Mostrar mensagens com a etiqueta catequese. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta catequese. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, julho 09, 2020

Deus no quintal

A catequista explicava que Deus estava em todo o lado. Que estava também no coração de cada um deles. Que estava por todo o lado. Nisto, o Francisco, que não era o papa mas tinha o nome dele, perguntou se também estava no quintal do avô. E a catequista, admirada pelo interesse do seu catequisando, respondeu que sim. Claro que estava. Também estava no quintal do avô do Francisco. Mas o petiz, vejam lá tamanha astúcia, não deixou alongar a conversa e arrematou. Mas o meu avô nem tem quintal, como pode Deus lá estar?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Falar de Deus"

terça-feira, dezembro 17, 2019

O príncipe do lar

Vou chamar-lhe Henrique porque, segundo me informei, significa "príncipe do lar". Acho que o nome se ajusta ao que reconto. Este menino é conhecido por ser educado, calmo, sereno, meigo, terno, simpático. A catequista descreveu-o com estes adjectivos. Segundo ela, havia já algum tempo em que ele andava tristonho, sem brilho no olhar. Não parecia o mesmo Henrique que entrara na catequese há um ano ou dois. Passava quase todo o tempo do encontro de catequese alheio, distante. Longe de tudo e de todos. A catequista andava preocupada e não sabia como o abordar. Mas houve um dia em que ele estava mais perto dela, e no momento em que olhava fixamente o nada, no vácuo do tudo que era e havia à sua volta, aproximou-se dele, e perguntou. Olá, Henrique, então que se passa? Parece que andas um pouco triste. O Henrique escondeu os olhitos, nos quais se notara a presença discreta de uma lágrima, e respondeu com a meiguice habitual. Pois ando, catequista. Sabes, é que eu agora tenho dois pais e não sei se hoje vou para casa do primeiro se do segundo. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O casamento depois de dez anos casados"

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Comungar por comungar

Rodeada dos seus netinhos, era uma velhinha muito sorridente. Contava muitas histórias dos tempos da sua meninice e era um gosto escutá-la. Contudo, há dias encontrei-a a chorar compulsivamente, embora as lágrimas fossem pequeninas e o rosto não desenhasse de forma clara o seu caminho. Um dos netinhos ia fazer a Primeira Comunhão, e convidara a avó. Ia fazer uma grande festa. A cerimónia era às onze horas, mas antes disso os convidados tinham um pequeno repasto em casa. Por isso a avó chorava. Chorava ao recordar a sua primeira comunhão. Nesse tempo era obrigatório estar vinte e quatro horas sem comer para poder comungar. Por vezes, algumas crianças não aguentavam e desmaiavam. Ela não aguentara, e umas horas antes da Primeira Comunhão, dera um salto á cozinha e, às escondidas, assaltara o cozido meio à portuguesa que a mãe dela fizera para depois da festa. Chorava com remorso. Nunca confessara esse pecado. Tinha vergonha de não ter sido tão forte como Deus merecia. Não O ter respeitado como devia. E agora, ao ouvir o convite do netinho, o passado voltara a ela. Na verdade, ao longo da sua longa vida, tinha entendido que, afinal, não se desrespeitava Deus matando a fome. No entanto, dava conta que agora já nada disso era importante e chorava. Ai, senhor padre, há tanta gente que não guarda nenhum jejum antes de comungar. Há tanta gente que vai comungar sem estar confessada. Há tanta gente que vai comungar em pecado. Há tanta gente que vai comungar sem saber o que vai comungar. Sem perceber que é Deus que entra em nós para entrar em comunhão connosco. A avozinha estava triste porque hoje a comunhão já não era bem comunhão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os meninos da Primeira Comunhão"

terça-feira, novembro 26, 2019

O padre que mora na catequese

A senhora professora de moral é amiga do senhor prior. São amigos de longa data. De andanças das catequeses e das pastorais juvenis. Até se tratam por tu. E a senhora professora, enquanto preparava o acolhimento na sala do primeiro ano, precisou de falar com o pároco onde está a dar aulas para combinar algo com ele, o tal amigo. Na dita sala já se encontrava um dos pequenitos alunos que, achando estranha a conversa, perguntou à professora. Estás a falar com quem? Ela respondeu com a mesma simplicidade. Com o senhor padre. Insistiu o pequeno. Aquele que dá a missa? Sim, aquele que celebra a missa. Mas, como o pequeno, de vez em quando vai a outras paróquias, continuo o interrogatório. O que mora na catequese? 
Olha o que nos rimos com o petiz. Porque as pessoas moram onde são vistas, certo? Apetece fazer ou desenhar um lol.

