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segunda-feira, agosto 10, 2020

Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

O que me impede de ter um olhar misericordioso por mim próprio, quando o próprio Deus me ama como eu sou? Não que isso justifique as minhas opções erradas. Os pecados. Os erros. As costas voltadas. As queixas desmedidas. Mas é verdade que Deus me ama muito mais do que eu me amo. Deus ama-me, não por eu ser bom, que não sou, mas porque Ele é bom. Deus ama cada um de nós, não por sermos bons, mas porque Ele é bom. Ele ama-me como eu sou e não como eu gostaria de ser. Isto parece redutor, e parece que põe tudo em Deus. O Centro. E, ao mesmo tempo, retira toda a nossa responsabilidade. Não é verdade. Nós somos responsáveis. Mas o centro é mesmo Ele. Por isso Jesus falava em perdoar setenta vezes sete vezes, que é o mesmo que pronunciar o número infinitamente. Porque quem ama, não ama com medidas. Ama com esse número que é muito mais que setenta vezes sete vezes. O número que não cabe na numeração, tal como a conhecemos. Por isso ama e perdoa. Porque só sabe amar quem souber perdoar. Só ama de verdade quem consegue aceitar a diferença que o outro é. A diferença que, no outro, pode até ser, dor. Por isso deu a vida por todos. Não deu a vida só por alguns. Deus a vida por bons e maus, por justos e injustos, por judeus e gregos, por escravos e homens livres. Por mim. Por ti. Por todos nós. E nunca é demais repetir isto. Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

A PROPÓSITO OU A DESPOPÓSITO: "A estatura do verdadeiro amor"

terça-feira, abril 14, 2020

Linhas da frente

A minha sobrinha enfermeira foi para a linha da frente no combate à pandemia que alastra vírus e pânicos. Como muitos outros. Como tantos. Como tantos a quem temos de agradecer muito! 
Na ocasião que informou a família, não tive tempo para medir as palavras ou os pensamentos. Disse-lhe o que pensava, embora o fizesse com o coração nas mãos. Com o coração apertado nas mãos. Na minha humilde opinião, é mais maravilhoso que melindroso ir para a linha da frente! Ter nas mãos a possibilidade de ajudar, é uma das coisas mais bonitas que o ser humano tem ao seu alcance numa ocasião como esta! Deveríamos viver para ajudar a viver. Por isso fiquei orgulhoso por ela e com ela. Apreensivo, mas orgulhoso. Pedi-lhe que não desvalorizasse nunca o cuidado e a precaução. Sem medo, mas com consciência de que devia também cuidar dela para poder continuar a cuidar dos outros! 
Cuida-te. Eu rezarei por ti, e através de ti, por todos os que como tu, estarão nessa linha. E assim, a rezar, espero estar na linha da frente!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Silvina tem agora mais uma razão para viver"

quinta-feira, abril 09, 2020

Encontrei o beijo do meu pai

Foi numa destas tardes solarengas. Mas escuras por dentro. A meio da tarde. Depois de ter falado com o meu pai em videoconferência. Cada um de nós no ecran. Unidos e separados pelo ecran. Depois a videoconferência alongou-se a mais três pessoas. As minhas irmãs e suas filhas. E ele desatou a chorar compulsivamente. Tivemos de desligar. Desalentados pela dor, pela distância, pela impotência, pela saudade. Marcados por lágrimas. Maldito vírus! 
Voltei sozinho mais tarde. Depois que me disseram da Unidade de Cuidados Continuados que ele não parava de chorar dizendo que eram saudades. Voltei. Falámos entre palavras e uns arranques de lágrimas da sua parte. Entendia o que eu dizia. Os meus apelos à força. As minhas explicações. As insinuações da fé. Que o amávamos muito. Que agora andava uma coisa no ar, uma espécie de bicho que não nos deixava estar juntos. Mas que nunca o abandonávamos. Que eu nunca o abandonaria. Ele ia respondendo à letra, dizendo que nos amava, que me amava. Já passou, pai. Pois já, respondia. Mas voltava. 
Nisto, o tablet do outro lado começou a mexer-se. Contou depois a fundionária que ele lhe retirou o tablet das mãos. Ele que tem cada vez maior dificuldade motora. Ele que tem cada vez menos capacidade cerebral. Fazia-me festas pelo ecran. Disseram-me depois. E às tantas, isso eu dei conta, aproximou o ecran e deu-me um beijo. Um beijo que, mesmo à distância foi dos mais inesquecíveis e robustos que me deu até hoje. 
O vírus não vence tanto amor! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O beijo do meu pai"

