quarta-feira, abril 26, 2017

As hóstias bentas

Ocorreu bem longe daqui, numa paróquia que um amigo assumiu há pouco tempo. Contou ele que numa ocasião, durante a comunhão, se apercebera que as hóstias não eram suficientes. Começou, por isso, a parti-las de modo que chegassem para todos os que estavam na fila da comunhão. Nisto uma das catequistas, ao ver a dificuldade do padre, e com muita solicitude, correu à sacristia e trouxe de lá uma píxide improvisada com hóstias por consagrar. Abeirou-se do padre e sussurrou-lhe ao ouvido. Benza-as que assim já chega para todos. 
A situação é caricata apenas para quem sabe que não é o mesmo uma hóstia consagrada que uma hóstia por consagrar, e que não é o mesmo uma consagração que uma bênção. Termos simples e básicos, digo eu, para quem possui a mínima formação de fé. Pelos vistos a solícita catequista, pese embora a sua genuína generosidade, não a tinha. Claro que ninguém é obrigado a saber tudo. E, como costumo dizer, não sou ninguém para julgar a fé dos outros. 
Porém o problema vai muito para além do facto da senhora catequista não saber estas coisas. O problema é que uns dias antes o tal padre convidara os catequistas para uma formação e a resposta que obteve foi um claro Não. Que não precisavam mais formação.

segunda-feira, abril 24, 2017

escadaria principal [poema 139]

Havia uma escada que subia e descia
carregada em penas e asas a amanhecer

As velas dispostas em letras se escreviam
As portas sem fechadura abriam
Por todos os lados os homens subiam

E a escada sorria, afinal eram seus.

sexta-feira, abril 21, 2017

Abandonar-me

Agora que estou aqui nas minhas meditações, acho curioso que Deus nunca me tenha abandonado. Mesmo nas ocasiões em que bati com a porta ou lhe virei costas porque já não aguentava a sua conversa. Sim. Sinto que nunca fui abandonado por Deus, ainda que às vezes não lhe tenha sentido a presença. Não porque Ele não estivesse lá, mas porque eu teimava em vê-lo como queria e a fazer-me as vontades como eu imaginava que necessitava. 
Agora que estou aqui nas minhas meditações, quero agradecer-te por teres uma forma de amar que ultrapassa todas as formas de amar que conheço, por estares sempre lá, naquele local que não sei dizer o nome, mas que é meu e muito mais teu.

domingo, abril 16, 2017

um martírio [poema 138]

Guardo o martírio em casa
Debaixo da cama
entre sapatos sem lama

Envelhece em lençóis de linho
Ali permanece
Ali morre sozinho

Neste dia tão especial, aproveito para desejar a todos os meus leitores e amigos uma Santa Páscoa!

sexta-feira, abril 14, 2017

Quando um coelhinho substitui Jesus

Que o coelhinho nos traga muito mais que simples ovos de chocolate. Que ele nos traga muita saúde, amor, felicidade, compreensão, carinho. Escrevo assim porque li mais ou menos assim. Não o escrevo para desdenhar da boa intenção da pessoa que escreveu cada uma das palavras. Creio que as escreveu sem a perspectiva com que eu as li. E agora reescrevo-as porque ficaram a tinir nos meus pensamentos. 
Se, no Natal, falar do Pai Natal é algo que me custa aceitar, falar ou desejar que um coelho nos traga aquilo que só Deus nos pode eventualmente dar, ainda me custa mais escutar. Se há cidades, como na vizinha Espanha, que tentam transformar a semana santa numa semana cultural, e isso me custa aceitar, mais me custa que Jesus seja substituído por um coelho, por mais bonito, enfeitado ou engraçado que possa parecer para as crianças. 
E é neste mundo e nesta história que Cristo mais uma vez se entrega por nós e manifesta o Seu tão grande Amor ao ponto de nos querer, tal como somos, mesmo quando o substituímos por um coelhinho.

quarta-feira, abril 12, 2017

ter uma fé pequenina

Creio que o comum dos cristãos gostaria de possuir uma grande fé. Dou conta, porém, que pessoalmente, cada dia e cada vez mais, tenho vontade em possuir uma fé pequena. Uma fé tão pequena que pudesse chamar-se, carinhosamente, de pequenina. Uma fé que, por ser pequenina, sempre tivesse vontade de crescer. Uma fé que fosse sempre caminho. Uma fé livre, que não se agarrasse a nada prévio e buscasse sempre em Deus. 
Creio que a fé das grandes certezas é a fé humana, essa fé que busca em si as respostas e não as busca em Deus. E eu não quero ter esse tipo de fé cheia de certezas e num patamar que não precise de crescer. 
Creio que a fé pequenina é a fé dos que não se fecham na certeza da sua fé…

domingo, abril 09, 2017

Acreditas na Ressurreição?

A sondagem que tínhamos online teve como resultado o que consta na foto em jpg. Em 2006, efectuámos a mesma sondagem  (AQUI) com os seguintes resultados: 
1º- Amor_ 47% 
2º- Pai_ 20% 
3º- Não tenho imagem_ 7% 
4º- Absoluto_ 6% 
5º- Todo-poderoso, e Refúgio_ 5% 
6º- Criador_ 5% 
7º- Juíz_ 3% 
8º- Salvador_ 1% 
9º- Bombeiro_ 0% 

Façam as comparações e digam o que pensam. 

