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sexta-feira, março 20, 2020

a nossa parte

Dizem-me que algumas pessoas ficaram indignadas por não terem missa estes dias. Dizem-me que algumas já tinham ficado indignadas com a Igreja quando se lhes sugeriu que não comungassem, por uma questão higiénica, na boca, alegando que se a hóstia consagrada era o Senhor, nada deveríamos temer. Recebi um correio electrónico com uma carta de um suposto colega alertando para o perigo de não celebrarmos missas com as pessoas. Tive oportunidade de ver uns vídeos de umas missas onde, em Espanha, um determinado bispo dava comunhão na boca, exclusivamente, sem medidas de higiene. Algo similar de um padre que percorrera as ruas com o Santíssimo a bater à porta para que as pessoas fossem à missa. 
Respeito que pensem diferente de mim e que, supostamente, confiem em Deus ao ponto de depositar n’Ele toda a acção. No entanto, estas atitudes ou reacções fazem-me lembrar os estudantes que rezam insistentemente para obterem ajuda nos exames, até acendem uma velinha a Nossa Senhora, mas depois não estudam ou não estudam o suficiente! 
Deus faz muito. Deus até pode fazer tudo. Mas também quer que nós façamos a nossa parte!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha Igreja do futuro"

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Comungar por comungar

Rodeada dos seus netinhos, era uma velhinha muito sorridente. Contava muitas histórias dos tempos da sua meninice e era um gosto escutá-la. Contudo, há dias encontrei-a a chorar compulsivamente, embora as lágrimas fossem pequeninas e o rosto não desenhasse de forma clara o seu caminho. Um dos netinhos ia fazer a Primeira Comunhão, e convidara a avó. Ia fazer uma grande festa. A cerimónia era às onze horas, mas antes disso os convidados tinham um pequeno repasto em casa. Por isso a avó chorava. Chorava ao recordar a sua primeira comunhão. Nesse tempo era obrigatório estar vinte e quatro horas sem comer para poder comungar. Por vezes, algumas crianças não aguentavam e desmaiavam. Ela não aguentara, e umas horas antes da Primeira Comunhão, dera um salto á cozinha e, às escondidas, assaltara o cozido meio à portuguesa que a mãe dela fizera para depois da festa. Chorava com remorso. Nunca confessara esse pecado. Tinha vergonha de não ter sido tão forte como Deus merecia. Não O ter respeitado como devia. E agora, ao ouvir o convite do netinho, o passado voltara a ela. Na verdade, ao longo da sua longa vida, tinha entendido que, afinal, não se desrespeitava Deus matando a fome. No entanto, dava conta que agora já nada disso era importante e chorava. Ai, senhor padre, há tanta gente que não guarda nenhum jejum antes de comungar. Há tanta gente que vai comungar sem estar confessada. Há tanta gente que vai comungar em pecado. Há tanta gente que vai comungar sem saber o que vai comungar. Sem perceber que é Deus que entra em nós para entrar em comunhão connosco. A avozinha estava triste porque hoje a comunhão já não era bem comunhão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os meninos da Primeira Comunhão"

quarta-feira, junho 12, 2019

Ser leigo na Igreja

Ante a minha admiração já desconfiada, num encontro de gente com responsabilidades na comunidade cristã, os chamados habitualmente de “leigos comprometidos”, à pergunta sobre se sabiam o que era um leigo, as respostas não foram muito consistentes. Sabiam que eram leigos na Igreja e que isso os designava, pois já o tinham ouvido imensas vezes, mas não sabiam o que isso significava na essência. Houve mesmo quem respondesse com aquilo que refere, mais ou menos, o dicionário de língua portuguesa: o leigo é alguém que sabe pouco de um assunto. Não sabiam sequer, e por exemplo, que, na linguagem eclesiástica, o leigo é um não clérigo. Ou seja, faz parte daquela imensa maioria de cristãos que, muitas vezes, ainda permanece passiva na missão que Jesus deixou à sua Igreja como sacramento da salvação. Recordou-me, infelizmente, a postura piramidal da Igreja desde tempos da Idade Média ou desde, particularmente, o concílio Vaticano I. Que pena! 
Pode parecer que estou a entrar em águas pantanosas e que a teologia não é para aqui chamada. De modo algum. Escrevo como penso. E tenho muita pena que a maioria dos cristãos não saiba sequer o que significa a designação que lhe é atribuída por nós, os clérigos. Assim como me repugna, em certa medida, que ainda se pense o leigo no significado negativo, como um não clérigo. Como se o clérigo fosse o lado positivo, e o leigo o lado negativo da Igreja. Não gosto, e ponto final. Mas se podia queixar-me da hierarquia da Igreja, que mantém estas designações, mais me queixo desse número grande de cristãos, inclusive com vivência e prática cristãs - com se costuma dizer – que não tem a mínima noção do que é ser discípulo e missionário de Cristo, dentro de uma Igreja que é, acima de muitas coisas, Povo de Deus. Eu não quero leigos que substituam os padres e se tornem, eles próprios, uns padres em miniatura. Quero leigos com a grandeza e dignidade que lhes é conferida no baptismo e que se assumam plenamente como Igreja corresponsável.

