Estava a fazer a homilia numa eucaristia de dia de semana e eu, que concelebrava, escutava. Falou ligeiramente da primeira leitura, depois do evangelho e ainda falou da solenidade do dia. Coisas vagas. Coisas. Faltou-lhe alguma lógica, mas não falou mal. Durante cerca de quinze minutos, no meio do voo das suas palavras, voaram também os meus pensamentos.
É muito comum que nós, padres, falemos coisas nas homilias. Coisas. Não actualizamos a Palavra de Deus, que é o objectivo da homilia. Não falamos para as pessoas que nos escutam, isto é, não comunicamos. E costumamos complicar as palavras. Poucos as entendem. Menor número ainda são os que as levam para a vida.
Chegaram para a missa do mês, que as condições e as condicionantes só permitem uma eucaristia por mês. A população reúne-se. Vêm pessoas de fora. Todos se cumprimentam. Colocam a conversa em dia. Dá gosto ver a realidade da eucaristia antes ainda de ela começar. E dizem-me que a eucaristia até para se verem e se saudarem é uma mais-valia. Só começamos o rito do sacramento quando terminam esta parte. Fico feliz que assim seja e participo na alegria dos abraços. Até se celebra melhor!
Ria-se muito durante a homilia e, para mim, isso é bom sinal. Um sorriso nos lábios amplifica as palavras, ou fá-las chegar mais perto do coração, o melhor lugar para as guardar. A homilia não ia longa. Contudo, terminou algo abruptamente, quando este meu colega, com quem concelebrava, afirmou que, na sua opinião, ser padre era ser boa pessoa. Que bastava isso.
Reconheço que, em tempos, também tive a ideia de que ser bom era o fundamental da fé. Mas aprendi, entretanto, que qualquer pessoa pode ser boa, independentemente da sua fé ou da sua condição eclesial. A diferença está no ser bom por Cristo, com Cristo e em Cristo. Além disso, que mal estaríamos se os padres fossem somente boas pessoas. Os padres temos de ser, além de boas pessoas, bons pastores!
O município de uma cidade perto das minhas comunidades organizou um concurso de montras de Natal. Para seleccionar os vencedores, a organização propôs que os internautas votassem as fotos das referidas montras. Fui espreitar. As montras estavam bastante bonitas. No entanto, das cerca de cinquenta participantes a concurso, apenas cinco tinham o presépio. Cinco apenas. E assim se vai esvaziando o verdadeiro motivo do Natal.
Este ano vou pedir à Sagrada Família de Nazaré que, em vez de se ir recensear a Belém, venha até à Europa acampar em nossas casas. Não sei se temos melhores condições para o menino nascer. Mas eu vou pedir, ao mesmo tempo, que Ele venha fazer morada em nossos corações. Talvez não se importe!
Chamou-me logo a atenção quando contou que, na paróquia onde estava, se celebravam oito missas dominicais e quatro por dia no resto dos dias da semana. A paróquia localizava-se numa zona periférica de uma grande cidade europeia. O bairro era muito frequentado por um determinado movimento religioso que não interessa referir agora. O colega, que fazia parte de uma pequena comunidade de três sacerdotes, não conseguia justificar a clientela senão pela presença desse movimento. Perguntei-lhe como eram os horários das missas dominicais. Eram às oito, às nove, às dez, às onze, às doze, às treze, às dezoito e às dezanove. Sem que lhe perguntasse, informou que o que mais lhe custava era não haver cânticos e a celebração ter de ser rápida, para dar tempo a saírem uns e entrarem outros. Fez-me lembrar as sessões de cinema. Não me atrevi a perguntar-lhe se havia senhoras das limpezas no intervalo das missas e carrinho de pipocas à entrada. Mas fiquei convencido de que os padres daquela paróquia eram mais funcionários que pastores e de que aquela paróquia era uma consumidora de missas, mas não era comunidade.
Uma vez que, por motivos pastorais, não tinha disponibilidade naquele horário que a família pretendia para presidir ao funeral, o colega sacerdote respondeu à senhora da agência funerária que teriam de verificar se o seu cooperador pastoral, um diácono permanente, estava disponível para presidir às exéquias. Pelos vistos, por motivos relacionados com a saúde, este também não tinha disponibilidade. Perante os factos, a senhora da agência diz, mais ou menos, o seguinte: ‘Uma vez que o senhor padre não pode, e o senhor padre diácono também não, podemos falar com aquela senhora que faz celebrações, que eu acho que também é senhor padre diácono’. O colega não sabia se rir se chorar. A conversa prolongou-se um pouco mais, isso sim, na certeza de que algum padre diácono haveria de se arranjar.