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sábado, agosto 29, 2020

Agulhas, camelos e ricos

O padre relia e actualizava, na homilia, aquela passagem que fala de agulhas, camelos e ricos. Com certeza se recordam de Jesus ter dito que era mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. O padre ufanava-se para esclarecer a passagem. Entusiasmado, esbracejava. Agarrava-se ao micro. A homilia estava ao rubro quando, por engano, acabou dizendo que era mais fácil entrar uma agulha pelo fundo do camelo, do que um rico. Toda a assembleia sorriu sem ruído. Ou seja, para dentro. Mas nisto, um senhor lá do meio da assembleia, um daqueles senhores bem-dispostos, interessados e castiços, exclamou. Com jeitinho, até é capaz! E aí toda a gente se escangalhou de vez. Até o padre.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "De rabo para o ar"

sexta-feira, janeiro 10, 2020

Vivemos para morrer.

Iniciei assim a homilia. Vivemos para morrer. Disse-o, convencido de ser uma enorme verdade de vida. Nascemos para viver e vivemos para morrer. Para chegar a esse momento, do qual ninguém escapa. Ricos ou pobres. Mais capacitados ou mais desajeitados. Todos. Todos vivemos para morrer. Na verdade, o sentido da vida começa quando encontramos o sentido da morte. Se não o encontramos, vivemos a morrer por dentro até que ocorra a morte. A nossa vida deixa de ser vida para estar morta. Porque temos medo e ansiedade, o que nos mata interiormente e não nos deixa viver em pleno este dom maravilhoso que nos foi dado, a vida. Não há pior morte que a de estar vivo, mas morto por dentro. Vivendo sem sentido de viver. Não obstante, vivemos para morrer. Para passar pela morte. Que é apenas mais um momento, embora nos pareça o fim dos momentos. 
Eu acho que não tenho medo de morrer. Digo Acho para não parecer exagerado. Ou muito seguro de mim. Que não sou assim tanto. Imagino-me a conversar comigo dizendo estas coisas e a ver como reage o meu rosto. Para ver se é verdadeiro ao falar de uma coisa que custa tanto falar. Claro que tenho o instinto natural da sobrevivência. Sofro quando algo me afecta na saúde. Quando vejo dor e sofrimento. Quando me deparo com a morte, sobretudo dos que mais amo. Quando vejo o tempo passar e não voltar. Quando vejo as capacidades a desparecer-me por entre os dedos, mesmo quando os fecho na mão, tentando agarrá-las. Mas acho que não tenho medo da morte. Porque estou convencido que a morte é apenas a plenitude da vida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É a vida"

quarta-feira, dezembro 11, 2019

O cão pregador

Já não é a primeira vez que, numa das minhas comunidades mais pequeninas, os animais vizinhos dão sinal de vida e presença. Aliás, costuma andar por ali um cãozito que vai guardando a porta de entrada da igreja. E há dias, enquanto eu, durante a homilia, fazia a minha brilhante pregação, deu-lhe para se por a ladrar. Ladrava sem parar, ao ponto de, na igreja, nos começarmos a incomodar e a olhar na direcção da porta. Eu não desistia de continuar a minha brilhante homilia. Contudo, e perante a insistência do nosso amigo, tive mesmo de intervir. Ó meus amigos, vejam lá se o indivíduo se cala. Ou prego eu, ou prega ele. E assim nos rimos despregadamente durante um bom bocado. Olhem que uma destas! A dona saiu à rua e lá lhe disse qualquer coisa que não se ouviu. Eu imagino que lhe deve ter dito que ou pregava o senhor padre ou pregava ele. E não é que o cãozito se calou?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quem canta, seu mal espanta"

