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segunda-feira, agosto 10, 2020

Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

O que me impede de ter um olhar misericordioso por mim próprio, quando o próprio Deus me ama como eu sou? Não que isso justifique as minhas opções erradas. Os pecados. Os erros. As costas voltadas. As queixas desmedidas. Mas é verdade que Deus me ama muito mais do que eu me amo. Deus ama-me, não por eu ser bom, que não sou, mas porque Ele é bom. Deus ama cada um de nós, não por sermos bons, mas porque Ele é bom. Ele ama-me como eu sou e não como eu gostaria de ser. Isto parece redutor, e parece que põe tudo em Deus. O Centro. E, ao mesmo tempo, retira toda a nossa responsabilidade. Não é verdade. Nós somos responsáveis. Mas o centro é mesmo Ele. Por isso Jesus falava em perdoar setenta vezes sete vezes, que é o mesmo que pronunciar o número infinitamente. Porque quem ama, não ama com medidas. Ama com esse número que é muito mais que setenta vezes sete vezes. O número que não cabe na numeração, tal como a conhecemos. Por isso ama e perdoa. Porque só sabe amar quem souber perdoar. Só ama de verdade quem consegue aceitar a diferença que o outro é. A diferença que, no outro, pode até ser, dor. Por isso deu a vida por todos. Não deu a vida só por alguns. Deus a vida por bons e maus, por justos e injustos, por judeus e gregos, por escravos e homens livres. Por mim. Por ti. Por todos nós. E nunca é demais repetir isto. Deus ama-nos, não porque sejamos bons, mas porque Ele é bom.

A PROPÓSITO OU A DESPOPÓSITO: "A estatura do verdadeiro amor"

sábado, junho 20, 2020

A Igreja do relacional

O artigo era duro de ler. Tentei diminuir-lhe o tamanho no coração. Falava de alguns padres que, por desespero, tinham perdido a força de viver. Dava exemplos concretos, usava nomes concretos, tratava números e dados concretos. Dizia que a vida religiosa não dava superpoderes aos padres e que em muitos casos a fé não era forte o suficiente para superar momentos difíceis. Excesso de trabalho, falta de lazer, perda de motivação. O grau de exigência enorme. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade. Qualquer deslize, por menor, que seja, torna-se alvo da multidão que vive para apontar dez dedos aos outros. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes, pelos visto, têm de estar sempre prontos e com sorrisos rasgados. 
Os padres não deviam estar sozinhos. Pelo menos não deviam fazer a vida sozinhos. O comum das pessoas tem, habitualmente, o lado da vida mais profissional e o lado mais relacional. Quando um comum cristão chega a casa do seu emprego, desliga o interruptor do emprego e liga o interruptor do relacional mais próximo. Nós, padres, chegamos a casa, e mantemos o interruptor do profissional sem relacional. Somos profissionais do sagrado sem segundos para o não ser. Falta-nos sermos ou sentirmo-nos comuns cristãos. Não me parece que baste o alimento espiritual dos padres. Na minha modesta opinião, é necessário reorganizarmo-nos como Igreja. Enquanto a vida das comunidades se centrar nos padres, eles não serão apenas mais um membro da comunidade, ainda que com grandes responsabilidades. Serão sempre o foco da comunidade. O alvo. Por isso as pessoas quando falam da comunidade falam dele, pensam nele, apontam para ele. Por isso gosto pouco desta Igreja que deposita no clero a essência do caminho da fé, mesmo que seja feito em comunidade. E sonho com uma Igreja que abraça todos em caminho. Uma verdadeira comunidade onde o relacional esteja acima do doutrinal, do funcional, e até do sacramental. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o 'tem de'"

