sábado, dezembro 31, 2016

O tempo passa e a vida vai atrás dele

O tempo passa e a vida vai atrás dele. São dois grandes parceiros. Contudo, um deles permanece aqui e o outro só permanecerá além. Não é bem um matrimónio até que a morte nos separe. Mas quase. São dois parceiros que caminham lado a lado, irmanados. 
Faltam, nesta hora, algumas horas para que um novo ano aconteça. Todos estamos atarefados com aquele momento em que se passa de um ano a outro. Essa meia-noite que se prolonga em copos, saltos, diversões, e beijos e abraços como se não houvesse amanhã. 
Teimamos em fazer desse segundo uma noite inteira. Teimamos em fazer parar o relógio. Como teimaríamos, se a varinha mágica existisse, em parar o tempo para que a nossa vida ficasse ali. Creio que vivemos uma vida a correr, convencidos de que ela está parada. Convencidos de que não há amanhã. Nem há depois de amanhã. Creio que vivemos ensimesmados em nós próprios. Fechados em sensações de que não existe dor, nem morremos. Que tudo é uma maquilhação do divino. 
Mas o tempo passa e as vidas vão atrás dele. Termina uma e começa outra. Não é a nossa que recomeça. E cada dia que passa é menos um dia de vida neste tempo que não termina. 
Não estou melancólico, minha gente. Estou somente a pensar que estamos prestes a entrar em novo ano, e continuamos a viver uma vida como sobreviventes de qualquer coisa. Parece que não a vivemos. Parece que a deixamos andar. Parece que nos preocupamos mais com os embrulhos e com os laços que lhe pomos, que com a prenda que ela é. A vida é para viver como quem no-la deu. A vida é um dom gratuito que vai muito para além de nós. A vida é tão boa, mas tão boa, que devíamos viver em constante estado de agradecimento, em constante estado de alegria, em constante Viver. Deixem passar o tempo e verão como a vida vai atrás dele. 

Aproveito para desejar a todos os que visitam este espaço e lêem estas palavras que vou soltando, um ano de 2017 cheio de Deus!

quarta-feira, dezembro 28, 2016

O sacrário está vazio

Não sei o motivo, mas quando o meu colega expôs o Santíssimo para a adoração, deixou a porta do sacrário totalmente aberta. Se não fosse a dignidade do contexto, eu diria que ela estava escancarada. Mas não digo. 
Nunca reparara tanto num sacrário vazio. Possuía uma leve iluminação. Estava forrado com um dourado mascado. Não possuía nem paninhos nem cortinas. Contudo o mais interessante deste sacrário é que o seu espaço vazio chamou a minha atenção. Prendeu-a mais que o próprio Senhor na hóstia consagrada. Neste momento, tal como me ocorreu quando escrevia, podem surgir uma série de vontades ou sensações recriminatórias. Eu próprio quis dar um nome a esta minha desatenção da custódia. Não lho dei porque não o encontrei. Ainda pensei que era mais um dos meus estados de espírito mundanos.
Paro e penso que me quero referir aos pensamentos ou sensações acerca de um mundo vazio, vazio de si e vazio de Deus. Tentei mais umas quantas justificações. Todas elas edificaram a minha meditação desta noite diante do sacrário vazio. Todas elas preencheram o meu vazio. Todas elas me falavam do vazio. Do vazio de um Deus que se quer ausente. Ou apenas no mítico espaço dos deuses. Ou pior, um Deus usado para esvaziar o mundo.

sábado, dezembro 24, 2016

dlim ou dlão [poema 125]

Dlim dlão, dlim dlão, dlim dlão
Não se ouve, não se ouve não…

Dlim dlão, dlim dlão, dlim dlão
Não se vêm estrelas, pois não.

Dlim dlão, dlim dlão, dlim dlão
Já não há pastores, porque não?

Dlim dlão, dlim dlão, dlim dlão
Foi-se o Menino, porque senão…

Deixem morrer o Natal, e então
Talvez ele volte, ou então não

Dlim dlão, dlim dlão, dlim dlão

Aproveito para enviar a todos os meus amigos e visitantes um Santo Natal!
Sim, mais do que um Bom Natal (dlão), que seja um "Santo" Natal (dlim)! 
Já agora, apetece-me recordar: AQUI

quinta-feira, dezembro 22, 2016

As mensagens de natal ou que tal

Estamos na época das mensagens, pouco lidas ou pouco recebidas, ou não sei. Palavras que se soltam e não se prendem. Estais neste preciso momento, e quase com certeza, a receber centenas de mensagens de Natal que ou não ledes ou ledes a correr, e o que interessa nelas é que alguém se lembrou de vós. Na verdade, isso, só por si, é bastante importante. Mas cuido que a maioria apenas nos contentamos com recebê-las. Eu recebo umas largas centenas e gosto muito de as receber. Mas vivo neste mundo e assumo que a maior parte delas as leio a correr. 
Mais curioso ainda é o fenómeno de ter de mandar mensagens. Como a obrigação vem do facto de também nós as recebermos, então multiplicamos as mesmas mensagens sem nos preocuparmos ao menos com a originalidade delas. E depois recebemos mensagens assinadas com outro nome que não o da pessoa que no-la enviou, porque esta se esqueceu de, ao menos, apagar essa assinatura. Ou acabamos por receber uma série de mensagens iguais. 
Obrigamo-nos. Obrigamo-nos a escrever e receber mensagens. Fazêmo-lo soltando palavras sem as sentir, ou pouco sentidas, sem que sejam muito mais do que obrigações. Claro que exagero, pois existem muitas mensagens verdadeiras e sentidas em cada Natal. Claro que no meio desta panóplia de mensagens, que devem dar muito a ganhar às operadoras de telecomunicações, existem muitas que são genuínas e têm propósitos genuínos. 
Assim também os bispos multiplicam as suas mensagens de Natal, como costumo seguir numa das nossas agências católicas. Quero crer que são escritas e enviadas sem a obrigação das mensagens de telemóvel, de facebook ou de twiter. Que são sentidas e brotam do espírito de Natal. Que não são apenas para se fazerem presentes ou para constar. E que possam ser lidas como tal, como mensagens de Deus a cada um de nós que ama.

terça-feira, dezembro 20, 2016

sem dormir [poema 124]

Não me serves em minha medida
É pequena para alguém sem medida

       Grão de sal, em mar, que não se vê.

Não cabes em mim nem na criação
Que tu criaste sem fim, infinito ser

       Grão de açúcar, em café, pressente.

Se o amor contasse, eu seria desejo e tu ser
Se o amor faltasse, eu não saberia o teu ser

Tu que não me cabes e podes caber
Tu que não me serves e queres servir

Deixa-me entrar e em ti dormir

domingo, dezembro 18, 2016

A personagem do presépio que não conta

Nesta época do Natal é hábito a Câmara Municipal juntar os idosos dos lares do concelho para uma festa. A mim costumam convidar-me para celebrar missa com eles, e vou com agrado. Para a celebração deste ano escolhi o evangelho da Missa da Vigília de Natal. Quem foi à missa hoje também deve recordar este texto evangélico, pois era o mesmo. 
A propósito desse texto, comecei a homilia questionando qual era a personagem do presépio a que dávamos mais atenção e importância. A maioria gritou que era o Menino Jesus, embora se ouvissem igualmente algumas vozes proferindo o nome da sua mãe. Concluímos juntos, e ainda bem, que a personagem que mais nos chamava a atenção era Jesus. Depois dele, era Maria. E depois… referiram baixinho o nome de José. Disseram baixinho, como se ele contasse pouco. Ou como se tivessem medo de errar. Disseram a medo o nome de José, esse que às vezes até fica atrás do burrito e da vaquita. Aquele José que Deus adoptou para ser pai do seu filho. Aquele que humildemente aceitou o papel secundário na encarnação de Deus. Aquele de quem tão pouco se fala na Sagrada Escritura. Uma das personagens da Bíblia mais silenciosas, que menos conta, de quem menos nos lembramos. É aquela figura que parece não fazer falta, mas que dá nome ao Messias. Olhem que não é coisa menor dar o nome ao Messias, não senhor. É humildade maior. Digo-vos que por vezes me apetece dizer que José é ainda mais humilde que Maria na aceitação dos planos de Deus a seu respeito. José afinal é aquele que parece não contar muito, mas conta tanto! 
E foi este José que apresentei como modelo àquela plateia. Àquela gente que, muitas vezes, também cuida que não conta, que não é importante, que não faz falta. E para terminar a homilia, aproximei ainda mais o microfone da boca, e fiz a pergunta. Quando pensardes que a vossa vida não é importante, ou que o vosso papel na história, na sociedade, no mundo e na Igreja não conta, quem havemos de lembrar? E todos responderam em coro. José.

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Qual o melhor post de 2015?

Agradeço imenso os resultados da sondagem anterior, pelo que significam, embora não seja algo de muita importância. Foi importante por validar algumas alterações ou simplificações que efectuei neste espaço. 
Hoje surge nova sondagem, já prevista, para a qual peço de novo o vosso auxílio, a fim de descobrirmos o eventual post/texto mais interessante, mais agradável, ou que nos ajudou mais a reflectir, e ao qual iremos chamar de "melhor post de 2015". 
Debaixo da sondagem estão disponíveis os 10 textos que, de entre a vossa e minha opinião, foram considerados os melhores.


quarta-feira, dezembro 14, 2016

A Igreja que se tinha de afastar do mundo

Sentados ao redor da mesa de jantar estávamos um pequeno grupo de sacerdotes de diversos países e culturas. Todos nos entendíamos numa só língua. Mal ou bem, entendíamo-nos. E debatíamos ideias, teologias, pastorais, liturgias, tudo o que viesse ao acaso da conversa típica de padres. 
Nisto, um deles, que tem cerca de uns quatro anos de sacerdócio, aludiu ao de leve no tema Igreja-mundo, alegando que a Igreja tinha de se afastar do mundo. Creio que nem ele entendeu o que acabara de afirmar. Creio que o exprimiu porque o lera nalgum livro de piedade barata ou o ouviu a algum outro colega, pois que estes entendimentos andam de moda dentro de um clero que gosta de fechar as suas igrejas para não se contaminarem. Pois eu não gostei e discutimos até ao outro lado da lua, que é como quem diz até ao tutano. Nem eu nem ele desarmámos. Eu porque não concebo que a Igreja, sendo formada por gente que vive no mundo, tenha de fechar-se aparte ou encerrar-se em si mesma. Lá diz o Papa, e bem, que a Igreja não deve ser autorreferencial. E ele teimava que não me entendia. 
Uma coisa é construir uma Igreja mundana, e outra fazê-la mundo. Uma coisa é a construção da Igreja e outra a construção do Reino. Foi para este que Jesus veio ao mundo e é este que nos pede que construamos. É verdade que a Igreja tem uma identidade própria. Mas não me conformo com termos que em vez de aproximar, distanciam.

domingo, dezembro 11, 2016

Encostadas ao meu peito

Contado parece algo meio distorcido. Vivido é a suma daquilo que eu imagino que deva ser a relação do pastor e das ovelhas. Tal como dizia o Papa quando afirmava que os pastores deviam cheirar as ovelhas. 
Ocorreu numa das minhas paróquias. Numa daquelas em que a relação com as pessoas tem aumentado imenso, sendo visível o carinho de parte a parte. Sinto que as pessoas confiam no seu pastor e se sentem seguras na sua presença. E assim no outro dia, enquanto confessava, reparei que uma grande parte das senhoras se encostava ao meu peito (advirto que tinham idade no mínimo para serem minhas mães!). Eu estava sentado com o braço sobre o encosto do banco, e à medida que vinham confessar-se, algumas aconchegavam-se para nos escutarmos coração a coração. Houve uma altura em que dei por mim a gostar de me sentir assim, tão pároco.

