terça-feira, agosto 23, 2016

Um casamento que se chama civil

Por obrigações de sangue, participei há poucos dias naquilo que se chama um casamento civil. Uma experiência inolvidável. Uma tentativa de fazer de um contrato uma cerimónia. Foi o que me pareceu e, durante os largos minutos em que a senhora primeira ajudante de conservadora lia os números da lei, o meu coração palpitava de inconformação. Reconheço que desconhecia esses números da lei e desconhecia que apenas utilizavam palavras como contrato, deveres e direitos. Um dos meus cunhados e uma das minhas irmãs, que me observavam, comentaram depois que até parecia que me saía fumo da cabeça, tal seria o meu desconforto. Era o desconforto de quem tem claro que o casamento é um matrimónio, e que mais do que um contrato é uma aliança. Não tenho nada contra o que se chama de casamento civil. E sei que em muitas circunstancias, como era o caso, é a única solução possível para quem quer manifestar o amor como um compromisso para toda a vida. Foi assim que quis entender e viver o momento. Mas não consegui abstrair-me daquilo que é a aliança de amor entre duas pessoas que se amam e dão este passo. Não consegui abstrair-me do facto de a palavra amor não ter sido utilizada em nenhum momento da pretensa cerimónia. Não consegui distanciar-me daquilo que sou, sacerdote. Não consegui, e por isso no final perdi a vergonha e pedi autorização aos noivos, o que me foi concedido, para dizer umas palavras. Peguei no microfone e expressei o que sentia, ao mesmo tempo dizendo que desejava que aquele momento não fosse apenas um contrato, mas uma aliança, e que embora não tivessem podido fazê-lo diante de Deus, que Deus estivesse com eles o resto das suas vidas como creio que estará.

8 comentários:

Anónimo disse...

Confessionário.
Também eu, por razões de sangue, como dizes, assisti a um único casamento civil.
Durante todo o tempo, pareceu-me sempre, estar numa qualquer Conservatória a ouvir a leitura de uma escritura de compra ou de partilhas.
Esse casamento acabou em divórcio passado pouco mais de um ano.
Deus não esteve com eles, porque eles também nunca o quiseram nas suas vidas e foi justamente por esse motivo que optaram pelo o casamento civil.
Muitos dos convidados louvaram a ideia como sendo coerente. Se não tinham prática cristã que sentido fazia irem á Igreja só para casar?
Talvez a "coerência" suavize um pouco o acto, mas a mim deixou-me um mal estar que ainda hoje perdura.
Definitivamente, não gostei!
Maria Ana

Anónimo disse...

E não acha Padre, que urge a Igreja dar uma resposta a esses "casamentos que se chamam civis"?

Que abençoe de algum modo esse amor e essa familia?

Confessionário disse...

25 agosto, 2016 19:13
Não sei bem que resposta te dar, pois será sempre diferente uma situação em que as pessoas se unem e não têm uma solução sacramental disponível por sua situação diante da Igreja, e outra situação em que não casam pela Igreja apenas porque não querem. Neste ultimo caso, seria querer algo de Deus sem querer Deus!
Como vês tu esta diferença?

Anónimo disse...

No caso da segunda situação é obvio (ou pelo menos para mim) que é uma escolha consciente que essas pessoas não querem Deus envolvido.

Falava dos casos em que um casamento não é possivel.

Sei o que me responderiam a maior parte dos padres:Procura alguem não-casado.
Mas a vida Padre.. não é simples :)

Não queria Padre não ter Deus neste dia. Não queria apenas assinar assinar um contrato. Queria sentir-me abençoada.

E não queria, sobretudo, saber que me vou afastar dos ritos católicos com que sempre cresci.

Confessionário disse...

26 agosto, 2016 20:19

entendi e compreendo perfeitamente. Mas então como farias? Que tipo de cerimónia proporias? Um sacramento é impossível! Farias uma cerimónia de que tipo? Atenção que a pergunta é muito séria, pois tb não é fácil designar que tipo de cerimónia se poderia realizar e que fosse pautada por coerencia e sentido de fé!

Anónimo disse...

E ainda bem que o fez.
É das coisas mais inóspitas a que já assisti, raras foram as ocasiões em que houve umas palavras e foram ditas por Conservadoras... e olhe que não sou praticamente aos olhos da minha congregação. Da minha relação com Deus, só eu sei e não admito que me cataloguem. Fui casada por um Padre que me conhecia de criança e cerimónia mais personalizada e sentida, não poderia ter. Ele já cá não está e como ele temos poucos!
Mas urge arranjar uma solução para quem quer a sua união abençoada.
Até para um ateu é importante uma mensagem em momentos destes.
Um bem-haja!
Soneca.

joaquim disse...

Como sabes já "experimentei" os dois.

No tal civil fez-me sobretudo impressão o conservador que quis fazer um discurso como se de uma homilia se tratasse.

Quanto ao resto, meu amigo, sabes bem o que penso e pelo que passei.

Um abraço

Anónimo disse...

Olhe padre.. apenas o que diz que fez. Um padre, o representante da Igreja, que abençoe, que deseje "que Deus estivesse com eles o resto das suas vidas como creio que estará".

Mas que não tenha de o fazer a titulo pessoal.

Que a Igreja e os padres deixem de assobiar para o ar a fingir que não vêm.

Que ninguem sinta a tentação de mentir, de ter um "pastor" de uma fé que não é a sua só para não ter uma cerimónia que parece um contrato para a escritura de uma casa.