quinta-feira, maio 28, 2020

Agora só vão as beatas

Como referia Rino Fisichella há uns dias, a fé precisa dos sentidos. O homem é feito para o relacionamento e isto é ainda mais verdadeiro para a dimensão da fé cristã. Obviamente que vivemos uma época adversa a esta realidade e somos obrigados a viver confinados e a guardar distâncias. Contudo, a distância não pode ser o futuro da existência pessoal ou da fé. 
Falo destas coisas porque ouvi dois paroquianos que me fizeram pensar. Falaram comigo em horas e contextos diferentes e disseram-me quase o mesmo, também de maneira diferente, perante o retomar previsto das celebrações comunitárias. O primeiro, homem, com alguma formação, humana e cristã, depois de ter lido as muitas orientações e regras a cuidar, disse que era melhor ficar em casa e assistir à missa da televisão. O segundo paroquiano era uma mulher, talvez com menos formação, mas pessoa de missa dominical. Em amena cavaqueira foi dizendo que agora quem ia à missa eram só as beatas. E que ela não ia, pois preferia ver a missa em casa. 
Claro que entendo a reação própria do receio. Eu também tenho os meus receios. Mas ouvir estas coisas ditas com tanta naturalidade e facilidade, só veio reforçar a ideia que tenho vindo a ter de que tanta multiplicação de missas nos meios de comunicação social e virtual pode ter confundido as pessoas. Numa sociedade que já privilegiava, por si mesma, o individualismo, pode ter-se reforçado a ideia de que a nossa fé pode ser uma coisa privada, sem comunidade, uma vivência privada, sem relacção.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As missas ou missinhas"

quarta-feira, maio 13, 2020

A Igreja que faz o mesmo de sempre

Temos continuado, nestes tempos de pandemia, a fabricar uma Igreja centrada no padre, ou seja, clerical, e nos sacramentos, nomeadamente a missa, ou seja, sacramentalizadora. Com tudo o que isso tem de bom e de preocupante. Chegamos a transformar o meio num fim. Abusamos um pouco multiplicando celebrações e sinais de que, com boas intenções, conseguimos transformar o invisível e escondido das nossas igrejas fechadas, vazias e silenciadas, num certo produto de consumo e num certo proselitismo, ainda que inconsciente. O objectivo parece passar por mantermos as gentes e os crentes connosco. Com a Igreja dos padres. E nós funcionamos, mesmo sem querer, como funcionários de uma Igreja aparentemente aberta, mas realmente fechada. Ou seja, uma Igreja com cheiro a mofo, porque fechada, e em ruínas, porque não tem crentes. 
É o problema de sempre na Igreja dos últimos tempos, aquele para o qual o Papa Francisco tanto tem alertado. É o problema de uma Igreja em constante manutenção. Conservando-se. Fazendo o mesmo de sempre, embora com novos meios.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O papa e os padres"

quarta-feira, maio 06, 2020

As igrejas vazias e fechadas

Sabemos que em todo o mundo, nestes tempos de crise, as igrejas estão vazias e fechadas. Podemos imaginá-las. Cheias de pó. Com cheiro a mofo das chuvas e do calor que se começa a sentir. A precisar de arejar. Sair das quatro paredes em que se seguram. Não é nada que não tivéssemos já imaginado. O vírus veio só apressar a imaginação. Aliás, em alguns países, isso já foi ocorrendo. Igrejas, seminários, mosteiros, casas paroquiais a esvaziarem-se. A perderem o nome. A silenciarem-se. 
Li há dias em Tomáš Halík que, quando a Igreja medieval fez um uso excessivo de proibições e sanções, levando a máquina eclesial a uma espécie de “greve geral”, sem celebrações e sacramentos, as pessoas começaram a procurar mais a relação pessoal com Deus, uma “fé nua”. Teve ali, de certo modo, o nascimento da mística espanhola, a quem muito devemos hoje na mística e na contemplação. 
Talvez tenhamos agora a oportunidade de encher as nossas igrejas vazias com as portas abertas a um modo de estar mais verdadeiro, mais interior. Mais silencioso e, ao mesmo tempo, mais vivo e verdadeiro. Talvez tenhamos agora a oportunidade de ir ao centro do Evangelho, fazer uma viagem ao interior da nossa fé despida, e revisitar a Igreja que está em todo o lado e é muito humana e doméstica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Deus não quer a nossa religiosidade"

