colega cansado

Um colega queixava-se do cansado que estava porque no domingo celebrara nove eucaristias. A respiração das palavras até parecia ofegante e em volta dos olhos sobressaía o tom escuro das olheiras. Estava cansado o pobre padre porque passara o domingo, de manhã à noite, a celebrar missas. Devo dizer que tive pena dele. Tive mesmo. Mas, mais do que pelo seu cansaço, tive pena porque, como não tem coragem de dar alguns passos para que a sua missão seja mais evangelizadora que sacramentalizadora, para que seja mais pastoral que funcional, centra a sua tão bela missão na celebração de missas. Assim persiste numa Igreja de manutenção e não dá passos para uma Igreja missionária. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre Tiago diz que anda cansado"

terça-feira, maio 06, 2025

Entramos em conclave

Entramos em conclave. Digo “entramos” porque estou convencido que entra a Igreja toda, que entramos cada um de nós que somos Igreja. Digo-o não porque pense que os cento e trinta e três cardeais nos representam ou que todos entramos porque o nosso pensamento foca-se, por estes dias, na capela Sistina. Digo-o porque acredito que a Igreja tem no conclave a voz do Espírito da Igreja, a voz do Espírito Santo. Digo-o porque acredito que a presença da oração é tão ou mais forte que a presença física. Digo-o porque defendo que a Igreja é de Deus e não dos papas, dos cardeais, dos bispos ou dos padres. A Igreja de Deus é de todos. Por isso vejo o acto de eleição de um Papa como um acto eclesial da Igreja como um todo.
Não contesto que a eleição do próximo pontífice ocorra através de cardeais. Se me perguntassem se concordo que a escuta e o discernimento deveria ser feito por mais pessoas, por fiéis católicos que também têm o sensus fidei, eu responderia afirmativamente, pois creio que o Espírito Santo não se representa apenas nos cardeais eleitores. Aliás, alguns deles geram em mim uma série de resistências, quer por posturas ou ideologias com as quais não me revejo ou que me parecem longe do Evangelho, quer por condicionantes humanas que me parecem questionáveis ou por coisas que se vão ouvindo e que geram em nós dúvidas. Mas a Igreja não é de perfeitos e os cardeais também não têm de o ser, assim como o Papa não tem de ser. A Igreja é de Deus e quero crer que o próximo Papa será o que Deus quiser. O próximo Papa será o que a Igreja de Deus precisa.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja que não é de um Papa"

sábado, março 29, 2025

Os padres impecáveis não existem

Os padres não têm de ser melhores que ninguém. Têm de, como todos os cristãos, tentar ser melhores. Claro que isso não justifica nem desculpa os erros dos padres. Não desculpa as suas más opções pastorais ou eclesiais. Não desculpa as vezes em que usam a sua vocação como um trampolim para os seus interesses pessoais ou gerem as paróquias e os sacramentos em discordância com as leis da Igreja ou o Evangelho. Não desculpa quando não se esforçam por serem melhores pastores. Mas os padres são, antes de mais, pessoas. E são pessoas com contextos, circunstâncias e vivências das quais não se conseguirão distanciar nunca, porque são também fruto disso. E se é certo que muitos padres se estão a marimbar para o que os outros pensam, também há quem sinta nos ombros um peso e uma pressão que superam as suas forças. O modelo de perfeição evangélica que é exigido aos padres, como se tivessem sempre de estar disponíveis, preparados e dedicados, acaba por afogar as suas vidas. O padre não pode deixar de viver a sua vida e de fazer a sua caminhada de fé para se tornar um funcionário das coisas de Deus ou da Igreja. O padre tem de viver em Deus como é, como tenta ser, como se esforça por ser, mas não como todo o mundo lhe exige ou espera que seja. Os padres impecáveis não existem. Existem apenas os esforçados e os que não se esforçam. Existem, quando muito, os que não ligam a nada e os que, porque ligam a tudo, vivem o ministério como um peso. Repito. Os padres impecáveis não existem.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os padres impecáveis"

