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segunda-feira, abril 27, 2020

A Igreja que está para vir

Há um abalo em tudo à nossa volta. Mesmo na Igreja. Tanto no seu todo como na sua hierarquia. Faço figas, porém, para que seja um abalo positivo. Rezo todos os dias com essa intenção. E há, de facto, algo positivo que tenho vindo a descobrir. Cresce pouco a pouco, mas cresce. É a "Igreja doméstica"! A Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. Uma Igreja que se reunia em casa e onde as celebrações eram presididas pelo dono do lar. 
O problema é que, ao longo dos tempos, o clero foi-se apoderando ou apropriando da Igreja e dos sacramentos, mesmo que o tenha feito sem intenção, transformando a Igreja de Cristo numa Igreja piramidal, vertical, clerical. E habituou os crentes a esse modelo. Um modelo de Igreja dependente dos bispos e dos seus padres. Por isso, talvez muitos crentes tenham perdido o foco e se tenham sentido algo desamparados nestes tempos de difícil acesso aos seus padres. Pelo menos o acesso presencial. 
É claro que precisamos de uma “ordem”, como dizia Anselmo Borges numa entrevista que me fez pensar. Por isso precisamos de ministros ordenados. Precisamos de “organizar”. Mas não podemos fazer depender deles a Igreja que é de Cristo e de todos.
Será que a Igreja que está para vir vai ser mais laical e menos clerical?! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"

terça-feira, abril 14, 2020

Linhas da frente

A minha sobrinha enfermeira foi para a linha da frente no combate à pandemia que alastra vírus e pânicos. Como muitos outros. Como tantos. Como tantos a quem temos de agradecer muito! 
Na ocasião que informou a família, não tive tempo para medir as palavras ou os pensamentos. Disse-lhe o que pensava, embora o fizesse com o coração nas mãos. Com o coração apertado nas mãos. Na minha humilde opinião, é mais maravilhoso que melindroso ir para a linha da frente! Ter nas mãos a possibilidade de ajudar, é uma das coisas mais bonitas que o ser humano tem ao seu alcance numa ocasião como esta! Deveríamos viver para ajudar a viver. Por isso fiquei orgulhoso por ela e com ela. Apreensivo, mas orgulhoso. Pedi-lhe que não desvalorizasse nunca o cuidado e a precaução. Sem medo, mas com consciência de que devia também cuidar dela para poder continuar a cuidar dos outros! 
Cuida-te. Eu rezarei por ti, e através de ti, por todos os que como tu, estarão nessa linha. E assim, a rezar, espero estar na linha da frente!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Silvina tem agora mais uma razão para viver"

quinta-feira, abril 09, 2020

Encontrei o beijo do meu pai

Foi numa destas tardes solarengas. Mas escuras por dentro. A meio da tarde. Depois de ter falado com o meu pai em videoconferência. Cada um de nós no ecran. Unidos e separados pelo ecran. Depois a videoconferência alongou-se a mais três pessoas. As minhas irmãs e suas filhas. E ele desatou a chorar compulsivamente. Tivemos de desligar. Desalentados pela dor, pela distância, pela impotência, pela saudade. Marcados por lágrimas. Maldito vírus! 
Voltei sozinho mais tarde. Depois que me disseram da Unidade de Cuidados Continuados que ele não parava de chorar dizendo que eram saudades. Voltei. Falámos entre palavras e uns arranques de lágrimas da sua parte. Entendia o que eu dizia. Os meus apelos à força. As minhas explicações. As insinuações da fé. Que o amávamos muito. Que agora andava uma coisa no ar, uma espécie de bicho que não nos deixava estar juntos. Mas que nunca o abandonávamos. Que eu nunca o abandonaria. Ele ia respondendo à letra, dizendo que nos amava, que me amava. Já passou, pai. Pois já, respondia. Mas voltava. 
Nisto, o tablet do outro lado começou a mexer-se. Contou depois a fundionária que ele lhe retirou o tablet das mãos. Ele que tem cada vez maior dificuldade motora. Ele que tem cada vez menos capacidade cerebral. Fazia-me festas pelo ecran. Disseram-me depois. E às tantas, isso eu dei conta, aproximou o ecran e deu-me um beijo. Um beijo que, mesmo à distância foi dos mais inesquecíveis e robustos que me deu até hoje. 
O vírus não vence tanto amor! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O beijo do meu pai"

