sexta-feira, dezembro 29, 2023

Ser padre é ser boa pessoa

Ria-se muito durante a homilia e, para mim, isso é bom sinal. Um sorriso nos lábios amplifica as palavras, ou fá-las chegar mais perto do coração, o melhor lugar para as guardar. A homilia não ia longa. Contudo, terminou algo abruptamente, quando este meu colega, com quem concelebrava, afirmou que, na sua opinião, ser padre era ser boa pessoa. Que bastava isso. 
Reconheço que, em tempos, também tive a ideia de que ser bom era o fundamental da fé. Mas aprendi, entretanto, que qualquer pessoa pode ser boa, independentemente da sua fé ou da sua condição eclesial. A diferença está no ser bom por Cristo, com Cristo e em Cristo. Além disso, que mal estaríamos se os padres fossem somente boas pessoas. Os padres temos de ser, além de boas pessoas, bons pastores!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como penso que deveria ser um bom guia espiritual"

sábado, dezembro 23, 2023

As montras de Natal

O município de uma cidade perto das minhas comunidades organizou um concurso de montras de Natal. Para seleccionar os vencedores, a organização propôs que os internautas votassem as fotos das referidas montras. Fui espreitar. As montras estavam bastante bonitas. No entanto, das cerca de cinquenta participantes a concurso, apenas cinco tinham o presépio. Cinco apenas. E assim se vai esvaziando o verdadeiro motivo do Natal. 
Este ano vou pedir à Sagrada Família de Nazaré que, em vez de se ir recensear a Belém, venha até à Europa acampar em nossas casas. Não sei se temos melhores condições para o menino nascer. Mas eu vou pedir, ao mesmo tempo, que Ele venha fazer morada em nossos corações. Talvez não se importe!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nasceu numa humilde casa"

Votos de que Ele nasça novamente em nossos corações!

quarta-feira, dezembro 13, 2023

ponteiros [poema 379]

examinemos como se movem os ponteiros 
como dão as horas sem as dar, nunca se sabe o que vem 
porque o tempo é sempre efêmero e eterno, vem e vai 
vai e vem, ciclicamente nos ponteiros, mas passageiro.
sempre passageiro, sempre a ser, sempre a passar, 
sempre a ser, o presente que é passado 
 
examinemos o tempo como se fosse um abraço que está, 
ora não está, estando, mas sempre vem, 
sem saber o que virá

domingo, dezembro 10, 2023

A paróquia consumidora de missas

Chamou-me logo a atenção quando contou que, na paróquia onde estava, se celebravam oito missas dominicais e quatro por dia no resto dos dias da semana. A paróquia localizava-se numa zona periférica de uma grande cidade europeia. O bairro era muito frequentado por um determinado movimento religioso que não interessa referir agora. O colega, que fazia parte de uma pequena comunidade de três sacerdotes, não conseguia justificar a clientela senão pela presença desse movimento. Perguntei-lhe como eram os horários das missas dominicais. Eram às oito, às nove, às dez, às onze, às doze, às treze, às dezoito e às dezanove. Sem que lhe perguntasse, informou que o que mais lhe custava era não haver cânticos e a celebração ter de ser rápida, para dar tempo a saírem uns e entrarem outros. Fez-me lembrar as sessões de cinema. Não me atrevi a perguntar-lhe se havia senhoras das limpezas no intervalo das missas e carrinho de pipocas à entrada. Mas fiquei convencido de que os padres daquela paróquia eram mais funcionários que pastores e de que aquela paróquia era uma consumidora de missas, mas não era comunidade. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Cristãos de funerais que não acreditam"

sexta-feira, dezembro 08, 2023

carne de mulher [poema 378]

a palavra entra no corpo de mulher 
abraça-se entre ela e a eternidade, 
esse braço sem prelúdio e sem findar 
essa mão que é céu que desce à terra 
e a faz germinar, para ser céu 
no corpo de mulher, a realidade.
 