Hoje iniciamos nova sondagem a propósito dos mistérios que se celebram neste período: Acreditas na Ressurreição?

sexta-feira, abril 07, 2017

luar [poema 137]

Faz ontem um dia que o céu caiu
E as nuvens voaram em busca do sol
Os montes baixaram para ver o mar
E as algas tornaram-se um roseiral

Visitei entre véus o que o ar vestiu
Desenhada a noite por onde passei
Uma luz de longe me guiou entre céus
E agora sei que não sou eu que sou
Mas tu.

quarta-feira, abril 05, 2017

Tenho uma espiritualidade queixinhas

Quase me apetecia dizer que sou um queixinhas. Não daquele tipo de queixinhas que está sempre a pedir coisas a Deus. Cuido, aliás, que não peço muitas coisas a Deus. Sou mais daquele tipo de queixinhas que parece nunca estar satisfeito com a vida que lhe toca viver ou com as adversidades que lhe toca tocar para a frente.
Queixo-me muito. Queixo-me na vida. Mas ainda me queixo mais na oração. Muitas vezes transformo esses momentos em autênticas queixas. Perco-me nelas. Queixo-me de tudo e de todos, da Igreja que não gosto e da Igreja que não consigo ser, dos erros que concretizo e que concretizam comigo, dos pecados que cometo e daqueles que não quero pensar como pecado. Queixo-me do que tenho de fazer, do que fiz e do que faço. Queixo-me de mim mesmo, mas sobretudo dos outros. Queixo-me até de Deus. Queixo-me. E ao queixar-me contigo, cuido que rezo as minhas queixas. Assim mais ou menos como quem, partilhando o que sente, mesmo quando não se devia queixar tanto, mais não faz do que partilhar a vida com quem se ama.

segunda-feira, abril 03, 2017

a-teia [poema 136]

Tirava o sono da almofada para si
Guardado num esconderijo de prata
Ligava o gira-discos do bisavô António
Cobria-se com a capa dos tempos da universidade
Fazia embrulhos de nada e do vazío que havia
Gritava para dentro as palavras e os sons
Construia um relógio antigo, meio vintage
Deixava-se cair e mal se levantava da hora
Escrevia Deus como se não existisse
E a casa onde ela era estava fechada

sábado, abril 01, 2017

ela [poema 135]

Entre silêncios de salmo ouvi sua voz
No mais belo cantar que pudesse existir
Era ela, aquela, que visitara meu sonho
De pássaros a voar de uma gaiola gigante

Sussurrei seu nome e apareceu
Para ser ave na minha gaiola

terça-feira, março 28, 2017

A minha mãe não me leva

Andava no quarto ano da Catequese. Viera ter comigo para se confessar, a mando da sua mãe, por causa da festa da Catequese em que vai participar, com o seu grupo, na próxima semana. Trazia as mãos nos bolsos e, como lhe disse que ficava mais bonita se as tirasse de lá, colocou-as uma na outra, com os dedos a entrelaçarem-se e a estalarem ao mesmo tempo. 
Pela reação pareceu-me que estava com algum receio de confessar-se. Ou do que ia confessar. Por isso, ainda antes de darmos início ao sacramento da confissão, perguntei-lhe se estava com medo. Não respondeu, mas fez uma cara de quem não sabia o que dizer porque tinha receio do que pudesse dizer. Eu sei que, na verdade, não se voltara a confessar desde a Primeira Comunhão. Sei que não costumava ir à Eucaristia. Sei que quase tudo lhe parecia meio estranho. Estar ali porque a mãe lhe dissera para estar. A mesma mãe que não a levava à Eucaristia. 
Como me apercebera disso, e porque, infelizmente, não é caso único, perguntei-lhe se era por nunca mais ter ido à missa que estava assim. E aquela criança, afastando os dedos e as mãos, baixou ainda mais os olhos e disse. A minha mão não me leva.

domingo, março 26, 2017

voltar [poema 134]

Talvez um dia seja cego para ver
E nas palavras veja imagens que não sei
Hei-de falar com o corpo enrolado em mim
Voltar ao tempo em que nascia para ser

Talvez um dia chegue como um coração
Para ver de novo as manhãs a renascer
Para tornar a ver-te como no princípio
Quando o mundo ainda era paraíso
Para viver

quinta-feira, março 23, 2017

Padres exclusivamente espirituais

Não falo dos padres que se esforçam por ter uma grande espiritualidade. Refiro-me aos que vivem uma espiritualidade exclusiva. Uma espiritualidade que exclui. Uma espiritualidade que tranquiliza e sossega. Uma espiritualidade que se justifica para não ter mais nada que fazer. São aquele tipo de padres que gastam a sua vida na sacramentalidade das celebrações e não dedicam nada do seu tempo à sacralidade da vida. Padres que se esgotam a pregar e se desculpam com as mil pregações que têm de fazer. Padres que precisavam sentir na pele a pele de outra pessoa. Ou sentir na carne o peso de outra pessoa. Padres que entram na casa das pessoas para as abençoar, mas se esquecem de curar as suas feridas. 
Eu sei que não dá de beber quem não tiver o copo cheio. Sei que a espiritualidade sacerdotal é uma das dimensões mais fundamentais do sacerdócio. Sei que muitas vezes é a sua ausência que faz um mau sacerdócio. Mas também sei que outras vezes é a desculpa certa para ficarmos por ali, por uma espiritualidade exclusiva, que exclui.