segunda-feira, março 03, 2025

Às vezes não sei quem é que anda mais doente

O Papa está doente. A aspiração que lhe fazem de vez em quando por causa do muco acumulado e que causa insuficiência respiratória transporta-me para os dias em que assistia o meu pai, os dias em que o aspiravam pelo mesmo motivo. Fico duplamente triste porque me traz à memória a dor de meu pai que se prolongava na minha e porque desejo no mais íntimo da minha fé que o Papa se aguente o tempo suficiente para alguns passos que tem dado e me parecem pendentes. Deus é que sabe tudo e também é Ele que sabe se há ou não assuntos pendentes, é certo, mas toda esta situação me faz rezar. E faz rezar o mundo ou parte dele. Faz rezar a Igreja ou parte dela. Infelizmente, nem toda a Igreja reza pelo Papa. Ainda hoje me contaram de alguns colegas que não conheço e que manifestaram publicamente que não rezavam pelo Papa porque, diziam, ele era comunista. Ele há cada uma! Só faltava rezarem para que ele vá depressa ver o Pai. Às vezes não sei quem é que anda mais doente. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

sexta-feira, fevereiro 21, 2025

Viver o hoje de Deus

Muito se tem especulado estes dias sobre a saúde do Papa, sobre a sua proximidade com a morte, sobre uma eventual renúncia e sobre a sua sucessão. Desde a sexta-feira passada, 14 de fevereiro, data em que o Papa Francisco foi internado com dificuldades respiratórias, que a comunicação social espera e desespera por novidades do hospital Gemelli. Sabe-se que entrou no hospital com uma bronquite causada por uma infecção polimicrobiana que resultou numa pneumonia bilateral. Pouco mais se sabe e quem sabe pouco acrescenta. No entanto, toda a praça pública sabe muita coisa. Os médicos falam, os políticos falam, os padres, os bispos e os cardeais falam. Falam sobretudo os jogadores de bancada que são sempre a maioria dos jogadores. Dizem que nos bastidores não param as movimentações. Dizem tudo e não dizem nada. Certo é que o Papa vai resistindo. Afinal, sempre foi um resistente! Também já pensei no assunto. Já o rezei. E tenho rezado pelas suas melhorias porque me parece que ainda há passos pendentes que ele está a dar e não gostaria que ficassem eternamente pendentes. Mas também confio que o mais importante é viver o hoje de Deus. Seja ele qual for, o hoje de Deus é que é o verdadeiro hoje.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja que não é de um Papa"

domingo, dezembro 15, 2024

Chegou a Hora do meu pai...

Chegou a hora do meu pai. Chegou a hora de passar da condição mortal à condição de imortalidade na vida eterna. Quero dizê-lo com H grande e digo, aproveitando para colocar outra maiúscula no meu pai. Chegou a Hora do meu Pai. Não quero esconder os dias difíceis que atrasaram os meus afazeres, mas não atrasaram o meu coração. Muito pelo contrário. Acompanhei os últimos tempos do seu sofrimento, para que lhe pesasse um pouco menos. Ele ficava mais tranquilo quando eu estava, e estive tanto quanto me deixaram estar. E eu também tranquilizava. Esgotei-me por dentro e por fora. Porém, em tudo consegui ir vendo o dedo de Deus. A festa da partida foi muito bonita. Foi uma grande festa de acção de graças. Não tinha ainda contado aqui, mas meu pai era diácono permanente. Por isso, o meu bispo acabou por presidir à Eucaristia. A homilia foi minha. As leituras da minha família. O canto dos meus amigos. Igreja cheia. Cheia com antigos e novos paroquianos. Cheia de testemunhos de gente que, como diziam, fora meu pai que os levara à fé. Chorei tanto quanto consegui. E sorri ainda mais. Quem nos conhece e conhece a relação de pai e filho que tínhamos, sabe que éramos muito cúmplices. Sempre o fomos. Entretanto, a partida da minha mãe fez-nos viver estes vinte e três anos muito mais um para o outro. Até porque a fé e o modo de entender Deus nos unia imenso. Assim como o ministério ordenado. Diziam as minhas manas que quando lhe faziam uma proposta, obtinham sempre a mesma resposta. Tenho que falar com o vosso mano. Por isso não admira que tivéssemos passado juntos grande parte dos últimos dias antes da partida. Muito rezámos juntos também. Ou eu rezava e ele acompanhava-me. Eu rezava e ele tentava respirar a custo a minha oração. Devo-lhe a ele e à minha saudosa mãe, não só a vida, como grande parte da fé e da vocação. Só posso estar grato a Deus pelos pais que tive. Por isso foram muitas horas de acção de graças, que ainda se prolongam hoje. Para que meus paroquianos compreendam porque ando alegre, explico que não sou super-homem e que sofro como qualquer ser humano sofre na partida de quem ama. Mas a fé é muito mais forte que a dor. O meu pai partiu, mas vem constantemente ao pensamento. E eu sou feliz. Sou feliz pelo pai que tive na terra e que ainda tenho no coração.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Feliz dia do pai" e "Obrigado pela fé que me destes"