domingo, novembro 17, 2019

Vinha-se confessar ou parecido

Vinha, despachada, enquanto me preparava para confessar, a pedido de um colega, numa paróquia vizinha. Era uma jovem risonha, sem dúvida. Vinha-se confessar, mas não sabia o que estava a fazer e, segundo me disse, não se recordava de se ter confessado nunca. Mas ria-se. E ria-se. Não sei se de incómodo, se de azia, se de nervosismo, se de graça. A graça que tinha tudo aquilo. Porque, tenho a certeza, se lhe falasse da graça de Deus, ela ia continuar a rir. Não sabe esse termo. Usa-o só por piada. E conhece uma senhora velhota que tem esse nome ou parecido. Não sabia, como era de esperar, o que era um exame de consciência ou um acto de contrição. Não sabia o que era sequer o pecado. Ela não tinha. Foi o que disse. Nem sabia bem o que era isso. Foi o que disse. Mas nunca ouviste falar de pecados? Perguntei. Que eu me lembre, não. Respondeu. Não desisti dela. Não desisti da confissão. Fizémos o que foi possível. Embora desconfiado, creio que a graça sacramental ou a graça de Deus é maior que todas estas coisas. Mas quando lhe perguntei porque estava ali, respondeu que estava ali, sem saber muito bem porquê, mas tinham-lhe dito que, para se crismar, tinha de se confessar.

sexta-feira, agosto 23, 2019

Catequese na piscina

Uma das minhas catequistas tirou uns dias de descanso e decidiu ir para a piscina, como me disse, a torrar ao sol. Curiosamente, encontrou lá todos os seus catequisandos, que ficaram imensamente contentes com a sua companhia e não a largavam. Ela também gosta muito deles. Diziam-lhe que até parecia que a catequese ainda não tinha terminado este ano. E repetiam. Ó catequista, podíamos ter catequese aqui na piscina. E então a catequista lembrou-se de comprar uma bola de praia às cores e, com ela, fazer um jogo de perguntas sobre a catequese. 
Na verdade, um catequista é sempre catequista. Todos os lugares e espaços são bons para promover o encontro com Cristo. Para isso não há férias. Para a verdadeira catequese, não há férias. Fiquei muito satisfeito com o que esta catequista partilhou comigo. Bem haja.

terça-feira, março 26, 2019

Gestos que parecem insignificantes e não são

Estão no 9º ano de escolaridade e vinham directamente de uma festa na escola para o encontro da Catequese. A catequista recebeu-os como habitualmente e eles entraram na sala da catequese como habitualmente, isto é, com o alarido habitual. Eles próprios dizem que estão numa idade parva. Mas a catequista gosta deles. O alarido nem sempre acalma. Às vezes dura o encontro quase todo. Mas a catequista não desiste de gostar deles. 
Naquele dia, o João, nome fictício, porque o nome acaba por ser o menos importante, abeirou-se dela com uma caixa de chocolates, abriu-a. A caixa era grande e só lhe restava um chocolate. Tome, catequista, disse o João, estivemos numa festa, na escola, e eu guardei este chocolate para a catequista. Era apenas um. Mas a catequista ficou muito emocionada, muito sensibilizada com a ternura do gesto. Dizia-me ela que a atitude adoçara mais o seu coração do que o próprio chocolate.