sexta-feira, novembro 09, 2018

Um coração igual ao de Deus

Creio que o mais bonito de Deus é o seu coração, e é esse coração que nós devemos dar a conhecer aos outros. Não há nada mais bonito que o Seu coração. Mas, como posso transmitir o que está no coração de Deus se eu não conhecer esse coração? E como posso conhecer um coração que ama se eu não amar?
Estas duas perguntas misturaram-se com mais uma série de perguntas que me fiz, ou me surgiram, no meu último retiro, esse espaço privilegiado de intimidade com Deus que ainda hoje recordo. Foi num daqueles momentos especiais em que estava embrenhado em mim mesmo e em Deus, a pensar estas coisas do amor de Deus, como era fantástico sentir esse amor, percebê-lo, viver na certeza de tão grande amor. Assim, vindo do nada, ou de algo que me pareceu nada, mas pode ter sido verdadeiramente um tudo, surgiu em mim uma vontade enorme de amar. Parecia uma tolice. Mais uma das minhas tolices. Não estava sequer ali ninguém a meu lado para amar! Estava sozinho, diante do sacrário. Mas foi isso mesmo que senti. Uma vontade enorme de amar os outros. 
Naquele preciso momento me foi dado perceber, por experiência própria, que quanto mais nos enchermos de amor, mais vontade temos para amar. Quanto mais nos sentirmos em comunhão com Deus, mais vontade sentimos para entrar em comunhão com os irmãos. Que o amor de Deus aumenta o amor dos irmãos. Que quando sentimos em nós o amor de Deus, sentimos também esse apetite maravilhoso de amar mais quem está ao nosso redor.

quarta-feira, outubro 18, 2017

O negócio da salvação

Senhor padre, um colega seu disse-me que se me confessasse, comungasse e rezasse pela alma de uma pessoa à minha escolha, essa alma era salva e ia para o céu. Por isso lhe peço se me pode confessar. 
Não o conhecia, mas não o deixei ir-se embora sem a pretendida confissão. Também não conheço o denominado colega que lhe fez tamanha proposição. E mais uma vez não me quero julgar dono do juízo de Deus ou das boas intenções, tanto do colega como do senhor que me batera à porta. Não obstante, gostava de saber que raio de negócio é este que compra a salvação, ainda por cima, a salvação de alguém que não é o beneficiário directo da confissão, da comunhão e da oração. Que raio de negócio será este que limita a opção de Deus à nossa acção. Talvez tenha razão o meu colega, e talvez eu deva ir ali à igreja mais próxima comprar uma salvaçãozita para um amigo que faleceu e que gostava muito de ver no céu.

terça-feira, outubro 18, 2016

Nós e vós

O título soa a poema ou a palavras que se fazem beleza. Contudo soa também a dois lados que se separam, que se afastam, que vivem juntos mas não se juntam. E eu não tenciono escrever palavras belas ou poemas. Tenciono deixar meu coração falar do que tenho sentido ultimamente na Igreja. Na minha Igreja que quero Corpo de Cristo. Na Igreja onde tenho sentido que coabita um nós e um vós. 
É um nós e um vós entre padres e leigos. Um nós e um vós entre leigos que participam habitual e sacramentalmente na vida da Igreja. Um nós e um vós entre aqueles que se gostam de afirmar católicos de direitos, mas diferentes dos católicos com deveres. Um nós e um vós entre aqueles que agora, porque vem uma festa ou um sacramento de festa, querem fazer parte do grupo, mas que depois falam da Igreja como se fossem os que lá vão habitualmente. E mais um nós e um vós entre aqueles que acham sempre que a Igreja é para se desconfiar, mas foram baptizados e baptizam os seus filhos. E um nós e um vós entre padres e o seu bispo. E um nós e um vós entre os próprios colegas de sacerdócio. Creio que chega a haver um nós e um vós entre nós e Cristo.
Há tantos nós e vós, que às vezes já não sabemos se somos parte ou somos o todo.