terça-feira, abril 07, 2020

Olha, faz o bem

Sabes aquela sensação de não saber? Aquela sensação de que determinada situação ou gesto ou palavra são um sinal, mas não sabes dar-lhe forma? Não sabes que cor, que sabor, que odor tem? Foi assim, hoje, no diálogo breve com meu pai, por vídeo-conferência. 
A conversa com ele foi muito boa, ou seja, foi mais fluida do que o habitual. O que comeste ao almoço, pai? Eu comi um bife, pai, e tu? Eu comi dois. Tu estás lindo, paizinho. Tu é que és lindo, meu filho. Amo-te muito, pai. Meu mais que tudo. Eu ainda te amo mais, meu filho. Toma lá milhares de beijinhos, pai. E faço gesto com boca e com a mão a ir da boca ao écran. Sem que eu lhe peça nada, leva a mão à boca, com dificuldade, e manda beijos pequeninos, quase inaudíveis. Mas do tamanho do mundo. Ó pai, até já. É assim que me despeço dele, porque o meu adeus é sempre um até já. E ele responde de um modo que não vou esquecer nunca mais. Olha, meu filho, faz o bem. Faz o bem. 

A POPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Meu pai e minha mãe"

sábado, abril 04, 2020

O vidro que não nos separa

Uma paroquiana avó mandou-me um vídeo do filho, do lado de lá da porta de vidro, a falar com o neto, uma criança de poucos meses, do lado de cá do vidro. É ao que obriga o período de quarentena. Mas foi tão bonito ver. Foi tão maravilhoso. A avó dizia que eram tempos muito duros e difíceis, mas que acreditava que tudo ia correr bem. Eu manifestei-lhe que era muito bonito o que me enviara. Mesmo, mesmo. Pode parecer, à partida, duro e triste. Mas eu achava-o bonito. Claro que achava. Era muito bonito ver que um vidro não separa duas pessoas que se amam. Porque nada nos pode separar, se o nosso coração não deixar. O coração é que nos liga e aproxima!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É um pai que ama como o Pai ama"

quinta-feira, março 19, 2020

O beijo do meu pai

Tenho tentado encontrar o último beijo que dei ao meu pai e que agora está trancado, tanto ele como o beijo, naquela casa grande onde o deixei para ter os cuidados que necessita. Busco-o por todo o lado. Na cabeça. Na memória. No coração. Busco-o vorazmente porque era meu e quero-o a todo o custo. Porque quero tê-lo na mão para o ver e recordar a toda a hora. 
Desde sexta-feira passada que a Unidade de Cuidados Continuados onde está o meu pai ficou interdita a visitas. Fiquei feliz porque assim fica mais longe do maldito vírus. Mas também fica mais longe de mim. Mais longe dos seus. E hoje é um dia particularmente especial. É o dia de todos os pais. 
Há distâncias que se encurtam, em videoconferência, num diálogo quase surdo entre as minhas palavras e as que ele balbucia, entre o meu “Amo-te muito, pai” e o que me disse ontem e hoje com “eu também te amo muito, meu filho”. Vi-o a sorrir, como habitualmente, mesmo na inconsciência da sua doença. Fiquei feliz com vê-lo. Fiquei feliz com ouvi-lo. Mas não recordo como foi o último beijo. Sei-lhe o sabor, porque é igual aos outros, mas gostaria de tê-lo guardado e não guardei. Hoje, dia do pai, procurei-o ansiosamente! Tentei, ao menos, recordar a hora, o local e a alegria que sentira. 
Com tanta procura, aprendi, porém, que, por mais que o quisesse guardar dentro de mim, os beijos não são para se guardar, mas para se dar. Os beijos são o gesto de quem se dá para que o outro sinta que o amamos. O beijo que eu tanto procuro, afinal, está no meu pai que tanto amo!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