sexta-feira, novembro 08, 2024

Outra celebração litúrgica pouco sinodal

No dia 4 de novembro, uma semana depois de concluída a segunda assembleia do sínodo sobre a sinodalidade, houve, em Roma, uma celebração de sufrágio pelos cardeais falecidos este ano que passou. Para concelebrar com o Papa, somente foi dada autorização aos cardeais, arcebispos e bispos. Não sei se é a opção mais acertada, mas também não tenho autoridade para a contestar. Não obstante, o que mais me chamou a atenção é que, na hora da comunhão, foram chamados ao altar uns padres que estavam vestidos de batinas pretas, revestiram-se com uma estola vermelha, sem mais, e foram eles distribuir a comunhão pelos presentes. Não podiam concelebrar, mas depois eles é que tiveram de ir distribuir a comunhão. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Porque é que Deus precisa dos padres?"

segunda-feira, novembro 04, 2024

A celebração litúrgica pouco sinodal

Acabou a segunda assembleia do sínodo sobre a sinodalidade. As expectativas estavam e ainda estão ao rubro. Comentadores, teólogos e jornalistas de âmbito religioso com os holofotes apontados para o seu encerramento e o documento final. Este último vai ser o principal documento tradutor do trabalho de três anos de sínodo, pois o Papa não vai fazer, como tem sido hábito, uma exortação apostólica pós-sinodal. Gostava que o fizesse, mas é um gesto com sabor a sinodalidade. E agora precisavam-se mais gestos. Muitos mais gestos. E mais do que gestos, precisavam-se atitudes, compromissos e práticas. No entanto, depois dos membros da assembleia terem estado misturados na aula Paulo VI, em mesas redondas, durante os trabalhos de reflexão, não se entende o que aconteceu na eucaristia de encerramento em que, mais uma vez, o hierárquico sobressaiu em desfavor do horizontal ou comunional. O Papa num patamar central, como presidente da celebração, rodeado dos cardeais por ordem de importância, seguidos dos arcebispos, depois os bispos, os padres e, por último, os leigos e religiosos não clérigos. Não gostei. Não gostei nada disto. Foi um mau sinal e espero que não seja um presságio. Talvez tenha sido neste mesmo sentido que os membros sinodais sugeriram, no ponto 27, do documento final, o aprofundamento da “ligação entre liturgia e sinodalidade” para “adoptar estilos celebrativos que manifestem o rosto de uma Igreja sinodal”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma comissão pouco sinodal"