quinta-feira, dezembro 08, 2016

O Natal antropocêntrico

Ó meu menino Jesus, porque não entras nas chaminés? Porque é que só entras pelos corações? Porque é que as prendas que nos ofereces geralmente não as conseguimos ver? Já te imaginaste vestido de vermelho vivo e apelativo? Talvez assim no dia do teu aniversário não te esquecessem. Às vezes imagino-te a percorrer os corredores dos centros comerciais com uma bolsa às costas, ou sentado numa poltrona vermelha para as fotografias. Às vezes imagino-me a ouvir as crianças chamar por ti como chamam pelo Pai Natal. As centenas de cartas que te escrevem a pedir presentes: cura a minha mãe, dá forças ao meu pai, dá-me vontade de amar, ajuda-me a ser feliz. 
Ó meu menino Jesus, gostava que o Natal fosse mesmo Natal, mas o homem transformou o teu Natal e fez um outro natal, um natal antropocêntrico que gira à volta da tecnocracia e da economia.
Valha-nos ao menos que as pessoas se juntam em família, ainda que à volta apenas de elas mesmas.

domingo, dezembro 04, 2016

rever Confessionário Dum Padre em 2015

Depois de termos escolhido os melhores posts de 2012, 2013, e 2014, sem querer, deixámos o ano de 2015 sem fazermos o mesmo. Embora sabendo que não é o mais importante, é uma forma de revermos textos, pensarmos de novo, e ajudarmos este autor do blogue a verificar caminhos. Assim, e porque alguém me alertou dessa falha, seleccionei parte dos meus textos preferidos publicados ao longo do ano 2015, e agora peço a vossa ajuda para seleccionar aqueles que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes. Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Agradeço desde já a vossa participação e colaboração. No início de 2017, faremos o mesmo para os textos de 2016. Como nas outras ocasiões, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. Podem sugerir outros que não estejam nesta selecção. Para mim, relê-los fez-me bem. Pode ser que faça a mais alguém. 
Nota que os poemas não entram nesta sondagem.
Quem quiser dar uma espreitadela aos "best post" de 2012, 2013, e 2014, clique AQUI.

Janeiro

Fevereiro

Março

Abril

Maio

Junho

Julho

Agosto

Setembro

Outubro

Novembro

Dezembro

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Um estacionamento especial

Foi numa dessas viagens para um destino meio conhecido que tive de estacionar o carro num local desconhecido. De entre os espaços para o acomodar, aquele pareceu-me o melhor. Mas como o carro é novo, fiquei desconfiado sobre se seria o local mais abrigado dos amigos do alheio. E nisto vi rondar, a poucos metros, uns indivíduos estranhos, dos tais que aparentam gostar daquilo que não é deles. Olha o que fui pensar. Fiz o que tinha a fazer e regressei tão depressa quanto pude. Já dentro do carro, e depois de observar se me faltava algo, constatei que estacionara junto a um portão enorme e que por detrás se vislumbrava um edifício igualmente enorme. Naquele momento abre-se parte do portão, e de lá sai uma irmã, uma freira, como lhe quiserem chamar. Era uma senhora vestida de hábito. Era uma consagrada, que trazia na sua mão dois sacos que, percebi depois, continham comida. Os dois indivíduos, separadamente e de forma sorrateira, olhando para a esquerda e para a direita a ver se alguém os acompanhava com o olhar, abeiraram-se da irmã, e receberam cada um seu saco, junto com um sorriso e uma troca de palavras que não deu para escutar. Liguei o motor do carro a sorrir para dentro, e saí daquele lugar magnífico que uns minutos antes me fizera desconfiar. 
Vejam o que a gente pensa e o que devia pensar.

quarta-feira, novembro 30, 2016

entrar no silêncio [poema 123]

Entrei no silêncio sem me dizer
Esgotei as palavras por escrever
Como a água quando vai beber
Ou a rocha nua se quer vestir

Entrei pelas palavras sem querer
Soltei-as como eram e as sentia
Eu nunca entrara donde saía
O meu estar era como um dia

Entrei só, e não me quis fazer
Gritei sem voz, gritei por vós
Desfiz as palavras e todos os nós
Em silêncio, ficámos a sós.

domingo, novembro 27, 2016

Perder o que se não tem

Depois de me cumprimentar com um sorriso, o genro do falecido alterou ligeiramente a tom da voz e a inclinação da cabeça para alegar o seu descontentamento. O funeral do sogro fora presidido pelo diácono, pois eu não estava, e outras dezenas de colegas que haviam contactado também não estavam disponíveis. Tiveram que aceitar o diácono ou o morto ficava por sepultar. Compreenderam, dizia ele, que eu não pudesse, pela distância a que me encontrava. Mas não compreendia onde a Igreja ia parar. Assim tudo acabava. Assim acabava a Igreja e a fé. Como se ambas estivessem dependentes de funerais. Ou como se o diácono não fosse Igreja como os padres e os leigos. E assim o meu amigo dava a entender que perdia ou poderia perder a sua fé, coisa que eu não me lembro de nas celebrações da comunidade ou fora delas ter percebido nele. Mas agora é que perdia o que não tinha. 
Pelos vistos são bastantes os que por causa de não terem o que queriam, dizem ter perdido aquilo que não têm.

sexta-feira, novembro 25, 2016

senhor padre tal

O pedaço de história que ouso contar foi-me sussurrado por uma amiga que um dia deu de caras, no local de trabalho, com um sacerdote que em tempos da sua juventude, quando ainda era seminarista, trocara com ela gestos e momentos de amizade. Tinham sido um para o outro amigos de tu a tu. Tu isto, tu aquilo. O tempo passou e não se viam com frequência. Nesse dia, ela cumprimentou-o com o mesmo entusiasmo de outrora e simplesmente chamou-o pelo primeiro nome, que era o que conhecia melhor. A resposta dele foi mais ou menos esta Minha cara somos todos irmãos, mas uns são mais irmãos que outros. Ao que ela replicou com um Claro sr padre. peço desculpa pelo abuso! Pôs-lhe ela o ponto de exclamação e escrevo tal como mo contou. E amuou, sem perceber a razão de tamanha superioridade. 
O que eu não disse à Juliana é que às vezes as distâncias deste tipo podem ter a sua utilidade. Porque há quem abuse ou distorça. Eu trato meus amigos por tu e gosto que me tratem por tu. Mas nas paróquias às vezes o “senhor” acaba por, ao menos, parecer conteúdo de maior respeito.
Mas o que me fez pensar a sério no assunto dos tus e dos senhores, ou das distâncias e dos nós e vós, foi o que ela contou no final. Pois o senhor padre, ao despedir-se, deu um arzinho de graça, e disse Adeus, Julianinha. Ela, que tirou um curso e não assina doutora porque não quer, não conseguiu responder-lhe, e dizia-me. Só faltava que nas assinaturas, também os padres assinassem como senhores, e repetiu as siglas, senhor padre tal.

quarta-feira, novembro 23, 2016

Liberdade de não ter nada

Comprei algo que me custou bastante. Bastante dinheiro e bastante atenção. Bastante tempo e bastantes indecisões. Comprei algo que me é absolutamente necessário até para cumprir a minha missão sacerdotal. Um carro. Nem foi assim tão caro. É algo que comprei e que é meu. É algo que me pertence. E preciso. E hoje dei por mim a pensar que quando compramos algo que custa e que é novo, é quando damos valor à liberdade de não ter nada. Sim, lembrei aqueles que não têm nada e também não têm muito com que se preocupar para além do que é essencial. Aqueles que dão valor a cada pequenina coisa que possuem. Aqueles que, de tão pouco que possuem, têm todo o espaço do mundo para si mesmos e para Deus. Não precisam de preocupar-se se o carro está na rua ou na garagem. Se o esmurram ou se lhe estragam a pintura. Se está à chuva ou ao sol que queima. É nesses momentos, algo banais, que damos valor à liberdade de não ter nada.

segunda-feira, novembro 21, 2016

Senhor padre, como é que se pode amar mais a Deus?

Senhor padre, como é que se pode amar mais a Deus? 
Uma pergunta destas que surge desprovida de contexto e sem se contar com ela, parece algo banal ou sem sentido. Mas não era banal e fazia muito sentido a pergunta da senhora Luísa. Uma senhora que eu tinha e tenho como boa paroquiana e como crente. Aliás, é pergunta que já me ocorreu em noites mais escuras ou em dias mais fechados em mim. 
 Na verdade, quando percebemos e caímos na conta do amor perfeito de Deus, que ama sem limites, sem interesses, em liberdade, sem maquilhagem, e quando isso contrasta com as nossas debilidades, com os nossos interesses, com os nossos medos, com a nossa forma tão medida de amar, a pergunta da senhora Luísa começa a ganhar sentido e uma série de novos contornos. Será possível amá-lo mais? Como poderíamos amá-lo na perfeição? Como podemos amá-lo mais? Que fazer para aumentar esse amor? 
Reconheço que a primeira reação que a senhora Luísa me incitou foi a de lhe responder com alguma doutrina à maneira, com palavras do costume, aquelas frases que nós padres temos muita mania em usar. Mas também não tinha palavras destas em mim. Naquele imediato e como quase sempre, foi o coração que falou sem que eu lhe desse autorização consentida. A melhor forma de amarmos mais a Deus é deixarmos que o seu amor entre mais ainda em nós.

sábado, novembro 19, 2016

O que pensas da nova apresentação do blogue?

A última sondagem esteve online um mês, e pretendia reflectir sobre o ano jubilar que termina agora. 
Não farei muitas considerações a propósito das votações finais, porque creio que o fruto mais verdadeiro deste ano da Misericórdia só cada um pode ratificar ou tornar válido dentro de si. 
Destaco apenas que a opção mais votada foi "algo positivo". Se considerássemos uma linha divisória entre os que achavam que tinha sido bom ou excelente e os que o consideram como algo ou pouco positivo, teríamos uma relação de 44% para 50%. 
O que poderá tudo significar? Que a ideia do papa Francisco chegou ou não aos seus destinatários? Que mudou muitos cristãos ou não mudou nada, nem neles nem à sua volta? Que foi apenas mais uma manobra de marketing? As respostas deixo-as no ar... para que alguém as agarre e as ponha em palavras.


Hoje surge uma nova sondagem, e pelos vistos, bastante simples: "O que pensas da nova apresentação do blogue?"