terça-feira, março 21, 2017

para lá [poema 133]

Entrei pelos teus olhos a sangrar
Entrei pelas sombras como se houvesse sol
a sangrar

Entrei fora das horas e do tempo
Entrei como se a noite fosse o dia
do tempo

O sangue não parava de jorrar
E de fazer nascer as flores
Pelo tempo fora, como se o sangue
Fosse vida para lá da vida

domingo, março 19, 2017

O sorriso da minha mãe

Hoje lembrei-me do sorriso da minha mãe. Era um sorriso rasgado. Quase se notava mais o seu sorriso que o seu rosto. Ou melhor, quase se notava mais o seu rosto sorridente que a dor sofrida da sua enfermidade. 
Também chorava. Vi-lhe algumas lágrimas correr pelos sulcos cansados do rosto. Mas eram poucas, e misturavam-se com a alegria de um rosto feliz. A minha mãe era feliz. Também se afrontava com as afrontas da vida. Como mãe que era, pesavam-lhe sobretudo as afrontas dos filhos, onde me incluo especialmente. Mas era feliz. Tinha uma vida cumprida. Não uma daquelas vidas gastas sem saber bem como e para quê. Era uma vida entregue aos outros e a Deus. 
Talvez eu esteja a exagerar, porque a minha mãe é simplesmente a “mãe”. O cordão umbilical que me alimentou ainda não se desligou nem vai desligar. Talvez eu exagere ao afirmar que a vida da minha mãe era uma vida com “V” grande, à maneira do “D” grande de Deus. Mas como lhe devo tanto da minha vida e do meu sacerdócio, deixai-me recordar esse sorriso que tantas vezes me dá vontade de continuara a viver e a ser sacerdote.

Parece que este texto não vem a propósito, mas vem. Hoje, dia do pai, aproveito para enviar um grande abraço a todos os pais e um abraço muito apertado ao meu.

quinta-feira, março 16, 2017

sem coroa [poema ...]

Já faz muito que os santos vieram à terra
Vender as coroas de suas cabeças
Dizem por cá que as venderam barato
Por tuta e meia as queriam ter

Voltaram depois aos seus aposentos
Com essas moedas compraram o céu.

coração às costas [poema 132]

Rasga-me o coração este grito de espera
Que aproxima um ponto final em ponto cruz.
É consentido, e caminha em meu sentido,
Mesmo que eu lhe rogue não ter sentido.

Com o coração às costas a percorrer o calvário
Grito para dentro, grito sem voz e para vós:
Ó Senhor, esta noite vai ser apenas a noite
E amanhã estarei ao fim da estrada para vos ver

quarta-feira, março 15, 2017

espelho fechado [poema 131]

Um dia hás-de querer ser
Pedra lavrada por um deus.
Não serás mais que chão
Noite sempre a adormecer

Espelho dobrado em dois
Sobre si mesmo desejo de ser.
É pálido este espelho, ou são três,
Faz de conta, sem que seja viver.

No livro por escrever
Vai morto, sem saber
Vai escrito, mas sem dizer
Espelho dobrado em dois

Ou em três.

segunda-feira, março 13, 2017

Via Sacra de um simples discípulo

Senhor, estive a reescrever a tua via-sacra para fazermos a encenação do teu amor aqui na paróquia. Reescrevi cada gesto, cada pedaço da tua vida concentrada nesse calvário de amor. Este ano quis escrever com o coração posto nos teus discípulos. Concentrei-me neles, logo atrás de ti. Concentrei-me em mim logo atrás deles. Revi-me em quase todas as personagens. Doeu-me, Senhor, cada reação da multidão, dos sumos-sacerdotes, dos anciãos, de Pilatos, dos soldados. Doeu especialmente a negação de Pedro, a traição de Judas, todos os que dormiram enquanto agonizavas. Tudo me doeu a reescrever este caminho tão doloroso. Valeu-me o Cireneu, a Verónica, as mulheres que choravam por ti, o criminoso arrependido, a tua mãe. Valeu-me ainda mais aquele momento em que desceste da cruz para nos levares, contigo, em ti, à felicidade que o Pai, desde o início, cuidou para nós!

sábado, março 11, 2017

Quaresma despojada de cristãos

Éramos dez pessoas. Ou em tom jocoso, como alguém poderia dizer, eram nove pessoas e um padre. Eu mais nove pessoas. Despojados de tudo para iniciarmos a Quaresma. Repito De tudo mesmo. Despojados até de pessoas. Claro que a Quaresma não vale pelo número dos que participam na missa de quarta-feira de cinzas ou na cerimónia da Imposição dessas cinzas. Mas fez-me impressão começar a Quaresma deste modo. Que o meu primeiro acto celebrativo ocorresse com um tão reduzido número de cristãos. Não meço a fé ou o cristianismo por números. Esse assunto daria linha para muita renda. Contudo, a minha sensação foi ter começado a Quaresma num total despojamento. E isso fez-me pensar muito.