sábado, agosto 27, 2016

O padre não é bom da cabeça

O senhor estava ao telefone a convidar um amigo para a festa do seu filho que ia fazer a primeira comunhão no dia tal. Eu estava numa mesa ao lado à espera que me entregassem o carro após a mudança do vidro que se partira vá-se lá saber como. O senhor esperava também o seu carro por motivo idêntico, quando, para ocupar o tempo, efectuou a chamada que ouvi como se fosse para mim. O que ele não sabia é que eu era padre e que o padre a que se havia de referir o conhecia bastante bem. 
O padre não é bom da cabeça, dizia. Olha que ele exige três anos para fazer a primeira comunhão. São de facto três os anos estipulados pela Conferência episcopal portuguesa e pelo itinerário da Catequese. Para mostrar ainda mais a força da decisão que tomara, queixava-se que o padre, que não é bom da cabeça, dizia que com mais de três faltas o miúdo seria retido na catequese. Onde já se viu! Exclamava. 
O padre é doido por exigir estas coisas. E depois encontrou uma catequista ali ao lado, pareceu-me que numa paróquia bem ao lado, que aceitou o miúdo para fazer a primeira comunhão, e em dois meses vai conseguir fazer catequese de três anos. Grande catequista. E ainda diz o senhor que o filho, afinal, até gosta daquilo, e já sabe tudo. Como se fosse uma questão de saber. 
Estava o filho contente e o pai mais que contente, porque afinal o seu filho querido ia fazer uma festa linda. Aquela festa que provavelmente irá fazer poucas vezes na vida. Porque comungar deveria ser sempre uma festa. E vai ter casa cheia com almoço bem melhorado. 
Tal pai, tal catequista, que nunca devem ter ouvido a Jesus dizer que se o quisessem seguir, até teriam de deixar pai e mãe!

quinta-feira, março 17, 2016

Falou-lhe na comunhão espiritual

Conheço um jovem que descobriu a fé depois de estar casado pelo civil e ter uma bela filha. Está a fazer uma caminhada muito bonita, muito entusiasta e, ao mesmo tempo, muito respeitadora dos tempos e espaços da esposa e do resto da família. Aprendeu que a fé não se impõe. É o testemunho que propõe. Já lá vão uns anos e a esposa também tem dado uns pequenos passos. São pequenos, mas são passos. 
Há dias um colega negou-lhe a absolvição e negou-lhe a possibilidade de comungar. Falou-lhe da famosa comunhão espiritual. O jovem contou-me resignado. Iria levar isto a sério, mesmo quando consegue viver a Quaresma em castidade e mesmo quando a vida que ele queria viver de modo agradável aos olhos de Deus, como diz, não dependa somente dele. O que está a fazer – digo-o porque o conheço - é muito autêntico e muito bonito. Imagino que Deus esteja a olhar por ele e para ele com um amor e uma vontade muito maiores do que se calhar olha para mim e para esse meu colega que lhe negou a absolvição. 
Mas eu fiquei triste, por dentro sobretudo. Esta forma de ser Igreja-juíza que impõe e não propõe caminhar cansa.