terça-feira, abril 07, 2020

Olha, faz o bem

Sabes aquela sensação de não saber? Aquela sensação de que determinada situação ou gesto ou palavra são um sinal, mas não sabes dar-lhe forma? Não sabes que cor, que sabor, que odor tem? Foi assim, hoje, no diálogo breve com meu pai, por vídeo-conferência. 
A conversa com ele foi muito boa, ou seja, foi mais fluida do que o habitual. O que comeste ao almoço, pai? Eu comi um bife, pai, e tu? Eu comi dois. Tu estás lindo, paizinho. Tu é que és lindo, meu filho. Amo-te muito, pai. Meu mais que tudo. Eu ainda te amo mais, meu filho. Toma lá milhares de beijinhos, pai. E faço gesto com boca e com a mão a ir da boca ao écran. Sem que eu lhe peça nada, leva a mão à boca, com dificuldade, e manda beijos pequeninos, quase inaudíveis. Mas do tamanho do mundo. Ó pai, até já. É assim que me despeço dele, porque o meu adeus é sempre um até já. E ele responde de um modo que não vou esquecer nunca mais. Olha, meu filho, faz o bem. Faz o bem. 

A POPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Meu pai e minha mãe"

sábado, abril 04, 2020

O vidro que não nos separa

Uma paroquiana avó mandou-me um vídeo do filho, do lado de lá da porta de vidro, a falar com o neto, uma criança de poucos meses, do lado de cá do vidro. É ao que obriga o período de quarentena. Mas foi tão bonito ver. Foi tão maravilhoso. A avó dizia que eram tempos muito duros e difíceis, mas que acreditava que tudo ia correr bem. Eu manifestei-lhe que era muito bonito o que me enviara. Mesmo, mesmo. Pode parecer, à partida, duro e triste. Mas eu achava-o bonito. Claro que achava. Era muito bonito ver que um vidro não separa duas pessoas que se amam. Porque nada nos pode separar, se o nosso coração não deixar. O coração é que nos liga e aproxima!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É um pai que ama como o Pai ama"

quinta-feira, março 19, 2020

O beijo do meu pai

Tenho tentado encontrar o último beijo que dei ao meu pai e que agora está trancado, tanto ele como o beijo, naquela casa grande onde o deixei para ter os cuidados que necessita. Busco-o por todo o lado. Na cabeça. Na memória. No coração. Busco-o vorazmente porque era meu e quero-o a todo o custo. Porque quero tê-lo na mão para o ver e recordar a toda a hora. 
Desde sexta-feira passada que a Unidade de Cuidados Continuados onde está o meu pai ficou interdita a visitas. Fiquei feliz porque assim fica mais longe do maldito vírus. Mas também fica mais longe de mim. Mais longe dos seus. E hoje é um dia particularmente especial. É o dia de todos os pais. 
Há distâncias que se encurtam, em videoconferência, num diálogo quase surdo entre as minhas palavras e as que ele balbucia, entre o meu “Amo-te muito, pai” e o que me disse ontem e hoje com “eu também te amo muito, meu filho”. Vi-o a sorrir, como habitualmente, mesmo na inconsciência da sua doença. Fiquei feliz com vê-lo. Fiquei feliz com ouvi-lo. Mas não recordo como foi o último beijo. Sei-lhe o sabor, porque é igual aos outros, mas gostaria de tê-lo guardado e não guardei. Hoje, dia do pai, procurei-o ansiosamente! Tentei, ao menos, recordar a hora, o local e a alegria que sentira. 
Com tanta procura, aprendi, porém, que, por mais que o quisesse guardar dentro de mim, os beijos não são para se guardar, mas para se dar. Os beijos são o gesto de quem se dá para que o outro sinta que o amamos. O beijo que eu tanto procuro, afinal, está no meu pai que tanto amo!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