quarta-feira, março 08, 2017

Ficar horas por ali

Já deve ter dado para perceber, pelas vezes que escrevo diante do Senhor exposto, que gosto imenso desse espaço de oração. Ficaria horas por ali. Gosto de estar sozinho com Ele. De preferência com mais gente à volta, mas que não me distraia. Gente que me faça sentir Igreja e comunidade naquela hora de intimidade com o Senhor. Gosto e pronto. Mas isso não significa que o tempo passe sempre sem que se dê conta. Também dou por mim a olhar o relógio, a distrair-me com uma mosca, com a beleza do espaço. Além disso falo bastante. Entrego-lhe muitas coisas. E entre estas distrações e palavras, custa-me o verdadeiro silêncio. Estar assim. Sem dizer nada e à escuta. 
Em tempos li que um determinado asceta gastava horas a respirar e em silêncio até descobrir Deus nesse tudo. Mas que foram meses e anos de trabalho interior. Gostava de também ser asceta, mas em muito menos tempo, que eu sou fruto desta época de imediatismo. Gostava de um dia poder dizer, como aquele camponês que passava horas na Igreja do Cura D’Ars, quando este último lhe perguntou o que fazia nesse tempo. Eu olho-o e ele olha-me.

sexta-feira, março 03, 2017

Os seres perfeitos dos padres

Sinceramente, e não levem a mal, às vezes tenho alguma pena das pessoas que fazem uma imagem dos padres como se fossem seres perfeitos, sem dúvidas, sem questões, com tudo já sabido da parte de Deus, como se tivessem o privilégio de saber as coisas de Deus antes dos outros. Ou daquelas que olham para os padres como alguém que vive acima do mundo, na estratosfera dos seres angelicais. Ou ainda daquelas que só querem saber dos padres quando querem saber de si mesmas, e lhes exigem os sins todos, como se eles tudo pudessem fazer. 
Tenho pena delas e mais pena tenho de mim. Pois queria ser apenas eu, sem mais, e ser apenas mais um padre que tem de esforçar-se... como todos os cristãos.

terça-feira, fevereiro 28, 2017

O que faz um padre quando faz um funeral II

Se há coisa que mexe comigo são os funerais. Quem me conhece sabe que um telefonema da funerária me desestabiliza e incomoda. Em tempos idos quis desculpar-me com o funeral da minha mãe. Mas isso não fazia sentido, porque foi algo muito especial e que recordo como uma marca da minha vida e da minha fé. A verdade é que os funerais não me deixam indiferente, e lido com eles a fugir deles. Não fujo da sua celebração, da sua realidade, daquilo que tenho e devo fazer. Mas interiormente é como se fugisse. 
Há dias, numa das minha meditações e devaneios espirituais, encontrei três respostas à pergunta que me fazia a mim mesmo sobre o que fazia quando fazia um funeral. Recordo que uma era a de que o padre cumprisse o ritual secular da morte como um dever cívico, social e algumas vezes laico. A outra era que o usasse de forma meio proselitista. E a última era que no funeral o padre se deixasse usar por um Deus que habita o homem, sobretudo quando sofre. 
Entretanto, chegaram à beira da minha meditação aquilo que poderia classificar como os auxiliares de um Deus que não me quer encerrado em poucas respostas, e a coisa fez-me bem. 
Alguém me disse, e não sei se recordam, que o padre faz num funeral aquilo que é pago para fazer, isto é, fazer o funeral. A pessoa não soube o alcance da sua proposta, mas eu pensei que essa poderia ser a minha quarta resposta. De facto, pode haver quem faça o funeral por cumprir o tal dever cívico ou social, e pode haver, por outro lado, quem o faça ou cumpra pelo preço do seu trabalho. 
Outro alguém, que muito prezo, esboçou uma resposta que bem poderia colocar ao lado da minha terceira resposta, a do padre que se deixa usar por um Deus que habita o homem. Dizia ele que o padre também poderia ver naquela urna a Cristo expirado, e tomasse aquele corpo sem vida como a própria Mãe o tomou depois de descido do madeiro. Que estremecesse com a dor e a revolta de Deus, como quando a terra tremeu, o véu do templo se rasgou e os túmulos se abriram. Que pressentisse no meio do silêncio e das lágrimas a madrugada de Páscoa. 
Ó Senhor, afinal, eu ainda não sei tudo do que faço quando faço um funeral!

sábado, fevereiro 25, 2017

mão negra [poema 130]

Que me queres dizer, mão negra lançada,
De que falas, punho encerrado na mão,
Quando te lanças a correr como sombra
Por detrás de um sol que está em mim,

Diz em palavras o que te sobra em pudor,
Não grites, porque o gritar não deixa ouvir
Os sons que tens por fora das expressões
E que não quero perto do existir em dor.