terça-feira, março 17, 2020

Os gestos covid

Ligou há pouco. Ainda não passaram dez minutos. Tem oitenta e sete anos. Mora sozinha. Nota-se que já tem alguma idade, como se costuma dizer, mas é uma mulher que se ocupa e que tem sempre algo para fazer. Ligou e fomos conversando, como quase toda a gente por estes dias, no maldito vírus. Eu disse-lhe que tinha de se proteger, cuidar, isolar e precaver porque, como ela já sabia, faz parte do grupo de risco. E ela respondeu-me que já falou disso com “o lá de cima”. Foram expressões suas. Disse-lhe que se já tivesse chegado a sua hora, que não havia problema pois já tinha muita idade e já tinha vivido o suficiente. Pedia-lhe apenas pelos filhos e pelos netos. Que os protegesse. Mas que se achasse que ainda não tinha chegado a sua hora, que agradecia que mantivesse o vírus longe. Ainda nos rimos um pouco os dois. 
Porque a conheço bem, sei que foram palavras sinceras. Uma oração sincera. Mas nisto diz-me. Ó senhor padre, como está aí sozinho, aí por volta das 13h eu levo-lhe aí o almoço. Tenho de andar um pouco, que me faz bem, e não posso abandonar o senhor padre, que está sozinho! 
Eu é que me devia preocupar com ela, que faz parte do grupo de risco e está sozinha, e, afinal, era ela que se preocupava comigo, o senhor padre que está sozinho. Sem palavras e comentários. Esse reservo-os no meu coração com pequenas gotas de lágrimas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

quarta-feira, março 04, 2020

Como se aprende a rezar?

Era uma senhora discreta. Mas interessada. Dirigiu-se a mim com discrição e interesse. Senhor padre, como é que se aprende a rezar? Perguntou. Respondi-lhe com outra pergunta. Como se aprende a amar? Se era com teorias, com aulas, com leituras, em laboratório, em sonhos, em fantasias. Eu mesmo respondi e prossegui. Olhe que se aprende a amar, amando. E a oração é como o amor. É uma forma de namoro com Deus. Por isso também se aprende a rezar, rezando. Tal como se aprende a amar, amando, se aprende a rezar, rezando.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Rezar é falar com Deus"

quinta-feira, setembro 26, 2019

Cumprir a fé

Há gente que, na Igreja, vive uma relação com Deus como empregado. Vivem, como antigamente os escribas e fariseus, para cumprir coisas, numa relação interesseira do deve e haver. Nunca se assumem como filhos. Nunca agem por amor, mas só por obrigação. Nunca se sentem amados, mas premiados e ou castigados. É por isso que têm dificuldade em amar e perceber Deus nas suas vidas. Porque Deus é amor. E o amor não se pode merecer. Ou é gratuito ou não existe.

quarta-feira, setembro 18, 2019

E se Deus fosse um de nós?

E se Deus fosse um de nós? Sim, um daqueles com quem nos cruzamos diária e distraidamente. Um daqueles mendigos, mal vestidos, a pedir a nossa atenção. Uma criança que chora porque precisa de um colo ou que passa a correr para a escola. Um jovem estudante que anseia ser alguém um dia. Um pai de família que sai de casa cedo e regressa tarde do emprego. Uma mãe que, além do emprego, cuida da casa, da roupa e da comida. Um amigo que convida para um copo e dois dedos de conversa. Uma vizinha que passa todos os dias na porta onde saio e entro, também todos os dias. Uma viúva que baixa a cabeça quando passa por mim, para esconder as lágrimas. Um senhor de idade que parece contorcer-se com as dores da vida. São tantas as oportunidades ou possibilidades de Deus ser um deles, na simplicidade e banalidade do dia-a-dia, que quase me envergonho do modo como esqueço de tratar todos os que comigo se cruzam.