segunda-feira, março 11, 2019

A Camila e o que Deus lhe está sempre a dar

A Camila é uma boa rapariga. É uma boa mãe. É uma boa catequista. Eu atrever-me-ia a dizer que é uma boa cristã. Mas a vontade de nada é a vontade que tem mais vezes. Passa o tempo a queixar-se do que não tem, do que queria ter, do que anseia viver. Desta vez queixava-se de este ano só ter cinco crianças na catequese. Por isso perdera a vontade de dar catequese. No entanto, em cada encontro da catequese fica feliz por poder partilhar Deus com aquelas cinco crianças. Como é bonito vê-las a crescer. Cada uma delas. Dizia-me. Cada uma delas. 
As suas palavras foram a melhor ocasião para lhe recordar como Deus lhe dava tanto e ela achava sempre tão pouco. Deus dera-lhe cinco crianças para guiar, e ela achava pouco. Deus dera-lhe a oportunidade de servir e ser missionária junto destas crianças, mas ela insistia no desejo de ir para África como missionária. Deus dera-lhe uma comunidade cristã onde crescer e por a render os talentos que lhe dera, e ela continuava a desaproveitar esses dons, porque nem sempre a comunidade é como ela gostaria que fosse. Tentou interromper-me para murmurar baixinho que nunca lhe ocorrera este pensar. Porém, eu continuei o meu raciocínio, como se não a estivesse a escutar, lembrando-lhe que Deus estava sempre a dar-lhe coisas, oportunidades, soluções, e que ela insistia em desaproveitar grande parte delas, porque achava que era pouco ou que não era bem o que queria.

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

A importância do karaté na catequese

Num diálogo amistoso com a mãe de uma criança que frequenta a catequese, falávamos sobre o que era necessário ou não, o que era importante ou não na catequese. Eu dizia que era a "fé". Que se devia educar para a fé. A mãe dizia que era o "caracter". Que era formar o carácter. Que este era ainda mais importante que ir à missa, pois o que as crianças precisavam era de caracter.
Nisto, o filho, um petiz que frequenta o segundo ano da catequese, estando ao nosso lado e escutando-nos com entusiasmo, interrompeu-nos e disse. Eu tenho. Eu tenho isso, mãe. Todas as semanas. Eu tenho karaté todas as semanas.

quarta-feira, janeiro 02, 2019

Pesquisar Jesus na Internet

Num dos encontros de catequese dos mais pequenitos, diante de um powerpoint que a catequista apresentava, esta foi confrontada por um deles, uma menina de olhos bem azuis, vivos e irrequietos. Ó catequista, tu pesquisas Jesus na internet? A catequista não foi tão rápida como um colega seu, outro petiz esperto. Olha que Jesus não se pesquisa na internet. E um outro, cheio de simplicidade, acrescentou. Jesus pesquisa-se no coração. É aí que o podemos encontrar. 
A catequista estava atónita. Não tivera sequer tempo de elaborar uma resposta tão sábia. Contou-me, com os olhos embaciados, que esta conversa a marcara. As crianças tinham-na deixado profundamente emocionada pelo modo como vão acolhendo a Palavra e como Jesus se faz sentir no fundo dos seus pequenitos corações. No fim das contas, tão pequenos quanto grandes, tão simples como sábios, tão ingénuos como autênticos.

quarta-feira, dezembro 05, 2018

A catequese serve para fazer pessoas boas?

É uma boa catequista. É interessada. Não se conforma com uma catequese doutrinal, escolar, com base no ensino e aprovação de conhecimentos e verdades. Mas há dias, no meio de uma reunião de catequistas, deu a entender que o objectivo da catequese, pelo menos como ela a via, era formar pessoas boas. A discussão que se gerou deu-me azo a clarificar que não basta formar pessoas boas na catequese. É necessário formar pessoas boas por causa de Cristo, ou melhor, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Crescer na fé não é apenas crescer na bondade. Esse pode ser um dos efeitos da fé. Mas a fé é mais que isso. Basta recordar que um muçulmano pode ser uma pessoa bondosa. Um ateu pode ser uma pessoa bondosa. O que a catequese deve fazer é iniciar, formar e ajudar as pessoas a chegar á maturidade da fé, por Cristo, com Cristo e em Cristo.

terça-feira, outubro 30, 2018

Desenhar a humanidade de Jesus

A catequista estava num encontro de catequese quando, no momento de realizar as actividades manuais, a pequenita Carolina a abordou explicando o que ia desenhar. Olha, catequista, eu vou desenhar a humanidade de Jesus. A catequista ficou admirada, pois não era comum uma criança ter um desejo deste género, mas aprovou o seu desejo e ficou expectante com os resultados do ansiado desenho. Não tardou muito para que a Carolina lhe mostrasse uma folha, ainda que pouco colorida, com um Jesus ligeiramente diferente. Olha, catequista, levei Jesus ao cabeleireiro, para aparar a barba e cortar um bocadinho o cabelo. Gostas? Achas que ficou bem? A catequista escondeu o sorriso e, mais uma vez, aprovou a ideia. Sim, Carolina, ficou muito bem. Foi uma boa ideia levares Jesus ao cabeleireiro. Ele ficou muito bonito, contente e agradece-te de coração. No teu próprio coração. Só falta dares uma pinturinha, uma cor aqui e outra acolá, para Jesus ficar ainda mais bonito. Ela assim fez e ficou a espirrar felicidade! Para quem não sabe, é assim que se pinta a humanidade de Jesus.