Abre teus dedos para perceber que
Se Deus te criou é porque existe o Sol
Se és uma mão é porque existe um ser
Para te segurar e fazer viver.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Um Tomé que é cientista

O nome do Tomé não é Tomé. Chamo-o assim em homenagem ao Tomé que necessitava ver para crer. Estudava ciências bioquímicas, e não lhe era fácil compaginar a fé com aquilo que a ciência lhe oferece. Não é que a ciência seja adversa à fé, ou vice-versa. Mas joga com dados provados ou para provar, com matemáticas definidas, com cálculos medidos, com o empirismo que só resulta com as certezas que oferece. O que às vezes esquecemos é que há muitas coisas que a ciência não consegue explicar. Sobram sempre os porquês e os para quês. Mas eu entendo o Tomé. Queria acreditar com fórmulas e com raciocínios. E isso é impossível. Tal como é impossível amar alguém com fórmulas e raciocínios. 
Ah, mas a minha namorada é alguém que eu vejo e toco. A deus, disse ele com letra minúscula, não o vejo nem toco. Ao que acrescentei Só amas a tua namorada quando a vês e tocas? Creio que se calou porque a ama, mesmo quando não a vê ou toca. Mas também sei que o argumento não lhe parecera cem por cento válido, porque reagiu com descontentamento. 
Como a mãe morreu faz anos, perguntei-lhe então se ainda amava sua mãe não obstante não a ver. E respondeu que sim, mas que a vira enquanto estivera com ele, e a deus nunca vira. O Tomé é persistente. Creio que é honesto na sua persistência. 
E num monte de perguntas, insisti. Nunca sentiste que há algo em ti que te ultrapassa e não explicas, mas sentes que é verdade? E porque decidiste amar aquela tua namorada? Donde partiu esse teu desejo que provavelmente não consegues explicar empiricamente? E porque continuas a amar tua mãe sem ver? E como demonstras teu amor sem explicação? Será que a tua pergunta não é fruto dessas coisas que não consegues explicar, mas surgem em ti sem explicação? 
Li em tempos, já não sei onde, que um grande cientista chegara à conclusão de que sempre haveria muitas respostas que a ciência não conseguia dar e que essas só poderiam ser dadas muito para além de nós, do humano e do mundano. O Tomé calou-se, talvez porque quisesse pensar aquelas perguntas. No íntimo acho que vai continuar a duvidar. Contudo, pode ser que um dia perceba que a ciência não explica o que nos move e faz viver.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Encontrámo-nos [poema 129]

Falaste-me e eu gostei de pousar em ti
Tuas palavras apertei ao peito, e em mim

Recordo que era Inverno e fazia calor
Que havia flores no cimo do monte
Algo a brilhar por não sei donde
Melodias de guitarra que não vi
Uma estrada que não tinha fim
Brisas suaves a crescer por mim

Falaste-me e o tempo parou
Como se não tivesse fim
Tudo à tua volta se calou
Nunca mais parei em mim

sábado, fevereiro 18, 2017

O fenómeno de “As mulheres que se apaixonam pelos padres”

O fenómeno das “mulheres que se apaixonam por padres” intriga-me. Não são propriamente essas mulheres que me intrigam. É o facto de que o texto mais lido e mais comentado neste espaço onde escrevo seja esse texto. Já passaram seis anos e é o texto mais lido de sempre, continuamente lido. E comentado. Continuamente comentado. Não, minhas amigas, não me zango nem discordo. Só me intriga. 
Intriga-me como texto escrito de entre centenas de outros textos que tentam falar de Deus, da espiritualidade, da fé, da Igreja, do sacerdócio, do mundo. Intriga-me que vários órgãos de comunicação social me tenham contactado por causa dele e para dar a cara por ele. Intriga-me. Intrigo-me. 
Ou talvez não.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Eu na periferia

Estou triste comigo. Com uma daquelas tristezas que se transpiram pelos poros e que, por mais que se use um perfume ou um desodorizante, cheiram a bafio. Fiquei triste comigo há cerca de uns quinze minutos, lá pelas vinte e uma horas da noite, quando bati à porta de um pobre daqui da terra. Com a agravante de que para saber a morada, tive de pedir a alguém que me ajudasse. Sinto agora que isso era uma agravante porque estou a pensar nela. Os meus motivos eram bons. Não posso dizer que não eram bons! Mas depois que a senhora me abriu a porta, dei conta que esta não me conhecia. Sabia que eu era o padre porque alguém a avisara que eu daria por lá um salto. Claro que me posso desculpar dizendo que ela não me conhecia porque não vai à missa. No entanto, não posso por o acento da situação nela. Tenho de o por em mim. E se ela não me conhece é porque nunca me dera a conhecer. Porque nunca batera à sua porta. Porque não fora ao seu encontro. Ao encontro da sua pobreza. Da sua periferia. E agora estou triste porque, afinal, não sou o padre que deveria ser.

sábado, fevereiro 11, 2017

Fraquezas e forças

Sempre gostei da frase de S. Paulo que diz mais ou menos assim Quando me sinto fraco, então é que sou forte. Gosto dela e já está. Compreendia-a como justificação para as minhas fraquezas. Compreendia-a como a garantia de que as debilidades nos fazem procurar a necessidade de Deus. Sim, o que eu pensava era que quanto mais débil, menos focado estava em mim, e mais me podia focar no auxílio de Deus. 
Hoje, quando repetia esta frase, descobri algo ligeiramente novo. Que é nas minhas debilidades que se manifesta a força de Deus. Pela sua graça, pelo seu poder, e porque tudo se deve a Ele e não a mim, quanto mais débil, mais a força de Deus é o que nos capacita para viver. Quanto menos fazemos, mais Ele faz em nós. Quanto menos eu estou, mais Ele está. Quando nós fraquejamos, tem de ser Ele a aguentar-nos, a viver-nos. De certeza que era isto que Paulo queria dizer.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Igrejas a fechar

