quinta-feira, outubro 04, 2018

Antes de me recolher neste retiro

Antes de me ausentar, disse aos meus paroquianos, no final da missa, que ia recolher-me num mosteiro, para me encontrar com Deus. Eu bem sei que Deus está em todo o lado, ao nosso alcance, mas precisava de um espaço para me encontrar com Ele. O mosteiro recebeu-me de braços abertos. Era escuro quando cheguei e tudo me pareceu enorme. Enorme demais para mim. As pedras contavam histórias de quem já por aqui passara com os mesmos desejos e vontades que eu. São pedras gastas de histórias. O meu quarto tem apenas o essencial para que eu possa estar nele. Não há rede fixa ou móvel. Não há senão a sensação de que não há nada para além de mim. Mesmo quando ouço um ruído na floresta em redor. Ou no quarto alguma mola da cama se remexe. Ou num quarto ao lado se ouvem passos que desconheço. 
Eu dissera aos meus paroquianos que precisava encontrar-me com Deus. E agora, no meio de uma gargalhada, apercebi-me do erro das minhas palavras. Deus já lá está. Ele já está comigo há muito tempo. Desde que me desejou, ainda antes do seio de minha mãe. Ele está comigo. Ele vai comigo para todo o lado. Nós é que nem sempre damos conta disso, porque demasiado ocupados em nós mesmos. O que nos falta é a consciência desse seu estar. E só tomamos consciência disso quando entramos em nós, no mais profundo de nós. Naquilo que muitos chamam alma e eu prefiro chamar de mim mesmo. Aquele íntimo que diz mais do que parecemos, que diz o perfume do que somos feitos, a beleza que se esconde por detrás da aparência, a certeza de que se existe por algo maior. Afinal, encontrar-me com Deus é entrar na minha intimidade. É lá que a consciência da sua presença se define.

10 comentários:

HD disse...

Nem mais! :)

Zilda disse...

Ah, sim está bem, gostei do jeito de dizer o que chamam de alma. A alma penso que de quem já está do outro lado da vida. Fica melhor de mim mesmo.

Zilda disse...

Deus esta em toda parte.de todos lados pra quem O conhece as mais variadas formas de existe na bondade e na beleza., na humildade e singeleza, na simplicidade e fidelidade aos que O seguem seus ensinamentos.

Anónimo disse...

Beijinho.

Anónimo disse...

Eu queria tanto, ser assim, conseguir atingir o meu íntimo encontrando-me aí com Deus... mas não consigo, tento, tento e não consigo recolher-me, abstrair-me do mundo, alcançar a essência. Ainda há pouco retirei-me para uma divisão sossegada, acendi uma velinha perfumada que trouxe comigo de Colónia, coloquei uma musiquinha zen, cerrei os olhos, encostei o queixo ao peito e repeti mentalmente, uma e outra vez: "Deus tem misericórdia de mim"... Estava tão bem, sentia-me tão feliz, quando entra a minha sogra desabrida, sem bater à porta... com aquela poderosa vozinha dela, aquela vozinha esganiçada que conheço tão bem: "Menina, faça o favor de se levantar e ir pagar a conta do condomínio, está ali o Sr. X". Fogo! É impossível! Isto vezes e vezes sem conta! Muito pressiona, insiste, mesmo sabendo que tivemos todo o Verão sem ar condicionado, sobrevivendo à canícula. Isto não é sabotagem, não cansa, não farta, não desespera, não rebenta com a paciência dum santo? E dum beato? Porque não vai ela ter com o filho e me deixa em paz! Amoris laetitia, amoriss perfeitus, vira o discus e toca o mesmus... o que é isso... Senhor? É tanto, mas tanto disparate que não consigo meditar em nenhum espaço que se preste, quanto mais pensar, desenvolver um raciocínio lógico, expressar os meus sentimentos mais profundos que ficam completamente embotados, contemplar ou meditar. Ai sogra. Enquanto as coisas se mantiverem assim torna-se difícil, senão mesmo impossível, qualquer aproximação espiritual, bem entendida. Na verdade, os únicos momentos em que me aproximo de Deus são de anedota, brincadeirinha, joguinho com algumas raras contemplações das suas obras mais estruturadas, aqui sim com profunda admiração e alguma devoção intelectual- por estranho que pareça Deus gera admiração intelectual (penso que foi por isso que Ele nos dotou com um cérebro, para que possamos admirá-Lo à medida) - sem prejuízo de outras presenças mais singelas com que nos presenteou.
Não obstante, , não gosto de me sentir pressionada por sogras, nem por quaisquer parentes, incluindo os filhos delas. A bem dizer não aprecio que se intrometam na minha vida espiritual ou afectiva, nem que usem estes dois parâmetros como nobres pretextos para não sei eu o quê de estranho, complexo, deficultoso e perenemente inacabado. Uma coisa é jogar, outra coisa é jogar comigo, outra ainda é jogar aos dados (ou ao dominó), e Deus não joga aos dados (também não gosta de perder). Eu preciso encontrar-me com Deus e Deus precisa de se encontrar comigo para que se possa ter uma conversa aberta e franca - do tipo daquelas que o senhor padre traça lá em cima - e, que eu saiba, deste tempos imemoriais é sempre Ele quem dá o primeiro passo, não manda ninguém puxar-nos, nem nos utiliza para sei lá o quê. Na verdade essa seria uma estratégia completamente ridícula porque se é Deus que tudo sabe, se é Ele que está por dentro de todas as coisas, que convoca, que reúne, que ordena, que magica, é a Ele necessariamente que cabe mexer-se. Mas as vezes fico triste, porque parece-me que também é Deus que me diz: mexe esse rabo e põe-te ao caminho! Que caminho? Cortam-me todas as vasas, deixam-me a falar sozinha, ostracizam-me, sinto na pele a fobia pela minha raça. E Deus no meio disto? Isso era mesmo o que eu gostava de saber. Meu Deus, meu-bem, por amor de Deus, talk to me, numa língua que eu entenda, sem confusões, sem sogras, só Tu, eu e a Laetitia.

Confessionário disse...

16 outubro, 2018 15:13
Dá-me a sensação de que este teu texto já era um tu a tu entre ti e Deus...
Deus não se manifesta necessariamente em grande acontecimentos. Quando esperamos isso, ficamos de facto desiludidos. Ele manifesta-se diariamente nas nossas coisitas...
Ahh outra coisa: não sei se era a necessária a muúsica zen e a velinha perfumada. Pode ajudar, ou pode, simplesmente, distrair mais.

força

Anónimo disse...

Obrigada, Confessionário, é capaz de ter razão no seu concelho, confio na sua experiência e sensibilidade. O perfume pode toldar os sentidos e causar distracções quando o que se quer é alcançar a máxima concentração. Para a próxima vou usar só um candelabro.

Beijinhos

Anónimo disse...

Ah, e ainda, o que é um tu a tu? Muito importante.

Confessionário disse...

Um tu a tu é a expressão que eu costumo usar para falar daqueles diálogos pessoais que uma pessoa tem com outra, neste caso entre ti e Deus

Confessionário disse...

16 outubro, 2018 15:13
O novo post é um pouco para ti, na medida em que te pode dizer o que sentes...