sexta-feira, maio 01, 2020

A Igreja que está aí

A pandemia do coronavírus fez com que as celebrações religiosas passassem a ser recebidas através dos meios de comunicação social e virtual. A Igreja passou a viver e a expressar-se nestes meios. Mas esta não é a Igreja. Esta é a Igreja de uma situação difícil. A Igreja, por si mesma é uma comunidade real. É o Povo de Deus que caminha no acto da fé e do seu amadurecimento, no acto da caridade e do testemunho, no acto da Palavra e dos sacramentos. 
É verdade que a Igreja vive à volta dos sacramentos, e especialmente do sacramento da eucaristia, fonte e cume da vida cristã. Mas não depende exclusivamente deles. Ela depende do Senhor Deus. Por isso também pode viver sem eles. Não pode é banalizá-los ou dar a ideia - demasiado clerical, por sinal – que, sem eles, não há forma de se alimentar, celebrar e viver a fé. Se já antes muitos dos nossos sacramentos perdiam alguma autenticidade, porque ausentes de fé, agora esse risco aumentou. Tanto que o Papa Francisco, na homilia da Missa na Casa Santa Marta de 17 de abril, sublinhou este risco de viver a comunhão eclesial apenas de modo virtual. 
Os sacramentos valem por si, mesmo à distância. Há uma certa presença, embora virtual, através destes meios de comunicação social e virtual. Não são falsos, mas também não são a realidade, mesmo que a reproduzam muito bem. 
Talvez a pastoral das nossas comunidades, nestes tempos de contingência, se tenha vindo a centrar em demasia na celebração eucarística, absorvendo muitas das nossas energias, salientando o quantitativo, em detrimento do serviço da Palavra, da formação e, nalguns casos, da caridade. Talvez seja um hábito que vem de trás. E talvez seja este o salto que a Igreja que está para vir deveria fazer. O salto de uma Igreja sacramentalizadora para uma Igreja missionária, de uma Igreja eclesiocêntrica para uma Igreja cristocêntrica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Gostava de fechar a minha Igreja.

segunda-feira, abril 27, 2020

A Igreja que está para vir

Há um abalo em tudo à nossa volta. Mesmo na Igreja. Tanto no seu todo como na sua hierarquia. Faço figas, porém, para que seja um abalo positivo. Rezo todos os dias com essa intenção. E há, de facto, algo positivo que tenho vindo a descobrir. Cresce pouco a pouco, mas cresce. É a "Igreja doméstica"! A Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. Uma Igreja que se reunia em casa e onde as celebrações eram presididas pelo dono do lar. 
O problema é que, ao longo dos tempos, o clero foi-se apoderando ou apropriando da Igreja e dos sacramentos, mesmo que o tenha feito sem intenção, transformando a Igreja de Cristo numa Igreja piramidal, vertical, clerical. E habituou os crentes a esse modelo. Um modelo de Igreja dependente dos bispos e dos seus padres. Por isso, talvez muitos crentes tenham perdido o foco e se tenham sentido algo desamparados nestes tempos de difícil acesso aos seus padres. Pelo menos o acesso presencial. 
É claro que precisamos de uma “ordem”, como dizia Anselmo Borges numa entrevista que me fez pensar. Por isso precisamos de ministros ordenados. Precisamos de “organizar”. Mas não podemos fazer depender deles a Igreja que é de Cristo e de todos.
Será que a Igreja que está para vir vai ser mais laical e menos clerical?! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"

segunda-feira, abril 20, 2020

uma Igreja virtual

Este vírus está, com a nossa cumplicidade, a transformar-nos em seres virtuais. Pouco a pouco, vamos passando da vida ao vivo, em tempo real, para uma forma de vida indirecta, mediada pela internet, sobretudo as redes sociais. Trabalhamos, conversamos, beijamo-nos e abraçamo-nos virtualmente. 
E começamos a viver a fé de igual modo. Estamos também a transformar-nos numa Igreja virtual. Uma Igreja que propõe e consome virtualmente, com voracidade, centenas de propostas, numa degustação espiritual, em menu a la carte. Uma Igreja que consome likes, emojis e améns. Uma Igreja de entra e sai. Portanto, efémera e provisória. Uma Igreja que não agarra e não compromete. Uma Igreja mais passiva que activa, mais espectadora que participante, mais admiradora que vivente. 
Esta transformação, como é óbvio, tem coisas boas. Mas inquieta. Ou devia inquietar. É verdade que tudo é graça e dom de Deus. É verdade que esta é também uma parte da igreja possível destes tempos. E é só uma parte. Contudo, não sei como será quando regressarmos à vida real. É que o virtual tem esta coisa de nos aproximar e nos afastar ao mesmo tempo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É possível fazer igreja sem sacramentos?"