De entre as milhares de paróquias que existem no mundo, mormente na Europa, existem bastantes que são demasiado pequenas. Quer pela exiguidade dos seus membros, porque uns vão morrendo e não nascem crianças para, pelo menos, os repor, quer pela descida crescente do número de crentes e de praticantes, de gente que se interessa verdadeiramente pela sua paróquia. 
São paróquias que geralmente recusam deslocar-se à paróquia vizinha para fazer um número mais plausível de fiéis. Paróquias que em cada eucaristia têm pouco mais de dez ou vinte pessoas, inclusive nas dominicais. Na minha diocese tem aumentado o número de paróquias deste género. E nós, os seus párocos, vamos aumentando o número de paróquias a nosso cargo, sete, oito, dez, e mais para cada um. Paróquias a morrer. Paróquias que exigem a missa deles, mesmo que já não caibam nas horas do dia tantas missas. Paróquias que merecem Deus e que merecem ser comunidade. Todas as localidades o merecem por si mesmas. Mas não sei se estas questões passam por merecimentos. E também não sei se algumas delas não deveriam ser extintas legalmente. 
O que sei foi o que a senhora Graça, uma das persistentes de uma dessas paróquias a meu cargo, me contou. Dizia que há dias, numa conversa com um senhor lá da terra que não quer saber da paróquia a não ser nos funerais, casamentos e baptizados, ela esboçara o seu descontentamento pela paróquia estar assim, a morrer. E qual foi a resposta, clara, directa, sem meias medidas, quase como se tanto fizesse ou se fosse o destino desejado? Deixe morrer duas ou três beatas que lá andam sempre, e vai ver como a Igreja se fecha.

sábado, fevereiro 04, 2017

O que faz um padre quando faz um funeral

Mais uma vez volto à conversa dos funerais. Esses momentos da vida de padre que não gosto de dizer, mas que digo tantas vezes. São das ocasiões mais propícias a Deus. Sei-o e creio que podem ser, se bem aproveitados, instrumentos de encontro com Deus. Mas também sei que muitos deles são somente o cumprimento de um ritual de uma cultura que já lá vai, uma cultura cristã. 
Por isso hoje, ao ajoelhar diante do sacrário, perguntei ao Senhor o que se pede a um padre quando se pede um funeral. Deu-me três respostas. Ou talvez só me tenha dado uma e eu é que acrescentei duas. As duas em que mais tenho pensado. 
Uma era a de que o padre cumprisse o ritual secular da morte como um dever cívico, social e algumas vezes laico. A outra era que o usasse de forma meio proselitista. E a última era que no funeral o padre se deixasse usar por um Deus que habita o homem, sobretudo quando sofre.

terça-feira, janeiro 31, 2017

Conversa desajeitada

Conversa de quem quer algo, de forma volátil, numa paróquia que tem à sua frente três padres. Olhe, diz ela para a funcionária do cartório, quando é que posso falar consigo para marcar umas coisitas? A funcionária perguntou de que coisas se trata, e ela respondeu que, como agora há três padres na terra, se podem fazer coisas que antigamente não se faziam. Mas o quê, retorquiu a funcionária. Assim, como batizar o meu neto e o meu genro no mesmo dia. A funcionária esclareceu que isso se poderia, eventualmente, fazer, desde que o genro fizesse catequese. A resposta da senhora foi um Isso é que vai ser mais complicado. Queria fazer-lhe uma surpresa e mandar-lhe a água para a cabeça e um dos teus três padres rezava e pronto. Não dá para fazer assim? Como a senhora não parava quieta e parecia querer escapulir-se da conversa, a funcionária reiterou que tinha que falar com um dos sacerdotes. Um quê? Perguntou. Um dos padres. Ahhh, ok, eu gosto muito daquele dos olhos azuis. Sim, talvez seja. Ficou contente e mudou de caminho em direção a casa com um boa noite e Ainda bem que é o girinho que vai falar comigo. E assim terminou uma conversa profunda de um cristão profundo.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Os padres e as paredes

A dor do sofrimento dos padres é muitas vezes partilhada com as paredes. Sim, os padres também são humanos e também sofrem. Não sofrem diferente dos outros. Sofrem apenas com contornos diferentes. Estava eu a querer dizer que a maior parte das vezes que os padres sofrem é a olhar para umas paredes brancas ou para paredes que mudam de cor quando fechamos os olhos e continuam a ser paredes. Fazemo-lo com a vantagem de que elas não se queixam das nossas palavras que não dizemos para fora. É definitivamente uma vantagem. Também não as incomodamos muito. Não as podemos abraçar, e contudo elas abraçam-nos porque estão ao nosso redor e nos fecham dos quatro pontos que formam. 
A esta altura do que escrevo já me estou a imaginar os pensamentos dos que advogam pelo progresso afectivo dentro do clero. Vejo-os a alegar que a vantagem de uma esposa ou de uma família que nos acolhe nos desabafos não se compara à vantagem de uma parede que não fala. Pressinto outrossim a resposta dos que advogam pela conservação da espécie. Estes dirão que o melhor é não haver misturas para fora de si. 
A uns e outros quero hoje dizer que não me ocorreu nada disso. O que hoje senti é que, assim, só com paredes, Deus pode acabar por ser o único que se busca no meio do sofrimento. Atenção que eu não sou daqueles que defendem uma fé privatizada. Mas é verdade que dentro de quatro paredes não precisamos falar para fora porque Ele nos escuta dentro. Tudo na vida tem sempre dois lados. Nem que seja o de fora e o de dentro. Hoje prefiro ver este lado de uma solidão que fica aberta para se encher de Deus