Para apreciar melhor o significado do actual banner, bem como recordar os anteriores banners, clikar AQUI

quinta-feira, novembro 17, 2016

Dia de padre é assim

Este dia que passou foi um dia atípico. Quando o relógio despertou já eu tinha despertado sem saber qual era o lado da cama onde estava. Erguido da noite, com as olheiras de quem ainda precisa mais tempo para ver o dia, abri, como sempre, as persianas das várias janelas por onde o sol costuma entrar. Carreguei também no botão do computador que diz On. É um exercício matinal para quem quer exercitar os seus neurónios dando umas voltas pelo correio electrónico, pelas últimas do face ou do blogue, ou então para ver os últimos documentos elaborados ou por terminar. Só depois deste exercício corro, porque já não aguento mais, para a casa de banho. Depois aquece-se um pedaço de água na chaleira, mistura-se-lhe chá, pão, manteiga e o que houver nas prateleiras do frigorífico, e come-se. Neste entretanto já tomei banho ou estou para tomar. Fazem-se umas orações, a maioria das vezes, a correr, porque algo me espera, nem que seja somente uma ideia que tenho da vida. Que algo sempre me espera. Começa a manhã de trabalho com milhentas coisas da paróquia e dos outros serviços onde faço algo. Deixo espaço para almoço, em casa ou com alguém que se lembre de me fazer companhia. Segue-se uma tarde que em pouco difere da manhã, a não ser que na manhã o sol está a pôr-se e na tarde o sol está a ir-se. Jantar depois de uma ou duas missas. É costume atender várias vezes o telefone e pessoas que aparecem na paróquia. Passo nalgumas catequeses ou nem por isso. Reúno-me para tratar assuntos. A noite termina já avançada. E é óbvio que não contei tim tim por tim o que aconteceu neste dia de padre atípico. Atenção que o dia é que é atípico e não o padre. Ou então não. Talvez o padre também seja atípico. Foi assim o dia de hoje. Tal como a maior parte dos dias da minha vida de padre. E dirá alguém dos mais atentos que não tem nada de atípico. Mas foi. Foi atípico, porque ao deitar-me, veio-me esta frase ao pensamento: a vida neste mundo é mesmo muito efémera!

quarta-feira, novembro 16, 2016

Outono [poema 122]

A folha imaginária de papel caiu no jardim
Soltou-se das árvores que o sonho labutava
com pincéis verdes que se faziam amarelos
com mãos de pintor que esgrimiam palavras

Caía o Outono dos pensamentos, chegara,
tropeçando nas horas das coisas, olvidado
Com ele tombou meu cigarro, por apagar,
Como a folha, sem imaginar, sem discutir
com Deus

segunda-feira, novembro 14, 2016

Padre com fé

A mãe da jovem que morrera faz um ano estava na missa. Bem como o namorado e o pai do namorado que são de outras paróquias. Estava mais uma série de pessoas que lhe eram próximas. No final da missa parei para dar um beijo (chamemos-lhe de força) à mãe. Pressinto que o necessitava. Com o beijo veio uma conversa simples e rápida. 
Mal acabou, o pai do jovem namorado acercou-se do carro. Estendi-lhe a mão para o cumprimentar. Agarrou-ma, com a força típica de quem quer expressar mais que um mero cumprimento. Depois levou-a à boca, beijou-a, e disse Senhor padre, continue sempre com essa fé. 
Pasmei sem palavras. Não sei de onde retirou a conclusão de que eu tinha uma grande fé. A homilia fora mais uma daquelas homilias normais, comuns, banais. Ou então não. Talvez tenha sido a forma como me expressei. Ou como celebrei. Ou não sei. Só sei que pasmei. Mas foi com alegria que recebi aquelas palavras. Mau seria que me dissesse que eu não tinha fé. Mau seria que se percebesse que um padre não tinha fé.

quinta-feira, novembro 10, 2016

Perguntou quais eram os motivos para ser padre

No local onde em tempo de estudos resido tenho a oportunidade de me juntar com mais colegas sacerdotes e discutir sobre tudo e nada, a propósito e a despropósito. Como sou um dos que possui mais anos de sacerdócio, um deles decidiu perguntar-me qual ou quais eram os motivos para ser padre, o que é que ainda me mantinha após estes anos todos. E por acaso, como era um assunto que já pensara muitas vezes e em especial nesta semana dos Seminários, respondi que só tenho um motivo para ser padre, embora às vezes, ou muitas vezes, busque outros. 
É difícil dar razões do nosso sacerdócio, buscá-las, dizê-las. Se calhar deveria haver milhares de razões e motivos. São esses que às vezes procuro para me justificar ou para me sentir um padre com razões para sê-lo. São, quase sempre, humanos e mundanos, mesmo que bons e altamente positivos. Contudo, e sinceramente, penso que só vale a pena ser sacerdote por um motivo: o Amor de Deus que nos chama e fala mais alto.

terça-feira, novembro 08, 2016

pessoas especiais

Veio uma filha falar comigo passadas umas horas da suposta missa de sétimo dia para me dizer que estava magoada porque não fizera nenhum tipo de homenagem ou referência à sua mãe. A intenção de missa da sua mãe era uma entre outras, e pedira para que fosse a primeira a ser referida na eucaristia. Mesmo assim, estava magoada, e nisso temos de ser compreensivos. São momentos de especial dor. E a sua mãe era especial. Para ela. Provavelmente não para as outras dezenas ou centenas de pessoas que estavam na eucaristia. Mas era ela que desejava que eu fizesse da sua mãe o ser mais especial do mundo. Que era. Mas para ela. Que era, tal como as mães das outras dezenas ou centenas de pessoas que estavam na eucaristia. Pedi perdão por tê-la magoado sem intenção. E que não era meu costume fazer homenagens senão a Deus na Palavra que é lida em cada liturgia.

sábado, novembro 05, 2016

Homilias do padre

Gosto de fazer das homilias um espaço em que pensamos em conjunto, como comunidade. Por isso é meu costume fazer algumas perguntas, simples, sobretudo relacionadas com o que se acabou de ler nas leituras. Penso que deste modo os meus queridos paroquianos vão sentindo a necessidade de, cada vez mais, estarem atentos à Palavra de Deus proferida. 
Depois de cinco anos à frente destas paróquias, o hábito foi entrando. Mas há locais onde as pessoas ficam em silêncio. Não respondem. Ou esperam que outros respondam. Sim, falta de coragem. Sim, medo de errar. Sim, são muitos os motivos possíveis para que teimem em ficar calados. Mas sinto que é sobretudo o peso da história que lhes dificulta o passo. Esse peso de uma história de passividade, em que os leigos eram a plateia do padre. Não tinham que pensar em nada, senão estar ali aqueles minutos e depois regressar a sua casa de consciência descansada pelo dever cumprido.

quarta-feira, novembro 02, 2016

Como serão os funerais quando não houver padres?

Como serão os funerais quando não houver padres? E quem os fará? 
Apetece-me deixar a questão assim, no ar, sem respostas, sem nuances, sem rodeios, sem certezas, sem vontade maior que fazê-la sem elaborações. 
Contudo, depois apetece-me dizer que a Igreja é de Cristo e é natural que sempre haja padres. Digo eu. E também não se sabe se daqui por uns anos vão querer os padres a fazer funerais, quando já hoje muitos dizem à boca cheia que não querem padres para nada e garantem que não precisam deles. 
Ainda refaço a pergunta para me entender. Como serão os funerais sem missa? 
Mas não sei se me entendi. São perguntas que faço sem me dar conta que as faço. São perguntas de quem está a pensar nessa coisa que é não se precisar do padre para nada, como dizia há dias um jovem de óculos de sol. De quem vê o número de padres na europa cristã a diminuir. São perguntas de um padre que em algumas ocasiões precisava que aceitassem com fluidez, que é como quem diz, com naturalidade, que fosse o diácono a presidir ao funeral. Mas não. Não é fácil impingir um diácono nestas cerimónias. E já vimos porquê. Imensas razões culturais, sentimentais e outras que tais. Eu próprio sinto que são ocasiões de evangelização ímpares. Assim como é uma forma de a Igreja estar com quem sofre. É nosso dever estar presente no momento culminante da vida das pessoas, porque é esse que muitas vezes nos dá a vontade de Deus. Ou então não. Então é apenas a dor que precisa de ombro amigo que o padre pode ser por excelência. São só tolices, amigos, porque eu bem sei que devo estar presente o mais possível nestas ocasiões e não há volta a dar. 
Mas há dias, a propósito de alguém que queria missa para o pai, mesmo sem nunca ou quase nunca lá ir, nem pai, nem filha, mesmo que para isso o padre tivesse de sacrificar o seu único dia de folga, veio-me esta tolice ao pensamento (mesmo sabendo que o padre tem mais folgas do que as que precisa e que só tem trabalho aos domingos. Fora de brincadeiras). Mas se em vez de 60 ou 70 padres que uma diocese possua, passe a ter uns 10, com trinta paróquias cada um, quem fará os funerais? Como serão os funerais?

sábado, outubro 29, 2016

Indizível amor

Deus já nos amava antes de sermos. Ele amou-nos desde o seio do seu ser sem tempo que seja antes do que quer que seja. Releio a Palavra de Deus nas Escrituras. Deixo-me encantar com este entendimento. Porém, não entra em mim tamanho amor que consegue amar para além do existir. Nós também conseguimos, de certa forma, amar aqueles que já amávamos e já partiram. Mas não amamos aquilo que não existiu primeiro. Só um amor que não vive sem ser amando consegue amar aquilo que ainda não existe. Como a mãe que ama o filho ainda sem o conceber e sem haver nascido. Isto é tão grande, meu Deus. Pode até ser contestado por quem não quer saber deste seu amor. Mas quem, algum dia, chegou a senti-lo, como não contemplar o excelso, o indizível desse amor!

quarta-feira, outubro 26, 2016

Os filhos que às vezes são esquecidos

Não quero complicar muito. A pequena Rafaela tem poucos anos, mas os suficientes para sentir o seu redor, para se sentir, para que os seus sentimentos puros e desinteressados a façam chorar. Na semana passada dedicou toda uma noite a chorar. Tem dedicado muito tempo às lágrimas. Mais à noite que durante o dia. Os pais separaram-se sem que lhe dessem a certeza que não se amavam. Sem lhe dar as certezas que ela precisava e tanto merecia para viver. Vai-se habituar a viver assim e a pensar o mundo como se descartar fosse o mais normal. Como se fazer sacrifícios não fizessem parte do viver. Como se os problemas se ultrapassassem afastando-se deles. 
Não quero complicar muito. Mas as lágrimas da Rafaela, e o seu rosto envelhecido por estas coisas, amadurecido à força por coisas que não entende, triste pelo amor que deixou de perceber, tocam-me e tornam-me a tocar fundo. 
Eu sei que a vida de muitos casais não é fácil. Mesmo para os casais cristãos que deveriam ter percebido que a cruz é um sinal mais na vida da fé. E não os julgo. Tenho ouvido alguns aos quais as razões válidas ou insuportáveis sobram. Sinto que não é por terem perdido a força e o ânimo que Deus os deixa de amar. Mas quando penso na Rafaela, também a mim me vêm umas lágrimas durante a noite.

domingo, outubro 23, 2016

Marquito, um exemplo de oração

O Marquito anda no quarto ano. É bom moço. Vive com a mãe, que tem um emprego precário. Por isso não são de muitas posses, nem podem gastar dinheiro em coisas prescindíveis. 
No outro dia o Marquito, ao passar numa loja da worten viu um tablet que estava em promoção e que lhe arregalou os olhos. Imaginem o que seria de bom poder receber uma dessas coisas que quase todos os coleguinhas da turma têm. Por isso, sabendo das dificuldades lá de casa, em vez de pedir à mãe, decidiu pedir directamente a Jesus, esse Amigo com letra grande de quem tem ouvido falar maravilhas na Catequese. E assim, contou a mãe, todos os dias à noite, antes de adormecer, dirigia um pedido a Jesus para que no dia do seu aniversário tivesse a alegria de receber um tablet daqueles que são fixes e estavam em promoção. 
A mãe não sabia que fazer, mas sabia que quase de certeza não conseguiria juntar poupanças até ao seu aniversário para esse efeito. Como de facto. E no dia em que o Marquito cumpriu mais um ano de vida, o desejado tablet não apareceu lá por casa. Por isso, à noite, antes de deitar, a mãe decidiu ter uma pequena conversa com o seu filho para lhe diminuir a tristeza. Então, meu filho, estás triste porque Jesus não te respondeu? E para espanto da mãe, o Marquito respondeu que só estava um bocadinho triste e que Jesus lhe tinha respondido. E sem que a mãe interviesse de novo, ele acrescentou. Ele respondeu, mãe. Ele disse-me que não.

quinta-feira, outubro 20, 2016

Beijo de Deus [poema 121]

Beija-me no coração
E diz-me aí teu amor
Sem nome e sem te ver
Arca do tesouro, sem dizer,
Entra, não precisas abrir,
Basta tão só teu sentir

terça-feira, outubro 18, 2016

Nós e vós

O título soa a poema ou a palavras que se fazem beleza. Contudo soa também a dois lados que se separam, que se afastam, que vivem juntos mas não se juntam. E eu não tenciono escrever palavras belas ou poemas. Tenciono deixar meu coração falar do que tenho sentido ultimamente na Igreja. Na minha Igreja que quero Corpo de Cristo. Na Igreja onde tenho sentido que coabita um nós e um vós. 
É um nós e um vós entre padres e leigos. Um nós e um vós entre leigos que participam habitual e sacramentalmente na vida da Igreja. Um nós e um vós entre aqueles que se gostam de afirmar católicos de direitos, mas diferentes dos católicos com deveres. Um nós e um vós entre aqueles que agora, porque vem uma festa ou um sacramento de festa, querem fazer parte do grupo, mas que depois falam da Igreja como se fossem os que lá vão habitualmente. E mais um nós e um vós entre aqueles que acham sempre que a Igreja é para se desconfiar, mas foram baptizados e baptizam os seus filhos. E um nós e um vós entre padres e o seu bispo. E um nós e um vós entre os próprios colegas de sacerdócio. Creio que chega a haver um nós e um vós entre nós e Cristo.
Há tantos nós e vós, que às vezes já não sabemos se somos parte ou somos o todo.

sábado, outubro 15, 2016

Quase a findar o ano santo da Misericórdia, és de opinião que ele foi...