quarta-feira, março 18, 2020

padres covid

Padres que sobem aos telhados da Igreja e se filmam a celebrar a missa. Padres que gravam vídeos de lágrimas para os seus. Padres que replicam mensagens e mensagens. Padres que têm muitas ideias criativas e que pululam na internet, especialmente nas redes sociais, para chegar aos fiéis, para alimentar a fé dos fiéis. Que bom! Aprovo e apoio cem por cento. Fico orgulhoso desta nossa Igreja que encontra um outro modo, diante da adversidade, para evangelizar, para chegar às pessoas, para as não abandonar. Fico orgulhoso das centenas e milhares de missas que hoje estão disponíveis às pessoas nas suas famílias, Igrejas Domésticas, através das redes sociais. 
Porém, no meio de tanta coisa, não sei algumas coisas. Não sei, por exemplo, se alimentar as pessoas, replicando e tornando a replicar nas redes sociais, não será alimentar em demasia o mundo virtual em detrimento da realidade e da verdade das famílias reunidas por si mesmas e não por redes sociais! Assim como também não sei se nalguns casos não se trata de um aproveitamento, mesmo que inconsciente, para um certo egolatrismo! 
Não sei mesmo. Acho que cada vez sei menos!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Na lareira 1"

terça-feira, dezembro 17, 2019

O príncipe do lar

Vou chamar-lhe Henrique porque, segundo me informei, significa "príncipe do lar". Acho que o nome se ajusta ao que reconto. Este menino é conhecido por ser educado, calmo, sereno, meigo, terno, simpático. A catequista descreveu-o com estes adjectivos. Segundo ela, havia já algum tempo em que ele andava tristonho, sem brilho no olhar. Não parecia o mesmo Henrique que entrara na catequese há um ano ou dois. Passava quase todo o tempo do encontro de catequese alheio, distante. Longe de tudo e de todos. A catequista andava preocupada e não sabia como o abordar. Mas houve um dia em que ele estava mais perto dela, e no momento em que olhava fixamente o nada, no vácuo do tudo que era e havia à sua volta, aproximou-se dele, e perguntou. Olá, Henrique, então que se passa? Parece que andas um pouco triste. O Henrique escondeu os olhitos, nos quais se notara a presença discreta de uma lágrima, e respondeu com a meiguice habitual. Pois ando, catequista. Sabes, é que eu agora tenho dois pais e não sei se hoje vou para casa do primeiro se do segundo. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O casamento depois de dez anos casados"

terça-feira, junho 25, 2019

A oração do meu pai

Quando atravesso a porta de entrada do lar onde está meu pai, um frio percorre-me a espinha como se tivesse de atravessar o inverno para o ver. A saudade mistura-se com a ansiedade e o receio de constatar o seu estado de saúde progressivamente mais débil. Quando estou mais que uma semana sem o ver, aperta-se-me a saudade. Quando o tenho de deixar, aperta-se-me o coração. 
Ontem repetiu-se este tipo de episódio. E depois da troca de mimos, como é costume, dirigimo-nos, a passo de caracol, para a capela do lar, onde rezámos, juntos, o que nos apeteceu. Pai-nosso, avé-maria, salvé-rainha, consagração-a-nossa-senhora e por aí fora. 
Numa das pausas desse momento lindo, disse-lhe com simplicidade, Paizinho, tenho sentido tanto a falta da tua oração por mim, que nem imaginas! Ele concordou comigo. Que antigamente rezava muito por mim e agora não. Entre conversas com pouco sentido e conversas com mais sentido, aquela resposta pareceu a mais lúcida do mundo. A sua capacidade mental tem-se alterado. É normal que não se lembre de rezar, coisa que fazia persistentemente. Talvez a sua oração neste momento particular da sua vida seja outra. Mas eu é que sinto falta da certeza e força da sua oração por mim e pela minha vocação. 
Nisto parou um pouco. Não sei se pensativo. Olhou-me e disse. O melhor era rezares tu por mim agora. A frase marcou-me profundamente. Ainda agora lhe sinto a profundidade da marca. Tive de, discretamente, voltar o meu rosto na direcção do sacrário, escondendo a lágrima que percorreu a minha face. Pequenina, mas do tamanho do mar.

