domingo, dezembro 10, 2023

A paróquia consumidora de missas

Chamou-me logo a atenção quando contou que, na paróquia onde estava, se celebravam oito missas dominicais e quatro por dia no resto dos dias da semana. A paróquia localizava-se numa zona periférica de uma grande cidade europeia. O bairro era muito frequentado por um determinado movimento religioso que não interessa referir agora. O colega, que fazia parte de uma pequena comunidade de três sacerdotes, não conseguia justificar a clientela senão pela presença desse movimento. Perguntei-lhe como eram os horários das missas dominicais. Eram às oito, às nove, às dez, às onze, às doze, às treze, às dezoito e às dezanove. Sem que lhe perguntasse, informou que o que mais lhe custava era não haver cânticos e a celebração ter de ser rápida, para dar tempo a saírem uns e entrarem outros. Fez-me lembrar as sessões de cinema. Não me atrevi a perguntar-lhe se havia senhoras das limpezas no intervalo das missas e carrinho de pipocas à entrada. Mas fiquei convencido de que os padres daquela paróquia eram mais funcionários que pastores e de que aquela paróquia era uma consumidora de missas, mas não era comunidade. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Cristãos de funerais que não acreditam"

sexta-feira, dezembro 08, 2023

carne de mulher [poema 378]

a palavra entra no corpo de mulher 
abraça-se entre ela e a eternidade, 
esse braço sem prelúdio e sem findar 
essa mão que é céu que desce à terra 
e a faz germinar, para ser céu 
no corpo de mulher, a realidade.
 
toma a carne e diz, acontece 
e todo o mundo na mulher 
estremece 

segunda-feira, dezembro 04, 2023

O senhor padre diácono

Uma vez que, por motivos pastorais, não tinha disponibilidade naquele horário que a família pretendia para presidir ao funeral, o colega sacerdote respondeu à senhora da agência funerária que teriam de verificar se o seu cooperador pastoral, um diácono permanente, estava disponível para presidir às exéquias. Pelos vistos, por motivos relacionados com a saúde, este também não tinha disponibilidade. Perante os factos, a senhora da agência diz, mais ou menos, o seguinte: ‘Uma vez que o senhor padre não pode, e o senhor padre diácono também não, podemos falar com aquela senhora que faz celebrações, que eu acho que também é senhor padre diácono’. O colega não sabia se rir se chorar. A conversa prolongou-se um pouco mais, isso sim, na certeza de que algum padre diácono haveria de se arranjar.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O burro do Alfredo"

quarta-feira, novembro 29, 2023

Ter que fazer diferente

Vivemos no tempo das palavras que toda a gente tem que dizer e das opiniões que se têm de dar. Proliferam notícias, reportagens, entrevistas, artigos de opinião sobre tudo e mais alguma coisa. Aliás, parece-me que nunca como hoje os artigos de opinião ocuparam tanto espaço na comunicação social, assim como o direito de contraditório, isto é, artigos a falar de alguém que contrasta o que outro afirmou ou que defende uma ideia que outro contrastou. Ora, como a Igreja existe num aqui e agora, ou seja, nesta sociedade e nesta história, sofre dos mesmos males. 
Esta introdução vem a propósito dos chavões que cansam, das mesmas frases que se ouvem anos seguidos de gente que supostamente descobriu que na pastoral se tem de fazer diferente, embora quase nunca se diga que diferença é essa a que se refere essa opinião. Toda a gente parece vir a público com a consciência de que as coisas estão mal e que há que fazer diferente. Mas até nesse ‘dizer’ se mantém tudo na mesma. É o mesmo 'dizer' de sempre. Faltam rasgos. Faltam verdadeiros pensadores práticos, objectivos, assertivos, que ousem arriscar horizontes, mas que, sobretudo, ponham mãos à obra, sujem as mãos nessa obra, se gastem, ao menos, a tentar, sem certezas, mas com a consciência de que o caminho só se faz caminhando e que as palavras podem ser apenas isso, palavras. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Às vezes sinto que não escolhi o meu destino"

sábado, novembro 25, 2023

o passo [poema 377]

ainda resisto em dar o passo.
lembro que dar é mais fácil que pedir, mas o passo 
está à minha frente, sei que posso 
deixar que seja o passo, para ser,
ou o passo por acrescentar 

ainda resisto por não saber 
o tamanho de vida que tem este passo, por isso passo 
o tempo a olhar o passo sem o tornar passo.
olho-o e ali me fico, no passo 
que hei-de dar