quarta-feira, abril 10, 2019

A Rosário, apertada pela vida

Só se lhe adivinhavam os olhos, porque brilhavam. De resto, estava tão agasalhada, tão coberta, que nada mais se via. Reparei que trazia um cachecol, um xaile, uma echarpe, umas coisas por cima das outras, a apertar, que o frio aperta. Vinha confessar-se, que o medo também aperta. Senhor prior, queria confessar-me. Não quero morrer em pecado. Quase todas as semanas, ou semana sim semana não, tenho de confessar a Rosário que tem medo de morrer em pecado. Desta vez, e antes de aceder ao seu pedido, quis saber porque fazia aquilo daquela maneira, aflita, apertada pelos andrajos e pela vida. Respondeu de chofre que tinha medo do castigo de Deus. A Rosário deve ser daquelas pessoas que passa o tempo da homilia a rezar e não ouve as minhas pregações que falam do Amor de Deus que não castiga. Ou então é daquelas que o tempo marcou por uma enformação exagerada do pecado, e por mais que ouça falar do Amor de Deus, apenas o sente quando se confessa e se livra de castigos. 
E mesmo antes de o fazer já estava a dizer. Não quero morrer em pecado, senhor prior. E era assim que vinha confessar-se porque a saúde já não é a mesma. Porque não sabe o dia e a hora e tem de estar confessada. Mesmo que o pecado sejam apenas umas pequenas falhas de atenção ou lucidez. A Rosário tem sempre de se confessar. Vive apertada pelos andrajos e pela vida. Vive apertada pelo medo de que Deus não se lembre dela quando, afinal, Deus tem o amor todo para dar a cada um de nós, como se nós fossemos tudo para ele.

sábado, julho 22, 2017

Um senhor Joaquim

O senhor Joaquim, de idade acima da média, veio à sacristia falar-me da pessoa que íamos sepultar. Dizia que era um “pobre diabo”. Que se metia nos copos. Que na sua casa as condições estavam muito abaixo das normais. Por isso a Câmara se dera ao esforço de compor a casa. E a sua dignidade. Depois levantava ou encolhia os ombros e repetia Enfim. No fundo o que ele queria dizer era que apesar de tudo, era um homem bom. Como sempre quando se morre, acrescentei em pensamentos. Somos sempre bons quando morremos. E continuou. Agora imagine a família. Tem vários irmãos, por sinal. Nunca se incomodaram com ele e com a vida que levava. Mas agora já estão a falar em ficar com a casa que a Câmara lhe arranjara. Nunca trataram dele e agora querem tratar do que era dele. Olhe, senhor padre, faça-me um favor. Fale destas coisas na homilia. E insistiu. Que eu falasse, como se as palavras fossem iguais aos gostos. Senhor padre, fale disto ou daquilo porque é o que eu quero ouvir. Como se a homilia não tivesse de ser Deus a falar na Palavra. E como se os gestos não falassem muito mais que as palavras. E como se dizer o que está mal fosse igual a fazer algo para tentar modificar o que está mal. Percebem a que me refiro, de certeza. As palavras costumam ficar a alguns metros dos gestos. É que o senhor Joaquim, pelos vistos, tampouco tinha feito muito pelo senhor que levávamos a sepultar! Ou se calhar até tinha. Mas do modo como falava, dava a sensação de que não tinha.

terça-feira, novembro 08, 2016

pessoas especiais

Veio uma filha falar comigo passadas umas horas da suposta missa de sétimo dia para me dizer que estava magoada porque não fizera nenhum tipo de homenagem ou referência à sua mãe. A intenção de missa da sua mãe era uma entre outras, e pedira para que fosse a primeira a ser referida na eucaristia. Mesmo assim, estava magoada, e nisso temos de ser compreensivos. São momentos de especial dor. E a sua mãe era especial. Para ela. Provavelmente não para as outras dezenas ou centenas de pessoas que estavam na eucaristia. Mas era ela que desejava que eu fizesse da sua mãe o ser mais especial do mundo. Que era. Mas para ela. Que era, tal como as mães das outras dezenas ou centenas de pessoas que estavam na eucaristia. Pedi perdão por tê-la magoado sem intenção. E que não era meu costume fazer homenagens senão a Deus na Palavra que é lida em cada liturgia.

sábado, novembro 05, 2016

Homilias do padre

Gosto de fazer das homilias um espaço em que pensamos em conjunto, como comunidade. Por isso é meu costume fazer algumas perguntas, simples, sobretudo relacionadas com o que se acabou de ler nas leituras. Penso que deste modo os meus queridos paroquianos vão sentindo a necessidade de, cada vez mais, estarem atentos à Palavra de Deus proferida. 
Depois de cinco anos à frente destas paróquias, o hábito foi entrando. Mas há locais onde as pessoas ficam em silêncio. Não respondem. Ou esperam que outros respondam. Sim, falta de coragem. Sim, medo de errar. Sim, são muitos os motivos possíveis para que teimem em ficar calados. Mas sinto que é sobretudo o peso da história que lhes dificulta o passo. Esse peso de uma história de passividade, em que os leigos eram a plateia do padre. Não tinham que pensar em nada, senão estar ali aqueles minutos e depois regressar a sua casa de consciência descansada pelo dever cumprido.