quinta-feira, outubro 22, 2015

A senhora Linda faz parte do grupo de recasados

A senhora Linda faz parte do grupo de recasados. Daquele grupo que tem feito gastar tinta a muitos jornais que gostam de falar da Igreja. Ou que gostam de falar o que a Igreja possa vender. Ora estes jornais não conhecem a Linda como eu a conheci faz muitos anos. Tivera, pelos vistos, um casamento católico normal até ao dia em que descobriu que o pai dos seus filhos, na altura já maiores de idade, era homossexual. Chegaram ambos à conclusão de que era melhor cada um refazer a sua vida. Talvez ainda assim se amassem, contava-me. Os filhos ficaram tristes, mas não deixaram de ser filhos desse pai. Cada um foi para seu lado e ela, como ainda tinha idade para ser feliz com alguém ao seu lado, deixou que o coração a encaminhasse para os braços de outro homem. Dizia-me que era feliz ao lado deste. Mas que trazia um espinho no coração porque, sendo pessoa de fé clara e genuína, era impedida de abraçar inteiramente alguns sacramentos. 
Como o caso era um caso óbvio de nulidade do matrimónio, propus que desse esse passo. Mas não podia, disse. O seu ex-marido nunca quis assumir publicamente a sua forma de viver, e ela respeitava-o ao ponto de não querer fazê-lo sofrer. Por seu lado, os filhos também não queriam uma situação que de forma meio legal indiciasse que afinal aquele pai não tinha sido o esposo que lhes doara a vida. 
Por virtudes importantes à fé, como o amor, a bondade e respeito tanto ao ex-marido como aos filhos, a senhora Linda não quer, ou não pode extrinsecamente pedir a nulidade do seu matrimónio católico de forma a poder abraçar inteiramente alguns sacramentos como desejava. A bondade daquela mulher impede-a. Está entre a espada e a parede, por se esforçar em fazer o bem. Tudo porque a lei e a doutrina assim o exigem. 
E agora?

sexta-feira, abril 04, 2014

Os meninos da Primeira Comunhão que não voltaram à missa

Já passou quase um ano desde a última Primeira Comunhão aqui da paróquia. Os meninos que a fizeram estavam no terceiro ano da catequese e passaram para o quarto, ano em que é sugerido que se faça a festa da Palavra. Uma festa que realça não só mais uma etapa de catequese, mas uma integração da Palavra de Deus, isto é, da Sagrada Escritura, na vida destas crianças. Até aqui não há novidade maior. Os pais, na reunião que tive com eles para preparar esta festa e para lhes prestar conhecimentos básicos da Bíblia, saíram contentes da reunião e desejosos que os seus filhos se confessassem. Até aqui tudo bem e não há novidade grande. Assim fizemos no Sábado antes da festa. Os meninos, como manda a regra do entusiasmo, perfilaram para se confessar. Mas qual não é o meu espanto quando descubro que alguns deles, talvez uns quatro ou cinco, não tinham voltado à Eucaristia desde a sua festa da Primeira Comunhão. Dito de outra forma mais óbvia ainda. Desde aquele dia em que comungaram pela primeira vez, não o tinham tornado a fazer. Culpa dos pais. Culpa dos catequistas. Culpa do pároco. Culpa da Igreja. Culpa da vida. Culpa de quem? Não há culpa que resista a um dado adquirido. A festa da Primeira comunhão é muitas vezes a festa da única comunhão. Negue-se o facto e estamos a esconder a cabeça na areia. Não se negue e teremos de repensar a catequese que tem servido, não para alimentar ou amadurecer na fé, mas para cumprir um ritual apenas social e festivo. Soube de colegas que têm obrigado as crianças, através de passaportes carimbados, ou coisas do género, a participar na Eucaristia. Sei de um colega que decidiu não fazer esta festa da Primeira Comunhão no ano passado porque nem as crianças nem seus pais iam à missa. Não sei se resulta ou se resultou. Não sei se deva ou se não. Eu não gosto que a fé seja exigida ou negociada. Assim como não gosto que a comunhão seja proibida. Sei o que não gosto e sei o que gostaria. Mas neste entretanto, não sei o que fazer. Alguém saberá?

quinta-feira, setembro 12, 2013

Lá mais para a Páscoa

A comunidade é pequenina, é certo. Tem poucas mais pessoas que os dedos das mãos. Vou lá poucas vezes por ano, mais ou menos as mesmas que os dedos das mãos. Vou, mas vejo-me lá numa confusão interior de tamanho que não tenho palavras para dizer, dado que ninguém comunga naquela missa, porque, dizem, é melhor só la para a Páscoa. Havia pouca gente, é certo. Mas fazemos um banquete com o Senhor e dizem-nos Lá para a Páscoa, senhor padre. Como se Deus tivesse querido que só uma vez houvesse Páscoa. Como se o sacrifício que é a Eucaristia acontecesse só na Páscoa. Eu bem lhes perguntei como ficariam se, convidado para as suas casas numa festa, onde, como é tradição em Portugal, há sempre uma boa mesa, repleta, um bom presunto, um bom queijo e um bom naco de pão, e eu dissesse que só comeria na Páscoa. Encolheram os ombros e repetiram Lá para a Páscoa, senhor padre. Sabe, não estamos confessados. Então vamos lá confessar-nos. Dispus-me a fazê-lo logo ali e no momento. Porém, insistiram Lá mais para a Páscoa, senhor padre. Passei toda a celebração a pensar que só devia voltar àquela terra para a Páscoa.