sexta-feira, março 20, 2020

a nossa parte

Dizem-me que algumas pessoas ficaram indignadas por não terem missa estes dias. Dizem-me que algumas já tinham ficado indignadas com a Igreja quando se lhes sugeriu que não comungassem, por uma questão higiénica, na boca, alegando que se a hóstia consagrada era o Senhor, nada deveríamos temer. Recebi um correio electrónico com uma carta de um suposto colega alertando para o perigo de não celebrarmos missas com as pessoas. Tive oportunidade de ver uns vídeos de umas missas onde, em Espanha, um determinado bispo dava comunhão na boca, exclusivamente, sem medidas de higiene. Algo similar de um padre que percorrera as ruas com o Santíssimo a bater à porta para que as pessoas fossem à missa. 
Respeito que pensem diferente de mim e que, supostamente, confiem em Deus ao ponto de depositar n’Ele toda a acção. No entanto, estas atitudes ou reacções fazem-me lembrar os estudantes que rezam insistentemente para obterem ajuda nos exames, até acendem uma velinha a Nossa Senhora, mas depois não estudam ou não estudam o suficiente! 
Deus faz muito. Deus até pode fazer tudo. Mas também quer que nós façamos a nossa parte!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha Igreja do futuro"

domingo, dezembro 29, 2019

Este é o tempo da desgraça ou da graça?

Sem querer, juntáramo-nos, na mesma mesa, e começámos a falar sobre a Igreja dos nossos tempos, uma Igreja que está sendo questionada no mais fundo da sua vocação, identidade e missão, ou seja, para o que ela existe como mandato deixado por Cristo, segundo o evangelho de S. Marcos: “Ide por todo o mundo, e anunciai a Boa Nova a toda a criatura”. Era um leigo comprometido, interessado, reflexivo. O que afirmava, afirmava-o porque já tinha pensado nisso. Porque já se tinha perguntado, muitas vezes, tal como eu, sobre a Igreja dos nossos tempos. E a determinada altura disse. Vivemos em tempos de desgraça. Na verdade, eu também já tirara a mesma conclusão. Também eu tivera este tipo de pensamento. Não me conformo muito, como já manifestei, com a forma de ser da Igreja hoje. Mas, aos poucos, no meio do nosso diálogo, comecei a pensar que, afinal este tempo, pode ser, muito bem, um tempo de graça. Já ultrapassámos aquela fase, aquele tempo da Igreja em que, aqui no Ocidente, quase se nascia cristão. Já lá vai o tempo em que não questionávamos a nossa fé. Não questionávamos o que o Magistério da Igreja dizia. Não nos interessava se o padre era assim ou assado. Aceitávamos tudo como se essa forma de aceitar fosse um dado adquirido. No meio de tantas crises, que alguns chamam crises de Deus, da Igreja, da Fé e da própria sociedade, deparamo-nos, afinal, com a oportunidade de ir ao centro da questão. A oportunidade de nos recentrarmos no essencial. A oportunidade de reencontrarmos a verdadeira Igreja de Cristo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A irmã Graça"

Desejo a todos os meus amigos e visitantes um ano de 2020 cheio de Deus!

sexta-feira, novembro 08, 2019

Um cisma de poder

Há dias ouvi dizer que Francisco, o nosso papa, não temia um cisma. Muitos, sobretudo uma determinada comunicação social, acharam que estava aí um cisma na calha e que o papa já andava preocupado com ele. 
De modo algum um cisma, como divisão que é, pode ser algo bom. Mas também das coisas más, às vezes, é possível retirar coisas boas. Como diz o ditado ‘há males que vêm por bem’. É que, por detrás das disputas teológicas dos cismas que a história conta, sempre se esconderam questões de poder. Creio plausível afirmar que a maior parte das divisões no seio da Igreja se deveram a questões de poder. As questões religiosas eram apenas pretextos. 
Quem sabe se aquele grupo que tem atacado o Papa Francisco e que, embora faça muito ruído e seja poderoso economicamente, é bem mais pequeno do que o que parece, depois destas disputas de poder, não faz com que a Igreja no geral, sobretudo a Igreja Povo de Deus como um todo, valorize ainda mais esta forma de ser Igreja menos autorreferencial e eclesiocêntrica, típicas da neo-cristandade!