sexta-feira, setembro 28, 2018

O que é fazer tudo

Está mais que provado que hoje as pessoas pouco querem com Deus, com a Igreja, com os padres ou com a fé. Contudo, persistem em querer realizar as festas do baptismo, primeira comunhão e Crisma. Sobretudo estas. Dizem que, tendo-as feito, fizeram “tudo”, como se esse tudo fosse a garantia de serem cristãos. Segundo estes, quem vai à missa são as beatas. E quando algum jovem vai à missa, é apontado como anjinho, santinho ou parecido. Não está na moda ir à missa. A Catequese serve, na generalidade, para que se habilitem as crianças e jovens e fazer estas festas. É comum ouvir pais afirmarem que, porque eles fizeram tudo, também querem que os filhos façam tudo. O tal “tudo”. É comum que, embora honestamente, alguns dos catequisandos respondam que o objectivo deles ao participar na Catequese, é poder fazer o Crisma. Depois dele, como se sabe, já não querem nada com Deus, ser do qual foram questionando a existência, mas não o expressaram para evitar não fazer o Crisma. Depois vêm os funerais e as festas populares, acções que manifestam, de forma clara, que a Igreja tem servido, quase exclusivamente, para cumprir sacramentos, sacramentais e festas religiosas populares. E a nós, padres, pedem-nos que sejamos funcionários destas coisas todas. Aquele tipo de empregado que deve estar ali no território que chamamos paróquia, para quando se precisa de alguma destas coisas. Nem formação, nem evangelização, nem entusiasmos, nem dinamismos ou estratégias, têm conseguido inverter a situação. Bem reflectem os peritos pastorais, mas a coisa teima em ser difícil. No meio disto tudo, valha-nos ao menos que, graças a Deus, ainda vai havendo quem não desista de Deus ou da Igreja e precise verdadeiramente da missão dos padres. Ainda assim, como podem resistir as vocações sacerdotais ou como podem surgir vocações ao sacerdócio?

quinta-feira, abril 26, 2018

Os coelhinhos da catequese

Num dia destes, qual não é o meu espanto quando, à saída do centro pastoral, umas crianças dos primeiros anos de catequese traziam em suas mãos uns desenhos, bonitos por sinal, com uns coelhinhos de Páscoa. Em tons de brincadeira, perguntei se os tinham feito na escola e responderam prontamente que os haviam elaborado na catequese com a catequista. 
É verdade que, segundo dizem, o coelho sempre foi visto como símbolo da fertilidade, os judeus assumiram-no como um símbolo e a cultura popular foi-o adoptando como um símbolo da ressurreição. Li em tempos que eles deveriam ter sido, de tão madrugadores, as primeiras testemunhas do maior milagre da história. De modo similar, fala-se dos ovos da Páscoa como símbolo de algo que parece não ter vida, mas que origina vida, e assim se pode considerar símbolo de Cristo que rompe a pedra do sepulcro. Contudo, nenhum destes argumentos me convencem. Não será antes a expressão de um comércio que usa e abusa do tempo pascal, tal como o Pai Natal é apanágio do mesmo interesse por alturas do Natal? 
Ainda não conversei como deve ser com a catequista. Já lhe disse da minha admiração. Não creio sequer que ela tenha mandado fazer o desenho sem boa intenção. Talvez ela tenho uma muito boa justificação para a sua opção. Também não a julgo, porque a continuo a considerar muito boa catequista. Mas estas coisas metem-se comigo, porque me parece que a Ressurreição de Cristo está muito para além de qualquer um destes potenciais símbolos.