terça-feira, abril 02, 2019

A Adelaide prefere abraçar Deus

Não há muitas palavras que consigam traduzir como fiquei depois de escutar a Adelaide, que é uma senhora com alguma idade, reformada do ensino, viúva, mãe e avó. É uma cristã autêntica. Pelo menos no sentido em que procura a autenticidade da fé. 
No meio de um diálogo interessante e discreto, contou-me que, às vezes, perguntando-se a si mesma se tivesse que escolher entre abraçar Deus ou os filhos, ela escolhia abraçar Deus. Parece uma afirmação crua. Meio fanática. Meio despropositada. Mas eu sei que a sua afirmação é verdadeira. Tal como sei que, na terra, o seu amor maior são os filhos. Nunca se cansa de falar deles e com eles, apesar das distâncias. 
Por isso fiquei sem palavras. Fiquei sem chão. Não sei se algum dia eu conseguiria fazer tamanha afirmação de amor!

domingo, outubro 07, 2018

Meu pai e minha mãe

Quando somos crianças, dependemos completamente do amor dos nossos pais. É esse amor que nos cria para a vida, para a educação, para a fé, ou seja, para ser quem somos. É a lei natural da vida e da fé. Com o tempo vamo-nos tornando autónomos e vamos construindo a nossa independência. Vamos conseguindo ser para além do cordão umbilical que temos com os nossos pais. Gosto de pensar que a ligação que temos aos nossos pais nunca corta de modo completo o nosso cordão umbilical. Mas a lei da vida é esta. E com o tempo, os cortes que este cordão vai sofrendo, traz-nos novos modos de sobreviver, de viver e de sentir. 
Hoje faz dezassete anos que a minha mãe faleceu. Não podia esquecer esta data. Muito menos quando a situação de saúde do meu pai está desajustada ao meu desejo. Por mais que eu quisesse que a minha mãe aqui estivesse e o meu pai estivesse completamente bem, isso não é possível. É a lei da vida. Mas a impotência e a dor são tão grandes que, por mais que façamos, continuamos impotentes e a sofrer. É a lei da vida. Repito insistentemente que é a lei da vida para me confortar. É a vida que Deus criou para vivermos. Não há volta a dar. Por isso é que me parece que devíamos gastar a nossa vida com o que ela tem de melhor e mais bonito, com o que ela tem de mais essencial e importante, o amor. 
Hoje vou visitar meu pai e vou amá-lo freneticamente. Hoje vou abraçar minha mãe nos meus pensamentos e vou amá-la freneticamente. Não sei amar meu pai e minha mãe senão deste modo, estejam eles fisicamente aqui ou não, estejam eles fisicamente bem ou não. Que interessa se eles não podem estar! O que interessa é que eu estou… aqui, para os continuar a amar e a religar nosso cordão umbilical.