terça-feira, janeiro 24, 2017

Os quatro primeiros apóstolos

Os quatro primeiros apóstolos, chamados e convidados por Jesus, eram pescadores. Alguns dirão que escolheu estes pescadores pela analogia dos pescadores de homens. É bonita a analogia, e é piedoso o argumento. Mas eu prefiro pensar que escolheu pescadores porque não queria escolher doutores. Que escolheu pescadores, gente rude por excelência, porque não possuíam eloquência ou ciência para confundir seu anúncio. Que escolheu pescadores, gente do povo por excelência, porque queria transformar a humanidade e não elaborar uma doutrina. E se começou por dois pares de irmãos, foi porque queria que a sua Igreja fosse uma Igreja de irmãos. E se escolheu dois a dois foi porque a riqueza está em não se ser Igreja sozinho. 
Com os pescadores escreveu o início da Igreja. Uma igreja que agora parece assentar em centenas, senão milhares, de doutores. Uma Igreja que agora parece encerrada em gabinetes.

domingo, janeiro 22, 2017

Que imagem tens de Deus?

Passado um mês e depois do processo de selecção de textos de 2015, foram colocados 10 textos à votação. Agradeço imenso o esforço daqueles que votaram. Os resultado estão no gráfico abaixo.
Destacaram-se três, que já foram colocados na página "best post" (aqui):
  1. Queres e eu queria
  2. Uma coisa híbrida entre anjo sem asas e homem sem sexo 
  3. Amas-me, Senhor?
Prometendo que em breve faremos o mesmo processo em relação aos textos de 2016, hoje colocamos nova sondagem online, com a seguinte pergunta: Que imagem tens de Deus?

sexta-feira, janeiro 20, 2017

O “Silêncio” de Deus

Há dois dias tive oportunidade de assistir ao filme de Martin Scorsese, o “Silêncio”. Não vou fazer uma análise do filme, nem algo que se pareça a um comentário. Não costumo usar este espaço para fazer este tipo de considerações. 
Mas sinto necessidade de dizer que, quase ao final das duas horas do filme, a minha vida estacionou. Ficou literalmente bloqueada, no sentido positivo, num diálogo que o actor principal tem com uma voz ausente, isto é, com Deus. O filme, para mim, poderia ter terminado naquele momento. 
O diálogo pode resumir-se nisto. Depois de ter apostatado, depois de tantas buscas de Deus, sem o conseguir escutar, depois de ter caído na conta de que Deus, afinal, estava em silêncio, ele faz aquela que foi a minha grande descoberta no filme. Afinal Deus não estava em silêncio. Ele estava no silêncio.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Asas verdes [poema 128]

As asas de quem amo são verdes
E às vezes não lhes sei a cor.
Tão minhas e tão abraçadas, sei
Que por mim vistas são sempre verdes.

As asas que me amam são verdes
Não sei se são asas ou se lhas por.
Tão minhas e tão abraçadas, não sei.
Mas tenho em mim a certeza
de serem sempre verdes
as asas do meu amor.

domingo, janeiro 15, 2017

Os jovens que olham os padres

Que observam em nós, padres, os jovens que cruzam connosco nas ruas, nas escolas, nos bares ou até nas igrejas? Que observam em nós, padres, esses jovens, com jeans ou outras calças de marca, mais interessados no que parece do que no que se é ou se tem? Que observam em nós, padres, esses jovens que Deus ama como são e que se cansaram de uma Igreja que parece dizer-lhes pouco? Que observam em nós, padres, esses jovens que não sabem ainda como Deus os ama?
Às vezes, quando olho os jovens que se cruzam comigo na rua, fico a pensar no que pensarão de nós, os padres. Se calhar não pensam nada. Se calhar não perdem tempo com isso. Não perdem tempo com coisas que não lhes dizem absolutamente nada. Ou se calhar olham para nós com a comiseração própria de quem acha que esta coisa de ser padre é algo raro, estranho, meio do outro mundo, coisas da pré-história ou de outros planetas.
Cuido que se me pusesse na sua pele, olhava para mim, ou para nós, como aquele tipo de atletas que fazem da sua vida uma corrida. Correm para fazer sacramentos e sacramentais. Correm para cumprir um série de coisas estabelecidas pela Igreja. Correm para celebrar uma missa que, ainda por cima, é uma seca. Não se faz lá nada. Estamos ali a aguentar palavras sem contexto. Simbologias que ficam no mundo das simbologias. Cerimónias e mais cerimónias sem alegria e sem rostos.
Cuido que se me pusesse na sua pele, veria que os nossos rostos são rostos de gente sacrificada sem alegria. Gente que busca as mesmas coisas que todos buscam na sociedade enganadora de hoje. Rostos feitos de fraquezas dissimuladas e identidades arrastadas. Descobriria que afinal também estamos fragmentados, somos voláteis e andamos a correr em busca de um algo que parece não sabermos o que é. 
Cuido que se me pusesse na sua pele, não me daria, ou não nos daria, muitos ouvidos. Talvez eles até nos ouçam. Mas quando são obrigados a ouvir-nos. Ou não têm nada melhor para fazer. Ouvem-nos, mas como um zumbido que incomoda ao ouvido. Ouvem-nos como uma grafonola antiga e desajeitada. 
Não me quero meter na sua pele. Não quero pensar que se fosse um deles, seria este o meu modo de pensar. Realmente seria preferível não pensar em nada. Mas temo que os jovens de hoje não enxerguem em nós, padres, a alegria do encontro com Cristo, ou as maravilhas que Deus opera em nós, porque nem uma coisa nem outra são bem contadas ou nítidas. Ou que não nos enxerguem a rezar na intimidade com Ele. Ou que não nos sintam felizes por sermos padres, mesmo quando sofremos. Ou que não percebam em nós quanto Deus no ama, ao ponto de darmos a nossa vida por Ele. Ou que não dêem conta, por nosso intermédio, que Deus os ama também. E que os pode chamar... a ser padre.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Palavra [poema 127]