segunda-feira, novembro 02, 2015

Homilia para funerais ou fieis defuntos

Estou a preparar a homilia para hoje, dia dos fieis defuntos. É das poucas ocasiões que podemos falar da morte sem os constrangimentos próprios da dor de um funeral. Podemos pensar a morte e dizê-la para que todos nos ouçam sem sofrer. Mas estou aqui às voltas e parece-me que não encontro as palavras certas. Vou pegar numa carta de S. Paulo onde fala que as coisas invisíveis são eternas e onde nos mostra a ressurreição de Jesus como sinal da nossa. Parece-me bem. Ando à volta de termos teológicos que nos dizem que a Encarnação de Jesus faz sentido pela Sua Ressurreição. Que nelas Deus assume a nossa condição humana para nos elevar à Sua condição divina. Mas temo que sejam apenas palavras.
Há uns anos uma jovem amiga contava-me que, ao escutar um colega meu, na sua paróquia, por ocasião dos funerais, este falava tão profundo e tão bem da morte, da ressurreição e da vida eterna, que quase lhe suscitava uma vontade estranha de morrer. Explicava depois que não era por desânimo com a vida, mas por entusiasmo. E olhem que este é o mistério central do nosso anúncio e da nossa missão!
Vou rezar ao Senhor para que na homilia que farei daqui a pouco seja Ele a falar, e para que quem nos escute aos dois sinta esse entusiasmo estranho por um dia poder viver na intimidade de Deus após a morte.

sexta-feira, maio 15, 2015

Falar de Deus e com Deus

Parece-me que as nossas liturgias, as nossas pregações, as nossas orações estão cheias de palavras tão feitas, tão clericais, tão eruditas, tão bem compostas, mas tão pouco nossas. Falamos de Deus e com Deus como se não estivesse ao nosso lado como estamos ao lado uns dos outros. Usamos as palavras sem as tornar nossas. Falamos com a boca, às vezes com a inteligência, mas pouco deixamos que fale o coração, que é quem melhor sabe usar as palavras.

terça-feira, abril 08, 2014

As marotas da homilia

Estava a minha pessoa no meio de uma homilia. Foi num dia daqueles em que me apeteceu ir por ali fora pela coxia dentro. A Palavra de Deus desse dia dava ganas de não ficar parado. E para explicar como ser discípulos de Cristo, de acordo com o Evangelho do dia, a minha pessoa pegava nas imagens do Sal e da Luz, tal como Jesus pegara há muitos anos. Às páginas tantas, entre muitas outras alusões, referi que a luz servia para nós fazermos tudo, pois que sem luz, a apalpar, era mais difícil, e às vezes impossível. Olha o verbo que eu fui utilizar. Apalpar. Umas devotas, que estavam para os lados do coro, deixaram escapar uns sorrisinhos sonoros. Na verdade, até já estamos habituados ou andamos a habituar-nos a um ambiente descontraído ou bem disposto na nossa comunidade. Mas aquela tinha sido demais. Eu tivera um pensamento semelhante na hora em que elaborara a homilia. Talvez o mesmo que estais agora a ter. Deixara-o para trás, porque me parecera inoportuno ou desajustado. Porém, depois das minhas amigas terem deixado escapar os sorrisos, não resisti, fiz uma pausa profunda, respirei com a mesma profundidade, e chamei-as de marotas. Ora o que eu fui fazer. Logo os sorrisos se alastraram pela Igreja toda, e eu próprio caí no mesmo riso desgarrado. Ainda hoje sorrio quando me lembro, e fico a pensar como a marotice entra em todo o lado. Não que isso seja mau ou grave. Eu diria que era desajustado. Mas pelo menos serviu para nos rirmos a bom rir. Espero que o Senhor Deus se tenha rido também. E se não se riu connosco, que se tenha rido de nós