Já passaram mais de dois meses da última sondagem postada, que perguntava sobre os atentados terroristas e sobre o modo como deveríamos reagir. Em baixo ficam os resultados dessa sondagem, que podem ainda ser comentados.


Hoje surge nova sondagem a propósito do ano santo da Misericórdia, esse ano jubilar que o papa Francisco propôs à Igreja e que está a findar. O objectivo é levar-nos a pensar, a meditar, a reflectir sobre os frutos, as vantagens, as mais valias, as acções que foram concretizadas, a forma como a generalidade das pessoas lidou com esta ano. Fazêmo-lo em forma de perguntas com respostas simples e abrangentes que, depois, esperamos sejam comentadas e justificadas.

Quase a findar o ano santo da Misericórdia, és de opinião que ele foi...

quinta-feira, outubro 13, 2016

As picadas estranhas

Não a conhecia e quase de certeza que não a voltarei a ver. Disse-me que estava fora. Percebi que era emigrante. Não pretendia confessar-se. Trazia consigo apenas um pedido. E nem deixou que lhe perguntasse qual era. Dizia que tudo se iniciara há três anos, desde a morte de uma pessoa que agora frequente ou diariamente lhe aparecia e a picava. Mostrou-me os dedos deformados pela idade para me indicar onde a picava. Também a picava na cabeça e não sei mais onde. Nem ela me soube dizer. Disse que não a deixava dormir. Dizia que já tentara tudo. Mesmo tudo. E como lhe perguntei se tomava medicação, contou-me que os médicos e os remédios não faziam nada. Mais me contou que as rezas de um outro padre também não tinham feito nada. Não tinham dado resultado. Talvez o padre não fosse em condições. Por assim dizer que eu poderia ser em condições. Estava disposta a pagar o que fosse necessário. Falámos inclusive de exorcismos, mas essas coisas exigem processos complicados e morosos que os bispos devem presidir. Ela não sabia o que era isso dos exorcismos, mas estava disposta a tudo. Até a ir falar com o bispo. Estava perdida, desesperada, disposta a tudo em troca de uma paz que ela esperava que alguém lha desse. Também eu fiquei meio perdido sem saber que lhe dizer, pois penso que a percebia para além das picadas e das medicações. Mas não queria deixar de a acolher com amor. E acabámos a conversa com a única coisa que penso poder fazer por ela. Rezarei por si, disse. E já o fiz.

terça-feira, outubro 11, 2016

deixar-se [poema 120]

Vai-se a força, vai-se a vontade
Vai-se a vida, vai-se o viver
Vai-se o tempo, vai-se o fingir
Vai-se tudo sem se querer

Vai-se
e só volta o não querer
Vai-se sem me dizer

segunda-feira, outubro 10, 2016

reú que não és [poema 119]

Como o mundo assim é
E voltado está sobre si

Como abespinhado estou
E voltado sobre o mundo

Vou entregar-me ao castigo
sem que a culpa seja minha

Vou sentar-me no banco dos réus
Por que sou!

sábado, outubro 08, 2016

Leitura [poema 118]

Costumo ler-te por dentro
Como livro sagrado e antigo
Leio-te com pó envelhecido
Na teia trabalhada a ouro
Pela aranha de mil pés
Tudo cheira a bafio e distante
Mesmo que por dentro eu leia
E passeie as folhas com desvelo

Deixarei de ler-te dentro de mim
E passarei a ler-te por ti adentro

sexta-feira, outubro 07, 2016

7 de Outubro [poema 117]

Hoje

É dia do silêncio por fora das palavras ditas
É dia de gritar para dentro até o sono regressar
É dia trazido pela noite na quietude das cores
É dia do fado que a guitarra tange lá tão longe  
É dia para ser dito que a morte não nos separa
É dia que a vida diz para não se dizer a si 

Hoje é um dia que é só teu e meu
No mais escondido de mim Hoje

domingo, outubro 02, 2016

Praia e Deus

Na praia passa-se muito tempo deitado, de barriga para cima ou para baixo. Numa toalha quase sempre descolorida ou desbotada pelo sal, pela areia e pelo sol. De olhos fechados, e com a mente vazia. Vazia de preocupações. A mim ocorre-me assim e deixo-me levar pelo sol. O sol é coisa que se nota, que não se disfarça, que às vezes se afasta, mas que se deseja. É assim comigo. E deixo a sugestão de que sintam como eu sinto. 
Experimentem então, numa dessas ocasiões, de preferência com a barriga para o ar, deixar os olhos fechados e abrir os restantes sentidos ao que está ao nosso redor. O som das ondas que vão e que vêm, que batem, que inspiram. O mar como se fosse um comboio a correr para algum lado. O sol a preencher-nos a pele, e a entrar para dentro de nós. O ruído das conversas que não se percebem mas que estão lá. A algazarra das crianças que se divertem com as areias. O vento a bater no guarda-sol com a força necessária para não o derrubar. Passados uns minutos que não se conseguem contabilizar, talvez consigam dizer, como eu disse ainda no outro dia. Isto é uma autêntica experiência de Deus. Tão simples, mas tão de Deus.

quinta-feira, setembro 29, 2016

Antes [poema 116]

Antes que as águas te engulam
E o fogo sem rodeios te consuma
E as estrelas te fujam da noite
E as mães deixem de amamentar
E os montes na aldeia sejam vales
E a vida que és se esvazie em pó...

Constrói uma escada para lá chegar

terça-feira, setembro 27, 2016

tempo [poema 115]

Hoje não sou céu, sou o tempo
Sou horas muito para além do dia
Relógio acelerado sem ponteiros
Sou tempo que parece não o ser
Não estou em mim, vejo-me de fora
Sou aquele que deixa tudo em ser

quinta-feira, setembro 22, 2016

José, de personagem secundária a modelo principal

Cada vez gosto mais do José, a figura secundária da cena da encarnação, aquele que não foi tido nem achado para que o Filho de Deus encarnasse, aquele que continuou no anonimato das páginas da Escritura. 
Num mundo extremamente varonil, onde a mulher ocupava um segundo plano, assistimos a uma personagem que, sendo homem, ocupa o segundo plano, o plano daqueles que não centram o olhar da nossa atenção. É aquela personagem sem a qual o filme não seria a mesma coisa, mas sobre a qual poucos ficam a falar após o fim do filme. E foi este José que aceitou este segundo plano, um plano sofrido, porque nem sempre entendia o que se passava. E quando a sua amada apareceu grávida, aparece este homem, modelo de misericórdia para as famílias e matrimónios de hoje, modelo de misericórdia porque põe em primeiro lugar aqueles que ama, Jesus e Maria.

segunda-feira, setembro 19, 2016

canto [poema 114]

Canta alma minha, não emudeças
Diz que um dia Deus há-de ser Deus
Dos homens e das criaturas que o não são

Canta e grita a esperança de um mundo
Sem paredes, sem muros e sem barreiras
Como estradas e caminhos e pontes

Hoje sou apenas aquele que não tem voz
E sonhou que um dia havemos de ser nós

quinta-feira, setembro 15, 2016

Padres habituados a ser clericais

Nós, os padres, habituámo-nos a ser padres clericais em vez de eclesiais. Habituámo-nos a servir, servindo-nos. Habituámo-nos a um modelo de padre que se coloca no centro da comunidade em vez de colocar Jesus no centro dela. Custa sair deste modelo para seguir o modelo de Cristo. Criámos uma estrutura humana que, embora sendo necessária, se tornou a necessidade a defender e não caminho para a Verdade. 
Habituámo-nos. Habituei-me. Todos gostamos de louvores, atenções, pequenos nadas. Habituámo-nos a ser padres assim.

sábado, setembro 10, 2016

Forças do homem [poema 113]

Naquele tempo faltará a força das coisas
Nada resistirá ao vendaval que vai assolar
A terra das coisas que são coisas e não deus

Essa borrasca irá gritar dos céus Acabou
Terminaram as forças que o homem portava
Nas coisas que não eram suas, mas acreditava
Que era o deus das coisas e que eram suas

E a força cairá por terra sem a força de outrora.

segunda-feira, setembro 05, 2016

cancro da mãe à porta

Ligou-me para dizer que o cancro da mãe estava com pressa. Se não reagir ao plasma que lhe vão injectar não terá muitas semanas de vida. Dizia ainda que a médica lhe mandara juntar um núcleo de apoio psicológico, caso precisasse. Cresceu sem pai, e fora a mãe quem a fizera crescer. Agora está a partir e não sabe que fazer. Tem o coração pequenino e pesado. Utilizava expressões que me fizeram pensar num daqueles grandes escritores com alma de sábios. Gostava que ela desse um pontapé no cancro, que escolhesse outra porta, que me acompanhasse mais uns tempos. Mas não dá. Claro que não dá. A vida aceita-se. A chamada telefónica fez-me pensar muito no último mês da minha mãe. Um mês de inquietação cada segundo desse mês. Um mês muito doloroso, mas muito especial. Porque foi o último mês que aproveitei da vida da minha mãe. 
Por isso lhe respondi, como sentia, que com tudo na vida aprendemos a viver, e não propriamente a deixar-nos viver ou a sobreviver. A vida e sofrimento da minha mãe ensinou-me coisas que não aprendia de outra forma. E assim respondi. Eu sei pelo que estás a passar e vai doer. Esta é a realidade. Mas não significa que a dor seja maior que tu!

nota: Escrevi este texto pouco depois da notícia que recebeu do cancro da mãe. 
Hoje publico porque faleceu ontem mesmo! A vida é para se viver!