quarta-feira, julho 17, 2019

As três vezes de Pedro

Era amiga da falecida. Já haviam passado umas semanas. A amiga falecera com um cancro fulminante. O sofrimento durara apenas um mês. Desde que as dores apareceram até que no hospital a morfina a sossegou de vez, tardou um mês. Toda a gente na terra falava do assunto e da pena. Eu também. E a sua amiga precisava dizer o que sentia. Porque é que a sua amiga, que era, por sinal, muito boa, tivera uma morte tão arrepiante, tão injusta, tão não sei o quê? Então Deus não premeia os bons e castiga os maus? 
Há dias, o evangelho de João recordava-nos as respostas de Pedro a Jesus quando este lhe perguntou se o amava. Três vezes lhe deu uma resposta afirmativa. Tal, como uns dias antes, três vezes o negara. Mas o curioso é que, depois de Jesus lhe fazer a pergunta, vai também dar-lhe sinais do tipo de morte que lhe calharia em sorte. E como nós sabemos, foi a crucificação ao contrário, ou seja, de cabeça para baixo, porque Pedro não se achou digno de morrer tal e qual como o mestre. Recordo esta passagem, porque a sorte final de Pedro não lhe foi dada porque traíra Jesus, porque agira mal, porque o negara, mas porque o amava. Foi na sequência da certeza do seu amor, que Jesus lhe manifestou como ia padecer. Nós é que estamos habituados a catalogar as coisas e, de igual modo, catalogamos as coisas de Deus. Nunca teremos certezas absolutas da acção de Deus. A única coisa que saberemos é que, nas coisas de Deus, o que mais importa é o amor!

terça-feira, junho 25, 2019

A oração do meu pai

Quando atravesso a porta de entrada do lar onde está meu pai, um frio percorre-me a espinha como se tivesse de atravessar o inverno para o ver. A saudade mistura-se com a ansiedade e o receio de constatar o seu estado de saúde progressivamente mais débil. Quando estou mais que uma semana sem o ver, aperta-se-me a saudade. Quando o tenho de deixar, aperta-se-me o coração. 
Ontem repetiu-se este tipo de episódio. E depois da troca de mimos, como é costume, dirigimo-nos, a passo de caracol, para a capela do lar, onde rezámos, juntos, o que nos apeteceu. Pai-nosso, avé-maria, salvé-rainha, consagração-a-nossa-senhora e por aí fora. 
Numa das pausas desse momento lindo, disse-lhe com simplicidade, Paizinho, tenho sentido tanto a falta da tua oração por mim, que nem imaginas! Ele concordou comigo. Que antigamente rezava muito por mim e agora não. Entre conversas com pouco sentido e conversas com mais sentido, aquela resposta pareceu a mais lúcida do mundo. A sua capacidade mental tem-se alterado. É normal que não se lembre de rezar, coisa que fazia persistentemente. Talvez a sua oração neste momento particular da sua vida seja outra. Mas eu é que sinto falta da certeza e força da sua oração por mim e pela minha vocação. 
Nisto parou um pouco. Não sei se pensativo. Olhou-me e disse. O melhor era rezares tu por mim agora. A frase marcou-me profundamente. Ainda agora lhe sinto a profundidade da marca. Tive de, discretamente, voltar o meu rosto na direcção do sacrário, escondendo a lágrima que percorreu a minha face. Pequenina, mas do tamanho do mar.

terça-feira, maio 14, 2019

Aos olhos de Deus somos todos iguais

O senhor não diga que é indigno do amor de Deus. Ele até pode ficar triste. Foi assim que a Maria se dirigiu a mim a propósito de umas coisas que dissera sobre o não ser digno de tanto amor de Deus. Deixem-me referir que gosto muito deste nome, Maria, e tenho vontade de o usar muitas vezes, embora não seja o verdadeiro nome desta minha paroquiana amiga. Eu chamo-a de Maria porque nela se realça o lado materno, protector, interessado, atento, próprio das mães. Pelos vistos, tinha ficado um pouco triste por eu dizer essas coisas. Ela mesmo mo referia. Não diga essas coisas, senhor padre. O senhor tem muita sabedoria. Deus tem de gostar muito de si. Eu sou leiga e o senhor é padre. O senhor está acima de mim. Deus ama-o, de certeza, muito mais que a mim. 
E foram as suas últimas frases que me estremeceram por dentro. Não, Maria, eu não estou acima de ninguém. Posso ter mais formação teológica, mas isso não me habilita senão para aprofundar ainda mais Deus. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Deus não me ama mais por eu ser padre. Se Deus me amasse mais por eu ser padre, Ele não amava gratuita, desinteressada e livremente. Seria um elitista. E os elitistas não amam assim. No coração de Deus cada um ocupa, independentemente de quem é ou como é, o lugar mais especial.