segunda-feira, maio 29, 2017

Fazer catequese para se crismar

A senhora mãe daquele adolescente que já está no 8º ano da catequese soube pela catequista que o seu filho querido, porque ainda por cima é o mais novo, tem faltado a algumas sessões de catequese. Não sabia, disse. Por isso pediu desculpas à catequista. Contudo, talvez para amenizar a situação, para a desvalorizar, para não sentir o peso de uma certa culpa, ou porque simplesmente foi o que sentiu de verdade, lá foi acrescentando. Também são tantos anos de catequese! Acaba por cansar tanto tempo de catequese para fazer o crisma. 
A catequista respondeu que ninguém era obrigado ou deveria sentir-se obrigado a andar na catequese. Mas a mãe quer muito que o menino faça o crisma. Talvez o menino nem queira. Mas quer a mãe.
Creio que, ao invocar a quantidade de anos de catequese, a mãe tem alguma razão. Dez anos de catequese quase dá direito a um doutoramento de doutrina da fé. O problema é que a catequese não é como a escola. Quando muito é a escola do amor e da fé. E acerca destas coisas, nunca se sabe tudo. 
Ela também pode ter alguma razão ao invocar que é muito tempo para se fazer o crisma. Ou outros sacramentos. O problema é que a catequese não serve para se fazerem sacramentos. Quase como se fosse uma moeda de troca. Tanto a catequese como os sacramentos servem ou deveriam servir a fé. A catequese para a aprofundar, e os sacramentos para a alimentar. 
Não estará na hora de repensarmos este tipo de catequese preocupada com a doutrina e com os sacramentos?

terça-feira, março 28, 2017

A minha mãe não me leva

Andava no quarto ano da Catequese. Viera ter comigo para se confessar, a mando da sua mãe, por causa da festa da Catequese em que vai participar, com o seu grupo, na próxima semana. Trazia as mãos nos bolsos e, como lhe disse que ficava mais bonita se as tirasse de lá, colocou-as uma na outra, com os dedos a entrelaçarem-se e a estalarem ao mesmo tempo. 
Pela reação pareceu-me que estava com algum receio de confessar-se. Ou do que ia confessar. Por isso, ainda antes de darmos início ao sacramento da confissão, perguntei-lhe se estava com medo. Não respondeu, mas fez uma cara de quem não sabia o que dizer porque tinha receio do que pudesse dizer. Eu sei que, na verdade, não se voltara a confessar desde a Primeira Comunhão. Sei que não costumava ir à Eucaristia. Sei que quase tudo lhe parecia meio estranho. Estar ali porque a mãe lhe dissera para estar. A mesma mãe que não a levava à Eucaristia. 
Como me apercebera disso, e porque, infelizmente, não é caso único, perguntei-lhe se era por nunca mais ter ido à missa que estava assim. E aquela criança, afastando os dedos e as mãos, baixou ainda mais os olhos e disse. A minha mão não me leva.

sábado, agosto 27, 2016

O padre não é bom da cabeça

O senhor estava ao telefone a convidar um amigo para a festa do seu filho que ia fazer a primeira comunhão no dia tal. Eu estava numa mesa ao lado à espera que me entregassem o carro após a mudança do vidro que se partira vá-se lá saber como. O senhor esperava também o seu carro por motivo idêntico, quando, para ocupar o tempo, efectuou a chamada que ouvi como se fosse para mim. O que ele não sabia é que eu era padre e que o padre a que se havia de referir o conhecia bastante bem. 
O padre não é bom da cabeça, dizia. Olha que ele exige três anos para fazer a primeira comunhão. São de facto três os anos estipulados pela Conferência episcopal portuguesa e pelo itinerário da Catequese. Para mostrar ainda mais a força da decisão que tomara, queixava-se que o padre, que não é bom da cabeça, dizia que com mais de três faltas o miúdo seria retido na catequese. Onde já se viu! Exclamava. 
O padre é doido por exigir estas coisas. E depois encontrou uma catequista ali ao lado, pareceu-me que numa paróquia bem ao lado, que aceitou o miúdo para fazer a primeira comunhão, e em dois meses vai conseguir fazer catequese de três anos. Grande catequista. E ainda diz o senhor que o filho, afinal, até gosta daquilo, e já sabe tudo. Como se fosse uma questão de saber. 
Estava o filho contente e o pai mais que contente, porque afinal o seu filho querido ia fazer uma festa linda. Aquela festa que provavelmente irá fazer poucas vezes na vida. Porque comungar deveria ser sempre uma festa. E vai ter casa cheia com almoço bem melhorado. 
Tal pai, tal catequista, que nunca devem ter ouvido a Jesus dizer que se o quisessem seguir, até teriam de deixar pai e mãe!