quinta-feira, setembro 01, 2016

Padres que não sabem que caminham

Nós, os padres, às vezes esquecemos que precisamos de fazer caminho. Que caminhar também é para nós. Pensamos que chegada a nossa ordenação sacerdotal, já está o caminho feito. Que tudo nos tem de estar claro a partir daí. Que nada nem ninguém se vai atravessar no nosso caminho. Esquecemos que as estradas têm muitos buracos e que se não os taparmos, pelo menos temos de passar-lhes ao lado, saltá-los, ou cair neles para depois tornar a levantar-nos. 
Chegamos a pensar que a fé que pregamos para os outros é a palavra-chave da nossa vida, quando é uma entre muitas outras. Não há fé de chumbo, como diz um escritor que tenho andado a ler, Tomás Halik. Ou melhor, essa fé de chumbo é uma falácia que nos traz certezas que não o são. Que nos traz seguranças que não existem. 
Não somos mais nem menos que ninguém. Somos apenas caminhantes que caminham como sacerdotes. E como diz o povinho, o caminho faz-se caminhando.

sábado, agosto 27, 2016

O padre não é bom da cabeça

O senhor estava ao telefone a convidar um amigo para a festa do seu filho que ia fazer a primeira comunhão no dia tal. Eu estava numa mesa ao lado à espera que me entregassem o carro após a mudança do vidro que se partira vá-se lá saber como. O senhor esperava também o seu carro por motivo idêntico, quando, para ocupar o tempo, efectuou a chamada que ouvi como se fosse para mim. O que ele não sabia é que eu era padre e que o padre a que se havia de referir o conhecia bastante bem. 
O padre não é bom da cabeça, dizia. Olha que ele exige três anos para fazer a primeira comunhão. São de facto três os anos estipulados pela Conferência episcopal portuguesa e pelo itinerário da Catequese. Para mostrar ainda mais a força da decisão que tomara, queixava-se que o padre, que não é bom da cabeça, dizia que com mais de três faltas o miúdo seria retido na catequese. Onde já se viu! Exclamava. 
O padre é doido por exigir estas coisas. E depois encontrou uma catequista ali ao lado, pareceu-me que numa paróquia bem ao lado, que aceitou o miúdo para fazer a primeira comunhão, e em dois meses vai conseguir fazer catequese de três anos. Grande catequista. E ainda diz o senhor que o filho, afinal, até gosta daquilo, e já sabe tudo. Como se fosse uma questão de saber. 
Estava o filho contente e o pai mais que contente, porque afinal o seu filho querido ia fazer uma festa linda. Aquela festa que provavelmente irá fazer poucas vezes na vida. Porque comungar deveria ser sempre uma festa. E vai ter casa cheia com almoço bem melhorado. 
Tal pai, tal catequista, que nunca devem ter ouvido a Jesus dizer que se o quisessem seguir, até teriam de deixar pai e mãe!

terça-feira, agosto 23, 2016

Um casamento que se chama civil

Por obrigações de sangue, participei há poucos dias naquilo que se chama um casamento civil. Uma experiência inolvidável. Uma tentativa de fazer de um contrato uma cerimónia. Foi o que me pareceu e, durante os largos minutos em que a senhora primeira ajudante de conservadora lia os números da lei, o meu coração palpitava de inconformação. Reconheço que desconhecia esses números da lei e desconhecia que apenas utilizavam palavras como contrato, deveres e direitos. Um dos meus cunhados e uma das minhas irmãs, que me observavam, comentaram depois que até parecia que me saía fumo da cabeça, tal seria o meu desconforto. Era o desconforto de quem tem claro que o casamento é um matrimónio, e que mais do que um contrato é uma aliança. Não tenho nada contra o que se chama de casamento civil. E sei que em muitas circunstancias, como era o caso, é a única solução possível para quem quer manifestar o amor como um compromisso para toda a vida. Foi assim que quis entender e viver o momento. Mas não consegui abstrair-me daquilo que é a aliança de amor entre duas pessoas que se amam e dão este passo. Não consegui abstrair-me do facto de a palavra amor não ter sido utilizada em nenhum momento da pretensa cerimónia. Não consegui distanciar-me daquilo que sou, sacerdote. Não consegui, e por isso no final perdi a vergonha e pedi autorização aos noivos, o que me foi concedido, para dizer umas palavras. Peguei no microfone e expressei o que sentia, ao mesmo tempo dizendo que desejava que aquele momento não fosse apenas um contrato, mas uma aliança, e que embora não tivessem podido fazê-lo diante de Deus, que Deus estivesse com eles o resto das suas vidas como creio que estará.

domingo, agosto 21, 2016

as duas formigas [poema 112]

Na mesma história habitavam duas formigas
Uma cantante, outra trabalhadeira fatigante
Duas pequenas donas de terra e de lugar

Na mesma história duraram a emigrar
Presas ao canto, ao trabalho e ao lugar
Duas pequenas formigas na história de encantar

Na mesma casa se lembraram de casar
Tiveram filhos e filhos e netos a acasalar
Duas pequenas vidas que hoje vão a enterrar

Acabara-se a história, acabou-se o lugar
Já não tenho palavras para vos escrever
Duas pequenas criaturas de Deus em ser

Que em mim eu deixei nascer
Porque de tão pequenas eu não vi crescer

quinta-feira, agosto 18, 2016

Fazer caminho

É mãe de três filhos. Diz-me que é maravilhoso o dom que Deus lhe deu de ter filhos. São de facto uma alegria sem tamanho, mas também um desafio diário. Neste desafio, há dias em que não se sente à altura de tamanha responsabilidade. E outros dias há em que a sua vida familiar entra em conflito com a sua vida na Igreja, na comunidade cristã, e isso deixa-a confusa e angustiada. Vai tentando sempre ver o lado positivo, se bem que às vezes não seja muito fácil e se sinta um pouco perdida no caminho. Mas vai-se caminhando, diz. Di-lo de uma forma que parece não ver mais que a dificuldade. 
Não me pedia uma resposta, nem conforto, nem nada que se parecesse, pois estava convencida de que era assim que tinha de ser. Porém, quando lhe disse que se não estivesse perdida de vez em quando provavelmente não daria conta de que estava a caminhar, respondeu, com satisfação, que nunca tinha pensado assim, e que de facto assim se dava conta que fazia caminho.

segunda-feira, agosto 15, 2016

tolices de padres... ou casa cheia, talvez seja melhor

O calor encheu tanto a casa, que não tenho lugar nela. Moro alto. Num sítio alto. Para desculpar o lugar que encontraram para mim na paróquia, digo que estou mais perto do céu. Não sei se estou. Mas queria estar. 
Quando o sol chega, não há roupa que resista no sítio onde habito. Acontece quase igual em sentido inverso quando vem o Inverno. Não há aquecedor que resista. Não tem mal. Assim sabemos que a casa está sempre cheia e não moramos sozinhos. 
Hoje escrevo com pouca roupa e parece uma tolice um padre dizer estas coisas. Nem sequer vem a propósito de nada. Mas apetece-me escrever. E não estou a queixar-me. É assim que apetece. 
Ah, recordo agora que isto poderia ter a ver com Deus. 
Quando uma casa se enche de Deus, ocupa tanto espaço, o espaço todo, que parece que nem moramos nela. Parece que é Deus que lá mora.

sexta-feira, agosto 12, 2016

As famílias que não rezam

Numa reunião de pais de meninos que iam fazer a festa da Oração do Pai Nosso, estivemos a reflectir sobre o valor e importância da oração. Começámos por fazer um pequeno inquérito anónimo sobre aqueles que tinham por hábito rezar com os filhos em casa, fosse muito ou pouco. Constatou-se, no final do escrutínio, que mais de 50% não rezavam praticamente nada, e uns 20% rezavam muito pouco. Foram honestos os pais daqueles meninos, e chegámos juntos à conclusão de que a oração está ausente nas famílias de hoje, mesmo as famílias que se dizem cristãs ou que têm filhos na catequese. Alguns concluíram que tinham de alterar a percentagem. Outros, não sei. O que sei é que, como imaginava, as famílias dedicam muito pouco tempo das suas vidas a falar com Deus.

terça-feira, agosto 09, 2016

Casamentos sem missa

Estão ambos fora do país há muito. Agora pretendem casar, e já marcaram uma data pdo próximo ano. Querem casar pela Igreja num dia que coincide com outro compromisso idêntico que assumira anteriormente. Como tal, falámos da possibilidade de não ser eu a presidir e, eventualmente, não ter missa. Em princípio concordaram, e assim assumimos, juntos, essa data. Ontem vieram falar-me de novo e referiram que queriam com missa. Depois de uma pergunta discreta, descaíram-se dizendo que não costumavam ir à missa. Só quando estão em Portugal, cerca de três meses, e nem sempre vão, mesmo nessa ocasião. Mas querem missa, e perguntei o porquê da insistência. Ao que responderam que senão não era a mesma coisa. 
Claro que não. Uma coisa é uma Eucaristia e outra uma celebração sem Eucaristia. Estamos de acordo nisso que é uma evidência óbvia. Mas insistir que deve ter missa, quando ela tem pouco sentido nas suas vidas, o que pensar?! E lá vem outra vez a questão cultural dos sacramentos.

sábado, agosto 06, 2016

O padre tem de saber perdoar

O padre tem de saber perdoar. Dizia um bispo, em voz grave, no meio de uma pequena palestra sobre a confissão. E argumentava a afirmação com frases do papa. Recordava inclusive uma pequena história que este contara sobre um padre que tinha escrúpulos porque arranjava sempre uma forma de perdoar na confissão. 
Perdoem a ousadia que eu não tive para interromper o senhor bispo da voz grave. O padre não é dono do perdão. É instrumento do perdão de Deus. Usa o perdão de Deus na confissão. Tem de saber usar o perdão como ele é, infinito e sem explicação que não seja amor. Tem de ser sinal do amor de Deus na confissão. Tem de ser o rosto de Cristo que acolhe. Talvez isso seja saber perdoar, Mas não é ele que perdoa na confissão. 
O padre tem de sentir o perdão. Isso sim. Só quando sente o perdão em si, sabe o que é o perdão nos outros. Só sabe ser instrumento de perdão quem já foi objecto desse perdão. Só sabe acolher em amor na confissão quem um dia foi também acolhido com perdão e amor.

quinta-feira, agosto 04, 2016

o dia dos dias [poema 112]

Os dias passam, dentro de um baú,
Como um tesouro que é escondido,
Encerrados pelo tempo que voa
E plana no meio de tempestades.
Vão em busca na nau imaginária,
No porão, entre outras relíquias.