quarta-feira, novembro 28, 2012

O Henrique e os tamanhos a mais de algumas pregações

O Henrique mora nas minhas paróquias, perto da casa da mãe onde costumo ir comer de vez em quando. São gente que se nota ao longe a sua beleza. Gente que não olha a muitos meios para amar à maneira de Deus. E por isso ali vou quase todas as semanas partilhar do seu comer. O Henrique é filho desta gente e irmão da Luísa. O Henrique, que andou num colégio de padres, deixou de ir à missa. Deixou-se destas coisas, embora ache que gosta muito de Deus. A Luísa vai à missa, e deixou-se deslumbrar por este padre que lhe está a mostrar um rosto diferente de Deus, diz ela. Que a está a encantar com as suas palavras na homilia, com os seus gestos fora da missa, com as coisas que vai criando ou incentivando, com a forma como acaba por ser, de certo modo, exigente à maneira de Cristo. Enfim, pela boca dela, poderia enumerar uma série de coisas do padre novo que está nesta paróquia que é minha. Tem contado ao irmão este seu sentir. O Henrique, apesar de ser gentil, faz cara de desconfiado. Mas há dias teve, por força da proximidade, de ir à missa onde se baptizava um sobrinho. Até aqui tudo normal. Quando o vi, e por saber da sua mais ou menos renitência em ir à missa, achei que estava na hora de lhe pregar um “susto”, entre aspas. E pelos vistos, consegui. Umas horas depois da missa tivemos oportunidade de conversar, eu o Henrique, ao que ele me disse que estava assim como que de boca aberta. Já tinha visto e conhecido muitos padres, mas a irmã afinal tinha razão. Era um comunicador excelente. Não só falava claro, como quase obrigava a que se estivesse muito atento. Criava um suspense no que dizia. Tinha um raciocínio lógico. Numa palavra, ficara deslumbrado. Eu ouvi com uma certa alegria. Vá, na verdade foi mais um certo gozo. E como se não bastasse, mostrei-me muito de acordo com ele. E no meio de um discretíssimo Mas o mais importante não é o como disse, mas o que disse, ainda me dei ao desplante de acrescentar mais uns atributos à minha homilia. Não a mim, não. Repito que foi à minha homilia! Que ela tinha um princípio, meio e fim, que me saía com naturalidade, que gostava de estar a falar com as pessoas e não para as pessoas, e até certo ponto eu poderia ter razão. Só que a perdi completamente, quando, de um momento para o outro, se deu o inesperado. De cerca de um metro e setenta, passei a ter seis metros e setenta. Fiquei a um palmo do teto da casa. O meu tamanho deveras não cabia em mim. Não lhe disse, mas informei-me, para o caso de eu não ter reparado, que assim é que valia a pena ser padre. Mas quando cheguei a casa, com tanto inchar, com tanto metro a mais, ia-me espalhando ao comprido na entrada da minha humilde casa porque tive de me debruçar para entrar. E de repente, aquele que tinha seis metros e setenta, ficou com pouco mais que seis centímetros. Que vergonha ter caído na tentação de me colocar à frente de Deus, de ter ousado querer um prémio em troca da pregação da Palavra e do Reino de Deus. Como se o importante não fosse aquilo que pregava, mas aquele que estava a pregar, o pregador. Deixai-me ao menos terminar com o meu tamanho normal. Cerca de um metro e setenta.

quarta-feira, agosto 01, 2012

Podemos escolher a homilia?

Sentámo-nos à mesa para desfeitear conversa com café. A Sofia e eu. A Sofia que era tipo notária do padre Fonseca. E eu que era tipo amigo do padre Fonseca. Altercámos ideias, normas, hábitos, pequenas histórias das grandes histórias das nossas paróquias. Contámos sobretudo anedotas da vida real dos sacramentos da Igreja. Imagine, padre, dizia ela, que um dia me apareceram uns marmanjos de uns noivos para preparar o casamento. Queriam Muse para a entrada do noivo e Adele para a entrada da noiva. Queriam um padre divertido que fizesse divertir a cerimónia e as pessoas. Digamos tipo um padre que fizesse divertir Deus. Mas o mais anedótico aconteceu quando perguntaram se podiam escolher a homilia. A Sofia emendou para Talvez queiram dizer Evangelho. E a noiva insistiu. Não. A homilia. Podemos escolher? Como se a homilia se comprasse na loja dos vestidos de noiva juntamente com o buquet. Quem precisava de uma longa homilia que durasse anos sei eu bem quem era, disse a Sofia para rematar a história, que as boas histórias merecem sempre um remate, de preferência moral.