segunda-feira, novembro 04, 2019

Ser santo é caminhar na santidade

A propósito do dia de todos os santos e do halloween, um jovem disse-me que gostava mais do halloween porque, ao menos, divertia-se. Com o dia de todos os santos, nem sabia o que fazia. Aliás, o que era ser santo? Como se torna uma pessoa santa? Dizia-me que as estátuas dos santos nas igrejas eram, para ele, apenas arte sacra. Na verdade, o João, chamemos-lhe assim, não fazia parte do grupo dos que, em vésperas do feriado de Todos os Santos, andara pelas ruas a fazer estragos, vestido de bruxa ou de monstro. Apenas se questionava sobre as coisas. Também tinha pouca fé. Sei lá. Tinha assim uma curiosidade por Deus e pelo sacro. Entendia que a vida deveria ter algo mais por detrás. Mas não sabia de que se tratava. Contudo, havia coisas na Igreja que o afastavam. E uma delas era esta coisa da santidade. Porque não lhe parecia coisa para ele. Era mais para anjos e certinhos. 
O João tem razão. Nós, os que temos alguma responsabilidade na Igreja, apresentamos quase tudo de uma forma muito dogmática. Uma forma que não é fácil de entender nem de levar à vida. Depois, fazemos da santidade algo de extraordinário, fruto de uma condição superior ou um heroísmo. Mesmo sem querer, damos exemplos de santos como se fossem eleitos, sem fragilidades e defeitos. Damos exemplos de vidas de santos como se fossem vidas perfeitas. Assim é impossível perceber que a santidade seja a forma de se ser verdadeiramente cristão. Confundimos e levamos outros a confundir a santidade com a perfeição. Um santo é apenas aquele que procura a felicidade em Deus, que busca o sentido da vida no Bem Maior, que procura configurar-se, tanto quanto possível, a Cristo e ao seu Evangelho. Um santo é um buscador constante de Deus. Um santo é apenas aquele que caminha na santidade.

segunda-feira, outubro 28, 2019

Os ultras

O substantivo ou adjectivo, como lhe quiserem chamar, não é da minha autoria. Chamam-se ultras àquelas pessoas que, por algum motivo e em determinado aspecto, são extremistas ou radicais. Ouso chamar ultras àqueles católicos de uma ala extremamente conservadora e que têm atacado veementemente o Papa Francisco e grande parte das suas opções, posturas, discursos e documentos, indiciando que estão contra a doutrina e contra a Igreja. 
Os ultras são, na sua maioria, gente que gosta de se pensar como uma elite. Cardeais, ou parecidos, que adoram longas caudas e longas vénias, vestes bordadas e de marca, autênticos príncipes e princesas da Igreja instituição. Padres e quase padres, ou leigos que parecem mais que padres, e citam de cor o catecismo, Tomás de Aquino, documentos e papas de séculos passados. Os argumentos são quase sempre citações ou passagens da história caducada. Também citam a Bíblia, como arma de arremesso, porque a Bíblia diz assim e assado. Porém, apenas utilizam passagens e versículos que justificam, literalmente, as suas investidas. Parece gente formada. Mas é mais enformada que formada. Mais manipulada que formada. Aliás, utiliza muito esse estratagema da manipulação. E segue líderes interesseiros que não estão dispostos a perder o seu status quo. Gente que se acha dona do Espírito Santo e sabe a vontade de Deus, em primeira mão. 
Arrogam-se o direito de atacar quem quer que tenha opinião diferente da sua ou que ponha em causa a pretensa doutrina ou as normas morais. Nem que seja o Sumo Pontífice. Ou seja, o responsável máximo da mesma Igreja que tanto defendem. São integristas, donos da verdade, e veem inimigos em tudo e em todos. Porque todos os outros são impuros. Não fazem parte do grupo dos puros. Vade retro. 
São católicos que estagnaram numa fase da história da Igreja que já lá vai, mas que querem ressuscitar. Na esperança de que haja uma nova ressurreição. Não a de Jesus. Mas a da Igreja que desfaleceu. Gente que não quer ver os sinais dos tempos e se sente ofendida que alguém o faça. Gente que se acha a mais católica do mundo e que faz juras de fidelidade à mãe Igreja. Na sua boca, fica-se, muitas vezes com a sensação de que é Deus que serve a Igreja e não a Igreja a Deus. 
Gente que me faz lembrar os fariseus hipócritas do tempo de Jesus que viviam para cumprir coisas, rituais, preceitos, sem que isso interferisse realmente no mais íntimo das suas vidas, o coração. Conjunto de gentes que gostam de se chamar comunidades, embora sejam mais guetos fechados sobre si mesmos, que vivem mais para manter as crenças dogmáticas do que a simplicidade da fé e do amor salvador e misericordioso de Deus. Gente que é capaz de adorar a Deus, mas não tenho a certeza de que O amem.