sexta-feira, agosto 31, 2012

Os meninos da Primeira Comunhão

Quando entrei na Igreja Paroquial para a cerimónia, os meninos da primeira comunhão estavam, como se costuma dizer sem maldade, tolinhos de todo. Ele era barulho misturado com psits. Ele era rostos com um sonoro sorriso do tamanho do mundo. Ele era um mexer para aqui e para acoli no banco, que eu pensei Onde me vim meter. Os pais ainda faziam mais ruído que os filhos. Estava toda a gente desmesuradamente entusiasmada, de tal forma que corriam o risco de deturpar a festa. No final foi mesmo essa a minha sensação. Que toda aquela gentinha, dos mais pequenos aos maiores, se perdera na socialidade da festa. Fui para casa com o rosto cansado das corridas do dia e da confusão a que me soou aquela cerimónia da Primeira Comunhão. No Domingo seguinte chamei para ao pé de mim, junto ao altar, todos os meninos que haviam feito a festa para, com mais serenidade, perceberem o mistério que tinham vivido pela primeira vez. Só estavam mais ou menos metade dos que tinham feito a festa. Gostei muito daquele momento em que fizeram perguntas, viram o interior do cálice, pegaram nele, comungaram com olhinhos de felicidade e ficaram ali ao meu lado, a experimentar Jesus tão pertinho. Mas ao mesmo tempo, dado que não estavam todos, no final da Eucaristia dei por mim a pensar com pesar no assunto. A comunhão ou a Primeira comunhão é mais um daqueles sacramentos que estão a esvaziar-se. Porém, na semana seguinte uma das catequistas mostrou-me umas folhas com umas letras terríveis para decifrar. Era a letra dos nossos meninos que respondiam ao pedido da catequista. Diz o que sentiste na tua festa da Primeira Comunhão. Corei de alegria. Entre uma série de frases menos felizes, havia estas que não resisto a transcrever literalmente, sem critérios. Quando entrei na igreja senti que Jesus me foi acompanhando até ao banco e sentou-se ao meu lado. Quando comunguei, senti que Jesus me estava a abraçar com toda a força dele. Quando comunguei senti-me feliz e senti que Jesus entrou no meu corpo. Quando comunguei Jesus entrou no meu coração e fez com que ele arrebentasse de alegria e fiquei muito mais leve. Quando acabei de comungar nunca mais me senti sozinha. Quando comunguei pela primeira vez senti que Jesus cresceu no meu coração. Fui comungar e senti que a partir daquele momento iria seguir Jesus. Fui comungar e senti o meu coração aos pulos. O meu coração ficou gigante.
Não há palavras para descrever neste preciso minuto o tamanho do coração deste pobre padre que, de vez quando, se cansa com o esvaziar dos sacramentos e se esquece que Deus é ainda maior que os sacramentos.

segunda-feira, agosto 20, 2012

Mais um Manuel e uma Maria vão casar pela Igreja

O Manuel e a Maria, nomes fictícios desta história real, são dois jovens com os seus vinte e tantos anos que se vão casar em breve. Com eles estavam também a mãe e a irmã do noivo. A conversa decorreu com entusiasmo própria, por um lado, de quem está ansioso pelo casamento, eles, e por outro, de quem está a manifestar a sua alegria pelo acontecimento de fé, eu. A meio da conversa falei do sacramento da confissão. O rosto deles perdeu entretanto algum entusiasmo. Para quê, Senhor padre, perguntaram. Da mesma forma perguntei se não pretendiam comungar. Demoraram uns segundos, próprio de quem está a pensar se há-de responder sim ou não, e depois acabaram por dizer É melhor, senhor padre. Recolhemo-nos os três, eu e os jovens noivos. E antes que começássemos o sacramento da Confissão, o noivo foi dizendo que desde o Crisma que não se confessava. Mais, que desde o crisma não ia à missa. Mas que era muito amigo de Deus. A noiva, por seu lado, como se dissesse a mais interessante das verdades, foi acrescentando que ela desde a primeira comunhão que não ia à missa. Agradeci a honestidade deles, mas fiz-lhes duas perguntas a que não conseguiram responder se não com um esgar de voz e de olhos. Então porque vos ides casar pela Igreja? Não achais incoerente querer Deus para umas coisas e não O querer para outras?

