Trouxe à memória o meu vizinho
Entre alfaias do campo e descampado
Cara sem boca, voz sem cara
Nos afazeres, carregos e labutas
Nas juntas, nas várzeas, nos caminhos
Empedrados do calvário, onde moro
Trouxe-o como uma custódia, muito pesada
Não tem nome nem morada nem passado
Na moradia de outrora, veio à lembrança
Este vizinho que mora na minha memória
e me tem carregado
quinta-feira, abril 16, 2020
terça-feira, abril 14, 2020
Linhas da frente
A minha sobrinha enfermeira foi para a linha da frente no combate à pandemia que alastra vírus e pânicos. Como muitos outros. Como tantos. Como tantos a quem temos de agradecer muito!
Na ocasião que informou a família, não tive tempo para medir as palavras ou os pensamentos. Disse-lhe o que pensava, embora o fizesse com o coração nas mãos. Com o coração apertado nas mãos. Na minha humilde opinião, é mais maravilhoso que melindroso ir para a linha da frente! Ter nas mãos a possibilidade de ajudar, é uma das coisas mais bonitas que o ser humano tem ao seu alcance numa ocasião como esta! Deveríamos viver para ajudar a viver. Por isso fiquei orgulhoso por ela e com ela. Apreensivo, mas orgulhoso. Pedi-lhe que não desvalorizasse nunca o cuidado e a precaução. Sem medo, mas com consciência de que devia também cuidar dela para poder continuar a cuidar dos outros!
Cuida-te. Eu rezarei por ti, e através de ti, por todos os que como tu, estarão nessa linha. E assim, a rezar, espero estar na linha da frente!
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Silvina tem agora mais uma razão para viver"
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Silvina tem agora mais uma razão para viver"
domingo, abril 12, 2020
o dia da Ressurreição [poema 251]
A noite vai amanhecendo em silêncio
Nem o galo canta, nem as aves voam
Não há sol, não há chuva, não há vento
Não há vivalma para acordar o tempo
Mas, de repente, no bendito momento
Os sinos gritam, a repique e a rebate
São asas de anjo a voar sozinhas
São vozes de anjo a cantar em coro
São as arpas dos anjos que tocam, e nos tocam
Como flechas, nos campanários do coração
São aos milhares, sem voz, a gritar
O dia da Ressurreição
Nem o galo canta, nem as aves voam
Não há sol, não há chuva, não há vento
Não há vivalma para acordar o tempo
Mas, de repente, no bendito momento
Os sinos gritam, a repique e a rebate
São asas de anjo a voar sozinhas
São vozes de anjo a cantar em coro
São as arpas dos anjos que tocam, e nos tocam
Como flechas, nos campanários do coração
São aos milhares, sem voz, a gritar
O dia da Ressurreição
Feliz Páscoa, na certeza da Ressurreição!
sexta-feira, abril 10, 2020
altar [poema 250]
Desnudo meu altar perante a morte
Sem toalha, sem lustre, sem retrato
Sinto o teu sangue a escorrer,
Pousado na cruz, e a padecer.
Trago-te, como um fio, ao peito
E no peito me morres e eu morro
Nós morremos, ambos, abraçados
Num só morrer.
Sem toalha, sem lustre, sem retrato
Sinto o teu sangue a escorrer,
Pousado na cruz, e a padecer.
Trago-te, como um fio, ao peito
E no peito me morres e eu morro
Nós morremos, ambos, abraçados
Num só morrer.
quinta-feira, abril 09, 2020
Encontrei o beijo do meu pai
Foi numa destas tardes solarengas. Mas escuras por dentro. A meio da tarde. Depois de ter falado com o meu pai em videoconferência. Cada um de nós no ecran. Unidos e separados pelo ecran. Depois a videoconferência alongou-se a mais três pessoas. As minhas irmãs e suas filhas. E ele desatou a chorar compulsivamente. Tivemos de desligar. Desalentados pela dor, pela distância, pela impotência, pela saudade. Marcados por lágrimas. Maldito vírus!
Voltei sozinho mais tarde. Depois que me disseram da Unidade de Cuidados Continuados que ele não parava de chorar dizendo que eram saudades. Voltei. Falámos entre palavras e uns arranques de lágrimas da sua parte. Entendia o que eu dizia. Os meus apelos à força. As minhas explicações. As insinuações da fé. Que o amávamos muito. Que agora andava uma coisa no ar, uma espécie de bicho que não nos deixava estar juntos. Mas que nunca o abandonávamos. Que eu nunca o abandonaria. Ele ia respondendo à letra, dizendo que nos amava, que me amava. Já passou, pai. Pois já, respondia. Mas voltava.