terça-feira, abril 02, 2019

A Adelaide prefere abraçar Deus

Não há muitas palavras que consigam traduzir como fiquei depois de escutar a Adelaide, que é uma senhora com alguma idade, reformada do ensino, viúva, mãe e avó. É uma cristã autêntica. Pelo menos no sentido em que procura a autenticidade da fé. 
No meio de um diálogo interessante e discreto, contou-me que, às vezes, perguntando-se a si mesma se tivesse que escolher entre abraçar Deus ou os filhos, ela escolhia abraçar Deus. Parece uma afirmação crua. Meio fanática. Meio despropositada. Mas eu sei que a sua afirmação é verdadeira. Tal como sei que, na terra, o seu amor maior são os filhos. Nunca se cansa de falar deles e com eles, apesar das distâncias. 
Por isso fiquei sem palavras. Fiquei sem chão. Não sei se algum dia eu conseguiria fazer tamanha afirmação de amor!

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

A carta de um filho ao seu pai que partiu.

Chorei. Chorei porque as palavras me tocaram naquela parte de nós mesmos que chora, aquela parte íntima que não tem como se dizer. E depois chorei, ao pensar que na minha partida, os meus filhos não se vão despedir de mim, não me farão cartas bonitas destas. 
Era uma carta de despedida de um filho ao pai que partira por causa daquela maldita doença do cancro. A mesma que seis meses antes lhe levara a mãe. Gente com idade pouco acima dos cinquenta. Tudo ocorreu demasiado rápido, para que pudesse assimilar tanto sofrimento. Por isso descarregava na sua carta de despedida o que sentia. Passados três meses da mãe partir com muito sofrimento, os médicos haviam dito que o pai não tinha escapatória. Mas o filho tivera a oportunidade de dizer adeus ao pai naquela hora em que lhe apertou a mão e partiu. Fui tudo, apesar de doloroso, muito bonito. A beleza das coisas que nos ultrapassam no mistério. Vinham do médico e faziam uma série de quilómetros para chegar a casa. O pai estava, obviamente, esgotado e à base de morfina. Como dormia, não pararam na estação de serviço, como tinham previsto. O pai dera conta e pediu que parassem na seguinte. Esperou uns bons cinquenta quilómetros, e quando pararam, enfim, para descansar, o pai chamou os dois filhos que iam no carro, e disse o adeus mais bonito, ao agradecer o que eles tinham sido para ele. E partiu. No final da carta, o filho dizia, como testemunho de quem sofreu tanto em tão pouco tempo: “Não se zanguem. Não odeiem. Perdoem. Sorriam. Dêem. Partilhem. Digam que gostam. Abracem mais. Amem mais”. 
Grande filho que presta uma homenagem tão bela aos pais. Chorei. Por eles. Por tantos como eles. E por mim, porque gostaria de que um dia, alguém como um filho, me homenageasse de igual modo.