terça-feira, julho 03, 2012

O padre é uma loja aberta

A senhora chegou à hora que lhe deu jeito. Ainda não seriam dez horas. Queria falar com o padre. É só com ele. A funcionária informou que o padre não devia estar disponível. A senhora insistiu. Os padres devem estar sempre disponíveis. Foi desta maneira soft que a funcionária, com os olhos a olhar o chão, contou o que a senhora respondera. A sua forma de olhar para o chão deu-me a entender que não deveriam ter sido bem estas as palavras utilizadas pela senhora. Eu já tinha explicado à funcionária que preciso de tempo para mim, para as minhas coisas, para me preparar, para meditar, para organizar a paróquia e as coisas da paróquia, para fazer as homilias, para rezar. Por isso marquei horas e dias de atendimento, a não ser que hajam casos urgentes. A minha funcionária respeita muito este meu desejo. Mas muitas pessoas não. E é verdade que os padres devem ser pessoas disponíveis. Mas não têm de ser lojas abertas. Aliás, mesmo as lojas abertas têm horários de funcionamento. Para mim a disponibilidade do padre deve ser acima de tudo uma disponibilidade de coração. As pessoas vão ao médico quando este tem o consultório aberto. Vão às repartições quando estas estão abertas. Vão ao supermercado quando este está aberto. Mas vão ao padre quando lhes dá jeito e o padre, seja a que horas for, tem de ser a loja aberta.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

As asneiras dos cristãos ou apeteceu-me dizer uma asneira

Descobri há dias numa das minhas paróquias que muitos dos meus cristãos não comungam por causa das asneiras que dizem. Aquilo que de forma culta chamamos de palavrão e que brejeiramente chamamos de carvalhadas. Aquilo que nalgumas zonas do nosso país fazem tão parte do habitat como a comida que comem. São as asneiras que saem da boca num qualquer momento mais desavindo. São as palavras deslocadas que saem da nossa boca e que devemos evitar porque denotam uma educação menos acertada. Pergunto se o dizem para magoar alguém, e respondem que não. Pergunto se o dizem com intenção de maltratar Deus, e respondem que não. Mas mesmo assim deixam de comungar, porque os padres antigos carregavam nessa observação. E apesar de continuar a achar que não são as melhores palavras dos momentos desavindos, não entendo como se transformam em pecados tão graves que levam um cristão que se preze a desistir da comunhão. Maior asneira é deixar de aproveitar a partilha de Deus na eucaristia. Maior asneira é andar toda uma vida com uma fé que não deixa ver a simplicidade do Amor de Deus. Garanto-vos que me apeteceu dizer uma asneira.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Aqui só comungam as mulheres

Finda a missa, corri em direcção à sacristia para me desparamentar. Vinha com os pensamentos na comunhão, pois só haviam comungado dois homens. Dois apenas. Foi fácil contá-los. Dois no meio de algumas dezenas de mulheres. Também não eram muitas. Mas como não as consegui contar, deduzo que era um número composto de senhoras comungantes. Para a sacristia vieram também meia dúzia de pessoas, entre homens e mulheres. Gente simpática. Parece-me gente boa. Cumprimentos para aqui e para acolá. As senhoras querem marcar missas ou perguntar coisas. E perguntam, pois na paróquia estamos na fase das perguntas. Por isso, perguntei também. E queixei-me com um ponto de exclamação. Na nossa paróquia comungam tão poucos homens! Um senhor mais expedito que me escutava atento, avançou a sorrir. Aqui só comungam as mulheres, senhor padre. Rasguei o olhar e nova pergunta com exclamação. E porquê?! Porque é costume, senhor padre. Sempre assim foi. A ocasião permitiu-me que explicasse umas coisas essenciais de fé àquela gente da sacristia. Mas não resisti a pensar coisas com tudo isto. E penso-as agora de novo no papel. E faço pontos de interrogação, mais que perguntas. Pergunto se a Igreja será só das mulheres e para as mulheres, ou mais delas e para elas. E se é, porque é que os padres são homens. E porque não poderão elas ordenar-se. E o que falta aos homens para perceberem como a comunhão dentro da Eucaristia é a plenitude da Eucaristia. É quando Deus se partilha connosco de forma física e visível. E porque é que a nossa Igreja tem de ser uma igreja que responde quase sempre com aquela do É costume, como se ser cristão fosse apenas um costume. Como se a razão da nossa fé fosse apenas um costume que um tal Jesus iniciou há uns anos...