quarta-feira, agosto 14, 2019

O padre retrógrado

Um colega padre que não conheço e que mora distante, porque eu pedira aos pais que desejavam baptizar seu filho que pedissem uns documentos e que fizessem uma preparação específica para esse efeito, mesmo que fosse na paróquia onde residem, afirmou que eu deveria ser um padre retrógrado. Disse-o com displicência, segundo me pareceu, quando os pais fizeram essa alusão. Dissera-o, pelos vistos, para manifestar que hoje já não é preciso nada para baptizar. Soube mais tarde que, para este padre, bastava os pais marcarem a data e a hora. Nada mais era necessário. E na hora preenchiam os registos do baptismo no livro de registos paroquial. 
Ora se, por não ser facilitista, sou retrógado, então prefiro ser retrógrado. 
Assim vamos nesta instituição demasiado ou excessivamente sacramentalizadora, sem mais. Desculpem a quase redundância, que é de propósito. Vou agora pedir perdão a Deus pelos pensamentos impróprios que alimentei na ocasião.

quinta-feira, agosto 08, 2019

A falta que fazem os padres

Ó senhor padre, fazem-nos tanta falta os padres, dizia. Tenho andado a rezar para que haja muitos. E então para a experimentar, perguntei porque motivos é que os padres fazem tanta falta. Para nos celebrarem as missinhas. Não dá mesmo jeito quando temos celebração. E depois vinha fazer as festas todas e as procissões. Era tão bom tê-lo aqui à mão! É esta a falta que fazem os padres! 
E depois dizia há dias um colega mais velho que não se lembra de, nos últimos anos, algum dos seus paroquianos se ter abeirado dele para um conselho espiritual, para um desabafo, para uma dúvida ou questão de fé. Só se abeiravam dele por causa de marcações de coisas.

quarta-feira, junho 12, 2019

Ser leigo na Igreja

Ante a minha admiração já desconfiada, num encontro de gente com responsabilidades na comunidade cristã, os chamados habitualmente de “leigos comprometidos”, à pergunta sobre se sabiam o que era um leigo, as respostas não foram muito consistentes. Sabiam que eram leigos na Igreja e que isso os designava, pois já o tinham ouvido imensas vezes, mas não sabiam o que isso significava na essência. Houve mesmo quem respondesse com aquilo que refere, mais ou menos, o dicionário de língua portuguesa: o leigo é alguém que sabe pouco de um assunto. Não sabiam sequer, e por exemplo, que, na linguagem eclesiástica, o leigo é um não clérigo. Ou seja, faz parte daquela imensa maioria de cristãos que, muitas vezes, ainda permanece passiva na missão que Jesus deixou à sua Igreja como sacramento da salvação. Recordou-me, infelizmente, a postura piramidal da Igreja desde tempos da Idade Média ou desde, particularmente, o concílio Vaticano I. Que pena! 
Pode parecer que estou a entrar em águas pantanosas e que a teologia não é para aqui chamada. De modo algum. Escrevo como penso. E tenho muita pena que a maioria dos cristãos não saiba sequer o que significa a designação que lhe é atribuída por nós, os clérigos. Assim como me repugna, em certa medida, que ainda se pense o leigo no significado negativo, como um não clérigo. Como se o clérigo fosse o lado positivo, e o leigo o lado negativo da Igreja. Não gosto, e ponto final. Mas se podia queixar-me da hierarquia da Igreja, que mantém estas designações, mais me queixo desse número grande de cristãos, inclusive com vivência e prática cristãs - com se costuma dizer – que não tem a mínima noção do que é ser discípulo e missionário de Cristo, dentro de uma Igreja que é, acima de muitas coisas, Povo de Deus. Eu não quero leigos que substituam os padres e se tornem, eles próprios, uns padres em miniatura. Quero leigos com a grandeza e dignidade que lhes é conferida no baptismo e que se assumam plenamente como Igreja corresponsável.