sábado, janeiro 17, 2009

A homilia da Paula

O homem sobe para o ambão e começa num berreiro contra o pessoal. Deu lenha o tempo todo. Foi chapada velha, pontapés e chutos a torto e a direito. E vai daí, durante meia hora não teve uma única palavra de afecto. O tipo deve ter entrado no Seminário por frustração. Não viveu com pessoas. Não deve ter conseguido ver que à volta dele há pessoas independentemente dos seus pecados. Cruo. Não percebe que muitas daquelas pessoas que vão à igreja vão porque provavelmente todos sofrem e não interessa com o quê ou porquê. Simplesmente sofrem ou no mínimo estão à procura de algo. Aquele tipo é um triste coitado, que não percebeu nada do que andou a estudar. Berrou, berrou. Vós vindes à missa pedir para vós e não Lhes agradeceis as graças que Ela vos dá. Adorais Maria e esqueceis-vos que a figura principal é Deus nas suas três formas. Vindes à igreja quando precisais e depois tudo cai no esquecimento. Etc e etc, padre. O tipo é louco, nem imagina. Berrava de dedo em riste. Vós pensais que Maria é uma extraterrestre, mas não é! Vós podeis ser como ela. Uma mulher que se entregou, confiou. Uma mulher casta, livre de pecado. Ó padre, só faltou dizer que éramos todas um bando de putas. Uma tristeza. Até o rosto dele só espelhava tristeza. Nunca abriu a boca senão para berrar. Por isso nunca mostrou um sorriso. E repetia a treta da extraterrestre. Nunca mais vou àquela missa. Parecia um peixeiro a vender o seu peixe. Não vou não.
Ouvi e ouvi. Também ela se repetia insistentemente. Mas não berrava. Eu bem sabia que assim era. Ainda há dias numa sondagem verificávamos que as homilias têm sido descuidadas por muitos padres. Mas eu tinha de ensinar à Paula que a missa não é o padre e que a homilia é a mensagem de Deus actualizada. Se calhar ia usar a oportunidade errada. Mas não resisti e fui dizendo. Não devemos nunca confundir a mensagem com o mensageiro. Trata-se de uma voz. Nada mais. Uma voz entre outras. Aliás, a voz é um conjunto de sons que servem para comunicar uma mensagem. Sabes o que sucede depois à voz? Desaparece. Só fica mesmo a mensagem. O mensageiro pode ser rasca, deixar-nos à rasca, mas a mensagem será sempre uma Boa Notícia se for a mensagem do Evangelho. A mensagem será sempre a mesma. O resto pode variar. Isto serve para perceberes que a mensagem é que importa e que os que a transmitem são menos importantes. Aliás, isto também serve para nós, os mensageiros, percebermos que não devemos ter veleidades nem nos confundirmos com a mensagem ou a distorcermos. Eu falava, falava. Não berrava, não. E pensava que lhe estava a ensinar algo importante. De facto estava. Mas ela interrompeu-me para dizer. Ora aí está. O mensageiro não deve distorcer a mensagem.

quinta-feira, novembro 23, 2006

A chamada de Deus

Engalanados, como se costuma ir à missa, que é Domingo. Olhos e ouvidos atentos, pelo menos daqueles que não soçobravam do sono da noite anterior mal dormido. Estava no meio da homilia. Procurava que as minhas fossem as palavras de Deus. Ia já nos cinco minutos quando do meio dos engalanados se ouve um barulho estranho. Um telemóvel. Além desse, ouvem-se uns murmúrios, um cochichar. Olham-se uns aos outros. Eu não paro, que estava concentrado naquilo que afirmava. O telefone é desligado. Porém, não passou muito tempo para tocar de novo. Queria abstrair-me, mas não conseguia. Parei. Olhei para o nunca e pensei. Estarei a dizer alguma inconveniência e Deus quer-me prevenir?! Respirei fundo e falei com calma. Olhe, se é para mim, diga que agora não posso, que estou ocupado a fazer uma homilia. Só respondo se for Deus, e mesmo se for Ele, só atendo se for uma coisa urgente.
Gargalhada geral, e a minha foi a primeira, apesar de, com estas coisas de Deus não se brincar. Espero que não tenha sido Ele a ligar. Se foi, pelo menos ficou com medo e desistiu.