sexta-feira, abril 29, 2011

Os sucessos e insucessos dos colegas

Volta meia volta alguém se dirige a mim com as palavras do costume para contar aquilo do meu colega A ou B, o da terra vizinha geralmente, ou aquele que tem muita idade ou aquele que, sabe, ouvi dizer na televisão ou li no jornal. Quando querem dizer mal, que é a maioria das vezes, vêm com cara de enigma, assim com o rosto meio de lado à espera de perceber a nossa reacção. Os olhos também vêm de lado, para o mesmo. Boca igual, para se ouvir apenas numa direcção, para que ninguém dê conta quem é o autor de tamanhas palavras. Mas a verdade é que há um certo gozo escondido quando se ouve falar mal de um colega. Isso faz-nos sentir melhores. Como se a comparação com alguém débil nos faça sentir menos débeis. Isto é uma treta. Vai-se a ver, é o mesmo que nos acontece inversamente a nós. E às vezes pactuamos com a conversa, e damos opiniões de como deveria ser, como seria melhor, como eu faria ou faço. Como se essa fosse a balança ou a medida da bondade. Bem palermas que somos nessas ocasiões.
Quando querem salientar algo de belo e bom que um colega faz, vêm airosas, desafogadas, como os ardinas a tentar vender o jornal. Na ocasião esforçamo-nos por dizer que sim com a cabeça, mas alertar para alguns senãos. A cabeça fala uma coisa e a boca coloca reticências, pontos de interrogação. Podemos não dizer, mas pensamos sempre que o que ele quer é envaidecer-se. Como se o sucesso de um colega colocasse em risco ou em causa a nossa acção. Isto é uma treta. Vai-se a ver, é o mesmo que nos acontece inversamente a nós. E isso não é ser Igreja. E isso não é ser comunidade. Isso não é ser Corpo Místico de Cristo.
Hoje quero apenas alegrar-me com o sucesso do meu colega que vai editar um livro, e se amanhã me vierem dizer mal de um colega, vou esforçar-me por repreender quem o fizer.
Afinal quero fazer parte desse Corpo Místico de Cristo.

sexta-feira, março 14, 2008

Os Paulitos de hoje

O Paulito tem 11 anos. É brincalhão e extrovertido quanto baste. Tem bons pais. Não faltam à missa. Levam os filhos consigo. Coisas que rareiam cada vez mais. Famílias que rareiam. Descobri há dias que para grande parte das crianças, mesmo as que frequentam a catequese, daquelas que andam entre os 7 e os 10 anos, faltar à missa não é pecado. Vão quando vão. Vão quando os pais levam. Vão quando a avó leva. Nunca vão sozinhas. Por isso não têm que decidir. Se não decidem, não têm que distinguir se é importante ir ou não. Não são responsáveis. Porque os pais também não vão, embora as mandem à catequese. E têm alguma razão, ainda que pequena, em não sentir como seu o pecado. De alguém com capacidade de decidir será.
Mas o Paulito não falta. Porque os pais não faltam. E é reguila o Paulo. Está sempre disposto a brincar. Qualquer pessoa na terra opina que ele não é envergonhado. Que é despachado.
Há dias a mãe pediu-lhe que fosse confessar-se. E em resposta, ouviu uma enxurrada de argumentos. Para quê, mãe? É sempre a mesma coisa. Não me sinto à vontade. Vês lá os meus colegas? E que as pessoas olhavam. Que nem tinha pecados, pelos menos os grandes.
Quando a mãe ouviu dizer que não tinha pecados, insistiu com outra ideia, e foi dizendo que se não tinha pecados, devia comungar. Porque não o fazia? É que a comunhão era a partilha de Deus connosco. E que era um benefício comungar. E sobretudo que ela gostava muito de o ver comungar. É boa senhora. É de Deus. E não se impõe. Muito menos a fé. Mas incita o filho. Os filhos. Os que ama.
E o filho respondeu: Quantos da minha idade vês ir comungar, mãe? Eu envergonho-me de ir pelo corredor da Igreja fora e toda a gente a olhar para mim.