terça-feira, novembro 21, 2023

procuro a fé…

imagem de benzoix no Freepik
Penso muitas vezes a fé. A fé vive-se, mas também se pensa. Pensa-se para se descobrir e para se encontrar as razões dela. E procuro-a entre a razão e a vida. Procuro-a e gosto de não a encontrar. Para andar sempre à sua procura. Vivemos num tempo em que a fé é chamada, como dizia Hallík, a sair da casa das certezas em que sempre viveu. Eu sei que a fé é um dom de Deus, pois começa n’Ele. Gosto, porém, da inquietação que ela gera em nós. E as dúvidas, as incertezas. A vontade de ir sempre mais longe e mais profundo, até ao lugar maior do coração de Deus. Também as crises de fé são ou podem ser um estímulo da fé. Sei que tenho fé ou essa qualquer coisa que mexe comigo e sei que tem a ver com um coração a querer juntar-se ao coração de Deus. Chamemos-lhe fé. E eu chamar-lhe-ei Amor. Chamemos-lhe ‘mistério’ e eu chamar-lhe-ei ‘procura’. Quanto mais desvelo a fé, mais me apetece procurá-la. Só se procura aquilo que já se encontrou, mas se quer encontrar mais e melhor. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Obrigado pela fé que me deste"

sexta-feira, novembro 17, 2023

O céu do senhor João

O senhor João é um homem divertido. Geralmente acompanha as palavras, mesmo as profundas, com um sorriso. O rosto apimenta-se cada vez que tem oportunidade de dar uma graça. É um homem bem-disposto, mas isso não significa que não pense o que diz. Falávamos do céu e da morte. Da dificuldade das pessoas diante da morte. Do que nos espera ou desespera. E o senhor João olhou para mim de um modo muito sério, que quase me assustou, e disse em tom de desdém. As pessoas não querem morrer, não querem morrer, mas elas não pensam no que dizem. Eu tenho a certeza de que no céu se deve estar muito bem, porque ainda ninguém de lá voltou. E começou a rir às gargalhadas com o seu próprio argumento.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Será que os animais vão para o céu?"

segunda-feira, novembro 13, 2023

Seminários que formam clérigos e não pastores

Quando leio o que alguns jovens seminaristas escrevem por estes dias, por ocasião da semana dos seminários, e me apercebo que lhes falta a frescura das palavras e da novidade de Cristo no seu coração, e que insistem em repetir palavras clericais que parecem ter aprendido no percurso do seminário, palavras de bem dizer, mas que dizem pouco, devo confessar que fico triste. Parece-me que falta vida nos nossos seminários. Vida de verdade. Não quero generalizar e quero imaginar que a grande maioria dos nossos seminaristas é bem mais santa do que eu. E precisamos de padres santos. No entanto, estou convencido que ainda há muito por fazer para que os seminários deixem de ser redomas de vidro que protegem os futuros padres dos males do mundo ou fábricas de uma casta clerical que se fecha sobre si mesma. Ainda bem que a assembleia sinodal do último mês de outubro deixou plasmada, no seu relatório de síntese, a necessidade de uma formação dos candidatos ao sacerdócio ministerial que não crie um ambiente artificial separado da vida normal dos fiéis. Precisamos de seminários que formem pastores e não clérigos!

sexta-feira, novembro 10, 2023

Olha que Deus castiga

Quando a mãe, uma jovem dos seus trinta anos, disse ao filho rebelde de oito anos que, se ele não se portasse bem, Deus o castigava, não me contive. A catequista do filho contara-lhe como ele se comportara mal na catequese, e aquela mãe solicita achou que a melhor pressão era invocar o castigo de Deus. Creio que o disse sem pensar e tal como já o ouviu muitas vezes desde pequena. Mas assim é dificílimo que as crianças aprendam a gostar de Deus. Mais lhe terão medo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

quarta-feira, novembro 08, 2023

orfandade [poema 376]

a menina recortava a seara, ceifando o tempo, 
longe se encontrava de viver ao colo 
aquela que tanto almejava, para 
crescer 
 
a menina soluçava enquanto pulava 
de monte em monte, desnorte 
entre os primeiros tempos das chuvas e as noites 
de inverno, à procura, sem sorte, 
daquela que dá à luz 
a vida 
 
ai menina, menina, que à força cresces, para ser 
essa mãe que tanto, mas tanto
procuras