quinta-feira, outubro 17, 2024

o pai do padre

Quando aos dezassete anos informou os pais que ia entrar no Seminário, ao pai só lhe apetecia bater-lhe, e a mãe continuou a esfregar a roupa no tanque, sem retirar os olhos dela. Rapidamente as lágrimas começaram a cair-lhe do rosto, mas quase não se notava porque as lágrimas se juntavam na água do tanque. Ele também não deu conta. Fechou os olhos para não ver. Foi desta maneira que o António disse aos pais, que eram mais ateus que outra coisa, que decidira ser padre. Não era gente má. Mas isso não fazia deles cristãos. Não iam à missa. Não queriam saber dos padres. O irmão mais velho é que se metera na Acção Católica e o mais novo, pelos vistos, sem que se adivinhasse, fora-lhe no encalço. Tão grande era o desplante, que no dia em que o filho fechou as malas e se despediu, o pai lhe disse, em tom de pai, que se cruzasse aquela porta, deixaria de ser seu filho. E o tempo passou. Pouco se falavam e, nas férias, as palavras pouco mais serviam do que para mostrar o desagrado. O filho ainda não era padre e ainda havia tempo de o demover de ideias tão ridículas. Onde já se viu um filho de gente que não é de Igreja se tornar um padre. Antes se tornasse um malandro das ruas. Não o pensava assim, mas verbalizava-o para que o filho pensasse bem no que fazia. E o tempo continuou a passar, como tudo na vida passa. Os anos foram calejando aquela família. Mas nem a ideia do filho nem a do pai desapareciam. Casmurros ambos. Ambos do mesmo sangue. Um mês antes da ordenação sacerdotal, o pai, sem que nem sequer a sua estimada esposa, que o acompanhava nas ideias e nas desideias, soubesse, foi visitar o padre da freguesia. Aquele a quem, pouco depois da primeira conversa do filho sobre a estranha decisão, acabaria por culpar e visitar com um pau na mão, pronto a ser usado se a ocasião fizesse o ladrão. Graças a Deus que o padre não estava só e a companhia o demovera. Agora a visita era por outro motivo. Talvez por ser um coração duro, tardou em abrir-se e a conversa demorou umas boas duas horas. Terminou com a absolvição. Nunca ninguém soube o teor da confissão nem o motivo da conversão. O pai mudou. O pai voltou a ser pai. O pai abraçou o filho na sua ordenação como se fosse a maior alegria que um pai pudesse ter. Perceber que a felicidade é um dom de Deus não é para todos. E o tempo passou. Mas, desta vez, foi apenas um mês. E o pai partiu para o outro pai. Foi de repente e os médicos não puderam fazer nada. O filho ainda hoje gostava de perceber, mas não percebe. Só sabe que os desígnios de Deus não se sabem de verdade. Só se acreditam… e se confiam. 
 
 A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A chorar durante a missa"

segunda-feira, outubro 07, 2024

Um vaso de flores

Vinte e três anos passam num instante. A gente envelhece e tudo envelhece à nossa volta. Era um jovem padre quando a minha mãe concluiu a sua missão aqui na terra e foi habitar em Deus. Agora caminho para velho. Mais experimentado também. Mas a sentir a mesma saudade de jovem que tinha na sua mãe a confidente e o colo materno e terreno de Deus. Ó mãe, como ainda hoje fazias aqui falta para me escutar e para guardar os meus desabafos! Faz hoje vinte e três anos. Fui visitar a pedra do teu túmulo. Estava bonita como sempre. Mas no lugar das flores, estava um buraco de terra sem flores. Alguém me disse que foram roubadas. Já não é a primeira vez, disseram-me. Ao primeiro impacto, senti-me incomodado. Como poderias estar sem um ramo de flores que adornasse a tua pedra?! Depois de rezar (é assim que falo com a minha mãe), o incómodo passou. É muito triste que haja quem não respeite a morte e a dor alheia. É muito triste que haja quem desça tão baixo por causa de umas simples flores de campa. Mas não são as flores que fazem de ti um vaso de flores. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Estava capaz de gritar"

segunda-feira, agosto 12, 2024

Conversa fiada

Quando chegou ao restaurante para comer e festejar com os pais da criança que baptizara há menos de uma hora, o único lugar vago era ao lado de uma familiar de idade algo avançada, uma senhora que parecia já ter dado muito à vida. As mãos mostravam a calosidade do trabalho de campo, assim como a tez morena. No trato fazia lembrar o mesmo tipo de figura. Tinha o marido ao seu lado, do outro lado, mas não se evitava de comentários jocosos ao senhor prior. Falava dos padres como quem sabe a história de cada um. Por isso, às tantas, no meio da conversa, um pouco atrevida, fez uma afirmação do tamanho da sua boca e da sua vida. Todos os padres têm uma amante. Mesmo que muitos padres tenham dificuldade em lidar com o celibato, a coisa, assim dita, suou excessiva e disparatada. Por isso a resposta não se fez esperar, e, diante do seu marido, o padre fez o mesmo tipo de afirmação, de boca cheia e sorriso nos lábios. Sabia que todas as mulheres têm um amante?!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A ideia que as crianças fazem dos padres"