sexta-feira, setembro 14, 2018

O senhor em frente

Em frente à mesa solitária onde me encontro a almoçar, está outra mesa solitária. A diferença está nos ocupantes. Numa estou eu, e na outra está um senhor que ainda não está gasto pela vida, mas a idade mostra no seu rosto os sulcos de muitas histórias. Acabámos comendo frente a frente, em mesas diferentes, sem dizer uma palavra, mas entreolhando-nos de vez em quando. Não parei de o observar como se fosse o meu pai que, nos seus oitenta e quatro anos, tivesse ido comer sozinho ao restaurante. Bem podia fazê-lo como aquele senhor, com uma certa serenidade, olhando fixamente o tempo, mastigando demoradamente, com um copo de vinho na mão. Sozinho. Muito sozinho. É para isto que a gente anseia viver muitos anos?

segunda-feira, agosto 27, 2018

Quilómetros e quilómetros percorridos

Percorria centenas, senão milhares de quilómetros, sentado ou deitado no sofá azul da sala. Não era verde porque o azul condizia melhor com a cor que mais gostava. Contudo, neste momento, ele preferia que fosse verde. Preferia que tudo fosse verde e iluminasse de esperança a sua vida. Ou melhor, a vida de quem amava. A cabeça não parava. Mesmo com os olhos fechados. Percorria centenas, senão milhares de quilómetros, a pensar como era, como fora, e como seria. Nunca pensava no como é agora, neste instante. Isso é apenas para sentir-se. Não é para pensar-se. Nós usamos geralmente o pensamento fora do controlo emocional. Por isso anda, corre, voa por todo o lado em busca de um algo que não se encontra. Faz quilómetros sem conta, para trás, para a frente. Faz quilómetros de estradas, de cidade em cidade, de terra em terra, e faz quilómetros de tempo, para o passado e para o futuro. 
Apesar da quietude do espaço, da ausência de ruídos ao redor do meu sofá, eu não páro. Não páro, porque hoje estou muito longe de mim. Estou onde está alguém que amo, alguém a quem tenho uma ligação especial. É uma ligação de sangue e de fé. Meu pai. Meu pai que hoje dá entrada numa nova vida e não consigo deixar de percorrer quilómetros em busca do seu bem-estar. Em busca de uma imagem que me faça pensar que ele está “bem, mas bem”, expressão que costuma usar, e que todo o seu estado actual de saúde não é mais do que uma ficção de Deus.

terça-feira, agosto 07, 2018

Chorar à beira-mar

Experimentem chorar à beira-mar. 
Em primeiro lugar, façam um passeio pela areia, deixando que os pés se molhem com a espuma que as ondas formam. Olhem mais para o mar que para a areia. Olhem para o longe que se esconde atrás do mar. Porém, de vez em quando, olhem para trás, e reparem como o rasto dos vossos pés desaparece depressa. O caminho andado não mais volta atrás. 
Depois disso, sentem-se na areia húmida. E chorem à vontade. Vão ver que as lágrimas se juntarão ao mar sem ninguém se aperceber. Por algum motivo dizem que as lágrimas são salgadas. Talvez seja porque todas vão dar ao mar. Talvez até sejam elas o que salga o mar. 
Podem ainda escrever as vossas mágoas na areia fina. Verão que as ondas levam cada uma delas para o alto mar. É só esperar uma onda ou duas, e lá vão. Afinal as ondas vêm e vão, trazem e levam. Levam tudo o que escrevermos à beira-mar. 
Convido-vos a fazer esta experiência ou exercício de chorar à beira-mar. Talvez assim percebam como as vossas lágrimas nunca estão sozinhas. Nunca serão lágrimas sozinhas. Serão um pequenino impulso do mar. Uma pequenina gota de um infinito mar. 
Foi o que fiz hoje para falar com Deus da dor que carrego por ser filho e amar.