toma a carne e diz, acontece 
e todo o mundo na mulher 
estremece 

segunda-feira, dezembro 04, 2023

O senhor padre diácono

Uma vez que, por motivos pastorais, não tinha disponibilidade naquele horário que a família pretendia para presidir ao funeral, o colega sacerdote respondeu à senhora da agência funerária que teriam de verificar se o seu cooperador pastoral, um diácono permanente, estava disponível para presidir às exéquias. Pelos vistos, por motivos relacionados com a saúde, este também não tinha disponibilidade. Perante os factos, a senhora da agência diz, mais ou menos, o seguinte: ‘Uma vez que o senhor padre não pode, e o senhor padre diácono também não, podemos falar com aquela senhora que faz celebrações, que eu acho que também é senhor padre diácono’. O colega não sabia se rir se chorar. A conversa prolongou-se um pouco mais, isso sim, na certeza de que algum padre diácono haveria de se arranjar.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O burro do Alfredo"

quarta-feira, novembro 29, 2023

Ter que fazer diferente

Vivemos no tempo das palavras que toda a gente tem que dizer e das opiniões que se têm de dar. Proliferam notícias, reportagens, entrevistas, artigos de opinião sobre tudo e mais alguma coisa. Aliás, parece-me que nunca como hoje os artigos de opinião ocuparam tanto espaço na comunicação social, assim como o direito de contraditório, isto é, artigos a falar de alguém que contrasta o que outro afirmou ou que defende uma ideia que outro contrastou. Ora, como a Igreja existe num aqui e agora, ou seja, nesta sociedade e nesta história, sofre dos mesmos males. 
Esta introdução vem a propósito dos chavões que cansam, das mesmas frases que se ouvem anos seguidos de gente que supostamente descobriu que na pastoral se tem de fazer diferente, embora quase nunca se diga que diferença é essa a que se refere essa opinião. Toda a gente parece vir a público com a consciência de que as coisas estão mal e que há que fazer diferente. Mas até nesse ‘dizer’ se mantém tudo na mesma. É o mesmo 'dizer' de sempre. Faltam rasgos. Faltam verdadeiros pensadores práticos, objectivos, assertivos, que ousem arriscar horizontes, mas que, sobretudo, ponham mãos à obra, sujem as mãos nessa obra, se gastem, ao menos, a tentar, sem certezas, mas com a consciência de que o caminho só se faz caminhando e que as palavras podem ser apenas isso, palavras. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Às vezes sinto que não escolhi o meu destino"

sábado, novembro 25, 2023

o passo [poema 377]

ainda resisto em dar o passo.
lembro que dar é mais fácil que pedir, mas o passo 
está à minha frente, sei que posso 
deixar que seja o passo, para ser,
ou o passo por acrescentar 

ainda resisto por não saber 
o tamanho de vida que tem este passo, por isso passo 
o tempo a olhar o passo sem o tornar passo.
olho-o e ali me fico, no passo 
que hei-de dar

terça-feira, novembro 21, 2023

procuro a fé…

imagem de benzoix no Freepik
Penso muitas vezes a fé. A fé vive-se, mas também se pensa. Pensa-se para se descobrir e para se encontrar as razões dela. E procuro-a entre a razão e a vida. Procuro-a e gosto de não a encontrar. Para andar sempre à sua procura. Vivemos num tempo em que a fé é chamada, como dizia Hallík, a sair da casa das certezas em que sempre viveu. Eu sei que a fé é um dom de Deus, pois começa n’Ele. Gosto, porém, da inquietação que ela gera em nós. E as dúvidas, as incertezas. A vontade de ir sempre mais longe e mais profundo, até ao lugar maior do coração de Deus. Também as crises de fé são ou podem ser um estímulo da fé. Sei que tenho fé ou essa qualquer coisa que mexe comigo e sei que tem a ver com um coração a querer juntar-se ao coração de Deus. Chamemos-lhe fé. E eu chamar-lhe-ei Amor. Chamemos-lhe ‘mistério’ e eu chamar-lhe-ei ‘procura’. Quanto mais desvelo a fé, mais me apetece procurá-la. Só se procura aquilo que já se encontrou, mas se quer encontrar mais e melhor. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Obrigado pela fé que me deste"

sexta-feira, novembro 17, 2023

O céu do senhor João

O senhor João é um homem divertido. Geralmente acompanha as palavras, mesmo as profundas, com um sorriso. O rosto apimenta-se cada vez que tem oportunidade de dar uma graça. É um homem bem-disposto, mas isso não significa que não pense o que diz. Falávamos do céu e da morte. Da dificuldade das pessoas diante da morte. Do que nos espera ou desespera. E o senhor João olhou para mim de um modo muito sério, que quase me assustou, e disse em tom de desdém. As pessoas não querem morrer, não querem morrer, mas elas não pensam no que dizem. Eu tenho a certeza de que no céu se deve estar muito bem, porque ainda ninguém de lá voltou. E começou a rir às gargalhadas com o seu próprio argumento.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Será que os animais vão para o céu?"