Nisto, o tablet do outro lado começou a mexer-se. Contou depois a fundionária que ele lhe retirou o tablet das mãos. Ele que tem cada vez maior dificuldade motora. Ele que tem cada vez menos capacidade cerebral. Fazia-me festas pelo ecran. Disseram-me depois. E às tantas, isso eu dei conta, aproximou o ecran e deu-me um beijo. Um beijo que, mesmo à distância foi dos mais inesquecíveis e robustos que me deu até hoje.
O vírus não vence tanto amor!
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O beijo do meu pai"
quarta-feira, abril 08, 2020
deus a chorar [poema 249]
A chuva voltou aos meus olhos
Inundou-lhe as cercas em redor,
vales, montanhas, rios, todos os mares, a transbordar,
E as paredes no seu interior
Tela esborratada sem cor, a sangrar
Só pode ser Deus a chorar
Inundou-lhe as cercas em redor,
vales, montanhas, rios, todos os mares, a transbordar,
E as paredes no seu interior
Tela esborratada sem cor, a sangrar
Só pode ser Deus a chorar
terça-feira, abril 07, 2020
Olha, faz o bem
Sabes aquela sensação de não saber? Aquela sensação de que determinada situação ou gesto ou palavra são um sinal, mas não sabes dar-lhe forma? Não sabes que cor, que sabor, que odor tem? Foi assim, hoje, no diálogo breve com meu pai, por vídeo-conferência.
A conversa com ele foi muito boa, ou seja, foi mais fluida do que o habitual. O que comeste ao almoço, pai? Eu comi um bife, pai, e tu? Eu comi dois. Tu estás lindo, paizinho. Tu é que és lindo, meu filho. Amo-te muito, pai. Meu mais que tudo. Eu ainda te amo mais, meu filho. Toma lá milhares de beijinhos, pai. E faço gesto com boca e com a mão a ir da boca ao écran. Sem que eu lhe peça nada, leva a mão à boca, com dificuldade, e manda beijos pequeninos, quase inaudíveis. Mas do tamanho do mundo. Ó pai, até já. É assim que me despeço dele, porque o meu adeus é sempre um até já. E ele responde de um modo que não vou esquecer nunca mais. Olha, meu filho, faz o bem. Faz o bem.
A POPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Meu pai e minha mãe"
segunda-feira, abril 06, 2020
casa [poema 248]
Deus passa e ninguém sabe
Que uma casa
São muitas casas numa casa
Deus passa e ninguém sabe
Que uma pedra
Faz parte de uma casa
De pedras
Deus passa e ninguém sabe
Que uma casa
Um dia vai ruir, mas continuará
a ser
Nas outras casas, de pedras,
Casa
Que uma casa
São muitas casas numa casa
Deus passa e ninguém sabe
Que uma pedra
Faz parte de uma casa
De pedras
Deus passa e ninguém sabe
Que uma casa
Um dia vai ruir, mas continuará
a ser
Nas outras casas, de pedras,
Casa
sábado, abril 04, 2020
O vidro que não nos separa
Uma paroquiana avó mandou-me um vídeo do filho, do lado de lá da porta de vidro, a falar com o neto, uma criança de poucos meses, do lado de cá do vidro. É ao que obriga o período de quarentena. Mas foi tão bonito ver. Foi tão maravilhoso. A avó dizia que eram tempos muito duros e difíceis, mas que acreditava que tudo ia correr bem. Eu manifestei-lhe que era muito bonito o que me enviara. Mesmo, mesmo. Pode parecer, à partida, duro e triste. Mas eu achava-o bonito. Claro que achava. Era muito bonito ver que um vidro não separa duas pessoas que se amam. Porque nada nos pode separar, se o nosso coração não deixar. O coração é que nos liga e aproxima!
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É um pai que ama como o Pai ama"
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É um pai que ama como o Pai ama"
quinta-feira, abril 02, 2020
cabeça e coração [poema 247]
A cabeça não para, não permanece
Pelas pessoas vai, percorre-as, adoece
Olha-se sem se olhar, sem espelho para se ver,
Tudo em casa está a arder.
A cabeça quer parar, mas anoitece
Nos braços de um coração, e adormece
Num coração que, pouco a pouco,
cresce.
Pelas pessoas vai, percorre-as, adoece
Olha-se sem se olhar, sem espelho para se ver,
Tudo em casa está a arder.
A cabeça quer parar, mas anoitece
Nos braços de um coração, e adormece
Num coração que, pouco a pouco,
cresce.
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