sexta-feira, agosto 03, 2018

Cuidar de quem nos cuidou

A vida, a nossa vida, tem diversas fases. Em cada uma delas alguém nos cuida ou cuidou. Eu não recordo propriamente como foram os primeiros tempos e primeiros passos da minha vida. Não recordo como foi a primeira fase da minha vida. Não tinha a consciência do que fazer. Alguém a tinha  e teve por mim, e hoje sou muito do que fizeram da minha vida aqueles que dela cuidaram. 
A minha mãe já faleceu e já está onde um dia quero estar, junto de Deus. O meu pai, por seu lado, está agora naquela fase da vida que precisa dos meus cuidados, dos cuidados dos filhos. Está naquela fase em que a consciência da vida já não é o que era. Não interessa aqui o que isso dói. Porque não há como medir a dimensão dessa dor e da impotência perante a situação. Dói simplesmente. Dói como se tivesse uma espinha cravada no coração e constantemente a sangrar. O que interessa é que chegou a hora de cuidar dele. A hora de recompensar tudo o que fez de nós aquilo que somos. Não há comparação para explicar o que recebemos dos nossos pais. Por isso não há medida para os cuidar. Não há medida, ou tempo a medir, ou disponibilidade a avaliar, ou quantidade de amor a realizar. Esta é a oportunidade que Deus nos dá para cuidar quem de nós cuidou, e para ajudar a ser mais quem nos fez ser o muito do que somos.
Escrevo, neste momento, a chorar e a sorrir. A chorar pela impotência e dor. A sorrir pelo dom que Deus me deu de cuidar quem de mim cuidou.

quinta-feira, julho 19, 2018

As humanae vitae e as pessoas

Li há días uns artigos que falavam da famosa enciclica “Humanae Vitae”, de Paulo VI, sobre os seus avanços ou recuos na moral sexual. Li também que antes desta encíclica ser publicada, o Papa tinha encomendado uma outra, com o nome "De nascendae prolis", e que ia no sentido contrário ao da “Humanae Vitae”, sobretudo no que se refere ao uso de contraceptivos que não apenas os naturais. Também me recordo de, em tempos, ter lido qualquer coisa sobre uns meandros obscuros no processo que levou à luz a “Humanae Vitae”. Uns textos que falavam de interesses e de desinteresses. Não me recordo de tudo agora. A minha memória nunca foi fecunda. 
Primeiro informo que sou a favor da vida, de todos os modos e feitios, com todas as dificuldades e sofrimentos. O maior dom que Deus nos dá a cada um não deveria ser tratado como algo descartável. Nesse mesmo sentido, sou favorável a que o acto sexual esteja sempre aberto ao dom da vida. Mas dentro da consciência das pessoas, e dentro das camas dos casais, e dentro do modo como as pessoas geram uma paternidade responsável, creio que devemos ser mais inclusivos que exclusivos. Afinal, aquela encíclica, que foi muito fracturante na altura (recorde-se que estávamos nos anos 60), que verdadeiras repercussões tem hoje, quando cerca de 98% dos católicos (refiro-me aos verdadeiros católicos que têm e vivem uma fé em caminho) usam estes métodos contraceptivos como se isso não importunasse a sua fé? É que se calhar não importuna mesmo.

domingo, março 19, 2017

O sorriso da minha mãe

Hoje lembrei-me do sorriso da minha mãe. Era um sorriso rasgado. Quase se notava mais o seu sorriso que o seu rosto. Ou melhor, quase se notava mais o seu rosto sorridente que a dor sofrida da sua enfermidade. 
Também chorava. Vi-lhe algumas lágrimas correr pelos sulcos cansados do rosto. Mas eram poucas, e misturavam-se com a alegria de um rosto feliz. A minha mãe era feliz. Também se afrontava com as afrontas da vida. Como mãe que era, pesavam-lhe sobretudo as afrontas dos filhos, onde me incluo especialmente. Mas era feliz. Tinha uma vida cumprida. Não uma daquelas vidas gastas sem saber bem como e para quê. Era uma vida entregue aos outros e a Deus. 
Talvez eu esteja a exagerar, porque a minha mãe é simplesmente a “mãe”. O cordão umbilical que me alimentou ainda não se desligou nem vai desligar. Talvez eu exagere ao afirmar que a vida da minha mãe era uma vida com “V” grande, à maneira do “D” grande de Deus. Mas como lhe devo tanto da minha vida e do meu sacerdócio, deixai-me recordar esse sorriso que tantas vezes me dá vontade de continuara a viver e a ser sacerdote.

