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terça-feira, março 19, 2024

A solução vocacional da inteligência artificial

No ano passado, numa pequena cidade alemã, uma multidão reuniu-se para uma cerimónia religiosa protestante que foi orientada, na sua quase totalidade, pela inteligência artificial. Os sermões, as orações e a música difundiram-se por quatro avatares num ecrã junto ao púlpito. Li que alguns dos presentes acharam que faltara autenticidade, mas que muitos outros se haviam entusiasmado com o potencial da IA para tornar mais acessíveis e inclusivos os serviços religiosos. Sei que a discussão está lançada e que muita tinta há-de correr ainda sobre esta ferramenta. Mas estará à vista a resolução para a falta de vocações ao sacerdócio ministerial? 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma Igreja virtual"

terça-feira, abril 25, 2023

o jogo

Havia poucas pessoas na igreja quando entrei. Era cedo. Ainda faltava cerca de meia hora para o início da missa. Sempre que consigo, tento chegar mais cedo para estar um pouco diante do sacrário. Àquela hora, na igreja, estavam umas cinco pessoas nos bancos perto do altar, sobretudo as senhoras do coro, e mais uma ou outra noutro banco mais para trás. A meio da igreja, destacava-se uma senhora que não deu pela minha chegada. Como é meu hábito, vou saudando as pessoas coxia acima. A senhora do meio da igreja, que foi a primeira que tentei saudar, só deu por mim a seu lado. Olhou-me sem retirar a mão do telemóvel, sorriu atabalhoada, disse qualquer coisa que me pareceu uma boa tarde, e continuou a jogar o jogo que estava a jogar no telemóvel, algo parecido ao velhinho tetris. Nada de mais, portanto, nestes tempos estranhos em que os telemóveis ocupam grande parte das nossas vidas. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É assim o braço de Deus"

quarta-feira, agosto 11, 2021

A geração digital e a fé sem interesse

Durante largos anos, a Igreja, como “sociedade perfeita”, colocava o acento na firmeza e rigor doutrinal para dar credibilidade a si mesma. Nos últimos anos, porém, surgiu uma visão no sentido oposto, uma visão mais atenta aos sinais dos tempos. Por isso tem havido um esforço, e bem, para melhorar e modernizar a comunicação. No entanto, estamos a dirigir-nos para uma comunicação sem real comunicação. 
As novas gerações vivem na internet. Vivem nas redes sociais, visualizam influencer’s e gastam o tempo a receber comunicação que seleccionam nos seus interesses. E se nunca houve uma comunicação tão global como agora, também nunca houve tanta dificuldade em nos fazermos escutar. Tudo parece ruido. E no meio do ruído, até o que não o é, parece somente um ruído. 
É certo que hoje não se conseguiria chegar às novas gerações se a nossa comunicação fosse apenas como era antigamente. O problema, porém, persiste, porque o digital não cria interesse se este não existe. E para existir interesse, este tem de se suscitar no meio de milhares de interesses que se confundem. É bastante difícil transmitir a fé em tempos de uma confusão global de comunicações maioritariamente virtuais. A fé é sobretudo relacional, e no mundo virtual o relacional é mais fictício que verdadeiro lugar de afectos. 
Parece-me que a Igreja, neste sentido e como um todo, tem-se vindo a deparar com grandes dificuldades em fazer passar uma mensagem que não seja light, porque quer agradar, ou enfadonha, porque demasiado agreste. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Amizades especiais"

terça-feira, março 16, 2021

Sociedade irritada VI

As redes sociais expõem, mesmo sem os seus utilizadores darem conta, as fragilidades, a ignorância, a inoperância das pessoas e, muitas vezes, ainda projecta o que de pior têm. O Papa diz mais ou menos isto na encíclica Fratelli Tutti, mas eu também penso deste modo quando penso nesta sociedade que tem criado redes de relações superficiais a quase todos os níveis. Os erros ortográficos dão conta da ignorância de muitos. As opiniões sem argumentos ou com argumentos falaciosos dão conta do desconhecimento e da incapacidade de reflectir de muitos. Os ataques verbais escritos dão conta do íntimo de muitos. As críticas constantes do que este e aquele deviam fazer dão conta da acção de bancada de muitos. Com pena, vivemos nesta virtualidade, sem dar conta que, na maioria das vezes e dos casos, o que mostramos de nós não é o melhor. 
 

sábado, fevereiro 27, 2021

ver a missa

Recebo diariamente notificações de alguns órgãos de comunicação social no computador, sobretudo de cariz religioso. Como um que, desde o início deste novo confinamento, envia diariamente uma notificação a dizer: “veja a missa diária em…”. Não sei se a escolha do verbo usado é de propósito ou não. Mas há dias estacionei os olhos nessa notificação e dei por mim a concordar com ela. Porque, nestes moldes, é mais verdade dizer que se vê a missa do que dizer que se participa nela, por mais boa vontade que as pessoas tenham, por mais que a eucaristia seja fulcral na vida dos cristãos e por mais que estas celebrações sejam as celebrações eucarísticas públicas possíveis nestes tempos confinados. 
Para valorizar de verdade as igrejas domésticas que são as famílias, tenho-me esforçado, em conjunto com alguns colegas, por providenciar aos meus paroquianos, semanalmente, uma celebração familiar dominical, em linguagem acessível e o menos clerical possível, com o essencial de uma celebração da Palavra, comunhão espiritual e um gesto para vivenciar um compromisso. 
Sou de opinião que, nestes momentos em que nos encontramos privados da eucaristia comunitária presencial, mais importante que assistir passivamente à missa, seja na rádio, na televisão ou nas plataformas digitais, muitas vezes em zapping, é participar presencialmente numa celebração da Palavra ou outra oração similar, sobretudo em família. Devíamos aproveitar esta oportunidade para transformar os nossos lares em igrejas, pois a comunidade paroquial é uma família feita de várias famílias, é uma Igreja feita de várias Igrejas domésticas. 
Se já antes era mais cómodo assistir à eucaristia presencial do que participar activamente nela, agora ainda se tornou mais cómodo fazê-lo do sofá, e não acho possível celebrar a fé como quem assiste. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "a senhora vai à missa"