Passam os dias por mim e eu digo:
São apenas dias que um dia serão

segunda-feira, agosto 01, 2016

Atentados ou sublimados

Um muçulmano diz que precisa meia hora para rezar de manhã e o patrão dá-lhe autorização. Se um católico pede para ir à missa, não pode. Há que cumprir horários. Um muçulmano no hospital pede que não lhe dêem carne e já está. Não come carne. Um católico diz que não quer comer carne na quarta-feira de cinzas, e ou come carne ou não come nada. Se um artista plástico, como aconteceu em Espanha, decide fazer uma obra, a que chamou de arte, com hóstias consagradas roubadas, isso é arte e não tem mal. Mas se alguém propõe que se celebre uma Eucaristia na escola por alturas do Natal, isso não é de permitir, pois atenta contra aqueles que não são católicos. 
O Ocidente quer entrar em ruptura com a sua história, cultura e valores. Não me importuna que o faça. Mas não desta forma aviltante. Não de modo a perder-se, sem solução para se encontrar. 
Os que apregoam e exigem mais tolerância são geralmente os que menos tolerância têm para com a Igreja. De que terão medo? Ou qual a razão para tamanho incómodo? 
Os que apregoam mais liberdade e democracia são os que mais se impõem contra a Igreja e os valores que propõe. Os mesmos valores com que nasceram. Que pretendem afinal? Porque incomoda tanto a Igreja? 
Se há um atentado ao Charlie Hebdo é um atentado contra a liberdade de expressão. Se há um atentado numa discoteca gay, é homofobia. Se há um atentado em Nice, é atentado contra a liberdade, igualdade e fraternidade. Se há um atentado a um pobre homem de 84 anos, sacerdote, no meio da sua missão, é apenas mais um atentado. Assim como os milhares de cristãos, católicos ou não, que têm sido vítimas de violência em zonas fora da Europa. São apenas mais umas mortes. 
Quase apetece pedir ao Senhor Deus que encarne de novo, que venha por isto em ordem, ou que descarregue umas quantas rajadas neste mundo tão líquido. 
Ou então não. Podemos sempre pensar que o cristianismo tem esta capacidade de sublimação! Afinal, a cruz é o nosso sinal mais. O amor é a nossa melhor arma.

sexta-feira, julho 29, 2016

Baptismos ajeitados

Falemos de baptizados. Estamos na época deles. Ou falemos de outras coisas que parecem baptizados. Ou falemos de uma Igreja ou de padres que se transformam em funcionais para agradar ou atrair sobre si uma popularidade barata. É aquele tipo de padre ou de igreja que diz a tudo que sim, não porque seja para bem do reino, da fé, do anúncio do Evangelho ou do amor de Deus, mas porque é mais fácil, mais prazenteiro, e sempre sacam da boca das pessoas palavras como Este padre é que é um gajo porreiro. 
Eu também tenho como opinião que a lei se faz para o homem e o homem não deve ser escravo da lei. O que não entendo é que em favor dessa opinião, se permita tudo sem que a fé, a conversão, o catecumenado, a formação, contem para uma decisão tão importante como é assumir a fé, tornar-se discípulo de Cristo, ingressar na comunidade dos discípulos de Cristo, isto é, receber o baptismo. 
Não estou zangado, nem indignado. Estou triste. E isto é um desabafo. Pois quando as pessoas vão à paróquia vizinha porque lá o padre aceita quatro ou cinco padrinhos, padrinhos sem crisma ou sem qualquer idoneidade, padrinhos com pouca mais idade que o afilhado, sem uma mínima preparação para o sacramento, ou sem as licenças que nos são pedidas, e às vezes até com exclusão de parte da cerimónia e do ritual do baptismo, eu fico triste. 
Não fico triste pelo facto de não alcançar, porventura, a mesma popularidade. Não fico triste por causa das dores de cabeça que é ter de atender pessoas que ameaçam com ir a outra paróquia se não se aceitam suas condições. Nem sequer fico triste com esses colegas, pois, como eu, eles terão de um dia prestar contas a Deus das suas opções. E talvez Deus os ouça com maior amor do que a mim. 
Fico triste é quando me apercebo que na Igreja, ou em alguns locais dessa Igreja, o que conta não é o anúncio do Evangelho, o encontro com Cristo e o sentido cristão da vida, mas o sacramento como acção cultural ou como o jeito que se faz para se ficar bem ou não se ter problemas. Triste porque fazemos sacramentos por fazer. Triste porque a Igreja dos homens, contrariamente à de Cristo, é muitas vezes uma igreja light.

terça-feira, julho 26, 2016

Perante os atentados terroristas que têm ocorrido, és de opinião que se deve responder com violência?

Depois da última sondagem, iniciada no dia 2 de Junho, muito se teria para reflectir a partir dos resultados. Pessoalmente gostei de saber que a "evangelização" (33%), isto é, o anúncio do Evangelho, deveria ser a prioridade da Igreja. Concordo em absoluto e também lhe atribuí o meu voto. Mesmo a caridade, tão apregoada pelo Papa, não pode deixar de levar Cristo consigo, pois mais que bens, o homem precisa de sentido de vida para além da vida. Em segundo lugar ficou a comunhão/fraternidade (22%, seguida pela espiritualidade (17%). Faz também tanto sentido que assim seja. Na verdade, para anunciar Cristo, o testemunho é essencial, e passa pela comunhão e pela intimidade com Deus. Já a caridade (12%) ficou abaixo da formação (14%), e a Liturgia alcançou apenas 1%. Destaco sobretudo esta votação na Liturgia, quando muitos teimam em cuidar que é a Liturgia que mais se tem de cuidar, ou que é ela que pode renovar a Igreja. Uma Liturgia digna surgirá de uma mor grande a Cristo. 


Hoje lançamos nova sondagem, que, como é habitual, podem comentar ou justificar nos coments: Perante os atentados terroristas que têm ocorrido, és de opinião que se deve responder com violência?

sábado, julho 23, 2016

Cristo ou Igreja pokémon

Um colega português descobriu que a sua igreja paroquial, afinal, é um ginásio de pokémons, e já fez um cartaz a convidar para visitarem o treinador que lá está dentro, o verdadeiro treinador da vida, Cristo. Não sei se aplauda a ideia, mas ela aí está. 
O exército livre sírio lançou uma campanha, apelando para o resgate das crianças em zona de conflito, com o slogan “Há muitos pokémons na Síria, vem salvar-me”. Não sei se aplauda a ideia, mas ela aí está. 
Junto à Igreja paroquial da minha comunidade maior as noites têm sido animadas com jovens que, de carro ou a pé, andam com telemóvel na mão à procura dos pokémons. Confesso que há uns dias atrás não sabia o que era isso dos pokémons. Nem agora sei ao certo. O que sei é que milhares e milhares de pessoas em todo o mundo descarregaram para o telemóvel essa aplicação, esse jogo, e agora, de forma um pouco obcecada, andam em busca de pokémons a toda a hora. 
Estava aqui a lembrar-me, e é só uma ideia: se há gente no mundo com capacidade criativa para suscitar o desejo de encontrar um boneco num jogo, não haveria na Igreja a mesma capacidade, criatividade ou entusiasmo para que do mesmo modo milhares de pessoas desejassem encontrar-se com Cristo? 
Não. Não quero que se invente ou fabrique um jogo, pois aqui o que está em jogo é a própria vida. Também não quero confundir Jesus com algo tão efémero como um Pokémon. Nem a Igreja com um jogo para brincar às apanhadas. Não quero que o anúncio de Cristo se confunda com uma brincadeira. Contudo, num mundo tão “líquido”, tão “light”, tão “de modas”, gostava tanto que Jesus fosse procurado como são procurados hoje os pokémons!

terça-feira, julho 19, 2016

O astronauta

Soube há pouco que um astronauta, que era ateu e se havia convertido ao catolicismo, para fazer uma viagem, já não recordo onde, pusera como condição que lhe deixassem levar o Santíssimo Sacramento da Eucaristia para comungar ao menos uma vez por semana, por sua própria mão, enquanto estivesse ausente nos dois meses da viagem. O bispo da sua diocese concedera-lhe a autorização. 
Foi-me contado, como o escrevo. Ou quase. Quem mo contou pretendia louvar a atitude deste cristão, em contraste com a de muitos que não têm qualquer tipo de amor à Eucaristia. Porém, a mim soube-me a estranho. A confusão. 
Em primeiro lugar, parece-me esquisito, para não dizer despropositado, pôr condições a Deus. Vou ali se vieres comigo. Vou ali se te puder comungar. Claro que o astronauta foi um testemunho exemplar do amor a Deus. Mas o amor é tão livre que até na comunhão deveria ser sem condições. 
Em segundo lugar fez-me pensar em tantas outras pessoas sem nome que não têm a possibilidade de comungar por não terem sacerdote, ministro extraordinário da Comunhão ou Eucaristia à mão. Ou aqueles que a hierarquia afasta da comunhão porque as condições assim o não permitem. Não vou explicar de quem me estou a lembrar. 
Nem escrúpulos nem facilidades. O amor é geralmente o termómetro das nossas opções!

sábado, julho 16, 2016

Pobres de rua

Hoje à tarde fiquei espantado com algo que vi quando regressava a casa. Numa rua de passagem, acocorado no chão e encostado a uma parede, um pobre pedinte, com uma mão aberta e estendida para a esmola, e com a outra atendendo uma chamada num telemóvel de última geração. Não me passou despercebido. Não era possível. Razão tem o Papa quando diz que temos de ir à procura dos pobres. Os verdadeiros pobres não vêm ao nosso encontro. São os pobres que dificilmente encontramos na rua. Não são pobres de rua. São pobres. 
Os pobres de rua são os pobres fabricados pela nossa sociedade consumista, hipócrita, simulada, descartável. Também os outros são fabricados por esta sociedade, mas não fazem parte dela.

quarta-feira, julho 13, 2016

Uma Igreja para hoje?

De que serve hoje uma doutrina? Ou umas verdades de fé que temos de aceitar e professar? Longe vai o tempo da escolástica, dos conceitos que eram verdades ensinadas e aprendidas. Hoje já não há distinção entre a Igreja que ensina e a Igreja que aprende. O mundo dos conceitos deu lugar ao mundo da questão. O mundo das ideias deu lugar ao mundo da matéria. Deus desaparece porque afinal aquilo que dizíamos Dele não o entendíamos no contexto e na história do ano 2016. Nem a Bíblia é uma fonte de doutrina. É Deus a falar com o homem de hoje, porque Ele fala cada dia como ontem falava. É para o homem de hoje que Deus se revela. Porém, como se pode Ele revelar quando o homem se tornou o centro da sua acção? Como pode Deus entrar num mundo e num homem que não quer conhecer para além do mundo visível? O homem que tanto perguntava, cansou-se de perguntar. A modernidade e a pós-modernidade mudaram a forma de ver e vida e de a viver. E é neste contexto que a Igreja tem de viver. É neste contexto que a Igreja de Cristo tem de ser Igreja. Estamos num momento da Igreja que é uma oportunidade grande para voltar ao tempo de Jesus, sem verdades que não Ele próprio, sem conceitos senão o amor, sem fé que não seja vida e celebração.

segunda-feira, julho 11, 2016

Confessei-me há uns minutos

Confessei-me há uns minutos atrás. Depois de um largo exame de consciência, abeirei-me de um colega para sentir, através do seu olhar, o perdão de Deus. Após a enumeração das faltas e pecados que sentia pesarem-me na consciência, o colega falou amável e delicadamente da nossa condição humana frágil. 
Porque me deu tempo para me por no seu lugar de confessor, apercebi-me que a maioria das minhas faltas estavam intimamente relacionadas com o meu antro ou auto-centrismo. Com a tentação de nos olharmos como centro da nossa vida. Como aquele que busca em si compensações, sucessos, satisfações. Acabou por ser muito bom dar conta em mim que o pecado é exactamente a ausência de Deus porque nos colocamos no centro de tudo. Foi bom experimentar na pele o que tenho ensinado teologicamente a outros. Foi bom, no final, perceber que a gratificação da vida nos vem de Deus e não de nós. Paradoxalmente, é Deus que nos dá a satisfação ou alegria plena da vida, e somos nós que nos entregamos à insatisfação do nosso ser. 
Curiosamente, o colega sugeriu-me que recordasse aquele momento da nossa ordenação em que nos prostramos no chão, colados ao pó do tapete à frente do altar. Afinal é essa a condição e postura que nos habilitam para sermos autenticamente sacerdotes.

sexta-feira, julho 08, 2016

Connosco ao colo

Cada dia acorda com diferentes cores. Ainda ontem estava dourado do sol e hoje cinzento de chuva. Os estados ou ânimos de alma, como os dias, mudam constantemente na nossa humanidade. Mas o amor de Deus é sempre o mesmo. 
Por isso hoje sento-me, com pernas cruzadas ou por cruzar. Sento-me para estar em silêncio. Para respirar. Dou conta das dores que trago no corpo e na alma. Aos poucos a respiração deixa de ofegar e ensina-me que as dores são pequeninas e provam que estamos vivos. A viver. Sento-me comigo mesmo, sozinho, e aos poucos dá-me a sensação de que o banco em que estou sentado não é mais banco. É colo. É colo de Deus. Dou conta de quem sou e que não tenho de ser mais do que o que sou. Dou conta que o mundo não muda porque queira, mas porque Deus pode querer. Que as dores que trago são pequenos nadas que Deus ama e por isso transforma. 
Como é bom quando paramos e deixamos que Deus se sente connosco ao colo!

quarta-feira, julho 06, 2016

A pedra [poema 111]

Há uma pedra no caminho para casa
Junto ao rio que vai desaguar ao mar
Em cada regresso, nela tropeço.