Parece que este texto não vem a propósito, mas vem. Hoje, dia do pai, aproveito para enviar um grande abraço a todos os pais e um abraço muito apertado ao meu.

quarta-feira, outubro 26, 2016

Os filhos que às vezes são esquecidos

Não quero complicar muito. A pequena Rafaela tem poucos anos, mas os suficientes para sentir o seu redor, para se sentir, para que os seus sentimentos puros e desinteressados a façam chorar. Na semana passada dedicou toda uma noite a chorar. Tem dedicado muito tempo às lágrimas. Mais à noite que durante o dia. Os pais separaram-se sem que lhe dessem a certeza que não se amavam. Sem lhe dar as certezas que ela precisava e tanto merecia para viver. Vai-se habituar a viver assim e a pensar o mundo como se descartar fosse o mais normal. Como se fazer sacrifícios não fizessem parte do viver. Como se os problemas se ultrapassassem afastando-se deles. 
Não quero complicar muito. Mas as lágrimas da Rafaela, e o seu rosto envelhecido por estas coisas, amadurecido à força por coisas que não entende, triste pelo amor que deixou de perceber, tocam-me e tornam-me a tocar fundo. 
Eu sei que a vida de muitos casais não é fácil. Mesmo para os casais cristãos que deveriam ter percebido que a cruz é um sinal mais na vida da fé. E não os julgo. Tenho ouvido alguns aos quais as razões válidas ou insuportáveis sobram. Sinto que não é por terem perdido a força e o ânimo que Deus os deixa de amar. Mas quando penso na Rafaela, também a mim me vêm umas lágrimas durante a noite.

quinta-feira, setembro 22, 2016

José, de personagem secundária a modelo principal

Cada vez gosto mais do José, a figura secundária da cena da encarnação, aquele que não foi tido nem achado para que o Filho de Deus encarnasse, aquele que continuou no anonimato das páginas da Escritura. 
Num mundo extremamente varonil, onde a mulher ocupava um segundo plano, assistimos a uma personagem que, sendo homem, ocupa o segundo plano, o plano daqueles que não centram o olhar da nossa atenção. É aquela personagem sem a qual o filme não seria a mesma coisa, mas sobre a qual poucos ficam a falar após o fim do filme. E foi este José que aceitou este segundo plano, um plano sofrido, porque nem sempre entendia o que se passava. E quando a sua amada apareceu grávida, aparece este homem, modelo de misericórdia para as famílias e matrimónios de hoje, modelo de misericórdia porque põe em primeiro lugar aqueles que ama, Jesus e Maria.

quinta-feira, agosto 18, 2016

Fazer caminho

É mãe de três filhos. Diz-me que é maravilhoso o dom que Deus lhe deu de ter filhos. São de facto uma alegria sem tamanho, mas também um desafio diário. Neste desafio, há dias em que não se sente à altura de tamanha responsabilidade. E outros dias há em que a sua vida familiar entra em conflito com a sua vida na Igreja, na comunidade cristã, e isso deixa-a confusa e angustiada. Vai tentando sempre ver o lado positivo, se bem que às vezes não seja muito fácil e se sinta um pouco perdida no caminho. Mas vai-se caminhando, diz. Di-lo de uma forma que parece não ver mais que a dificuldade. 
Não me pedia uma resposta, nem conforto, nem nada que se parecesse, pois estava convencida de que era assim que tinha de ser. Porém, quando lhe disse que se não estivesse perdida de vez em quando provavelmente não daria conta de que estava a caminhar, respondeu, com satisfação, que nunca tinha pensado assim, e que de facto assim se dava conta que fazia caminho.