sexta-feira, agosto 12, 2016

As famílias que não rezam

Numa reunião de pais de meninos que iam fazer a festa da Oração do Pai Nosso, estivemos a reflectir sobre o valor e importância da oração. Começámos por fazer um pequeno inquérito anónimo sobre aqueles que tinham por hábito rezar com os filhos em casa, fosse muito ou pouco. Constatou-se, no final do escrutínio, que mais de 50% não rezavam praticamente nada, e uns 20% rezavam muito pouco. Foram honestos os pais daqueles meninos, e chegámos juntos à conclusão de que a oração está ausente nas famílias de hoje, mesmo as famílias que se dizem cristãs ou que têm filhos na catequese. Alguns concluíram que tinham de alterar a percentagem. Outros, não sei. O que sei é que, como imaginava, as famílias dedicam muito pouco tempo das suas vidas a falar com Deus.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

uma mãe a falar da fé

Foi-me dito por uma mãe de uma idade próxima aos quarenta, após um encontro com os pais daqueles que vão fazer a festa da vida e durante o qual se falou abertamente sobre questões de vida e de fé. Reproduzo-o porque me deslumbrou o que me contou. Não vou conseguir usar tão bem das palavras que ela usou. Mas foi mais ou menos assim. Senhor padre, eu queria tanto, mas tanto, que os meus filhos percebessem em mim a importância de ter fé, que às vezes até exagero. Procuro testemunhá-lo com a vida, mas ainda assim eles não conseguem perceber-me, e fico triste. Porém não desisto. Compreendo que não lhes posso impor nada e que eles estão numa fase complicada. O mais velho tem quinze anos. Vem de uma hora de catequese e diz que não aprendeu nada ou que não se lembra. Que não entende porque tem de ir à catequese. E há uns dias tiveram um grande diálogo em casa sobre estes assuntos. E que lhe disse: meu filho, enquanto tu tiveres tudo para te sentires satisfeito e preenchido, é óptimo. Mas quando deixares de o ter, também podes continuar a sentir-te satisfeito e preenchido. É isso que a fé faz. Por isso ela é tão importante.
Fiquei de boca à banda com o que ela falou ao filho. É mesmo isso que faz a fé. E para atestá-lo estão milhares de homens e mulheres que, embora ficando sem nada, envelhecendo, perdendo as capacidades e as forças da vida, continuam com uma vida cheia, preenchida e satisfeita, porque a fé lhes dá o que as outras coisas já não conseguem dar. Claro que a fé não é supletiva. Ela não substitui. Preenche. Preenche a vida.

quarta-feira, maio 28, 2014

Os Migueis e as Saras das nossas catequeses e paróquias

O Miguel anda no sétimo ano e também anda na catequese. Há dias a catequista convidou o seu grupo a participar na Eucaristia após a catequese. Os miúdos já estavam no corredor quando o Miguel disse Eu não vou. Era o que me faltava. Só se me obrigarem. Eu ia a passar, ouvi e meti conversa, perguntando-lhe porque é que não queria ir à missa, ao que me respondeu. Eu vou, senhor padre, senão a catequista pode marcar-me falta. Sorriu com ar de malandro. Eu também fiz o mesmo sorriso. Anda. E foi, mas foi como foi.
A Sara anda no sexto ano e também anda na catequese. Em conversa confidenciou-me que gostava muito de ir à missa, mas que a mãe não queria e quase não a deixava ir. Ela insistia, pedia, mas a mãe tinha mais que fazer. Fez um olhar triste. Eu também fiz o mesmo olhar, mas mais compreensivo que acusador.
Há muitos Migueis e Saras nas nossas catequeses e nas nossas paróquias. E questiono-me que adianta termos catequeses assim, termos paróquias com cristãos assim. E questiono-me se a catequese serve ou não para levar as pessoas à fé. E questiono-me se devemos andar a alimentar paróquias assim. E questiono-me o que Deus se questionará. E mais não quero questionar, porque senão deixo de ser eu para ser a questão.