Podia lança-la ao rio, acobertar
Cabe em duas mãos, é pequenita
Mas não deixa de me pesar.

Ainda hoje vou vê-la, vou desfrui-la
Vou ali sentar e descansar da faina
Vou ali trepar e divisar o mar

 Porque a pedra é pedra, não é caminho

segunda-feira, julho 04, 2016

Não quero as tuas cruzes

Hoje sento-me sem cruzar as pernas. Não quero cruzar nada. Não quero cruzes. Não quero nada que possa recordar-me ou identificar uma cruz. 
Sento-me no tempo. Sento-me e não quero levantar-me. Deixa-me dormir sentado, preso às tristezas que as adversidades trazem. É cansativo ter adversidades na vida quando prometes a felicidade. Porque será que paramos no tempo da cruz e o tempo da ressurreição teima em tardar? É cansativo ter adversidades quando elas nos vêm no caminho pela tua mão, ou à mão do teu que fazer. Já me bastavam as cruzes pessoais. Não quero as cruzes vocacionais. Essas que a missão sacerdotal insiste em trazer. Aquelas cruzes que aparecem porque quero ser tão teu como no dia da minha ordenação.
Às vezes também cuido que dormes quando as adversidades acordam em nós. Às vezes também me apetece gritar um Basta. 
Resigno-me, como tu no jardim das Oliveiras. E espero. Espero a ressurreição do meu sacerdócio. Creio que quando ela vier, a cruzes não terão mais peso.

quinta-feira, junho 30, 2016

Cumpre-se hoje parte de uma vida

O tempo passa vorazmente. Os segundos não param, e arrastam os minutos, as horas, os dias e os anos. Não param porque assim é a vida. Não pára. É quase como um jogo em que lançamos os dados constantemente para chegar à meta. 
Hoje cumpro duas dezenas de anos do meu sacerdócio. Faço por recordar a frescura do meu sim jovem, seguro, cheio de ânimo. Faço presente, neste momento, diante do altar, a promessa que quis fazer na minha primeira missa solene. Que todos os dias acordasse sacerdote e que todos os dias desejasse ser sacerdote com a mesma vontade. 
Já lá vai muito tempo. O tempo suficiente para necessitar de um esforço de modo a recordar. Houveram dias que, confesso, esqueci ou quis esquecer meu sacerdócio. Mas também houveram dias que fizeram valer cada segundo destes vinte anos de sacerdócio. 
A esta altura da vida já se vai olhando menos para a frente. Parece que as horas passaram a ser segundos. O ânimo de outrora cimentou-se. Já não é ânimo. É apenas querer viver. A missão e vocação ganharam maturidade. Já não são paixão. São vida em forma de entrega. São entrega em forma de amor. Os que nos foram sendo entregues para cuidar eclesialmente já não são somente os que Deus nos deu para cuidar. São agora aqueles com quem caminhamos. Já não conseguimos ser donos de sonhos e aventuras. Fazemos parte deles e delas. Já não somos propriamente jovens que vão mudar o mundo e Igreja. Somos apenas Igreja e fazemos parte, muito pequenina por sinal, deste mundo. 
Não quero pensar mais em mim. Hoje não é dia de pensar em mim. Hoje não é dia de pensar na minha vida. Se aqui cheguei e aqui estou, não é por mim, mas pelo Senhor. Por isso hoje é dia de pensar tão somente Nele. Todos estes anos só fazem sentido por causa de quem me chamou e me amou como sou. Graças por ti, senhor, por existires e me amares. 

29 de Junho de 2016

sábado, junho 25, 2016

A justiça de Deus

Estava em pausa para um delicioso café com uns paroquianos quando da mesa ao lado e em tom de meter-se com o padre, se ouviu um Deus devia ser mais justo. O senhor que proferira a frase explicou depois, dirigindo-se na minha direcção, que achava que Deus deveria ser igual para todos. E que deveria fomentar na terra a igualdade de oportunidades. Porque é que alguns tinham tanto e outros tão pouco! E porque é que os maus eram os que mais sorte tinham na vida! 
A ocasião deu-me a oportunidade de abordar o assunto da forma como o tenho pensado muitas vezes e que agora resumo. Nós estamos embrenhados na justiça dos homens, num tipo de justiça que trata ou quer tratar todos por igual. Basta imaginar o que numa empresa fabril é considerado como igualdade de direitos e de remunerações. Deus não funciona assim. A justiça dos homens também é costume traduzir-se no tratamento por merecimentos, isto é, uma justiça que opera segundo se merece. Deus não funciona assim. A justiça de Deus não é como a justiça dos homens. 
A justiça de Deus não é fazer igual aquilo que não o é, porque completamente distinto e único, nem fazer como se merece. A justiça de Deus é fazer como se precisa. Como cada um precisa. Nem sequer é como cada um quer. É como Deus entende e sabe que cada um precisa. Não é tratar por igual, mas com o mesmo amor. A justiça de Deus é a justiça que ama.

sábado, junho 18, 2016

as janelas parede [poema 110]

Trepa as paredes brancas pintadas de fresco
A primeira janela está cerrada e a segunda,
As restantes não se abrem, mesmo de dentro
As mãos de tinta escorregam e não há pincel
Não há mais nada para além de paredes e janelas
E um homem que trepa as paredes em busca
De janelas abertas para um mundo que não sabe

Aos poucos o peito amalgama-se com as paredes
Deixa de ser peito para ser parede em busca de janelas
O corpo humano fica todo ele da cor dessa procura
Às tantas desaparece no meio das paredes níveas
Ninguém o vê, ninguém o descobre, mas ele está
No meio das janelas que já não precisa abertas,

As janelas que são parede

quinta-feira, junho 16, 2016

aceitação [poema 109]

Aceitar que a árvore é árvore e não floresta
Que a floresta está na terra e não no mar
Que o mar tem peixes e não pássaros
Que os pássaros debicam e não mordem
Que as pessoas não devem morder a árvore
Que a árvore, a floresta, o mar e os pássaros
Não são pessoas de um conto de Andersen
É ser-se assim como se é e assim aceitar
Para além do que é aceitar em mim ou em nós
Longe do que se pode simplesmente aceitar

sábado, junho 11, 2016

A Igreja da senhora Matilde ou não

A senhora Matilde teve a coragem de me dizer que não precisava da Igreja para nada. A mesma Matilde que marcara reunião com o pároco, isto é, comigo, por causa de um baptizado que queria da Igreja. Faz parte, por conseguinte, daqueles meio cristãos que se dizem inteiramente cristãos e que vão em busca da Igreja quando sentem necessidade, cultural ou festiva, específica da Igreja. Uma necessidade que lhes vem dos seus antepassados e não provavelmente de Deus. Continuava a senhora Matilde a conversa, olhando o relógio do telemóvel, porventura com medo que o tempo corresse atrás de si, dizendo que acreditava em Deus e isso bastava. 
Perguntei-lhe então se tinha fé, e repetiu o que afirmara antes, que acreditava em Deus. Com três ou quatro observações desconstruí e desarmei as afirmações da senhora, mas a ocasião fez a reflexão, e da reflexão vieram as perguntas sobre quem fez a Igreja ou quem a fundou, e qual a sua necessidade verídica. Essa reflexão acabei por fazê-la em casa, no meio dos meus papéis. 
Jesus não fez uma Igreja. Não encarnou para fundar uma Igreja. A Igreja é de Cristo. Mas o que fez a Igreja foi o impacto que Ele teve nas pessoas. Podemos dizer que houve dois impactos. 
O primeiro tratava-se do impacto que a pessoa fascinante de Jesus provocava. Uma pessoa, como alguém dizia, com uma harmonia, equilíbrio e personalidade fora do mundo habitado. Foi este impacto que originou os discípulos, isto é, aqueles que seguiam Jesus como um mestre. 
Depois veio o impacto da ressurreição que provocou nos discípulos a necessidade de serem missionários, isto é, de partilhar a graça que haviam testemunhado. Este foi o impacto genuíno da fé. O impacto que originou aquilo que hoje chamamos fé. Foi ele que, com o tempo, gerou a Igreja, o conjunto dos discípulos missionários que não podiam mais calar a vida que os habitara após o encontro com Cristo. Foi esse impacto, a que a Igreja dá o nome de Espírito Santo, que, embora não fundando propriamente, gerou no coração dos discípulos a necessidade prática da Igreja como instrumento para continuar a missão do próprio Jesus. 
Que pena que tantas vezes pareça ainda não termos tido esse impacto em nossas vidas e que pena ainda confundirmos a Igreja de Cristo, que é humana, com uma instituição meramente de homens.

quinta-feira, junho 02, 2016

A que deve hoje a Igreja dar mais importância?

Depois da última sondagem que perguntava sobre as obras espirituais de misericórdia que mais praticávamos, e na qual se obtiveram os resultados a seguir anexados, vem agora nova sondagem.

Desta vez a pergunta surge diante das diversas missões ou funções que a Igreja presta ou deve prestar de forma singular: A que deve hoje a Igreja dar mais importância? 
Insistimos que a ideia é realçar aquela que deveria ser a sua prioridade, embora sabendo que, de certo modo, todas são importantes. Já sabem que podem/devem deixar vossas opiniões comentadas!

terça-feira, maio 31, 2016

Uma conversa de acolhimento e imposições

Pediu um minuto que tardou quinze, e disse que era uma palavra que transformou em tantas quantas cabiam em quinze minutos. Não foram mais, nem palavras nem minutos, porque estavam umas quarenta pessoas esperando a missa que iniciou passados dez minutos da hora prevista. O excesso de pontualidade que me caracteriza foi interrompido pela minha vontade séria em acolher a senhora, apesar de que ela só pretendia ouvir um Sim ao que pedia, e mais nada. Por isso falou e repetiu que a Igreja não era aberta. Como se ela tivesse que ser escancarada. Usou reiteradamente o nome do Papa para dizer que ele sim, que ele acolhia as pessoas nas suas necessidades. Como se alguma vez ele tivesse afirmado que já não era preciso os padrinhos terem fé para acompanhar seus afilhados no crisma. Ou como se ele tivesse mudado o catecismo. Ou as normas para aceder aos sacramentos. Uma coisa é acolher e outra dizer que sim a tudo. Mas parece que agora está na moda invocar o papa para dizer aquilo que ele não diz a fim de se conseguir a todo o custo um Sim laxista, facilitista e light, expressões que o papa insistentemente usa para afirmar que não pode ser assim. Que não pode nem deve existir laxismo, facilitismo e fé light. 
Perguntou-me se havia alguma solução e eu respondi, com um sorriso, que sim, que a senhora que pretendia ser madrinha também se podia crismar. Perguntou se poderia simplesmente apresentar-se na celebração, e respondi, com um novo sorriso, que teria de fazer um caminho de autenticidade para não receber uma coisa, mas um sacramento. Interrompeu-me então porque nem ela nem a pretensa madrinha aceitariam essa imposição. Na verdade, estava a fazer-lhe uma proposta que ela interpretou como uma imposição. E como já estava cansado, e sem sorrisos, pois já se me haviam esgotado, tive de perguntar-lhe: então a senhora não quer que lhe imponha nada, mas está há quinze minutos a tentar impor-me a mim?! 
Convenhamos que não há forma de acolher quem não quer ser acolhido e a quem tão só interessa senão um Sim. Talvez por isso ela só pediu um minutinho, pois para dizer sim bastaria. Para acolher é preciso muito mais caminho que nem os minutos nem as palavras conseguem contabilizar. 
Não relatei todo o teor da conversa, e em abono da verdade, há que dizer que depois disso já falámos largos minutos, já pediu desculpa pela abordagem menos cuidada, já aceitou as soluções que encontrámos em conjunto. Mas escrevi na altura o que sentia, porque geralmente quem menos aceita são os que mais impõem. E isto ocorre diariamente nas nossas igrejas.