terça-feira, junho 04, 2024

Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor

Arrepiei-me ao ver, num pequeno vídeo, o modo como o padre Pio olhava fixamente a hóstia consagrada em suas mãos. Quase me vieram umas lágrimas ao rosto. Assim também no vídeo, após um longo momento detido com o olhar em Jesus sacramentado, o padre Pio teve de usar um pano para limpar as lágrimas, tão emocionado estava. Já sabia que ele tinha um profundo amor à Eucaristia, mas agora via-o com os meus próprios olhos. Fiquei embaraçado. Envergonhei-me das muitas vezes em que me distraio a celebrar a Eucaristia. Na verdade, muitas vezes o meu pensamento voa para as preocupações da vida, para as inquietações do ministério sacerdotal, para as decisões pastorais, para os problemas das pessoas que também me apoquentam. Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor. Que vergonha! Dás-me a graça de te poder olhar a um palmo de distância, de poder usar as tuas palavras da Última Ceia, de poder estar contigo suspenso nas minhas indignas mãos, e perco-me na minha limitada condição existencial e sacerdotal. Li, em tempos, que o padre Pio afirmara: “Que a sua primeira eucaristia e a última tenham o mesmo amor e o mesmo ardor”. Peço-te perdão, Senhor, pelas vezes em que não tenho presidido à Eucaristia como devia. Sei que te tornas presente em cada Eucaristia, independentemente de quem a preside e do modo como é presidida. Mas, por favor, faz-te presente também em mim sempre que eu celebre a Eucaristia. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não falo não falo e não falo"

terça-feira, março 19, 2024

A solução vocacional da inteligência artificial

No ano passado, numa pequena cidade alemã, uma multidão reuniu-se para uma cerimónia religiosa protestante que foi orientada, na sua quase totalidade, pela inteligência artificial. Os sermões, as orações e a música difundiram-se por quatro avatares num ecrã junto ao púlpito. Li que alguns dos presentes acharam que faltara autenticidade, mas que muitos outros se haviam entusiasmado com o potencial da IA para tornar mais acessíveis e inclusivos os serviços religiosos. Sei que a discussão está lançada e que muita tinta há-de correr ainda sobre esta ferramenta. Mas estará à vista a resolução para a falta de vocações ao sacerdócio ministerial? 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma Igreja virtual"

sexta-feira, dezembro 29, 2023

Ser padre é ser boa pessoa

Ria-se muito durante a homilia e, para mim, isso é bom sinal. Um sorriso nos lábios amplifica as palavras, ou fá-las chegar mais perto do coração, o melhor lugar para as guardar. A homilia não ia longa. Contudo, terminou algo abruptamente, quando este meu colega, com quem concelebrava, afirmou que, na sua opinião, ser padre era ser boa pessoa. Que bastava isso. 
Reconheço que, em tempos, também tive a ideia de que ser bom era o fundamental da fé. Mas aprendi, entretanto, que qualquer pessoa pode ser boa, independentemente da sua fé ou da sua condição eclesial. A diferença está no ser bom por Cristo, com Cristo e em Cristo. Além disso, que mal estaríamos se os padres fossem somente boas pessoas. Os padres temos de ser, além de boas pessoas, bons pastores!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como penso que deveria ser um bom guia espiritual"

segunda-feira, novembro 13, 2023

Seminários que formam clérigos e não pastores

Quando leio o que alguns jovens seminaristas escrevem por estes dias, por ocasião da semana dos seminários, e me apercebo que lhes falta a frescura das palavras e da novidade de Cristo no seu coração, e que insistem em repetir palavras clericais que parecem ter aprendido no percurso do seminário, palavras de bem dizer, mas que dizem pouco, devo confessar que fico triste. Parece-me que falta vida nos nossos seminários. Vida de verdade. Não quero generalizar e quero imaginar que a grande maioria dos nossos seminaristas é bem mais santa do que eu. E precisamos de padres santos. No entanto, estou convencido que ainda há muito por fazer para que os seminários deixem de ser redomas de vidro que protegem os futuros padres dos males do mundo ou fábricas de uma casta clerical que se fecha sobre si mesma. Ainda bem que a assembleia sinodal do último mês de outubro deixou plasmada, no seu relatório de síntese, a necessidade de uma formação dos candidatos ao sacerdócio ministerial que não crie um ambiente artificial separado da vida normal dos fiéis. Precisamos de seminários que formem pastores e não clérigos!