sábado, setembro 26, 2020

A sociedade irritada V

Hoje usamos as redes sociais porque, para além de ser moda, é o foco da nossa personalização ou identidade, o local onde, como os adolescentes em tempos de emancipação, se procura manifestar uma personalidade. Ou melhor, para se dizer que se existe. Como se isso fosse a personalidade de uma pessoa ou a identificasse! Por isso as redes sociais se tornaram o mundo das opiniões, dos comentadores de bancada, dos julgamentos sem juiz. Por isso se tornaram o álbum favorito das nossas pequenas demonstrações do que visitamos, do que vestimos, do que comemos, das pessoas que nos acompanham, do que fazemos… mesmo que isso diga apenas uma muito ínfima parte de quem somos. Mas o importante é mostrarmos que somos! Por isso somos cada vez mais virtuais e a nossa personalidade é cada vez mais bipolar. 
 

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

A sociedade irritada IV

A nossa sociedade gasta-se em opiniões. Aliás, não é ela que se gasta. Somos nós. Gastamo-nos em opiniões e contra-opiniões, mesmo não abalizadas. Só porque sim. Porque eu tenho direito e liberdade. As redes sociais e a globalização da diferença e da indiferença potenciaram o excesso de opiniões e a liberdade de se dizer o que se quer, sobretudo por detrás de um ecrã, porque não nos custa ter de enfrentar os olhos da outra pessoa que magoamos ou que contrariamos. O ecrã é o mundo das opiniões, por excelência. E hoje toda a gente tem uma opinião e se vale dela para existir, para se definir, para manifestar a sua personalidade, para se impor. Porque dificilmente o consegue de outro modo. É uma sociedade sem identidade, sustentada em opiniões mais do que na verdade! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A sociedade irritada I", "A sociedade irritada II" e "A sociedade irritada III"

quinta-feira, janeiro 23, 2020

A sociedade irritada III

Na sociedade em que vivemos proclama-se a liberdade como a máxima das máximas. Liberdade de expressão. Liberdade de entendimento. Liberdade religiosa. Liberdade sexual. Liberdade de tudo. Mesmo que, mais do que nunca, as pessoas estejam presas em si mesmas. Amarradas a estereótipos de moda. A minorias e discursos de identidades minoritárias. É uma sociedade homogénea, cada vez mais heterogénea. Ou heterogénea cada vez mais homogénea. Uma sociedade onde tudo é possível, mas onde nada é possível. Onde tudo se aceita, mas nada se aceita. Uma sociedade que propõe e quer aceitar a diferença. Mas que nunca foi tão indiferente. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A sociedade irritada I" e "A sociedade irritada II"

domingo, novembro 24, 2019

A sociedade irritada II

Na sociedade em que vivemos está na moda o insulto. Mesmo não sendo anónimo, quase sempre no anonimato. Quase sempre virtual. Quase sempre fora do real. Mas que dói como realidade. Nunca ou quase nunca cara a cara. Os insultos na cara são punhos erguidos. Mas também são saco de boxe. É a sociedade das redes sociais que são pouco sociais. Uma socialização de irritados com a vida. Que para ali vão debitar as amarguras de uma vida atrás da realidade, num écran que fabrica opinadores de serviço. Sociedade virtual. Quer-me parecer que vivemos numa sociedade mal resolvida e constantemente irritada.

quarta-feira, novembro 13, 2019

A sociedade irritada I

Na sociedade em que vivemos o que conta são as opiniões. Cada um se vale da sua opinião. Cada um tem a sua opinião. E é um dos direitos mais reclamados dos tempos pós-modernos, mesmo que signifique uma ruptura com a dignidade do outro. Mesmo que a nossa opinião implique maltratar o outro, mais que maltratar a opinião do outro. Mesmo que a nossa opinião não seja a verdade. Ela torna-se uma verdade. Não há uma verdade universal. Porque a verdade, hoje, é a nossa opinião. E há opiniões como botões de camisa. Mesmo que a camisa seja da mesma pessoa!

quarta-feira, janeiro 02, 2019

Pesquisar Jesus na Internet

Num dos encontros de catequese dos mais pequenitos, diante de um powerpoint que a catequista apresentava, esta foi confrontada por um deles, uma menina de olhos bem azuis, vivos e irrequietos. Ó catequista, tu pesquisas Jesus na internet? A catequista não foi tão rápida como um colega seu, outro petiz esperto. Olha que Jesus não se pesquisa na internet. E um outro, cheio de simplicidade, acrescentou. Jesus pesquisa-se no coração. É aí que o podemos encontrar. 
A catequista estava atónita. Não tivera sequer tempo de elaborar uma resposta tão sábia. Contou-me, com os olhos embaciados, que esta conversa a marcara. As crianças tinham-na deixado profundamente emocionada pelo modo como vão acolhendo a Palavra e como Jesus se faz sentir no fundo dos seus pequenitos corações. No fim das contas, tão pequenos quanto grandes, tão simples como sábios, tão ingénuos como autênticos.