A palavra é o que nos religa à vida
Na margem dos silêncios.

É o que dissipa ou encerra,
Os silêncios, por fora de nós,

Ou por acaso é sua voz.

Ela é nossa, e não é, ou deixa de ser
Quando é aquilo que tem de ser.

É o que não sabemos fechar de nós
Na voracidade de querer sempre algo mais
de ser,

Dentro ou fora de nós,
Para nós ou para outros nós.

Ó palavra que não cabes em palavras,
Ó palavra que não calas os silêncios,
Ó palavra que não te fechas nunca em ti,

De palavra que és palavra?

terça-feira, janeiro 10, 2017

Um Deus que se ama ou que se acredita

Estávamos numa reunião de adultos com filhos na catequese, e provocara-os a dizer o que pensavam de Deus. Um pai mais atrevidote, e posteriormente corroborado por outros pais, afirmou sem problemas que acreditava em Deus. Que acreditava nele como alguém que criara e conduzia os destinos do mundo. Um ser acima de nós ou para além de nós. 
Ele falava de Deus como o ser que nos ultrapassa e até certo ponto tinha razão. Deus ultrapassa-nos e é insondável.  Tinha alguma razão aquele pai que não falava de Deus como Pai. 
Cuido que as suas palavras são fruto da época e da sociedade em que vivemos, depois dos filósofos da suspeita e da modernidade que pretendiam “matar” Deus. É a época em que se multiplicam os movimentos religiosos e espirituais. É a época do esoterismo, da gnose, do psíquico e do mágico. É a época que aceita Deus de qualquer modo, mas como um ser que não tem de interferir na sua vida porque, afinal, o homem é autónomo, é o deus das suas escolhas. 
Por isso é difícil falar ao homem de hoje de um Deus que ama e que, remexendo com o nosso coração e com o que somos, interfere em toda a nossa vida. Dito, em conclusão, por outras palavras, mais directas e mais objectivas. É mais fácil acreditar em Deus do que amá-lo.

sábado, janeiro 07, 2017

em busca do lar [poema 126]

Vivo numa casa sem paredes, construída em ruínas,
Atravessada por um caminho de asfalto não acabado.
Aqui a terra gosta de enroscar-se e o sol dorme no chão.
Habito só, no meio de uma multidão sem nome e sem dó,
Encerrado numa flor que cresce em busca daquele sol
Por sob a casa que herdei, sem o tecto onde acorda o céu,
Entre as florestas tecidas em fios de roupa ao vento,
Qual soldado em luta contra coisas que estão mortas.

Vivo em espera.
Sei que há um lar
Onde um dia destes
Hei-de habitar...

quarta-feira, janeiro 04, 2017

O sonho de ser padre e paróquia de outra maneira

Por vezes sonho com uma nova forma de ser paróquia e com um novo modo de ser padre. Penso que é legítimo sonhar para sair de mim e do comodismo da paróquia. Não. Não é um pesadelo. Não penso estas coisas exasperado com a situação. Ou como se a mudança fosse a única alternativa possível. Tenho apenas o sonho de um dia voltarmos à frescura das pequenas comunidades cristãs do tempo da Igreja primitiva. Menos organizadas, menos sacramentalizadas, menos hierarquizadas. Pequenas comunidades à descoberta de como ser comunidade. Sem certezas, dogmas e doutrinas. Como pequenos discípulos à descoberta de Jesus. Só Ele era o centro, a certeza, a mensagem. Só Ele mobilizava. Só Ele impactava para se viver como Igreja. 
Sonho um dia ser um simples cristão que é padre. Viver a fé com o compromisso de somente a viver para Viver. Não sei, na minha simplicidade, como arquitetar o esboço deste sonho. Mas sei sonhar. 
Talvez um dia, quando o céu se fixar na terra, mesmo que tenha de ser pintado pela mão de Deus, este sonho não seja só meu. E não seja só um sonho. 

Com este sonho começo o ano. Talvez em 2017 a Igreja renasça um pouco, as nossas paróquias se tornem mais comunidade, e nós padres sejamos mais autênticos.