Não é moderno comungar ou ir à missa. Não está na moda. É como aquelas calças de marca que se não uso não sou ninguém. Não posso deixar de ser como os outros são, porque eles são a sociedade e a lei. Porque o mais importante é o que parece e não o que é. Porque Deus me faz envergonhar. Porque ser cristão hoje é um bocado chato. Porque na minha idade não é normal. Isso é dos velhos. Deus é para os velhos e acabados, ou a acabar. Porque hei-de ser diferente se isso até me faz envergonhar?

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Mais uma razão para me dar razão

Ainda se contam pelos dedos, mas já quase não me sobram para contar o número de anos em que estou nestas paragens. E recordo que logo nos primeiros tempos fiz uma estudada reflexão para explicar que se tornava muito simbólica a comunhão pela própria mão, e que essa razão ainda era mais importante que a higiene do acto. Não tenho qualquer pejo em dar a comungar directamente na boca, embora em muitas ocasiões os dedos sejam humedecidos pelas línguas respectivas e seja difícil concertar a distribuição com a recepção. Porém, convenhamos que comungar com o esforço próprio tem o seu significado. Não esperamos apenas que Deus venha ter connosco. Igualmente o acolhemos para o podermos contemplar mais de perto, para podermos tratá-lo com carinho. São apenas razões. O importante é mesmo a comunhão. Nem se trata de um modernismo. Ainda há tempos, na Alemanha, me lembro de me colocarem nas mãos um panfleto que abominava quem comungasse de outra forma que não directamente na língua. A falta de tolerância e a forma como condenavam quem fizesse o contrário só veio dar mais razão às minhas razões.
Avancemos. Apesar da minha explicação, muitos dos meus paroquianos continuam a comungar directamente na boca, e eu respeito. Obviamente. E falo nisto porque há dias aconteceu-me o inusitado. Uma senhora ia morrendo afogada ou abafada com a comunhão. Explico. Como nem toda a gente abre convenientemente a boca e estende a língua, por vezes torna-se quase impossível que a comunhão não tenha atropelos. Vai daí que a referida senhora não abre a boca como deve ser, deixa a língua atrás da placa dos dentes, a hóstia toca nos emprestados dentes, estes deslocam-se, desencaixam, e a senhora, aflita, engasga-se durante uns bons segundos, avermelha, aflige ao seu redor, aflige-me a mim, aflige Deus, até conseguir colocar tudo no devido lugar e voltar também ao seu. Parece uma anedota, mas não é.
É mais uma razão para me dar razão.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

A pastilha

Crismada há uns dias e catequista e boa rapariga, participativa, interessada, coralista, esta jovem de uns 16 anos não falta à missa. Os seus sorrisos fazem-se notar habitualmente, ou por alegria interior ou por alegria exterior. Sente-se e vê-se. Mas no outro dia excedeu-se um pouco. Os nossos cristãos têm destas coisas. Mascava e mascava. Quase toda a Eucaristia a mascar. No início eu pensei que fosse um mentolito ou coisa do género. Mas a demora em se desfazer começou a distrair-me. Não digo que fosse sua a culpa. Ninguém me mandou olhar para as suas bochechas no vai e vem. Começou a perturbar-me. Começou a inquietar-me. Começou a repugnar-me, sobretudo porque me parecia ser uma cristã com alguma formação. Dez anos de catequese, formação de catequistas, boa aluna, criativa.
Mas tudo isto não passaria de um incómodo se não houvesse distribuição da comunhão durante esta eucaristia. Pois, porque ela saiu do seu banco para comungar, eu não me achei dono da sua comunhão, da sua intenção e do julgamento divino, e por isso, quando ela abriu a boca para comungar e não avistei a pastilha, acabei por lhe colocar a hóstia consagrada na língua. Entristeci-me.
Ao acabar a eucaristia estava murcho por dentro e por fora. Ainda falei com ela, expliquei, re-ensinei, mostrei o meu desapreço e, embora saiba que Deus tem coisas mais importantes com que se preocupar, achei que aquela atitude não era própria de quem sabia a etiqueta e dignidade de Deus.
Voltei para casa a pensar nos dias de hoje em que os nossos cristãos com facilidade facilitam: comungam em pecado, comungam sem preocupar-se com o jejum aconselhado, comungam sem dar valor ao que comungam. Ou então não comungam sem motivo aparente para não comungar.