sexta-feira, novembro 09, 2018

Um coração igual ao de Deus

Creio que o mais bonito de Deus é o seu coração, e é esse coração que nós devemos dar a conhecer aos outros. Não há nada mais bonito que o Seu coração. Mas, como posso transmitir o que está no coração de Deus se eu não conhecer esse coração? E como posso conhecer um coração que ama se eu não amar?
Estas duas perguntas misturaram-se com mais uma série de perguntas que me fiz, ou me surgiram, no meu último retiro, esse espaço privilegiado de intimidade com Deus que ainda hoje recordo. Foi num daqueles momentos especiais em que estava embrenhado em mim mesmo e em Deus, a pensar estas coisas do amor de Deus, como era fantástico sentir esse amor, percebê-lo, viver na certeza de tão grande amor. Assim, vindo do nada, ou de algo que me pareceu nada, mas pode ter sido verdadeiramente um tudo, surgiu em mim uma vontade enorme de amar. Parecia uma tolice. Mais uma das minhas tolices. Não estava sequer ali ninguém a meu lado para amar! Estava sozinho, diante do sacrário. Mas foi isso mesmo que senti. Uma vontade enorme de amar os outros. 
Naquele preciso momento me foi dado perceber, por experiência própria, que quanto mais nos enchermos de amor, mais vontade temos para amar. Quanto mais nos sentirmos em comunhão com Deus, mais vontade sentimos para entrar em comunhão com os irmãos. Que o amor de Deus aumenta o amor dos irmãos. Que quando sentimos em nós o amor de Deus, sentimos também esse apetite maravilhoso de amar mais quem está ao nosso redor.

sexta-feira, novembro 02, 2018

Ir ao cemitério

Passara por mim, apressada, com um ramo de flores nas mãos. Ía para o cemitério. Ainda não tinha tido tempo de limpar a campa do seu pai. Mas hoje tem de ser. Hoje é dia de ir ao cemitério. Hoje é dia de romagem para visitar as campas dos nossos. A conversa durou muito pouco. Trocados os bons dias, pouco mais trocámos que palavras relacionadas com o frenesim do dia de hoje, a ida ao cemitério da parte da tarde, depois da missa, e os adornos das campas. Costas já voltadas, ainda se virou para me dizer. Que necessidade temos de ir hoje ao cemitério?! Não sei se era uma pergunta se era uma afirmação. Se era uma pergunta, também não deu tempo para responder. De igual modo não sei se ela ia ao cemitério por hábito, por tradição, pelo facto de todos ou quase todos lá irem, se por não parecer mal, se por devoção, se por fé, ou sei lá. Não conheço suficientemente o seu coração. 
Antes da minha mãe falecer, eu estava convencido que havia um excessivo culto aos mortos e tornava-se mais visível nesta ocasião. Por estas datas dos santos, dos finados ou fiéis defuntos. Continuo a achar que há um excessivo culto aos mortos, inclusive dentro do grupo dos cristãos mais formados. Mas também recordo que, a partir daquela data fatídica de 7 de Outubro de 2001, o meu olhar para estas coisas alterou ligeiramente. A campa da minha mãe passou a ser o seu santuário, aquelo espaço físico que me religa a ela ou ao que ela é para mim, mesmo depois de ter falecido. Por isso de vez em quando dou lá um salto, dou um beijo na foto que se vai gastando com o tempo, e ofereço-lhe a minha oração. Creio que é isso que fazemos quando vamos visitar uma campa no cemitério. Não vamos visitar propriamente os “nossos” porque os nossos já não estão ali. Ali foram depositados apenas seus corpos. O dia de hoje é, na minha opinião, um dia de homenagearmos quem tanto continuamos a amar e que nos precedem no céu. É um dia de acção de graças pelos dons das suas vidas. É um dia para lhes ofertarmos a nossa oração, que é a melhor prenda que se pode dar a alguém que se ama assim. É um dia para pensarmos na vida como esse tão grande dom que Deus nos dá e que não tem fim, mesmo diante da morte.