terça-feira, maio 07, 2019

cristão, católico, religioso, clérigo, consagrado, leigo, fiel…

Termos como “cristão”, “católico”, “religioso”, “clérigo”, “consagrado”, “leigo”, “fiel” questionam-me. São eles que vêm até mim perguntar da sua existência, e eu careço de resposta para lhes dar. Não os entendo. Ou não entendo completamente o seu porquê e o seu para quê. Designam pessoas no âmbito da fé. Distinguem estados de vida, classes de fé, ou coisa do género. Como distinguem, também distanciam. O termo que entendo melhor na sua definição é “clérigo”. Porque faço parte do grupo. É mais ou menos o sujeito que faz parte da classe eclesiástica. Aquele que alcançou as ordens sacras. O cristão que exerce o sacerdócio. Foi assim que li algures. Mas também o entendo melhor na sua definição que na sua essência. 
Mas não gosto muito destes termos. Ou melhor, da sua utilização, sem mais. Todos eles me parecem palavras que servem a catalogação e gosto pouco da estratificação da fé. Mesmo sabendo que não há nenhum crente igual. Mesmo sabendo que existem funções, dons e carismas diferentes. Faz-me impressão cá dentro e pronto. Católico significa universal ou pessoa que professa o catolicismo. Religioso ou é alguém que tem ou vive intensamente a religião, ou é alguém que se consagrou de forma mais intensa a Deus. Mas acho que os outros também são ou deveriam ser, no mínimo, seres algo religiosos. O consagrado é quele que se consagrou a Deus. Mas não deveríamos todos os que temos fé de nos consagrar a Deus? O fiel é aquele que tem fé e a ela cuida a fidelidade. Digo eu. O leigo é aquele que não tem as ordens sacras, não é padre ou religioso. Mas também designa, ao menos na nossa língua portuguesa, aquele que não tem conhecimento sobre determinado assunto. Que expressa certa ignorância acerca de alguma coisa. Que é desconhecedor. É o termo mais complicado de entender. 
De todos estes termos, o que menor inquietação me causa é o termo “cristão”, porque designa quem segue a Cristo ou ao Cristianismo. Mas os outros parecem-me, de certo modo, o resultado de uma terminologia burocrática e institucional. Tão assim, que a maioria dos cristãos não os entende nem os usa e, quando questionados sobre eles, pouco sabem. 
O que vale é que, diante de Deus, somos quem somos e nada mais. Somos um tu para Deus. Bem personalizado. Pouco categorizado. Amado por quem somos e não pelo que nos designa, mesmo que seja na fé.

domingo, dezembro 02, 2018

O cristianismo virá de Cristiano Ronaldo?

A filha da senhora Alcina creio que não tem mais que uns quatro aninhos. É franzina, mas um poço de vida, como se costuma dizer. Está numa fase de perguntas e porquês. Está numa fase em que quer saber tudo o que não sabe. E a mãe, a senhora Alcina, sabe muitas coisas, mesmo em termos religiosos. É uma daquelas pessoas que teve uma boa formação cristã, e que não tem receio de falar da sua fé, da sua catolicidade, do seu cristianismo. Pelos vistos, a filha ouve com atenção as suas palavras sábias. E por isso, um dia destes, interrompeu a mãe no diálogo que esta fazia com uma amiga, para lhe perguntar se o cristianismo vinha do Cristiano Ronaldo. De certo que ele é bem capaz de, nos dias de hoje, ser mais conhecido que o próprio Cristo. Não há sequer uma criança, pelo menos em Portugal, que não conheça este ídolo das nossas gerações. Considerações sérias aparte, com esta história lembrei a piada que em tempos li, na língua castelhana, sobre os argentinos que, numa época conturbada e mais frágil do seu patriota, futebolista e mediático Messi, pediam ao Papa Francisco, argentino de gema, que “bautice a Messi para que se convierta en Cristiano”. Tradução quase literal de “baptize Messi para que se converta em cristão”.