domingo, maio 29, 2016

um dia [poema 108]

Não tenho ninho permanente nem toca onde abrigar-me
Tenho tão só um novo mundo recriado em quatro paredes
Quatro portas de quatro quadrantes todos diferentes
Não são paredes como empreitada entregue a alguém
Não são portas de fábrica em série e em madeira
São portas que são minhas, abertas para possibilidade de ser...

quinta-feira, maio 19, 2016

se a deus [poema 107]

Se ao menos o céu caísse a pique
E entrasse pela janela fechada adentro
Como se guardasse

Se ao menos a árvore falasse
E sussurrasse na mão do lenhador
Como se quisesse

Se ao menos a pedra voasse a rir
E não quebrasse o coração partido
Como se fosse

Guardaria o deus de papel
Como se fosse
carne

quarta-feira, maio 18, 2016

O senhor padre está aqui para servir

Não se passou, mas podia passar-se assim. Imaginei uma qualquer senhora no meu encalço para que lhe acedesse a um desejo. Um desejo daqueles que, embora plausíveis, são inadequados ou pouco possíveis. Imaginei um daqueles pedidos relativos a uma missa numa hora que lhe seria agradável e num horário que me seria impossível. Ou um baptismo desta ou daquela forma, distinto do sacramento. Ou um papel urgente de um registo que não existe. Coisas assim que ocorrem muitas vezes e diariamente aos padres. 
Imaginei a senhora de olhos, primeiro arregalados e cheios de ternura para convencerem, e depois arregalados, abertos e carregados, para insinuarem, dizendo. O senhor padre está aqui para servir. 
E não é que tinha razão! Essa é a nossa missão, ao ponto de estarmos ou devermos estar para o outro como ele necessita. Era verdade o que ela dizia. Esquecia porém que, como um pai serve mais o que os filhos precisam do que o que os filhos desejam, eu deveria servir o que ela necessitava e não o que queria. Esquecia porém que não se consegue dar pão quando só se tem a farinha, ou não se consegue fazer omeletas se não se tem ovos. Esquecia porém que mais do que servir cada homem, eu estava para servir Deus em cada homem. Não sabia, cuido eu, a distinção entre bens que queremos e o Bem Maior. E que era esse que eu gostaria de servir!

segunda-feira, maio 16, 2016

às vezes queria gostar [poema 106]

Às vezes gostava de pensar a vida como imaginação
Contar barcos de papel e ovelhinhas para dormir
Em sonho e em vasos de flores em cor de sépia.

Às vezes gostava sentir-me estrangeiro em mim
Montado no meu unicórnio azul com asas verdes
Em criações que fossem espaços indizívelmente.

Às vezes gostava de morrer para lá de aqui
Num pássaro sem asas mecânicas e horas mortas
Em circunferências que distam da circunferência.

Às vezes gostava de não ser para ser qualquer coisa
Que não sei palavrear, mas queria que fosses tu

sexta-feira, maio 13, 2016

olhos desaguados [poema 105]

As pálpebras abertas para ti
Como o mar insiste em desaguar
Traz nas ondas algas marinhas
Que pernoitam no meu olhar

As lágrimas vão cair no sono
Na inquietude da vida em vão
Como era bom não haver noite
E os olhos não desaguassem

quarta-feira, maio 11, 2016

como uma porta

Bater à porta é ter a certeza que alguém pode estar do outro lado, que alguém nos pode atender ou, pelo menos, escutar o ruído do bater da porta. Ninguém pode teimar em dizer que a porta é só uma porta. Se é porta é porque pode abrir-se e trazer o outro lado de lá, dele mesmo, ou levar-nos até esse lado que desconhecemos porventura, mas que ansiamos, senão não bateríamos à porta. Se é porta é porque possibilita encontrar esses dois mundos, o de lá e o de cá. Se é porta, é porque está na minha mão poder abrir-se, e à minha mão de poder tocar-se. Se é porta é porque tem paredes ao seu redor. E se tem paredes pode ser casa, e se é casa é lugar para habitar. 
A porta não fecha somente a casa em si, mas abre-a. Dá a possibilidade de deixar entrar na casa quem vem e quem bate. Mesmo quando a porta tem uma fechadura, que serve o significado do que fecha, ela podia definir-se como abertura. Afinal o que se fecha é porque antes estava aberto e pode voltar a abrir-se. 
Perguntar por Deus é como uma porta.

domingo, maio 08, 2016

Passareio [poema 104]

Num piscar de olhos soltou-se um pássaro em mim
Enquanto os fechava, voou ao céu, num eterno ai
Ai como voava livre, e cada vez mais débil
Cada vez mais alto, mais perto, e mais fraco
Planando no céu de Deus, cada vez mais livre.

Voltou passada a história no vai e vem do tempo
No abrir dos olhos presos que piscara em mim,
Voltou mais leve, mais livre, mais pássaro
Com duas asas douradas que o céu lhe dera.

sexta-feira, maio 06, 2016

em mistério que é [poema 103]

Aqui não vejo nada
Apenas há mistério
Que é nada para ser.

Diz-se que há algo que se vê
Ou negação do que possa ser
Se sei que não o vejo, é nada.

Ver é afinal definir o visto!

E Ele só se vê depois de visto
Dentro, em mistério que é
No coração.

terça-feira, maio 03, 2016

Falar de Deus

Para se falar de Deus há tanto para dizer. Fica sempre tanto por dizer. Parece que duas centenas de mãos cheias nunca chegariam. Quanto mais duas mãos meio vazías. Porém, quando se abre a boca, que é como quem diz, a vontade de falar de Deus, parece que algo nos cala ou nos força a emudecer. Verdade seja dita que não há palavras suficientes para falar de Deus. E será por isso que muitas vezes usamos as palavras formatadas. Ditas de cor e salteado, rapidamente, para não se esquecer ou não se enganar. Já me aconteceu não saber que falar de Deus, que é mais acertado dizer apetecer falar de Deus, e depois de começar há um sem fim de palavras que não me deixam acabar o que digo. Eu diria que são palavras arrastadas de emoções. Não sei se já te aconteceu sentires que devias falar das coisas de Deus a propósito ou a despropósito. A mim já. Muitas vezes. Quase sempre que encaro um rosto que olha para mim como padre. E depois tolhem-se-me as palavras. Tinha vontade de dizer qualquer coisinha, nem que fosse apenas um piscar de palavras. Mas saem formatadas porque me obrigo a dizer qualquer coisa. Quem é que porventura tem dificuldade em falar de Deus? Escondo-me atrás da cortina da janela, que quase não tapa nada, mas enfim, e digo baixinho para ninguém ouvir. Eu. O eu sai-me mais rápido e fácil do que o Deus. Espero não ser o único, porque senão isto descamba. 
E desculpem, amigos, este deambular de palavras. Estava aqui a querer escrever algo que tivesse a ver com Deus e só me saiu isto. Para falar da dificuldade que é forçarmo-nos a falar de Deus. Vale mais deixarmos Deus falar por nós.

quinta-feira, abril 28, 2016

Tanto e tão pouco

Senhor, porque me deste tanto e esperas que nesse tanto te veja somente a ti? 
Desculpa, meu amigo e Senhor, mas é nesse tanto que me deste, porque quiseste, que me deixo cair na auto-estima em desmesura. É nesse tanto que me regozijo centrado em mim. É nesse tanto que me esqueço de ti porque estou ocupado comigo. É nesse tanto que me afasto tantas vezes de ti porque não me dou conta que te necessito em mim. É nesse tanto, que é tão bom e me deste com amor, que eu me perco tantas vezes… Quando é quase sempre no meu tão pouco que te encontro e sou feliz!

sexta-feira, abril 22, 2016

“Amor amado a corpo inteiro”

Li nos meus devaneios poéticos um verso de Pedro Casaldáliga a propósito da vocação ao sacerdócio que dizia mais ou menos assim: “amor amado a corpo inteiro”. A frase estremeceu em mim e na minha vocação. Arrancou de mim, do meu corpo, a certeza de que não sou digno de tal sentir. Digo-o. Afirmo-o. Raramente amo a corpo inteiro. Digo-lhe muitas vezes expressões como “toma as minhas mãos”, ou “toma meus pés e meu andar”, ou “toma minha boca e minhas palavras”, ou “toma meu coração”, ou “toma meu pensar”, ou “toma meu sofrer” e por aí fora. Na verdade tenho-lhe oferecido partes de mim, mas não o corpo inteiro. 
Perdoa-me, Senhor, pelas vezes que só te entrego parte de mim.

domingo, abril 17, 2016

Perguntam-me muitas vezes o que é a fé

Perguntam-me muitas vezes o que é a fé. Algumas pessoas perguntam com vontade em saber. Outras com desejo de confrontar. Outras com desprezo para poderem afirmar que é uma invenção. Outras porque a têm e não sabem verbaliza-la. E depois há o João que acredita na existência de Deus, sabe muitas coisas de Deus porque andou na catequese e era bom aluno, e quando o avô morreu surgiram-lhe uma série de dúvidas sobre a justiça e a forma como Deus actua. Estava muito confuso, e muitos de nós andamos confusos. Muitos de nós somos o João. Um João que não só não sabe o que é a fé, como sabe menos ainda o que é tê-la. 
A fé não é um conjunto de crenças, coisas que se acreditam, ou uma doutrina assentida, ou um conjunto de verdades, ou uma constituição com leis, ou uns mandamentos, ou uma ideologia, ou uma doutrina social para saber viver, ou uma visão moralista da realidade, ou uma invenção da Igreja para dar sentido a um sem sentido de muitas coisas que não se entendem com facilidade, ou uma forma de se libertar, ou uma forma de conviver com sofrimentos existenciais, ou uma forma de praticar ou viver o amor.
O amor é amor, tanto como a fé é amor. O amor explica muitas vezes como é a fé porque o amor sente-se, sabe-se sem saber explicar-se, vive-se porque nos faz felizes, procura-se porque sem ele não conseguimos viver. Mas ainda assim, a fé é muito mais que amor. Porque é a forma gratuita, ou quase gratuita, de responder ao amor maior, o amor gratuito e incondicional de Deus. 
Quantas vezes procuramos aprender, e entender, e professar o que diz Deus, mas não temos qualquer tipo de relação com Ele! Quantas vezes sabemos uma teologia sobre o mistério de Deus, mas não tem impacto na forma como vivemos! Quantas vezes falamos Dele, mas não falamos com Ele! Quantas vezes nos preocupamos em cumprir umas normas, uns preceitos, uns rituais, sem que sejam mais do isso, normas, preceitos e rituais! Quantas vezes nos é proposto Jesus sem que o vejamos mais que uma história fantástica! 
Quantas vezes aprendemos a fé, mas não a vivemos! Só vivendo se sabe o que é. E nem nessa altura a conseguiremos explicar. E quanto mais a vivermos, mais teremos vontade em a viver.