domingo, outubro 07, 2018

Meu pai e minha mãe

Quando somos crianças, dependemos completamente do amor dos nossos pais. É esse amor que nos cria para a vida, para a educação, para a fé, ou seja, para ser quem somos. É a lei natural da vida e da fé. Com o tempo vamo-nos tornando autónomos e vamos construindo a nossa independência. Vamos conseguindo ser para além do cordão umbilical que temos com os nossos pais. Gosto de pensar que a ligação que temos aos nossos pais nunca corta de modo completo o nosso cordão umbilical. Mas a lei da vida é esta. E com o tempo, os cortes que este cordão vai sofrendo, traz-nos novos modos de sobreviver, de viver e de sentir. 
Hoje faz dezassete anos que a minha mãe faleceu. Não podia esquecer esta data. Muito menos quando a situação de saúde do meu pai está desajustada ao meu desejo. Por mais que eu quisesse que a minha mãe aqui estivesse e o meu pai estivesse completamente bem, isso não é possível. É a lei da vida. Mas a impotência e a dor são tão grandes que, por mais que façamos, continuamos impotentes e a sofrer. É a lei da vida. Repito insistentemente que é a lei da vida para me confortar. É a vida que Deus criou para vivermos. Não há volta a dar. Por isso é que me parece que devíamos gastar a nossa vida com o que ela tem de melhor e mais bonito, com o que ela tem de mais essencial e importante, o amor. 
Hoje vou visitar meu pai e vou amá-lo freneticamente. Hoje vou abraçar minha mãe nos meus pensamentos e vou amá-la freneticamente. Não sei amar meu pai e minha mãe senão deste modo, estejam eles fisicamente aqui ou não, estejam eles fisicamente bem ou não. Que interessa se eles não podem estar! O que interessa é que eu estou… aqui, para os continuar a amar e a religar nosso cordão umbilical.

segunda-feira, agosto 27, 2018

Quilómetros e quilómetros percorridos

Percorria centenas, senão milhares de quilómetros, sentado ou deitado no sofá azul da sala. Não era verde porque o azul condizia melhor com a cor que mais gostava. Contudo, neste momento, ele preferia que fosse verde. Preferia que tudo fosse verde e iluminasse de esperança a sua vida. Ou melhor, a vida de quem amava. A cabeça não parava. Mesmo com os olhos fechados. Percorria centenas, senão milhares de quilómetros, a pensar como era, como fora, e como seria. Nunca pensava no como é agora, neste instante. Isso é apenas para sentir-se. Não é para pensar-se. Nós usamos geralmente o pensamento fora do controlo emocional. Por isso anda, corre, voa por todo o lado em busca de um algo que não se encontra. Faz quilómetros sem conta, para trás, para a frente. Faz quilómetros de estradas, de cidade em cidade, de terra em terra, e faz quilómetros de tempo, para o passado e para o futuro. 
Apesar da quietude do espaço, da ausência de ruídos ao redor do meu sofá, eu não páro. Não páro, porque hoje estou muito longe de mim. Estou onde está alguém que amo, alguém a quem tenho uma ligação especial. É uma ligação de sangue e de fé. Meu pai. Meu pai que hoje dá entrada numa nova vida e não consigo deixar de percorrer quilómetros em busca do seu bem-estar. Em busca de uma imagem que me faça pensar que ele está “bem, mas bem”, expressão que costuma usar, e que todo o seu estado actual de saúde não é mais do que uma ficção de Deus.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Tenho saudades de Deus

Estávamos numa reunião de catequistas a fazer uma avaliação do ano catequético e abordando aqueles que deveriam ser os objectivos da catequese. Falávamos da necessidade de levar os catequisandos a encontrar-se com Cristo, a apaixonar-se por Ele, a querer que Ele fosse a referência das suas vidas. Falávamos à vontade. Os catequistas partilhavam as suas dificuldades, vontades, desejos e sonhos. Foi uma óptima reunião. E, às tantas, uma das catequistas expressou, a medo e como quem vai dizer uma barbaridade, que às vezes tinha saudades de Deus. Disse-o e esclareceu logo de seguida que não se referia àquela saudade que se tem quando alguém que amamos está longe. Disse que pensava n’Ele e que, de vez em quando, sentia este desejo de o ter mais perto, de o ter a seu lado. Isso, explicava, era para ela o mesmo que ter saudades de Deus.
Encontrava-se à minha esquerda. Levantei os olhos e olhei na sua direcção, como se o mundo tivesse parado. Ela fixou também o seu olhar no meu, aguardando que lhe desse uma repreensão. Contudo, o meu olhar era de satisfação, de admiração, de encanto. Não me lembro de alguma vez ter ouvido alguém fazer esta afirmação. Fiz um sorriso do tamanho do mundo, e disse simplesmente Que afirmação tão especial!